23º Encontro da ANPAP – “Ecossistemas Artísticos” 15 a 19 de setembro de 2014 – Belo Horizonte - MG
O RITUAL DO BATISMO NAS ESCOLAS DE SAMBA DO RIO DE JANEIRO
Júlio César Valente Ferreira – CEFET-RJ / UNIRIO
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo abordar o ritual do batismo nas escolas de samba e a rede de relações sociais estabelecidas por esta cerimônia. Este estudo foi realizado a partir da comparação deste ritual com o batismo em grupos religiosos e com o acompanhamento do batizado de uma escola de samba. Por fim, realizou-se um levantamento com escolas de samba dos grupos de acesso no intuito de compreender se a rede de relações estabelecidas no ritual do batismo é mantida. Palavras-chaves: batismo, escolas de samba, grupos de acesso. ABSTRACT: This work aims to address the ritual of baptism in samba schools and the network of social relations established by this ceremony. This study was performed by comparing this with the baptism ritual in religious groups and monitoring of the christening of a samba school. Finally, we carried out a survey of the samba schools of the access groups in order to understand the network of relationships established in the ritual of baptism is maintained. Key words: baptism, samba schools, acess groups.
Introdução Por mais modernas que desejam se constituir, as escolas de samba sempre estarão envolvidas por tradições e costumes, principalmente àqueles que remetem ao samba e à religiosidade. O ritual de batismo de escolas de samba ocorre desde o próprio surgimento dessas expressões culturais e dialoga com toda a simbologia característica do batizado verificável em outros grupos, principalmente o relativo aos fiéis cristãos da Igreja Católica. Rituais Os rituais são fenômenos especiais de uma sociedade, os quais destacam expressões e valores dela própria, porém também expandindo, iluminando e ressaltando o que já é comum a um determinado grupo. Nesse sentido, os rituais concedem autoridade e legitimidade quando estruturam e organizam as posições de indivíduos, os valores morais e as visões de mundo. Quando executados repetidamente ou identificáveis pelos indivíduos concedem certa segurança, pois 2564
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demonstram a ordem e a promessa de continuidade de coletividades (PEIRANO, 2003). Peirano (2003) afirma que a definição de ritual não deve ser rígida. ‘A compreensão do que é um ritual não pode ser antecipada. Ela precisa ser etnográfica, isto é, apreendida pelo pesquisador em campo junto ao grupo que ele observa.’ (PEIRANO, 2003: 9). A autora destaca também que independente da natureza do ritual, o que importa é que tenham uma forma específica e não o seu conteúdo explícito, apontando também para sua comunicação implícita. Diante das considerações acima, Peirano (2003) adota uma definição operativa de ritual, a qual é utilizada neste trabalho. O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica. Ele é constituído de sequências ordenadas e padronizadas de palavras e atos, em geral expressos por múltiplos meios. Estas sequências têm conteúdo e arranjo caracterizados por graus variados de formalidade (convencionalidade), estereotipia (rigidez), condensação (fusão) e redundância (repetição). A ação ritual nos seus traços constitutivos pode ser vista como “performativa” em três sentidos: 1) no sentido pelo qual dizer é também fazer alguma coisa como um ato convencional [como quando se diz “sim” à pergunta do padre em um casamento]; 2) no sentido pelo qual os participantes experimentam intensamente uma performance que utiliza vários meios de comunicação [um exemplo seria o nosso carnaval] e 3), finalmente, no sentido de valores sendo inferidos e criados pelos atores durante a performance [por exemplo, quando identificamos como “Brasil” o time de futebol campeão do mundo]. (PEIRANO, 2003: 11)
Um ritual observado em determinado lugar pode não ter o mesmo significado em outro, pois cada coletividade interfere na prática ritual. Estas práticas não ocorrem fora da história, sendo fundamentalmente sócio-genéticas (BALDI, 2011). ‘Cada forma de vida fica a dever à sensibilidade ritual a sua possibilidade de existir, por isso mesmo é importante valorizar e pensar o ritual como algo que não remete ao arcaico, mas sempre à sua tradução no contemporâneo.’(BALDI, 2011: 5). Os rituais remetem ao ato de transpor fronteiras, sejam estas remetentes a demarcação entre dois lugares ou entre fases da vida social. Segundo Gennep (2011):
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É o próprio fato de viver que exige as passagens sucessivas de uma sociedade especial a outra e de uma situação social a outra, de tal modo que a vida individual consiste em uma sucessão de etapas, tendo por término e começo conjuntos da mesma natureza, a saber, nascimento, puberdade social, casamento, paternidade, progressão de classe, especialização de ocupação, morte. A cada um desses conjuntos acham-se relacionadas cerimônias cujo objeto é idêntico, fazer passar um indivíduo de uma situação determinadas a outra situação igualmente determinada. Sendo o mesmo objetivo, é de todo necessário que os meios para atingi-los sejam pelo menos análogos, quando não se mostram idênticos nos detalhes. (GENNEP, 2011: 24)
O ritual do batismo no catolicismo e nas escolas de samba Na Igreja Católica, o batismo é o meio pelo qual uma pessoa é incorporada à comunidade cristã. É o primeiro dos sete sacramentos e sem ele nenhum outro poderá ser ministrado. Somente deve ser recebido uma única vez, sendo a primeira expressão de adesão à fé cristã. Para os católicos, os sacramentos são sinais e meios pelos quais se exprime e se fortifica a fé, se presta culto a Deus e se realiza a santificação dos homens, sendo evidências do amor e a proximidade de Deus. Nos tempos do Antigo Testamento as crianças eram circuncidadas no oitavo dia depois do nascimento. O batismo tomou lugar da circuncisão no Novo Testamento e, portanto, as crianças devem ser batizadas pequenas, os católicos recomendam que os recémnascidos ou as crianças (até sete anos) sejam apresentados e abençoados no decurso de um serviço que compreende habitualmente uma ação de graças pelo dom da criança, assim como a manifestação do empenho da mãe e do pai em serem pais cristãos e espera-se da criança para mais tarde uma confissão pessoal, a primeira comunhão e depois a crisma; a educação cristã é orientada tendo em vista o desenvolvimento dessa confissão. (REZENDE et al., 2013: 205)
Para o cumprimento de educar seus filhos na fé, os pais contam com o auxílio dos padrinhos. Entretanto, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) alerta sobre a importância desproporcional dada à figura dos padrinhos, em prejuízo dos pais, verdadeiros responsáveis pelo batismo dos filhos e pelo desenvolvimento da vida cristã do batizado (CNBB, 1980). Na parte inicial da celebração, a recepção e a saudação aos pais e padrinhos são feitos com o auxílio de cantos. Esta parte se encerra com a apresentação e a confirmação de que se busca o batismo da pessoa. 2566
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A segunda parte é referente à liturgia da palavra, onde leituras de trechos da Bíblia são realizadas e a posterior homilia do celebrante. Esta etapa se encerra com a ladainha aos santos, pessoas consideradas como exemplos de testemunho de fé. A terceira parte é relativa à liturgia sacramental, que se inicia com a benção da água, a renovação da profissão de fé dos pais, padrinhos e da comunidade que participa da cerimônia. Posteriormente, é realizado o rito da água, quando então se é batizado de fato, e a unção com o óleo do crisma. Neste momento, a vela deve se encontrar acesa com a luz do Círio Pascal e à pessoa a ser batizada recomenda-se estar com vestes brancas. Esta parte é realizada em torno da pia batismal (Figura 1). Por fim, os batizados são levados ao altar como forma de demonstrar que agora os mesmos estão integrados àquela comunidade e reza-se o Pai-Nosso e a consagração a Nossa Senhora. Rezende et al. (2013) apresentam os símbolos do ritual do batismo: 1) A criança veste roupa branca que simboliza a pureza da nova vida recebida em Cristo; 2) A criança é segurada sobre a pia batismal e o padre derrama água benta por três vezes na cabeça da criança enquanto diz: "Nome da criança, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", a água simboliza a purificação e vida nova; 3) O óleo é usado pelo padre para ungir o peito da criança e simboliza Cristo penetrando em sua vida, em seu coração, fortalecendo-a na luta contra o mal; 4) É traçado o sinal da cruz pelo padre no peito e na testa da criança e lembra a graça da redenção que Cristo nos proporcionou na Cruz; 5) A vela acesa é segurada pelo padrinho [Figura 02], e ela simboliza a presença do Espírito na vida do batizando e a fé em Jesus ressuscitado, a nova luz que deve ser conservada até o fim da vida pela vivência em Cristo. (REZENDE et al., 2013: 206)
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Figuras 1 e 2 – Ritual em torno da pia batismal e a água e a vela como símbolos.
Sobre a figura dos padrinhos, sua função acabou transcendendo o espaço religioso e se secularizou. Hameister (2005) aponta a instituição do compadrio como sendo prática recorrente nas sociedades mediterrâneas e em especial na península ibérica. A autora destaca que as relações subjacentes ao batismo possuem um aspecto funcional, o qual fomenta as solidariedades sociais. Lanna (2009) enfatiza que, além da função religiosa, o compadrio tem como consequência a ampliação dos laços familiares, não somente considerando o parentesco biológico, reforçando ou criando relações sociais, podendo ligar verticalmente pessoas socialmente desiguais. Mas, o autor alerta que o compadrio não pode ser somente analisado como ferramenta de ampliação ou intensificação de relações sociais, pois o batismo sempre foi considerado de fundamental importância para os católicos. O batismo de uma escola de samba é um rito de passagem, pois simboliza o reconhecimento público de uma agremiação por outra mais antiga, legitimando-a perante as demais escolas de samba. Lanna (2009) pontua que a criação do vínculo social sedimentado pelo compadrio é desejável. Desta forma, transportando para o universo das escolas de samba, os critérios de escolha da agremiação que virá a ser sua madrinha variam, podendo ser a semelhança das cores utilizadas nos pavilhões, a identidade da madrinha, a afinidade entre os dirigentes das agremiações ou a proximidade geográfica entre as escolas de samba envolvidas no ritual em questão. Porém, independente do critério adotado, uma condição é necessária para esta escolha: a agremiação que batizará é 2568
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mais antiga que a afilhada, tendo reconhecimento no mundo do carnaval. A escola de samba a ser batizada busca se inspirar nos valores e saberes construídos e característicos de sua madrinha para se firmar junto as demais agremiações carnavalescas. Este ritual centra sua performance nos pavilhões das escolas envolvidas e na dança daqueles que os conduzem. No caso das escolas de samba, as redes de solidariedade construídas no ritual do batismo podem colaborar no funcionamento cotidiano destas agremiações. Por exemplo, através de doação em espécie, empréstimo ou doação de material para a composição de fantasias, esculturas e carros alegóricos e cessão de ritmistas, instrumentos e componentes de alas específicas (como a das baianas), a escola madrinha pode auxiliar sua afilhada na montagem e execução do desfile a ser realizado no carnaval. A cerimônia do batismo é diferenciada de escola para escola. Blass (2011) e Urbano (2006) apresentam alguns protocolos adotados para este ritual. Em todos, há a centralidade nos pavilhões das agremiações. O momento ápice da cerimônia ocorre quando os dois casais de mestre-sala e porta-bandeira dançam em círculo com os pavilhões seguros em suas pontas, estabelecendo os vínculos e inaugurando os laços de parentesco entre as escolas de samba. O campo do carnaval carioca das escolas de samba Sobre a hierarquia dos grupos de escolas de samba que desfilam na cidade do Rio de Janeiro, o Grupo Especial é aquele no qual se encontram as principais escolas de samba, sendo organizado pela LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba). Seguindo a hierarquia, o grupo posterior (denominado Série A) é gerenciado pela LIERJ (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) e os grupos de acesso (denominados Grupos de Acesso B, C e D) são organizados pela AESCRJ (Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro). A
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Tabela 1 detalha algumas informações sobre estas agremiações. Grupo
Entidade gestora
Dia e Local de desfile
Participantes em 2014
Locais de preparação do desfile
Hierarquia neutra
Especial
LIESA
Dom. e seg. - Av. Marquês de Sapucaí
12
Cidade do Samba
1ª divisão
Série A
LIERJ
Sex e sáb. – Av. Marquês de Sapucaí
17
Galpões na região central da cidade
2ª divisão
Acesso B
AESCRJ
Dom. – Av. Intendente Magalhães
13
Carandiru e espaços na região da quadra
3ª divisão
Acesso C
AESCRJ
Seg. – Av. Intendente Magalhães
12
Carandiru e espaços na região da quadra
4ª divisão
Acesso D
AESCRJ
Ter. – Av. Intendente Magalhães
12
Carandiru e espaços na região da quadra
5ª divisão
Tabela 1 – Informações sobre os grupos das escolas de samba do carnaval carioca
Uma característica comum a estas escolas de samba dos grupos de acesso citados é o fato das agremiações contarem com poucos recursos para a montagem e execução de seus desfiles. Desta forma, uma das maneiras de contornar esta limitação financeira é reaproveitamento de fantasias e esculturas de carnavais passados. Neste caso, as escolas de samba madrinhas poderiam ser elementos importantes para o alcance destes objetivos através do acionamento das redes de solidariedade firmadas nos rituais de batismo. O ritual do batismo no Grêmio Recreativo Escola de Samba Boca de Siri Fundada em 2002, tem sua origem em um bloco fundado em 1979. A partir de 1998, filia-se à Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FBCERJ) e passa a desfilar como bloco de enredo. Após cinco vitórias consecutivas na principal divisão hierárquica da FBCERJ, transformam-se em escola de samba em 2012, quando desfilou pela primeira vez nos grupos de acesso organizados pela AESCRJ. Atualmente, encontra-se no Grupo de Acesso C. O Boca de Siri escolheu como agremiação madrinha a Imperatriz Leopoldinense; respeitada escola de samba do carnaval carioca e com oito títulos no Grupo Especial. As agremiações estão situadas no mesmo bairro, portanto com grande 2570
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proximidade geográfica entre elas. Além disso, as cores do pavilhão são as mesmas. O batizado ocorreu em 19 de janeiro de 2013, portanto antes de seu segundo desfile como escola de samba. A escolha da madrinha ocorreu devido à localização próxima e pelo fato de muitos membros da diretoria do Boca de Siri atuarem ou já terem atuado na Imperatriz Leopoldinense. Muitos começaram sua vivência no mundo do samba na escola madrinha e lá adquiriram a experiência para tornarem posteriormente o Boca de Siri em uma escola de samba. A cerimônia se iniciou com a chegada da comitiva da agremiação madrinha (Figura 3). Estavam presentes representantes da direção de harmonia, da ala de intérpretes, da ala de compositores, da bateria, da ala de baianas, além do mestre-sala e da porta-bandeira com o pavilhão da Imperatriz Leopoldinense. Logo após, membros das baterias das duas agremiações se uniram e executaram sambas-enredos das duas agremiações (Figura 4).
Figuras 3 e 4 – Recepção da comitiva e execução dos sambas-nredos pelas baterias em conjunto
Após este momento de acolhida e confraternização, os mestres de cerimônia deram início à celebração (Figura 5). Representou o Boca de Siri, o carnavalesco da agremiação, e a Imperatriz Leopoldinense, a filha do presidente da agremiação. No caso do Boca de Siri, diferentemente do que se constata na maioria das escolas de samba, o carnavalesco é membro ativo da agremiação e oriundo da comunidade. O mesmo assina o desfile da agremiação desde 2006, quando esta ainda se encontrava no segundo grupo da Federação de Blocos. Chamou atenção o fato de que, no discurso do carnavalesco, a agremiação batizada se colocava também como 2571
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parceira da escola madrinha na preparação do carnaval desta. Após os discursos, os membros da diretoria do Boca de Siri e da comitiva da Imperatriz Leopoldinense delimitaram um espaço na área central da quadra (Figura 6) para a dança dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, momento-chave deste ritual.
Figuras 5 e 6 – Discurso dos mestres de cerimônia e formação do espaço cerimonial
Esta dança consistiu no revezamento dos mestres-sala e na troca de pavilhões entre as porta-bandeiras (Figura 7) e finalizou com o momento onde os casais giraram e seguraram as pontas dos pavilhões (Figura 8). Neste momento, o Boca de Siri foi considerado batizado e como forma de manifestar a alegria da escola de samba não ser mais “pagã” no universo do carnaval, todos aqueles que formaram o espaço cerimonial começaram a dançar e cantar, circulando pela fronteira delimitada (Figura 9).
Figuras 7 e 8 – Troca de pares dos casais de mestre-sala e porta-bandeira e a dança em círculo
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Por fim, champanhe foi servido aos membros da comitiva da escola madrinha e da diretoria da agremiação batizada e rosas vermelhas oferecidas a porta-bandeira do Boca de Siri, simbolizando a concretização do batismo (Figura 10).
Figuras 9 e 10 – Momento celebrativo da comunidade e a entrega das rosas
Na cerimônia em questão, alguns símbolos utilizados no ritual católico como a água e a vela não foram utilizados. No caso das vestes brancas, grande parte da diretoria da escola de samba batizada e da comitiva da agremiação madrinha misturaram vestes com as cores e símbolos da agremiação com outras brancas. Em São Paulo, verifica-se uma institucionalização deste ritual com a criação da Embaixada do Samba, tendo, portando, uma maior aproximação com os símbolos adotados na liturgia católica (BLASS, 2011). Escolas de samba: relação entre madrinha e afilhada Como forma de conhecer a existência ou não de redes de solidariedade entre a escola de samba madrinha e sua afilhada, dados foram coletados em cinco escolas de samba dos grupos de acesso, sendo colhidos através de entrevistas semiestruturadas com representantes das diretorias destas agremiações. Escola de samba 01 A escola de samba 01 foi fundada há mais de 40 anos, sendo então considerada uma agremiação tradicional, tendo passagens pelo Grupo Especial. Atualmente, encontra-se no Grupo de Acesso B e sua origem foi um bloco fundado na década de 1940.
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A escola de samba tem como madrinha uma agremiação do Grupo Especial, a qual possui títulos nesta divisão hierárquica do carnaval e que sempre permaneceu neste grupo, nunca estando em qualquer grupo de acesso. A proximidade entre as agremiações é relativa, pois estão separadas por alguns bairros no mesmo ramal ferroviário. O batizado ocorreu ainda na década de 1960, quando passou a desfilar como bloco de enredo. A escolha da madrinha ocorreu devido à admiração e reconhecimento por parte dos membros da diretoria da escola de samba batizada para com a agremiação madrinha. As cores do pavilhão e do símbolo remetem também a homenagens prestadas à escola de samba madrinha. Sobre a escola de samba madrinha, contabilizando a partir do momento em que a agremiação afilhada tornou-se escola de samba, nenhum auxílio institucional foi disponibilizado. Mesmo quando se recorre à agremiação madrinha para obtenção de material para confecção do desfile, a condição de afilhada não é evocada. Atualmente, sua rede de relações com outras agremiações é profundamente dependente dos profissionais que prestam serviço a ela, principalmente o carnavalesco e o diretor de carnaval. Desta forma, por exemplo, materiais de fantasia e esculturas são obtidos em agremiações onde os profissionais já atuaram ou possuem forte vínculo de amizade. Esta captação também é feita pela diretoria da agremiação ao solicitar auxílio a outras escolas de samba que desfilaram com enredos de temática semelhante em anos anteriores. Escola de samba 02 A escola de samba 02 foi fundada na década de 1990, nunca tendo chegado ao Grupo Especial e alcançando, no máximo, a Série A. Atualmente, encontra-se no Grupo de Acesso C e sua origem foi um bloco fundado na década de 1970. A escola de samba tem como madrinha uma agremiação do Grupo Especial, a qual possui títulos nesta divisão hierárquica do carnaval e que esteve poucas vezes na Série A. Não há proximidade geográfica entre as agremiações.
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O batizado ocorreu na década de 1970, quando a agremiação foi fundada. A escolha da madrinha ocorreu devido à admiração e reconhecimento por parte dos membros da diretoria da escola de samba batizada para com a agremiação madrinha. Sobre a escola de samba madrinha, a mesma nunca colaborou com a agremiação afilhada. Um dos projetos da atual presidência da agremiação é retomar o diálogo com a escola de samba madrinha. Com relação à rede de relações, a mesma se estabelece institucionalmente com as escolas de samba da região, sendo uma delas (e a que mais colabora) pertencente ao Grupo Especial. Além de material para confecção de fantasias e esculturas de carnavais anteriores, muitos componentes da agremiação que mais colabora também desfilam na escola de samba 02. Neste caso, também sua rede de relações com outras agremiações é muito dependente dos profissionais que prestam serviço a ela, principalmente o diretor de carnaval e o diretor de barracão. Além de material, outra forma de colaboração está no uso de espaços comuns para a preparação do desfile. Escola de samba 03 A escola de samba 03 foi fundada na década de 1990, nunca tendo chegado ao Grupo Especial e chegando, no máximo, ao Grupo de Acesso B. Atualmente, encontra-se no Grupo de Acesso D e sua origem foi um bloco fundado na década de 1970, tendo desfilado como bloco de enredo a partir desta época. A escola de samba tem como madrinha a mesma agremiação da escola de samba 01. Diferentemente do primeiro caso, a escola de samba 03 está situada bem distante da agremiação madrinha, cujos bairros nem compartilham a mesma linha ferroviária. O batizado ocorreu quase dez anos após a agremiação tornar-se escola de samba. Ao serem iniciados os trabalhos para a constituição de um centro de memória, constatou-se que a agremiação não possuía uma escola de samba madrinha. A escolha da mesma ocorreu por conta de sua grande tradição no universo do carnaval, sendo uma das mais antigas em atividade. 2575
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Sobre a escola de samba madrinha, a mesma já colaborou compartilhando espaço físico para a produção das fantasias e na cessão de esculturas. Atualmente, este auxílio não é mais prestado. Com relação à rede de relações, o panorama é muito semelhante com relação às escolas já citadas. Os contatos estabelecidos pelo carnavalesco, presidente e outros membros da diretoria são fundamentais para a obtenção de materiais para a confecção do desfile. Escola de samba 04 A escola de samba 04 foi fundada na década de 1980, nunca tendo chegado ao Grupo Especial e alcançando, no máximo, a Série A. Atualmente, encontra-se no Grupo de Acesso C e sua origem foi um bloco fundado na década de 1970. A escola de samba tem como madrinha uma agremiação do Grupo de Acesso B. Na época do batizado, a agremiação madrinha oscilava sua participação entre o Grupo Especial e a Série A. Apesar de estarem em bairros distintos, a proximidade geográfica entre as agremiações é considerável, pois ambas possuem suas sedes no mesmo logradouro, o qual abrange diversos bairros do Rio de Janeiro. O batizado ocorreu na década de 1980, quando a agremiação tornou-se escola de samba. A escolha da madrinha ocorreu por se encontrarem próximas. Sobre a escola de samba madrinha, a mesma nunca colaborou com a agremiação afilhada. Neste caso, levantou-se a questão de que a escola de samba madrinha nunca teve uma posição de destaque no carnaval, portanto sem reunir condições de poder prestar algum tipo de auxílio. Com relação à rede de relações, destacava-se a atuação do presidente anterior, hoje falecido, muito conhecido no mundo do carnaval e que sempre ia aos barracões das demais agremiações solicitar fantasias e esculturas que não fossem mais serem utilizadas. Atualmente, este papel é cumprido pelo presidente, membros da diretoria e direção de carnaval.
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A escola de samba 04 está localizada em um bairro onde existe uma agremiação com grande tradição no carnaval da cidade, diversas passagens pelo Grupo Especial e que atualmente está na Série A. Entretanto, não há vínculos entre estas escolas de samba. Escola de samba 05 A escola de samba 05 foi fundada na década de 1970, já tendo chegado ao Grupo Especial. Atualmente, encontra-se no Grupo de Acesso D. A escola de samba tem como madrinha uma agremiação da Série A. Na época do batizado, a agremiação madrinha era frequentadora assídua do Grupo Especial, tendo inclusive conquistado títulos na principal divisão hierárquica do carnaval. A escola de samba madrinha fica situada em um bairro vizinho à agremiação afilhada. Além da proximidade, a escolha se deu devido à admiração e reconhecimento por parte dos membros da diretoria da escola de samba batizada para com a agremiação madrinha. O batizado ocorreu na década de 1970, quando a agremiação tornou-se escola de samba. A escolha da madrinha inclusive proporcionou a mudança de cores do pavilhão da escola de samba 05, que a fez como mais uma forma de homenagem. Sobre a escola de samba madrinha, a mesma nunca colaborou com a agremiação afilhada. Com o passar dos anos, o vínculo se desfez e, inclusive, comentou-se que “nem a escola sabe que é nossa madrinha”. Com relação à rede de relações, a atuação do presidente é de fundamental importância. Acredita-se que ele é que fornece o lastro para a solicitação de material Além do mandatário, mais alguns diretores colaboram com sua rede particular de contatos, além do carnavalesco, para a obtenção de auxílios. Também ocorrem empréstimos mútuos entre escolas de samba, sendo este caso muito ocorrente com relação às esculturas. Conclusões No levantamento realizado em escolas de samba dos grupos de acesso que desfilam no carnaval carioca, constatou-se que houve um distanciamento destas 2577
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agremiações em relação às suas madrinhas. Esta dinâmica auxilia-nos a pensar nas modificações pelas quais os desfiles das escolas de samba passaram e seus possíveis paradoxos. Com a crescente transformação dos desfiles das escolas de samba em produto cultural, inseridos na indústria do entretenimento, o aspecto competitivo dos desfiles se ombreia cada vez mais com a espetacularidade do produto em questão. Desta forma, poder-se-ia vislumbrar uma potencialização das redes de solidariedade em prol do espetáculo. Mas, no caso das agremiações pesquisadas, esta hipótese não se confirma, pois a preocupação com os aspectos performáticos do desfile parece direcionar para a constituição de relações entre madrinha e afilhada onde uma possa dar suporte à outra, em uma via de dois sentidos, não mais único. Esta constatação encontra-se com a afirmação do diretor do Departamento Cultural da LIESA, o qual afirma que ‘a LIESA não tem interesse em colaborar com a AESCRJ para alavancar o desfile da Intendente Magalhães. Para quê? São 60 escolas decadentes.’ (PRESTES FILHO, 2009: 249). No percurso desta pesquisa acompanhou-se o ritual do batismo de uma escola de samba, fato este considerado muito raro no Rio de Janeiro, onde todas as demais escolas de samba existentes já possuem agremiação madrinha. O ritual testemunhado apoiou-se nos símbolos e performances reconhecidos pela coletividade das escolas de samba para esta cerimônia. Sublinha-se que, no ritual acompanhado, a escola afilhada e a escola madrinha se posicionaram como parceiras mútuas, subvertendo o conceito secular tradicional de compadrio. Para as escolas de samba dos grupos de acesso, a rede firmada com a agremiação madrinha não funciona de maneira satisfatória ou simplesmente deixa de existir. Desta forma, uma das possibilidades que estas escolas têm para contornar as dificuldades na preparação e execução de seus desfiles é estabelecer parcerias com outras agremiações a partir de redes construídas individualmente por membros da diretoria e profissionais do carnaval que prestam serviços a elas.
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Júlio César Valente Ferreira
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutorando em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ). Pesquisador na área de antropologia urbana, nos setores de atividades artísticas e criativas.
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