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Hibridização cultural: O caso do “samba de couro” na região central do estado de Rondônia, Brasil

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Ranieli dos Anjos de Souza

Mestre em Geografia – Universidade Federal de Rondônia - UNIR ranieli.anjos@hotmail.com

Luzinete Scaunichi Barbosa

Mestre em Geografia – Universidade Federal de Rondônia - UNIR scaunichibarbosa@hotmail.com

Hibridização cultural: o caso do “Samba de Couro” na região central do Estado de Rondônia, Brasil

Resumo Trata-se de uma pesquisa estruturada na análise do discurso, que relata o processo de consolidação, transformação e decadência de uma cultura nomeada “samba de couro”, na região central do Estado de Rondônia. Alicerçada inicialmente em uma tradição religiosa, em comemoração ao nascimento de Cristo, o “Samba de Couro” chegou a Rondônia com o processo migratório para colonização realizado pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Atualmente, apesar de já ter tido cunho religioso com relações de fé ao divino, passou a ser uma representação de diversão que vem declinando pela não adesão da descendência à tradição. Palavras-chave: Samba de Couro, cultura, hibridização.

Abstract CULTURAL HYBRIDIZATION: THE CASE OF “SAMBA DE COURO” IN THE CENTRAL REGION FROM RONDONIA STATE, BRAZIL This paper is a research structured in discourse analysis, which reports the process of consolidation, transformation and decay of a culture named “Samba de Couro” (“samba of leather”) in the central region of Rondônia State. Initially founded in a religious tradition to celebrate the birth of Christ, the “samba of leather” arrived Rondônia with the migration process for settlement performed by INCRA (National Institute for Colonization and Agrarian Reform). Nowadays, despite its former

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religious character in relation with the faith in Holy Ghost, it became a representation of diversion that has been declining for the descendents tradition non-attach. Key-Words: “Samba of leather”, culture, hybridization.

1. Introdução A temática cultural na geografia teve suas raízes na década de 1890 na França. Embora a Geografia acadêmica brasileira tenha surgido em 1934, com a implantação do curso de Geografia e História na Universidade de São Paulo, foram necessários 60 anos para que a geografia cultural fosse reconhecida, e ainda assim por poucos geógrafos. Contudo, os avanços só foram significativos, no Brasil, nos anos finais do Século XX, sendo criados vários núcleos de pesquisa cultural no início do Século XXI. Neste sentido, pesquisas mostram que a Amazônia possui uma diversidade cultural ampla, que por vezes são endêmicas da região, o que a coloca num plano peculiar de estudos. Esta diversidade de manifestações de festejo tem cunho religioso, como é o caso da Folia de Reis. Segundo Almeida Silva, Batista Martins e Silva (2009), manifestações como reisado, congado, cavalhada, vaquejada são menos visíveis na região, entretanto, festivais que levam nome de frutas como açaí, pupunha, melancia e abacaxi são uma constante na Amazônia. Rondônia, que compõe o território amazônico, é, por sua vez, um estado novo e que se desenvolveu rapidamente. Todavia não conseguiu preservar ou constituir uma cultura própria, tipicamente rondoniense, já que as manifestações encontradas aqui se formaram a partir da conjugação de representações de migrantes dos diferentes estados brasileiros que povoaram a região. Este fato se reflete na ausência de estudos com temáticas culturais relativas ao estado de Rondônia. Entende-se, desta maneira, que o processo de formação cultural é construído tendo como base fatores intrínsecos e extrínsecos de cada localidade, sendo que sua identidade cultural pode receber influência de diversas regiões. “Assim, contemporaneamente, identidade não se circunscreve apenas ao território, mas à ação sóciocomunicacional, articulando o local, o regional, o nacional, o internacional e o pós- nacional” (JACKS, 1997, p. 7).

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Para Corrêa e Rosendhal (2008, p. 3), a cultura passa a ser considerada como um contexto, isto é, um reflexo da prática social e simultaneamente um meio no qual essa prática se efetiva e uma condição na qual essa mesma prática tende a se reproduzir. A cultura é, assim, uma construção social, construída e reconstruída, constituinte e reconstituinte, porém vivida diferenciadamente pelos diversos grupos sociais resultantes de uma combinação de traços relativos a classe, gênero, idade, etnia e religião, entre outros aspectos.

Complementarmente, a cada dia novas culturas vão sendo formadas e, nesta fusão de identidades que ora se justapõem e ora se separam, a hibridização passa a ser a principal característica de muitas destas manifestações. Conforme Jacks (1997, p. 6-7), O conceito de culturas híbridas serve para pensar tudo que não cabe mais sob os rótulos de culto, popular e massivo, isto é, praticamente tudo que se produz atualmente, pois o processo de globalização que abarca todos os setores da sociedade contemporânea não deixaria de fora justamente as manifestações culturais, tão sensíveis à dinâmica social. [...] O tradicional e o moderno, portanto, já não sofrem uma oposição tão evidente, pelo contrário, convivem em um mesmo cenário social. Neste sentido, surgem novas formas de identidade cultural, que já não podem mais ser consideradas como autênticas, nem ligadas apenas a um território.

Esse caráter “multicultural” e “intercultural” passa, então, a compor essas formações, cabendo ressaltar que não se pode generalizar o espaço tampouco individualizar as representações culturais, pois ao mesmo tempo em que são unas também são coletivas e recíprocas. Assim, como preconiza a fenomenologia do espaço de Merleau-Ponty apud Filho (2008), o espaço não é um meio contextual sobre o qual as coisas estão colocadas, mas, sim, o meio pelo qual é possível a disposição das coisas, se trata, pois, de uma análise da experiência espacial centrada no sujeito subjetivo. O termo “festeiro” será abordado, ao longo deste artigo, seguindo a denominação de Morais (2003), em seu aspecto social, que o utiliza para designar o dirigente e o animador das festas de padroeiro na zona rural. Aqui, o sentido do termo adotado abarca não só o dirigente, mas qualquer outro participante das festividades. Este estudo pretende, pois, apresentar algumas reflexões sobre uma cultura que carrega consigo traços dos estados da Bahia, de Minas Gerais e Espírito Santo, mas que se modificou e adquiriu particularidades as quais a identificam como um ramo da Folia de Reis e que, ao longo de três

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décadas, tem prosseguido decrescentemente. Serão abordados ainda seus processos de consolidação, transformação e declínio. O objeto deste estudo se encaixa numa perspectiva transformadora, já que o samba de couro, inicialmente praticado juntamente com a Folia de Reis, tem hoje suas tradições modificadas e está se perdendo entre as novas gerações. O método está centrado na linguagem trivial abordada por Lefebvre (1978), que surge a partir do impulso, seguindo à conversação baseada na linguagem reduzida a sinais, convertidas em signos e logo em símbolos que atuam ora como um filtro, ora como uma rede ou como uma janela. Desta forma, as informações são um resultado da combinação destas três abordagens. Se sobrecarregada de símbolos, se torna ilegível pela riqueza excessiva de informações; se apenas reduzida a sinais, caem no vulgar; e, se repleta de signos, resulta em clareza demasiadamente tediosa. Estes aspectos se traduzem no que Lefebvre chama de campo semântico total, que é mais abundante que o campo restrito da linguagem. Portanto, a pesquisa baseia-se na análise do discurso que os agentes fazem sobre o evento, mapeando a história por meio da repetição das falas que aparecem nas entrevistas e captando a riqueza das contribuições num processo dialético. Os dados foram coletados por meio de diálogos abertos, durante o período de fevereiro a abril de 2010, nos quais os principais personagens tinham liberdade para relatar sua trajetória e fornecer informações referentes à nova forma de fazer “folia”. O artigo apresenta inicialmente uma análise geral sobre a Folia de Reis, em seguida, aborda como os atores desta manifestação chegaram até o estado de Rondônia. Posteriormente, faz referência ao samba de couro, sua essência e sua decadência. A última seção trata dos cantos que o grupo emprega nos festejos.

2. A Folia de Reis Para Pergo (2007, p. 1), a “Folia de Reis” apresenta um caráter profano-religioso e faz parte do ciclo natalino – realizado de 24 de dezembro a 6 de janeiro – havendo comemorações ao nascimento de Jesus por meio de

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festividades. Esta cultura chegou ao Brasil com os portugueses, no período do Brasil colônia. A dança comemora o nascimento do menino Jesus e homenageia os reis magos: Baltazar, Melchior e Gaspar, que levaram ouro, incenso e mirra, representando as três dimensões de Cristo, ou seja, realeza, divindade e humanidade. A comemoração tem sua origem primária na Festa do Sol Invencível, comemorada pelos romanos e depois adotada pelos egípcios. Em Roma, a comemoração acontecia em 25 de dezembro (calendário gregoriano), já a egípcia, em 6 de janeiro. No Século III, ficou estabelecido que no dia 25 de dezembro se festejasse o nascimento de Cristo e, em 6 de janeiro, o dia dos Reis. Conforme Bonesso (2006, p. 1), as folias de reis praticam uma variedade de rituais que se mantêm ao longo do tempo e estão sendo constantemente reinventados de acordo com as diferentes demandas sociais dos grupos que interagem na festa. É importante destacar que tanto as festas como a composição e a identidade sociocultural dos grupos populares que produzem estas festas [...] sofreram modificações e acréscimos de novos significados, na medida em que foram incorporados ao processo de urbanização brasileiro e despertaram o interesse de novos sujeitos.

Na terra de origem dos festeiros do estado de Rondônia, a Folia de Reis tinha, como seu elemento fundamental, o caráter de ser uma festa da religiosidade popular. Os festeiros seguiam de casa em casa no período de comemoração ao nascimento de Jesus até o dia 6 de janeiro. Entre os festeiros da região central de Rondônia está um participante que, em seu estado de origem – Espírito Santo –, esteve por sete anos consecutivos à frente da organização da Folia de Reis, em sinal de crença e promessa. Para sua família, a rotina era árdua em prol do evento. O período de 24 de dezembro a 6 de janeiro ficava todo comprometido com a realização do festejo: “Era uma satisfação, organizar a festa pra homenagear o menino Jesus, mas a folia de reis dava muito trabalho, porque nós tínhamos que arrumar tudo, e era quase um mês de muito trabalho” (Esposa do festeiro que organizava a Folia de Reis do Espírito Santo). O cotidiano era modificado neste momento, passando a atividade diária a ser substituída pelo trabalho voltado à concretização do festejo. Trabalho que passava a denotar outro sentido, o de cultuar o Divino.

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Durante o ano, o grupo organizava a produção que, em algumas ocasiões, realizava-se em “mutirões” na época da colheita, para que, chegado o momento do festejo, as famílias já estivessem preparadas para as mudanças que envolviam as comemorações sagradas. O termo mutirões foi utilizado aqui de acordo com Morais (2002).

3. A chegada dos festeiros A ocupação demográfica da região central de Rondônia, nessa época Território Federal de Rondônia, explodiu em meados dos anos 1970, com a implantação do Projeto Integrado de Colonização Ouro Preto (PIC Ouro Preto). O plano inicial do INCRA previa uma capacidade de atendimento a 2.000 famílias, mas, em 1973, já existiam mais de 3.000 assentadas em lotes de 100 hectares de terras para cada uma. Em pouco mais de três anos a população já se estimava em cerca de 25.000 pessoas. Assim, em 16 de junho de 1981, foi criado o município de Ouro Preto do Oeste, no já então estado de Rondônia. Com o tempo, o município foi cedendo áreas para a criação de novas municipalidades como Vale do Paraíso, Urupá, Teixeirópolis, Mirante da Serra e Nova União. Os grupos do festejo da Folia de Reis, oriundos dos estados do Espírito Santo e da Bahia, chegaram a Rondônia em maio de 1971, ao mesmo tempo em que os PICs eram implantados. Os festeiros, que já eram compadres em suas cidades de origem, habitavam o município de Santa Cruz de Cabrália (BA) e posteriormente migraram para São João do Sobrado e Montanha (ES). “Na Bahia nós só observávamos a folia de reis, mas no Espírito Santo nós fizemos folia de reis, e a gente terminava a folia com o samba de couro” (festeiro J.P.). Por se tratar de uma cultura passada de pai para filho, o samba de couro acompanhava a folia de Reis. Após chegarem a Rondônia, os migrantes mantiveram uma produção de subsistência, na qual o que se plantava se consumia. Contudo, devido ao rápido desenvolvimento da região e com uma ascensão demográfica inesperada, a pequena produção já não sustentava mais a vida rural, iniciando-se, neste momento, não só a comercialização de produtos agrícolas, mas também a transformação dos colonos em pequenos comerciantes,

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à frente de mercearias e empresas de confecções. “Eu fui um dos primeiros colonos a montar uma lojinha pra tocar com a família, abandonei o campo cedo e até hoje trabalho com confecções” (festeiro I.V.S). Atualmente, é muito comum, entre os festeiros que vivem na zona rural, a venda de produtos – principalmente verduras, legumes e frutas – em feiras organizadas nos finais de semana, na zona urbana, próximo a suas propriedades. Durante a semana, muitos se deslocam até a cidade para realizarem compras ou ainda entregarem encomendas de produtos tais como ovos, frangos, requeijão e outros. A pecuária é uma atividade realizada por todos, sendo o rebanho bovino o mais representativo, exceto entre os que praticam o comércio e já não possuem mais suas propriedades rurais. O cotidiano alterado pelas novas técnicas mudou a rotina do grupo. Para eles, o cotidiano se ajusta em um dos conceitos de Lefebvre (1978, p. 86), para quem a “[...] vida cotidiana é também a repetição dos mesmos gestos, levantar-se pela manhã, preparar o café, sair, correr nas ruas [...]”. Estas repetições do dia a dia são o significado da vida que levam, uma vida que, segundo Claval (2004, p. 1), “é o reflexo de seus locais de residência”. Assim, o grupo seguiu se adaptando para manter as tradições que trouxeram consigo, conservando os hábitos simples e, ao mesmo tempo, se ajustando aos novos costumes que a vida moderna lhes proporciona. Logo, conforme preconizam André e Bailly (1998), o conhecimento destas construções sociais e individuais, estes planos do mundo real, são certamente de grande interesse para a geografia. Estas representações espaciais revelam o espaço como é experimentado, usado e sentido pelos habitantes.

4. O Samba de Couro Na região central de Rondônia esta cultura foi consolidada como “Samba de Couro”, uma espécie de festejo praticado juntamente com a Folia de Reis no estado do Espírito Santo. Por meio de suas representações, é uma cultura local que foi criada com a junção do passado, das lutas e interpretações de vida que a comunidade faz de si e do outro.

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Vindo do Espírito Santo, após ter migrado da Bahia, o festejo antes realizado junto à Folia de Reis se consolidou em Rondônia como cultura principal, exercida por um grupo de amigos, que se reunia com suas famílias para cultuar o Divino. Inicialmente, com uma cultura própria, mas que aos poucos foi tomando características diferenciadas. Assim, foi se solidificando uma interculturalidade construída com o processo de migração, ligada a vários territórios – peculiar, mas não autêntica – estabelecida pela tradição sagrada que foi mantida, embora não disseminada entre as novas gerações. O recorte espacial onde atualmente habitam os tradicionais festeiros compreende os municípios de Ouro Preto do Oeste, Jaru, Vale do Paraíso, Urupá e Nova Mamoré, na região central do estado de Rondônia:“A gente começou a fazer a Folia de Reis e junto a gente fazia também o Samba de Couro pra finalizar a festa, depois que nós chegamos em Rondônia ficou mais difícil fazer folia, porque o grupo morava no mesmo PIC, mas muito longe um do outro, então nós preferimos fazer só a roda de samba pra continuar festejando, como reunia o povo tudo num só lugar, então firmou só o Samba de Couro, porque aí a gente começou a fazer não só em dezembro, a turma gostava tanto que nós começamos fazer várias vezes no ano” (festeiro M.S). O nome Samba de Couro se deve à utilização da pele e do couro de animais na fabricação dos instrumentos, em sua maioria confeccionados pelos próprios participantes. Dentre eles estão a zabumba, a viola, o tambor, o reco-reco (artesanal) e, ainda, os pratos e talheres. Durante a festa, a execução da dança é feita por meio de rodas, o grupo tem que ser em par e do gênero masculino (figura 1). Os festeiros se posicionam em círculo e seguem alternando entre si durante os cantos e a dança, esta é a “roda”, como chamam. Nesta representação, não existem critérios de avaliação ou julgamento, mas sim exposições contemplativas tanto pelos que só observam quanto por aqueles que participam.

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Figura 1 RODA DE SAMBA DE COURO, REALIZADA APENAS POR HOMENS, NA ÁREA RURAL DE OURO PRETO DO OESTE, EM 1996

Fonte: CD/ROM cedido pelo festeiro J.V.S. (19/03/11).

A organização do evento não segue critérios tão estruturados. Para abrigar a festa é escolhida a propriedade – localizada no meio rural – de um dos participantes, cuja responsabilidade é de organizar e preparar o local, a comida e a acolhida dos que vêm de longe. A mulher aparece neste cenário com o papel de ajudar o marido na concretização do festejo. Na perspectiva tradicional não existe lugar nas rodas de dança para o gênero feminino; para elas, os homens tocam cantigas especialmente dedicadas a sua diversão. “A roda do samba de couro é só para os homens, para as mulheres a gente toca umas ‘moda’ separada” (Figuras 2 e 3). Figura 2 FESTEIROS TOCANDO A “MODA” PARA AS MULHERES

Fonte: CD/ROM cedido pelo festeiro J.V.S. (19/03/11).

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Figura 3 RODA FEMININA

Fonte: CD/ROM cedido pelo festeiro J.V.S. (19/03/11).

O valor de cada encontro é inestimável, único. É neste momento que o grupo se reúne para festejar a alegria e a amizade e que toda família se mobiliza para fazer acontecer o evento. Na tentativa de manter a cultura, o tradicional se justapõe ao moderno, se enlaçam para que sobreviva a história. O festejo era antes realizado apenas por homens, mas já é possível encontrar, em sua versão atual, mulheres no grupo, como ocorreu no encontro de 2007 (Figura 4). Com isso, a festa, que já possui caráter transformador, continua sendo alterada ao longo dos tempos, tornando-se cada vez mais distante das características que a constituíram. Figura 4 SAMBA DE COURO REALIZADO EM 2007 COM PARTICIPAÇÃO FEMININA NA RODA

Fonte: CR/ROM cedido pelo festeiro J.V.S. (19/03/11).

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Atualmente, a festa não tem calendário fixo, uma vez que a localização geográfica em que vivem os festeiros dificulta a realização do evento. “O povo esparramou tudo, hoje são poucos que conseguem se juntar pra fazer a roda” (festeiro J.V.S.). Esta cultura local criou laços e fortaleceu ligações por décadas, porém, com o tempo e com o avanço da modernidade, estes sinais não foram especificamente desligados, mas tomaram outros significados. Festejar agora só quando for possível acontecer. Quando os ânimos afloram, eis que surge a oportunidade de mais um encontro. Esse fato pode ser comprovado pela fala da esposa de um tradicional festeiro: “O Samba de Couro é uma dança muito caipira. A descendência não continuou, então ela está acabando. Ela não se modernizou, as cantigas são as mesmas, aquela música... Não tenho culpa do que se passou... tem tantas... mas o samba de couro não incorporou, foi ficando ultrapassado, só as mesmas músicas antigas e a nossa geração não tem interesse nessa tradição. Então... os mais novos não aprenderam... a juventude hoje quer outras coisas”. Conforme afirma Martins (2008, p. 44), “não é o moderno que incorpora o tradicional e popular simplesmente. Antes, é a tradição que agrega fragmentos do moderno sem agregar um modo moderno de ser [...]”. Desta forma, as mudanças em torno de uma cultura, por fatores de desenvolvimento e alterações nos hábitos de vida, podem influenciá-la, mas não descaracterizar sua maneira tradicional de ser. Assim sendo, uma das principais razões para a decadência do Samba de Couro nesta região é a ausência dos tradicionais festeiros, uns porque já faleceram e outros porque atualmente são portadores de necessidades especiais devido a doenças adquiridas ao longo do tempo. Como os descendentes não incorporaram esta cultura, aos poucos ela está desaparecendo com aqueles que já se foram.

5. Os cantos A música e o ritmo realizados com os instrumentos confeccionados pelos próprios integrantes do grupo, com exceção da viola, são os elementos centrais da folia. É importante destacar que a música não é simplesmente

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uma construção abstrata. A musicalidade de um povo ou grupo social é uma construção social, cultural, ambiental e histórica. Assim, ela contém suas especificidades, tanto nos aspectos instrumental, melódico e rítmico, quanto em seu aspecto narrativo, o qual envolve a temática das letras e contribui numa identificação da música com o lugar (ABREU SILVA; COSTA SILVA, 2009). “As melodias foram aprendidas com a tradição, é coisa muito antiga, nem sei os autores, outras a gente mesmo inventa, aí junta uma aqui outra ali e está feita uma canção pra roda” (festeiro A.F.). As canções retratam o cotidiano da vida com a natureza, a rotina simples do campo e a leitura que os festeiros fazem do mundo que os cerca. “Coitadinha da Beija-Flor... Aonde foi fazer seu ninho... No galho da laranjeira... Ôh lê... No derradeiro galinho... Ôh lê... ‘Requinca’: O bezerro da pintadinha quer mamar ôh eh... Quer mamar ôh eh... quer mamar ôh eh...” O papel dos gêneros também aparece nas composições e a mulher é constantemente fonte de inspiração para as canções: “A menina ta lá dentro... Sentada no tamborete... Afinando sua viola com um ramo de ramalhete... O galo já cantou... Ôh le... O dia amanhece agora... Ôh le... Chora morena chora... Chora morena chora... Ôh...” Durante a roda feminina, os festeiros tocam modas com o objetivo de divertir as mulheres no momento da festa. Elas dançam em círculo batendo palmas entre si e auxiliando os homens durante os cantos.

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“Machadeiro novo... do primeiro ano, ainda não é tempo de você ta derrubando... Quem comeu do boi, manda lhe dizer, vá tomar remédio para não morrer... Requinca: Ôh machadinha que corta que corta dos dois lados Aqui eu sou solteiro do lado de lá eu sou casado... Requinca: Machadeiro novo... do primeiro ano, ainda não é tempo de você ta derrubando... Quem comeu do boi, manda lhe dizer, vá tomar remédio para não morrer... Requinca: Menina meu pai é salvo minha mãe salve rainha... Teus irmãos vida e doçura... E você esperança minha...” A música, neste contexto, representa uma rede que permite conectar o imaginário com o real e atua ainda como uma fonte de interpretação dos modos de vida, das tradições e crenças de um grupo social. É na musicalidade que se encontra a mais forte expressão artística do grupo. Deste modo, estas conexões são compostas por uma dinâmica estrutural de signos e sinais construtores das representações culturais, que estão constantemente sendo reconfiguradas.

6. Considerações Finais A percepção da vida, do espaço e do lugar é única para cada pessoa por mais que se tente externá-la em uma produção textual concisa. Para uns a folia pode ser uma representação de fé, para outros, apenas diversão. Ainda que alguns não reconheçam nenhum sentido, no final tudo é muito significativo. Adaptando o pensamento de Thompson e Grubbs (1997), precisamos ter a convicção de que as pessoas têm crenças, valores e costumes que resultam em um comportamento ou uma compreensão que podem ser muito diferentes dos nossos e que estas diferenças são legítimas.

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Assim, o Samba de Couro teve sua gênese edificada por processos de sucessivas modificações, desde a recepção de novos significados até a desistência de outros. A religiosidade é percebida agora nos objetos, nos quadros, nos lembretes nas portas, não mais em festejo próprio. O que antes era realizado apenas em dezembro, passou a ser organizado várias vezes no ano e agora quase não acontece. E o gênero feminino também tomou lugar nessas transformações. As mulheres passaram de coadjuvantes para participantes da roda de samba que antes era realizada apenas pelos homens. Desta maneira, o movimento de consolidação do Samba de Couro deve ser entendido, excepcionalmente, considerando-se a escala regional, com o aporte das ponderações contidas no escopo deste trabalho, não se estendendo a outras manifestações que porventura se identifiquem com a manifestação específica aqui analisada. Este estudo permitiu, portanto, não só retratar a história e possibilitar confrontos futuros, mas também ser uma fonte subsidiadora de outras propostas, compreendendo, no campo da geografia, a oportunidade de espacializar uma cultura que passou por diversas transformações e continua persistindo para ser mantida.

Agradecimentos Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, pela bolsa concedida durante os estudos no Programa de Mestrado em Geografia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) que fomentaram esta pesquisa.

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Recebido em: 17/03/2012 Aceito em: 23/07/2012

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