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Carnavais: festas da pluralidade.

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CARNAVAIS: FESTA DA PLURALIDADE MIRANICE MOREIRA DA SILVA.∗

INTRODUÇÃO O presente artigo aborda os festejos carnavalescos da cidade de Feira de Santana-Ba na década de 1930. Trata-se de um trabalho que segue pelo campo da História Cultural, que tem como base as discussões de práticas e representações de Roger Chartier (CHARTIER, 1990). O texto busca compreender as práticas e os significados múltiplos que o cenário festivo apresenta. Sobre os festejos carnavalescos da cidade, é identificada a existência do entrudo, do carnaval e da micareta. A presente discussão considera que tais denominações fazem parte de uma modalidade festiva que são os folguedos carnavalescos, pois do ponto de vista prático, apresentam elementos similares. A temática do carnaval apareceu entre os historiadores nas últimas décadas do século XX dentro da corrente historiográfica da nova História Cultural, movimento este que traz novos objetos à pesquisa histórica. Essa agitação teve como um ponto decisivo o surgimento da Escola do Annales1, originada na França em 1929 (BURKE, 1997) A partir da crise de paradigmas de 1929, os novos problemas surgiram. A História Cultural nasceu um pouco depois, como um contraponto a uma das vertentes da Escola dos Annales, que é a História das Mentalidades. Para Chartier, um dos percussores da vertente histórica cultural, as mentalidades contemplavam aspectos do cotidiano, do âmbito cultural e social, porém caiu na mesma armadilha do universalismo, que era

Mestranda do Programa de Mestrado História Cultura e Poder da Universidade Estadual de Feira de Santana-Ba. 1 A escola do Annales teve como idealuzadores Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernanda Braudeu, Georde Buby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie. Este último produziu um dos maiores clássicos sobre o carnaval. O carnaval de Romanes.(LE ROY LADURIE, 2002) A revista foi uma inovação no pensamento histórico, que propunha: “Em primeiro lugar, a substituição da história tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema. Em segundo lugar, a história de todas as atividades humanas e não apensa história política”.(BURKE, 1997. pp. 11-12.) ∗


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tratá-los de forma reducionista, ou seja, deixava escapar as especificidades das relações humanas (Apud. CARDOSO, 1997) A partir de então, as “novas temáticas” ganharam força e esse trabalho é fruto desse movimento. E especificamente nesse momento, serão tratados dos aspectos referentes aos significados atribuídos aos festejos. Nesse aspecto da representatividade, as festividades momescas, que apresentam características semelhantes, assumem significados diferentes, sobretudo entre as disputas de representação entre o entrudo e o carnaval. Percebe-se, nessa etapa, o caráter educativo da festa, de como a ela é apropriada como um espaço difusor dos ideais de civilidade. Através do festejo, é indicada à população quais são os “moldes” correto dos festejos. As principais fontes utilizadas nessa análise são os jornais, Folha do Norte, Folha da Feira. Ao tratar a fonte, ela não será vista apenas como um boletim, noticiar não significa apenas informar, mas, sobretudo, moldar certos comportamentos e inclusive formar uma memória. Os jornais são construídos como um todo, não são um acumulado de notícias, eles têm uma ideia geral que os orienta. As informações neles contidas não estão desassociadas, elas dialogam entre sim. (SCHWARCZ, 1987) Os jornais, nesse caso o Folha do Norte e o Folha da Feira apresentam também pluralidade. Diversidade essa que é comum as cidades, que é plural e polissêmica, caracterizada

pela

aglomeração

populacional,

e

sociabilidades

complexas.

(PESAVENTO, 2007). Essa caracterização de cidade instrumentaliza uma leitura mais apurada do que é apresentado nos jornais feirenses. O que ali representa é uma de tantas outras formas de conceber e interpretar algo, não é uma reprodutora verdade, nenhuma fonte a faz. Além dos jornais, recorre-se ao livro 31 anos de Micareta de Helder Alencar, que faz uma espécie de almanaque festivo, porque ele, na época jornalista, fez um livro de memória da festa, identificando as comissões, anos de realização entre outros elementos. Por não ser um trabalho histórico, não traz a preocupação com as fontes que os historiadores têm, porém apresenta elementos ricos à análise carnavalesca da cidade.


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CARNAVAIS: FESTA DA PLURALIDADE

Carnaval A mascarada passa alegre sacudindo Os guizos do prazer, o pó das amarguras A descuidosa vai cantarolando e rindo Assim alerquiando em gestos e mesuras São manequins da vida, o gozo repartido Numa “revanche” doida as sua desventuras... E nada mais querendo e nada mais sentindo, Que exaltação fugaz de repetidas loucuras. Tristonha humanidade, espelho de “Pierrot” Engana teu martyrio, assim ele enganou Tocando soluçante um velho bandolim. Repete a tua força, extravagante e fina Que neste mundo ingrato, a nossa pobre sina É bem um carnaval esplendido e sem fim. Georgina Erismann. (Folha do Norte, 25 de fevereiro de 1933, p.4.)

Georgina Erismann é uma poetisa muito conhecida na cidade, tendo composto inclusive o hino à Feira de Santana. Ela costumava publicar seus textos e poesias com frequência nos jornais da cidade. Este seu poema é justamente publicado às vésperas do carnaval feirense de 1933. Algumas ideias nesse poema suscitam algumas questões. A primeira dela traz a referência de que os festejos retiram da cidade, com a sua alegria, o pó das amarguras. Nessa perspectiva apresentada no poema, há uma desarticulação, uma quebra da rotina, que significaria uma pausa dos problemas em detrimento de uma alegria que é externa. Outro aspecto legível no poema é o fato de identificar a festa como manequins da “vida o gozo repartido” - ao que parece, essa confraternização, o ato de repartir, deveria ser tomado como um exemplo a ser seguido. Arlequim, com seus gestos de mesura, ou seja, de cortesia significava o exemplo a ser seguido, para além do festejo para a vida. O espaço festivo é também um local de apresentação de modelos educativo, na qual os foliões também são espectadores, pois apesar da aparente desventura e


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extinção da ordem, existem os dias específicos, os locais do cortejo, bailes e tocatas. A ordem e o modelo fazem parte dos festejos carnavalescos e as intencionalidades e os projetos são perfeitamente aplicados nesses momentos. Traz ainda a figura do Piorrot, que sofrerá por uma desilusão amorosa da sua Colombina. Erismann compara a tristeza de Pierrot a uma desilusão da humanidade, logo o carnaval seria uma ilusão para distrai os percalços. A tristeza de Pierrot tem seu consolo no toque do seu bandolim, enquanto a humanidade tem no carnaval a revanche dos dias de martírio. Nesse aspecto, a autora acaba corroborando com a ideia difundida de quebra na ordem e de que nesses festejos os conflitos desapareceriam. Isso porque a ideia que prevalece sobre os festejos carnavalescos é a de harmonia. Entretanto, os conflitos existem em todas as relações, muito embora boa parte dos conflitos existentes nos festejos tenha surgido muito mais por conta das representações atribuídas às práticas. Porém também existiam as disputas para ver quem fazia o melhor festejo, quais as melhores fantasia, músicas.

A perturbadora Avenida de Alegria vae refertar-se de guizalhadas, de acordes melódicos, de casquinadas de riso franco e desartificiosos, de jororos tenuissimos de ether perfumado, de olhares, de ama vios... Insistem para que eu... Não diga!... Mas o chronista é teimoso e, quando quer resolutante ninguém o demove de um propósito. O voto carnavalesco da terra e o maestrino feirense, alliados sempre para o bem das ouças de momophilos, esquivando-se ao concurso de marchas e de sambas dos chronistas carnavalescos da imprensa da capital não renunciaram, porém, a deliciar seus muito atinados patrícios e a bisbilhotice impenitentes do meu próximo descobriu u’a marcha novinha em folha, musica do professor Santo e letra de Aloísio, que está sendo ensaiada a capricho pelas Farristas... Não diga!... É o titulo da nova composição, cuja letra publicaremos na edição vindoura. E quando a musica... Não diga!... Eu tenho fé. Tendo sido publicada em jornais da capital com incorreções a letra do samba do professor Estevam Moura premisso em 1º lugar no concurso de composições (...) para o Carnaval da Bahia, reproduzimos directamente do original a poesia de Carls Ramayana (Pedro Mattos). (Folha do Norte. 23 de fevereiro de 1935, p. 4.)

Os festejos envolviam competições que iam desde a disputa dos sambas ou marchas carnavalescas até as fantasias, alguns cordões faziam mistério quanto à vestimenta,


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justamente pra surpreender os foliões e também aos outros blocos, apresentando o que havia de melhor.

Grupos fantasiados passarão as principais artérias urbanas, disseminando sons vozes, deliciando ouvidos. As constantes Melindrosas exibirão um figurino de requintado gosto, segundo nos informa um sabetudo impressionante e os duvidosos apresentar-se-ão trajados de... As vestes não sabemos, mas as obras... Isto sim. Salvo engano, o uniforme será alvi-rubro. É possível que surjam surpresas, mesmo em veículos. ( Folha do Norte. 23 de fevereiro de 1935, p. 4.)

Mesmo assim, as disputas estavam presentes dentro do festejo, seja ela como resultado das representações ou fruto de disputas carnavalescas entre carros e canções. As manchetes dos jornais costumavam imprimir aos festejos, sejam eles denominados como carnaval ou micareta, um caráter de unanimidade, como se estes fossem algo que representasse a cidade com anúncios do tipo: “E a cidade viveu os três dias da troca e da folia” (Jornal Folha do Norte 1923, p, 1.). As notícias sobre os festejos carnavalescos seguem a lógica de apresentar a festa enquanto um elemento pertencente a uma cidade que se apresenta enquanto singular. Essa postura não estava relacionada pura e simplesmente ao ato de anunciar os elementos característicos da festa. Mas também de imprimir um ideal de cidade. E quanto a isso, os projetos políticos aparecem em todos os espaços, sejam eles partidários ou não. Em um anúncio de um baile pré-carnavalesco realizado pela Filarmônica Vitória, esse projeto para a cidade aparece de forma mais evidente. Trata-se de uma nota sobre a existência das filarmônicas, especificamente sobre a construção de uma nova Filarmônica da cidade, A Filarmônica Vitória, que segundo Aline Santos, teria surgido de uma dissidência da 25 de Março. A nota dizia o seguinte: “A existência dessas sociedades demonstram eloqüentemente que, em conquista, apesar de longínqua, os seus hábitos trabalham também para a perfeição – moral- social.” (Jornal Folha do Norte 1909, p. 1)


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Antes de prosseguir com a análise da fonte é interessante fazer uma ressalva importante: as filarmônicas não foram e nem são instituições carnavalescas, elas não foram criadas com esse intuito: “as filarmônicas eram agremiações musicais, compostas geralmente por um regente e mais ou menos 40 músicos, e seu demais familiares, alguns eram ligadas a setores das elites políticas, outras pertencentes a outros setores.” (SANTOS, 2011, p.2) Os componentes mantinham uma relação de associados a estas entidades. Por serem instituições musicais e os festejos terem na música um dos seus principais elementos eles não dever ser confundido como a mesma coisa. Voltemos à fonte, nesse anúncio acaba corroborando para algo que foi explicitado por Aliene Santos. As filarmônicas sofreram uma apropriação e uma significação que apontavam para uma normatização dos costumes, formando a imagem de uma cidade que atende a uma perfeição moral2. A relação das filarmônicas com o objeto de estudo desse trabalho é que muito dos bailes carnavalescos considerados civilizatórios eram realizados nesses espaços. As propostas de sociedades civilizadoras, que buscavam também as reformas morais, não estavam limitadas apenas às filarmônicas. Os cordões também, que eram noticiados nos jornais, seguiam os mesmos preceitos e nessas reportagens era evidenciada a contribuição educadora os festejos pelos grupos que as organizavam. A reportagem com o título A festa oficial da folia está chegando afirmava o seguinte:

É porque assim, todos devemos concorrer para que ele se realize com o máximo de brilho, testificando o desenvolvimento crescente da grande festa de civilização que veio erradicar o costume grosseiro e bárbaro. Entrudo, relegando a perpétuo esquecimento. (Folha Do Norte. Feira de Santana, 31 de Janeiro de 1931, p.1 )

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Segundo Aldo Silva (SILVA, 2000), as tendências de civilização nesta cidade tiveram início ainda no período imperial e assim como no restante do país ganhou mais força com a implantação da República e envolveu o projeto modernizador aliado ao discurso higienista e científico. No caso de Feira de Santana o alinhamento das casas, cuidados com a salubridade e reformas que buscavam a civilização.


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Existia uma comoção e uma intencionalidade apresentada no jornal em atribuir ao festejo um significado para além do ato puro de simplesmente festejar. Nesse momento é que os conflitos de representação aparecem e surge a oposição entre a ideia de bárbaro e civilizado, moderno e atrasado. Disputas que surgem de idealizações e atribuições de significados das formas de festejar. Executar o carnaval significaria testificar se havia na cidade a civilização. Tal projeto idealizava a normatização de uma prática. Porém homogeneizar práticas é algo improvável, isso porque o festejar é por si só plural, fruto de uma amálgama das cidades. Assim como afirmou Pesavento (PESAVENTO, 2007) compreender as cidades perpassa por admitir que estas práticas possuem várias linguagens que as representam; um conjugado de elementos que se entrecruzam e ganham significados a partir das relações estabelecidas entre os sujeitos e grupos que compõem as cidades. Partindo da ideia de que a cidade possui vários significados, é possível ampliar as perspectivas de análise e identificar não apenas uma, mas várias cidades, que coexistem e conflitam. Nesse contexto, as multiplicidades festivas, seus vários significados perpassam pela relação dos sujeitos que as constroem, pois estes imprimem nesse processo de construção comemorativa suas experiências e vivências e sua concepção de cidade. Isso porque essas linguagens são extremamente móveis, ao passo que ao analisálas deve-se considerar essa mobilidade para não correr o risco de aprisioná-las em modelos que não correspondem às vivências e a complexidade que estão inseridas, pois elas são social e temporalmente construídas; fora de seu contexto elas perdem o sentido. Segundo Pesavento (PESAVENTO, 2007), existem diversas formas de representar a cidade, através da literatura, imagens, músicas, oralidade e a escrita. Destaco, a partir dessa contribuição, a festa, um elemento que está inteiramente imbricado nas formas de representar as cidades. A construção dos festejos perpassa pela atuação de sujeitos. Estas manifestações não pairam sobre os seres humanos, apresentando à população como entidades neutras, e não é dessa forma que funciona. Os sujeitos não são pacientes, que apenas sofrem a ação. Trata-se de uma ação reflexiva, na qual estes praticam e sofrem as consequências de tal prática.Nesse sentido,


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as intencionalidades surgem. Como a cidade é múltipla, em seus significados e integrantes, essa diversidade propicia a pluralidade festiva, pois é infundado dissociar uma coisa da outra. Os festejos acabam envolvendo os elementos apresentados por Pesavento, sendo a música, parte constituinte da festa, e as imagens, que para além de uma projeção iconográfica, constitui memórias que estarão presentes na oralidade e na produção escrita. As festas constituem-se como um espaço de comemoração e brincadeiras, mas, além disso, é também um espaço de disputas e conflitos, sejam estes de situações consideradas simples, corriqueiras, quanto de disputas políticas. Isso porque a presença política era comum. Como bem sinalizou Santana (SANTANA, 2010) as festas constituem um ponto de encontro entre as mais diversas pessoas. Esses indivíduos ocupam as festas e a significam de forma bastante particular, isso porque eles não se despem das suas vivências, dos seus hábitos, para vestir as fantasias, pelo contrário. Essas experiências estão o tempo todo nos espaços das festas. Nesse ambiente festivo ocorrem batalhas e confraternizações, guerras não apenas no sentido momesco de serpentinas e águas cheirosa (carnaval) ou pútrida (entrudo), mas também em relação à forma de pensar uma cidade e um modo de festejar ideal.

DIVISÕES IDEOLÓGICAS O carnaval surgiu, segundo Alencar (ALENCAR, 1968), de forma mais significativa em 1891, em Feira de Santana, o que não significa que antes não houvesse na cidade manifestações carnavalescas. O entrudo foi considerado a primeira folgança momesca da cidade, era uma festa comum entre os portugueses; de tom jocoso, poderia tomar facilmente forma de protesto. Segundo Kiddere Fletcher o entrudo corresponde ao carnaval italiano, que ocorre antes da quaresma. Tais festejos foram considerados pelo povo durante muito tempo como uma compensação, por meio de divertimento, do longo retiro que teriam durante a quaresma. (KIDDERE, In: LOUZADA, 1945)


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Essa prática do entrudo, a partir do século XIX, passou a ser percebida como uma liberdade perigosa, que alterava a ordem e poderia desencadear comportamentos indesejáveis ao grupo dominante, porque, no caso, os aspectos públicos e políticos poderiam ser criticados durante os jogos do entrudo. E é nesse contexto que o entrudo passa a ser combatido. Nessa empreitada estão envolvidas figuras importantes para a construção de um ideal que passara a desabonar a prática do entrudo, atribuindo-lhe o caráter de bárbaro e incivilizado3. São eles: os intelectuais, no caso específico dos articuladores do jornal Folha do Norte, que é um importante interlocutor desse projeto e tinha fortes ligações com os setores políticos da cidade e as autoridades 4. Isso ocorre através dos editoriais, folhetins e leis que objetivava minar as manifestações. O entrudo era uma prática carnavalesca comum em muitas regiões do país, Louzada (LOUZADA, 1945) afirma ter sido, o entrudo, uma prática que se limitou aos habitantes dos centros urbanos e no interior do país essa prática não encontrou espaço. Porém em Feira de Santana, interior da Bahia, os jogos do entrudo eram corriqueiras, ao menos o que noticiam os jornais5. Aceitação segundo, Moraes Filho do entrudo na Bahia era algo que superava o carnaval:

O carnaval, porém, cuja origem é comum a todas as civilizações, da mais bárbara a mais adiantada, nós só tivemos de 1855 prá cá e no Rio de Janeiro, pois em todo este país brincavam-se e ainda se brinca o entrudo, segundo os 3

Sobre essa ruptura ideológica entre entrudo e carnaval ver (CUNHA, 2001) Aliene Aguiar (2011) fala da relação entre o Jornal, os elementos festivos e a política. Os irmãos Silva ( Dalvaro, Raul e Arnold) proprietários do jornal Folha do Norte são exemplos. Esses sujeitos estavam sempre envolvidos em vários momentos festivos, envolviam-se em várias atividades festivas e de lazer em geral da cidade. Além do envolvimento com os festejos carnavalescos também faziam parte dos festejos de Santana, festa religiosa em reverência a Senhora Sant’Ana, considerada pelos católicos padroeira da cidade. Eram também envolvidos da política, Arnold Silva foi prefeito da cidade na década de 1920 as autoridades políticas utilizavam os espaços festivos e de sociabilidade como elemento de disputa de poder. Dominando esses locais poderiam imprimir e aplicar projetos que reformariam os costumes, de acordo com seus ideais. Esses sujeitos eram também participes das comissões carnavalescas. Mesmo os festejos carnavalescos, nesse período, não fossem de responsabilidade da prefeitura, os políticos estavam envolvidos nas várias instâncias festivas. 5 Sobre a presença do entrudo no interior da Bahia ver (MARQUES, 2010) 4


10 estilos tradicionais. É certo que o Carnaval, como temos, melhor se harmoniza como progresso moderno, mas não é menos exato que o entrudo, exceção feita das grosserias que lhes eram próprias, interessava a maior número de pessoas e esmaltava-se de um resto de poesia que irradiava no lar doméstico (MORAES FILHO. In: LOUZADA,1945, PP. 129-130)

Nesse aspecto não vê no entrudo uma grande ameaça, a não ser por algumas atitudes grosserias, mas nada que fosse comprometer a alegria, muito pelo contrário. Essa análise sobre o entrudo na Bahia ajuda a questionar a ideia de que o carnaval teria se sobreposto o entrudo, que entrou em desuso graças a sua incivilidade. Nesse caso, é justamente o tom debochado que atraía a participação das pessoas. Quando afirma que o entrudo irradiava “no lar doméstico” para a maioria dos foliões, o entrudo não representava uma grosseria aos seus costumes, pois estas eram executadas em seus lares, além das ruas. “Esse jogo não se limitava as crianças ou ás ruas, mas era feito na alta roda, tanto quanto na classe inferior fora e dentro de casa” (LOUZADA, 1945, p.13) Mello Moraes Filho apresenta uma discussão sobre o entrudo e sua existência em Salvador, na qual admite que seja oriunda do povo judeu. Estabelece também um comparativo entre as festas em Lisboa e na Bahia. Segundo ele, ambas apresentavam “as laranjinhas e limões cheios de água, atirados com fúria, as bacias, jarras, talhas postas a porta para satisfazer os desejos da batalha, em toda a sua violência”. (MORAES FILHO. In: LOUZADA,1945) No cotidiano brasileiro, o entrudo se propagou e foi re-significado. Essa resignificação se dá de forma natural, pois acompanha o momento histórico. O entrudo, segundo Louzada (LOUZADA, 1945), foi trazido pelos colonizadores, mas aqui tinham grupos sociais culturalmente diferentes que interferiram, bem como povos escravizados do continente africano e os nativos. É impossível a transposição de determinadas práticas para outro contexto (temporal ou espacial) e este se manter “puro”, os significados são múltiplos a depender do lugar social e as mudanças são características de toda a atividade humana. Em Feira de Santana, segundo Alencar (ALENCAR, 1968), o entrudo também era uma prática condenada por um ramo da sociedade. Essa


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condenação era feita através do jornal, veículo de informação importante na construção de um ideal de festa carnavalesca.

O comercial (jornal que circulou na cidade por algum tempo) (...) condenava em 1871, o entrudo feirense, com a seguinte nota ‘o divertimento do entrudo passou nesta vila sem lamentar-se degraça alguma, graças ao desuso em que vai caindo êsse péssimo brinquedo. (Idem, p. 18).

Segundo essa fonte, há indícios de que o combate ao entrudo foi feito no mínimo a partir de 1871. Assim como os ideais de civilidade na cidade de Feira de Santana começam ainda no império, o combate ao entrudo também. Porém ganhou maior vigor na cidade no final do século XIX Início do século XX, momento que coincidiu com o advento da República. Isso se explica pelo fato de negar ainda mais tudo que fizesse lembrar o Brasil colonial e imperial. E, ao passo que se avança para o século XX, esse significado negativo em relação ao entrudo ganha maior fôlego.

Attendendo às muitas reclamações que nos tem sido trazidas ao nosso escriptorio chamamos a atenção das auctoridades competentes para abusivos e prejudicalissimo jogo do entrudo, que extinto quase entre nós, agora pretendem fazer voltar com todas as suas desastradas consequências Quantas vítimas, quantos prejuízos não têm sido causado por tão extravagante divertimento? (...) Assim, pois confiamos que se não façam medidas repressoras para o caso, igualmente nos dirigiremos aos pais de família, que devem quanto antes ir afastando os seus filhos desses inveterados e prejudiciais costumes (Folha do Norte, 29 de Janeiro de 1910, p.1)

Apesar de fazer referência a um grande número de reclamações dos adeptos do carnaval, o jornal não traz nenhuma dessas reclamações para a reportagem, e muito menos nomeiam os grupos insatisfeitos com a prática do entrudo. A notícia centra-se na apresentação do entrudo como um problema que incomoda muitas pessoas, a ponto de serem feitas denúncias. Entretanto essas denúncias não aparecem nos jornais, é apenas a palavra do jornal. Isso deixa margem à dúvidas


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quanto a suposta insatisfação ou, se ela existia, quais era as suas proporções. Outra questão é a ênfase que se dá ao fato de essa ser uma prática erradicada na cidade. Se assim fosse, esse tipo de problema não aconteceria logo, à prática do entrudo era recorrente. E tal costume não estava extinto. Esse retorno indica uma resistência, o modelo do carnaval civilizado encontrava um obstáculo para ser implantado. O apelo para a moral familiar passa a ser um instrumento na tentativa de minar a prática do

entrudo.

Esses

costumes

poderiam

destruir a possibilidade de

desenvolvimento. O trecho denota uma profunda insatisfação, e chega a ameaçar as autoridades, caso uma providência não fosse tomada. Esses prejuízos provavelmente estavam relacionados ao projeto civilizador. Todo o esforço em remodelar os costumes estaria ameaçado caso o entrudo continuasse a fazer parte dos costumes festivos. E o antônimo desse hábito era o carnaval, “adequado”, “civilizado”. Em Feira de Santana o fragmento retirado do Jornal O comercial citado por Alencar, diz: “Em 1891 embora ainda persistisse o Entrudo, a imprensa a falar do Carnaval (...). O Carnaval vencia o Entrudo com seus limões e laranjinhas de cera, com água perfumada ou excremento” (Apud. ALENCAR, 1968). O carnaval surge como prática carnavalesca ainda envolta ao jogo do entrudo, a persistência dos sujeitos em praticá-lo. Não se pode perder de vista que os adeptos do entrudo reagiram a essa imposição, mesmo que isso não apareça de forma explícita nas fontes; a dificuldade na extinção da festa aparece na quantidade de tempo para a implantação do carnaval e na própria fala dos intelectuais da época: “o carnaval vencia o entrudo”, a vitória advinha de uma longa batalha na mudança da mentalidade. Essas práticas foram re-significados no carnaval e em seguida a micareta. As re-significações estão na forma como o evento festivo passa a ser percebidos e os significados passam a ser desiguais, e em alguns momentos, opostos, mas isso não significa que as práticas sejam diferentes, quanto a sua execução. Em 1917, outro aspecto peculiar, uma reportagem que não retratava a realidade feirense, porém bastante significativa para compreender o conflito ideológico a respeito da realidade estudada:


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Carnaval no Rio... Não é muito alegre para os vagabundos. Amanhã, pleno carnaval, lembram-se disto, com tristeza, os vagabundos cariocas, a esta hora trancafiados pela polícia do Sr. Aurelino Leal segundo narra um despacho da Agência Americana (...). A polícia começou a limpar o Distrito Federal, prendendo os vagabundos, desordeiros e gatunos, como elementos perigosos que são durante o carnaval (Folha do Norte, 17 de fevereiro de 1917, p.4.)

Mesmo não se referindo ao especificamente ao caso de Feira de Santana, essas notícias da capital do país não é sem razão. O texto tem uma conotação provocativa, uma sugestão de qual atitude deveria ser tomada no caso feirense.

Essa ideia de

desordeiros é algo que faz parte da construção de significado tanto do carnaval, quanto do entrudo. Se a cidade desejasse livrar-se dos hábitos indesejáveis ele deveria seguir o exemplo do Distrito federal, com a ação policial a reprimir os “vagabundos”. A apesar dos festejos carnavalescos não serem da responsabilidade da prefeitura, a interferência do poder público era possível, pois a festa teria também um papel educador. O carnaval, mesmo sob um forte discurso de liberdade, deveria seguir uma ordem, como o próprio jornal diz servir a uma população “adestrada”. A ideia de limpeza que perpassa pelas condutas higienistas aparece também aqui, como uma forma de limpar a sociedade dos responsáveis pela desordem social. Em contrapartida a essa depreciação do entrudo, existia a tentativa de fazer do carnaval um modelo festivo que educaria a população e a transformaria a cidade em um espaço civilizado em seus hábitos. Matérias bastante simpáticas ao carnaval ganhavam grandes proporções principalmente nas páginas do Jornal Folha do Norte. O modo como os festejos eram noticiadas nos meios de comunicação era diferenciadas, O jornal Folha da Feira o noticiava, mas de uma forma mais sucinta. Diferente da maneira como eram tratados nos editoriais do jornal Folha do Norte, que começava a noticiar sobre os festejos carnavalescos com um mês de antecedência, no mês de janeiro, terminando apenas em março, com um balanço festivo.


14 A feira amanheceu hotem com a rua direita toda enfeitada de bandeirolas e inúmeras máscaras percorreram a cidade, em grupos e isolados destacando-se pela manhã, um cordão muito bem animado (...). À tarde, apesar do brilhantismo dos “Duvidosos” que, pelo louvável esforço de sua diretoria, muito contribuíram para a beleza da festa, apesar da originalidade dos “cablocos” que nos fizeram lembrar o Brasil de hontem, com seus caciques e guerreiros executando danças selvagens (Folha da Feira, 4 de março de 1935, p.1.)

Nesse trecho, o jornal caracteriza os Duvidosos como um grupo esforçado, que luta para alcançar a civilidade, mas ainda tem em suas raízes elementos que contradizem essa prática. A denominação de caboclos é uma denominação dada à miscigenação entre o branco e o indígena. Em outro momento, diz que trazer o caboclo e os tambores fazem referência ao Brasil de “hontem”. Isso deveria ser superado, porque remete a um período colonial. Nesse documento, a crítica é direcionada aos “Duvidosos” que mesmo esforçando-se ainda estão com elementos atrasados de um país que é o de “hotem” que já devia ter sido ultrapassado, porém a sua crítica é mais sutil. O Jornal Folha do Norte é mais direto ao combate ao entrudo: “separa-se o joio do trigo, a cicuta do agrião e festa do riso será um benefício para o orgasmo social” (Folha do Norte, 13 de fevereiro de 1932, p.1). Essa disputa foi travada no plano prático, visto que alguns se mantiveram fiei ao entrudo, mas foi no campo da ideias que ela foi mais forte. As disputas ocorrem não apenas em relação ao entrudo e carnaval. Os conflitos certamente ocorriam dentro dos adeptos do “civilizado” carnaval e os praticantes do entrudo. Isso porque esses conflitos são alimentados pelos posicionamentos sociais e por diferentes percepções e interpretações. E a existência de tais conflitos não criou barreiras intransponíveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao analisar o caso de Feira de Santana é possível localizar a tentativa de implantar nos festejo um projeto civilizador. As reportagens, que foram a base desse


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trabalho, em quase todas as edições, faziam referência ao carnaval como um sinônimo de avanço e desenvolvimento da urbe. Mas diferente do que aconteceu no restante do país, as disputas ideológicas entre carnaval e entrudo adentraram pelas primeiras décadas do século XX. O que indica possivelmente a permanência das práticas denominadas como entrudo ainda no século XX nesta cidade Muito provavelmente isso possa ter acontecido em outras localidades, pois a criação de um projeto festivo e a sua apresentação à sociedade, independente do grupo que a proposta seja apresentada, não garante que este será aceito, sem nenhuma intervenção. E quando se trata de manifestações culturais isso é ainda mais impreciso. Chega-se a uma conclusão de que havia diferenças entre as práticas, carnaval e entrudo, mas elas eram bastante simples. Enquanto os adeptos do entrudo molhavam as pessoas e jogavam pós, no carnaval molhavam com lança-perfume e jogavam confetes e serpentinas. As práticas eram bastante similares, fantasiar-se, sair às ruas, em clubes, ou suas casas vestindo a fantasia e festejando o mesmo período, antes que a quaresma assumisse o tempo. Observa-se que os seus conflitos foram travados muito mais no campo das ideias e das representações do que na prática. Dividir os festejos carnavalescos em categorias: entrudo, carnaval e tratá-los dentro de uma linearidade é uma questão ideológica.

REFERÊNCIAS. ALENCAR, Hélder. 31 anos de Micareta. Feira de Santana-Ba UEFS, 1968. BURKE, Peter. A Escola doa Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997. P. 11-12. CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma opinião sobre as representações sociais. In: CARDOSO, Ciro Famarion; VAINFAS, Ronaldo. (0rg.). Domínios da História: teoria e metodologia. Rio de Janeiro. Campus, 1997.


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Carnavais: festas da pluralidade. by Portal Academia do Samba - Issuu