Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Manaus, AM – 4 a 7/9/2013
Trem do Samba: Paisagem Sonora da Central do Brasil à Oswaldo Cruz 1 Paola MEIRELLES2 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo abordar o samba enquanto prática cultural associada a determinadas localidades da cidade do Rio de Janeiro, a partir do conceito de territorialidade acústica de La Belle (2010). O caso analisado especificamente será o do bairro de Oswaldo Cruz, localizado no subúrbio carioca às margens da linha férrea. O mote dessa abordagem será o evento conhecido como Trem do Samba (ou Pagode do Trem), que parte da estação Central do Brasil e termina com uma grande festa em Oswaldo Cruz, fazendo com que anualmente este percurso seja uma verdadeira paisagem sonora. Palavras-chave: Trem do Samba; Oswaldo Cruz; paisagem sonora; políticas públicas.
1- Introdução
Uma das principais motivações para a concretização do evento do Trem do Samba é a possibilidade do resgate da memória da cultura deste gênero musical e, nesse sentido, da importância histórica do bairro de Oswaldo Cruz. Isso se evidencia pelo slogan “Nos trilhos da tradição carioca” e por sua realização ter como pretexto a comemoração do Dia Nacional do Samba. Visando entender mais profundamente esta manifestação da cultura popular de rua que é o Pagode do Trem, vamos considerar quem são seus idealizadores, patrocinadores e promotores, destacando o duplo papel do Estado como agente colaborador e formatador. Desse modo, poderemos analisar as diversas atrações e práticas do evento no sentido de confirmar sua vocação popular e seus objetivos de resgate da memória e da tradição, destacando o papel privilegiado do bairro de Oswaldo Cruz no passado e presente, se afirmando como paisagem sonora do samba carioca.
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Trabalho apresentado no GP Comunicação, Música e Entretenimento, evento componente do XXXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2
Mestranda da Linha Mídia e Mediações Socioculturais da ECO-UFRJ, email: paolameirelles@hotmail.com.
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É importante ressaltar ainda que a abordagem do samba neste trabalho se dá a partir do conceito de nacional-popular em Gramsci. O samba, apesar das diferenças socioculturais regionais de um país tão amplo e diverso como o Brasil, consegue ter caráter nacional porque dialoga com o povo, traz à tona as suas contradições. Ele pôde se afirmar como uma manifestação da cultura nacional-popular brasileira justamente porque existe uma identificação de concepção de mundo entre os sambistas e o povo, até porque, neste caso, a maioria deles de fato provém do povo. Para além da identidade de classes, ocorre uma identidade ideológica. Sendo assim, temos o samba como materialização musical da dialética entre o nacional e o popular, razão e paixão, conteúdo e forma. Isto porque, até os dias de hoje, é um dos gêneros presentes no imaginário e universo simbólico popular em suas diversas manifestações – samba de raiz, samba enredo, pagode, partido alto, etc. 2 – Samba e Identidade Nacional
Ao tratarmos o samba como objeto de análise não podemos deixar de levar em conta que este possui um imenso significado na construção da identidade nacional e do sentido de brasilidade. Mais do que isso, deve ser ressaltado que um gênero musical de origem afrobrasileira tenha se constituído como tal, o que nos permite uma reflexão sobre a nossa sociedade e a contribuição sociocultural das populações negras e mestiças para a formação do Brasil. O samba nasceu de um setor social específico e suas características musicais – tanto em termos de melodia quanto de letra – sofrem influência direta dos aspectos da experiência sociocultural desses setores, sendo uma manifestação da cultura popular brasileira. Abordar um evento que tem como objetivo o resgate da memória e tradição ligada ao samba é de alguma maneira adentrar a questão da cultura e identidade negras, que são elementos formadores deste gênero musical e da própria identidade brasileira. Por isso é importante destacar a centralidade da cultura no que concerne às práticas sociais. Os estudos culturais nos servirão de base para a compreensão do papel do samba para a formação das identidades dos afrodescendentes num contexto histórico de diáspora e pós-abolição nas Américas e também para a construção de uma identidade nacional. Tal elucidação será ancorada na obra de Stuart Hall, principalmente em Da diáspora
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identidades e mediações culturais (2003) e no texto A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo (1997). Em ambos os trabalhos, o autor discute os termos em que devemos orientar os estudos culturais:
Tal paradigma se opõe ao esquema base-superestrutura de formulação da relação entre as forças ideais e materiais, especialmente onde a base é definida pelo "econômico", em um sentido simples. Essa linha de pensamento prefere a formulação mais ampla — a dialética entre o ser e a consciência social: inseparáveis em seus polos distintos [...] Ela define cultura ao mesmo tempo como os sentidos e valores que nascem entre as classes e grupos sociais diferentes, com base em suas relações e condições históricas, pelas quais eles lidam com suas condições de existência e respondem a estas; e também como as tradições e práticas vividas através das quais esses "entendimentos" são expressos e nos quais estão incorporados. (HALL, 2003, p. 141)
Nesse sentido, trataremos as identidades não como essência do ser, mas sim como subjetividades construídas a partir de certo contexto histórico, territorialidade e demandas sociais que perpassam os indivíduos. De acordo com Hall:
É o que significa dizer que devemos pensar as identidades sociais como construídas no interior da representação, através da cultura, não fora delas. Elas são o resultado de um processo de identificação que permite que nos posicionemos no interior das definições que os discursos culturais (exteriores) fornecem ou que nos subjetivemos (dentro deles). Nossas chamadas subjetividades são, então, produzidas parcialmente de modo discursivo e dialógico. (HALL, 1997, p. 8)
Os discursos e representações identitárias presentes no mundo são assim abraçados por determinados sujeitos que, a partir deles constroem as subjetivações acerca de si próprios. Deste modo, não basta ser brasileiro para abraçar o samba como constitutivo de sua identidade nacional, assim como não basta ter a cor da pele escura para que se assuma a negritude. É necessária a adesão de determinados valores de ordem social, cultural e até mesmo psicológica. 3 – O Evento
O Trem do Samba é um evento realizado anualmente para comemorar o dia nacional do samba (02 de dezembro) e está na sua 17ª edição. Nos anos de 1920 o percurso da Central à Oswaldo Cruz já era feito pelo Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz (embrião
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da escola de samba Portela) que utilizava o vagão Deodoro como sede móvel, capitaneados por Paulo Benjamim de Oliveira (posteriormente conhecido como Paulo da Portela). O trem era uma espécie de quadra na ausência de uma sede fixa e meio de fuga da repressão policial sofrida pelo samba naqueles tempos. Nos anos de 1990, o sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz idealizou um movimento denominado Acorda Oswaldo Cruz visando o resgate das origens e valorização histórica sambista do bairro. É nesse contexto que, em 1995, é realizada a primeira edição do trem do samba (ou pagode do trem, como é conhecido originalmente). No site do evento Marquinhos explicita a sua finalidade:
O Trem do Samba nasceu com o objetivo de promover a interação entre os grandes nomes do samba e o público, além de levar conhecimento por meio do resgate dessa cultura. O que nós estamos fazendo é uma recriação das rodas de samba tradicionais. 3
Em todas as edições a aquisição do bilhete do trem se dá pela troca de 1Kg de alimento e os shows e rodas são gratuitos. Em cada ano um grande nome do samba é homenageado, sendo Chico Santana – representante da Velha Guarda e compositor do hino da Portela – a figura da 17ª edição. As atrações do ano de 2012 se sucederam por três dias consecutivos, de 29 de novembro a 01 de dezembro. Constaram de 01 palco na Central do Brasil, 04 palcos em Oswaldo Cruz, 32 vagões de trem com sambistas que se espalham pelo bairro de Oswaldo Cruz em 15 rodas de samba e uma lona do conhecimento, que foi a inovação desta edição, afirmando a necessidade do resgate da memória e da reflexão dos novos rumos da cultura do samba. Como se dá em geral em todos os anos, estas atrações englobaram os velhos mestres sambistas (desde os mais populares até os reconhecidos somente no universo do gênero) e as novas gerações, o que demonstra a preocupação dos organizadores do evento com o binômio memória e atualização. Incluem artistas de menor peso e profissionais famosos com espaço na mídia e no mercado musical, sendo estes os que obtêm a maior visibilidade no marketing oficial do evento. Em geral, são estes os sambistas que irão apresentar os shows nos palcos.
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Disponível em: <http://tremdosamba.com/?page_id=3518>. Acesso em: 09 de janeiro. 2013.
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Apesar do objetivo de recriação das rodas de samba tradicionais, estas são as atrações de menor destaque em toda a programação, não havendo muita ênfase na sua publicidade, o que nos leva à conclusão de que os palcos estão dirigidos ao grande público e as rodas para àqueles mais ligados à cultura do samba. Como patrocinadores do Trem do Samba temos a Secretaria de Estado e de Cultura do RJ, a Prefeitura do Rio de Janeiro, a Ambev, a Petrobrás e a Caixa Econômica Federal. Apesar da maior parte deles serem ligados ao Estado, a presença que se destaca no evento é a da cerveja Antártica, da empresa Ambev (que não por acaso também é patrocinadora do carnaval carioca) . Na Central do Brasil, até porque a estação e os trens da Supervia servem como espaços do evento, o patrocínio público fica mais evidente, mas em Oswaldo Cruz é a “Boa do Samba” que marca presença hegemônica. Isso se nota não só pela decoração do evento como também pela exclusividade de venda desta marca de cerveja. A promoção do evento foi realizada pela Rádio MPB FM 90.3 MHz e pela Globo Rio, além da propaganda via internet (http://tremdosamba.com/) e redes sociais (https://www.facebook.com/tremdosamba), o que acarretou em uma divulgação espontânea a partir dos compartilhamentos na web e a construção de comunidades virtuais dedicadas ao evento (https://www.facebook.com/Dia.Mondial.do.Samba). Sendo que, a principal divulgação oficial é dedicada aos shows dos palcos com artistas renomados para atrair maior público. O evento é direcionado para os cariocas e moradores do estado do Rio de Janeiro, diferente do carnaval que é uma atração voltada para todo o país e para o exterior (apesar da Riotur também estar envolvida). Tanto que no site do Trem do Samba os destaques das notícias são do Portal G1, Jornal O Fluminense, Jornal O Globo – Rio, todos veículos da mídia local4. 4 – Oswaldo Cruz, Paisagem Sonora do Samba Carioca
A festa do Dia Nacional do Samba começa na estação Central do Brasil, pega o trem e termina em Oswaldo Cruz justamente por sua tradição como bairro ligado às raízes do samba carioca. E foi através do samba que este local pôde se reinventar e abrigar por tantos anos um evento do porte do Trem do Samba. 4
Na TV a divulgação principal se dá pelo telejornal RJTV.
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4.1 – O Bairro
Cortado pela linha férrea, Oswaldo Cruz é um bairro carioca tipicamente residencial. Fez parte da freguesia de Irajá, criada em 1644, mas em fins do século XIX e inícios do XX a economia da região, amparada pelo trabalho escravo, entrou em crise. Os antigos latifúndios então começaram a ser repartidos pela população pobre, em sua grande parte formada por pessoas marginalizadas pelas reformas urbanas realizadas no centro da cidade, na gestão do prefeito Pereira Passos. Em 1890 é inaugurada a Estação Dona Clara de trens, que daria nome àquela área de limites ainda indefinidos. Em 1917, com a morte do médico e sanitarista Oswaldo Cruz, a estação local é renomeada e com o tempo este nome acaba sendo atribuído também ao bairro. A tradição do bairro está ligada ao samba. Ele é conhecido por ser o berço da Portela, pois era lá que estavam os blocos que a originaram. Tanto que o primeiro nome da agremiação era Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz e o próprio legendário sambista Paulo da Portela, fundador desta escola de samba, na realidade era morador do bairro. 4.2 – Aplicação do Conceito de Paisagem Sonora/ Territorialidade Acústica
Partindo de La Belle (2010) temos que o conceito de territorialidade acústica ou paisagem sonora se aplica às espacialidades que são desintegradas e reconfiguradas pelo som. Criam-se no tempo, são múltiplas, itinerárias e nos informam sobre a geografia urbana a partir de sua sonoridade. Não remetem a um espaço territorial fixo, concreto, mas a uma geografia relacional que é emocional, contenciosa e fluida. Um significado para explorar as múltiplas perspectivas do presente, já que, espaços urbanos fracionados têm sido reconfigurados pelas sonoridades,
inclusive
(re)constituindo
identidades
e
vínculos
comunitários
contemporâneos. A região de Oswaldo Cruz e Madureira pode ser considerada uma territorialidade sônico-musical do samba carioca. Estes bairros da zona norte estão ligados desde os seus primórdios à cultura do samba. Sua ocupação residencial se deu acompanhada da
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disseminação desta cultura e este gênero musical faz parte do desenvolvimento desta área tanto quanto as construções que lá se fixaram. A presença do samba, portanto, não só gera uma identidade para estes bairros, mas para o subúrbio carioca de uma maneira geral. Uma espécie de cultura do subúrbio na qual está presente o samba (música e dança), o pagode, o boteco, a cerveja, o churrasquinho, etc. É no subúrbio (e nas favelas) que se concentram a maior parte dos afrodescendentes e a cultura do samba remete, valoriza e (re)significa este estar no mundo. Madureira historicamente nunca se dissociou desse status de berço do samba, mesmo quando do ostracismo comercial do gênero, até porque lá estão localizadas duas das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro: Portela e Império Serrano. Mas essa não é a história de Oswaldo Cruz. 4.3 – Des-territorialização e Re-territorialização:
Des-territorialização e re-territorialização é a dupla chave teórica para pensar Oswaldo Cruz como paisagem sonora do samba carioca e marcar sua diferença com Madureira, voltando-se para as rupturas e continuidades que fazem com que ele possa ser assim representado nos dias de hoje. Citando Herschmann (2012) sobre a questão imbricada entre experiência e territorialidade sônica pode-se compreender melhor a relação entre o samba, o bairro de Oswaldo Cruz e o evento do Trem do Samba: A capacidade de mobilização das “experiências” e das interações realizadas em certos “ambientes”, em algumas “paisagens sonoras” que integram de forma harmoniosa vetores como sonoridade e espacialidade vêm revitalizando diferentes localidades e reconstruindo o imaginário urbano. Pode-se dizer que as experiências musicais [...] vêm amalgamando uma sociabilidade que se constrói tendo a música como élan social. Essa musicabilidade floresceu das insurgências das ruas (e não do planejamento tecnocrático), gerando novos processos de “reterritorialização”. 5
A re-territorialização do bairro de Oswaldo Cruz como paisagem sonora do samba carioca contemporâneo se deu a partir dos anos 1990, com o engajamento de atores sociais (com destaque para Marquinhos de Oswaldo Cruz) ligados ao bairro visando o resgate de 5
Citação retirada do texto do slide nº 16 da Aula 8 - Importância das territorialidades sônico-musicais na trama urbana. Problematização das articulações e tensões entre música e desenvolvimento local.
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suas origens históricas. Foram movimentos como Acorda Oswaldo Cruz, Quilombos do Samba, Semana Paulo da Portela, Feira das Yabás e a reativação do Pagode do Trem que possibilitaram o processo de reapropriação e resignificação do bairro a partir da musicalidade, forma de superação de uma visão instrumental ou meramente mercadológica das práticas culturais. Tais movimentos e eventos musicais que constituem essa territorialidade acústica resgatam não só elementos da cultura negra, mas também da cultura suburbana carioca. Um dos poucos eventos de grande porte direcionado prioritariamente para o povo, realizado no subúrbio (e não no Centro e na Zona Sul como de costume). O Trem do Samba, por exemplo, não se sustenta somente pela música mas também pela gastronomia e pelo grande apelo popular. A presença hegemônica das classes populares se dá na forma de público e como comerciantes (barraqueiros) de bebidas e comidas típicas. O evento para comemorar o Dia Nacional do Samba ocupa todo o bairro de Oswaldo Cruz. Se os palcos com as grandes atrações estão localizados nas praças e ruas principais, são as rodas de samba que agitam as ruelas e os botequins. 5 – As Rodas de Samba, valorizando a experiência há tempos imemoriais
Mafesolli (2006) nos indica que há processos constantes de re-territorialização dos grupos em prol do “estar junto” e a música ao vivo seria uma experiência social, sensorial e estética. A roda de samba, que traz em si elementos típicos da cultura negra, traz à tona desde seus primórdios a tão valorizada “experiência” que se fala nos dias de hoje. O que se pode experimentar nas rodas de samba está além da estesia da música ao vivo. Nelas, artistas e público estão mesclados, todos fazem parte da prática sociocultural. Não há separação rígida entre os sambistas e os que se colocam proximamente à sua volta para cantar, bater palmas, dançar, puxar uma música. Os músicos e ritmistas vão se alternando entre eles, dando espaço para os que chegam também participar. Existe uma recíproca entre quem assiste e quem toca. Essa experiência pode ser vivenciada em Oswaldo Cruz nas comemorações do Dia Nacional do Samba (diferentemente de muitas casas de show da Lapa, por exemplo). São 15 rodas de samba que iniciam nos vagões dos trens que partem da Central e vão se espalhando por todo o interior do bairro.
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Uma distinção que se pode fazer entre o público maior concentrado nos shows dos palcos e os que seguem para explorar as diversas rodas, é a própria ligação com a cultura do samba. A preferência por acompanhar repertórios menos massificados e músicos fora do mainstream pede uma identificação com o universo do samba fora dos grandes eventos e do carnaval. Não é a toa que essas pessoas de fato interagem com a roda da maneira que ela convida: dançando, cantando, puxando um samba. As rodas são para quem demandam uma experiência menos formatada que a oferecida pelos palcos. Por ser uma experiência musical coletiva, ligada a formatos e conteúdos históricos, pode-se considerar a roda de samba como um agente de comunicação intertemporal, aquela que se dá entre gerações, responsável pela manutenção e/ou atualização das tradições. As rodas que resguardam características mais tradicionais fazem parte de práticas socioculturais contra hegemônicas por estarem mais ao largo da indústria cultural e da grande mídia. Essas manifestações vão se dar em espaços não hegemonizados que configuram territorialidades sonoras como as ruas, centros de resistência cultural negra (a exemplo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo), blocos e botequins. 6 – Políticas públicas e institucionalização
Partindo do estudo de Hershmann (2009) sobre desenvolvimento local sustentável e diversidade cultural, temos que, “a partir de 1990, as estratégias de desenvolvimento local foram se afirmando, cada vez mais, como uma alternativa para a reconstituição dos vínculos produtivos entre agentes, comunidades e instituições do governo”. Esse é o contexto no qual os já citados movimentos de revitalização de Oswaldo Cruz se inserem, visto que, a partir da atuação de atores sociais envolvidos com o bairro começam a se desenvolver projetos com apoio do Estado e de empresas públicas. Nesse sentido é interessante o aprofundamento da questão das políticas públicas para nos esclarecer sobre a atuação governamental frente às demandas sociais. O conceito aqui utilizado será o desenvolvido por José Luis Exeni Rodríguez, autor cujo trabalho Políticas de comunicación: retos y señales para no renunciar a la utopia (1998) se dedica a analisar a relação entre o Estado, o sistema midiático e as indústrias culturais.
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Ele parte6 de um arsenal teórico que entende as políticas de uma maneira geral como um conjunto de normas jurídicas, morais, sociais e culturais que têm objetivos definidos quanto à estimulação ou não de determinados modos de atuação (BELTRÁN, 1974); o Estado como fonte e defensor principal das normas de determinado território/sociedade (THERBORN, 1989); e políticas públicas (ou estatais) como um conjunto de respostas do Estado em face de questões tidas como problemas sociais (SALAZAR, 1995). Levando-se em conta as considerações acima, Exeni define por políticas públicas um
[...] conjunto de princípios, normas, aspirações e respostas deliberadamente adotadas no marco de um ou mais objetivos previamente estabelecidos de predição, decisão e ação para enfrentar situações e/ou problemas socialmente considerados, em um momento e lugar determinados, mediante processos de estimulação positiva – fomento, apoio, recompensa – ou negativa – inibição, proibição, sanção – de comportamentos individuais, grupais, institucionais e/ou sociais, cuja fonte principal pode ser o Estado, a sociedade ou ambos, mas cuja forma final é sempre definida pela estrutura estatal que estabelece os mecanismos e instrumentos necessários para seu cumprimento. (EXENI, 1998, p. 92, tradução nossa).
Vale ressaltar que seu entendimento sobre as políticas públicas abarca a perspectiva de uma planificação racional e intencional, atendendo prioritariamente aos “problemas socialmente considerados” (EXENI, 1998, p. 91) e coloca a abstenção do Estado como posição por omissão. Alem disso, amplia a definição de Salazar no que concerne à iniciativa da formulação da política ao incluir também o âmbito social como proponente (atores/grupos sociais como grupos de pressão) para além da atuação unicamente estatal. O evento do Trem do Samba pode ser entendido dentro desta concepção de políticas públicas, já que, tem como proponente de realização e organizador o sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz em colaboração com a Secretaria de Estado de Cultura do RJ, que tem como missão assumida:
Formular, implantar e gerir, através do diálogo com a sociedade, políticas públicas para democratizar o acesso à cultura e garantir a diversidade cultural, considerando a riqueza do patrimônio cultural do Estado, a sua
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Dentre outros conceitos e autores não citados. Os que aqui foram referenciados constam em EXENI, 1998, pp. 90-91.
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vocação para as indústrias culturais e o ambiente de transformação tecnológica e digital.7
Sendo assim, o Trem do Samba é a concretização de um projeto cuja demanda social foi atendida pelo poder público estadual. Esta colaboração fica clara no trecho da matéria Samba sobre Trilhos, divulgada no site do referido órgão:
Uma novidade da edição desse ano é a Lona do Conhecimento, erguida na Rua Átila da Silveira, esquina com a Rua Carolina Machado, em Oswaldo Cruz. Segundo Marquinhos, a ideia inicial era fazer o Trem do Samba se espalhar pela cidade. “Mas a Secretária de Estado de Cultura, Adriana Rattes, me chamou atenção para não pulverizar demais a festa. O bacana do Trem do Samba é Oswaldo Cruz, então as pessoas têm que ir lá conferir o que está acontecendo”, explica. 8
Assim como o Pagode do Trem e outros eventos já citados como a Feira das Yabás, a inclusão de Oswaldo Cruz no projeto da prefeitura Bairro Maravilha afirma a inclusão do bairro nos marcos das políticas públicas em âmbito local. Esses programas, entretanto, são em geral limitados e muitas vezes realizam obras de infraestrutura que removem moradores e alteram áreas históricas. É fácil notar a exploração cultural de Oswaldo Cruz sem a realização de importantes obras de infraestrutura como rampas para atravessar a estação de trem e a despoluição do fétido rio que atravessa o bairro. Certamente a concretização de projetos como o Trem do Samba com apoio estatal é uma vitória, principalmente porque este é afirmação e visibilidade de uma cultura popular através de um evento gratuito em um bairro do subúrbio. É a realização de um projeto que nasce de atores sociais engajados na afirmação do samba e de um bairro da zona norte. Entretanto, a institucionalização também acarreta em alguns revezes que vão contra a sua proposta inicial: a cada ano que passa a comemoração do Dia Nacional do Samba no Rio de Janeiro vai se resumindo ao evento do trem em si, esvaziando seu significado simbólico. Desde o ano passado a festa principal não se dá mais no dia 02 de dezembro e sim no sábado próximo. O que pode ser uma tentativa da prefeitura de organizar a festa fora dos dias úteis para não “afetar” a Supervia. Deste modo, o dia do samba vira dia do Trem do Samba. 7
Disponível em: < http://www.rj.gov.br/web/sec/exibeconteudo?article-id=140931>. Acesso em: 10 de janeiro. 2013. 8
Disponível em: <http://www.cultura.rj.gov.br/materias/samba-sobre-trilhos>. Acesso em: 10 de janeiro. 2013.
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A realização do Trem do Samba costumava ser integrada às outras celebrações tradicionais do Dia Nacional do Samba a exemplo da lavagem da Pedra do Sal seguida de samba e feijoada. Entretanto, a prefeitura, os patrocinadores e os promotores divulgam o evento isolado, não acoplado às outras festas, o que se intensifica pela já citada alteração da data da comemoração. Endossando essa posição, um frequentador da Pedra do Sal postou no facebook sobre o esvaziamento do dia 02 de dezembro deste ano naquele espaço: Um dos problemas causados pela comemoração do “dia nacional do samba” (02/12), no sábado dia 01/12 [é] o esvaziamento das comemorações na pedra do sal... eles conseguiram, através da institucionalização do dia, com o aval de muita gente do mundo do samba, consciente ou inconscientemente!!! Ano que vem temos que reverter isto!!! Antes reclamaram que quando caía dia de semana "tumultuava" a Central do Brasil, no domingo tumultuaria o que???? Dia 2 é dia 2 ...você não concorda?9
7 – Considerações Finais:
Ao longo deste trabalho desenvolvemos a hipótese de que o percurso férreo da Central do Brasil à Oswaldo Cruz é uma paisagem sonora do samba carioca, focando nos processos de desterritorialização e reterritorialização que este bairro sofreu historicamente. Sua redefinição como berço do samba pôde se concretizar através da revitalização local deste gênero musical a partir da atuação de atores sociais engajados com a colaboração de políticas públicas para o setor cultural, que no Rio de Janeiro tem uma grande expressão do samba. Endossamos a proposição já exposta acima da conquista do reconhecimento oficial de uma manifestação popular de raiz negra, que pode contar com o apoio do Estado para sua perpetuação, principalmente em regiões menos favorecidas da cidade, como é o caso de Oswaldo Cruz. Tudo isso reafirma a necessidade de mobilização e engajamento da sociedade para o triunfo de projetos como estes, que são demandas socioculturais específicas que não são contempladas pela lógica capitalista das indústrias culturais. Entretanto, é importante estar atento aos rumos que a institucionalização de eventos como este pode causar, como foi o caso dos desfiles das escolas de samba. Frente às
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No ano de 2012 o dia 02/12 caiu em um domingo. Disponível em: <https://www.facebook.com/wilson.guedes.35/posts/217300205070874>. Acesso em: 11 de dezembro. 2012.
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questões colocadas pelos órgãos governamentais e pelas pressões dos patrocinadores (principalmente os privados em busca de promoção) é crucial a vigília dos grupos sociais engajados na cultura do samba para que o Pagode do Trem e o Dia Nacional do Samba conservem seu caráter popular, de resgate e manutenção de uma tradição musical que se atualiza, posto que é histórica, mas que deve manter laços com sua ancestralidade para permanecer culturalmente rica. A partir desta exposição, algumas questões serão levantadas para uma futura reflexão, mas que necessitam continuar sendo foco de pesquisas para sua melhor elucidação: Será que privilegiar o Trem do Samba como único foco de comemoração do dia 02 de dezembro é para vender mais Antártica, a “Boa do Samba”, já que ela é patrocinadora do evento e tem exclusividade, o que não acontece nas outras celebrações? Ou porque facilita a cobertura da Globo Rio? Será que a Supervia deve ser poupada de “tumulto” em dias de semana, já que, são os próprios usuários do trem os primeiros a encher os vagões dedicados ao samba? Será que a prefeitura tem pretensões de transformar o Trem do Samba em uma espécie de Rock in Rio da zona norte para se vangloriar da visibilidade e experiência social que eventos como esse proporcionam? Bom, estas questões ficam para uma outra oportunidade de pesquisa!
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8 – Referências bibliográficas EXENI R., J. L. Políticas de comunicación: retos y señales para no renunciar a la utopia. La Paz: Plural Editores, 1998.
GRAMSCI, A. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
HALL, S. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Tradução e revisão de Ricardo Uebel, Maria Isabel Bujes e Marisa Vorraber Costa. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/NECCSO/downloads_pesquisadores.htm>. Acesso em: 29/05/2012.
________. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Organização Liv Sovik; Tradução de Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: UFMG; Brasília: UNESCO, 2003.
HERSCHMANN, M.; QUEIROZ, T. Balanço da experiência sonora e lúdica da edição 2011 do Rock in Rio. In: FERNANDES, Cíntia S.; MAIA, João; HERSCHMANN, Micael. Comunicação e Territorialidade: Rio de Janeiro em cena. São Paulo: Anadarco Editora, 2012.
HERSCHMANN, M. Diversidade Cultural e desenvolvimento local sustentável hoje. Revisitando o estudo de caso do circuito do samba e choro da Lapa – avaliando oportunidades e desafios. Trabalho apresentado ao GT « Economia Política e Políticas de Comunicação ». XVIII Encontro da Compós. PUC-MG , Belo Horizonte, 2009.
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SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA DO RIO DE JANEIRO. Colaboração de Marianna Salles Falcão. Samba sobre trilhos. Disponível em: <http://www.cultura.rj.gov.br/materias/sambasobre-trilhos>. Acesso em: 10 de janeiro. 2013.
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8 – Sites consultados <http://portalgeo.rio.rj.gov.br/armazenzinho/web/BairrosCariocas/main_bairro.asp?area=088>
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Oswaldo_Cruz_(bairro_do_Rio_de_Janeiro)>
<http://tremdosamba.com/>
<https://www.facebook.com/Dia.Mondial.do.Samba>
<https://www.facebook.com/tremdosamba>
<https://www.facebook.com/wilson.guedes.35?fref=ts>
<http://www.ufrgs.br/NECCSO/downloads_pesquisadores.htm>
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