Skip to main content

O Bloco Chave de Ouro nos tempos da ditadura militar: a trajetória de um rebelde folião!

Page 1

O BLOCO CHAVE DE OURO NOS TEMPOS DA DITADURA MILITAR: a trajetória de um rebelde folião! Giuliana Caetano

carnaval ditadura cultura popular censura Trajetória do bloco Chave de Ouro e seu tradicional desfile, às quartas-feiras de cinzas, no carnaval carioca. Perseguidos pela polícia, seus foliões transformam o bloco num centro de resistência e rebeldia, sob intensa pancadaria. Com base em registros jornalísticos, foram levantados enfrentamento e adversidades que confirmam as regras da festa carnavalesca: liberdade, alegria e inversão cotidiana. Chave de Cadeia O bloco Chave de Ouro há vários anos insiste em desfilar na quarta-feira de cinzas e toda vez paga caro na sua devoção a Momo. Este ano pra variar, a Polícia desceu o pau no lombo do pessoal do Chave de Ouro. Dizem que a turma apanhava sambando e cantando em coro: “Olha o pau! Olha o pau!”1

O Jornal do Brasil e o Correio da Manhã, em suas edições de 29 de fevereiro de 1968, noticiavam táticas de guerrilha adotadas pelos foliões. Em 20 de fevereiro de 1969 o JB informava o uso de gás lacrimogêneo do Dops2 para conter e impedir que o bloco desfilasse; o título, “CHAVE DE OURO SAI EM LUTA CONTRA O LACRIMOGÊNEO DO DOPS”, sinalizava um fato recorrente. Ainda nessa edição destacava-se que o Chave de Ouro conseguira burlar forte aparato policial e

CHAVE DE OURO CARNIVAL BLOCK DURING THE MILITARY DICTATORSHIP: THE STORY OF A REBEL REVELER! |The history of the block Chave de Ouro [key of gold] and its traditional parade on the Ash Wednesday of Rio Carnival. Persecuted by the police, the block’s revelers made it a focus of resistance and rebellion, confronting violent brawls. Based on press cuttings, adversities and confrontation were analyzed to confirm the rules of carnival festivities: freedom, joy and a makeover of everyday life. | Carnival, dictatorship, folk culture, censorship.

desfilara em grupos pequenos. Houve choque entre policiais, populares e fotógrafos, duas prisões e muitas bombas de gás lançadas pelo Dops. Entre os integrantes do Chave de Ouro detidos estava um rapaz de nome Sérgio, que se identificou como tenente aspirante do CPOR.3 Apesar disso, segundo o Fragmentos de notícias em jornais do bloco Chave de Ouro A R T I G O S | G I U L I A N A C A E TA N O

45


Lacrimogêneo do DOPS Fonte Jornal do Brasil, 12 de fevereiro de 1970, p.1

periódico, foi “metido dentro de uma viatura po-

Brasil de 12 de fevereiro de 1971, o bairro herdara

licial”. Sobre a violência utilizada pelos policiais,

o nome de uma padaria – a maior do subúrbio,

o jornal informa que o tenente que os comandava

dizia ele – aberta, num largo, há mais ou menos

lhes pediu calma e os proibiu de usar o cassetete

40 anos a contar daquela data, por um “patrício”.

indiscriminadamente.

De acordo com o caixeiro, depois o nome pegou,

A história desse bloco é a de um movimento

e toda aquela parte do Engenho de Dentro pas-

4

cultural contestatório das medidas de proibição,

sou a ter o nome da padaria.

derivadas da junção Igreja-Estado, impostas pela

Os foliões desfilavam, normalmente, ao meio-dia da

polícia. Não sendo legalizado e desfilando na

quarta-feira de cinzas, duramente reprimidos por po-

quarta-feira, dia em que eram proibidas quaisquer

liciais e tendo, muitas vezes, contra o desfile, comer-

manifestações carnavalescas, era tratado como organização criminosa pelos vigilantes. O bloco Chave de Ouro leva o nome de um bairro extraoficial, no subúrbio do Rio de Janeiro, localizado entre Méier e Engenho de Dentro. De acordo com o depoimento de um caixeiro ao Jornal do

46

A r t e & Ens a i os | r ev is ta do ppg a v /eba /uf r j | n. 3 0 |

ciantes, que perderiam a clientela, graças à confusão com a polícia, e teriam seu patrimônio depredado. Com o endurecimento da censura e o controle dos meios de expressão popular, na década de 1960, típicos de regime autoritário, o período ditatorial brasileiro tem em si inserida a fragilidade cultural

d e ze mb ro 2015


e política de seu governo. O recorte aqui apre-

Para definir o Chave de Ouro no período ditato-

sentado foi escolhido em função da particulari-

rial, além de pesquisa bibliográfica, foram anali-

dade do governo militar em caracterizar qualquer

sados alguns dos principais jornais que circulavam

tipo de contrariedade à polícia como subversão e,

na cidade do Rio de Janeiro no período de 1964 a

portanto, dotado de consciência política, tendo,

1972 – Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Última

assim, necessariamente que ser coibido. Embora

Hora e O Globo, consultados na Fundação Biblio-

a repressão ao desfile desse bloco ocorra desde a

teca Nacional, no Rio de Janeiro –, focalizando a

época de sua criação, a questão da liberdade de

forma como se expressavam com relação ao des-

expressão, dentro do recorte temporal aqui pro-

file daquele bloco,.

posto, vai adquirir um caráter de proibição jamais visto na história brasileira. O ato de ir de encontro à lógica policial vai fazer com que a visão dos militares quanto a esse bloco sofra uma mudança com relação aos anos anteriores. Naquele período, quaisquer que fossem as manifestações contrárias à polícia, além de contraventoras, também eram

Poucos relatos inéditos foram encontrados sobre essa agremiação, o que não inviabilizou o processo de identificação de suas atividades e a atuação de seus agentes Reunindo informações dos periódicos e bibliográficas e as somando a depoimentos e entrevistas, estabeleceu-se breve histórico,

consideradas manifestações subversivas, ainda que

que amplia a compreensão desse bloco.

o cunho político não fosse claramente revelado.

Com relação à data de criação do bloco, as 14 edi-

A partir do estudo da censura ao carnaval, che-

ções de jornais analisados traçam um panorama de

gou-se a esse caso particular no Engenho de Den-

possibilidades entre 1933 e 1952, o que dificulta

tro. O Chave de Ouro foi analisado em função de

precisar a informação. Desses 14, sete jornais re-

ser exemplo perfeito de uma festa contestatória,

velam 1942 como o ano mais provável e quatro

mesmo que indireta ou sem intenção de questio-

1940, 1943, 1945 e 1946, somando, portanto, 11

namento político, do regime militar. Tendo por

registros de início do bloco nos anos 40, o que de-

base a análise da festa carnavalesca durante esse

manda atenção especial para esse período.

período de governo e a perseguição a essa festa, essa escolha constitui a melhor expressão da censura ao carnaval popular da época. A correria da polícia e a insistência em desfilar, ano a ano, podem ser consideradas exemplo da resistência de um dos meios de expressão popular.

Um dos motivos pelos quais as datas de criação são divergentes pode ser explicitado na não oficialização do bloco até sua liberação, só permitida graças ao bloco ter um responsável legal junto à Secretaria de Segurança. Sem qualquer documento oficial ou registro de início, o noticiado nos jor-

Compreende-se então o desfile do bloco Chave de

nais depende diretamente dos depoimentos dos

Ouro como uma festa carnavalesca; um espaço

moradores do bairro ou dos fundadores do bloco.

de tensão política em que há conflito de ideias, identificando-se as bases para esta afirmação na trajetória da instituição. Há, então, um diálogo entre espaço/poder/festa e esse caso específico do carnaval do subúrbio carioca, duramente reprimido pelo regime militar brasileiro.

De acordo com Herminio Marques, morador do bairro e atual diretor do bloco, em entrevista a Omar Blanco,5 o Chave de Ouro foi fundado na década de 1940 dentro de um cinema do Engenho de Dentro, o Cine Engenho de Dentro, hoje

A R T I G O S | G I U L I A N A C A E TA N O

47


substituído por um prédio dos correios, o que

pública, ou até mesmo política, porém simbolizan-

confirma as versões de Araújo , Costa e Pimen-

do o fim do carnaval e seu enterro no ano vigente.

6

7

tel.8 Na quarta-feira de cinzas aquela sala costumava exibir filmes de carnaval, até que um morador local, chamado de Zé Macaco, ali entrou com um surdo a fim de acompanhar a exibição, sendo então seguido por outros instrumentistas.

cuja atuação será delimitada pela convenção social, identificaram-se, nos jornais, diversos pensamentos divergentes e similares dentro dos grupos analisados. Há que ser levado em consideração o

Segundo as edições do Jornal do Brasil de 10 de

fato de que não há categoria rígida nesses gru-

fevereiro de 1972, 24 de fevereiro de 1966 e 13

pos (moradores, policiais e comerciantes), e suas

de fevereiro de 1971, Macaco, um alfaiate conhe-

divergentes opiniões aparecem transitando entre

cido na região, lamentava o fim da folia. Fazia

favoráveis e contrárias à saída do bloco, mesmo

hora para a sessão do Cine Engenho de Dentro,

que a maioria, os policiais, por exemplo, fosse

que exibia dois filmes na quarta-feira, um deles sobre carnaval. Segundo o JB de 1972, quando faltou luz no cinema, a rapaziada improvisou uma batucada nas cadeiras de madeira. Então, o lanterninha do cinema, Azeitona, que tocava surdo

desfavorável. Este artigo trata também da aplicação do conceito de festa enquanto espaço de tensão política e, portanto, da identificação das vozes presentes

no carnaval e tinha emendado da folia para o tra-

nos relatos jornalísticos, dos diversos grupos inse-

balho, pegou o surdo que havia deixado na sala

ridos no Chave de Ouro, das tradicionais conven-

da gerência e acompanhou o ritmo da batucada

ções da festa carnavalesca do subúrbio.

nas cadeiras. Terminado o filme, os espectadores

Importa destacar que o posicionamento da

continuaram a batucada rua afora, até o grupo se dispersar. Azeitona foi demitido no dia seguinte, e o dono do cinema, com a “pulga atrás da orelha”, ficou à espera do próximo carnaval.

maior parte das matérias publicadas nos jornais é favorável à saída do bloco, desde os anos iniciais. Com relação aos moradores, a postura não é diferente – uma senhora do bairro define o Chave

O bloco não era composto apenas de moradores

de Ouro como “um bloco todo de família”10 –,

das imediações do cinema, como afirma Pimentel,

mas vai além, emprestando-lhe presença e apoio,

mas de pessoas residentes nas ruas Adolfo Berga-

bem como abrigando os foliões quando do

mini, Dias da Cruz e outras do Engenho de Dentro,

confronto com a polícia. Algumas táticas para

além de alguns foliões de outros bairros. Segundo

garantir a saída do bloco também contavam com

a edição do Correio da Manhã de 24 de fevereiro

a participação dos habitantes do bairro:

de 1966, o Chave de Ouro tinha ajuda do comércio local e desfilava durante algumas horas.

48

Tratando-se a festa como um espaço de tensão, e

Minutos após a polícia se retirava ao som de uma bateria que de cima de um telhado volta-

Segundo o atual diretor do bloco, Sr. Herminio,

va a rufar, enquanto alguns moradores, baixi-

“todos gingavam, sambavam e vinham pra rua”,9

nho, cantavam a música-enredo do bloco:

onde havia confronto com a polícia. Conta ele tam-

‘Com briga não se arruma nada,/O nosso blo-

bém que, desde seus primeiros desfiles, o bloco

co é mesmo de amargar,/O bloco sai, a polícia

levava um caixão com nomes de pessoas da vida

não quer, a polícia não quer, ô, ô...’.11

A r t e & Ens a i os | r ev is ta do ppg a v /eba /uf r j | n. 3 0 |

d e ze mb ro 2015


Analisando o relato do Jornal do Brasil, o fato de alguns foliões tocarem sua bateria em cima de um telhado pressupõe a existência de uma casa e sua abertura pelo morador à atuação dos foliões. Ainda nesse recorte, verifica-se atuação mais específica de alguns dos residentes, que, de acordo com o jornal, cantavam a música do bloco daquele ano, mostrando sua posição favorável ao desfile. Outra marca dessa parti-

Tradição de pé Fonte Jornal do Brasil, 29 de fevereiro de 1968: 20

cipação na fuga e expressão de contrariedade à atuação da polícia é verifi-

Além de forte presença nas fugas, os moradores

cada no trecho a seguir. Além da clara expressão

tinham participação quase ativa nos desfiles do

da utilização das residências como rota de fuga,

Chave de Ouro. De ano em ano, os jornais no-

o posicionamento de grande parte da população

ticiavam a presença deles e outras pessoas no

que residia no Engenho de Dentro está estabeleci-

público espectador do bloco: “populares que

do no diálogo entre uma moradora e um policial:

se encontravam nas imediações passaram a se

Outro homem consegue invadir a residência apavorado, e foge pelos fundos. A PM se concentra em frente à casa. Populares são afastados a cassetetes. O homem (um escuro) que a PM prendeu é agredido e preso na Radiopatrulha 8-191. Os moradores ficam revoltados.

deslocar para as ruas adjacentes à Adolfo Bergamini e, por etapas, deram início ao desfile do bloco”. E, como todo público fiel, “Assim que a PM voltou a seus carros, os moradores voltaram a reunir-se nas ruas, novamente prejudicando o trânsito”.13

Uma senhora se aproxima e diz:

De maneira indireta, os habitantes daquela região

– Moço não precisa bater tanto assim, que co-

possibilitavam a saída do bloco e dificultavam o

vardia, ele estava apenas brincando.

controle da polícia. O tumulto causado pelo pú-

– A senhora passou o carnaval todo dormindo,

blico era tamanho, que chegava a ponto de atra-

eu fiquei acordado para zelar pela segurança

palhar o trânsito da cidade, o que facilitava a fuga

da cidade, comigo é na lei do cão, carnaval já

das pessoas. Em meio à confusão de público de

acabou e eu não brinquei nada.12

mais de dez mil pessoas – de acordo com o Cor-

A R T I G O S | G I U L I A N A C A E TA N O

49


que nada tinham a ver com desfile entre elas um rapaz que tem uma das pernas defeituosa – foi espancado por 12 policiais da PM”.14 O papel fundamental dos residentes locais, porém, não estava no empréstimo das casas para rota de fuga nem em sua visão contrária à atuação dos policiais, mas na divulgação do bloco. Sendo o boca a boca a principal forma de divulgação dos desfiles, locais de concentração etc. o Chave de Ouro quase dependia dos populares presentes nos locais para que o público espectador acompanhasse seu desfile, ou tentativa.

Desfile liberado. Fonte Jornal do Brasil, 17 de fevereiro de 1972, p.25

reio da Manhã de 17 de fevereiro de 1971 –, era difícil aos policiais controlar algo. De qualquer maneira, a chegada da polícia ao local não causava mais espanto ou surpresa alguma aos moradores, já acostumados a vê-la em ocasiões anteriores. E, de fato, não haveria motivo para

50

Segundo o depoimento do Sr. Acyr Pereira de Melo, morador antigo do bairro e um dos fundadores do bloco, conhecido e tratado pelo apelido de Barbante, a maior parte dos moradores era favorável à saída do bloco. Afirma, porém, que “tem gente que não gosta nem de doce”, referindo-se à possibilidade de existir pessoas que não gostam do que a maioria gosta. Isso revela uma parte da população local, que era contrária à saída do bloco, embora sua presença não tenha sido identificada nos periódicos analisados.

esperar surpresa, visto que, em diversos relatos,

De acordo com Barbante, a maioria das casas fica-

o cassetete da PM sobrava para todos, incluindo

va aberta, os foliões entravam em qualquer uma,

quem nada tinha a ver com o bloco: “os policiais

e a comoção era geral. Quem pudesse esconder

começaram a espancar os presentes e pessoas

os participantes do bloco fazia isso.

A r t e & Ens a i os | r ev is ta do ppg a v /eba /uf r j | n. 3 0 |

d e ze mb ro 2015


Sobre a visão do comércio, há duas relações ex-

vandalismo, as ameaças e as chantagens de de-

pressas. Uma parte dos comerciantes declarava

terminados elementos integrantes do grupo’”.17

nada ter contra o bloco e até reclamava da polícia, contribuindo, aliás, para a fuga dos participantes. A parte favorável do comércio incluía a tentativa de postergar o confronto com a polícia. De acordo com Barbante, o dono de uma das farmácias que ali funcionavam na época nem deixava a polícia entrar, já que diversos foliões se escondiam no local. A documentação de faixa em que se lê “Santana Alfaiate sauda os foliões do Chave de Ouro” atesta o apoio do comércio. Outra parte dos comerciantes, entretanto, era contrária à atuação do bloco. Essa parcela era visada pelos rapazes do bloco, uma vez que o carnaval local era produzido pelos mesmos participantes que desfilavam na quarta-feira. Aqueles comerciantes que não ajudavam no carnaval local tinham seus nomes colocados no caixão do Chave de Ouro e eram vítimas de gozações, como mostra o trecho a seguir: “Por outro lado, os comerciantes que são visados pela turma do bloco, vítimas de gozação e impropérios, buscam por todos os meios fomentar a guerra com a polícia, dizendo que são vítimas de quebras e que têm prejuízos generali-

Na perspectiva das autoridades, então, o vandalismo do Chave de Ouro desrespeitava a lei e a ordem, e, por depredar casas comerciais, o bloco deveria ser proibido de sair. Outro argumento que consta no Jornal do Brasil de 29 de fevereiro de 1968 é o de que, além de o bloco não ser legalizado, seus integrantes ofenderiam os moradores do bairro, cantando músicas obscenas. O Correio da Manhã informa que a visão da polícia é no sentido de que “a intenção do pessoal que organiza é prejudicar os comerciantes que não deram dinheiro para o carnaval e isso a polícia não pode permitir”.18 No ano seguinte, o general Luis França, secretário de Segurança, declarou ao mesmo periódico: “o Bloco Chave de Ouro, que sai na Quarta-Feira de Cinzas, do Engenho de Dentro, poderia se transformar em mais uma atração do nosso Carnaval, se houvesse um responsável pela saída do bloco. O general França disse nada ter contra o bloco, mas que não pode tolerar o desrespeito à lei e à ordem”.19 Ainda a respeito da visão da polícia e das autori-

zados”.15

dades, em 1967 trata-se de um motivo até então

Sob o mesmo ponto de vista, em 1964, o Jornal

ticipantes, numa verdadeira operação de guerra

do Brasil noticiava que a Polícia Militar, naquele ano, teve que fazer uso de quatro choques para dispersar o Chave de Ouro, que desfilava “com cartazes de crítica política e disposição de depredar os estabelecimentos comerciais que não colaboram com o carnaval do bairro”.16

não noticiado. Após confusão entre polícia e parmontada pela PM para impedir o bloco de desfilar, com os ânimos exaltados, chegou ao local o chefe de Relações da corporação, capitão Jorge Francisco de Paula, pedindo calma aos mais assustados. Reunindo os líderes do Chave de Ouro e tentando entrar em entendimento com seus superiores,

De acordo com o Jornal do Brasil de 12 de feve-

não conseguiu permitir a saída do bloco, já que

reiro de 1970, sob o título “COMÉRCIO PEDIU”,

eles alegaram que o carnaval já havia terminado

“O secretário de segurança general Luís França de

no dia anterior e que a quarta-feira deveria ser

Oliveira afirmou que todos os anos a polícia vem

respeitada por marcar o início da Quaresma. De

recebendo solicitações ‘para que seja impedido o

acordo com entrevista concedida por Acyr Pereira

A R T I G O S | G I U L I A N A C A E TA N O

51


de Mello, o Barbante, o motivo da polícia era

o JB, ratificando o depoimento de Barbante, um

sempre pela causa religiosa. Em sua opinião, o

aspirante do CPOR também foi preso no desfile do

carnaval terminava rigorosamente na terça-fei-

Chave de Ouro. Diferentemente do cadete Ivan,

ra à meia-noite, e, de acordo com a polícia, o

Barbante nunca foi preso, mas já levou muita pan-

dia deveria ser de resguardo. Antes do Chave

cada com o cassetete de borracha: “Machucava

de Ouro, ele informa, existira o extinto Bloco

mais que pau. Aquilo quando pegava, meu ami-

da Vela, não noticiado e duramente reprimido

go, fazia um lanho nas costas”, disse o depoente.

pela polícia, pois saía exatamente à zero hora da quarta-feira.

uma parte dos oficiais que eram favoráveis à saída

Nesse sentido, além de o Chave de Ouro ser mar-

do bloco. Outro fundador do Chave de Ouro, mi-

ginalizado e seus participantes tratados como

litar e membro do Corpo de Bombeiros, conta que

perturbadores da ordem pública, seu desfile des-

não havia, entre os participantes, distinção entre

respeitava também a marca religiosa presente no

militares e civis. De acordo com seu depoimento,

país. Embora não mais Estado religioso desde

entre os presos de certa ocasião estavam capitães,

1889, o país ainda guardava grandes relações com

tenentes e diversos outros, que eram integrantes

a Igreja católica, tratando a quarta-feira como o

das forças armadas e também moradores da re-

primeiro dia de penitência e início da quaresma,

gião, e saíam no bloco quando não estavam a

quando já não deveria mais haver nenhum tipo

serviço de suas corporações.

de festejo carnavalesco. Vale ressaltar ainda que as leis brasileiras foram baseadas num Estado em que a relação Igreja/Estado era bastante estreita.

O Chave de Ouro teve seus desfiles liberados em 1972, e a edição de 17 de fevereiro do Jornal do Brasil mostra foto de sua primeira saída às ruas

Essa relação também é encontrada no fato de o

sem briga com a polícia e até com seu apoio, bem

bloco utilizar um caixão, simbolizando um ritual

como do delegado Gomes Sobrinho e do adminis-

fúnebre, também proveniente das religiões judai-

trador regional Gélson Guilherme dos Santos. O

co-cristãs, como o caso do catolicismo.

abre-alas, de acordo com o jornal, ficou por conta

Claramente contrária ao desfile do bloco, a po-

52

Barbante em si já é um grande paradigma e revela

de dois carros da polícia.

lícia, aparentemente, não contava com cem por

Muitos ficaram descontentes. Achavam que o

cento de seu contingente quando se tratava da

Chave de Ouro tinha perdido seu propósito, que-

repressão ao Chave de Ouro. De acordo com o

brando a tradição de mais de 30 anos, e perden-

Jornal do Brasil, os participantes saíram, em 1968,

do, por isso, sua razão de ser. “Entre os descon-

cantando paródias das músicas, enfrentando os

tentes, estavam diversas senhoras que afirmaram

soldados comandados pelo capitão Paulo Rama-

se divertir muito mais com o ‘pau comendo’ do

lho, antigo participante do Chave de Ouro.

que com discursos”.20

De acordo com Barbante, que também era militar,

Esse bloco revelava, enquanto festa, uma ruptu-

muitos outros da região saíam no Chave de Ouro,

ra parcial no cotidiano do bairro do Engenho de

entre eles um capitão e um coronel. Este último,

Dentro, em que o diálogo entre espaço, poder

na época, era o cadete Ivan, e, em certa ocasião,

e festa ficava expresso. Ano após ano, a polícia,

também foi preso pela polícia. Em 1970, segundo

agente do governo, tentava manter o sistema

A r t e & Ens a i os | r ev is ta do ppg a v /eba /uf r j | n. 3 0 |

d e ze mb ro 2015


simbólico, a lei e a ordem, mesmo nos dias da fo-

5

lia, embora os foliões tentassem fazer o contrário.

com/2013/02/24/o-bloco-carnavalesco-chave-de-ou-

A partir da perspectiva histórica traçada em con-

Disponível

em

https://terraypraxis.wordpress.

ro-2/, acesso em 19/12/2013.

junto com os depoimentos, pôde-se identificar

6 Araújo, Hiram. Carnaval – seis milênios de história.

as diferentes vozes presentes nos discursos, que

Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.

caracterizavam o Chave de Ouro enquanto festa,

7 Costa, Haroldo. 100 anos de carnaval no Rio de

apesar de com um quê de manifestação política. A festa a priori, que não havia sido criada para ser consumida como espetáculo, como sugere Rosa,21 incluía milhares de seguidores ano a ano e, com isso, atrelada ao endurecimento do regime

Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Irmãos Vitale, 2001. 8 Pimentel, João. Blocos – uma história informal do carnaval de rua. Rio de Janeiro: Relume Dumará, Coleção Arenas do Rio. 2002.

militar, maiores eram a repressão da polícia e seu

9

aparato. Numa eterna disputa, havia a tentativa

com/2013/02/24/o-bloco-carnavalesco-chave-de-ou-

de reafirmar hegemonia por parte da polícia e a

ro-2/, acesso em 19.12.2013.

dos foliões, que tentavam reconquistar os espaços

10 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24.2.1966: 5.

por ela interditados. Como visto, o imaginário produzido por esse bloco remete a uma época em que a produção de cultura era vinculada aos ideais do Estado e controlada por ele. Essa situação de proibição fazia com que a maior parte dos foliões do Chave de Ouro, ou

Disponível

em

https://terraypraxis.wordpress.

11 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20.2.1969: 5. 12 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20.2.1969: 3. 13 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9.2.1967. 14 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 24.2.1966: 3.

dos moradores locais, fosse adepta de sua saída,

15 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17.2.1971: 13.

numa conjunção de elementos que facilitassem seu

16 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13.2.1964: 5.

desfile, ainda que ele durasse apenas três minutos. De uma coisa os moradores tinham certeza: não importava, por maior que fosse, o aparato policial; o bloco arranjaria um jeito de desfilar, para desgosto da polícia, das autoridades e de uma parte dos comerciantes ou de quem quer que fosse.

17 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12.2.1970: 3. 18 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13.2.1970: 6. 19 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25.2.1971: 12. 20 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17.2.1972: 4. 21 Rosa, Maria Cristina (Org.). Festa, lazer e cultura.

Notas 1 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9.3.1965, Segundo Caderno: 2. 2 Departamento de Ordem Pública e Social.

São Paulo: Papirus Ed, 2002.

Giuliana Caetano é artista, licenciada em artes

plásticas, mestre em artes visuais pela EBA/UFRJ com bolsa Capes. Este texto é parte da disserta-

3 Curso Preparatório de Oficiais da Reserva.

ção defendida em abril de 2015, com orientação

4 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20.2.1969: 1.

da professora doutora Helenise Guimarães.

A R T I G O S | G I U L I A N A C A E TA N O

53


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
O Bloco Chave de Ouro nos tempos da ditadura militar: a trajetória de um rebelde folião! by Portal Academia do Samba - Issuu