XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – João Pessoa – 2012
Permanências e deslocamentos das tradições musicais africanas na cidade do Rio de Janeiro Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Denise Barata - baratadenise@yahoo.fr
Resumo: Neste texto apresento os resultados parciais da pesquisa onde, a partir da diáspora africana, examino a relação do paradigma lógico-ocidental com as práticas musicais improvisadas no Rio de Janeiro, no período entre 1890 e 1950. Através de estudos comparativos entre as práticas celebratórias negras e os desfiles das escolas de samba, analiso a passagem da supremacia do samba de partido alto para o samba de enredo, nas décadas de 20 a 50. Busco também compreender o processo de folclorização da música negra improvisada e descrever as transformações ocorridas no samba carioca partir da sua incorporação ao projeto de nação e à indústria cultural, passando de rito à música. Palavras-chave: Diáspora, Tradição, Música Negra, Africanidade, Identidade Nacional.
Remains and Displacements of the African Music Traditions in the City of Rio de Janeiro Abstract: In this paper I present the partial results of a research where, beginning from the African diaspora, I examine the relationship of the logical western paradigm with the improvised musical practices in Rio de Janeiro, between the years 1890 and 1950. Through comparative studies of the black celebratory practices and the parades of the samba schools, I analyze the passage of the supremacy of “partido alto” samba to the “enredo” samba, from the 20’s to the 50’s. I also seek to understand the process of folklorization of improvised black music and describe the changes in samba since its incorporation into the project of nation and the cultural industry, from ritual to music. Key-words: Diaspora, Tradition, Black Music, Africanness, National Identity.
O trânsito simbólico entre a costa africana e o continente americano na modernidade e a criação de um mundo Atlântico tem demonstrado a conexão de eventos envolvendo africanos escravizados e seus descendentes nas Américas com determinados grupos étnicos e acontecimentos na África (...) sugerindo a revitalização de modelos existentes de análise da diáspora africana, especialmente nas dimensões culturais.(Thornton, 2003, p.17).
Assim estabeleceu-se nas Américas uma cultura cheia de similaridades sendo que alguns vestígios foram localizados em camadas mais visíveis, com destaque à música improvisada, ao respeito à monarquia e aos mais velhos. Restringindo-me à musica, são perceptíveis os estilhaços de um imenso caleidoscópio diaspórico americano pleno de sonoridades que não se deixaram aprisionar. Materializados em festas e celebrações, os conhecimentos negros são construídos quando os membros da comunidade se reúnem e relembram suas histórias (cantando, tocando e dançando). De uma forma ritualizada, essas práticas referenciam e recriam o sentido originário do grupo, quando colocam em tempo real a tradição que precisa ser atualizada para se manter. A cidade do Rio de Janeiro, a eterna capital do país, foi o laboratório para a produção da idéia de democracia racial e também uma vitrine de um Brasil que se queria apresentar de
1793
XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – João Pessoa – 2012
maneira civilizada no exterior. Culturalmente e, especialmente, musicalmente, é perceptível uma tentativa de inclusão da cidade em uma idéia da mestiçagem, só aceitando a participação negra quando ela passa a fazer parte do folclore (entendido como uma pratica simbólica sem função social para o seu grupo de origem). O modelo de cultura, hegemônico no nosso país, se sustenta a partir de uma concepção que não rejeitou a contribuição dos negros africanos, colocando-os, porém, em uma posição secundária. Nele, o padrão utilizado baseia-se na cultura ibérica que é, posteriormente, acrescida dos elementos africanos e indígenas, dando origem ao modelo “luso-tropicalista” da cultura brasileira. E é essa idéia de mestiçagem que vai buscar prevenir os conflitos interétnicos, mantendo a superioridade da raça branca e colocando o negro ‘em seu devido lugar’ - de inferioridade. Em função de sua aproximação física e simbólica do paradigma branco, o mulato, vai se tornar o grande símbolo da participação ibérica em terras brasileiras. E isto pode ser percebido tanto no elogio aos seus ‘traços finos’, quanto na música miscigenada que passa a ser ‘melhorada’ com o predomínio da melodia. Mas a cultura brasileira não é uma síntese construída a partir da mistura de “três raças” originais, mas “um jogo de contatos, com vistas à preservação de um patrimônio comum na origem (embora diversificado na especificidade do ritual), onde ocorreu uma “aproximação dos contrários, negros e brancos, negros de diferentes etnias, (…) sem dissolução das diferenças numa unidade qualquer”. (Sodré, 199, p. 59) Quando escravizados em território brasileiro, os africanos tiveram suas formas de organização desestruturadas. Músicas e danças foram algumas das maneiras encontradas por eles para se reconstituírem e se reterritorializarem enquanto sujeitos e comunidade. E foi através dessas práticas que conseguiram reatar seus fragmentos simbólicos, reconstruindo e transmitindo suas memórias. Suas práticas simbólicas eram coletivas e, quase sempre, revestidas de uma intenção de celebrar e fazer pedidos para o grupo. Era através delas que se conversava com os deuses e com os ancestrais, sendo, por isso, desenvolvido por esses povos, um complexo ritual de vida que exigia, para a prática de cada ação realizada, uma invocação especial, através de cantos, danças, sabores, indumentária, adivinhações e acompanhamento de instrumentos variados. Desde o século XVII, essa população organizada em irmandades, fazia festas para a coroação de seus reis através de desfiles, cantando e dançando pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Essas festas foram proibidas pela polícia, mas os escravos e libertos encontraram brechas para driblar a proibição realizando-as em lugares distantes dos olhos da nobreza, fora do centro da cidade. Outras saídas foram encontradas como a associação dessas festas as
1794
XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – João Pessoa – 2012
celebrações católicas durante o ciclo de Natal que se encerrava no dia 6 de janeiro - Dia de Reis. Em lugar da saudação aos três reis magos, repetia-se a coroação de Balthazar, o rei mago negro. Também aproveitando os jogos e brincadeiras do período de carnaval, continuavam a promover as cerimônias de coroação dos reis e os desfiles de seus séquitos pelas ruas do centro da cidade, como uma encenação carnavalesca, com os cucumbis, cordões, ranchos, blocos e escolas de samba, dando continuidade a realização de visitas entre as várias nações com suas embaixadas. Assim, o que era um ritual, veio a se tornar aos olhos da elite um momento de lazer considerado como selvagem e causando temor. As festas ou reuniões familiares, onde se entrecruzaram bailes e temas religiosos, resignificaram as formas de sociabilidade, para continuarem a saudar, reverenciai e relembrar os ancestrais. Para manter suas tradições precisaram transformá-las, buscando brechas durante as festas populares européias e se adaptando à vida urbana. A contemplação dessas práticas simbólicas, que também tinham uma função mágica, antes, só existia para que os objetos pudessem exercer suas funções dentro do rito. Mas, a modernidade estabelece uma nova relação com esses objetos, passando a percebê-los, como estéticos, já desligados da sua função original. Assim, nas primeiras décadas do século XX, o rito vira música ou folclore. O receio da participação dos negros na instauração de fatos na memória e na construção da paisagem sonora nacional fez com que os ideólogos do estado-nação buscassem eliminar ou “refinar” os elementos de suas culturas. O que não pudesse ser “refinado” deveria ser mantido como folclórico ou difundido apenas de uma forma interna, em seu próprio grupo social. Ao final do século XIX, a população negra ocupou as ruas do Rio de Janeiro com seus interesses e ofícios, tornando-a um grande centro de diversificação étnica e uma cidade predominantemente negra. Ao se apropriarem da cidade como um espaço de encontro interétnico, suas festas foram encaradas como um confronto simbólico, sendo assim necessário reorganizar territorialmente as relações de dominação. Os batuques do século XIX, que estavam integrados a outras práticas simbólicas e que eram considerados como selvagens, precisaram se transformar para poderem ocupar um espaço durante as festas populares brancas e serem adaptados à vida urbana. Foram assim realizados ‘ganhos territoriais’ através do aproveitamento dos pequenos espaços que os negros encontravam na sociedade branca. Já no século XX, no alto dos morros e nos distantes subúrbios, a população negra insistia em colocar em circulação outra memória – outros lugares. Insistiam em realizar, nas ruas, festas que lembram o passado escravista (folias de reis, congadas, embaixadas, maracatus, carnavais), para desespero dos republicanos.
1795
XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – João Pessoa – 2012
O governo republicano aceita as práticas simbólicas de tradição negra para confiná-las em um campo onde elas são associadas ao folclore e suas as reminiscências à um passado imemorial e fadadas consequentemente ao desaparecimento; mas ao mesmo tempo como sendo portadoras de uma essência que era preciso preservar. Assim essas práticas são destituídas de toda as sua complexidade social e politica. Dentro dessa concepção, a cultura negra até poderia compor a identidade da nação brasileira, mas sabendo seu lugar, se adaptando, se civilizando – em outras palavras se misturando à cultura européia. Através do rádio, um dos instrumentos mais importantes na transmissão das idéias de unificação nacional, as vozes de Sílvio Caldas, Francisco Alves, Orlando Silva, Carmem Miranda, Ari Barroso, Mário Reis, foram difundidas e consideradas como as grandes divulgadoras do samba brasileiro. São elas, resultados de uma imagem brasileira que, precisava se livrar dos malandros, para ser divulgados no exterior e donos de vozes educadas dentro dos preceitos da escola do bel canto europeu. Assim coube a esses músicos a resignificação do samba para que ele pudesse ser difundido nos meios de comunicação. Apesar de afirmar o papel decisivo do samba nas tentativas de construção de uma unidade nacional, considero que na, chamada, década de ouro do rádio (meados da década de 30 e 40), o samba que se tornou a música "símbolo" do Brasil transformou as regras de identificação do lugar de pertencimento dos sambistas, eliminando o improviso, incorporando o bel-canto europeu, valorizando a suavidade do cantar e do tocar, a forma mais melodiosa do compor, apagando o som da batucada; relegando a um segundo plano as vozes e os corpos que mantinham vivas as matrizes arcaicas africanas. Só a mestiçagem musical possibilitaria a participação das tradições negras nessa busca de síntese do que deveria e poderia ser considerado como representante da música brasileira. Para tanto, a cultura negra-brasileira transformou-se, perdendo alguns elementos e incorporando tantos outros. Em uma dura luta pela sua continuidade simbólica, buscou novas formas de comunicação, realizando vários acordos e negociações, que levaram muitas vezes a descaracterizações e expropriações, mas sem a perda de seu fundamento. Quando em 1932, aconteceu na Praça Onze o primeiro desfile de Escolas de Samba, os sambas eram compostos de um refrão que era cantado por todos os seus componentes e por uma segunda parte que era improvisada pelos compositores da escola. Era o Partido Alto, gênero se construiu a partir da recriação dos vários elementos da musicalidade africana que ainda se encontravam na memória dos versadores: a improvisação, a repetição de um mesmo refrão, a utilização de instrumentos de percussão, o ritmo sincopado, a desfuncionalidade da escrita, a relação direta e imediata com todos os presentes (que são sempre participantes) e
1796
XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – João Pessoa – 2012
uma busca intensa da comunicação. Em 1933, a criação de um regulamento estimulou a apresentação de sambas com a segunda parte fixa, o que facilitou o julgamento, propiciando o fim do improviso no desfile com o desenvolvimento, ao final dos anos 40, de um novo estilo de samba: o samba de enredo. O samba, ao se tornar “música popular”, separa-se da dança, perde sua movência, abandonando, para ser gravado, a improvisação, mantendo, porém a sincopa. Em um desfile onde foram determinados os quesitos que seriam avaliados pelos juízes, o samba improvisado causava dificuldades. Como avaliar o que está em eterna transformação? Em uma avaliação, o indeterminado, neste caso o improviso, deve ser desconsiderado. A movência da palavra falada e cantada precisava ser controlada. O medo do imprevisível e do que foge ao controle, do que não pode ser compreendido através da lógica, termina por transformar as músicas das Escolas de Samba. Para poderem compartilhar esse espaço, criado dentro de um modelo ocidentalizante, as comunidades negras, mais uma vez, precisaram negociar com a forma hegemônica de pensamento, continuando, porém, a improvisar em seus espaços comunitários, mostrando que, se necessário, poderiam também compor sambas para serem julgadas e apreciadas por um outro público. Não pretendo afirmar aqui que existiu uma “manobra“ no sentido de destruição do Partido Alto nas escolas de samba. Quero sim, destacar a necessidade e os resultados da utilização de uma lógica ocidental para “organizar” uma prática negro-brasileira, considerada confusa. Por isso, estimular os sambistas a comporem sambas com a segunda parte fixa é considerado por muitos como uma “contribuição” à “desorganização inata” da comunidade negra. A cultura musical do ocidente, alicerçada na escrita não consegue compreender os povos de “vozes nômades”. A profissionalização do sambista e a comercialização da sua produção interferiram em seus laços comunitários. Com a gravação, o emissor da voz não estabelece mais uma relação direta com o público e nem precisa manter vínculos com uma comunidade, a difusão não acontece mais nas festas comunitárias. A mobilidade, a reiteração aos mesmos temas, a oralidade se transformam em peças do folclore, em cultura ‘popular’. Os sambistas costumavam compor suas músicas dentro de contextos ritualizados e de uma forma lenta, sem a necessidade de uma produção intensificada. Produção e consumo não eram instâncias fragmentadas, mas se recriavam no espaço das festas comunitárias de forma lenta. Os sambas eram produzidos coletivamente nas festas familiares, depois nas rodas, passando por eternos acrescentamentos. Por isso, Vagalume tenta responder: “Onde morre o samba? No esquecimento, no abandono a que é condenado pelos sambistas que se prezam, quando ele passa da boca da gente de roda para o disco da vitrola.”(Vagalume, 1978, p. 35). Porém, como transformar em trabalho uma prática que está contida em uma ordem simbólica, onde sua
1797
XXII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – João Pessoa – 2012
aprendizagem e formação passam pelas regras de iniciação e pelo segredo e não por signos lingüísticos a serem decodificados. Várias negociações foram feitas pelos sambistas, em suas buscas pela ocupação de espaços hegemônicos, para poderem sobreviver através da gravação de suas vozes e composições, já que desde o final da década de 20, com o surgimento da gravação elétrica, instalam-se no país várias gravadoras. Os negros na diáspora propuseram sistemas de conhecimento, formas de pensar, ritmos, temporalidades que contestam a hegemonia capitalista. Saberes estes que nos apresentam outras lógicas e outras razões. Espaços de diversão e de resistência, onde afirmam suas memórias, sem a necessidade do uso de palavras. Lutas compostas de negociações, resistências e submissões – disputando a permanência de suas memórias. Ações dentro do campo da política, já que se referem ao que deve ser lembrado e ao que deve ser esquecido e da participação nas disputas pela construção da memória da nação.
Referências: xxxxxxxxxxxxxx. Samba e Partido-Alto: As Curimbas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2012, No prelo. GUIMARÃES, F. (Vagalume). Na Roda do Samba. Rio de Janeiro: MEC/Funarte, 1978. KARASCH, Mary C. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro. 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. SODRÉ, M.. Claros e Escuros. Identidade, Povo e Mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999. _________. O Terreiro e a Cidade. A Forma Social Negro-Brasileira. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000. THORTON, John. A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico, 1400-1800. Rio de Janeiro: Campus, 2003. VANSINA, Jan. Prefacio. In: HEYWOOD, Linda M. (org.). Diáspora Negra No Brasil. São Paulo: Contexto, 2009, p.7-9.
1798