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G. R. E. S. Beija-Flor de Nilópolis: novas fontes de patrocínio, novos enredos

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G. R. E. S. Beija-Flor de Nilópolis: novas fontes de patrocínio, novos enredos Beija Flor Recreational Association & Samba School: new sponsorship sources, new narrative plots

Luiz Anselmo Bezer r a

Historiador e Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente é aluno bolsista CNPq no curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em História pela mesma instituição luizanselmo80@gmail.com

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246 Resumo: O trabalho aborda a problemática das novas formas de financiamento dos desfiles das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro. O caso em discussão é o da Beija-Flor de Nilópolis, que se tornou a maior campeã dos carnavais no atual contexto das fontes de patrocínio obtidas em função da negociação das propostas de enredo com governos de estados e municípios brasileiros, governos estrangeiros e grandes empresas privadas. Considerando tais tipos de patrocinadores, serão analisados quatro enredos da referida agremiação que dão conta dos principais aspectos do recente fenômeno na comercialização do carnaval carioca, são eles: O Mundo Místico dos Caruanas nas Águas do Patu-Anu (1998), Araxá, lugar alto onde primeiro se avista o sol (1999), O Brasil dá o ar de sua graça de Ícaro a Rubem Berta — o ímpeto de voar (2002) e Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade (2015). Palavras-chave: Escola de samba; Financiamento do carnaval; Enredos. Abstract: The paper is focused on the question of new forms of sponsonship for the parade of the major samba schools in Rio de Janeiro. Discussion is based on Beija Flor, a samba school from Nilópolis, which is known to be the biggest winner nowadays, when sponsorship is obtained through the negotiation of plot proposals for the parade with Brazilian states & city governments,foreign governments and big private enterprises. Considering these types of sponsors, four narrative plots of Beija Flor parades will be analysed, so as to account for the main aspects of the recent phenomenon of commercialisation in Rio de Janeiro’s carnival. These are: The Mystic World of the Caruanas in the Waters of Patu-Anu (“the benevolent water spirit”) (1998); Araxá, a high place where the sun peeps first (1999); Brazil showing its presence from Icarus to Rubem Berta: the eagerness for flying (2002); A griot tells the story: a look over Africa and the rise of Equatorial Guinea. Let us walk on the trail of our happiness (2015). Keywords: Samba school; Carnival financing; Narrative plots.


247 Alguns apaixonados pela Beija-Flor bem que gostariam de ver no próximo carnaval a escola de samba de Nilópolis desfilando com um enredo sobre a história dela mesma. É que no dia 25 de dezembro de 2018 vão fazer exatamente setenta anos da fundação do bloco carnavalesco que deu origem ao Grêmio Recreativo, registrado com esse estatuto em 1954. No momento em que encaminho o texto deste artigo para apreciação dos editores, ainda não há anúncio do enredo da Beija-Flor para 2018… Não é impossível que a diretoria da escola apresente uma proposta de enredo comemorativo da data redonda da fundação, porém, se considerarmos a tendência dos últimos carnavais, é mais provável que resolvam render homenagem a alguma cidade ou estado por conta de patrocínio para a produção do desfile. Essa estratégia dos “enredos patrocinados” está associada à fase recente de conquistas carnavalescas da Beija-Flor, que se tornou, de 1998 para cá, a maior campeã do Sambódromo1. Não se trata de uma invenção da agremiação nilopolitana, mas sim de um fenômeno geral que se consolidou em meados da década de 1990 motivado pela busca de novas formas de financiamento dos desfiles. Na época, a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) já havia conseguido um aumento extraordinário da participação de suas afiliadas nas receitas do espetáculo e, com isso, boa parte do custeio das agremiações do chamado Grupo Especial ficou assegurada pelos repasses de direitos de transmissão de TV, merchandising e bilheteria. Contudo, a patronagem da contravenção continuou sendo importante na forma do “adiantamento” financeiro necessário enquanto tais recursos não chegavam para o início dos preparativos do carnaval. Quando houve a prisão dos chefes da contravenção pelo crime de formação de quadrilha, em 19932, esse mecanismo ficou abalado para escolas que tiveram o afastamento de seus patronos e daí suas respectivas diretorias saíram em busca de fontes alternativas de financiamento3. Passaram a atuar no financiamento dos desfiles de carnaval governos de cidades e estados brasileiros, governos estrangeiros e grandes empresas privadas. A atual pesquisa de doutorado que realizo sobre financiamento das grandes escolas indica a manutenção do poder dos chefes da contravenção sobre as organizações mesmo nesse contexto de novas fontes de patrocínio. As evidências confirmam uma importância menor da patronagem, mas ela não deixou de existir como mais um recurso por conta do risco dos acordos de patrocínios com governos ou mesmo empresas não se confirmarem. Neste artigo, pretendo abordar a problemática a partir de quatro enredos desenvolvidos pela Beija-Flor, envolvendo fontes distintas de patro-

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cínio: em 1998 e 1999, quando os temas foram pensados para homenagear estados e cidades; 2002, sobre aviação, devido ao patrocínio da antiga Varig; 2015, a homenagem à Guiné Equatorial com suposto apoio do seu governo.

Um breve histórico da “Família Beija-Flor” A Beija-Flor não está entre as escolas de samba mais antigas do Rio de Janeiro, mas é uma instituição com mais de meio século de existência e que tem muitos aspectos dignos de discussão. Até o tricampeonato conquistado na segunda metade da década de 1970, pesava o fato de ser uma desconhecida — “escolinha da roça”, como se dizia no meio do samba — que apareceu como “zebra” do carnaval interrompendo pela primeira vez o revezamento das “quatro grandes” (Portela, Mangueira, Salgueiro e Império) em conquistas no principal grupo de desfiles4. Ora, tem muito significado o fato de uma agremiação carnavalesca da Baixada Fluminense passar a figurar com sucesso entres as cariocas tradicionais. Antigos moradores de Nilópolis reconhecem que o município só passou a ser conhecido, até internacionalmente, depois do sucesso da Beija-Flor e em função do nome do carnavalesco Joãosinho Trinta. Como autor, devo esclarecer que nasci no município de Nilópolis e, sendo originário de uma família nordestina sem nenhuma ligação com o universo do samba, só comecei mesmo a buscar conhecimento mais aprofundado sobre a escola por conta do interesse em desenvolver um trabalho de mestrado na área de História. Na dissertação de mestrado A Família Beija-Flor, eu tentei mostrar mais especificamente como a escola de samba foi transformada num ponto de articulação do jogo do bicho com a ordem político-institucional no contexto da ditadura militar (1964-1985)5. Quem conhece um pouco a cidade sabe que as famílias Abraão David e Sessim David são influentes na política local desde a década de 1960. Eles possuem representantes diretos em esferas do poder público, uma vasta rede de contatos no aparato policial, no empresariado, nos meios esportivo e cultural, tudo graças a uma estrutura de poder muito bem montada com base na contravenção, no comando da Beija-Flor, e que vem se mantendo firme desde os tempos do regime militar atravessando diferentes conjunturas políticas. Antes da década de 1970, a agremiação carnavalesca funcionava como um espaço de sociabilidade vinculado à cultura do samba com base nos

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mesmos fundamentos das primeiras escolas de samba cariocas. A comunidade negra do lugar se reunia e se expressava através da Escola de Samba Beija-Flor, mobilizava-se para organizar não só o cortejo carnavalesco, mas também encontros com sambistas de outras agremiações e festividades familiares. Pode ser surpreendente para quem não estuda escola de samba, mas a relação dos banqueiros do jogo do bicho Nélson Abraão David e Aniz Abraão David com a Beija-Flor tem raízes profundas e foi construída de forma legítima perante os sambistas. O falecido Nélson Abraão foi casado com a filha do primeiro presidente da Escola de Samba Beija-Flor, e ele mesmo assumiu esse cargo através de eleições e tendo como “cabo eleitoral” o sambista Heitor Silva, que havia sido mestre-sala e também presidente da agremiação. A série dos três enredos propagandísticos do regime militar que marcaram os primeiros anos da presidência de Nélson Abraão é reveladora do esquema de poder que estava sendo construído6. Se objetivos políticos e carnavalescos foram de alguma forma alcançados, esses enredos se tornaram outro problema para a construção da imagem da Beija-Flor depois que a escola de samba despontou como a primeira a romper com o domínio das quatro “grandes” do carnaval carioca e a conseguir ser tricampeã nos desfiles de 1976, 1977 e 1978, dando início à fase mais marcante de sua história com os carnavais de Joãosinho Trinta.

A Beija-Flor de Nilópolis no contexto das novas fontes de financiamento do carnaval A Beija-Flor é a maior vencedora dos desfiles já realizados na Passarela do Samba, ela conquistou oito campeonatos e ainda obteve a segunda colocação por doze vezes. A agremiação também vem se destacando no ranking criado pela LIESA que considera o acúmulo de pontos nos concursos. E por uma série de razões, aparece em pesquisas de opinião a partir dos anos 1990 como sendo uma das escolas de samba com maior número de “torcedores”, passando a frente de escolas mais antigas e até consideradas mais tradicionais7. Na verdade, essa fase recente de sucessos em termos de títulos teve início em 1998, ano do carnaval que marcou de uma só vez a primeira conquista da escola de samba nilopolitana depois da construção do Sambódromo, o começo da experiência de trabalho com a comissão que

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substituiu a figura do carnavalesco, e mais a orientação da diretoria para o desenvolvimento de enredos com temas direcionados para busca de novos patrocinadores. Até então, a concepção dos desfiles ficava a cargo do carnavalesco, tendo ele grande autonomia para proposição dos temas. Foi assim no tempo de Joãosinho Trinta, e depois dele nas passagens de Maria Augusta Rodrigues e de Milton Cunha. No último ano de Milton, inclusive, houve o desenvolvimento de um enredo sobre festas brasileiras a partir da sugestão recebida de um jovem admirador da Beija-Flor que morava fora do estado do Rio de Janeiro8. A fase inaugurada após o carnaval de 1998 consagrou a liderança de um personagem importante na história da escola de samba e que hoje é tratado como um ícone do carnaval carioca, o diretor de carnaval Luiz Fernando do Carmo, popularmente conhecido como Laíla. À época, ele já era um personagem com certo reconhecimento por sua trajetória no universo do carnaval, tendo trabalhado junto ao grupo formado no Salgueiro em torno de Fernando Pamplona e do qual participaram figuras como Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta e Rosa Magalhães. Em recente livro sobre a Beija-Flor, o jornalista Aydano Motta chama atenção para o fato de Laíla ser uma pessoa originária do morro, que não tinha a formação acadêmica nem a inserção profissional dos demais, e que foi elemento fundamental naquele grupo por ser integrado à cultura do samba desde garoto, sendo assim o mais ligado à música e conhecedor da organização comunitária da agremiação por dentro9. Laíla atuou em momentos importantes da Beija-Flor no tempo de Joãosinho Trinta, com quem teve desentendimentos, afastando-se da escola. Em 1994, em busca de trabalho, visitou Anísio Abraão, que estava preso assim como toda cúpula do bicho, e recebeu do patrono a indicação para retornar à escola como auxiliar do carnavalesco Milton Cunha, com que teve boa experiência de trabalho, de acordo com o que conta Aydano Motta (2012) em sua obra. Após a decisão de Milton em sair da Beija-Flor, anunciada em meados de 1997, Laíla passou a defender junto à diretoria a ideia de uma Comissão de Carnaval que viria a ser criada e que até hoje está em funcionamento, contando com a substituição ou mesmo a incorporação de alguns integrantes10. Na visão do diretor de carnaval, que já deu inúmeras declarações sobre isso na imprensa, a ideia não foi uma novidade, porém, representou uma grande justiça ao reconhecer de tal forma o caráter coletivo da produção dos desfiles,

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já que muitas vezes o trabalho de profissionais importantes fica obscurecido em virtude do papel centralizador e do estrelismo de certos carnavalescos. Além disso, a proposta que Laíla apresentou ao presidente de honra da Beija-Flor se baseava, ainda, no argumento de que a contratação de um carnavalesco seria muito custosa financeiramente. Ele alegava que no próprio barracão da escola havia artistas e artesãos do conhecimento da diretoria sobre os quais de poderia depositar confiança, e que teriam competência para assumir oficialmente a condução e a produção do desfile através de uma organização em equipe de forma bem coordenada. E, nesse sentido, nas palavras do próprio Laíla, ficou definida a sua função como Diretor Geral de Carnaval:

Significa que atualmente sou a pessoa responsável pelo barracão, pela Comissão de Carnaval, pelas reuniões com a diretoria e com a comunidade, pelos ensaios, pelo desfile… enfim, por todos os assuntos de carnaval da escola. É lógico que eu divido tarefas — o diretor de bateria tem a dele, o mestre-sala tem a dele, mas a responsabilidade global é minha. Sou uma pessoa que respeita os limites, o comando e eis a razão porque me faço respeitar. Tudo aqui é planejado, e tenho uma equipe justamente pra isso. Por causa de alguns acontecimentos, fui chamado de brigão. E eu não era o brigão, nunca fui. Defendo a bandeira e o pavilhão de onde estou e o trabalho que eu estiver fazendo11. Pelo tom da fala, percebe-se que Laíla exerce uma liderança que, mesmo baseada no discurso do reconhecimento do trabalho coletivo, confere a ele um protagonismo também gerador de contestações. As conquistas dos últimos anos, atreladas à lógica do desfile voltado para competição, indiscutivelmente devem muito ao saber adquirido e aprimorado por Laíla ao logo de tantas vivências fazendo carnaval. Naturalmente, são fundamentais para sua manutenção no posto. É preciso observar, no entanto, que a autoridade é exercida por ele numa estrutura hierárquica e personalista que tem sua figura máxima no patrono da Beija-Flor, Anísio Abraão David. E pelo que acompanho visitando ensaios na quadra da escola e conversando com alguns dos componentes, as atitudes e decisões do Diretor Geral muitas vezes sofrem reações firmes contundentes, e só são aceitas devido ao respaldo de Anísio. Por exemplo, mudança importante impulsionada por Laíla nessa mesma questão foi em relação ao concurso de samba-enredo, para que a

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participação deixasse de ser exclusiva dos membros da Ala de Compositores da Beija-Flor. Alegava-se que notas baixas no quesito dadas pelos julgadores dos desfiles estariam pesando na avaliação negativa da escola, e que para uma melhora seria necessário fortalecer o concurso com concorrentes de fora12. Isso causou resistência e a mudança aconteceu depois do convencimento do presidente de honra. Além disso, considera-se que Laíla foi o principal responsável pela reestruturação de uma base de componentes em Nilópolis e adjacências para o desfile da Beija-Flor. Nos anos 1990, a tendência de afastamento das pessoas originárias das comunidades de samba ocorria não só devido à dificuldade de pagar por fantasias para desfilar, mas também por conta do aumento da criminalidade armada nas localidades das quadras de ensaios 13 e da influência crescente de ideologias religiosas cristãs opostas a participação de fiéis no mundo do samba. O projeto das chamadas Alas da Comunidade na Beija-Flor é considerado pelos dirigentes da agremiação — e também por respeitados comentaristas de carnaval — como o grande responsável pelo bom desempenho nos desfiles durante a fase mais recente. De acordo com o livro de Aydano Motta (2012), não se tratou da invenção de um padrão de sociabilidade por parte da diretoria, pois o caráter comunitário seria um traço da história das próprias escolas de samba. Aconteceu que uma nova estratégia foi institucionalizada com base na doação de fantasias em troca do compromisso dos pretendentes ao desfile com a frequência aos ensaios. O jornalista relata que essa experiência surgiu na Beija-Flor de forma um tanto espontânea, a partir do envolvimento de pessoas com a montagem de um elemento alegórico que representaria cisnes no desfile de 1995, em homenagem à cantora lírica Bidu Saião. A ideia do cisne teria sido de Milton Cunha que teve mais de uma reprodução no desfile por sugestão de Laíla14. Portanto, verificamos que a nova fase da Beija-Flor tem relação com uma reorganização interna que já vinha acontecendo na escola. A preocupação da direção de carnaval em valorizar o trabalho coletivo, reafirmar laços com a comunidade participante dos desfiles, assim como a ideia de que escola de samba é um todo que precisa estar com os elementos interagindo em plena harmonia, expressou-se inclusive na escolha do enredo para o carnaval de 1998. A escolha não partiu da direção da escola. Houve a realização de um concurso com dezenas de propostas, que teriam sido estudadas por Laíla. O vencedor foi Amarildo Mello, carnavalesco que vinha atuando no Grupo

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de Acesso à frente da Caprichosos de Pilares e que havia conquistado o último o carnaval de 1997 no referido grupo. O projeto de Amarildo era sobre a pajelança cabocla da Ilha de Marajó, todo baseado no livro escrito pela pajé Zeneida Lima contando sua trajetória no culto e a mitologia dos seres encantados caruanas15. Amarildo foi convidado a se incorporar à Comissão de Carnaval, mas sua proposta acabou sofrendo muitas reformulações até chegar à forma definitiva do enredo. Nos primeiros anos da Comissão, integrantes foram convidados muitas vezes a dar declarações na imprensa acerca da experiência com o trabalho de criação em equipe e eles diziam que os conflitos de ideias costumavam aparecer, mas que eram resolvidos por intermédio do Diretor Geral16. A sinopse do enredo Pará — O mundo místico dos caruanas nas águas do Patu Anu é bastante clara com relação ao foco na tradição da pajelança cabocla na Ilha de Marajó, tendo por referência o livro de Zeneida Lima. A forma lírica do texto dos carnavalescos expressa o lamento de um pajé ameaçado pela destruição de sua cultura e da natureza da região onde vive seu povo. A narrativa da mitologia dos seres encantados caruanas seria uma atitude no sentido de promover a transmissão de saberes ancestrais, de cura, e especialmente de respeito à natureza, como forma de reverter essa situação de ameaça à existência da cultura cabocla. A referência geral ao estado do Pará aparece no final da sinopse, numa fala da pajé que expressa a ligação das tradições caboclas no conjunto da cultura paraense: “O pajé caboclo canta sua região: ‘O Pará dos encantos: do mercado ver-o-peso, das riquezas minerais; da fauna e da flora imensamente ricas. O Pará dos búfalos, dos boiadeiros, dos Igarapés e da alegria. O Pará místico, das ervas encantadas, dos feitiços e da magia Caruana’ 17”. Na reta final dos preparativos para o desfile, a imprensa registrou uma visita do governador do Pará ao barracão da Beija-Flor. Ocorreu em meados de fevereiro e, naquele momento, Almir Gabriel anunciava a captação de recursos financeiros através da doação de empresários do seu estado para patrocinar o enredo da escola de samba. O valor divulgado do aporte era de aproximadamente um terço do orçamento do desfile, sob a justificativa da promoção turística do estado e da necessidade, segundo o governador, de resgatar a autoestima do paraense que até então teria a exploração mineral em Carajás como seu principal motivo de orgulho18. A perspectiva do patrocínio teve influência, sim, no desenvolvimento do enredo. Não foi à toa que o nome do estado apareceu em destaque no

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título da sinopse e depois foi mencionado na letra do samba de enredo que foi escolhido. Contudo, analisando cuidadosamente todos os aspectos daquele desfile, podemos afirmar seguramente que tais referências não fugiram do contexto da narrativa, nem ficaram desprovidas de sentido. Através de conversas com o historiador e cronista Luiz Antonio Simas, percebo por parte dele uma avaliação positiva acerca do desempenho da Beija-Flor. Simas destaca a relevância do tema abordado pela escola de samba, pois, sendo um estudioso das religiosidades afroameríndias, ele costuma observar minuciosamente o modo como tradições originárias dessa matriz são tratadas nos desfiles. Por vezes encontramos interpretações equivocadas, pela própria dificuldade diante da complexidade dos temas, mas, mesmo assim é muito importante ter esse tipo de abordagem, nem que seja só a provocação da curiosidade sobre assuntos que raramente são abordados em outras expressões da nossa cultura de massa. No livro Samba de enredo: história e arte, escrito por Simas em parceria com o contista e romancista Alberto Mussa, os autores fazem um balanço das composições produzidas entre 1990 e 2009 e analisam a influência negativa do fenômeno dos patrocínios sobre a qualidade de boa parte das obras. Contudo, apontam a Beija-Flor como exceção:

A preferência por melodias leves, “pra cima”, a estrutura padronizada e a letra pobre dominam hoje em dia. Poucas escolas de samba podem se orgulhar do que têm levado para a avenida, de 1990 para cá. A Beija-Flor é a grande exceção, com seus sambas graves, pesados, e o tratamento original que tem dado mesmo aos enredos mais difíceis, oriundos de patrocínio19. Depois do comentário, os autores fazem menção ao samba de 1998. Vejamos a letra:

Beija-Flor E o mundo místico dos Caruanas Nas águas do Patu Anu Mostra a força do teu samba Contam que no início do mundo Somente água existia aqui Assim surgiu o girador, ser criador

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Das sete cidades governadas por Auí Em sua curiosidade, aliada à coragem Com seu povo ao fundo foi tragado O que lá existia aflorou, o criador semeou Surgindo os seres viventes em geral E de Auí se deu a flora, fauna e mineral Sou Caruana eu sou Patu Anu nasceu do girador, obá Eu trago a paz, sabedoria e proteção Curar o mundo é minha missão Pajé, a pajelança está formada Eu vou na barca encantada Anhangá representa o mal Evoque a energia de Auí Pra vida sempre existir Oferenda ao mar pra isentar a dor Com a proteção dos caruanas Beija-Flor A pajelança hoje é cabocla Na Ilha de Marajó, vou dançar o carimbó Lundu e siriá, marujada e vaquejada Minha escola vem mostrar O folclore que encanta O estado do Pará (Autores: Alencar de Oliveira, Wilsinho Paz, Noel Costa, Baby e Marcão) O samba deve ser pensado como uma síntese do enredo. E conforme a parte final da letra, o setor de encerramento do desfile representou diversos elementos da cultura paraense, com um carro alegórico cujo tema era “Pará: a extensão do mundo místico dos caruanas”, mostrando a reprodução de uma vila de ribeirinhos da Ilha de Marajó, importante lugar de atração turística do estado. Depois de 15 anos, a Beija-Flor conquistava mais um título. Foi algo surpreendente para muitos dos seus componentes e demais simpatizantes. Moradores de Nilópolis saíram pelas ruas em comemoração, mesmo tendo a

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escola dividido o primeiro lugar com a Mangueira, que prestou uma homenagem ao compositor Chico Buarque de Holanda. Para o patrono Anísio Abraão, a vitória certamente teve um gosto especial, pois se deu no primeiro carnaval em que ele voltou a marcar presença no desfile, depois da prisão dos chefes do bicho, decretada em 1993. O Desfile das Campeãs, entretanto, foi marcado por protestos do público das arquibancadas do primeiro setor contrário à conquista da Beija-Flor. Achavam que a Viradouro seria a merecedora, justamente a escola tinha como carnavalesco o artista responsável pelo despontar da Beija-Flor no carnaval carioca, Joãosinho Trinta20. Tendo em vista o carnaval de 1999, a direção da Beija-Flor resolveu desenvolver um projeto que acabou se tornando sua primeira experiência focada em aspectos da história de um lugar. Não era exatamente a fórmula do carnaval anterior, mas a escolha logicamente se deu por conta da oferta de patrocínio, conforme informações de uma reportagem produzida pelos jornalistas Aydano Mota e Letícia Helena. A Beija-Flor estaria interessada num tema afro, entretanto, empresários mineiros teriam apresentado à escola uma proposta sobre a história de Araxá que foi transformada no enredo Araxá — lugar alto onde primeiro se avista o sol21. O desfile apresentou a cidade mineira a partir de suas origens, destacando atrativos turísticos como arquitetura colonial, culinária e suas fontes de águas medicinais. Geralmente, é essa abordagem que interessa aos governantes que se empenham em fazer suas cidades ou estados virarem tema de enredo das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro. Eles argumentam que isso gera visibilidade para o lugar e colabora na promoção do turismo. Outro aspecto interessante é que, havendo boa aceitação dos habitantes da cidade ou estado que recebe a homenagem, isso tende a fortalecer a popularidade da própria agremiação e ainda acaba despertando o desejo de alguns em conhecer de perto o carnaval das escolas de samba no Rio de Janeiro. Na transmissão do desfile para a TV Globo, o comentarista Albino Pinheiro chamou atenção para uma ala composta por visitantes mineiros22. A LIESA sugeriu para o carnaval de 1999 que os intérpretes contassem com a participação de cantores de grupos populares de samba na gravação do CD, e os convidados marcariam presença também na Avenida. Com a Beija-Flor esteve o cantor Belo, à época no grupo Soweto, e essa parceria se expressou ainda na formação de uma ala do desfile com os “Amigos do Grupo Soweto”, vindos de São Paulo, representando “A Descoberta das Águas”. O samba recebeu críticas positivas, tanto que até hoje é apreciado nos ensaios da quadra.

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Araxá, Araxá… (obá, obá) Paraíso hospitaleiro Onde do alto Se avista o sol primeiro É fonte de conhecimentos pra ciência Prova fiel da existência Dos primitivos animais Cenário onde índios e negros Em luta constante Contra bravos bandeirantes O sangue fluía a todo instante Nasceu enfim, São Domingos do Araxá Um solo livre pra explorar Uma nova colonização Com a vinda do Ouvidor Surge a libertação Ana Jacinta de São José… (É beija) Josefa Carneiro de Mendonça… (Rara beleza) Josefa Pereira é força e fé… (Que sedução) A escrava Filomena… (É fascinação) Tem cheiro bom no ar Este tempero nos convida a viajar Quero renascer em tuas águas Para prolongar a vida Me hospedar no Grande Hotel Do seu conforto desfrutar Com sua genial arquitetura A Beija-flor em alto astral Neste carnaval nos traz Belo recanto de Minas Gerais (Autores: Wilsinho Paz — Noel Costa — Serginho do Porto) O nome da cidade aparece logo no primeiro refrão, que também menciona a vocação turística do lugar e dá o significado do nome de origem tupi — lugar alto, de onde primeiro se avista o sol. Cabe aqui mencionar que

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o carro Abre-Alas foi concebido justamente para expressar esse significado, as cores laranja e vermelho predominavam na sua rica decoração. O nome do estado, assim como aconteceu no samba de 1998, está no último verso da letra. Algo que favorecia o desenvolvimento do enredo era o fato de Araxá não ser uma referência desconhecida do grande público. Anos atrás, a TV Manchete havia exibido a novela Dona Beja, tendo a atriz Maitê Proença no papel principal, e a produção alcançou bons índices de audiência. No desfile, o quarto carro trazia uma reprodução da casa de Dona Beja, que segundo informações dos comentaristas havia se tornado um museu. Voltando à questão do patrocínio, a referência aos empresários que teriam sustentado o financiamento do desfile é muito vaga na matéria mencionada anteriormente. Como se sabe, os banqueiros do jogo do bicho exploram a loteria em outros estados, além de possuírem empreendimentos ligados ao ramo de hotéis e casas noturnas, e por essa razão levantamos a hipótese que essa estratégia de enredos favoreceria a expansão de negócios e a influência política desses personagens. É importante, pelo menos, ressaltar o potencial expressivo do desfile carnavalesco como um mecanismo simbólico fundamental para a articulação das organizações do jogo do bicho com os mais diversos tipos de instituições de forma legítima. O enredo sobre Araxá envolveu de forma pertinente uma referência à história dos jogos de apostas no Brasil. Por conta da construção do Grande Hotel na década de 1940, visando exploração turística da instância hidromineral do lugar, investiu-se num outro atrativo que foi o famoso cassino nas instalações do Grande Hotel. O último carro “Grande Cassino — Templo da Sorte” representou esse episódio da história de Araxá e, na possibilidade de outra interpretação que não exclui a primeira, poderíamos dizer que foi também uma referência ao projeto da cúpula do bicho para regulamentação definitiva dos cassinos no Brasil. Além da fiel destaque da Beija-Flor, Linda Conde, o jogador Zico, a atriz Solange Couto e o produtor Alberico Campana, da antiga boate Plataforma, vieram nos carros inúmeras mulatas dos shows da Plataforma para representar o ambiente festivo do antigo cassino do Grande Hotel. Havia reproduções de dados espalhados pela base e as fantasias das mulatas tinham enfeites de cartas de baralho. A Beija-Flor ficou em segundo lugar, o que é um bom resultado, mas deixa o sentimento de que perdeu o título apenas por detalhes. A diferença

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de pontos entre a primeira e a segunda colocada tem sido ínfima no carnaval carioca desde aquela época. O comentarista Albino Pinheiro chamou atenção dos telespectadores para o fato da Beija-Flor e outras escolas terem se apegado a temas da cultura brasileira mesmo após a recente liberação do regulamento para a escolha de temas estrangeiros. Embora estejamos vendo que isso tinha relação com a questão dos patrocínios, é interessante ver como as agremiações carnavalescas contribuem até hoje para que, de alguma forma, o povo brasileiro possa conhecer, através das artes, as suas diferentes regiões e a sua riqueza cultural. Nos anos que se seguiram, os enredos em forma de homenagens a cidades foram sendo revezados na Beija-Flor com outras propostas, seja porque acordos de patrocínio não foram confirmados ou mesmo para evitar o desgaste da repetição de uma mesma receita. De toda forma, de 1998 para cá, praticamente todas as propostas de enredo foram desenvolvidas na perspectiva de obter algum tipo de patrocínio para a produção do desfile. Para o carnaval de 2002, novamente um enredo patrocinado. Depois de mais um segundo lugar para o histórico, em 2001, a Beija-Flor acabou firmando parceria com uma companhia aérea e assim executou uma modalidade de patrocínio que poucas vezes se repetiu de lá para cá. Naquele momento, talvez tenha pesado a necessidade de evitar uma repetição dos enredos vinculados às cidades e aos estados, mas o certo é que a escolha do tema da aviação, em função de um plano de marketing da Varig, garantiu à escola recursos para a produção do desfile e um status para a diretoria por ter estabelecido acordo de patrocínio com uma grande empresa que, até então, desfrutava de grande prestígio. Uma fonte relevante com informações sobre os preparativos desse carnaval é a primeira edição da Revista Beija-Flor: uma escola de vida que, de lá pra cá, vem se propondo a documentar esse processo e apresentar os enredos através de uma descrição do que os carros alegóricos e as fantasias das alas irão representar, ordenadamente, em cada setor do desfile. Trata-se de uma fonte oficial, o que não retira sua importância, até porque serve para melhor analisarmos a forma como ocorre a relação das escolas de samba com os novos tipos de organizações envolvidas com o financiamento do desfile vem sendo justificada. Por exemplo, na referida edição da revista, dois artigos atribuídos a executivos da Varig foram publicados. Um deles, assinado pelo diretor da Fundação Rubem Berta, procura explicar a importância de Rubem Berta, que

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seria o grande homenageado no desfile como pai da aviação comercial no Brasil. Outro artigo, do vice-presidente Roberto Macedo, dava conta da sua visão do carnaval como espetáculo e, como registra a passagem a seguir, da verdadeira motivação da empresa em patrocinar o desfile de uma grande escola de samba:

Enfim, a apresentação dessas agremiações pela passarela projetada por Oscar Niemeyer, transformou-se, nos últimos anos, numa eficaz e eficiente ferramenta de marketing, cada vez mais disputada e utilizada por grandes empresas nacionais e internacionais com estratégias para aumento de vendas e promoção de imagem e produtos nos mercados do país e do exterior. Um evento que representa — para as empresas que se valem dele — um investimento irrisório quando comparado aos custos dos veículos da média convencional23. O mais interessante desse relato é a revelação explícita de que até mesmo o potencial mercadológico das grandes escolas de samba estaria sendo negociado de forma incompetente pelos seus diretores, tendo em vista que estariam proporcionando a empresas patrocinadoras um retorno que deveria gerar uma compensação financeira muito maior para as agremiações. Ou seja, elas estariam vendendo um serviço de mídia extraordinário a um valor abaixo do que seria cobrado regulamente nesse mercado específico. Não disponho de fontes que evidenciam a existência de algum tipo de imposição do patrocinador na concepção artística do desfile. A Comissão de Carnaval parece ter encontrado solução para uma boa associação ao patrocinador através do carro que continha uma reprodução do gorila gigante, personagem do cinema americano e, na frente, a reprodução de um avião com componentes representando os passageiros em viagem por rotas internacionais. E falando em rotas internacionais, por aí trilhou a diretoria da Beija-Flor para negociar a proposta de enredo que resultou no título mais recente, de 2015. A herança africana costuma ser muito celebrada com temas para o carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro. Naturalmente, isso tem relação com a identidade negra da cultura do samba, e vale ressaltar que não é tão comum que histórias africanas ou temas da cultura afro-brasileira sejam abordados em outras expressões da cultura de massa no Brasil. A Beija-Flor teve uma experiência exitosa de enredo nessa linha que lhe rendeu a vitória do carnaval de 2007.

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Diante disso, a ideia de um novo enredo sobre África, para 2015, só poderia gerar boas expectativas, ainda mais com a obtenção de patrocínio. Estima-se que o aporte financeiro recebido pela Beija-Flor para o desfile sobre a Guiné Equatorial tenha sido o maior da história recente do carnaval. O valor, no entanto, foi proporcional ao tamanho da repercussão negativa relacionada à fonte do dinheiro, atribuída primeiramente ao governo da Guiné. Esse pequeno país da África Ocidental, terceiro maior produtor de petróleo do continente, jamais tinha ocupado tanto espaço na mídia brasileira. Entretanto, apareceu por meio de matérias que apontavam a miséria do povo guineano em contraste com a riqueza da família do ditador que controla um regime marcado por sérias denúncias de corrupção e perseguição violenta aos opositores24. Algumas reportagens contaram com a colaboração de refugiados, estudiosos e representantes de entidades de defesa dos direitos humanos, chamando atenção para os desrespeitos praticados há décadas pela ditadura de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que pretende ser sucedido por seu primogênito Teodoro Nguema Obiang Mangue, chamado de Teodorín25. Este é conhecido pela ostentação da riqueza e denunciado por esquemas de lavagem de dinheiro em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, onde seria proprietário de automóveis e apartamentos em São Paulo e no Rio26. Conta-se que o ditador Obiang seria frequentador do Sambódromo há dez anos e que seu filho foi o responsável pela aproximação com a ­Beija-Flor. Há registro fotográfico no jornal O Beija-Flor da presença de Teodorín no camarote de Anísio Abraão, na quadra da Beija-Flor, à época dos ensaios para o carnaval do enredo Áfricas, de 200727. A versão do Diretor de Carnaval para a negociação do enredo sobre a Guiné Equatorial, de acordo com informações publicadas na Revista ­Beija-Flor, coloca o seguinte:

Laíla explica os porquês da escolha desse enredo tão festejado em Nilópolis: ‘Após o Carnaval de 2014, o qual temos certeza de que a Beija-Flor foi julgada de maneira parcial, decidimos que precisávamos de um Carnaval mais impactante, que trouxesse de volta os grandes desfiles da nossa escola. De acordo com uma pesquisa que a Comissão de Carnaval realizou, chegamos à conclusão de que o tema ‘África’ era o caminho. Mas tínhamos que ver como colocaríamos esse enredo em prática. Especialmente porque muitas escolas já falaram sobre esse tema — inclu-

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sive nós —, e precisaríamos nos manter mais uma vez na vanguarda, no que se refere ao desenvolvimento de um enredo. Outro item importante que precisaríamos definir estava relacionado aos custos. Quem acompanha a realidade de um espetáculo de Carnaval no Grupo Especial sabe que os recursos que as escolas dispõem são insuficientes, frente às despesas. Colocar uma escola na avenida é um custo muito grande. Por isso, a busca de um patrocinador é fundamental. Em 2013, a Beija-Flor realizou um show na Guiné Equatorial, que foi muito bem recebido pelo público e pelos organizadores, que gostaram muito do que apresentamos. Esse contato com o país foi importante, porque o governo de lá, sabendo que estávamos buscando patrocinadores, manifestou interesse em estar com a Beija-Flor nesse carnaval. Os representantes da Guiné Equatorial nos procuraram e depois de algumas negociações fechamos a parceria, com a proposta de fazermos um Carnaval abordando África e falando sobre o país deles — sua cultura e seus atrativos. Tem estado tudo muito afinado e estamos todos muito otimistas em relação ao que apresentaremos na Avenida’28. É preciso observar que o aspecto financeiro é um determinante na produção de um carnaval “competitivo”, como se costuma falar no meio. Todavia, não é garantia de sucesso se outros fatores envolvidos não forem considerados. E por mais que a escolha do enredo seja fruto de uma decisão da diretoria, é importante que seja bem recebida pelos demais segmentos da agremiação carnavalesca — o que é favorecido quando o tema se associa com o seu perfil — e possibilite uma abordagem que dê conta da relevância e da originalidade do tema. Em relação à preocupação com os custos, é interessante notar a colocação de que os recursos disponíveis para as escolas de samba, em função do que recebem através das receitas do desfile, não são suficientes. É uma evidência de que a patronagem não é mais determinante no financiamento do desfile e, lembrando as previsões dos primeiros presidentes da LIESA, a forma de organização que passou a prevalecer no carnaval também não garantiu autonomia do custeio das escolas de samba conforme o crescimento contínuo do espetáculo. A Rainha de Bateria, Raíssa Oliveira, chegou a declarar que ela teria sugerido informalmente a realização do enredo quando esteve na Guiné, em 2013, com um grupo de passistas e ritmistas para a realização do show pelos 45 anos da independência do país29.

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Em fevereiro de 2015, O Globo passou a tratar o assunto em tom de denúncia através do colunista Ricardo Noblat, conhecido por suas posições direitistas a respeito da nossa política. Sobre a aproximação do ditador Obiang com a Beija-Flor, o jornalista colocava que Teodorín teria convencido o pai a contratar um show particular com artistas da agremiação, mas para uma apresentação no camarote comprado pela família numa das vezes em que estiveram no Sambódromo durante o carnaval, criando a partir de então uma ligação 30. Aydano André Motta, jornalista que cobre os assuntos do carnaval desde os anos 1990 e que conhece bem o universo da Beija-Flor, havia noticiado ainda no mês de outubro o pedido que foi feito à Beija-Flor, através da Embaixada da Guiné Equatorial, para uma mudança na letra do samba escolhido. A justificativa era no sentido de evitar confusão entre a Guiné Equatorial e o país com mesmo nome Guiné vitimado pela epidemia de ebola. O jornalista apresentou a comparação dos versos depois da ­mudança:

Na primeira versão, as citações eram no refrão do meio da obra (“Um africano rei que não perdeu a fé / Era meu irmão, filho da Guiné!”) e na segunda estrofe (“Dessa mistura vem o meu axé… Canta Brasil! Dança Guiné!”). A alteração foi na última, que passou a ser “Dessa mistura faço carnaval / Canta Guiné Equatorial". Assim estará no CD oficial de 201531. Por conta disso, a Comissão de Carnaval precisou dar declarações, especialmente através de sites especializados em carnaval, explicando que não estaria sofrendo interferências do patrocinador e que, de qualquer forma, não levaria o enredo para o campo da “política”32. A abordagem seria feita com base nas características naturais e nas tradições culturais do país33. O Globo fez ainda uma consulta à juíza aposentada Denise Frossard. Conhecida publicamente pela condenação dos chefes do bicho, em 1993, ela se pronunciou sobre o caso chamando atenção para precauções que deveriam ser tomadas em relação à origem do dinheiro recebido pelas escolas de samba através de patrocínios. Todavia, ela dava a entender que seria descrente quanto às ações dos dirigentes das agremiações nesse sentido, porque teriam um longo histórico de ligação com organizações dedicadas às atividades ilícitas34. Articulistas de revistas e espaços alternativos de mídia também se manifestaram condenando o recebimento do patrocínio atribuído ao governo de Obiang35. No entanto, colocavam que o empenho de veículos das Organizações Globo na cobrança pela ética no financiamento do carnaval deveria

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passar por revisão dos próprios vínculos do grupo empresarial de comunicação com a instituição controlada pela cúpula do jogo do bicho e responsável pela organização do carnaval, especialmente no que diz respeito aos contratos de transmissão pela televisão e uso de espaços de publicidade na Passarela do Samba36. O principal executivo da Rede Globo de Televisão durante décadas, José Bonifácio Sobrinho, assumiu abertamente sua relação pessoal com os banqueiros do jogo do bicho, a ponto de ter sido o homenageado do enredo da Beija-Flor, em 2014. Boni não esconde o histórico de sua atuação profissional representando os interesses corporativos da empresa de comunicação em negociações acerca do carnaval com os chefes da contravenção. A Rede Globo de Televisão é agente central na organização do espetáculo carnavalesco, tendo acordo de mais de vinte anos com a LIESA para transmitir com exclusividade o desfile das escolas de samba, algo que é duramente criticado por cronistas do carnaval por conta da forma como a emissora apresenta os desfiles. Conta-se que a cúpula da contravenção não ousa interromper essa exclusividade da TV Globo temendo ser alvo de pressão midiática por meio da exposição de suas atividades ilícitas. Até hoje não se sabe concretamente a origem do financiamento daquele carnaval da Beija-Flor. No auge do debate público, a pesquisadora da Comissão de Carnaval, Bianca Behrends, chegou a afirmar que o apoio governamental da Guiné se deu apenas por meio do suporte de informações durante uma viagem que fizeram ao país. Talvez não se tenha percebido no dia do desfile, mas as palavras de agradecimento do Embaixador da Guiné através de um texto publicado na Revista Beija-Flor indicavam outros agentes envolvidos no financiamento do desfile:

‘Esta maravilhosa homenagem à República da Guiné Equatorial preparada pela Beija-Flor de Nilópolis com o apoio do nosso governo, de nossa população e das empresas brasileiras que trabalham hoje no nosso país, simboliza o estreitamento cada vez maior das relações de amizade e cooperação sincera entre estas duas nações irmãs. Esperamos que na estória deste samba, nas representações alegóricas, nas fantasias, na dança e em diversos detalhes deste carnaval da ­Beija-Flor, o mundo reconheça a proximidade da cultura brasileira com a cultura guinéu-equatoriana e que fique marcado para sempre no coração de nossos povos que as nossas histórias andam juntas e que os

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nossos caminhos muitas vezes são os mesmos’37. (Dr. Benigno Pedro Matute Tang — Embaixador da República da Guiné Equatorial no Brasil) Quais seriam as empresas brasileiras a que se referia o Embaixador? Logo depois da apuração dos resultados do desfile, a vitória da Beija-Flor ganhou repercussão mundial. Surgiu, então, uma segunda versão, a partir da declaração do carnavalesco Fran Sérgio38, e também do governo da Guiné39, de que empreiteiras brasileiras com atuação no país teriam sido responsáveis pelo financiamento do carnaval da Beija-Flor. Na fala do carnavalesco foram mencionadas a Odebrecht e a Queiroz Galvão e, como se tratava de empreiteiras investigadas na Operação Lava-Jato, os jornais das grandes empresas de comunicação repercutiram imediatamente a notícia. Nenhuma das empresas confirmou. A Odebrecht divulgou nota na imprensa negando essa possibilidade40. Por mais que a aproximação do governo brasileiro com regimes ditatóriais seja condenável, e que as operações de grupos empresariais brasileiros em África venha ocorrendo na lógica da exploração capitalista sem grandes preocupações humanitárias com os povos do continente, fico tentado a pensar que a repercussão atingida pelo caso se deve muito mais a uma preocupação de setores contrários aos governos do PT em expor as contradições do recente processo de internacionalização de grandes empresas brasileiras do que propriamente uma preocupação com o carnaval ou com as condições de vida das populações em África. Uma crônica de Luís Carlos Magalhães para o site Carnavalesco discutiu a reação à vitória do desfile da Beija-Flor, lembrando que a escola de samba havia cumprindo perfeitamente as exigências do regulamento do concurso, independente da fonte do seu patrocínio, e que apresentou competência carnavalesca para além da abundância de recursos. Um trecho do texto trata com refinada ironia outro aspecto da questão muito pouco problematizado pelas grandes empresas de comunicação e que passava justamente pela diferença no tratamento dado ao patrocínio que recebeu outra escola de samba, a Unidos da Tijuca, vindo de um país famoso por ter bancos onde costuma ser depositado dinheiro de famosos corruptos brasileiros e do mundo. Vejamos:

— Alô. Luís Carlos, gostei tanto dos seus elogios ao samba, do 10 que você deu na Rádio Tupi, que resolvi convidá-lo para meu camarote do próximo sábado.

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— Oh! meu caro Teo, agradeço muito, mas não sei… temo pela minha reputação, você sabe que há uma campanha nas redes sociais exigindo a perda do título da Beija Flor. Você sabia disso? — Sei sim, como sei. Acabou o tiro saindo pela culatra. A ideia era com os 10 milhões fazer o povo brasileiro conhecer as belezas naturais e a cultura do nosso país. E, no entanto, nunca se falou tão mal da Guiné Equatorial. Todas as nossas mazelas saem na TV brasileira todos os dias. — Mas e aí, então não valeu a pena? — Olhe, eu compreendo isso tudo, só não concordo em tirar o título da escola. E se isso acontecer vou te fazer um pedido. É pra você pedir a anulação do resultado da Tijuca também. — Mas como vou fazer isso? Baseado em quê? O enredo da escola foi a Suíça, um país de profunda tradição democrática. — Pois é, rapaz. Essa que é a questão complicada, saber quem fez mais mal à humanidade do ponto de vista da corrupção e dos desvios do dinheiro público tirando-o dos programas sociais destinados à pessoas necessitadas. — Continuo sem entender nada. — Eu explico: de fato, minha família desviou muuuuuuto dinheiro público no meu país. E sabe pra onde ia esse dinheiro? Pra Suíça, pra aqueles bancos lá. E ninguém acha isso feio. — Mas… é diferente… — Mas o quê? Do ponto de vista ético é muito parecido. Mas você tem razão ao dizer que é diferente, e é mesmo. Nós somos um paizinho pequeno, com população pequena. O dinheiro que dizem que ficamos é um grãozinho de areia perto das dezenas e dezenas de países, democráticos ou não, cujos dirigentes se locupletam e mandam o dinheiro para a Suíça direto.

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— Huuuummmm! Sei… Mas olha só… quer dizer… veja bem… nem sempre, ou seja, às vezes, quer dizer, mas se… olha só! Huuuummmmm! — Deixa pra lá, não quer ir ao camarote, não vá, mas tirar o título da Beija Flor? Nosso país tem relações diplomáticas com o Brasil desde a década de 1960. Tem relações comerciais desde esse tempo, e nunca ninguém reclamou da nossa ditadura. Faturaram e faturam muito. Será que é por que é carnaval? Quem disse no jornal que "business are business" não foi o Laíla e sim o então ministro das relações exteriores Celso Amorim durante a visita do Presidente Lula àquele país. Ainda bem que não foi Laíla a dizer isso, já pensou?41 O desfile das escolas de samba desfruta de projeção internacional há décadas pelo fato de atrair turistas estrangeiros, despertar interesse mundo afora pelos shows que as agremiações carnavalescas oferecem com músicos, dançarinos e até alegorias e ainda motivar a criação de escolas de samba fora do Brasil, a exemplo do Japão. Contudo, nos últimos tempos, o que estamos observando é que as pontes construídas pelo capitalismo brasileiro permitiram conexões no carnaval, como foi o caso dos carnavais da Vila Isabel em 2006, com o governo venezuelano, e 2012, com a tentativa do apoio de Angola. É importante observar que essa aproximação ocorreu num contexto de internacionalização da economia brasileira na América Latina e na África promovida estrategicamente durante os governos Lula.

Conclusão Apesar dos enredos patrocinados serem alvo de muitas críticas, os casos que analisamos apontam possibilidades interessantes. Poderíamos partir do pressuposto de que o caráter oficial de um enredo impede qualquer representação de elementos marginais no seu desenvolvimento, mas não é só assim que acontece. Independentemente das abordagens feitas nos enredos de homenagens a estados e cidades, as escolas de samba cumprem um papel importante apenas em mostrar a diversidade cultural existente em nosso país e no mundo. A repercussão que um determinado lugar adquire ao ser representado através de um enredo no Grupo Especial acaba sendo extraordinária, e não à toa é visada pelos patrocinadores. O espetáculo mobiliza milhares de

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pessoas no Sambódromo, e ainda acontece a transmissão televisiva em escala mundial. No período pré-carnavalesco, de meados de dezembro até a data da festa, são feitas reportagens sobre os preparativos do carnaval da escola, o tema do enredo, ensaios e sobre a própria comunidade de samba envolvida. Outro fato importante é que um carnavalesco precisa alicerçar a construção de sua narrativa visual com uma boa base de saber histórico, o que não significa dizer que o artista precise da autoridade acadêmica nessa área, mesmo porque a linguagem carnavalesca impõe uma ressignificação de valores oriundos de outros universos culturais. Não está no regulamento do desfile a exigência de que os enredos devam levar em conta a diferença entre memória e História, o que se cobra é o desenvolvimento lógico e estruturado dos mesmos. Para os carnavalescos, o problema mais complicado tem sido lidar com interferências dos patrocinadores na concepção plástico-visual do carnaval, sem falar da pressão sobre os compositores na feitura dos sambas-enredo. Na verdade, quando autoridades de um estado ou de um município decidem pelo patrocínio de um enredo de escola de samba isso não costuma levar em conta consulta a conselhos de cultura, artistas locais, especialistas, etc. Seria de fato interessante uma pesquisa mais aprofundada para saber se os moradores desses lugares escolhidos como temas de enredo se reconhecem com o que foi contado através do desfile, o que abre uma boa discussão sobre a questão da identidade. Apesar de tudo, é significativa a possibilidade do desfile de uma escola de samba desempenhar uma função pedagógica, ainda mais se olharmos para o trabalho de pesquisa que se impõem para todos aqueles que lidam com a criação nesse universo. Essa experiência é riquíssima e precisaria ser trabalhada de forma mais sistemática no espaço da escola tradicional.

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Notas 1 Para ter uma ideia, entre 1998 e 2015 foram oito campeonatos (1998, 2003, 2004, 2005, 2007, 2008, 2011 e 2015) e seis vice-campeonatos (1999, 2000, 2001, 2002, 2009, 2013). Conferir ao final do artigo a lista com os títulos dos enredos apresentados pela Beija-Flor de Nilópolis no período. 2 Ver: “Prisão”. Capitão Guimarães, Anísio, Miro, Maninho, Luizinho, Haroldo Saens Peña, Zinho e Turcão ouvem a sentença de condenação. In: O Globo, Rio de Janeiro, 21 de maio de 1993. 3 Por exemplo, afastaram-se os patronos da Mocidade, da Estácio de Sá, da Vila Isabel e da Portela; permaneceram com seus respectivos patronos Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Salgueiro. 4 Os enredos do tricampeonato foram: Sonhar com Rei dá Leão (1976), Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana (1977) e A Criação do Mundo na Tradição Nagô (1978). 5 BEZERRA, L. A. A família Beija-Flor. (Dissertação de Mestrado em História). Programa de Pós Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. 6 Foram os seguintes enredos: Educação para o Desenvolvimento (1973), Brasil Ano 2000 (1974) e O Grande Decênio (1975). 7 “Beija-Flor já ameaça a Mangueira”. In: Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 1997. A matéria apresenta os resultados de uma pesquisa encomendada ao Instituto Gerp pelo então presidente da Estação Primeira de Mangueira, Elmos dos Santos. A indicação da Beija-Flor no segundo lugar, em termos de popularidade e mesmo tradicionalismo, teria gerado contestação dos métodos da pesquisa por parte do presidente da Portela. 8 “Sugestão de estudante vira enredo na Beija-Flor”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 1997. 9 MOTTA, Aydano. Maravilhosa e soberana: histórias da Beija-Flor. Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2012. p. 60. 10 A primeira formação da Comissão de Carnaval da Beija-Flor foi a seguinte: Cid Carvalho, Nélson Ricardo, Amarildo Mello, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, Anderson Müller e Paulo Führo. Ver: “‘Grupo

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269 dos oito’ substitui figura do carnavalesco na Beija-Flor”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1997. 11 “Laíla: o comandante do carnaval da Beija-Flor”. Entrevista concedida pelo Diretor Geral de Carnaval à Revista BeijaFlor, uma escola de vida. Edição de 2002. jan. pp. 18-20. 12 “Beija-Flor pensa em mudar a sua ala de compositores”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1997. 13 MOTTA, Aydano. “Estilhaços da guerra do tráfico atingem carnaval”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1995. 14 Op. cit., pp. 29-32. 15 O livro de Zeneida Lima é O mundo místico dos caruanas e a revolta de sua ave. Belém: CEJUPE, 1991. 16 “Mutirão de criatividades”. In: O Globo, Rio de Janeiro, fevereiro de 1998. 17 G. R. E. S. BEIJA-FLOR de Nilópolis. Sinopse do Carnaval 1998. Site Academia do Samba: http://academiadosamba.com.br/ passarela/beijaflor/index.htm. Acesso em: 03/02/2017. 18 “Pará investe na Beija-Flor”. In: Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1998. 19 MUSSA, A. e SIMAS, L. A. Samba de enredo: história e arte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. 20 “Beija-Flor desfila sob vaias na festa das campeãs”. In: O Globo, Rio de Janeiro, fevereiro de 1998. 21 MOTTA, Aydano A. e HELENA, Letícia. “O samba corre a sacolinha”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1999. 22 Youtube: https://www.youtube.com/ watch?v=sQPJUNxmAfY. Acesso em: 05/02/2017. 23 MACEDO, R. “Varig e Beija-Flor voando juntas”. In: Revista Beija-Flor: uma escola de vida. Nº 1. Jan. 2002, p. 96. 24 Ver: CAMPOS, Lucien de. “Ditador de Guiné Equatorial doa R$ 10 milhões à Beija-Flor de Nilópolis”. In: Pragmatismo político, 17 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://www. pragmatismopolitico.com.br/2015/02/ ditador-de-guine-equatorial-doa-r-10milhoes-a-beija-flor-de-nilopolis.html. Acesso em: 17/02/2015; Ver: “Um Ditador no carnaval do Rio”. In: El país — Brasil, 19 de fevereiro de 2015. Disponível em:


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http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/17/ opinion/1424197404_799744.html. Acesso em: 19/02/2015. 25 Ver: PELLEGRINE, Marcelo. “Entrevista — Ativista da Guiné Equatorial condena apoio à Beija-Flor”. In: Carta Capital, 22 de fevereiro de 2015. Disponível em: http:// www.cartacapital.com.br/internacional/ beija-flor-guine-equatorial-2029.html. Acesso em: 22/02/2015; Ver: ÁVILA, Juan Tomás. “Carta de um escritor da Guiné Equatorial aos cariocas”. (Tradução de Antônio Rodrigues). In: Rede Angola, 19 de fevereiro de 2015. Disponível em: http:// www.redeangola.info/especiais/cartade-um-escritor-da-guine-equatorial-aoscariocas/. Acesso em: 20/02/2015. 26 Ver: CASADO, José. “Filho de ditador gasta em compras o dobro da dívida com o Brasil”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 4 de agosto de 2013. Disponível em: http:// oglobo.globo.com/mundo/filho-deditador-gasta-em-compras-dobro-dadivida-com-brasil-9345732. Acesso em: 22/02/2015; Ver: ARAÚJO, Vera. “Ministério Público Federal apura doação da ditadura da Guiné Equatorial à Beija-Flor”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://oglobo.globo. com/rio/carnaval/2015/ministerio-publicofederal-apura-doacao-da-ditadura-daguine-equatorial-beija-flor-15387143. Acesso em: 22/02/2015. 27 Na pequena foto, Teodorín aparece posando com a porta-bandeira Selminha Sorriso e junto com ela ostenta ritualmente o pavilhão da escola de samba. E como indica outra foto publicada ao lado da primeira, compartilhando a legenda, outros visitantes ilustres estiveram no camarote na ocasião daquele ensaio de 2007: “O Embaixador da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema Obiang, ‘caiu’ no samba junto com Selminha Sorriso, as atrizes, Zezé Motta e Maria Ceiça, a Ministra da Igualdade Racial Matilde Ribeiro e o Presidente Farid Abraão”. NOSSA cara… Nossa gente! In: O Beija-Flor. Nº 27, Ano 4, fev. 2007. 28 “Um Griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial”. In: Revista Beija-Flor: uma escola de vida. 14ª edição. fev. 2015. p. 13. 29 ALENCAR, Emanuel; MAGALHÃES, Luiz Ernesto; GRILLO, Marco; GALDO, Rafael

e BERTA, Rubem. “Com enredo apoiado por governo autoritário da África, BeijaFlor chega ao 13º título”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://oglobo.globo.com/ rio/carnaval/2015/com-enredo-apoiadopor-governo-autoritario-da-africa-beijaflor-chega-ao-13-titulo-15370476. Acesso em: 19/02/2015. 30 NOBLAT, Ricardo. “Presidente da Guiné Equatorial dá R$ 10 milhões para desfile da Beija-Flor que exalta o país”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://oglobo.globo. com/rio/carnaval/2015/presidente-daguine-equatorial-da-10-milhoes-paradesfile-da-beija-flor-que-exalta-pais15303852?utm_source=Facebook&utm_ medium=Social&utm_campaign=O+Globo. Acesso em: 12/02/2015. 31 MOTTA, Aydano André. “Ebola faz a Beija-Flor alterar letra de seu sambaenredo”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2014. Disponível em: http:// oglobo.globo.com/sociedade/saude/ebolafaz-beija-flor-alterar-letra-de-seu-sambaenredo-14358994. Acesso em: 26/10/2014. 32 “’É uma ditadura benéfica’, diz diretor da Beija Flor, campeã do Carnaval”. In: Diário do Centro do Mundo, 18 de fevereiro de 2015. Disponível em: http:// www.diariodocentrodomundo.com.br/ essencial/e-uma-ditadura-benefica-dizdiretor-da-beija-flor-campea-do-carnaval/. Acesso em: 22/02/2015. 33 “Barracões do Especial: Beija-Flor busca retorno de sua plástica diferenciada para buscar o título”. In: Carnavalesco, 5 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://www.carnavalesco.com.br/noticia/ barraces-do-especial-beija-flor-buscaretorno-de-sua-plstica-diferenciadapara-buscar-o-ttulo/11224. Acesso em: 5/02/2015. 34 MARCOLINA, Bárbara e GALDO, Rafael. “Juíza Denise Frossard critica enredo patrocinado por ditador de um país africano: ‘dinheiro sujo’”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://oglobo.globo.com/ rio/carnaval/2015/juiza-denise-frossardcritica-enredo-patrocinado-por-ditadorde-pais-africano-dinheiro-sujo-15315108. Acesso em: 12/02/2015.

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G. R. E. S. Beija-Flor de Nilópolis

35 Ver: “O que você precisa saber sobre a Guiné Equatorial”. In: Diário do Centro do Mundo, 18 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://www.diariodocentrodomundo. com.br/essencial/o-que-voce-precisasaber-sobre-a-guine-equatorial/. Acesso em: 18/02/2015. 36 Ver: BRITO, Fernando. “Alô, galera da CBN, vocês sabiam que o bicho já teve ‘O poste no ar’ na Globo?”. In: O Tijolaço — ‘A política, sem polêmica, é a arma das elites’, 20 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://tijolaco.com.br/blog/?p=24890. Acesso em: 20/02/2015. 37 “Texto de agradecimento do excelentíssimo Sr. Embaixador da República da Guiné Equatorial no Brasil, Dr. Benigno Pedro Matute Tang”. In: Revista Beija-Flor, uma escola de vida. Nº 14. Fev. 2015, p. 8. 38 ALENCAR, Emanuel; MAGALHÃES, Luiz Ernesto; GRILLO, Marco; GALDO, Rafael e BERTA, Rubem. “Com enredo apoiado por governo autoritário da África, Beija-Flor chega ao 13º título”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2015. 39 GRILLO, Marco. “Governo da Guiné Equatorial afirma que patrocínio à BeijaFlor partiu de empresas brasileiras”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2015. 40 “Odebrecht nega que tenha patrocinado a Beija-Flor”. In: O Globo, Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2015. 41 MAGALHÃES, Luís Carlos (atual Presidente Administrativo do G. R. E. S. Portela). “É da Beza Flô?”. In: Carnavalesco, 22 de fevereiro de 2015. Disponível em: http://www.carnavalesco.com.br/noticia/ luis-carlos-magalhes--da-beza-fl/11672. Acesso em: 22/02/2015.

Lista dos enredos da Beija-Flor de Nilópolis entre 1998 e 2015 (1998) Pará, o mundo místico dos caruanas nas águas do Patu Anu. (1999) Araxá — lugar alto onde primeiro se avista o sol. (2000) Brasil, um coração que pulsa forte, pátria de todos ou terra de ninguém? (2001) A saga de Agotime — Maria Mineira Naê.

n.12, 2017, p.245-272

(2002) O Brasil dá o ar de sua graça. De Ícaro a Rubem Berta, o ímpeto de voar. (2003) O povo conta a sua história: saco vazio não pára em pé, a mão que faz a guerra, faz a paz. (2004) Manôa — Manaus — Amazônia — Terra Santa… Que alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz. (2005) O vento corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete povos na fé e na dor… Sete missões de amor. (2006) Poços de Caldas, derrama sobre a Terra suas águas milagrosas — do caos inicial à explosão da vida, a nave-mãe da existência. (2007) Áfricas — do berço real à corte brasiliana. (2008) Macapaba: equinócio solar, viagens fantásticas ao meio do mundo. (2010) Brilhante ao sol do Novo Mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança. (2012) São Luís: o poema encantado do Maranhão. (2013) Amigo fiel — do cavalo do amanhecer ao Mangalarga Marchador. (2014) O astro iluminado da comunicação brasileira. (2015) Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade.

Referências Bibliográficas BEZERRA, Luiz Anselmo. “A Beija-Flor dos anos de sacrifício”. In: Textos Escolhidos de Cultura e Artes Populares. Rio de Janeiro. v. 7, n. 2. Nov de 2010, pp. 217-232. _____. “O mecenato do jogo do bicho e a ascensão da Beija-Flor no carnaval carioca”. In: Textos Escolhidos de Cultura e Artes Populares. Rio de Janeiro. v. 6. Out de 2009, pp. 139-149. _____. A família Beija-Flor. (Dissertação de Mestrado em História) Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2010. DINIZ, Alan; MEDEIROS, Alexandre e FABATO, Fábio. As três irmãs: como um trio de penetras “arrombou a festa”. Rio de Janeiro: Nova Terra, 2015.


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Luiz Anselmo Bezerra

FABATO, Fábio e SIMAS, Luiz Antonio. Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos. Rio de Janeiro: Mórula, 2015. GOMES, Fábio e VILLARES, Stella. O Brasil é um luxo: trinta carnavais de Joãosinho Trinta. São Paulo: CBPC — Centro Brasileiro de Produção Cultural: Axis Produções e Comunicação, 2008. MAIA, Rosemere Santos. Franjas do Estado: assistência nas escolas de samba do Rio de Janeiro. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 1993.

MELLO, Marcelo Pereira de. Olha a Beija-Flor aí gente!: comunicação e cultura na reinvenção do carnaval carioca. (Dissertação de Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação) Instituto de Artes e Comunicação Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2002. MOTTA, Aydano A. Maravilhosa e soberana: histórias da Beija-Flor. Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2012. Recebido em 20/03/2017 Aprovado em 30/04/2017

REviSTA Do ARQUivo GERAL DA CiDADE Do Rio DE JAnEiRo


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