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CORPOREIDADE, LINGUAGEM E SÍMBOLO: UMA ANÁLISE NO RITUAL CARNAVALESCO DO SUL BRASILEIRO Aldo Litaiff1 Thiago Silva de Amorim Jesus2 Resumo Este artigo é referente a uma pesquisa sobre o papel da linguagem do corpo no contexto ritual do desfile de carnaval de rua brasileiro na contemporaneidade. A coleta de dados que fundamenta a análise ocorreu durante o período carnavalesco nas cidades de Uruguaiana e Pelotas, ambas no Estado do Rio Grande do Sul, região sul do Brasil. O estudo é uma pesquisa exploratória, que fez uso do método antropológico de investigação, sendo as informações analisadas partindo de dois eixos principais, a linguagem do corpo e o corpo como símbolo. Esperamos poder demonstrar a importância central do corpo como símbolo do carnaval brasileiro. Palavras-Chave: Corpo – Linguagem – Rito Carnavalesco – Desfile de Rua Abstract This paper is about the role of the body's language in the ritual context of the street carnival brazilian parade in the contemporary moment. The data collection that is base of this analysis happened during the carnivalesque period in the cities of Uruguaiana and Pelotas, both in Rio Grande do Sul state, southern region of Brazil. The research is a exploratory investigation, that used the anthropological method for social researches, organizing the analised informations in two principal categories: the body's language and the body as symbol. We hope demonstrate the central importance of the body as a symbol of the brazilian carnival. Keywords: Body – Language – Carnivalesque Ritual – Street Parade
INTRODUÇÃO Perceber o indivíduo na sua diversa e rica gama de complexidades pode ser uma missão um tanto quanto difícil, instigante e, ao mesmo tempo, incerta pelo infindável emaranhado de possibilidades que suscita. A tais peculiaridades, podemos associar uma série de mecanismos que o indivíduo utiliza em sua vida cotidiana, para dar conta de tão diversos acontecimentos pelos quais ele passa ao longo de sua vida, ou seja, como interage com o meio, do qual ele é, ao mesmo tempo, produto e produtor. 1
Doutor em Antropologia; Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL/SC; Antropólogo do Museu da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. E-mail: litaiff@cfh.ufsc.br 2 Mestre e Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL/SC; Professor Assistente do Curso de Dança e Coordenador do Núcleo de Folclore da Universidade Federal de Pelotas – UFPel/RS. E-mail: prothiago@yahoo.com.br
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Com este intuito, o homem faz uso de ferramentas que lhe permitem viver em sociedade, manter relações de distintas ordens com outros indivíduos, de modo a construir, a partir deste compartilhamento, seu próprio espaço social e seu(s) modo(s) de vida. A linguagem é a principal destas ferramentas. Nesta pesquisa, investigamos o papel da linguagem do corpo no contexto ritual do desfile de carnaval de rua brasileiro na contemporaneidade, que aparece como campo de estudo que se constitui como terra fértil para um trabalho desta natureza. O estudo está direcionado para a análise de desfiles realizados nos moldes do Carnaval do Rio de Janeiro, que, a partir da década de 50 começa a influenciar os carnavais de outras cidades brasileiras (Cavalcanti, 2001, p. 75). Assim, foi realizada uma pesquisa realizada nas cidades Uruguaiana e Pelotas, ambas no Estado do Rio Grande do Sul, situado na região sul do Brasil, ou seja, distantes de grandes centros urbanos, como a cidade do Rio de Janeiro, conhecida nacional e internacionalmente pelo seu Carnaval, além de outras características. Nestas duas cidades são realizadas dois dos cinco maiores e “melhores” desfiles de carnaval do Estado, uma seguindo uma linha mais tradicional, e a outra mais contemporânea, propondo inovações constantes, intercâmbios e uso de novas tecnologias. O objetivo geral deste trabalho é investigar a linguagem do corpo durante o ritual carnavalesco do sul do Brasil; assim como também, especificamente, caracterizar o carnaval enquanto ritual brasileiro contemporâneo, descrevendo o contexto em que ele acontece; analisar a percepção dos participantes em relação ao corpo no ritual do desfile de carnaval; analisar as formas como o corpo é cultuado, mediante possíveis relações de inversão; e, por último, constatar a importância simbólica do corpo dentro dos desfiles de rua do carnaval. Deste modo, apresentaremos aqui alguns dos resultados atingidos. As principais hipóteses do trabalho são: a possibilidade do corpo, e as formas como ele é exposto, constituírem papel decisivo e determinante no ritual carnavalesco; a idéia de que a linguagem corporal no desfile carnavalesco provoca diferentes reações nos sujeitos, a maioria atrelada às noções de desejo, prazer e alegria; também que a inversão de papéis é motivação de extrema importância para a participação dos indivíduos e, por fim, que o corpo constitui-se como um símbolo do Carnaval. Embora a produção de conhecimento em torno da diversidade cultural brasileira tenha evoluído gradativamente nas últimas décadas e preenchido espaços de discussão acerca deste tema-gerador e de temas afins dentro de universidades, ações como: tratar sobre Carnaval em espaços acadêmicos, produzir conhecimento científico sobre o assunto e valorizar essa manifestação como área interdisciplinar de pesquisa e investigação teórico ainda estão longe de tornarem-se práticas comuns. Talvez pelo Carnaval estar atrelado diretamente aos conceitos de
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festa, prazer, efemeridade e lazer, mesmo considerado a mais importante manifestação popular nacional, ele ainda não se constituiu em uma temática de estudo com espaço acadêmico relevante, salvo raras exceções. A complexidade e a diversidade de nossa cultura merecem aprofundamento e registros de cabimento interdisciplinar, como forma de conquistar subsídios teóricos que permitam interação com as diferentes áreas do conhecimento humano e que percebam o seu valor, não em uma perspectiva descontextualizada; mas em conexão e retroalimentação com o pensamento acadêmico e extra-acadêmico. Diante deste quadro, o presente estudo ganha força, tomando como apoio fundamental as contribuições provenientes dos campos da antropologia e da sociologia. Assim, vislumbra-se que a interlocução dessas áreas de conhecimento possa contribuir para uma análise significativa acerca do status que o corpo assume durante o Carnaval. Observando a caracterização estética apresentada pela composição do contexto em que ocorre e levando em consideração a importância do olhar interdisciplinar proposto às áreas envolvidas, buscamos o fomento da discussão acerca do tema. SOBRE CORPO E LINGUAGEM Para analisar teoricamente a condição comunicativa do corpo enquanto componente da linguagem social, tomada como eixo norteador neste artigo, adotamos os escritos sobre o corpo na obra de Marcel Mauss. Partindo das ideias Mauss, o antropólogo brasileiro José Rodrigues (1975, p.46) aponta que o corpo pode ser entendido sociologicamente se for percebido como um ente expressivo dentro de um determinado contexto sócio-comunicativo: “tudo o que for expressivo no corpo, tudo o que comunicar alguma coisa aos homens, tudo o que depender das codificações particulares de um grupo social, é objeto de estudo sociológico”. A interação sujeito-sociedade encaminha para a determinação de comportamentos normativos em relação ao corpo, que podem ser percebidos numa intersecção entre as características biológicas e culturais. O sujeito tenderá a se conformar a padrões de comportamento que se lhe apresentarem como “tão naturais quanto o desenvolvimento dos seres vivos, a sucessão das estações ou o movimento do nascer e do pôr-do-sol”. Entretanto, mesmo que assumamos este caráter “natural” e “universal”, uma simples observação em nosso entorno poderá demonstrar que o corpo humano, como sistema biológico, é “atravessado” por influências da religião, do grupo familiar, da classe e outros diversos fatores sociais e culturais. Dentro desta perspectiva de interação sociológica, o corpo sofre interferência de características determinadas e preconizadas pela sociedade ao longo do processo educativo dos
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sujeitos. Segundo Rodrigues (1975, p. 45), “uma sociedade não pode sobreviver sem fixar no físico de suas crianças algumas similitudes essenciais que as identifiquem e possibilitem a comunicação entre elas”, de modo a articular, com isso, ideais intelectuais, afetivos, morais e físicos, decididos amplamente pelo conjunto da sociedade ou mesmo por cada grupo social específico em que vivem os sujeitos. Em sua obra “Sociologia e Antropologia”, Mauss (2003, p. 405) trata da importância da educação no processo de orientação das ações do corpo na sociedade, afirmando que as atitudes corporais, assim como as habilidades manuais, só se aprendem lentamente. Ao considerar que cada sociedade tem seus hábitos corporais próprios, o autor afirma: A criança, como o adulto, imita atos bem sucedidos que ela viu ser efetuados por pessoas nas quais confia e que têm autoridade sobre ela. O ato se impõe de fora, do alto, mesmo um ato exclusivamente biológico, relativo ao corpo. O indivíduo assimila a série de movimentos de que é composto o ato executado diante dele ou com ele pelos outros. (...) É precisamente nessa noção de prestígio da pessoa que faz o ato ordenado, autorizado, provado, em relação ao indivíduo imitador, que se verifica todo o elemento social. (...) Em suma, talvez não exista “maneira natural” no adulto.
Rodrigues (1975, p.45), entretanto, acredita que existem determinados comportamentos humanos que não dependem de nossa formação específica e que estarão presentes em todos os sujeitos, como resultado de motivações orgânicas que orientam os indivíduos a determinados tipos de atitude comportamental. O pensamento desses dois autores entra em sintonia em um aspecto importante na relação entre o biológico e o social. Para Rodrigues (1975, p.45): A cada uma dessas motivações biológicas a cultura atribui uma significação especial em função da qual assumirá determinadas atitudes e desprezará outras. Além disso, cada cultura, à sua maneira, inibe ou exalta esses impulsos, selecionando, dentre todos, quais serão os inibidos, quais serão os exaltados e quais serão os considerados sem importância e, portanto, tenderão a permanecer desconhecidos.
Mauss (2003, p.421) complementa esta idéia: Creio que essa noção de educação das raças que se selecionam em vista de um rendimento determinado é um dos momentos fundamentais da própria história:
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educação da visão, educação da marcha – subir, descer, correr. (...) E este é, antes de tudo, um mecanismo de retardamento, de inibição de movimentos desordenados; esse retardamento permite, a seguir, uma resposta coordenada de movimentos coordenados, que partem então na direção do alvo escolhido. Essa resistência à perturbação invasora é fundamental na vida social e mental. Ela separa entre si, ela classifica mesmo as sociedades ditas primitivas: conforme as reações são mais ou menos brutais, irrefletidas, inconscientes, ou, ao contrário, isoladas, precisas, comandadas por uma consciência clara.
Na tentativa de elucidar esta análise sobre o corpo, Mauss (2003, p. 409-411) propõe uma interessante classificação das técnicas do corpo a partir de quatro princípios básicos, que levam em consideração, especialmente, as diferenças dos sujeitos em relação ao sexo, à idade, ao rendimento e à sua forma de transmissão3. Segundo o autor, os quatro princípios serviriam para nortear os diferentes tipos de técnicas que estariam atreladas ao homem ao longo de sua vida e que poderiam ser divididas em categorias distintas, de acordo com a idade dos sujeitos. Dentre os tipos de técnicas citadas pelo autor, estão as do nascimento e da obstetrícia, as da infância, as da adolescência e as da vida adulta, estas últimas, segmentadas em técnicas do sono, vigília, da atividade e do movimento (onde inclui a dança), técnicas dos cuidados do corpo e do consumo. Rodrigues (1975), por sua vez, acredita que, para entender este corpo sociologicamente, é necessário fazer uma distinção entre os aspectos expressivos e instrumentais do comportamento humano. Entende-se, segundo ele, por atividade expressiva aquela que está comprometida com o modo de dizer ou expressar alguma coisa, uma ideia ou estado espiritual, ou seja, uma atividade simbólica à qual convém perguntar o que está sendo dito ou o que significa; e, por atividade instrumental, àquela que nos interessa saber para que serve e a que fim visa. Assim, o autor propõe uma reflexão que traça uma relação do corpo com os valores que lhe são socialmente 3
Resumidamente, a classificação proposta pelo autor prevê o seguinte: a) divisão das técnicas do corpo entre os sexos: diferença de atitudes dos corpos em movimento em relação a objetos em movimento nos dois sexos. Há uma sociedade dos homens e uma sociedade das mulheres; b) variação das técnicas do corpo com as idades: há coisas que acreditamos ser da ordem da hereditariedade e que são, na verdade, de ordem fisiológica, de ordem psicológica e de ordem social; c) classificação das técnicas do corpo em relação ao rendimento: as técnicas do corpo podem se classificar em função de seu rendimento, dos resultados de um adestramento. O adestramento, como a montagem de uma máquina, é a busca, a aquisição de um rendimento. Aqui, é um rendimento humano. Essas técnicas são, portanto, as normas humanas do adestramento humano. Noção de destreza como “habilis”, que serve para designar que as pessoas que têm o senso da adaptação de seus movimentos bem coordenados a objetivos, que têm hábitos, que „sabem como fazer‟; d) transmissão da forma das técnicas: o ensino das técnicas sendo essencial, podemos classificá-las em relação à natureza dessa educação e desse adestramento. E eis aqui um novo campo de estudos: incontáveis detalhes nãoobservados, e cuja observação deve ser feita, compõem a educação física de todas as idades e dos dois sexos. Para ver mais, consulte: MAUSS, Marcel. Noção de Técnica do Corpo. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
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atribuídos, refletindo deste modo, a própria sociedade à qual o sujeito está inserido. Com estas ponderações, o autor abre a possibilidade para pensar o sujeito, social e historicamente constituído, também corporalmente em constante transformação, assim como a própria sociedade ou grupo social a que este se vincula. Da Matta (1997, p.139-143) chama-nos à atenção para o fato de que no carnaval brasileiro há uma “suspensão de normas que comandam as relações entre os sexos” e que “as mulheres podem ser abraçadas e apalpadas, na medida em que o recato, que comanda as relações entre os sexos, especialmente em público, é suspenso”. Isso nos permite perceber dois aspectos importantes: o primeiro refere-se a esta possibilidade de atribuições distintas de valores aos comportamentos dos indivíduos nas sociedades e o segundo a possibilidade de, em alguns momentos, as sociedades permitirem o estabelecimento de novas regras, novos tipos de relação e de comportamento corporal entre os sujeitos. Sobre este aspecto, Mauss (2003, p. 420-421) sublinha que em todo coletivo de vida em grupo existe uma espécie de educação dos movimentos “em fileira cerrada”, de modo que, em cada sociedade, “todos sabem e devem saber e aprender o que devem fazer em todas as condições”. Por outro lado, o autor alerta: “Já que se trata de movimentos do corpo, tudo supõe um enorme aparelho biológico... Creio que a educação fundamental das técnicas que vimos consiste em fazer adaptar o corpo a seu uso.” Deste modo, podemos entender que linguagem, corpo e uso são noções que se aproximam de forma íntima já que o corpo é um complexo de informações altamente codificadas, variando de sociedade para sociedade, numa linguagem tão coletiva como qualquer outra. Desta forma, o corpo pode ser visto como fruto da vida em sociedade e não como um processo exclusivamente biológico do comportamento humano, o que lhe garante a condição de fato social total. Rodrigues (1975, p. 132) sublinha, ainda, que esta condição polissêmica dos símbolos corporais apresenta uma grande dificuldade para qualquer análise que se pretenda, uma vez que “é impossível levantar um léxico variável pelas etimologias, empregos e contextos particulares”. Por sua vez, “da mesma forma que existem situações codificadas, existem códigos situacionais, isto é, códigos alternativos, paralelos, que o indivíduo elege de acordo com as situações particulares em que se encontra”. Acreditando que as práticas corporais são “comportamentos rituais sustentados por crenças míticas”, Rodrigues (1975, p. 135) explica que os mitos e os ritos podem ser vistos como práticas que portam teorias sobre o mundo e a sociedade, de modo tácito. Quando a eles estamos submetidos, não temos consciência de estarmos em “contato com a totalidade condensada da
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estrutura social”. Segundo o autor, são essas práticas, estes ritos que traduzem para a linguagem do corpo, toda uma linguagem do comportamento social. Ritos que “imprimem no homem uma espécie de consciência visceral do mundo, altamente codificada, estruturada, rigorosa e socializada”. Outro aspecto importante levantado por este autor diz respeito à linguagem do corpo em sua projeção de relação com a sociedade e os inúmeros códigos que constantemente são postos em articulação. Buscando evitar redundâncias ou reducionismos, cabe-nos pensar, a partir de tais colocações, sobre a importância que o corpo assume para o entendimento das diferentes sociedades. Deste modo, estas asserções nos levam a crer que, na tentativa de entender determinado grupo, país, ou estrutura social, podemos analisar as linguagens e comportamentos corporais adotados pelos indivíduos, mediante diferentes situações, eventos e momentos da vida social que compreendem o universo em questão. Nosso estudo se caracterizou por uma pesquisa exploratória de caráter descritivo e analítico, a partir do método antropológico de investigação, tendo como base a observação participante. Independente da função e das atribuições no contexto carnavalesco em que atuam, participaram desse estudo de forma voluntária quatorze indivíduos adultos, de ambos os sexos e de diferentes faixas etárias. Tal etapa foi realizada nas cidades citadas, durante o período do Carnaval de 2008, compreendendo o período entre 14 de fevereiro e 5 de março, o que permitiu acompanhar, além dos desfiles propriamente ditos, algumas etapas pré e pós-carnaval, como eventos, ensaios técnicos, desfiles e apuração dos resultados. Os instrumentos de coleta utilizados foram entrevistas semi-estruturadas, com questões abertas, questionários (quando da impossibilidade do entrevistado de fornecer entrevista pessoalmente) e observações dos desfiles e demais eventos paralelos vinculados ao desfile, como centro do carnaval, organizadas em um roteiro de observação. Além destes recursos, foram feitas gravações de entrevista em áudio, fotografias e vídeos dos desfiles nas respectivas cidades. A coleta de dados seguiu o seguinte percurso: após contato inicial com os sujeitos, foi agendada a entrevista com os participantes voluntários disponíveis e preparado o material para a realização da entrevista. Na sequência, foi realizada a entrevista aberta semi-estruturada, sendo gravada em meio fonográfico ou escrita (excepcionalmente, quando necessário). As observações durante as entrevistas, a participação nos desfiles ao vivo e atividades paralelas e as análises dos vídeos de gravações destes foram fontes utilizadas para a coleta de dados, especialmente para a descrição do contexto de preparação e realização do ritual carnavalesco. Com o intuito de responder às questões norteadoras do trabalho e testar, de modo a confirmar, ou não, as hipóteses levantadas
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pelo estudo, as questões da entrevista foram selecionadas e divididas em dois grandes eixos ou categorias, que são linguagem do corpo e corpo como símbolo. CORPO, LINGUAGEM E SÍMBOLO Como vimos, através de uma “observação participante”, efetuada in loco nos dois lugares, e graças à realização dos desfiles de carnaval acontecer em datas distintas, foi possível ter uma apreensão de ambos os contextos, haja vista que houve um acompanhamento pré, durante e pósdesfiles. A observação ocorreu, inclusive, com visitas a escolas de samba, ensaios nas quadras, ensaios técnicos na avenida, visitas aos barracões, passeio pelos centros das cidades e visitas a lojas do comércio especializadas em artigos carnavalescos, bem como contato direto com diferentes carnavalescos e profissionais envolvidos, de forma mais ou menos direta, com o evento “Carnaval” e os desfiles de rua propriamente ditos. Em ambos os contextos, foi possível perceber que se tratam, ambas as cidades, de dois exemplos de lugares bastante envolvidos com o Carnaval. Desde o centro das cidades até os espaços específicos de realização do Carnaval, como sambódromos, barracões e quadras de escolas4, notam-se pessoas das mais diversas procedências conversando sobre o tema, manifestando-se em relação à preferência por uma ou outra agremiação, fazendo brincadeiras e promessas para o dia do desfile e mesmo sobre a hipótese de vitória de tal escola ou sua concorrente, tanto em lugares públicos como em particulares. O espaço de realização de ambos os desfiles nas cidades pesquisadas são bastante semelhantes. Em Uruguaiana e Pelotas, uma avenida do centro da cidade, ou rua próxima a ele, é destinada para a montagem uma infra-estrutura própria para a realização dos desfiles de rua do evento. Trata-se de uma avenida (700m e 300m, respectivamente) em que são dispostas, de um lado, arquibancadas populares, e, do outro, os camarotes, espaços para autoridades e o palanque oficial, onde é feita a apresentação do evento. Ao longo da avenida, existe uma infra-estrutura de sonorização e de iluminação especiais, com maior potência, que possam servir ao desfile das escolas de samba, blocos e demais participantes. Também no decorrer e nas proximidades deste espaço, existem banheiros móveis e estandes para comercialização de alimentação e bebidas, além de garçons e vendedores ambulantes que ficam comercializando, além destes gêneros, também
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Sambódromo é o nome dado à rua ou avenida onde é montada toda a infraestrutura para acontecer os desfiles de rua do carnaval; pode ser fixo ou apenas preparado para os festejos carnavalescos. Barracões são espaços similares a grandes ateliês onde são confeccionados os carros alegóricos, adereços e também fantasias de carnaval. Quadras são os nomes dados às sedes das escolas de samba, onde são realizados eventos durante o ano e, de modo intensivo nos meses que antecedem o desfile de carnaval, além de ser o espaço onde acontecem os ensaios da bateria, dos passistas e demais integrantes da agremiação.
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fitas, adornos, adereços, sprays de espuma e outros artigos carnavalescos, temáticos de alguma agremiação ou mesmo temáticos do carnaval. Os dados coletados que seguem têm a finalidade de analisar as informações obtidas junto aos nossos colaboradores. Para tanto, organizamos as informações em dois campos principais: linguagem do corpo; e, corpo como símbolo. Linguagem do corpo Interessa-nos verificar aqui como o corpo se engendra neste universo lingüístico composto pela cena do ritual carnavalesco. O tipo de movimentação utilizada pelos indivíduos entrevistados durante sua participação no desfile de carnaval de rua é um aspecto importante. Foi ofertada aos participantes da pesquisa a possibilidade de adjetivação dos movimentos realizados com qualquer termo que o sujeito julgasse pertinente, ficando o entrevistado livre para tal nominação. De tais respostas, cabe apontar que 100% dos sujeitos entrevistados classificou a sua movimentação, ou seja, os movimentos corporais que realizam durante o ritual carnavalesco como movimentos “alegres”, “descontraídos”, “envolventes”, “vivos”, “organizados”, “amplos” e “coreografados”. Também 100% dos entrevistados afirmou que os movimentos e gestos que executam na avenida, quando do desfile de carnaval, não são considerados por eles como “eróticos”, “vulgares”, “lentos” ou “desajeitados”. Além de tais caracterizações, vale citar dois outros aspectos que nos chamaram a atenção: 1) o fato de metade dos sujeitos entrevistados considerarem sua movimentação “sensual”, “exótica” e “exagerada”, sendo a metade restante dos sujeitos contrária a esta definição; e 2) apenas dois sujeitos não considerarem seus movimentos como “ousados”, número este condizente também com o de indivíduos que definiram sua movimentação corporal durante o desfile como “recatada”. Diante de tal quadro buscamos referência nas reflexões de Mauss (2003) e Rodrigues (1975), que discutem as influências da educação e da sociedade na orientação do comportamento corporal dos indivíduos. Vimos que Mauss acredita que cada sociedade tem seus hábitos corporais próprios e que é relevante a importância da educação no processo de orientação das ações do corpo na sociedade. Vimos também que Rodrigues defende que a cultura dita normas em relação ao corpo, definindo seus padrões de comportamento, e submetendo este corpo, como sistema biológico que também é, às interferências da religião, da ocupação, do grupo familiar, da classe e de outros intervenientes sociais e culturais. Pierre Bourdieu (1996, p. 42) afirma que a condição sócio-contextual fundada numa Praxiologia (ou teoria da prática, ou teoria da ação), entende que os sujeitos são agentes que atuam
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dotados “de um senso prático, de um sistema adquirido de preferências, de princípios de visão e de divisão (gosto), de estruturas cognitivas duradouras (objetivas) e de esquemas de ação que orientam a percepção da situação e a resposta adequada”. Segundo o autor, “o habitus é essa espécie de senso prático do que se deve fazer em cada situação.” As contribuições destes autores permitem considerar, que as classificações e adjetivações feitas pelos entrevistados para definir o seu tipo de movimentação ou o conjunto de gestos e movimentos por eles executados durante o ritual carnavalesco, são fruto de uma imposição ou disposição mais ampla do que suas próprias individualidades. Ou seja, a nomenclatura, e, por conseguinte, o conceito de cada tipo de movimento realizado, é reflexo dos pensamentos e práticas coletivas aos quais todos estão submetidos. Sobre este aspecto, no que se refere à condição comunicativa inerente ao corpo, Rodrigues (1975) sintetiza uma das idéias centrais do presente trabalho, quando considera que o corpo é um complexo de informações que estão altamente codificadas e que variam de sociedade para sociedade, às quais lhe fazem constituir-se “numa linguagem como qualquer outra”. Isto sugere que corpo deve ser compreendido contextualmente nas suas complexas e diversas dimensões comunicativas, uma vez que carrega indiscutível potencial linguístico, no sentido mais amplo da palavra. Assim, a base da comunicação é o uso e não pode ser entendida fora do seu contexto. Identificamos nas informações fornecidas pelos indivíduos durante a pesquisa, esta possibilidade de expressão e comunicação do corpo, mediante os relatos das participações dos entrevistados nos desfiles de rua do carnaval, seja através da movimentação corporal, seja por comunicação falada ou mesmo através do figurino, traje ou da apresentação realizada durante o desfile. Assim, pensar este corpo como elemento expressivo e de linguagem significa pensar na multivocidade, na diversidade e, neste sentido, o discurso do carnaval, também, deve ser apreendido em sua dimensão representativa de ritual, já que sua constituição denota determinadas recorrências. Deste modo, para entendermos a linguagem do corpo no carnaval brasileiro, devemos traçar uma relação deste, enquanto elemento constituinte da linguagem carnavalesca, com os demais aspectos que a compõem. Para entender a questão e, com isso, atestar esta condição comunicativa que lhe é atribuída, analisamos a percepção dos participantes sobre a condição comunicativa de sua apresentação na avenida como nos seguintes relatos: 1 - Eu tento passar isso para as outras pessoas, de tirar essa cara de futilidade ou de violência do carnaval, ou de desnecessário, ou de dinheiro posto fora, (...) e tomara que eu consiga. (CLÁUDIA, 2008)
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2 - Eu acho que a gente vive num mundo tão violento e a gente quer passar alegria; eu gostaria que todo o povo que vai ver o carnaval brincasse com alegria, sem violência. Isso é o fator principal: é a alegria. (LUIZ, 2008)
Podemos perceber nos relatos acima que os indivíduos demonstram ter consciência da possibilidade expressiva e de comunicação que lhes é assegurada com a participação no ritual carnavalesco e que, cada um ao seu modo, faz uso desta possibilidade com fins diversos. No primeiro caso, a entrevistada menciona uma preocupação com a imagem do carnaval como um todo; já o segundo, levanta uma questão social, onde o carnaval serviria para levar uma mensagem de alegria e não-violência. Analisando o carnaval enquanto mito e ritual que reflete a estrutura de nossa sociedade, podemos ter uma apreensão do espaço social brasileiro. Ter a noção de espaço social (Bourdieu, 1996), que organiza os agentes e grupos em função da posição ocupada, considerando seu capital econômico e cultural, significa ter uma apreensão relacional do mundo. As classes sociais não existem a não ser virtualmente, o que existe é um espaço social ou campos constituídos de diferenças, o que, no caso brasileiro, de algum modo se retrata, por exemplo, no ritual carnavalesco. Os diferentes papéis assumidos pelos integrantes, os cargos e funções dentro da escola, as posições de maior ou menor exposição e evidência, a importância de cada elemento, a diversidade de linguagens, atestam este espaço de diferenças em que se constitui o carnaval e, por sua vez, os espaços sociais brasileiros. Corpo como símbolo Em suas análises dos rituais, Turner (1974) trata dos elementos que compõem os ritos, dentre os quais se destacam os símbolos, ou simbologia ritual. Dada sua complexidade e variedade, cada símbolo é apreendido de forma diferente se for tomado isoladamente ou se for percebido dentro do contexto a que pertence. Ou seja, os símbolos só podem ser compreendidos contextualmente em seus locais de ocorrência, uma vez que, transpostos para outros ambientes e tempos, necessariamente emitiriam outras cadeias de significados. No espaço e tempo ritual, palavras, objetos e gestões ordinários mudam de sentido. A partir destas concepções, podemos afirmar que o corpo constitui um dos principais elementos simbólicos que compõe o universo discursivo que engendra o carnaval. Dada essa evidência, é coerente analisar aqui a percepção dos sujeitos sobre o perfil ou biotipo de corpo que se coloca nesta condição-alvo de exposição. Podemos perceber que as opiniões dos sujeitos a respeito da existência ou não de um
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biotipo especial de corpo para a participação no carnaval são diversas. Maria manifesta sua posição afirmando que: Apesar de o carnaval ser uma referência de corpos esculturais, de mulheres lindas, de homens bonitos, eu penso que a baiana também é linda e não tem um corpo escultural, as porta-bandeiras são maravilhosas e não têm corpos esculturais... Então, a beleza física não influi na beleza do carnaval. Eu acho que isso não é fundamental. Eu acho que carnaval e qualquer outra manifestação cultural, vale para qualquer corpo, qualquer pessoa. (MARIA, 2008)
Outros colaboradores desta pesquisa concordam que não há somente um tipo de corpo para o carnaval, entretanto, lembram: 1 - Tu tens que estar preparado. O carnaval não exige um magrinho ou um gordinho, eu acho é que tu tens que estar bem para o desfile. (CARLOS, 2008) 2 - Eu acredito que não necessariamente um biotipo, mas um condicionamento físico adequado, eu acredito que tenha que ter, sim; até mesmo pelas adversidades que nós temos na hora do desfile. (JOSÉ, 2008)
Por outro lado, outra colaboradora, Vera, considera que existe a necessidade de um determinado perfil para o carnaval, uma vez que, segundo ela, é o que as pessoas buscam. A entrevistada explica: “No carnaval, as pessoas procuram ver coisas bonitas. Eu ainda acho que o carnaval exige uma boa aparência, um bom físico, uma estética bonita.” No que se refere à possibilidade de existência de um biotipo corporal para o carnaval, Cláudia menciona outro fator influenciador: Esse biotipo que o carnaval sugere é ligado à mídia. Antigamente o carnaval era de quem sabia sambar e agora passou a quem tem o corpo mais bonito. Então, se tem o corpo bonito e sabe sambar, melhor, mas eu já cansei de ver gente que só tem corpo bonito! Bonito que eu digo é cinturinha fina, coxa grossa, bunda grande, silicone no peito. Acho que essa cultura desse tipo de corpo se forma através da mídia, mas eu não acredito que seja uma postura do carnaval.
Por sua vez, quando questionado sobre se o carnaval sugere algum padrão ideal de corpo, João posiciona-se de forma enfática e ainda define o que ele entende como o “biotipo do carnaval”:
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O carnaval está aberto a toda e qualquer pessoa que tenha disposição e amor ao que está fazendo ali, independente da sua condição física, social ou espiritual, ou sexual. Qualquer pessoa é aceita. Existe, sim, um modelo de corpo para o carnaval, que é o carnavalesco, a pessoa que ama o carnaval, ama o que está fazendo, dá a sua de forma completa, contribuição para uma excelente festa.
Tais percepções estão diretamente ligadas à apreensão que os indivíduos têm do corpo, numa relação direta com o entendimento destes sobre o comportamento que cabe ao corpo dentro deste contexto. A referência a um biotipo específico para o ritual carnavalesco pode ser entendida na perspectiva de uma reflexão sobre os elementos que compõem o “discurso simbólico-expressivo sobre a estrutura da nossa sociedade” em que se constitui o carnaval (Da Matta, 1997). Ou seja, pensar o corpo no carnaval significa ter uma apreensão sobre o universo simbólico que constitui o ritual carnavalesco. Este espaço de diferenças, entrelaçado por uma complexidade e diversidade de elementos e linguagens (música, canto, dança, teatro, circo, pintura, escultura, moda, cinema, mídias, tecnologia, fotografia, arquitetura, história etc...), além da abrangência e repercussão que o carnaval adquire, faz com que os sujeitos entendam esta manifestação como um espetáculo. Tal condição faz com que os indivíduos, percebendo que o corpo e a linguagem a ele atrelada assumem papel decisivo no ritual, tenham uma preocupação com sua imagem, com uma “estética corporal” e com a impressão que vão transparecer quando estiverem sendo alvo das atenções durante o desfile. No que diz respeito à presença da imprensa durante o desfile, Carlos comenta: “Quando estou sambando e aparece uma câmera, não é que eu vá me jogar na frente das câmeras, mas tu tens que aparecer bem na foto, na filmagem, fazer uma pose legal.” Por sua vez, Cláudia aponta: Acho que essa preocupação (com a presença da imprensa durante o desfile) está diretamente ligada com a imagem da escola. Se for passar minha escola de samba na TV eu não vou estar num momento de relaxamento. Acho que quando eu vejo o fotógrafo ou o cinegrafista, eu procuro ampliar o espaço da minha movimentação, para que fique mais clara, mais nítida, e para que apareça melhor na foto e na imagem da TV.
Sobre tal tema, Vera afirma: “o comportamento muda, porque tu te preocupa em como tu vai aparecer na televisão, como as pessoas vão te ver. Naquele minuto, tua imagem pode ficar
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distorcida. Então, tu tens que parar e pensar mais no que tu estás fazendo.” Esta preocupação com a imagem também pode ser vinculada a uma preocupação com a fantasia utilizada no desfile. Ana relata sua preocupação com a fantasia: “A fantasia é muito importante para a performance. Tem fantasias que podem até prejudicar. Então, eu sempre procuro, quando faço uma fantasia, provar antes.” Segundo Luiz, “uma fantasia bonita pode fazer você causar uma alegria maior àquele povo que está ali, vendo você.” Com relação à importância da fantasia, Vera ressalta: Figurino é tudo! Eu acho que fantasia é tudo porque ela te ajuda no que tu pretende fazer na avenida. Dependendo da fantasia tu podes ter um desempenho maior ou menor. A fantasia vai fazer com que eu me sinta melhor, mais bonita. Eu não ia estar me sentindo bem comigo mesmo fazendo um desfile com uma fantasia qualquer. Eu acho que se a fantasia for rica, for bonita, eu já vou entrar melhor, me sentindo bem, bonita, capaz de defender a minha escola.
Da Matta (1997, p.61) atesta esta importância do figurino, quando explica que, no carnaval, a roupagem apropriada, a fantasia, tem duplo significado para nós: ilusão e idealização da realidade, ou traje usado somente no carnaval, ou seja, “a fantasia distingue e revela muito mais do que oculta; ela pode representar um desejo escondido, sintetiza o fantasiado, os papéis que representa e os que gostariam de desempenhar.” Por outro lado, no relato a seguir, temos uma situação em que o entrevistado usa a ornamentação do seu corpo para divulgar uma orientação religiosa (e, com isso, uma mensagem de mesma natureza), através da imagem de uma santa: “A mensagem que eu procuro passar às pessoas é a de Nossa Senhora Aparecida. Eu sempre desfilo com ela no peito.” (Pedro) Da Matta (1997) explica esta tendência à exibição, neste caso, a de colocar a imagem da santa amostra para aproveitar o status de evidência que o corpo adquire durante o ritual carnavalesco. Segundo o autor, existe uma forte tendência à exibição de objetos, relações e ideologias dramatizadas no carnaval: “o carnaval funda sua exibição no exagero; do mesmo modo, a representação do corpo não se contenta em mostrá-lo parado... O corpo não só se desnuda, mas se movimenta.” A situação descrita acima denota a condição que o corpo assume de símbolo dentro deste contexto. Isto dada à evidência a que ele é exposto e à possibilidade de incorporação de informações durante todo o processo ritual, tornando-o assim um signo mais complexo que os demais. Logo, para entender o ritual carnavalesco, é necessário nos atentemos para o papel do corpo, que está presente e que norteia os diferentes olhares dos participantes do desfile assim como os dos expectadores.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao finalizar essa breve análise, sublinhamos que o olhar que direcionou nossa investigação e nossa intervenção não nos permitiu entender o corpo como “simples portador” de uma linguagem, mas como um importante instrumento expressivo de comunicação. Podemos afirmar que a questão do corpo no carnaval e as relações possibilitadas através dele, permitem um re-ordenamento de valores, posições sociais e condições subjetivas, que se articulam num cenário mais complexo de inversões e de re-significações que orientam modos próprios de comportamento durante o carnaval. Assim, entendemos que através de suas incontáveis formas de participação e exposição, o corpo constitui-se como elemento central dentro do ritual do carnaval; que a linguagem corporal utilizada durante o desfile tende a provocar diferentes reações nos indivíduos; que, neste ritual, o corpo é desejado e cultuado como as imagens de santos católicos; que existe um forte elemento de inversão, que se apresenta como algo recorrente e que motiva os indivíduos a participarem do ritual, tendo como consequência trocas de posição, de status, de gênero; e que, por fim, o corpo é realmente um importante símbolo do carnaval brasileiro. Dentre alguns aspectos que cabe ressaltar aqui, entendemos como significativa a compreensão dos indivíduos, que participam do ritual carnavalesco sobre a condição expressiva e comunicativa que compõe o cenário de realização dos desfiles de rua das escolas de samba. Ao informarem a intenção de comunicar algo na ocasião dos desfiles, os indivíduos atestam a condição de comunicabilidade que seu corpo adquire neste contexto. Por esse mesmo viés, o entendimento do carnaval como espetáculo, traz à tona a ideia de duas posições distintas: a do expectador e a da platéia, que podem ser entendidas sob o olhar do mecanismo de inversão de papéis sociais, ou seja, o centro (a classe social mais alta) se torna periferia (platéia), a periferia (população pobre, em sua maioria) transforma-se em centro (do espetáculo, desfilam); homem se torna mulher (se traveste em mulher), a senhora se torna prostituta etc. Essas e outras inversões são permitidas aos sujeitos quando de sua participação no ritual carnavalesco. Este trabalho buscou contribuir para o alargamento da percepção interdisciplinar sobre a condição da linguagem do corpo, particularmente no contexto ritual do carnaval brasileiro e convida a novas investigações, novos olhares, que possam se entrecruzar e qualificar ainda mais estas questões. Entendemos ser fundamental o desenvolvimento e atualização constante deste debate para que o carnaval não seja entendido apenas como lazer, festa, algo efêmero; mas como relevante manifestação popular, integrando o rol dos ritos nacionais, merecendo nossa atenção e
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debate no escopo acadêmico, sob pena de não compreendermos melhor as características e transformações de nosso povo e, consequentemente, de nosso país.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas – sobre a teoria da ação. 3a. ed. Campinas/SP: Papirus, 1996. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O rito e o tempo: a evolução do carnaval carioca. In: Fazendo Antropologia no Brasil. Neide Esterci, Peter Fry & Mirian Goldenberg (org.) Rio de Janeiro: DP&A, 2001. DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. MAUSS, Marcel. “As técnicas corporais” In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. REVISTA LIESU. Revista da Liga Independente das Escolas de Samba de Uruguaiana. Uruguaiana-RS: Gráfica Universitária, 2007. Anual, ano I, ed. I, n. I. ______. Revista da Liga Independente das Escolas de Samba de Uruguaiana. UruguaianaRS: Gráfica Universitária, 2008. Anual, ano 16, ed. II, n. II. RODRIGUES, José Carlos. O tabu do corpo. 2.ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1975. TURNER, Vitor W. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.