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Raízes do Samba de Tocos

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Doring, Katharina. Raízes do Samba de Tocos. em Tambores e Batuques - Circuito 2013/2014 (Sonora Brasil) Rio de Janeiro: Sesc, Departamento Nacional, 2013, pp. 38 - 49

Raízes do Samba de Tocos

O Samba de Roda do Recôncavo e o Samba Rural do Agreste O samba de roda pode ser considerado um termo guarda-chuva predominante em Salvador, no litoral e no recôncavo baiano, enquanto na região do agreste, se fala mais em roda de samba, como comportamento, que celebra a roda como evento coletivo, fazendo parte de um ciclo de várias atividades rurais, permeando entre a labuta na roça e as festividades religiosas e brincantes. O samba de roda da Bahia, ou melhor do recôncavo baiano, ficou em destaque a partir de 2005, na ocasião da proclamação pela UNESCO como patrimônio imaterial e cultural da humanidade1. No entanto, o samba de roda não é restrito ao recôncavo baiano e sim, presente em todo estado da Bahia, com variações incontáveis quanto à cantoria, encenação, ritmos e timbres. Ao lado do candomblé e da capoeira, o samba de roda representa memória e presença sociocultural e estética das matrizes africanas na Bahia, formando os alicerces da identidade negra e baiana, menos conhecidos na sua (est-) ética mais profunda, e nas múltiplas dimensões que vão além do visível, do belo e da alegria do momento. O gênero samba de roda abrange uma infinidade de estilos, sons, ritmos, poéticas, movimentos, gestos, significados e comportamentos que variam de terreiro em terreiro, de roda em roda, de bairro em bairro, de vila em vila, de mestre para mestre. Ele significa muito mais do que um simples divertimento, embora não se negue a assumir também esta função e se manifesta na corporeidade, musicalidade, poesia, ludicidade, sensualidade, diálogo e o sagrado da presença africana no Brasil. 1 O Samba de Roda do recôncavo baiano foi reconhecido com patrimônio imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2004 e em 2005 pela UNESCO e é representada pela Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia, que ampliou as atividades com a Rede das Casas de Samba em 15 municípios, incluindo Antônio Cardoso.

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No recôncavo, o samba sem dúvida tem uma posição especial. É significante a ligação que o samba consegue entre todas as faixas etárias e entre os sexos, como também o fato de que formas de samba são ligadas, de uma ou outra maneira a quase todas as espécies culturais importantes, e tem um papel importante nas demais datas festivas, sejam elas religiosas, rituais ou de outra natureza (PINTO, 1991:106)2.

Em Salvador, a ilha de Itaparica e em municípios próximos, predomina o samba corrido, assim como o samba duro e influências urbanas. O samba chula, também chamado samba de viola e samba amarrado, se encontra na antiga região da cana que abrange São Sebastião do Passé, São Francisco do Conde, Terra Nova, Teodoro Sampaio, Saubara, Santiago do Iguape e Santo Amaro. Uma dupla de cantadores canta a chula e outra dupla e/ou o coro das mulheres responde com relativo, sendo um pequeno verso que “arremata” a chula. Nessa hora, a sambadeira não entra na roda, esperando os homens terminarem de cantar e começarem a parte instrumental com solos de viola e percussão. Imediatamente na finalização do canto, ela entra com passos miudinhos, “peneirando” e percorrendo a roda toda, até dar umbigada para outra sambadeira, que espera até a próxima chula cantada. As chulas são miniaturas poéticas que contam pequenas histórias, conflitos e as complicações da paixão, aspectos do cotidiano, dando conselhos, avisos e “sotaques” para quem precisa ouvir. Os temas preferidos são ligados ao universo amoroso, ressaltando a visão do homem sobre a mulher, como também chulas que retratam a vida do trabalho, na roca, na cana, no mar e no mangue, com a lembrança do sofrimento, do “penar” que remete aos tempos do cativeiro. Um contraste para a labuta diária, representam as chulas lúdicas e eróticas, mediante piadas e ironias, pequenas parábolas, satirizando situações tragicômicas. Na outra margem do Rio Paraguaçu, nos municípios Antônio Cardoso, Santo Estevão e Rafael Jambeiro, a chula é chamada de coco e o corrido chamado de chula. O samba se caracteriza por ser um samba de desafio, cheio de riquezas poéticas, contando os causos da vida rural com sutileza, humor e variedade literária. Entre sambadores antigos, samba é coisa séria, assunto de homens brabos que se desafiam com palavras afiadas e bem ritmadas, levando noites inteiras nessas disputas que renderam muitas lendas em toda região. Além do coco e da chula, é conhecido o trava-língua: licutixo e bagaço, expressões do samba rural em versos rimados, cantados de forma rítmica e 2

Pinto, Tiago de Oliveira. Capoeira, Samba, Candomblé. Berlin: Staatliche Museen Pr. Kulturbesitz, 1991.

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rápida, mandando recados, avisos ou piadas. O samba-desafio é muito praticado na região, onde, na verdade, toda roda de samba se torna um palco para os desafios musicais e poéticos dos grandes sambadores, como explica Bule-Bule3: Bagaço e licutixo é sempre o gênero mais difícil daqui desta minha região. E foi nisso que eu me aperfeiçoei. Quando eu saí daqui com dezessete anos e meio e comecei a voltar de dois meses, de três meses, de seis meses e sempre voltava na época do fim de semana que tinha um samba e chegava ...e arrasava no samba. Tinha um mestre aqui, mestre Marcelino de Alípia, sambador, vaqueiro, amigo de meu pai, dei muita benção, mora hoje em Conceição da Feira. Ele disse ô Toinho, e tú tá por aí é trabalhando mesmo? Eu disse: É, seu Marcelino. Trabalhando nada, tú só tá estudando teu samba tá mais trançado do que ninho de querequexé, sambador só entra nele se botar fogo. Então, língua ligeira e licutixo foi sempre aqueles versos compridos que eu cantei ontem dizendo: Sem você mulher a vida não vale nada Sem você mulher a vida não vale nada Você tá fazendo pesquisa, segura sua mágoa, Faço gravação, eu sou sambador de rojão, Por isso eu cantando suei a camisa Eu posso chegar na divisa fazer aqui essa minha jornada Você nunca ri da palmada Que eu sou um caboclo de gente qualquer Eu já sei que sem uma mulher a vida não vale de nada4

O samba praticado na pequena comunidade negra na fazenda Tocos, apresenta semelhanças com o samba chula do recôncavo e o samba batuque, devido ao coco cantado em vários versos, semelhante à chula santamarense e pelo seu ritmo repicado em dois tambores cavados em tronco de árvore. Os tambores, tambor de oca de pau, cujo couro precisa ser aquecido na fogueira noturna, são remanescentes ancestrais do tempo da escravidão, memória ainda viva numa fazenda local antiga, Santo Antônio, onde se encontram correntes de ferro, lembrando as atrocidades que os descendentes de africanos passaram. Entre os sambadores da região vivem e viviam muitos sambadores do estilo antigo, como: Zé Borboleta, Zeca Cacete, Marcelino de Alípia, Mandio de Olegária, Benjamim de Vicente e Miguel de João de Augusta e os organizadores de novenas e sambas: Vardinho de Negídio, Zé de Erculano, Joaninha de Jove e Sr.Vavá Cardoso, lembrados pelas noites regradas de cachaça. Bule-Bule, que viveu vários anos perto de Cachoeira, como também em Antônio Cardoso, e que 3 Antônio Ribeiro da Conceição, em artes: Bule-Bule, filho de Antônio Cardoso, uma lenda viva, que permeia todas as artes musicais entre cantador, poeta, repentista, cordelista, ator e principalmente sambador, a partir das raízes das culturas populares da Bahia e do Nordeste. 4 Entrevista com Bule-Bule em Antônio Cardoso, em janeiro 2005 pela equipe de Toques e Trocas

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aprendeu a arte de sambar e rezar com seu pai e conterrâneos, confirma que tem diferença grandes entre o que chama de samba do litoral e samba catingueiro: “Precisava que você tivesse a oportunidade de ver os dois feitios. P. ex., nós aqui nos estamos no final do Recôncavo. Você viu que ontem ali no Tocos teve muita coisa da região de Santo Amaro só que com um toque caatingueiro. Cantado mais ligeiro. Tocado com mais instrumentos. Ali teve muita coisa de quebrada daqueles cocos. Muito de barravento do litoral que é do Recôncavo. Aqui nós estamos no vale do Paraguaçú que é o final do Recôncavo. Daqui pra frente... já é caatinga. Daqui da cidade pra baixo é recôncavo, é massapê. Então a cultura da caatinga é totalmente diferente da cultura litorânea... Nós convivemos na zona da mata com muita sabedoria, levando os costumes catingueiros, entendeu. Absorvemos os barraventos, os cocos, as toadas. Os baixões, os graves e agudos nas cantorias de lá da Zona da Mata são totalmente diferente dos baixões que é dado aqui na caatinga. A velocidade das cantigas, as quadras cantadas lá...os batuques de quadras cantados lá no litoral é totalmente diferente dos martelos cantados aqui na zona da caatinga.”5

Ao longo dos séculos foi surgindo uma cultura negra na região do agreste e da caatinga com feições singulares que se cristalizou a partir de três correntes históricos e suas expressões estéticas. Primeiro: A preservação das práticas culturais africanas, no âmago dos povoados negros que permaneceram como quilombos praticamente intactos, transmitindo suas músicas, danças e toques de geração para geração, no estilo samba batuque, apesar do trabalho pesado, um comportamento que continua até hoje entre os mais velhos que tem consciência e orgulho da sua negritude: Coragem é o que não falta em Francisca Barbosa Almeida, 73 anos, 14 filhos, 18 netos e muitas dores deixadas por um derrame sofrido há oito anos na perna direita. “Se você chegar aqui quatro e meia da manhã e eu não tiver com o café pronto é porque estou doente”. Na comunidade do Santo Antônio, Francisca tem fama de jamais deixar um samba antes de a roda acabar. E não para por aí. “Trabalho na roça ainda. Tenho milho, feijão e fumo”, afirma. De memória viva, Francisca lembra muito bem de ter respondido ao Censo 2010. Perguntaram sua cor? “Perguntaram. Sou preta, moço. Tem coisa mais bonita?”6

Estas famílias negras de linhagens pouco misturadas são responsáveis para preservar os tambores ancestrais, como o tambor de oca de pau, seus ritmos e timbres e a técnica de construção que segue princípios que não se encontram nas tradições europeias e indígenas, mas sim nas culturas africanas. Segundo: A cultura e música do Sertão e Semiárido que traz influências indígenas, bem como o romanceiro, e a poesia musicada luso-ibérica medieval, contribuindo com que as rezas e os sambas do agreste se tornassem mais longas e com letras complexas de uma linguagem poética, 5 6

Entrevista com Bule-Bule em Antônio Cardoso, em janeiro 2005 “Antonio Cardoso na Bahia, é o município mais negro do país”. Correio da Bahia, 20/11/2012.

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singela e antiquada, o que pode se ouvir na tirana, no samba-desafio e no martelo, no repente, no licutixo e no bagaço. Terceiro: A cultura da diáspora africana que surge como cultura do Mundo Novo no recôncavo, gerando um modo de vida afro-barroco, emulando religiosidade, estética, musicalidade e corporeidade negra especifica que mistura elementos de diversas nações africanas, elementos coloniais de Portugal e influências do Sertão, em feiras movimentadas em Cachoeira, Santo Amaro, Maragojipe, Nazaré das Farinhas, onde havia tropeiros e mercadores de toda parte da Bahia. A Freguesia Nossa Senhora do Resgate das Umburanas “ficava á margem da estrada de penetração desde o porto de Cachoeira para Camisão, hoje Ipirá, e o alto sertão da margem esquerda do rio Paraguaçu”. Nesta rota baiana, chamada de Estrada Real, circulavam escravos, tropas de burros com tabacos e outras mercadorias, chegando a ser conhecido como “descaminho” do ouro e do diamante no século XVIII, (...). Em razão de sua localização á margem dessa estrada, Umburanas tornou-se locus de um significado fluxo comercial, servindo de entreposto que interligava as comunidades circunvizinhas ao porto de Cachoeira, cuja importância nacional foi significativa nos séculos XVIII e XIX, uma vez que era utilizado para o escoamento de boa parte da produção agrícola do Recôncavo Baiano. A localização entre os rios Paraguaçu e seu afluente Rio Jacuípe, o porto de Cachoeira e a Estrada Real foram fundamentais para a ocupação e a dinâmica escravagista da Freguesia.7

Hoje, o município se orgulha da sua cultura negra, que passou despercebida dos centros da negritude baiana como Salvador e o recôncavo, porém traça características interessantes, como p. ex. a compra de alforria e de terrenos, que levou os negros muitas décadas antes da Abolição a uma independência maior do que em outras regiões e que contribuiu com a cultura local, desenvolvendo a própria marca e presença sociocultural, que data do século XIX com a maior ocupação da região. Em 1888, a Lei Áurea deu liberdade aos escravos mas não deu trabalho aos negros livres. Assim, muitos permaneceram nas fazendas dos velhos senhores labutando em troca de poder plantar algo para comer (...) Ali se formaram quilombos de permanência, diferentes dos de refúgio, que abrigavam escravos fugitivos. “Aqui se juntaram escravos libertos das fazendas de fumo da região ou de fazendas de São Gonçalo, Cachoeira, cidades próximas. Eles trabalhavam como ‘rendeiros’, o que dava quase no mesmo que ser escravo”, observa Ozéias, que mora em Paus Altos com a mãe e cinco irmãos. Professor da rede estadual, Ozéias revela que alguns alunos estranham quando ele refere-se a si próprio como preto. De punho cerrado e mostrando o próprio braço para enfatizar o que diz, se expõe: “Nossa cor é preta. Olha aqui. Temos que ter consciência e nos orgulhar disso. Ainda há muitas feridas abertas. As pessoas mais velhas preferem o silêncio, mas, às

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Santos Rocha, Aline Santana dos. “ Escravidão e Liberdade no “sertão das Umburanas” (1850/1888)”, p. 18-19

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vezes, o silêncio esconde muito. Está na hora de se expressar”. Hoje, (...) os negros de Antônio Cardoso se expressam através do resgate da memória, dos terreiros de candomblé, do samba de roda e da capoeira. Para o professor Telito Rodrigues, pesquisador da história local, o índice de negros vai crescer no próximo Censo. “Muitos negros tinham vergonha da sua história. Alguns não queriam estudar porque achavam que a escola não era espaço para eles. Mas isso já mudou. Os negros tomaram consciência do que são e do que podem fazer na sociedade. E é assim que tem que ser”.8

Samba Raízes de Tocos O Samba Raízes de Tocos se organizou há oito anos atrás, na comunidade negra de Tocos em Antônio Cardoso, a antiga cidadezinha Umburanas, típica região do agreste, zona intermediária entre a mata e o sertão, o recôncavo e a cidade Feira de Santana, chamado Portal do Sertão. Nessa região se situa a Ilha Bela, uma grande península bonita, rodeada pelas águas do Rio Paraguaçu e da barragem Pedra do Cavalo, que representam um divisor de duas regiões (agreste e recôncavo) com cultura, vegetação, clima e pessoas distintas, embora separadas por poucos quilômetros. Aqui se tem o privilégio de conhecer grandes sambadores e rezadores, com idade avançada que cantam o samba rural e as rezas tradicionais, porém pouco seguidos pelas gerações mais novas. O que mais impressiona, é a grande diversidade poética, o uso escolhido e refletido das palavras, muita riqueza no vocabulário e nos provérbios, formando uma língua repleta de expressões e metáforas elegantes que a juventude praticamente desconhece na sua complexidade. Tócos hoje é considerado um antigo quilombo, conhecido como “lugar de negro bonito e orgulhoso”, segundo Bule-Bule e composto de um povo alegre e muito disposto para cantar, tocar e mostrar sua arte no reis, na reza e no samba. Ali, ainda é possível de presenciar um reis com mais de 30 pessoas numa casinha pequena, que aumenta a cada minuto em grau e intensidade principalmente pelo agudo das vozes das mulheres e os toques dos tambores de oca de pau, que não encontram mais parentes em todo Recôncavo e se destaca pelo fato de serem tambores artesanais, cavados em tronco de árvore e encourados de tal forma, que necessitam ser aquecidos na fogueira antes de começar a roda de samba, assim formando um belo ritual, como é conhecido p. ex. no jongo, 8

“Antonio Cardoso na Bahia, é o município mais negro do país”. Correio da Bahia, 20/11/2012.

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batuque-de-umbigada, samba do cacete e coco de zambé. O longo reis que assemelha a um mantra cantado, é sempre seguido de um samba-batuque, coco e chula. Até altas horas de madrugada, o apimentado samba de Tocos transmite uma alegria contagiante, que anima todos os participantes a tentar uns pulos ligeiros na roda de samba, a chamada piega, sapateado característico executado pelos sambadores locais. O samba rural sempre foi uma atividade coletiva que quase todas as pessoas celebraram, depois de uma reza de caruru para Cosme e Damião ou para outros santos, como São Roque, Santa Bárbara, Santo Antônio, entre outros. Na região de Antônio Cardoso tem várias comunidades negras (Tócos, Gavião, Paus Altos, Santo Antônio e Peri) que estão em vias de serem reconhecidas como quilombos e onde se encontra a cultura negra ancestral com elementos da catolicismo popular e do sincretismo religioso. O Raízes do Samba de Tocos se formou como grupo a partir de laços familiares e amizades entre os vizinhos, que sempre se encontraram para celebrar as novenas, cantar o reis, cantar as rezas para os santos, tocar e gritar o samba, batuque e desafio, como também participar das festas de candomblé, umbanda e principalmente das festas para os caboclos, que adoram um samba coco cantado e pisado. Mestre Satu, liderança do Raízes do Samba de Tocos explica a construção do tambor de oca de pau da seguinte forma: Geralmente se utiliza uma madeira de lei, como murici, jaqueira e caju, de preferencia com um tronco forte, porém meio brocado ou adoentado, para facilitar o trabalho de cavar por dentro. Depois de ter tirado o grosso do parte interior do tronco, é tocado fogo e as arestas são queimadas e depois lixadas. Para encourar o tambor, geralmente se usa um couro de veado de 3 a 5 anos de idade, o qual depois de ter secado e endurecido, será molhado em água e segurado por duas pessoas com muita força ao redor do tambor, enquanto batem pequenos pregos na parte superior do tambor. No samba de Tocos, o tambor de oca de pau, é tocado em pares, um maior, que no grupo de Satu é de murici e um pouco mais largo na parte superior e um menor, feito de caju, que tem uma forma mais comprida e delgada. Além do conjunto ‘clássico’, existem tambores menores feitos com tronco de coqueiro e tambores maiores, que tem a forma de um barril, sendo na verdade construídos a partir de velhos barris de cachaça. Mestre Satu usa também a enxada da lavoura (cacumbu), para produzir o tinir metálico que costuma ser substituído pelo triângulo, além de um pandeiro com aro de madeira de genipabu e pele de cobra, eventualmente substituído pelo pandeiro industrial de pele de nylon.

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Além dos pandeiros, triângulos e os tambores de oca de au, uma viola de 10 cordas é tocada pelo violeiro Roque e, quando possível uma sanfona: o famoso pé de bode de oito baixos. Mestre Satu reforça a importância do samba tradicional nas festas de rezas para os muitos santos cultuados na região, como para as festas de reis, carurus, aniversários, novenas e outros festejos e comemorações. Pouco comenta sobre as atividades religiosas que contemplam o catolicismo popular e o sincretismo nas festas de candomblé, caboclo e umbanda. O tambor de oca de pau é um tambor ancestral, porém não é um tambor religioso, como os atabaques no candomblé. Satu, no entanto, explica que muitas vezes seus tambores são tomados de empréstimo para festas de candomblé e muito queridos principalmente para o samba dos caboclos, para os quais, o grupo Raízes do Samba de Tocos frequentemente é convidado.

Referências: Pinto, Tiago de Oliveira. Capoeira, Samba, Candomblé. Berlin: Staatliche Museen Pr. Kulturbesitz, 1991. Santos Rocha, Aline Santana dos. “Escravidão e Liberdade no ‘sertão das Umburanas’ (1850/1888)”. Dissertação de Mestrado: UEFS, 2011, p. 18-19. www.bulebule.com.br http://www.antoniocardosobahia.com.br http://www.pausaltos.com.br http://www2.uefs.br/pgh/Dissertações/dissertAlineSantana.pdf www.cantadordechula.wordpress.com www.casadosambadabahia.blogspot.com.br www.asseba.com.br http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=723 http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/antoniocardoso-na-bahia-e-o-municipio-mais-negro-do-pais/

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