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Metodologias e procedimentos para a criação e encenação de comissões de frente. três obras: “moderni

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GT PROCESSOS DE CRIAÇÃO E EXPRESSÃO CÊNICAS - HIBRIDISMOS, INTERDISCIPLINARIDADES E PRÁTICAS INTERCULTURAIS NA CENA EXPANDIDA METODOLOGIAS E PROCEDIMENTOS PARA A CRIAÇÃO E ENCENAÇÃO DE COMISSÕES DE FRENTE. TRÊS OBRAS: “MODERNISMO ESSENCIAL”, "POVOS SEM BARREIRAS NUM MUNDO SEM FRONTEIRAS" E “NO REINO DAS CIGARRAS” NOS CARNAVAIS DA X9 PAULISTANA YASKARA DONIZETI MANZINI Metodologia e procedimentos para a criação e apresentação de comissões de frente. Três obras: “Modernismo Essencial”, “Povos sem barreiras num mundo sem fronteiras” e “No Reino das Cigarras”, nos carnavais da X-9 Paulistana. Yaskara Donizeti Manzini. RESUMO A comunicação expõe a metodologia intrínseca à produção do desfile carnavalesco e procedimentos usados pela autora para a criação de encenações da ala Comissão de Frente. Para tanto, serão considerados três trabalhos concebidos para a escola de samba X-9 Paulistana, nos carnavais de 2012, 2013 e 2015, respectivamente. Planeja-se apresentar a hierarquia das linguagens artísticas que antecedem e prédeterminam a criação da encenação para esta ala: o enredo como narrativa, a fantasia/figurino na qualidade de formatadora das possibilidades de movimento, o samba-enredo cantado enquanto disparador de gestos. A partir deste percurso, adentrar-se-á nos procedimentos para a criação de apresentações que abarcam as relações e tensões entre mise en forme e mise en scène, a Evolução como dramaturgia do desfile e a criação de “máscaras corporais” em vez da “interpretação” de personagens. - 3681 -


A conclusão abordará as fricções entre o fazer no samba, ligado às estéticas afrodiaspóricas e seus agenciamentos com as artes cênicas. Palavras-chave: Carnaval: Escola de Samba: Comissão de Frente: Encenação: Coreografia.

Metodología y procedimientos para la creación y puesta en escena de las comisiones delanteras. Tres obras: "El modernismo esencial", "Las personas sin barreras en un mundo sin fronteras" y "En el reino de las cigarras", los carnavales de X-9 Paulistana. RESUMEN La comunicación se pretende exponer la metodología intrínseca de la producción del desfile de carnaval y procedimientos utilizados por el autor para la creación de escenificacións en la linea Comissão de Frente (Comisón Primera). Para ello, hemos considerado tres obras diseñadas para la escuela de samba X-9 Paulistana en los carnavales de 2012, 2013 y 2015, respectivamente. El objetivo és presentar la jerarquía de los lenguajes artísticos que preceden y predeterminan la creación de la puesta en escena para esta linea: lo Enredo y la narración, la fantasía/traje en calidad de formateador de posibilidades de movimiento, la samba-enredo cantado al gatillo del gesto. De esta ruta va a ingressar en los procedimientos para la creación de escenificacións que abarcan las relaciones y tensiones entre mise en forme y mise en scène, la Evolução como la dramaturgia del espectáculo y la creación de “máscaras corporales” en lugar de “interpretación” de caracteres. La conclusión se dirigirá a las fricciones entre hacer la samba en la estética africanadiaspórico y sus ensamblajes con los artes escénicas. Palabras clave: Carnaval: Escuela de Samba: Comisión Primera: Puesta en Scena: Coreografía. - 3682 -


Methodology and procedures for the creation and staging of front commissions. Three works: "Modernism Essential", "People without barriers in a world without borders" and "In the Kingdom of the Cicadas", the carnivals of X-9 Paulistana. ABSTRACT The Communication is to present the methodology intrinsic to the production of the Carnival parade and procedures used by the author to create storyboards wing Comissão de Frente (Front Commission). For this, they will be considered three works designed for the samba school X-9 Paulistana in 2012 carnivals, 2013 and 2015, respectively. It is intended to ntriduce the hierarchy of artistic languages that precede and pre determine the creation of the staging for this wing: the enredo and narrative, fantasy / costume as formatter of movement possibilities, the samba-enredo sung as trigger gestures. From this route will be entering in the procedures for the creation of scenarios that consider the relationships and tensions between mise en forme and mise en scène, Evolução as dramaturgy of the show and the creation of "body masks" instead of "interpretation" characters. The conclusion will address the frictions between doing the samba on the africandiasporic aesthetic and his assemblages with the performing arts. Keywords: Carnival: Samba School: Front Commission: Stagin: Choreography.

Manzini (2010 e 2012) ao discorrer sobre sua primeira experiência no “mundo do samba” apresenta ao leitor o estranhamento sentido ao perceber a hierarquia de linguagens artísticas que permeiam o desfile das escolas de samba, em especial o olhar para a criação coreográfica da ala comissão de frente. Pretendo avançar nestas reflexões - 3683 -


ao desfiar os procedimentos para criação de três obras para a escola de samba X-9 Paulistana.

Seguramente com a experiência adquirida ao longo de dezesseis anos à frente de comissões de frente e com passagem por quatro agremiações carnavalescas (Camisa Verde e Branco – 2001/2011, Afoxé Ilê Omo Dada - 2004, Unidos de São Lucas - 2006 e X-9 Paulistana – desde 2012), afirmo existir uma metodologia que é usada pelas agremiações para levar seus desfiles para a “passarela do samba” paulistano.

O primeiro momento contempla a definição do enredo. Na maioria das vezes o carnavalesco apresenta duas ou três possibilidades de temas para a diretoria da agremiação. Neste momento, o enredo tem a forma de um título e pode ou não ter todos seus dados levantados (independente de o tema ser biográfico, geográfico, histórico, comemorativo etc.). O enredo escolhido pela X-9 para 2012 foi celebrativo dos vinte anos do Rally dos Sertões e o título “Trazendo para os braços do povo o coração do Brasil. A X-9 Paulistana desbrava os sertões dessa gente varonil” foi divulgado para a comunidade e imprensa. Apesar da escolha do tema e uma pré-pesquisa sobre o assunto, os carnavalescos Flávio Campelloi e Rodrigo Cadeteii definiram a narrativa após pesquisa em campo acompanhando o rally de São Luís do Maranhão até Fortaleza (passando por onze cidades brasileiras). O segundo passo é dado quando o carnavalesco aprofunda a pesquisa sobre o tema e define a cronologia da narrativa, a redação do enredo toma a forma de sinopse que é apresentada para os compositores da escola ressaltando os “pontos altos” que devem ser evidenciados na composição da letra dos sambas-enredo. Estes “pontos altos” têm a ver com os esboços das fantasias e alegorias que o carnavalesco pretende levar para a avenida.

Superada as etapas anteriores, os compositores da escola tem um tempo de aproximadamente sessenta dias para finalizar seus sambas. Em seguida, ocorre o - 3684 -


concurso para escolha do samba de enredo, quando o carnavalesco, diretoria da escola e convidados compõe uma comissão para a escolha do samba que melhor caracteriza o enredo enquanto narrativa, poética e melodia.

Escolhido o samba-enredo do ano, o carnavalesco finaliza a concepção de fantasias e alegorias. Em conversa informal o atual carnavalesco da X-9 Paulistana, Lucas Pintoiii, ao falar do processo para o desfile de 2017, comentou que há uma relação entre a concepção das fantasias e o samba de enredo, pois às vezes o samba vencedor enfatiza algo além do que o carnavalesco apontou, sendo necessário rever os conceitos das fantasias, ou importância de alas dentro do desfile. Em seguida, finalizam-se os desenhos das fantasias, confeccionam-se os pilotos que são apresentados à comunidade em uma festa, ou ensaio especial.

De maneira geral, a concepção do que a comissão de frente representará, inicia quando o carnavalesco delimita a abertura do desfile. Entretanto, a conversa com o coreógrafo ocorre, na maioria das vezes, quando da definição das etapas anteriores: escolha do enredo, definição de prólogo do enredo, samba-enredo e concepção de fantasia.

O enredo da X-9 Paulistana, já mencionado, tratava de uma homenagem ao Rally dos Sertões e a comissão de frente iniciava o desfile com o “Modernismo Essencial”. Sobre o processo de concepção do tema Cadeteiv revela:

Percebi que nos dezenove anos do rally, a cada ano um trajeto era traçado, sendo os primeiros de São Paulo para os interiores do Brasil. Lendo algumas coisas de Mario de Andrade, fiz o link das duas coisas... O trajeto dos dezenove anos do rally até então coincidia com o dos bandeirantes dos séculos XVI e XVII. Daí fiz esta associação, os competidores do rally como os bandeirantes de aço, os bandeirantes do século XXI, desbravando novos sertões, de outra forma com outra proposta. Por isso que o enredo mostrava as belezas naturais, culturais etc. Ou - 3685 -


seja, tivemos os bandeirantes dos séculos XVI e XVII, depois Mário de Andrade com suas expedições no século XX e os bandeirantes de aço (competidores) rompendo os sertões. Os três pelos mesmos caminhos, cada qual com sua proposta... A comissão era o fio condutor desta história.

Flavio Campellov complementa: Em 2011, após convivermos com a equipe do Rally dos Sertões durante os dias de competição, pudemos testemunhar as máquinas que cada competidor tinha como sua armadura, prontos para o embate, e nos inspiramos nessa relação homem versus máquina muito presente e marcante no rally. A primeira ideia para a comissão de frente foi recriar um tipo de fantasia que lembrasse a personagem Nolatron do filme “transformer”, a partir de uma performance que os carnavalescos haviam descoberto no youtubevi. Entretanto, a ideia foi abortada, pois a escola teria de confeccionar um número dobrado de fantasias para que pudéssemos usar uma parte delas para construir as partituras coreográficas, ensaiar e usar a outra parte na avenida, para a competição, encarecendo por demais os gastos com a ala.

A concepção final da fantasia mostrava “todas as informações, conceitos e inspiração” que a vivencia junto ao Rally dos Sertões gerou nos carnavalescos. A fantasia criava um “homem máquina, uma espécie de transformers, onde na indumentária” os carnavalescos inseriram “elementos utilizados na mecânica automobilística”, de acordo com Campellovii.

Definida a fantasia precisava pensar na apresentação e nas partituras coreográficas para o trabalho. Poderia optar em criar apenas deslocamentos, preenchendo o espaço na avenida, pois a fantasia em si mesma representava bem o homem-máquina, os - 3686 -


“bandeirantes de aço”. Caso optasse por esta possibilidade retornaria a um tipo de apresentação de comissão de frente muito próximo aos usados no fim do século passado e começo deste século, privilegiando a mise en forme que abordarei mais adiante.

Os ensaios com a equipe começaram no fim do mês de novembro de 2011. Influenciada pela pesquisa de doutorado que finalizava, investi no uso de procedimentos muito próximos do que Cohen (2007:107) nomeava de “levantar persona”: fazia-se necessário criar um corpo de homem-máquina para depois pensar em configurações espaçotemporais, sentidos cênicos e deslocamentos. Além disto, precisava condicionar fisicamente os componentes da comissão de frente que estava formando, pois era meu primeiro ano na X-9 Paulistana e minha ida para esta agremiação deu-se principalmente para a formação de uma ala com pessoas da própria comunidade, com não artistas.

Nos ensaios, após alongamentos simples, solicitava aos componentes que corressem aproximadamente vinte minutos cantando o samba-enredo em voz alta. Este tipo de procedimento gera um tônus corporal próprio, fazendo coexistir voz e ritmo corporal, além de gerar condicionamento aeróbico e apropriação do samba de enredo. Em seguida, trabalhava com movimentos distendidos no tempo, como atravessar a quadra o mais lentamente possível, gerando um campo de consciência expandida do corpo e do ambiente no componente. O terceiro procedimento visava diretamente à construção do corpo que nomeio de máscara corporal: pedia que os componentes caminhassem da maneira que eles imaginavam que fosse um homem robotizado por vinte minutos ou mais. Depois foquei em investigar as articulações principalmente as dos membros superiores. À medida que os componentes começavam a não estranhar estes exercícios, inseri cantar o samba-enredo simultaneamente à execução dos mesmos.

O andamento do samba de enredo impulsionava o corpo para um ritmo acelerado criando um estranhamento para o componente acostumado a dançar na base rítmica do samba. Organicamente os rapazes foram resolvendo isto ao usar cada frase do - 3687 -


samba-enredo para trocar o passo ou girar o corpo ou partes do mesmo. Todavia, este ritmo corporal não poderia ser mantido ao longo da avenida, pois o tempo delimitado para a ala atravessar os 530 metros do sambódromo era de trinta e dois minutos. Deduzi que a encenação teria de trabalhar com contraste de ritmos corporais nas caminhadas para dar conta das relações espaço-temporais intrínsecas ao desfile. Períodos de tempo lento nas caminhadas eram quebrados por bruscas acelerações para ganhar deslocamento no cortejo, no entanto, os movimentos coreografados eram retilíneos, independente do ritmo da caminhada.

Apesar de a encenação ir tomando forma, percebi que coreografia e fantasia não dariam conta de estabelecer uma comunicação corpo-a-corpo com os espectadores no sambódromo. A ideia do homem-máquina gerava certa frieza para o cumprimento do fundamento de comissão de frente: apresentar a escola e saudar o público, ou seja, interagir com o espectador imprimindo uma sintonia inicial com o desfile. Assim, em conversa com os carnavalescos, Mario de Andrade deixou de ser apenas uma referência bibliográfica e tornou-se parte do projeto de encenação como “personagem”.

O ator Pascoal da Conceiçãoviii foi contatado e aceitou. Sua atuação como Mario de Andrade foi incorporada à nossa comissão de frente, seria nosso destaque, o elemento surpresa, décimo quinto integrante da ala, caberia a ele o contato mais humanizado para afetar o público. Os carnavalescos construíram um tripé onde o ator ficou recolhido, saindo em determinado tempo da coreografia, relacionando-se com o público, o desfile na avenida e seus “bandeirantes de aço”.

A encenação possuía três momentos: o primeiro privilegiava o desbravamento da avenida pelos “bandeirantes de aço”, movimentos robóticos e configurações espaciais marcavam a evolução da ala seguida pelo tripé; o segundo finalizava o avanço desta tropa abrindo alas para a passagem do tripé e aparecimento de Mario de Andrade - 3688 -


saudando o público e o carnaval; no terceiro os “bandeirantes de aço” interagiam com Mario de Andrade e dançavam catira, afoxé, samba e boi de maneira mecânica. O trabalho foi apresentado em dezoito de fevereiro de 2012 e o desfile na integra pode ser assistido no youtubeix. Para o ano de 2013 a X-9 Paulistana escolheu o enredo “Se para ter diversidade basta viver em harmonia... Sorria, pois São Paulo hoje é só alegria”. Lembro-me de em um primeiro momento o carnavalesco ter comentado, por volta de maio de 2012, que uma empresa de dentifrício estava interessada em colaborar com a escola. A primeira ideia de comissão era de que ela representaria os viajantes que saiam de suas terras para descobrir o sorriso, as fantasias seriam em tons pastel e, no fim do desfile haveria uma réplica da mesma comissão, mas com fantasia colorida, quando estariam alegres, felizes, sorrindo. A negociação não foi concretizada e o enredo foi adaptado. Explica Flavio Campellox:

Em 2013, nosso tema falava da diversidade da formação do povo de São Paulo, onde de forma lúdica, criamos quatro reinos: o reino da raça negra, o reino da raça amarela, o reino da raça branca, e, por fim, o reino da raça vermelha. E levamos um viajante, um sábio, de um quinto reino, não muito distante, que numa viagem tentava encontrar elementos que pudessem trazer a alegria e a felicidade aos habitantes do seu reino. A comissão de frente nomeada de “Povos sem barreiras num mundo sem fronteiras”, representava os diversos povos que chegaram a São Paulo, com fantasia inspirada em roupas típicas. Para retratar a ideia de multirracialidade e globalização, Campello criou uma saia no formato de um meio globo, inspirada no globo terrestre de Nürnberg, que girava quando acionada. O que poderia resultar numa poluição visual de formas e cores nas fantasias foi resolvido pelo carnavalesco com o uso de tom pastel nas roupas deixando o azul e o dourado para a saia-globo. O décimo quinto componente, o viajante, tinha costume também em tom pastel e um cajado. A proposição tinha como prioridade - 3689 -


ressaltar os aspectos visuais da fantasia, a plasticidade e impacto que a mesma projetaria na avenida. Além disto, a fantasia em si mesma representava “personagens”, não era necessário prepará-los, a fantasia dava conta disto.

Certamente, para o carnavalesco prevalece a questão da fantasia enquanto forma e cor, entretanto, seu foco principal é o signo que a fantasia pretende representar no desfile, forma e cor vêm num segundo plano, para reforçar o signo representado (Manzini; 2012:67).

Comissão de Frente Carnaval 2013: Indígena norte-americano. Concepção Flavio Campello.

Acervo pessoal da autora. - 3690 -


Na prática, tinha um coro com catorze pessoas e um solista. Protótipos da saiaglobo foram confeccionados para que pudesse criar e a ala ensaiar a coreografia. Os membros superiores dos componentes ficavam mais expostos e a movimentação ocorria apenas do ombro para as mãos, pois o tronco estava comprometido pela “cadeirinha” xi que sustentava a saia. Esta cobria coxas e joelhos, invalidando movimentos com pernas altas, a opção inicial era investir em simplesmente “andar”, retomando um tipo de apresentação que organizava o espaço que a ala ocupava na avenida, pois os corpos dos componentes estavam engessados pela saia-globo. Além disto, um problema apareceu: a saia girava sozinha quando os componentes caminhavam. Sendo o desfile também uma competição, certamente perderíamos pontos por isto. A solução foi manter sempre uma ou as duas mãos na saia, para que a mesma não girasse sozinha, facilitando por consequência a precisão e homogeneidade nas caminhadas dentro da encenação.

Num primeiro momento delineei as possibilidades de configurações espaciais para o coro, pois como o viajante seria um solista não havia necessidade de pensar na sua movimentação neste momento. Também estudava onde iria inserir a configuração em “X”, minha marca como coreógrafa da agremiação.

Depois, observei no samba-enredoxii se existiam palavras que pudessem sugerir desenhos, deslocamentos e/ou movimentos. A segunda estrofe do samba, por exemplo:

O Sol no Oriente revela/ A sabedoria da pele amarela/ No velho continente, a devoção/ E o povo branco recebe o irmão/ O paraíso da raça vermelha/ É onde espelha a beleza no olhar/ Na alma, encontrei a pureza/ E com certeza voltei pra ficar/ No berço da diversidade/ Pra ver a cidade expoente brilhar.

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insinuou movimentos de danças do oriente, indígena e barroca, esta como representação da cultura europeia. Uma recriação de dança aos pares também foi pensada a partir desta escolha do barroco como retrato do velho continente e acabou perpassando a segunda estrofe.

Nos ensaios junto aos componentes fui unindo o esboço das configurações, da letra do samba-enredo, bem como uma característica singular nesta espécie de apresentação: o uso simultâneo de voz cantada e movimentação. Esta particularidade cria uma entoação própria no corpo e também induz movimentos quando das palavras em melodia. Se por um lado a letra do samba de enredo pode gerar elementos que ilustrem frases ou palavras cenicamente, a relação voz cantada/movimento impulsiona o corpo conforme se respira para cantar, observo que frases e palavras cantadas em stacatto geram gestos retilíneos, ditongos e vogais estendidas movimentos arredondados, por exemplo. No entanto, como o corpo estava engessado, as relações voz cantada/movimento, neste caso, geraram principalmente os disparadores para impulsionar os giros da saia e seus breques.

Como artista-pesquisadora sentia-me um tanto frustrada, pois desde 2006 investigava o que vim a chamar de “máscaras corporais”: posicionamentos e posturas do corpo, que antecedem e influenciam a criação e/ou prática de qualquer partitura coreográfica ou ação. Diferenciam-se do conceito de persona utilizado por Cohen (2007), pois são investigadas para compor o corpo normalmente de um coro, de um grupo, apesar de projetarem figuras universais, suas ações são definidas pela encenação que esta atrelada às relações voz-corpo, fantasia, melodia, letra do samba-enredo e enredo, além de obedecerem ao regulamento do concurso carnavalesco.

Carnaval 2013. Comissão de Frente X-9 Paulistana

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Fotógrafo: Renato Cipriano. Acervo pessoal da autora. A saia-globo proposta pelo carnavalesco trazia à memória os figurinos do Balé Triádico da Bauhaus. Para Oskar Schlemmer os trajes deveriam considerar as relações entre forma e movimento do corpo por meio das leis do espaço cúbico, do funcionamento do corpo humano em relação ao espaço, do movimento sobre o espaço, as formas de expressão metafísica como simbolização dos membros do corpo humano (Manzini; 2012: 66 e Schlemmer; 1978:35-36). Todavia os costumes de Schlemmer foram usados no espaço de um palco italiano, diferente da avenida. Para isto, era necessário pensar nas relações do corpo dos componentes com a pista do sambódromo e entre si, a este tipo de apresentação, na qual a fantasia independente de quem a veste representa algo no enredo e, onde as locomoções e desenhos espaciais utilizados criam um sentido para quem observa, chamo de mise-en-forme, por privilegiar as relações de forma, cor e vetores de locomoção em detrimento do corpo dos componentes em ação.

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Com o alto índice de rigidez e precisão nos movimentos, desenhos e locomoções, optei por criar um contraponto na figura do “viajante”. Convidei Lúcio Agraxiii para compor esta figura. Dei liberdade para que Lúcio instaurasse seu viajante como quisesse. Mexemos na fantasia acrescentando muitos bolsos onde ele escondia souvenirs que presenteava o público. Em sua performance apenas delineei alguns apontamentos no espaço por conta dos deslocamentos do coro, para que não colidissem. Apresentado em oito de fevereiro de 2013, o contraste resultou num efeito bem interessante impactando o públicoxiv.

Carnaval 2013. Comissão de Frente. Viajante: Lúcio Agra.

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Fotógrafo Renato Cipriano. Acervo pessoal da autora. Para 2015, André Machadoxvconstruiu uma narrativa criativa a partir de uma frase do presidente André Santos Filho: “Sambando na chuva, num pé d’água ou na garoa, sou X-9 numa boa!” Este enredo era uma desforra da chuva que prejudicou o desfile da escola em 2014. Sobre a concepção da comissão de frente relembra Machado xvi:

... Então, lembra quando nós fomos apresentados e eu te mostrei o desenho das cigarras? Foi exatamente o primeiro desenho desenvolvido para o carnaval de 2015... Como nosso enredo falava sobre a chuva tentei imaginar uma comissão - 3695 -


que servisse como prelúdio do enredo (a cigarra chama a chuva), que também me desafiasse na busca de uma nova estética... E o mais importante, aproveitando seu conhecimento e talento, uma comissão que te desse subsídio e possibilidades coreográficas. A justificativa enviada para a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo discorria sobre o processo de criação e encenação, que aqui copio:

A concepção coreográfica considerou dois pontos: a proposta visual sugerida pelo carnavalesco e o samba-enredo, cuja coreografia não procura retratar sua letra, mas é construída na conjunção corpo/voz que o samba-enredo estabelece ao ser cantado. Este procedimento foi utilizado na organização das partituras corporais das “cigarras”. xvii Ademais, o documentário “Return of the Cicadas” (direção Samuel Orr, 2013) contribuiu na construção da máscara corpórea da “cigarra” e de seus deslocamentos. As configurações espaciais criadas para ela também indiciam algumas imagens do samba de enredo como a cobra sagrada (Oxumaré), as festas nordestinas, entre outras. As partituras corporais das “nuvens de chuva” foram construídas considerando a fusão de técnicas circense e de dança, utilizando o tecido como forma de criar a ilusão de amplitude e leveza “de nuvens que se espalham pelo ar”. É importante ressaltar que estas “nuvens” estão inseridas no quadripé, que possui em seu topo o “deus da chuva”, cuja partitura de movimento privilegia os braços, por tratar-se de um destaque de luxo. Este trabalho gerou diversos fios condutores na organização de movimentos, portanto, a coreografia não privilegia momentos sincrônicos, mas busca estabelecer uma coerência cênica de acordo com as partituras propostas. Comissão de Frente 2015: No reino das cigarras. Início da encenação. - 3696 -


Fotógrafo: Renato Cipriano para o site Grito de Carnaval. Acervo pessoal da autora. “No reino das cigarras” foi apresentado em catorze de fevereiro de 2015 e parte do trabalho pode ser visto no youtubexviii. A encenação tinha a duração de duas repetições do samba de enredo, aproximadamente quatro minutos. Espacialmente deveríamos percorrer metade da avenida, onde fica o recuo da bateria, em catorze minutos e os demais duzentos sessenta e cinco metros em dezesseis minutos. Esta relação espaçorítmico-temporal no samba é chamada e julgada como Evolução. Apesar da comissão não ser avaliada dentro deste quesito, cabe a ela dar o ritmo do desfile como um todo. No entanto, a ala possui uma evolução própria. É na maneira como a comissão de frente avança na avenida que sentidos visuais e/ou cênicos são construídos para o público.

A Evolução organiza no tempo/espaço/ritmo as relações do enredo e fantasia (da qual a comissão de frente representa o título ou introdução do primeiro), o conteúdo do sambaenredo, as imagens sonoras do canto melódico, os - 3697 -


movimentos coreografados e os fundamentos diplomáticos da ala. (Manzini; 2012:91) A Evolução não somente constrói uma dramaturgia no desfile, mas também, é o termo carnavalesco referente ao que nas artes cênicas chamamos de Encenação, independente da escolha por uma apresentação privilegiando a forma/fantasia (mise en forme) ou a cena (mise en scène).

Ao desvelar os procedimentos para a criação de três obras demonstro como a metodologia intrínseca à produção do desfile carnavalesco gera hierarquia entre linguagens artísticas que interferem na criação da ala comissão de frente. O enredo é o principal disparador, funcionando como a base dramatúrgica do desfile, fantasias e alegorias encarnam os pontos altos da narrativa carnavalesca, sendo eles próprios representações de personagens e situações. O samba de enredo também fornece base narrativa, poética e melódica para o enredo, por último, vem o sambista desfilante, seja ele simples folião ou um quesito como comissão de frente. Esta metodologia subverte os processos de criação tais como o conhecemos nas artes cênicas: definição de tema, criação da cena (dançada ou teatral), ambiência sonora, figurinos e iluminação.

Existe uma fricção entre maneiras diferentes de encenar no samba. A primeira, mise en forme, traz na fantasia a representação de personagens ou ideias, cujas cores, efeitos visuais ou luxo devem ser enfatizados pelo coreógrafo. É na maneira como o espaço é organizado e preenchido que se instaura um sentido cênico este tipo de evolução. A mise en scène dá-se em um desfile quando o carnavalesco define algum tipo de “personagem” para a comissão de frente. Neste caso, a fantasia é pensada como figurino e, a construção de sentidos cênicos dá-se nas relações dos componentes entre si, com o sambaenredo e com o espaço por meio das evoluções. Pensar na construção de personagens com estrutura psicológica como no teatro mais tradicional tornase inviável no samba, devido o pequeno período de tempo entre montagem, ensaios e desfile, além - 3698 -


de uma persona que existe entre o componente e o que irá “representar”, que é a persona de comissão de frente: ligada aos fundamentos de sociabilidade na escola de samba. Desta maneira, usamos a ideia de persona, máscara, para propor procedimentos na construção de posturas que possam delinear estas “personagens”.

Referências COHEN, R. – Performance como linguagem. 2.Ed. São Paulo: Perspectiva, 2007. MANZINI, Y. D. “Pra tudo se acabar na quarta-feira”: diálogos, aproximações e estranhamentos entre teatro e carnaval nas performances da comissão de frente. Tese. Campinas: Instituto de Artes/UNICAMP, 2012. _______. Do palco ao asfalto: primeiras impressões sobre criação e técnica para a preparação de performances carnavalescas, In FERREIRA, F.C.B. & MÜLLER, R. P.(Org.) Performance: arte e antropologia. São Paulo: Hucitec, 2010. Pp.299-314. SCHLEMMER, O. Théatre et abstraction (l’espace du Bauhaus). Lausanne: L’age D’homme, 1978.

i

Flávio Campello é carioca e teve em seu tio Arlindo Rodrigues inspiração para tornar-

se carnavalesco. Estudou Arquitetura e Urbanismo na UFRJ e História na Faculdade Anhanguera.

ii

Rodrigo Cadete é bacharel em História pela PUC/SP, licenciado em

História pelo Centro Universitário Santana e pedagogo pelo Centro Universitário Nove de Julho. Atua como educador no projeto “Educação nas Prisões”, trabalhando diretamente com mulheres privadas de liberdade. Desde 2006 assina desfiles como carnavalesco. iii Lucas Pinto é carioca e atua como carnavalesco desde 1988. Seus carnavais de 1998 e 2000 trouxeram dois campeonatos paulistanos para a X-9 Paulistana. iv - 3699 -


Em mensagem trocada via mensageiro do facebook em 14 de setembro de 2016 as 22:30’. v Em mensagem trocada via mensageiro do facebook em 21 de setembro de 2016 as 0:55’. vi Disponível

em

https://www.youtube.com/watch?v=E1g7UoLCo10.

Human

transformer NOLATron. Acessado em 19/10/2016. vii Em mensagem trocada via mensageiro do facebook em 21 de setembro de 2016 as 0:55’. viii Ator, diretor e produtor teatral. Atuou em vários grupos teatrais, em especial o Teatro Oficina dirigido por José Celso Martinez Correa, televisão e cinema. ix https://www.youtube.com/watch?v=6KlbUQukDN8. Os carnavalescos explicam o enredo aos 0:07’02”. A comissão de frente aparece aos 0:12’36” e 0:13’27” em momentos da primeira parte da encenação; aos 0:13’55” saudação do coro ao público e aos 0:15’36” a terceira parte da encenação. Acessado em 20/10/2016. x Em mensagem trocada via mensageiro do facebook em 21 de setembro de 2016 as 01h00min’ xi “Cadeirinha” é o nome que se dá para o objeto que serve de base e apoio para os costeiros e, neste caso, a saia-globo. É confeccionado em metal (ferro, aço, arame dependendo da finalidade do costeiro: luxo, passista, criativo etc.), em sua parte posterior tem basicamente a forma de um quadrado e dele vem duas alças que são encaixadas sobre os ombros. Para prender a cadeirinha no corpo usa-se barbante. No caso da saia-globo, o suporte nas costas era parafusado na saia-globo, os componentes usavam uma camiseta por baixo da cadeirinha para protegerem-se da ferragem e amarrações. xii

- 3700 -


Autor Rafael Pinah. Intérprete Royce do Cavaco. xiii Lúcio Agra é poeta, performer, escritor e professor. xiv O

desfile

na

integra

pode

ser

assistido

em

https://www.youtube.com/watch?v=0vaKKrWBsng A comissão de frente aparece aos 0:13’23”, 0:17’25” e 0:19’14” na formação em X saudando o público. Acessado em 20/10/2016. xv André Machado começou sua carreira aos dezenove anos no carnaval do Rio de Janeiro. Em São Paulo trabalhou nas escolas Nenê da Vila Matilde, Império da Casa Verde, assinou os carnavais de 2009 a 2014 na Pérola Negra e de 2014-15 na X-9 Paulistana. xvi Em comunicação via whattsapp no dia 15 de setembro de 2016 às 0h23 xvii Disponível

em

https://vimeo.com/66688653.

Acessado

em

20/10/2016. xviii https://www.youtube.com/watch?v=LMcS9G7ARfQ. A comissão de frente aparece a partir dos 0:11’10”. Acessado em 20/10/2016.

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