“Ó Abre Alas...”: a construção da dramaturgia e a preparação do corpo carnavalesco para a performance da Comissão de Frente.
Yaskara Manzini Doutoranda em Artes Cênicas Linha de pesquisa: Processos e Poéticas da Cena UNICAMP/IA/PPGA
Comunicação Oral Artes do Espetáculo
Resumo: Inúmeros trabalhos foram escritos sobre o carnaval brasileiro, entretanto, poucos pesquisadores dedicaram-se a estudar a dramaturgia nos desfiles das escolas de samba e a preparação do corpo do folião para a performance carnavalesca. Apesar de existirem aproximações entre as artes cênicas e o desfile carnavalesco, conceitos e modos de operação pertinentes as artes do palco são reelaborados e re-conceituados nas escolas de samba. O propósito desta comunicação é refletir sobre a construção de dramaturgias e preparação corporal dos componentes da Comissão de Frente, da escola de samba Camisa Verde e Branco, a partir do adentramento da artista-pesquisadora nesta comunidade, em 2001. A dramaturgia para a construção de performances da ala, nesta escola, dá-se a partir de colagens, cujo suporte é o enredo da escola, seguido por outras camadas como detalhamento do que a ala representa, o samba enredo escolhido e a maneira de cantar o mesmo. Desta forma, a preparação corporal é criada, re-inventada de maneira que dialogue com a criação dramatúrgica. Outrossim, há de se considerar que, no caso específico da Camisa Verde e Branco, o folião que compõe a ala é gente comum, pertencente à comunidade, sem aproximação com as artes cênicas, para os quais o desfile é festa, alegria, mas principalmente, responsabilidade (pela nota) e amor ao Pavilhão.
Palavras Chaves: dramaturgia – carnaval – corpo – estudos da performance A única ala que nos desfiles das escolas de samba, muda sua maneira de apresentar todos os anos é a Comissão de Frente. Apesar de ter de cumprir a função de apresentar a escola e saudar o público, seu gestual, sua evolução e construção cênica é discutida, criada e recriada a cada ano, conforme as exigências do enredo que apresenta.. Compartilharei o processo do carnaval ocorrido no ano de 2009, quando a Escola de Samba Camisa Verde e Branco estava no Grupo de Acesso pretendendo voltar ao Grupo Especial com o enredo “Guerreiros! Camisa faz a festa e prega a Paz Universal”
O Enredo 2009 O Enredo é o ponto de partida da narrativa dos desfiles, é através dele que o carnavalesco pinça pontos altos, fatos relevantes da história, para criar fantasias e alegorias. Conheci o carnavalesco Hernane Siqueira, no dia da apresentação do enredo para a comunidade, em meados do mês de junho de 2008. Muito simpático disse-me: “A Comissão vai vir de malandro, vestida de maneira tradicional. Sonhei que vamos ganhar o Estandarte de Ouro” 1. Não sabia o que responder, apenas sorri, mas pensava que uma comissão trajada de terno e chapéu na contemporaneidade iria parecer saudosismo da Barra Funda. Fixei-me em assistir a apresentação do enredo e deixar para depois uma conversa com ele fora daquele contexto de festa. O enredo “Guerreiros! Camisa faz a festa e prega a Paz Universal”, de sua autoria, foi explanado resumidamente para a comunidade, mas passado na íntegra para os chefes de ala. Transcrevo a introdução e parte da primeira parada, pois é a parte do enredo que mais se conecta a Comissão de Frente:
Introdução: 1
No Rio de Janeiro o prêmio não oficial dado por jornalistas para cada quesito da escola leva o nome de Estandarte de Ouro. Em São Paulo existem dois prêmios que são chamados de Estandarte de Ouro, o Troféu Nota 10 do Jornal Diário Popular, para as escolas do Grupo Especial, e o Prêmio Gilberto Farias, dado por uma equipe de personalidades do carnaval para as escolas do Grupo de Acesso. Sua previsão foi correta, a Comissão foi Premiada como Melhor do Acesso 2009, Prêmio Gilberto Farias.
Nossa viagem será contada pelo bom malandro, o sambista nosso de cada dia, nosso personagem. Ele nos levará por uma jornada pelos efeitos da falta de amor e felicidade no mundo, tornando-o hostil, até o momento de seu encontro com Momo, o rei da folia, que libertará os homens dos grilhões do submundo e, junto com a Camisa Verde, brindará a uma nova era. Nesta era, prevalecerá o Amor, que criará um verdadeiro universo de alegria. Sinopse: Descritivo 1ª Parada - O Caos da Humanidade O bom malandro observa os odores e as dores, efeitos das ações patrocinadas pela ambição e o egoísmo dos homens, representados no nosso carnaval pelos semeadores do mal: a fome, a peste, a guerra e a morte anunciadas pelos anjos malignos dos pecados capitais, fruto do individualismo e da falta de amor à natureza...
A proposta do carnavalesco para a ala enquanto enredo era bem contextualizada, mas como descrever cenicamente a observação dos “odores e as dores, efeitos das ações patrocinadas pela ambição e o egoísmo dos homens, representados no nosso carnaval pelos semeadores do mal”? Além disso, como um malandro é bom? Para os
sambistas a máxima de Neguinho da Beija Flor, “Malandro é malandro e Mané é Mané”2, prevalece. Quando fui à reunião com o carnavalesco, em julho, tinha uma vaga esperança de mudar o tema da ala, as imagens do apocalipse eram mais interessantes visual e cenicamente, mas chegando percebi que não havia a mínima possibilidade. Ele já havia tratado com a loja que confeccionaria os sapatos, o alfaiate e até comprado o tecido da camisa para os rapazes. Faltavam apenas algumas definições comigo, se iriam ou não usar chapéu e bengala . Desta maneira, não havia o que discutir em relação à fantasia, mas talvez pudesse sugerir dar uma incrementada na apresentação da ala, para que não parecesse uma comissão dos anos 70. Basicamente duas idéias emergiram, a primeira, mais ousada, mexeria com a própria narrativa dos desfiles, pois a comissão abriria o cortejo, ficaria na passarela do samba interagindo com as outras alas e finalizaria o desfile. A segunda exigiria uso de
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A canção “Malandro é Malandro e Mané é Mané” foi composta por Neguinho da Beija Flor e tornou-se conhecida na voz de Bezerra da Silva.
alegoria, um Pede Passagem que se transformaria no Botequim do Camisa3. De qualquer forma dependeríamos de uma resposta da diretoria da escola. Duas semanas depois obtivemos respostas negativas. Apostaríamos apenas na presença física dos componentes.
Da preparação do corpo malandro à dramaturgia da ala. Basicamente os ensaios para a construção do mise-en-scene da ala para avenida iniciaram em meados de dezembro. Antes deste período comecei a levantar, filtrar e compartilhar material para estudo de personagem. A preocupação mais urgente era fazer com que todo o grupo pudesse sambar, pois a dança masculina possui mais movimentos de pernas: escorregadelas, cruzadas, gingas, vai-não-vai, piruetas etc. Lembrava de “Tio Arnaldo”, Embaixador do Samba Paulistano, e chefe da ala das baianas de nossa escola. Seu samba é gingado, mas ao mesmo tempo elegante, vê-se elementos da capoeiragem angolana misturados aos salamaleques da dança de corte, quando graciosamente brinca com seu lenço. Sambando, transformava-se num sedutor malandro, apesar de sua senioridade. Seu auxilio no processo foi de grande valia ao nos mostrar que o movimento dos pés é um só, mas cada homem improvisa seu repertório gestual a partir do movimento básico. Simultaneamente, investíamos em trazer para o corpo a postura do Malandro. Tracei um paralelo com os tipos posturais de Tompakow & Weil, descritos em “O Corpo Fala”. Propus que experimentassem os três tipos em seus corpos. Os componentes detectaram que a postura do tipo águia gerava tensão no peito e uma postura incomoda para andar, no tipo leão a cabeça acomoda-se tornando a postura mais confortável e permitindo olhar mais altivo, na postura do tipo touro o relaxamento é total. A priore assumiu-se para o Malando a postura do tipo leonino, mas com um andar felino. Os ensaios consistiam em três partes: a primeira mais ligada ao condicionamento físico, a segunda priorizando postura e gestualidade do Malandro seguida de uma roda de samba, e a terceira no processo de construção da dramaturgia da ala para o desfile. O samba enredo, em nossa opinião era muito arrastado. Sua letra muito triste. Não oferecia imagens de gestos do uso cotidiano. Estávamos quase no mês de 3
Festa/Reunião/Show semanal que ocorria na quadra quando a Escola ainda tinha a razão social de Grêmio, por isso costuma-se chamá-lo de Botequim do Camisa.
fevereiro e nada do que havíamos criado e testado na avenida agradava. Intimamente pensávamos que o enredo não era propicio para o carnaval. Foi uma experiência vivida pelo grupo que afetou-nos de maneira tal, que o enredo fez sentido e começou a costurar uma linha dramatúrgica para a ala. Enquanto os rapazes corriam no início do ensaio, um dos componentes, recém operado, estava alongando-se perto de mim. Cabe esclarecer que ensaiávamos no Parque da Juventude, ora utilizando uma pequena área coberta, em frente à lanchonete não inaugurada, ora os espaços livres próximos à Avenida Cruzeiro do Sul. Avistei um grupo e alguém no chão convulsionando, saímos correndo, o componente imediatamente segurou a cabeça do transeunte, eu ligava para a emergência. Um dos seguranças do parque em pé, de frente para o enfermo olhava parado, duas crianças assistiam a convulsão como se fosse num filme. Apesar de bem próximos de um pronto socorro, a ambulância levou quarenta minutos para chegar e prestar socorros mais específicos. O grupo então já reunido assistia e participava daquele drama vivido por um morador de rua. A sensação de impotência vivida pelo grupo motivou a construção de nossa apresentação, dividida em dez pequenas cenas ao longo de duas passagens completas do samba enredo. Representávamos os malandros galantes, alegres, apreciadores do carnaval em nossa entrada4, todavia trouxemos a sensação de pesar, vivida na experiência, através de um cortejo fúnebre, usado nas primeiras três frases da primeira estrofe do samba enredo5, redundando a música. O grupo contaminava-se pelo ódio e lutava entre si até a queda de um dos componentes ao chão, ao cantar o fim da primeira estrofe6. De certa maneira, reproduzíamos a reação das pessoas em relação ao homem estendido no chão que havíamos presenciado. A cena seguinte, usada para o bis do samba7, mostrava a conscientização do distanciamento das mazelas alheias e uma mudança nas ações para com relação ao outro, levantando o componente caído e recompondo-o. A fé era expressa por dois gestos religiosos: sinal da cruz e saudação ao Orixá.
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Avante meu Trevo, querido / Vem fazer a festa, pregando a Paz. / Da Barra Funda eu sou Guerreiro / Camisa Verde e sambista verdadeiro. 5 Ó quanta tristeza, e tanta dor / Jogada sob o limbo a natureza / O ódio sobrepuja o amor 6 Cavaleiros anunciam o fim dos tempos / Na humanidade o caos / Tão caro o preço, que o homem paga com a vida / Sangrentas guerras, fruto de tanta ambição / Um mundo sem amor, sem compaixão 7 Com o poder da fé, buscar / O caminho da luz, mudança / E assim deixar / O respeito e a igualdade como herança
Para a segunda estrofe8 e refrão, retomávamos o clima de carnaval, pois necessitávamos de evoluir na avenida, ou seja, avançar no espaço cênico e também exercer a função da ala: apresentar a escola e saudar o público. Cabe salientar que nosso deslocamento no espaço até esta estrofe não ultrapassava nove metros por cena. Neste momento evoluíamos ora num cortejo carnavalesco antigo, ora sambando. Na cena seguinte, retomada da primeira estrofe, repetíamos o cortejo fúnebre com a configuração espacial de duas filas, com passos pesados, cabeça baixa, chapéu no peito. A banalização da violência era mostrada através de jornais, cujos malandros liam indignados e interagiam com o público através de gestos, anunciando o fim dos tempos, conforme a primeira estrofe. Se o bis falava de fé e compaixão, era necessário retomar gestos conhecidos como orar de mãos dadas. Os gestos alinhavavam o desenho de duas diagonais que avançavam na avenida. Para a união, proposta no inicio da segunda estrofe do samba, usamos a configuração do círculo com o abraço como elemento gestual. Houve aproveitamento da palavra “anunciar” para exercer a função da ala de convocar o público à comunhão através do carnaval. A finalização da sequência incluía elementos de giro corporal, provocando na platéia a sensação de vertigem, preparando-a para a saudação final à Escola para reiniciar a repetição cênica.
Conclusão A preparação do corpo da Comissão de Frente, deu-se através de uma abordagem corporal embasada pelo estudo da comunicação não verbal, passando pela persona de Zé Pelintra até os estudos sociológicos sobre a influência da malandragem na construção de uma identidade nacional. A experiência dos próprios componentes perante um drama social vivido e assistido durante o período de ensaios funcionou como mote propulsor na construção da dramaturgia do trabalho, criado de maneira a ilustrar e redundar o samba enredo, usando gestos cotidianos para provocar comoção na platéia. 8
Vamos nos unir pra melhorar / E poder anunciar / Nova Era de alegria / Dar um basta à intolerância / O Brasil é esperança / De um mundo em harmonia / Meu samba, leva um recado do rei da Folia / Que a Verde e Branco em poesia / Canta a Paz Universal
Referências Bibliográficas: LIGIÉRO, Z. Malandro Divino: a vida e a lenda de Zé Pelintra, personagem mítico da Lapa carioca. Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 2004. ROCHA, G. “Navalha não corta a seda”: Estética e Performance no Vestuário do Malandro. Rio de Janeiro: UFF: Tempo, 2006, vol.10, no. 20, p. 121-142.
_____ “Eis o Malandro na Praça outra vez”: a fundação da discursividade malandra no Brasil dos anos 70. Belo Horizonte: Revista SCRIPTA, v. 10, no. 19, p. 108-121, 2º. Sem. 2006. SCHECHNER, R. Performance Theory. 2. Ed. New York and London: Routledge, 2003, 432 pp. TOMPAKOW, R. & WEILL, P. O corpo fala. São Paulo: Vozes, 1986.
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