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Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 - Santos, São Paulo

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MEMÓRIA, TERRITÓRIO E COMUNIDADE: EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA NA ESCOLA DE SAMBA X9 – SANTOS, SÃO PAULO Mauricio Lourenção Garcia* Samira Lima da Costa Rosilda Mendes

RESUMO O texto apresenta algumas reflexões teórico-conceituais acerca da micropolítica na constituição dos territórios existenciais em uma escola de samba. Como elemento disparador desta discussão, tomamos como pano de fundo a experiência dos autores em projetos de extensão junto ao Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba X9, na cidade de Santos, autointitulada comunidade xisnoveana. As narrativas mostraram a constituição de laços de identificação, marcados tanto por amizade, parentesco e vizinhança quanto por desafetos, conflitos e tensões permanentes. A produção de memória coletiva se mostrou como elemento aglutinador, constituinte e constitutivo de identidade comunitária, produzindo e compondo forças, poderes e arranjos morais no interior dos diferentes grupos ali existentes. Palavras-chave: Narratividade. Escola de samba. Memória coletiva. MEMORY, TERRITORY AND COMMUNITY: UNIVERSITY EXTENSION IN SAMBA SCHOOL X9 - SANTOS, SAO PAULO ABSTRACT This text presents some theoretical and conceptual reflections on the day-to-day micropolitics in a samba-school. As a starting point for this discussion, we looked at the experience of the authors of projects in the X9 samba-school from the city of Santos, specifically in self-titled community xisnoveana (the X9 samba-school community). The narratives show the constitution of ties of identity, characterized by friendship, kinship and neighborhood relations and also by the antipathies, conflicts and permanent tensions to which they give rise. The production of collective memory is seen as an agglutinative link, both constituted by and constitutive of community identity, producing and constituting forces, powers and moral arrangements within the various groups existing in the school. Keywords: Narrativity. Samba-school. Collective memory.

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Doutorado em Psicologia Clínica (PUCSP). Departamento de Saúde, Clínica e Instituições, Campus Baixada Santista, Universidade Federal de São Paulo, Santos, SP. Contato: malougar@uol.com.br.

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GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. MEMORIA, TERRITORIO Y COMUNIDAD: EXTENSIÓN UNIVERSITARIA EN LA ESCUELA DE SAMBA X9 - SANTOS, SAO PAULO RESUMEN El presente texto presenta algunas reflexiones teórico-conceptuales sobre la micropolítica de los territorios existenciales en una escuela de samba. Como elemento irruptor de esta discusión tomamos como escenario la experiencia de los autores en proyectos de extensión junto al Gremio Recreativo y Cultural “Escuela de Samba X9” de la ciudad de Santos, autotitulada comunidad xisnoviana. Las narrativas mostraron la constitución de lazos de identificación, marcados tanto por amistad, parentesco y vecindad como por desafectos, conflictos y tensiones permanentes. La producción de la memoria colectiva se mostró como elemento aglutinador, constituyente y constitutivo de la identidad comunitaria, produciendo y componiendo fuerzas, poderes y arreglos morales en el interior de los diferentes grupos existentes. Palabras clave: Narratividad. Escuela de samba. Memoria colectiva.

INTRODUÇÃO O carnaval como expressão cultural brasileira O carnaval é uma época especial do calendário brasileiro. É um período no qual o tempo interrompe seu fluxo rotineiro por alguns dias, nos quais grande parte da população brinca, se fantasia, pula na rua ou em bailes, desfila em agremiações de rua, clubes ou numa escola de samba. Embora muitos não participem dessa maneira dos festejos, optando pelo trabalho ou descanso, essa não participação direta não significa uma indiferença absoluta pelo evento, uma vez que - tanto quanto o futebol - o carnaval ultrapassa a simples referência entre o ufanismo e o folclore, e constituindo-se numa das marcas da identidade do povo brasileiro. A heterogeneidade das manifestações culturais do país se faz presente, como não poderia deixar de ser, inclusive no carnaval. É assim que, por exemplo, as regiões do Norte e do Nordeste do Brasil apresentam, em sua maioria, expressões carnavalescas fundadas em ritmos como frevo, cirandas, batuque, axé etc., diferentes das que se encontram na região Sudeste, onde estão dois importantes estados da federação: São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa região, há a predominância do samba como ritmo que embala os festejos carnavalescos. O formato do carnaval presentificado nas escolas de samba, como é mundialmente conhecido, enquadra-se na categoria de carnaval espetáculo, estilo sucessor do carnaval popular, majoritariamente comemorado nas ruas e sem organização prévia. O carnaval das escolas de samba, embora inaugure um novo estilo, permanece bastante impregnado pelo caráter popular que lhe deu origem. Entretanto, as escolas de samba contam com um aspecto da nossa contemporaneidade: o show de grande porte, que faz delas um dos maiores eventos midiáticos, consumido como produto que fala de si como atividade artística e, por isso mesmo, entendido como produto midiático, como um grande negócio envolvendo a televisão, a indústria fonográfica e a indústria do turismo. Para participar do desfile de carnaval – que é um festival competitivo – é preciso 106 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 – Santos, São Paulo. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9... que a escola de samba tenha se “classificado” para o desfile, no ano anterior. E para a classificação há uma lista complexa de quesitos que são minuciosamente avaliados e julgados por uma comissão de especialistas. O enredo de um desfile surge de uma ideia que aos poucos vai tomando forma, num tipo de croqui em que as alegorias e as fantasias vão sendo desenhadas pelo seu idealizador, o carnavalesco, ou, como ocorre em várias situações, por meio da comissão de carnaval da escola de samba. Se um enredo tem seu lado mais visível na história contada durante um desfile, ele também carrega consigo muitas outras vozes, pois a própria noção de enredo nos remete a tessitura, a fios advindos de um mundo em constante processo de nomadização, enredados, entrelaçados, emaranhados e enleados em redes. A cidade de Santos, o bairro do Macuco e o G. R. C. E. S. (a Escola de Samba) X9 de Santos A cidade de Santos possui pouco menos de 400 mil habitantes. Localizada na região metropolitana da Baixada Santista, litoral do Estado de São Paulo, é conhecida pela sua história de colonização, por abrigar o maior porto do país e ter a praia mais próxima da capital. A história do Macuco – bairro onde a escola de samba está situada – guarda estreita relação com o desenvolvimento social da cidade. Segundo a Prefeitura Municipal de Santos, o bairro abrigava, nas décadas de 1930 e 1940, pelo menos 30% da população santista (PMS, 2015). Até os anos de 1950 foi considerado o bairro mais habitado, com cerca de um terço de toda a população. Hoje, o Macuco é habitado por aproximadamente 20.000 pessoas, ou seja, pouco menos de 5% do total de habitantes da cidade. Pode se observar nesse período algumas alterações marcantes no cenário urbano santista: por um lado, o crescimento populacional na região da orla marítima, fruto do investimento da administração municipal e da iniciativa privada na vocação turística de veraneio da cidade, dando atenção focada à região da orla marítima; por outro lado, o grande afluxo de trabalhadores atraídos pelo mercado de trabalho portuário e da construção civil, que passam a ocupar outras áreas mais periféricas, como a Zona Noroeste e a região dos Morros, distantes da área turística e próximos à zona portuária. O bairro do Macuco localiza-se nesta região portuária, que foi sendo transformada em bairro de trabalhadores portuários, abrigando também grandes galpões e espaços de apoio às atividades do local portuárias. Um dos pontos mais conhecidos do Macuco é a Bacia do Macuco, onde antigamente ficavam os barcos que descarregavam areia, pela proximidade com o porto. Ainda hoje podem ser vistas embarcações nesse espaço que atualmente, abriga muitas empresas ligadas à atividade portuária e armazéns. A intensa atividade portuária na região, na década de 1950, era marcada principalmente pelo trabalho braçal realizado por estivadores. Foram esses trabalhadores que, com suas cantorias em serviço e seus batuques nas horas de folga, deram ao bairro a fama pela qual é identificado pela maioria da população santista, que reconhece na Bacia do Macuco o berço do samba da cidade. Foi precisamente ali, entre os trabalhadores portuários e entre o batuque, as cantorias e a informalidade do festejo popular, que nasceu O Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba X9, hoje conhecido como primeira escola de samba da cidade, recebendo o apelido de “A Pioneira”. 107 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Divulgação e popularização da neurociência através de uma rede social. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. A Escola de Samba X9 de Santos é, portanto, um importante espaço comunitário na Bacia do Macuco, onde existe há aproximadamente 70 anos. Além de seu aspecto mais visível – a realização do desfile carnavalesco –, durante todo o ano agrupa pessoas que, participando direta ou indiretamente da confecção do desfile e das atividades da escola de samba, constroem e ampliam suas redes de sociabilidade. Dois aspectos merecem destaque em sua história: o primeiro deles refere-se ao fato de que, por estar localizada na zona portuária, recebeu forte influência de trabalhadores portuários do Rio de Janeiro; o segundo aspecto diz respeito às relações pessoais que alguns moradores do bairro mantinham com personalidades do samba carioca. Essas redes de interesses, participações e atividades diversas foram consolidando a X9 de Santos como criadora e mantenedora de uma tradição carnavalesca. Essa consolidação é atualmente observada com a grande quantidade de agremiações, blocos e escolas de samba presentes em diversas comunidades na cidade, constituídas e constituindo-se permanentemente na formação dessas comunidades, a despeito de o poder público local interromper, por razões políticas e orçamentárias, entre os anos 2000 e 2005, a realização do desfile anual e oficial da cidade. A relação entre uma escola de samba e sua comunidade de referência extrapola a percepção mais imediata que a maioria das pessoas tem: a ideia de que uma escola de samba só tem existência no dia dos desfiles oficiais, no período de carnaval. Ao contrário, ela acontece o ano inteiro. O carnaval adquire um sentido mais amplo do que o de festa, para significar também sua idealização e sua preparação: um carnaval começa discutido por alguns, se espraia e agencia atores diversos, num verdadeiro enredo, tecido em que se apresenta e se organiza uma vasta rede de relações que o realiza e o sustenta ao longo do ano (CAVALCANTI, 1994). A escola de samba constitui, em seu interior, as relações de poder e a aliança que se configuram de forma geral na comunidade e, ao mesmo tempo em que a escola de samba modifica essas relações, também é cotidianamente transformada pelas reconfigurações comunitárias. No período de execução que precede o carnaval, os inúmeros agentes envolvidos na construção das alegorias e fantasias que vão compor o desfile oficial fazem interferências na ideia inicial. O que importa é que a obra seja o sonho de todos, confeccionada para todos de tal forma que não se consegue determinar onde começam ou terminam os sonhos de cada um e do coletivo: “nessa perspectiva, não há oposição entre os planos do individual e do coletivo, mas constante imbricação, de tal modo que uma ação num dos planos sempre reverbera ou ressoa no outro, no sentido de uma subjetividade pensada como processo” (GARCIA, 2004, p. 193). Além de todos esses elementos presentes na preparação do carnaval, a X9 de Santos se coloca como membro efetivo da comunidade local, como comunidades concêntricas: a comunidade xisnoveana pertence à comunidade da Bacia do Macuco e faz parte dela. Assim, ao mesmo tempo em que essa escola de samba demanda apoio comunitário e produz relações no território, convergindo desejos em torno do carnaval, ela também é demandada por esta mesma comunidade local enquanto alternativa possível para a resolução de diferentes questões cotidianas. Assim, é comum observar em várias agremiações carnavalescas (principalmente nas capitais brasileiras, onde é possível acessar financiamento) a presença de projetos sociais voltados às comunidades, como ações socioeducativas, projetos de geração de emprego e renda e estratégias de cuidado à saúde. Essa possibilidade de realização de projetos sociais, entretanto, fica um tanto restrita para as escolas de samba de pequeno porte localizadas nas pequenas cidades, mais pobres em relação às grandes escolas das capitais. É nesse sentido que os projetos 108 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 – Santos, São Paulo. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9... em parceira com a universidade ganham interesse comunitário, além de acadêmico. Nesse caso específico, a relação da universidade com a escola de samba evidenciou demandas, tais como: a recuperação da história da agremiação, atividades de produção de cuidado à saúde com os frequentadores da quadra, atividades educacionais com jovens, entre outros. Comunidade, território e memória Uma primeira concepção de comunidade está ligada ao seu território, pautada nos critérios de delimitação de bairros pela administração pública, que define os seus limites compreendendo-o como a menor porção da unidade administrativa. Muitas vezes, porém, os limites desenhados pelo poder público não coincidem com o território “vivido” pela população, ou seja, não esgotam a experiência comunitária. Assim, os limites geográficos podem funcionar como “referências secundárias”, tendo as relações pessoais e grupais como principais demarcadores de territórios e papéis. Nessa perspectiva, seus membros se reconhecem como integrantes de uma mesma comunidade (LYNCH, 1982). Queremos reforçar a ideia de que o território vivido, tal como referido por Santos (1996), é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações ou, em outras palavras, a base material mais a vida que a anima; é o território propriamente dito mais as sucessivas obras humanas e os próprios seres humanos. Hoje são espaços permanentes de construção, desconstrução e reconstrução, com suas territorialidades e desterritorialidades, onde se revelam a pluralidade, as diferenças, as singularidades e a heterogeneidade, suas forças, seus poderes, suas culturas e suas dimensões simbólicas e subjetivas. Articular o conceito de território à dimensão da subjetividade significa também entendê-lo como um território existencial, qual seja, “as configurações provisórias de múltiplos componentes: sociotécnicos, culturais, econômicos, midiáticos, tecnológicos, etc., que desenham uma existência” (BARROS, 2002, p. 177). O processo de aproximação do território comunitário permite conhecer as condições em que os indivíduos moram, vivem, trabalham, produzem saúde, adoecem e amam, a depender do segmento social em que se situam. A apreensão do espaço delimitado em território, área ou localidade é uma construção decorrente do processo resultante da ação de homens concretos e se encontra em permanente transformação. É também um espaço histórico, uma vez que revela as ações passadas e presentes (MENDES; DONATO, 2003). É nesse território e com ele que se ativam as redes vivas, ou seja, as redes móveis de relações e trocas entre pessoas, intenções, corpos e lugares. O território nunca está pronto, mas sim em constante transformação e é resultado de como, ao longo do tempo, foi se organizando a vida em comunidade, definindo os atores que comporiam suas redes, como o tipo de equipamentos sociais onde estão situados; as características das habitações e o modo como se dispõem e abrigam as pessoas; a circulação dos meios de transporte; a utilização dos espaços e equipamentos como praças, clubes sociais, escolas, serviços de saúde, igrejas, escolas de samba, entre outros. Nessa visão, esses espaços comunitários são concebidos como algo concreto, síntese de múltiplas determinações, campos privilegiados de ação, que podem potencializar iniciativas, a partir da implicação de atores locais no estabelecimento de políticas e ações. O exercício permanente de identificação e apropriação do território favorece a construção da memória social, a partir dos encontros e desencontros entre sujeitos, 109 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Divulgação e popularização da neurociência através de uma rede social. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. eventos e relações. Nesse processo, as memórias singulares e coletivas ganham especial significado e complementam-se permanentemente. Essa complementaridade entre o pessoal e o coletivo — que não se sobrepõem e não se anulam, mas constituem um complexo enredamento de saberes e olhares — Costa e Maciel (2009) se propõe chamar de memória inclusiva, construída independente da busca de verdade e, portanto, sem mútuas exclusões. Essa memória é aqui compreendida como resultado da tessitura entre as memórias contadas, as leituras das memórias e as histórias referentes a determinado espaço, em determinado momento, num caleidoscópio de possibilidades. Essa proposta se enriquece ainda mais quando, além de pensar a construção coletiva de memória entre moradores de um mesmo local, considera também a possibilidade de trabalhar com diferentes gerações conjuntamente, promovendo a valorização dos lugares desses grupos na comunidade e, ao mesmo tempo, favorecendo a continuidade dessas mesmas memórias. É o que ocorre quando olhamos para uma escola de samba: ela reúne diferentes gerações em torno da produção contínua de uma memória coletiva. PERCURSO METODOLÓGICO: O CENÁRIO E OS SUJEITOS DO PROCESSO Este artigo refere-se ao projeto de extensão da Universidade Federal de São Paulo/ Campus Baixada Santista realizado entre 2009 e 2012, X9: Memória, Território e Produção do Cuidado, que teve como objetivo produzir oportunidades de colaboração em rede comunitária a partir da construção de memórias dos integrantes do Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba X9 (G. R. C. E. S. X9 de Santos). O projeto foi desenvolvido por docentes e estudantes de áreas profissionais distintas. Como projeto de caráter participativo, que teve como finalidade a intervenção e uma imersão no plano da experiência, há de se destacar seu método participativo como componente constitutivo e de produção de sentidos. Não se tratou de limitar essa intervenção a um simples processo de ação praticada em colaboração com atores em um campo concreto. Nesse caso, a intervenção foi portadora de indagações sobre as próprias finalidades da ação. Foi, portanto, uma ação em que todos estiveram implicados, conjugando a um só tempo, espaço de aprendizado e de ação coletiva. Nesta perspectiva, a produção da memória coletiva e intergeracional não se constitui apenas como meio para a aproximação entre academia e comunidade, ou como repertório metodológico para levantamento de dados para pesquisa. Ao contrário, a construção de narrativas individuais e coletivas em torno da produção de memória se estabelece aqui como acontecimento, como ato interventivo e produtivo de novas identidades e sociabilidades. O contato da Universidade com a X9 de Santos deu-se a partir do grupo denominado Velha Guarda, composto pelos sambistas mais antigos, alguns dos quais fundadores da escola. A X9 de Santos solicitou a parceria com professores e estudantes da universidade, buscando colaboração para potencializar sua integração na rede comunitária da Bacia do Macuco, reconhecendo-se como importante elo nas relações da região a qual pertence. A X9 de Santos, longe de ser um organismo voltado unicamente para o desfile de carnaval, produz-se em sua comunidade, enquanto equipamento de suporte local, sendo procurada pelos moradores da região por diferentes motivos. Ao compreender as demandas locais como demandas próprias, a escola se propõe a repensar suas ações territoriais, afirmando seu espaço como algo a ser constituído não apenas “para”, mas também “com” a comunidade local, ou seja, voltada para essa 110 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 – Santos, São Paulo. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9... comunidade e pertencente a ela, constituída e constituindo-se como comunidade. A mobilização da X9 de Santos, colocando-se como sujeito ativo da rede comunitária da Bacia do Macuco, nos leva a identificar construções coletivas com um grande potencial articulador e aglutinador. Ao mesmo tempo em que essa escola de samba é um sujeito comunitário reconhecido em seu território, é também um espaço público, no qual cabem posições, discursos e ações nem sempre coincidentes — sendo, portanto, expressão do coletivo, sempre plural — para a produção do comum na diversidade. Em fazendo parte da Bacia do Macuco, a X9 de Santos constitui -se, ela mesma, como uma comunidade, identificada por seus membros como comunidade xisnoveana. A inserção da universidade na comunidade xisnoveana se caracterizou por uma aproximação lenta e cuidadosa, buscando evitar equívocos comuns como, por exemplo, colocar-se como elemento exterior e/ou superior. Ao discutir a visão que os profissionais e as universidades parecem ter das comunidades nas quais pretendem trabalhar, Victor Valla (2000) faz uma análise de como os grupos populares se organizam de forma eficiente em torno das demandas comunitárias, muito mais do que pensam ou consideram os profissionais. Grande parte da população dos bairros periféricos e favelas, participa de algum tipo de organização (escola de samba, time de futebol, igreja) que, se não demonstra um discurso articulado politicamente, indica, porém, relações coesas e sistemáticas. A própria sobrevivência de grandes parcelas dessas classes deve-se, em grande parte, à sua iniciativa de viver. É frequente a postura de intelectuais e profissionais de que a iniciativa é um atributo deles, mesmo reconhecendo que gostariam que não fosse assim (VALLA, 2000, p. 260). Na perspectiva da elaboração conjunta de ações, a parceria escola de sambauniversidade propôs atividades desenvolvidas a partir das demandas locais. Desenhouse, assim, a proposta de construção e registros de memórias por meio de narrativas com os integrantes da comunidade xisnoveana (Velha Guarda, Porta-Bandeira, diretor de carnaval, mestre-sala, coordenadora da ala das Baianas, compositores, entre outros). Essa proposta teve como objetivo central, apresentado pela Velha Guarda e valorizado pela diretoria da escola de samba, a materialização das memórias dessa comunidade, a partir do registro e da produção de material escrito, fotográfico, videográfico e a inserção de um banco de narrativas e imagens no site da X9. O processo de produção de narrativa se deu, inicialmente, a partir de membros da Velha Guarda, que se dispuseram a narrar suas memórias. A partir daí, as memórias eram ouvidas e, posteriormente, escritas pelos professores e estudantes. O material escrito – ainda provisório – era lido para o narrador que, então, assumia o lugar de editor, propusesse inserções, alterações e subtrações no texto, além de indicar imagens a serem incluídas no material produzido. Os ouvintes, ao registrem em texto as narrativas, incluíam no produto seu próprio o estilo de escrita. Essas narrativas foram lidas de volta para os narradores, que as corrigiram e editaram inúmeras vezes até que reconhecessem no texto a sua narrativa, escrita em coautoria com os ouvintes. Após esse processo, que poderia ocorrer em duas, três ou mesmo dez encontros, o narrador era convidado a indicar novos possíveis narradores. Tais encontros individuais com narradores eram entremeados por inúmeros encontros grupais com a Velha Guarda em rodas de samba. Aos poucos, os encontros expandiram-se para outros membros da comunidade xisnoveana. A partir do material produzido, organizou-se um conjunto de narrativas que foi posteriormente disponibilizado aos integrantes da Velha Guarda. 111 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Divulgação e popularização da neurociência através de uma rede social. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Dois eventos ilustram a parceria da escola com a universidade. Um deles foi a apresentação musical no hall de um dos prédios da universidade, onde foram mostrados os sambas e outras composições feitas por eles. Nessa ocasião, os membros da escola participaram também de uma roda de conversa com a comunidade acadêmica, o que possibilitou um espaço de troca e vinculação entre os dois grupos. Outro evento foi uma apresentação, em uma das ruas do bairro próxima à quadra, do material fotográfico e videográfico produzido ao longo do segundo ano do projeto de extensão. Além desses, podemos citar ainda situações como: convite aos professores e estudantes para comporem uma ala no desfile da escola de samba; inclusão de uma das professoras em uma ala tradicional da escola, a Ala das Baianas; convite aos professores para participarem de evento de premiação de um dos membros da escola de samba como Cidadão do Samba da cidade; homenagem feita aos professores e estudantes do projeto, feita pelo projeto “Quintino de Lacerda – negritude e Samba”, coordenado por um dos membros da Velha Guarda da escola; pedido de apoio da universidade para a produção e distribuição de CD com a música da escola para os membros que não teriam condições financeiras de comprar; pedido de assessoria técnica para elaboração de texto para release de jornal e para escrita de projetos; apoio e orientação para acessar serviços da universidade abertos à comunidade. Outras atividades podem ser destacadas, como a realização de panfletos educativos que orientavam cuidados com o corpo e com a alimentação no dia do desfile e a elaboração de um projeto dirigido aos jovens de formação de casais de mestre-sala e porta-bandeira. O percurso metodológico priorizou fundamentalmente o encontro de sujeitos inseridos na realidade dinâmica e complexa da escola de samba a partir da narratividade produzida por seus integrantes. Próprio da metodologia qualitativa, que possui modo e instrumental adequados de abordagem da realidade, como destaca Minayo (1994), essa perspectiva tem potencial para auxiliar na compreensão dos valores culturais e das representações de um determinado grupo a respeito de temas específicos e sobre as relações que se dão entre atores sociais. Destacamos que as formas iniciais de contato com a comunidade xisnoveana foram definidas e construídas em processo, com sucessivas aproximações ao longo de três anos consecutivos. A importante etapa de identificação de sujeitos narradores de sua memória e da memória da escola partiu de uma rede de indicação, inicialmente composta por três integrantes da Velha Guarda, que rapidamente se expandiu, permitindo a construção de uma extensa e conectada rede social. O procedimento narrativo foi, portanto, adotado menos como descrição de fatos e mais como uma oportunidade de criar vínculo e de pensar, como nos propõe Passos e Barros (2009, p. 151), uma política da narratividade, como “uma posição que tomamos quando, em relação ao mundo e a si mesmo definimos uma forma de expressão do que se passa, do que acontece”. Assim foi-se, ao mesmo tempo, produzindo um mapeamento dinâmico da memória da comunidade xisnoveana e registrando-se os momentos significativos que emergiram; a partir da produção e registro de narrativa livre de memórias, ampliou-se a rede de indicações dentro da própria comunidade. Dessa forma, a relação entre as memórias singulares e as memórias coletivas ganhou especial significado. Na discussão dos resultados que se segue, os fragmentos dos discursos serão identificados por nomes fictícios, preservando o grupo ao qual pertencem. . 112 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 – Santos, São Paulo. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9... DISCUSSÃO DOS RESULTADOS As redes sociais vivas na escola de samba ganham densidade, quanto mais estreitos se tornam os laços relacionais. Esses laços se apresentam na forma de vizinhança, parentesco e assunção de cargos na escola de samba, expressos e potencializados pela memória social compartilhada. Vizinhança: história e ligação com o território A Bacia do Macuco, por ser um bairro de cais, apresenta em sua paisagem navios, caminhões e contêineres. Entre seus moradores, muitos ainda hoje estão vinculados ao trabalho no porto. As histórias da escola e do bairro começaram a se confundir em meados do século passado, quando a agremiação foi fundada em 1944. Nessa época, um grupo de trabalhadores do porto de Santos se reunia para fazer músicas e tocar samba, sendo alguns desses escritos pelos próprios integrantes do grupo. Segundo, João, um dos atuais membros da Ala dos Compositores da X9, os encontros aconteciam em um bar que já não existe mais. Entretanto, a batucada, que é o modo como os integrantes da escola se referem ao falar da roda de música que faziam, era suspendida quando chegava a polícia. “Quando a polícia chegava o pessoal escondia os instrumentos da batucada na casa da Tia Inês, já que em função da repressão que havia eles não podiam ficar expostos” (João, membro da Velha Guarda e da Ala dos Compositores). Da corriqueira prática de deixar os instrumentos musicais na casa dos vizinhos Tia Inês e Cabo Roque e, também, da vontade de querer fazer músicas e rodas de samba, que era superior à força da repressão policial, surgiu, no dia 1º de Maio de 1944, a escola de samba X9. O nascimento da escola, associado à fuga da polícia, provocou piadas que faziam referência a um personagem de revista em quadrinhos famoso na época. O personagem era um detetive delator, chamado Agente X9. Posteriormente, uma dissidência dessa escola originou outra homônima, na capital paulista – hoje conhecida como X9 Paulistana, para diferenciar da X9 Pioneira. Há um orgulho muito grande da escola em se dizer pertencente ao bairro do Macuco, principalmente entre os mais antigos. A maioria deles nasceu e viveu ou vive no mesmo bairro. A proximidade produz relações de vizinhança com a escola e com seus membros, construindo e fortalecendo laços relacionais. Embora uma escola de samba precise de um barracão (espaço onde confecciona e armazena as fantasias e alegorias que vai utilizar no desfile) e uma quadra (local onde ocorrem os ensaios e as festas da escola de samba), é comum entre escolas de samba de pequeno porte que um ou ambos elementos não estejam presentes de forma fixa em sua na história. A X9 de Santos não possui um barracão, tendo suas fantasias e alegorias armazenadas nas casas de seus integrantes, em locais emprestados ou alugados temporariamente. Embora tenham tido quadra própria em determinados momentos, e quadra emprestada em outros, ao longo das décadas a X9 já deixou de ter quadra algumas vezes. Sempre que foi necessário buscar um novo local para a escola, a ideia era continuar no bairro, o que mostra um vínculo com o lugar. A importância da escola para a dinâmica do bairro foi aumentando ao longo das décadas, de modo que se tornou referência para os próprios moradores sob vários aspectos: diversos tipos de festas ocorrem na quadra; nos meses próximos ao carnaval, a rua da escola é tomada pelos ensaios da bateria que acontecem à noite; a escola tem 113 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Divulgação e popularização da neurociência através de uma rede social. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. sempre uma ou mais alas reservadas aos moradores da comunidade com garantia de gratuidade das fantasias; e, a partir da parceria com a universidade, lá também passaram a ocorrer alguns projetos sociais. Parentesco: Sangue de Bamba O parentesco com membros antigos na escola de samba, ou mesmo no mundo do samba na cidade, tem um poder de aproximação e produção de respeito extensivo aos familiares. O envolvimento familiar com o mundo do samba apareceu em praticamente todas as narrativas. Muitos dos narradores comentaram que pertencem à X9 porque seus pais ou avós também tiveram envolvimento com o mundo do samba. Assim, verificamos que o mestre-sala da X9, para falar de sua história com o carnaval de Santos, começa dizendo do envolvimento de seu pai com a escola, que justifica sua inserção precoce no mundo do samba e, principalmente, na X9. “Em 1961, com cinco anos, eu debutei no samba” (Rose, Porta Bandeira). Desde o início do encontro, ela nos traz a lembrança de seu pai. Já a presidente da Velha-Guarda participa da X9 desde os 14 anos, e tem sua história marcada pela presença de seus familiares dentro do contexto do samba em Santos, mesmo que em outras escolas. “Comecei muito nova, com minha mãe, que foi comissão de frente, chefe de ala, departamento feminino, vice isso, vice aquilo...” (Rose, Porta Bandeira. Conta que seu avô foi o segundo tromboneiro da X9 e que ela, desde os 5 anos de idade, acompanha seus pais na escola). O diretor de carnaval também tem sua história marcada pela apreciação da família ao ritmo do samba. Seus avós fundaram a primeira academia de samba de Santos, e seus pais foram grandes dançarinos do bairro. Por morar desde criança no Macuco, aos 7 ou 8 anos já acompanhava seu pai na X9. “Acho que é uma coisa que está no sangue. Todos da família são envolvidos no samba” (José, Diretor de Carnaval). Já a neta da fundadora da escola, também atual membro da Velha Guarda, desfilou pela primeira vez aos quatro anos, pois a X9 funcionava na casa de sua avó: “X9 é minha segunda família” (Maria, membro da Velha Guarda). Assunção de cargos na X9: inserção e ascensão na escola de samba Embora o parentesco reconhecido com membros na escola possa assegurar certa inserção e respeito, isso não garante nenhum cargo de destaque na X9. Ao contrário, os laços de parentesco não asseguram a ascensão na escola de samba. Torna-se uma questão de honra para a família ascender por mérito. A ascensão de um filho na escala da hierarquia da escola de samba é motivo de orgulho e reafirma a filiação e a fidelidade da família à agremiação. Dessa forma, o fato de ser filha da presidente da Velha Guarda não assegurou à Porta-Bandeira esse lugar. Antes, foi o fato de ser filha de um membro da Velha Guarda que produziu nela, desde a tenra infância, o prazer e o compromisso com a escola de samba. Sua dedicação levou-a a uma ascensão lenta e gradual, por mérito, desde a ala infantil, passando por destaques nos carros alegóricos, chegando à condição de segunda Porta-Bandeira e, finalmente, como primeira Porta-Bandeira da escola. A partir daí, o cargo transcende as dimensões de um papel no desfile do carnaval e passa a demandar o aprofundamento de conhecimentos que essa posição impõe. Desde que assumiu o lugar de Porta-Bandeira, aos 15 anos, Rose passou a estudar a história do casal de mestre-sala e porta-bandeira e identificou a importância dessa posição e do seu 114 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 – Santos, São Paulo. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9... significado. Percebeu a responsabilidade que estava assumindo. A origem da tradição dos casais vem dos nobres; por isso a semelhança dos trajes do casal com a antiga nobreza portuguesa no período do Brasil Colônia. A Porta-Bandeira, como o nome indica, carrega o pavilhão (estandarte emblemático da escola de samba); o mestre sala tem a função de proteger ambos – a porta-bandeira e o pavilhão. Diferente do ritmo de dança dos demais participantes do desfile, que é o samba, o casal deve bailar como nobres: “o passista samba, o casal baila. A atenção é para o pavilhão e a dança é para apresentálo”. (Rose, Porta-Bandeira) Entre aqueles que não têm nenhum parentesco com membros antigos da escola, o pleito a cargos de reconhecimento também ocorre. É como no caso de um dos membros da atual Ala dos Compositores, que diz que a ascensão na escola é uma conquista, uma vez que é necessário passar por testes, como a “prova de fogo”. “Para fazer parte da bateria, era necessário passar pela ‘prova de fogo’ em alguns dos instrumentos da bateria, tais como o tamborim ou a malacacheta. O mestre ficava ao lado observando se o novato conseguia acompanhar o ritmo da bateria. Se ele gostasse do desempenho do candidato, o mesmo permanecia; se não, o batuqueiro tinha que procurar outra coisa para fazer na escola” (Mario, membro da Velha Guarda e da ala dos compositores). Talvez pela dificuldade que encontraram em suas famílias de origem para frequentarem a escola de samba, alguns membros valorizam o apoio e o incentivo que oferecem a seus filhos e netos, para ingressarem desde cedo: “Eu tinha que ir escondido de meus pais aos ensaios (...). Meus filhos e netos participam da X9, eu incentivo. Meu neto é da bateria” (Mario, membro da Velha Guarda e da Ala dos Compositores). É preciso destacar que, por ser uma escola de samba em um município de médio porte, esses cargos não são remunerados. Entretanto, outros ganhos podem vir junto com a assunção do cargo, uma vez que, após o processo de seleção e aprovação, essas pessoas deixam de ser “comuns” e tornam-se referência dentro da escola. Além desses destaques, reflexos das conquistas dentro da escola, outra forma de ascensão extrapola os limites do desfile e da própria agremiação, como quando se elege, dentro da comunidade do samba da cidade de Santos, um membro que é reconhecido por representar e defender toda a cultura ligada ao carnaval no município. Essa pessoa recebe títulos como “embaixador”, “cabo”, “senhorita” e “cidadão-samba”, entre outros. Vale ressaltar que a eleição desse candidato é feita por membros de todas as agremiações da cidade, título esse que se inscreve na memória da escola de samba e da comunidade. Esses destaques colocam a escola em um outro patamar hierárquico. A Memória Social Embora a escola de samba seja relativamente pequena, há muitas famílias envolvidas, muitos atores ativos, nem sempre em cargos de destaque ou com relações de parentesco e vizinhança dentro da comunidade xisnoveana. Ainda assim, há em torno da escola de samba um acordo tácito, uma congregação de forças. Em muitos casos, o que os une é a própria filiação à agremiação, que se potencializa a partir de memórias compartilhadas. Em algumas narrativas surgiram relatos entristecidos, motivados pela pouca bagagem que os membros mais jovens têm para ajudar a enfrentar momentos de fragilidade da escola. Assim, os integrantes mais jovens às vezes manifestam certo desânimo ou até desistência ao viverem experiências ruins na escola, como desclassificação, rebaixamento, notas baixas, ou mesmo problemas financeiros e a perda 115 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Divulgação e popularização da neurociência através de uma rede social. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. da quadra. Nesses momentos, são os mais velhos que assumem a tarefa de compartilhar memórias de outras situações – tanto de tristeza quanto de alegria e de luta – afirmando a identidade do grupo e sua capacidade de reverter situações difíceis. “A gente já esteve pior, já teve cinco anos sem desfilar, já teve época de pedir pra comunidade desfilar porque não tinha gente querendo sair. É assim mesmo, o samba tem essas coisas: às vezes tá ruim, depois vira o jogo, fica bom de novo” (Ana, presidente da Velha Guarda). É em torno dessas memórias que a escola se levanta, após sofrer algum abalo. E é também sobre essas memórias que, muitas vezes, os compositores, os intérpretes e a Velha Guarda cantam, tanto nos enredos como em sambas de roda, nos encontros da escola. REFLEXÕES PROVISÓRIAS Nas memórias da comunidade xisnoveana foram identificados elementos narrativos que definem as fronteiras entre o ser e o não ser xisnoveano, principalmente marcadas pelos laços relacionais, pela dedicação à escola e pelo compartilhamento de suas memórias. A relação dos mais antigos com os mais jovens também emerge nas narrativas, ora por uma afirmação da necessidade dos mais velhos para a manutenção da força da escola, afirmada pela sua memória; ora pelo lamento do que pode significar a presença jovem na escola, quando não acompanhada de certo critério e orientação dos mais velhos. Essa diferenciação dentro da comunidade é enfatizada nas narrativas pelas expressões “antigamente” e “atualmente”, utilizadas como demarcação de fronteiras entre o que é bom e o que é ruim, ou “o bom samba, o bom carnaval” e “o samba e o carnaval corrompidos”. A compreensão de uma corrupção do samba e do carnaval está colocada a partir de um emaranhado de elementos, trazidos nas narrativas como impurezas que contaminam aquilo que consideram “o bom samba, o bom carnaval”. Esses elementos vão desde o sincretismo musical do samba, quando incorpora outros estilos musicais definidos em outros territórios, por exemplo, pagode, funk e sertanejo – e que atualmente se somam ao samba, em algumas situações – até questões voltadas para a midiatização do carnaval, o que forja na comunidade um outro sentido de inserção que não pelos motivos considerados honrosos, como o amor pela escola e pelo samba. O uso da memória como fator identitário ficou particularmente explícito ao analisarmos o território e o tempo nas falas dos narradores. O território esteve, a todo o momento, ligado à construção de sentido para a comunidade xisnoveana, ora citado como território físico, como endereços, casas, terreiros, a quadra, ora como território existencial, como o amor pela escola, o sentido de pertencimento e a resistência ao novo. A memória funciona como dispositivo ativador e potencializador das redes vivas em ato, legitimando o sentido comunitário aglutinador da escola de samba na comunidade. Neste processo, como é de se esperar de projetos extensionistas, a universidade passou a fazer parte também da memória e da rede ativa dos membros e da própria instituição Escola de Samba X9. SUBMETIDO EM ACEITO EM

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116 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9 – Santos, São Paulo. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


Memória, território e comunidade: extensão universitária na escola de samba X9... REFERÊNCIAS BARROS, R. D. B. Saúde Mental: a importância de se assegurarem direitos. In: RAUTER, C.; PASSOS, E.; BARROS, R. D. B. Clínica e política: subjetividade e violação dos direitos humanos. Rio de Janeiro: Te Corá, 2002. p. 171-177. CAVALCANTI, M. L. V. C. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994. COSTA, S. L.; MACIEL, T. M. F. B. Os sentidos da comunidade: a memória de bairro e suas construções intergeracionais em estudos de comunidade. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 61, n. 1, p. 60-72, 2009. GARCIA, M. L. Carnavalismo: produção de alegorias existenciais. 2004. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2004. LYNCH, K. A imagem da cidade. Lisboa: Edições 70, 1982. MENDES, R. ; DONATO, A. F. Território social de construção de identidades e políticas. SANARE: Revista de Políticas Públicas, Sobral, v. 6, n. 1, p. 35-38, 2003. MINAYO, M. C. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. PASSOS, E.; BARROS, R. B. Por uma política da narratividade. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. Pistas do método cartográfico: pesquisa intervenção e produção da subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. p. 150-171. PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTOS - PMS. Histórias da cidade. 2015. Disponível em: <http://www.santos.sp.gov.br/comunicacao/historia/macuco.php#start>. Acesso em: 04 nov. 2015. SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo, Hucitec, 1996. VALLA, V. V. Revendo o debate em torno da participação popular: ampliando sua concepção em uma nova conjuntura. In: BARATA, R. B.(Org.). Doenças endêmicas: abordagens sociais, culturais e comportamentais. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2000. p. 251268.

117 GARCIA, M. L.; COSTA, S. L.; MENDES, R. Divulgação e popularização da neurociência através de uma rede social. Rev. Ciênc. Ext. v.12, n.3, p.105-117, 2016.


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