OS BATE-BOLAS DO CARNAVAL CONTEMPORÂNEO DO RIO DE JANEIRO Aline Valadão Vieira Gualda Pereira
Neste artigo tratamos de apresentar e analisar as turmas contemporâneas de bate-bolas. As informações contidas neste texto são organizadas sob dois focos: um que contempla as fantasias e outro que se volta para as performances das turmas observadas. Tais informações são tratadas de modo a ressaltar que, entre as turmas de bate-bolas atuais, as características da heterogeneidade, do hibridismo e da dinâmica têm se mostrado como predominantes. Finalizamos o texto propondo a revisão e atualização das teorias e descrições anteriores ao nosso estudo. Esta proposta se deve ao fato de grande parte destas teorias e descrições, realizadas principalmente entre as décadas de 1970 e 1980, empreenderem formas de compreender as práticas dos bate-bolas baseadas nas suas características mais homogêneas e constantes. Com este feito, apontamos para a necessidade de se rever também a própria conceituação de Cultura, uma vez que, nos tempos atuais, as manifestações culturais, em geral, parecem tender a apresentar elementos materiais e simbólicos cada vez mais híbridos e instáveis.
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PEREIRA, Aline Valadão Vieira Gualda. Os bate-bolas do carnaval contemporâneo do Rio de Janeiro. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.6, n.1, p. 115-124, 2009. PEREIRA, Aline Valadão Vieira Gualda. Os bate-bolas do carnaval contemporâneo ...
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Quem são as turmas de bate-bolas contemporâneas e como se organizam Os bate-bolas são fantasiados tradicionais nos carnavais populares do estado do Rio de Janeiro.1 Em linhas gerais, pode-se defini-los como personagens que usam trajes peculiares e que empreendem brincadeiras típicas. (ver figura 1) A manifestação dos bate-bolas contemporâneos revela, entre outras características marcantes, ser uma prática multifacetada e dinâmica. Os grupos de bate-bolas que circulam nos carnavais atuais (chamados de “turmas de bate-bolas”) podem ser muito diferentes uns dos outros e, além disso, apresentam características bastante distintas das associadas aos bate-bolas de outrora, descritos em estudos acadêmicos e periódicos. As turmas de bate-bolas da atualidade costumam ser constituídas por indivíduos que moram no mesmo bairro, que torcem para um time de futebol comum, que integram uma turma de amigos ou que não têm outro vínculo a não ser o de pertencer ao mesmo grupo de fantasiados. Elas geralmente reúnem entre dois e centenas de integrantes, predominantemente homens, com idade entre 25 e 40 anos. O líder de uma turma de bate-bolas, ou “cabeça de turma”, é quem formata e administra a brincadeira carnavalesca do seu grupo. Em outros termos, sua função consis-
Figura 1 – Um batebola movimenta-se numa espécie de “dança”, animado por marchas de carnaval. Sua turma (o grupo Caos, de Jacarepaguá) aguarda ser chamada ao palco para apresentar-se diante do júri do “Concurso Folião Original – Modalidade Clóvis”, que ocorre anualmente na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Foto de Luiz Gualda. Acervo da autora.
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te na articulação de um dado tipo de fantasia com uma maneira específica de comportamento dos fantasiados. O trabalho de idealização e produção de um carnaval nas turmas de bate-bolas costuma ser iniciado com muitos meses de antecedência. Ele pode começar tão logo termine um período carnavalesco. No período de preparação da brincadeira para o ano seguinte definem-se os desenhos das fantasias (que se renovam anualmente) e os planos de ação para a sua confecção. Os membros das turmas de bate-bolas contemporâneas não só participam juntos de uma brincadeira específica de carnaval, mas costumam também manter, uns com os outros, relações de identidades atribuídas ao seu pertencimento coletivo. Por isso pode-se pensar nas turmas atuais de bate-bolas como espécies de comunidades de sentido, segundo definição de Janotti Júnior (2005).2 As identidades coletivas produzidas e reproduzidas no interior de uma turma de bate-bolas geralmente se apoiam em elementos definidores do sentimento de pertencimento a um grupo, como por exemplo, seu nome, seu emblema, seu lema, o uso de fantasias semelhantes e as formas como os membros se relacionam entre si nos momentos extracarnavalescos. Os elementos sinalizadores de identidade coletiva das turmas de bate-bolas com frequência se apresentam influenciados pela cultura de massa. Nota-se claramente que títulos e personagens de filmes do cinema, desenhos infantis, histórias em quadrinhos, telenovelas e outros programas de televisão, bem como as figuras de logomarcas corporativas, marcas de cigarro, grifes de moda, entre outras, servem como fontes de inspiração para as criações dos bate-bolas. Boa parte destas influências torna-se evidente ao se observar as suas fantasias. (Figura 2)
As fantasias dos bate-bolas atuais O dinamismo e a variabilidade parecem ser características inerentes às fantasias de carnaval em geral. Sobre a fantasia carnavalesca no Brasil, Roberto Da Matta diz que não se trata de uma reprodução nos termos de uma homologia, mas de uma representação de alguns traços que a cultura brasileira define como sendo essenciais a uma criação de fantasia (ou brincadeira) do tipo. Uma reprodução autêntica (que guardasse uma relação de um-para-um com o original) seria provavelmente impossível, ou então, cairia na categoria da “fantasia autêntica”, cujo ambiente apropriado é muito mais o ambiente não-carnavalesco. (Da Matta, 1973, p. 39). Da Matta ainda acrescenta que é justamente porque as fantasias não estão preocupadas com uma correspondência centrada na homologia que é possível a duas pessoas fantasiadas de palhaço, por exemplo, viverem suas fantasias de modo fundamentalmente diverso, embora os sinais exteriores do tipo que tentam criar sejam semelhantes e de acordo com um mesmo modelo cultural. Há, na fantasia, a possibilidade de variar interpretações dentro de um mesmo tipo, o qual possui refePEREIRA, Aline Valadão Vieira Gualda. Os bate-bolas do carnaval contemporâneo ...
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Figura 2 – Enquanto um grupo de fantasiados representa sua turma no palco do concurso de fantasias de batebolas promovido pela Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (RioTur), uma plateia repleta de foliões pertencentes a outros grupos assiste à apresentação. Pode-se notar a influência da cultura de massa nas estampas das “sombrinhas” do grupo de espectadores. Trata-se do personagem “Ban-Ban”, do desenho animado Os Flintstones. Foto de Luiz Gualda. Acervo da autora.
rências ideais (ou estereotipadas) no código cultural. É essa possibilidade de variação que ajuda a interpretar o termo fantasia, como algo relacionado também ao imaginário e aos seus subuniversos de significação correspondentes. (Idem, p. 40) As fantasias das turmas de bate-bolas parecem ser exemplos bastante elucidativos para se compreender as fantasias de carnaval da forma como Da Matta as define. Elas se atualizam constantemente, a despeito da suposta rigidez que algumas descrições dos bate-bolas, encontradas em estudos mais antigos, costumam lhes atribuir. Por conta do dinamismo visual das turmas de bate-bolas, e também da heterogeneidade visual existente entre elas, compreendemos a fantasia destas turmas como uma indumentária estabelecida pela articulação de diversos elementos materiais e simbólicos associados pelos brincantes ao personagem bate-bola. E entendemos que esta dinâmica material e simbólica se retroalimenta nos fazeres e saberes cotidianos dos brincantes. As peças de vestuário da composição básica de uma fantasia de bate-bolas são o macacão, uma sobreveste (que pode ser uma capa, uma casaca ou um bolero) e a máscara, aos quais podem ser acrescentados uma vasta gama de complementos opcionais. Observa-se, na figura 3, uma fantasia composta por macacão, máscara, luvas e bolero. O uso do macacão é praticamente consensual entre os bate-bolas atuais. Entretanto, o termo genérico “macacão” não corresponde a um único padrão indumentário, já que os macacões podem variar com relação às modelagens, aos volumes, aos tecidos, às padronagens e aos acabamentos. Os diferentes tipos de macacão recebem denominações específicas, como macacão de duas bandas, macacão de perna, macacão de saia, macacão roda-baiana, macacão linguiça, macacão listrado, macacão de duas mangas, macacão bujão, entre outras. Sobre os macacões costumam ser utilizadas sobrevestes que, conforme o modelo, são classificadas como capas, casacas ou boleros. Estas peças normalmente possuem confecção elaborada e costumam ter custos relativamente altos (correspondem, em mé-
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Figura 3 – O componente da Turma do Vovô dos Clóvis, do bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, exibe sua fantasia para o fotógrafo. O longo macacão listrado possui um panejamento tão vasto que, segundo o fantasiado, chega a pesar entre 10 e 12 quilos. Foto de Luiz Gualda. Acervo da autora.
dia, a 50 por cento do valor total da fantasia). As técnicas de produção das sobrevestes variam do trabalho de natureza artesanal rudimentar (pintura, escultura, bordados e aplicações) ao emprego de novas tecnologias (como as que envolvem computação gráfica e estamparia industrial). Não é raro encontrar, entre essas peças, aquelas que combinam técnicas de ambas naturezas. A máscara, que para alguns pesquisadores (Zaluar, 1978; Frade, 1979; Da Matta, 1981) constituiria item obrigatório da fantasia dos bate-bolas – em virtude de uma suposta obrigatoriedade de manutenção do anonimato dos brincantes para a realização da brincadeira –, na atualidade não tem, necessariamente, a função de ocultar a identidade do folião. Muitos dos fantasiados atuais não mantêm as faces mascaradas durante sua aparição pública. Ainda assim, destituída de um valor predominantemente funcional, a máscara mostra-se como elemento frequente nas fantasias contemporâneas, com a diferença de se apresentar, hoje em dia, em formatos e materiais variados, e não mais obrigatoriamente no modelo tradicional – composto de face de tela e capuz de tecido. Outras peças de vestuário complementam a fantasia e cumprem, além da função estética, o papel de cobertura do restante do corpo do bate-bola. Entre estas peças podem ser citados os meiões, as luvas, e os calçados (que normalmente variam entre sapatilhas decoradas, botas personalizadas e tênis esportivos de grifes da moda). PEREIRA, Aline Valadão Vieira Gualda. Os bate-bolas do carnaval contemporâneo ...
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