CULTURA POPULAR E PEDAGOGIA PREOGRESSISTA: A ULTILIZAÇÃO DO SAMBA ENREDO EM SALA DE AULA Introdução Tendo o samba como representação da cultura popular na região Sudeste, mais especificamente do Estado do Rio de Janeiro, em que juntamente com as escolas de samba, o samba enredo é um dos temas que tem grande relevância social, perpassando a vida de vários brasileiros, fazendo parte do cotidiano brasileiro, sendo assim, deverá ser tema privilegiado pela educação não somente a que é realizada nas escolas de samba, mas também pela educação formal nos diferentes graus de ensino. De modo paralelo ao meu percurso na escola de samba e a minha formação na área da educação, buscarei uma articulação entre a teoria pedagógica progressista e de currículo contemporâneas e a cultura popular através do samba enredo e sua utilização em sala de aula resultando uma educação para a diversidade dando ênfase à cultura afro-brasileira. Para a elaboração da pesquisa são utilizados como referencial os autores Georges Snyders e Tomaz Tadeu da Silva que abordam as questões do currículo com as práticas da Pedagogia Progressista que defende um currículo em que se aborde toda a diversidade cultural e social no ambiente escolar. A origem do samba O samba-enredo não surgiu junto com a criação das escolas de samba, no início dos desfiles das escolas de samba não havia enredo, o samba mais cantado na quadra era que valia para o desfile. Entre os pesquisadores, em sua maioria, o primeiro samba-enredo com tema pode ter sido apresentado pela Unidos da Tijuca em 1933, antes disso as escolas percorriam a avenida com dois sambas um para ir e outro para voltar. Com a implantação do Estado Novo em 1939 por Getúlio Vargas, as escolas eram obrigadas a apresentar enredos sobre personagens heróis do país, exaltando sempre de forma patriótica. Hoje, essa prática ainda é exercida pelas escolas de samba cariocas nos dias atuais, mas sem os fins ideológicos dos governos. Uma das primeiras escolas a ter como destaque o negro como enredo foi o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, com enredo Quilombo dos Palmares em 1960. Essa iniciativa se deve pelo fato de que as histórias em que os personagens principais que eram negros não apareciam nas histórias ditas oficiais nos livros didáticos. Este fato abriu precedentes para outras escolas seguirem essa linha. No ano de 1988, o Grêmio Recreativo Escola de Samba
Unidos de Vila Isabel, fez um belíssimo desfile no ano de 1988 com
Kizomba a Festa da Raça que exaltou a luta do povo negro falando da resistência do 148
Quilombo de Palmares, a garra de Zumbi e da questão da segregação na África do Sul e a luta do negro no Brasil após a abolição. Esse ano se completava 100 anos de abolição oficial da escravatura, por esse motivo, a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro sugeriu, sem a obrigatoriedade, que as escolas do chamado Grupo Especial fizessem enredos com o mesmo tema – O Centenário da Abolição da Escravatura – com isso as escolas puderam fazer várias explanações desde a vida do negro na África até a condição de escravos e a liberdade chegando até a homenagear a Princesa Isabel pela declaração da abolição dos negros. Seguindo essa linha, o desenvolvimento do tema será feito através de pesquisas das letras de samba com a temática do negro em todos os seus aspectos, para situar em que contextos os compositores situavam os principais personagens que são os negros. Dentro do contexto da educação, é muito pertinente abordar este tema, pois com o respaldo das Teorias Pedagógicas progressistas me encontro com muita disposição para apresentar este tema através dessas composições e mostrar como podem ser utilizadas em sala de aula com estudantes em qualquer nível de escolaridade. Por tanto, o foco central da pesquisa será constituído pelas letras de samba com a temática negra, dando destaque ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. A agremiação escolhida para a pesquisa se deve ao seu pioneirismo e sua ousadia em abordar o tema; o primeiro enredo tendo como destaques dentro do desfile os negros heróis da nossa história como Zumbi dos Palmares que foi homenageado no enredo Quilombo dos Palmares em 1960, depois foi elaborado o enredo Chica da Silva em 1963 e Chico Rei em 1964; em 1971 a escola obteve mais um título com o enredo Festa para um Rei Negro mais conhecido como O Lelê o Lalá, Pega no Ganzê pega no Ganzá, em 1976 ela desfila com enredo Valongo, em 1978 Do Yorubá à Luz, a Aurora dos Deuses, em 1984 Skindô, Skindô, em 1989 Templo Negro em Tempo de Consciência Negra e o último enredo com a temática negra em 2007 foi Candaces. Outras escolas também se utilizaram deste tema para os seus desfiles Esses personagens são figuras importantíssimas e não exploradas pelos historiadores que elaboram os livros didáticos, fazendo destes personagens secundários, apresentando-os de maneira preconceituosa. Dentro desta pesquisa pretendo mostrar que o que faltam nos livros escolares sobra nas letras de samba das agremiações, com isso as letras podem ser utilizadas para acrescentar ao cotidiano escolar, valorizando o samba, como uma produção cultura popular das classes populares, destacando inclusive a produção das escolas de samba localizadas nas comunidades carentes em que as instituições escolares estão inseridas. A partir deste ponto, se faz necessário contextualizar a história da agremiação escolhida para a referida pesquisa.
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Contextualizando a história: o Morro do Salgueiro Localizado no bairro do Andaraí, o morro que antes tinha lavouras de café e depois uma fábrica de chita, no princípio do século XX deu lugar aos imigrantes e aos ex-escravos. O morro recebeu esse nome por causa do comerciante português Domingos Alves Salgueiro, que além de ter um comércio no bairro era também dono de trinta barracos na comunidade. Aos poucos o morro começou a ser ocupado por famílias vindas de Minas Gerais, interior do Estado do Rio de Janeiro, sul da Bahia e Nordeste. Os moradores levantavam as suas casas em regime de mutirão, todos transformavam o Morro do Salgueiro em uma grande família, uma festa de convívio social. O local possuía várias tendinhas em que os moradores compravam gêneros de necessidade urgente que depois passou a ser ponto de encontro dos moradores e local para se discutir política, futebol e samba. Os moradores que tinham várias origens trouxeram para o morro costumes, hábitos e culturas que foram amplamente incorporados no cotidiano da comunidade. Carimbó, Folias de Reis, Calango, Jongo e Samba de Roda eram cantados e dançados em datas folclóricas dos imigrantes e passaram a ser apreciados por todos nas festas, nos eventos familiares, acompanhados de cozidos, mocotós, peixadas e feijoadas. Mas a manifestação folclórica que teve mais força no Salgueiro foi o Caxambu, dança vinda do interior de Minas Gerais e do Estado do Rio de Janeiro. Devido à diversidade cultural, com as manifestações religiosas não poderia ser diferente, na subida do morro o Cruzeiro passou a ser o local onde os moradores faziam os agradecimentos, com velas acesas para as Almas Benditas, flores e ex-votos de promessas a pagar. Faziam parte também os terreiros de Umbanda e de Candomblé. Neles, as segundas e sextas-feiras, os toques dos atabaques, o baterem das palmas e o coro, que entoavam em ioruba e português, saudavam os orixás e os caboclos. O morro também abrigou diversas benzedeiras, que com as garrafadas curadoras, banhos de limpeza, rezas localizadas, as benzedeiras do Salgueiro ganharam fama que se espalhou por toda a área da Tijuca. O padroeiro do Morro do Salgueiro é São Sebastião, comemorado no dia 20 de janeiro, e nesta data que até hoje os moradores espalham flores e velas para homenagear o santo. Outra entidade também é padroeira do local, por causa da diversidade religiosa, Xangô, orixá do Candomblé, é outro homenageado no Morro, que também é reverenciado no dia 20 de janeiro. Quando anoitece diante dos pegis e dos gongás, o senhor das pedreiras recebe as homenagens de seus afilhados salgueirenses, devido ao grande número de moradores que eram de religião de matriz africana e devotos desta entidade.
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A luta social também faz parte da história desta comunidade, foi neste morro que surgiu a primeira associação de moradores do Rio de Janeiro, no início de 1934, quando os habitantes do morro foram ameaçados de despejo. Liderados pelo sambista Antenor Calça Larga, os moradores saíram vitoriosos na batalha jurídica e continuaram a viver pacificamente no local, fazendo suas festas, suas músicas seus sambas. O Morro do Salgueiro chegou a ter mais de dez blocos carnavalescos, entre eles o Caprichoso do Salgueiro, Flor dos Camiseiros, Terreiro Grande, Príncipe da Floresta, Pedra Lisa, Unidos da Grota e Voz do Salgueiro. Todos os blocos possuíam um grande contingente de pessoas que desciam o morro para brincar na Praça Seans Peňa e nas famosas batalhas de confete na Rua Dona Zulmira, local em que o Salgueiro era tido com grande respeito, já que todos conheciam o talento de seus compositores os quais mostraram que a escola já era uma verdadeira academia do samba. Lá em cima no morro, nos anos da década de 30, Dona Alice da Tendinha passou a realizar concursos com a composição de jurados para premiar o bloco mais animado que desfilava no morro. A cada desfile ia ficando mais animado e atraindo moradores de outros morros e bairros devido à qualidade dos sambas feitos pelos compositores do Morro do Salgueiro. Com a fragmentação do samba no morro em vários blocos, surgiu a união e o nascimento de três escolas de samba: Unidos do Salgueiro, Azul e Branco e Depois Eu Digo. As três escolas tinham uma ala de compositores bastante talentosos, grandes gênios musicais, como Geraldo Babão, Guará, Iracy Serra, Noel Rosa de Oliveira, Geraldo, Abelardo, Bala, Anescarzinho, Antenor Gargalhada e Djalma Sabiá. Foram as composições desses compositores que fizeram com que o Salgueiro fosse respeitado pelas outras escolas no Rio de Janeiro. Mesmo com sambas de alta qualidade feitos pelos seus compositores, não conseguiam ameaçar o domínio das grandes escolas, que eram Império Serrano, Mangueira e Portela. Então em 1953, a Unidos do Salgueiro foi a sexta colocada no concurso dentre as três escolas existentes no morro. Esse resultado fez com que sambistas ficassem contra a divisão de forças no morro. Depois de várias reuniões, foram decididas as cores e o nome da nova agremiação em cinco de março de 1953. Com os componentes da Depois Eu Digo e a Azul e Branco nasceu a Acadêmicos do Salgueiro, com as cores vermelho e branco, uma combinação que derrubou um tabu, já que naquela época todos achavam que um crioulo de roupa vermelha parecia o demônio. A outra escola, Unidos do Salgueiro desapareceu e seus integrantes foram se incorporando à nova agremiação. A partir daí a comunidade começa fazer sua história no mundo das escolas de samba. A pedagogia progressista e a utilização do samba enredo em sala de aula
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O tema samba de enredo, tendo o negro como instrumento de trabalho dentro da sala de aula é uma forma de romper com a forma tradicional e impositiva do currículo escolar, uma vez que privilegiando um determinado grupo da classe social, não levando em conta a diversidade e a realidade do aluno, fica muito difícil que a criança ou o jovem entendam o que deva ser apreendido, pois a sua cultura não é valorizada. Então, a única maneira de atingir um possível sucesso dentro da sala de aula é aproveitar de forma inteligente a bagagem cultural que os alunos trazem do seu cotidiano, o samba também uma forma de resgatar uma cultura que está cada vez mais distante da cultura de massa. A teoria pedagógica progressista defendida pelo Georges Snyders tem como palavraschaves identidade, alteridade, diferença, subjetividade, significação e discurso, saber-poder, representação, cultura, gênero, raça, etnia, sexualidade e multiculturalismo. Essas palavras estão na escola e geralmente não fazem parte do cotidiano escolar, o que torna a escola uma reprodutora das desigualdades existentes na sociedade. A teoria dá embasamento para elaborar e organizar um trabalho bastante diferenciado, tendo em vista a diversidade existente nos espaços educativos, isso pode ser discutido com o Projeto Político Pedagógico que atenda essa diversidade cultural com vistas a corrigir desvantagens e marginalização criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. No Brasil, existe um conflito entre a cultura e o padrão estético negro africano e o padrão estético e cultural branco europeu. Mas a presença da cultura negra ultrapassa 50% da população brasileira, segundo o último censo do IBGE, mesmo assim não é suficiente para extinguir ideologias, desigualdades e estereótipos racistas, lembrando que tudo que tem referência da cultura negra é depreciada, debochada e ridicularizada, fazendo com que os negros se sintam diminuídos na sua cultura sendo forçados a incorporar a cultura e os padrões da classe dominante, que é branca e tem insistido em silenciar as vozes que ousem quebrar este paradigma. As teorias Pedagógicas Progressistas permitem que as escolas rompam os muros da escola e tragam de forma significativa a colaboração das comunidades que estão ao seu redor, do seu apoio direto ou indireto de estudiosos e de organizações como o Movimento Negro, com as quais podem estabelecer canais de comunicação e encontrar formas próprias de incluir nas vivências promovidas pela instituição, inclusive em conteúdos de disciplinas, as temáticas em questão. É pro isso que o samba, genuinamente brasileiro, com suas bases de origem africana, deve ser incluído nesta questão como forma de resgatar através da música a dignidade e a autoestima das comunidades, tendo como material de estudo os sambas de enredos das escolas de samba com a temática negra principalmente. Assim através de uma história contada de forma bem didática, sem estereótipos, sem depreciações e discriminações, inserimos dentro do 152
cotidiano escolar uma realidade vivenciada pelos alunos, seus familiares e comunidade fora do ambiente de ensino. Identidade, currículo e cultura Através do vínculo entre conhecimento, identidade e poder que os temas da raça e da etnia ganham seu lugar na teoria curricular. O texto curricular (o livro didático e paradidático, as lições orais, as orientações curriculares oficiais, os rituais escolares, as datas comemorativas) está repleto de narrativas nacionais, étnicas e raciais. Em geral, essas narrativas celebram os mitos da origem nacional, confirmam o privilégio das identidades das identidades dominantes e tratam as identidades dominadas como exóticas ou folclóricas. Em termos de representação racial, o texto curricular conserva, de forma evidente, as marcas da herança colonial. O currículo é, sem dúvida, entre outras coisas, um texto racial. A questão de raça e da etnia não é simplesmente um “tema transversal”, ela é uma questão central de conhecimento, poder e identidade. O conhecimento sobre raça e etnia incorporado no currículo não pode ser separado daquilo que As crianças e os jovens se tornarão como seres sociais. “Para ter a diversidade respeitada e integrada na escola, sobretudo na sala de aula é necessário que o currículo atenda à essa constatação. O currículo é considerado um artefato social e cultural, significando assim a sua colocação no quadro mais amplo de suas determinações sociais de sua produção contextual.
O currículo
não é
neutro
e
desinteressado na sua transmissão de conhecimento, está implicado em relações de poder, transmite visões sociais particulares e interessadas, produz identidades individuais e sociais particulares. O currículo não é transcendental e atemporal, ele está vinculado a formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação. Na escola, o currículo é considerado um instrumento do controle social que pretende estabelecer na escola valores, condutas e hábitos adequados. A preocupação com a educação vocacional faz-se notar evidenciando o propósito de ajustar a escola às novas necessidades da economia.”(MOREIRA,
2006:7) No discurso dominante, segundo Giroux, a pedagogia é simplesmente a metodologia mensurável e justificável usada para transmitir o conteúdo do curso e, além disso, define a cultura popular como o que sobre após a subtração da alta cultura da totalidade das práticas culturais. Ela é vista como um movimento banal e insignificante da vida cotidiana, e geralmente 153
é uma forma de gosto popular considerada indigna de legitimação acadêmica ou de alto prestígio social. Faço aqui uma lembrança de quando o samba surgiu como proposta de um gênero cultural de nível para a representação do Brasil em que vários intelectuais da época não viam com bons olhos, conforme citação abaixo: “O samba, que traz na sua etimologia a marca do sensualismo, é feio, indecente, desarmônico e arrítmico, mas paciência, não repudiemos esse nosso irmão pelos defeitos que contém. Sejamos benévolos; lancemos mão da inteligência e da civilização. Tentemos devagarinho torná-lo mais educado e social” (
AUGRAS,1998) Tendo a cultura popular, que é construída e desconstruída, é uma cultura inteira baseadas nos valores originais e significados que dão sentidos a sua existência, construindo-se na história das relações entre os grupos sociais e na relação, na maioria das vezes divergentes, tensa e violenta, como foi o caso do samba devido a sua origem e outras culturas. Se numa sociedade temos uma hierarquização social, uma discriminação social, no campo da produção cultural não seria diferente, ou seja, a cultura popular é considerada pela elite, ou classe dominante, uma produção desqualificada, sem valor cultural, não admitir essa hierarquia cultural é considerar culturas como independentes entre si e sem relação com os grupos sociais, o que não é a realidade. De acordo com Silva, quando pedagogia e cultura popular se relacionam, surge a importante compreensão do significado de tornar o pedagógico mais político e o político mais pedagógico. A cultura popular e a pedagogia representam importantes terrenos de luta cultural que oferecem não apenas discursos subversivos, mas também relevantes elementos teóricos que possibilitam repensar a escolarização como uma variável e valiosa forma política cultural. É necessário enfatizar que a realidade concreta das salas de aula permite perceber que o trabalho do professor, em um contexto institucional, determina qual tipo de conhecimento vale mais, para qual direção deve voltar os desejos, o que significa saber alguma coisa e, finalmente como poderíamos formular representações deles, dos outros e do ambiente físico e social. Em se tratando da cultura popular na vida escolar, cabem algumas perguntas: que relação os alunos veem entre o trabalho que os professores fazem em classe e as vidas que eles levam fora da sala de aula? Seria possível incorporar aspectos da cultura vivida ao trabalho da escolarização, sem simplesmente confirmar aquilo que eles já sabem? Seria possível banalizar os objetos e as relações que são importantes para os alunos? E seria possível fazê-lo sem discriminar determinados grupos de alunos como marginais exóticos e “outros” dentro da uma cultura hegemônica? 154
“Um ponto de partida seria considerar a cultura popular como aquele terreno de imagens, formas de conhecimento e investimentos afetivos que definem as bases para se dar oportunidade à “voz” de cada um, dentro de uma experiência pedagógica. Essa forma é uma pedagogia crítica, que ratifica a realidade concreta da diferença e da vida cotidiana como base para levantar questões de
teoria
e
prática.”(GIROUX, 2006:106)
As práticas culturais populares exibem numerosas diferenças que, em parte, se devem às lutas inerentes às relações vigentes de sexo, classe, raça, etnia, idade e região. Enquanto essas diferenças forem usadas para gerar em qualquer discussão sobre pedagogia e cultura popular, registrar o conceito de diferença. Eliminar o singular e sempre falar em práticas culturais populares. Enfatizar as práticas como processos vividos, como parte das diferentes manifestações das experiências e reações diferentes grupos frente à vida cotidiana, mas sempre atentando para o perigo de se reduzir determinados alunos a simples reflexos de algumas supostas características de um dado grupo. Esse é o caminho da segregação, da discriminação e do racismo. Educação, cultura e produção do conhecimento A educação nos moldes da pedagogia progressista designa que todos os estudantes, independentemente do grupo a que pertençam, tais como aqueles relacionados a raça, cultura, classe social ou língua , possam vivenciar a igualdade educacional nas escolas. A educação multicultural é também um movimento de promoção da transformação da escola, objetivando que estudantes de diferentes grupos tenham chances iguais de sucesso. Para transformar a escola no sentido de facilitar a igualdade educacional, todos os seus componentes devem ser substancialmente mudados. Focar qualquer uma das variáveis na escola tais como currículo obrigatório não implementará a educação multicultural. No entanto, a integração do currículo ao conteúdo multicultural é o ponto lógico para começar o processo de reforma escolar. Como a educação multicultural é um processo contínuo que tenta viabilizar metas idealizadas como igualdade educacional e erradicação de todas as formas de racismo e discriminação, pode não ser plenamente alcançada na sociedade. A desigualdade que existe dentro da escola é reproduzida no currículo escolar, nos livros, nas atitudes e expectativas do professor, na interação aluno-professor, na linguagem e nos regionalismos linguísticos valorizados nas escolas e na cultura da escola como um todo. Um de seus maiores objetivos é ajudar alunos a adquirir conhecimento, atitudes e habilidades necessárias para se tornarem cidadãos que promovam justiça social dentro de suas comunidades locais, países e comunidades globais.
Uma importante meta dos movimentos 155
de revitalização étnica que vêm ocorrendo desde as décadas de 1960 e 1970 é a reforma escolar para que reflita a cultura de diferentes grupos de estudantes, reescrevendo a história da escola e revelando as experiências, os esforços de diversos grupos e suas produções para a construção da nação. Quando a história de grupos excluídos e marginalizados é contada, ela desafia os mitos consagrados sobre grupos dominantes e minorias, institucionalizados na cultura popular e no currículo das escolas e universidades. As dimensões da educação multicultural devem ser claramente descritas, conceituadas e pesquisadas para que sejam implementadas de maneira coerente com a teoria. Quando o processo de construção do conhecimento é realizado em sala de aula, os professores ajudam os alunos a entender como o conhecimento é criado e como é influenciado por posicionamentos raciais, étnicos e sociais dos indivíduos e grupos. Estudantes investigam como as pressuposições culturais, o conjunto de referências, perspectivas e preconceitos dentro de uma disciplina influenciam o modo pelo qual o conhecimento é nela construído. Os alunos podem analisar o processo de construção do conhecimento em ciências, estudando como o racismo vem sendo perpetuado por teorias genéticas de inteligência, darwinismo e eugenia. Para desenvolver um entendimento de necessidade de mudanças sociais, um comprometimento com a participação social e a destreza para efetivamente participar na ação social que conduz à mudança, é preciso que o conhecimento que os estudantes adquirem tenha certas características. Deve descrever eventos, conceitos e situações de uma perspectiva da diversidade racial, étnica e cultural desses grupos dentro da sociedade, incluindo aqueles que são política e estruturalmente dominantes. E aqueles que, estruturalmente estão excluídos, por completo, da participação social. Muito do conhecimento escolar assim como do conhecimento popular, apresentado nos eventos e situações, é abordado pela perspectiva dos vencedores, ao invés da ótica dos subjugados, e da perspectiva dos que controlam as instituições sociais, econômicas e políticas na sociedade, ao invés do ponto de vista dos que são tratados injustamente e marginalizados. O conhecimento reflete o contexto social, histórico, político e econômico no qual ele é construído. Também reflete as experiências, perspectivas, visões, valores e jornadas biográficas de pesquisadores. Grupos étnicos de cor, tais como os afro-brasileiros, os índios e outros foram prejudicados pelo conhecimento acadêmico dominante que está institucionalizado na cultura popular brasileira, assim como nos livros didáticos das escolas e das universidades. Ações para o ensino da diversidade na escola Para aplicar a educação multicultural deve-se em principio ter a consciência política e histórica da diversidade, que deve conduzir à compreensão de que a sociedade é formada por 156
pessoas que pertencem a grupos étnico-raciais distintos, que possuem cultura e história própria, igualmente valiosa e que em conjunto constroem, na nação brasileira, sua história; ao conhecimento e à valorização da história dos povos africanos e da cultura afro-brasileira na construção histórica e cultural brasileira; à desconstrução, por meio de questionamentos e análises críticas, objetivando eliminar conceitos, ideias, comportamentos veiculados pela ideologia do branqueamento, pelo mito da democracia racial, que tanto mal fazem a negros e bancos; ao diálogo, via fundamental para entendimento entre diferentes, com a finalidade de negociações, tendo em vista objetivos comuns visando uma sociedade mais justa. As ações educativas de combate ao racismo e a discriminações devem encaminhar para a conexão dos objetivos, estratégias de ensino e atividades com a experiência de vida dos alunos e professores, valorizando aprendizagens vinculadas às suas relações com pessoas negras, brancas, mestiços, assim como as vinculadas às relações entre negros, indígenas e brancos no conjunto da sociedade; a crítica pelos coordenadores pedagógicos, orientadores educacionais, professores, das representações dos negros e de outras minorias nos textos, materiais didáticos, bem como providências para corrigi-las; valorização da oralidade, da corporeidade e da arte, por exemplo, como a dança, marcas da cultura de raiz africana, ao lado da escrita e da literatura; a participação de grupos do Movimento Negro, e de grupos culturais negros, bem como da comunidade em que se insere a escola, sob a coordenação dos professores, na elaboração de projetos políticos-pedagógicos que contemplem a diversidade étnico-racial. A utilização do samba em sala de aula A integração de conteúdo descreve em que dimensão os professores usam exemplos, fatos e informações de uma variedade de culturas e grupos para ilustrar conceitos-chave, princípios, generalizações e teorias em suas matérias ou disciplinas. A convicção, muito difundida, de que essa integração constitui o todo da educação multicultural pode ser a causa de muitos professores de matérias como matemática e ciências verem a educação multicultural como apropriada a letras e estudos sociais e não a suas matérias. Existem mais oportunidades para a integração de conteúdos étnicos e culturais em algumas matérias do que outras. Em estudos sociais, em letras e em música, as oportunidades de explorar esses conteúdos para ilustrar conceitos, temas e princípios são mais amplos. Entretanto, as oportunidades não são tantas em matemáticas e ciências. O fortalecimento de identidades e de direitos deve ter como princípios o desencadeamento de processo de afirmação de identidades, de historicidade negada ou distorcida; o rompimento com imagens negativas forjadas por diferentes meios de comunicação, contra os negros e os povos indígenas; a ampliação do acesso as informações sobre a
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diversidade da nação brasileira e sobre a recriação das identidades, provocada por relações étnico-raciais. O fortalecimento de identidades e de direitos deve ter como princípios o desencadeamento de processo de afirmação de identidades, de historicidade negada ou distorcida; o rompimento com imagens negativas forjadas por diferentes meios de comunicação, contra os negros e os povos indígenas; a ampliação do acesso às informações sobre a diversidade da nação brasileira e sobre a recriação das identidades, provocada por relações étnico-raciais. Tomemos como exemplo de valorização do negro o samba a seguir para trabalhar em sala de aula: TEMPLO NEGRO EM TEMPO DE CONSCIÊNCIA NEGRA60 Compositores: Alaor Macedo, Helinho do Salgueiro, Arizão, Demá Chagas, Rubinho do Afro
Livre ecoa o grito dessa raça E traz na carta A chama ardente da abolição Oh! Que santuário de beleza Um congresso de beleza de raríssimo esplendor Revivendo traços da história Estão vivos na memória Chica da Silva e Chico Rei Saravá os deuses da Bahia Nesse quilombo tem magia Xangô é nosso pai, é nosso rei Ô Zaziê, Ô Zaziá O Zaziê, Maiongolé, Marangolá Ô Zaziê, Ô Zaziá Salgueiro é Maiongolê, Marangolá Vai, meu samba vai Leva a dor traz alegria Eu sou negro sim, liberdade e poesia E na atual sociedade, lutamos pela igualdade Sem preconceitos sociais Linda Anastácia sem mordaça O novo símbolo da massa A beleza negra me seduz Viemos sem revolta e sem chibata Dar um basta nessa farsa É festa, é Carnaval, eu sou feliz É baianas, O jongo e o caxambu vamos rodar Salgueirar vem de criança O centenário não se apagará
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Samba enredo de 1989
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Tomando como exemplo a letra de samba enredo acima, podemos observar que existem vários itens que podem ser trabalhados em sala de aula buscando trabalhar através da letra a questão racial. Podemos tomar como exemplo ao trabalhar a letra na disciplina de História alguns elementos como a Abolição da Escravatura; personagens negros como Chica da Silva, Chico Rei, Zumbi dos Palmares através de Quilombo dos Palmares e a partir desse ponto, explicar o eram os quilombos e suas finalidades e como está a questão das comunidades quilombolas existentes em nosso país; sem esquecer de João Candido, lider da Revolta da Chibata e também explicar a exsitência de Anastácia, que aliás, até hoje ainda há dúvidas sobre ela ter existido ou não. Na disciplina de Português podemos trabalhar os itens realtivos a poesia , composição, interpretação e por que não solicitar uma redação aos alunos a respeito do tema. Na área de Educação Artística pode-se trabalhar com os estudantes a musicalidade do gênero, sugerindo no desenvolvimento a confecção de instrumentos ultilizados em uma bateria de escola de samba, acrescido da passagem do vídeo Samba no Trem em que participantes da Velha Guarda das escolas de samba, compositores, artistas e simpatizantes contam qual sua realçao com o gênero e como influencia em suas vidas. Aproveitando, podemos também trabalhar o Jongo, o Caxambu e o Makulelê que são danças brasileiras com raízes africanas com a ultilização de cantigas das danças e uma mostra da dança de cada ritmo, estimulando enquanto isso a participação dos alunos, mas sempre respeitando alguma possíveis resistências dos alunos. Ainda sim, para trabalhar a estética negra, podemos trabalhar a autoestima das crianças e jovens partindo do conceito de beleza e assim mostrando que beleza é um conceito realtivo e que em vários grupos étnicos existem seus padrões de beleza e que mesmos em grupos étnicos de origem africana tinham seus padrões de beleza representadso nas mais diversas formas, seja pela aparência física ou por utilização de adornos no corpo. Considerações Finais O currículo é cercado de artimanhas para atender a dominação da classe dominante, não contemplando a multiculturalidade existente no país e passando como referência o que para essa minoria que está no poder acha que é o padrão ideal de beleza, de costumes, de estilo de vida, de educação etc., mas o que acontece é um conflito de referências de um país que tem na sua história a miscigenação de três grupos étnicos e que essa história não está devidamente contemplada nos livros didáticos.
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O que os professores devem fazer é pesquisar e estudar o cotidiano do aluno de uma maneira em que a sua vivência seja contemplada e respeitada em sala de aula com o objetivo de construir um cidadão que possa questionar a sociedade em que vive e transformar para que seja uma sociedade justa no sentido de direito e diversificada no âmbito cultural, social e educacional.
REFERÊNCIAS COSTA, Haroldo. Salgueiro 50 Anos de Glória. Record. 2003 ______________. Salgueiro: academia do samba. Record. 1ª Ed. 1984 MOREIRA, Antônio Flavio Barbosa, SILVA, Tomaz Tadeu da. Currículo, Cultura e Sociedade. 9º ed. São Paulo. Cortes. 2006 OLIVEIRA, Iolanda (org.), Relações Raciais e educação: temas contemporâneos, Rio de Janeiro, EDUFF, 2002 OLIVEIRA, Iolanda Siss, Ahyas (orgs.), População Negra e Educação Escolar, Rio de Janeiro, EDUFF, 2006 SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: Uma introdução às teorias do currículo. 2ª ed. 10ª reimp. Belo Horizonte. Autêntica, 2007 SNYDERS, Pedagogia Progressista. Coimbra: Livraria Almedina, 1974. SOUZA, Tárik de. História e costumes do Brasil desfilam na Avenida, LIESA
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