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O Acadêmicos do Dendê e a Ilha do Governador/RJ: competição e colaboração entre as escolas “Insulana

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Projeto Estudos comparados dos saberes e das artes nos circuitos da cultura popular Coordenação geral Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti (PPGSA/ IFCS/ UFRJ) Coordenadores de eixos temáticos Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti (PPGSA/ IFCS/ UFRJ) José Reginaldo Gonçalves (PPGSA /IFCS/ UFRJ) Elizabeth Costa (CNFCP/ IPHAN) Luiz Felipe Ferreira (PPGARTES/ UERJ) Ricardo Lima (CNFCP/ IPHAN) Seminário Circuitos da Cultura Popular (1 a 3 de setembro de 2010) Coordenação geral Núcleo de Estudos Ritual e Sociabilidades Urbanas (RISU) Departamento de Antropologia Cultural Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia Instituto de Filosofia e Ciências Sociais Universidade Federal do Rio de Janeiro Organização Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti ( PPGSA/ IFCS/ UFRJ) Renata de Sá Gonçalves( Departamento de Antropologia/ UFF) Assistente de Pesquisa Ricardo José Barbieri Programação visual Renata de Sá Gonçalves Participação Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/ IFCS/ UFRJ) Programa de Pós Graduação em Artes (PPGARTES/ UERJ) Setor de Pesquisas do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/ IPHAN/ MinC) Apoio Edital Pró-Cultura CAPES/MinC

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Seminário Circuitos da Cultura Popular/ Maria Laura Cavalcanti, Renata de Sá Gonçalves (organizadoras). -- Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2010. 586 p. Trabalhos apresentados no Seminário Circuitos da Cultura Popular realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro no período de 1 a 3 de setembro de 2010. ISBN 978-85-87124-05-0 1. Arte. 2. Carnaval. 3. Cultura Popular 4. Cavalcanti, Maria Laura. 5. Gonçalves, Renata de Sá. I. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. CDD : 394.25

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O ACADÊMICOS DO DENDÊ E A ILHA DO GOVERNADOR/RJ: COMPETIÇÃO E COLABORAÇÃO ENTRE AS ESCOLAS “INSULANAS” Ricardo José Barbieri . Mestre. PPGSA/IFCS/UFRJ 1 - Nosso ponto de partida: “a alma encantadora dos barracões” Sempre tive atração pelo funcionamento de aspectos dos bastidores do desfile, especialmente pelo barracão de escola de samba, tanto que fiz do barracão e do processo de transferência e ocupação de galpões na Cidade do Samba objeto de pesquisa (Barbieri, 2009). Tal qual João do Rio, seduzido pelos personagens, pelos aspectos e tudo mais que encantava nas ruas, segui percorrendo barracões nos dias que antecediam o carnaval, como que buscando a sensação de já estar vivendo a festa e hipnotizado pela potência dos principais objetos rituais das escolas de samba (cavalcanti, 2001). Assim, um impulso natural me levou a tomar o barracão do Acadêmicos do Dendê como ponto de partida para estudar as redes de relações sociais desenvolvidas pelos componentes da escola, através do universo das escolas de samba. A importância do barracão de escola de samba como espaço de mediação e da própria alegoria como mediadora simbólica dentro do desfile, emerge com maior força em diversos trabalhos. No entanto, acredito que o caráter revelador fica por conta do seu papel como espaço de mediação sóciocultural, como frisou Cavalcanti (2006; pp.17). Assim, diferente do espaço da quadra, revelador de certo âmbito intimista da escola de samba, o barracão tem um caráter mais aberto aos seus componentes espalhados pelo Rio de Janeiro110. Já na quadra localizada próxima a sua comunidade fundadora atividades de caráter mais intimo são realizadas, como ensaios técnicos (onde apenas os componentes da escola são convidados a comparecer, ainda que os portões estejam abertos a todos os interessados), as festas dos segmentos da 110

Fato que é exacerbado com as passarelas que permitem visualizar a preparação de todas as escolas na Cidade do Samba.

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escola e os chamados ensaios show111, estes sim de caráter um pouco mais aberto que os demais eventos. A localização da quadra de certa forma é determinante, pois, especialmente em contextos de negociação, a quadra ganha uma natureza diferente do barracão. É de fato um espaço exclusivo da escola e do lugar ao qual ela está ligada. O barracão localiza-se próximo ao centro da cidade ou da região em que as escolas desfilam. Geralmente são galpões adaptados e de caráter provisório112. Porém, se o barracão é de fácil acesso geograficamente, o mesmo não se pode dizer do acesso físico. São locais onde as escolas mantêm seus segredos, suas surpresas, as alegorias que serão reveladas apenas na avenida. O fato de diversos barracões localizarem-se próximos aos de outras escolas e próximos dos locais de desfile faz com que sejam espaços de ampla circulação de componentes de escolas de diferentes regiões da cidade que trocam entre si desde elementos alegóricos até os materiais mais básicos para a construção dos desfiles. Como outro elemento revelador da importância do barracão, que se observa especialmente no caso do Acadêmicos do Dendê, uma escola da 4ª divisão do carnaval carioca, onde temos o fato de que evidencia-se nesse contexto o empenho da escola em posicionar-se singularmente dentro da hierarquia competitivo-carnavalesca, em contraponto com as escolas da 1ª divisão. O contexto dos barracões de escolas de samba apresenta hoje uma nítida diferenciação, traçada especialmente a partir da construção da Cidade do Samba. Desde o barracão, podemos perceber com clareza o Dendê como escola que ocupa não apenas posição de valor substancial para a cidade do Rio de Janeiro, mas, especialmente dentro da Ilha do Governador, como escola que tem que construir seu carnaval em um espaço que contrasta muito com os espaços cedidos às escolas componentes da 1ª divisão. 111

Os “ensaios show” são apresentações da maior parte dos segmentos da escola de samba em grandes festas realizadas em sua quadra ou outros espaços voltadas para o público externo. Para maiores detalhes ver Toji;op.cit. 112

Mesmo na Cidade do Samba, construída especificamente para a preparação do carnaval das escolas de samba, a ocupação tem caráter provisório já que a última colocada na competição do Grupo Especial, a 1ª divisão, abandona o complexo cedendo seu barracão para a escola campeã do Grupo de Acesso A, a 2ª divisão (Barbieri; 2008).

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Posto isso iniciei uma busca das origens e a construção de uma história da agremiação, através do registro oral de alguns dos seus componentes. A tentativa de construção da história pela oralidade se mostra profícua em diversos estudos e tem na antropologia um de seus principais aliados. Buscava a construção mais profunda no sentido metodológico onde “fazer história oral significa, portanto, produzir conhecimentos históricos, científicos e não simplesmente fazer um relato ordenado da vida e da experiência dos outros” (Lozano;2006: pp20). Por serem os depoimentos orais baseados em uma experiência subjetiva, um cuidado necessário foi ficar atento à seletividade dessa memória. Além disso, o contexto específico em que estão inseridos os depoimentos orais são de profunda relevância na construção da memória, especificamente, do Acadêmicos do Dendê (Cruikchank, 2009). Nesse processo, questões como a construção da biografia e da trajetória individual dentro do contexto da metrópole fizeram parte das minhas indagações no campo (Velho, 2003). Motivado ainda mais pelo convite do então presidente do Acadêmicos do Dendê, Macalé, para integrar o departamento cultural da escola, responsável pelo acervo histórico da escola, promovi encontros com integrantes do Dendê que estivessem dispostos a contar um pouco dessa história. Curiosamente, a maioria das pessoas indicava o próprio Macalé ou o antigo diretor de harmonia, Valdo, como as pessoas mais indicadas para contar a história da escola. Procurei esses mesmos componentes; após ouvi-los os relatos dos dois guardiões da memória do grupo foram em grande parte confirmados. Nessas conversas e entrevistas, sempre mantinha em mente o objetivo de enquadrar o Acadêmicos do Dendê dentro de uma posição relativa às outras escolas e aos moradores da Ilha do Governador. Iniciei meu trabalho de campo tentando contextualizar a posição da escola dentro de uma distribuição das relações sociais, através de redes tramadas na Ilha do Governador. As questões sobre a natureza e a motivação dessas redes foram as mais diversas possíveis. Deparei-me com aspectos que iam desde a formação de alianças políticas, no sentido de fortalecer o bairro frente à cidade como um todo e elevar sua posição simbólica dentro do contexto do já enunciado “mundo do samba”, até as simples trocas de materiais entre as escolas com os barracões vizinhos, além de afinidades pessoais existentes entre os diferentes componentes. O papel desses agentes 241


mediadores, unificados por interesses múltiplos e não necessariamente estáveis, aparece com força neste trabalho reforçando a complexidade sociológica das escolas de samba, mesmo em sua escala elementar. O caso do Dendê é especialmente singular em razão de sua posição frente às outras duas escolas do bairro. É comum encontrar pessoas surpresas pelo fato da Ilha do Governador ter três escolas de samba, assim como surpreende número ainda maior em outros bairros e regiões do Rio de Janeiro. O caráter e o papel de cada uma delas dentro da vida da região é revelador. Interessante notar, por exemplo, desde relações neutras respeitando particuladades da mesma enquanto região do Complexo do Alemão, onde o múltiplo pertencimento como observaremos é similar em alguns casos à Ilha do Governador. Durante etapa da pesquisa realizada no Boi da Ilha conheci um componente que visitava frequentemente o Boi apresentando-se como Intérprete do Paraíso da Alvorada, ritmista da Mocidade Independente de Inhaúma e compositor do Boêmios de Inhaúma. As três escolas vivem a paradoxal realidade da convivência na base da hierarquia-competitiva do carnaval carioca, a 6ª divisão. Simultaneamente, trata-se de uma relação conflitiva onde uma escola pretende superar a outra em busca de uma dupla hegemonia: no carnaval carioca e no bairro. Já na cidade de Niterói a situação se complexifica mais ainda. As três escolas da cidade (Unidos do Viradouro, Acadêmicos do Cubango e Acadêmicos do Sossego) mantém um discurso que a todo momento estimula e ritualiza a rivalidade, deixando claro que o espaço para a negociação é escasso. Ainda assim, cumprem uma agenda de relações amistosas também ritualizadas no universo das escolas de samba. Em parte tal diferença entre os contextos apresentados e a serem apresentados neste trabalho decorre da herança conflitiva da disputa interna recorrente do carnaval de Niterói, disputado principalemnete pelas três escolas citadas. Transferida e atualizada no contexto do carnaval carioca a diferença é reelaborada. Considerando essas relações, verificamos a importância desse trabalho até mesmo para posicionar os habitantes da Ilha do Governador frente à cidade do Rio de Janeiro. Encontrar o “lugar” simbólico da Ilha do Governador dentro do contexto da metrópole será um dos objetivos norteadores deste trabalho.

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2 – O Acadêmicos do Dendê na Ilha do Governador O lugar do Acadêmicos do Dendê na Ilha do Governador bem como suas relações com escolas mais antigas da Ilha, como União da Ilha e Boi da Ilha, que contam com maior status dentro da hierarquia das escolas de samba na cidade, é tema relevante de investigação. No carnaval pesquisado carnaval 2009 - a União da Ilha disputou uma das vagas para a elite do carnaval carioca no Grupo de Acesso A, a 2ª divisão entre as escolas de samba; já o Boi da Ilha desfilou na terça-feira de carnaval no Grupo Rio de Janeiro 1, a 3ª divisão. Enquanto isso, o Acadêmicos do Dendê – como integrante do Grupo Rio de Janeiro 2, a 4ª divisão - disputava o direito de retornar à Marquês de Sapucaí, uma posição, como vimos, de alto valor entre as escolas e que marca uma importante ruptura na hierarquia ritual. O estudo da metrópole, principalmente em seus aspectos simbólicos, passa usualmente pelo estudo de dimensões geograficamente reduzidas de seu território. Um exemplo é o estudo de Graça Cordeiro e Antônio Costa (1999) sobre a festa anual dos santos populares em Portugal. Neste caso, trata-se de uma festa em que a esfera pública financia, em parceria com associações locais, os “arraiais” que enfeitam as ruas de um bairro e as “marchas populares” que concorrem entre si num desfile ritualizado. Dessa forma, consolida-se uma imagem de cidade polarizada em torno de “pequenos núcleos vivenciais, olhados habitualmente como microcosmos residuais de vida comunitária” (CORDEIRO & COSTA:1999;pp.58). No que diz respeito à forma de financiamento e à parceria firmada para sua organização, a forma de celebração assemelha-se à forma de organização do carnaval carioca. Prosseguindo, vemos como as semelhanças nos levam a vislumbrar na análise de sua relação com esses chamados “microcosmos residuais da vida comunitária” um caminho a ser seguido. Os bairros populares são apontados como “representações que integram a própria realidade social da cidade, que os instituiu como um de seus bens patrimoniais mais preciosos” (CORDEIRO & COSTA:op.cit.;PP.59). No caso dos bairros populares de Lisboa, estes surgem como lugares reais e imaginados, onde a ação ou a dominação simbólica apresentam-se de forma paradoxal no processo de construção identitária (idem pp.62). 243


Outra forma interessante para investigar a relação da escola e de seus integrantes com o bairro é através da categoria “pedaço” já utilizada por José Guilherme Magnani(2003). Nesse livro, Magnani trabalha com o conceito de “pedaço” como parte de uma família de categorias terminológicas que inclui ainda “mancha”, “circuito”, “trajeto” e “pórtico” (MAGNANI:2002)113. O objeto da pesquisa em questão era principalmente o lazer na periferia de São Paulo, com foco no circo como forma de expressão da cultura popular atraente no contexto dos bairros de periferia. A entrada e circulação dos circos pelos bairros envolvia um contexto de negociação e movimentação entre diferentes redes de relações, que tinham uma determinada ordem e estavam sujeitos a um determinado controle social baseado na oposição “vizinhança/fora da vizinhança". O pedaço era um espaço “intermediário entre o privado e o público onde se desenvolve uma sociabilidade básica mais ampla que a dos laços familiares” (MAGNANI, 1998, pp. 116). Inicialmente, podemos encontrar dificuldades em definir qual seria o “pedaço” do Dendê na Ilha do Governador. Seria o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador, do morro do Dendê ou da Ilha do Governador? Para tanto, vamos procurar definir a Ilha do Governador e as representações coletivas a ela associadas. Apesar de todo o orgulho dos seus moradores, que se definem como “insulanos”, a Ilha do Governador deixou de ser um bairro há muito tempo, para ser mais exato, desde 1981, quando o decreto do prefeito Julio Coutinho dividiu a Ilha em seus atuais dezessete bairros114. Até a década de 1960, por ter apenas uma saída, a região era pouco povoada e vista como balneário para as camadas médias cariocas (IPANEMA:1991). Atualmente, a Ilha do Governador é densamente povoada115. Boa parte do acelerado desenvolvimento se deu a partir da 113

Agregando mais conceitos à referida “família terminologia” pelo próprio Magnani temos a categoria “mancha” descrevendo “áreas contíguas do espaço urbano que marcam seus limites e viabilizam uma atividade ou prática predominante”; temos também os “trajetos” descritos como “fluxos recorrentes no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas”; finalmente temos os “pórticos” que segundo o autor são “espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram passagens” (Magnani, De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana, 2002) 114 Os bairros atuais da Ilha do Governador são Bancários, Cocotá, Cacuia, Dendê, Freguesia, Galeão, Jardim Carioca, Jardim Guanabara, Guarabu, Moneró, Pitangueiras, Portuguesa, Praia da Bandeira, Ribeira, Tauá, Tubiacanga, Zumbi. 115 Aproximadamente 250 mil habitantes em 33,53 quilômetros quadrados. Ver “Censo Demográfico 2000”

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inauguração da chamada Ponte Velha do Galeão, em 1949, que a ligou ao continente. Logo depois da inauguração, instalações militares chegaram à Ilha do Governador116, assim como grandes empresas como foi o caso da Petrobrás, Exxon Mobil e da Shell, ainda hoje instaladas na região. Porém, para a consolidação desse processo, foi decisiva a transformação do Aeroporto para receber vôos internacionais, em 1977 (IPANEMA:1991). Com tudo isso, a Ilha do Governador, até então socialmente homogênea, passou a conviver com a heterogeneidade característica das metrópoles. Hoje, seus diferentes bairros apresentam características diferentes, apesar de a Ilha em si ser enxergada por seus moradores como um todo, definindo-se como “insulanos” perante a cidade do Rio de Janeiro (“lá fora”): “Quando eu falo lá fora que moro na Ilha as pessoas acham que mora bem. Eu acho agradável dizer que moro na Ilha. È melhor do que dizer que moro em Caxias, por exemplo.” (Morador do Bananal) “Sempre fui apaixonado pela Ilha (...) A Ilha sempre foi um bairro muito valorizado no Rio de Janeiro. A Ilha é uma comunidade com vários bairros que estão em uma Ilha mas isso não ficava muito claro para mim, só comecei a ter essa visão com meus 20 e poucos anos apesar de ter morado aqui desde pequeno.(...) Assim como eu vou à Niterói e vejo que o morador de lá tem um jeito diferente, também acho que a Ilha tem essa característica. Reconhecer um insulano quando você está fora da Ilha é fácil. Quem mora na Ilha é provinciano, é apegado à Ilha, tem orgulho de morar na Ilha, valoriza o bairro. É igual cidade pequena, tudo que você faz na Ilha do Governador as pessoas sabem. Sempre você encontra as pessoas no Shopping, nas escolas de samba, nos bares.” (Morador do Jardim Guanabara) “Na Ilha é todo mundo insulano, por isso Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador” (Morador do Dendê).

Atualmente são as quase quarenta favelas distribuídas nos dezesseis bairros da Ilha do Governador. A maior delas é o complexo do Dendê, no bairro de mesmo nome. Por ser a maior favela, ela tornou-se símbolo para os insulanos de todo um imaginário relacionado às favelas que as associa à pobreza e à criminalidade. Aqui a noção de “regiões morais” proposta por Robert Park em seus estudos de “ecologia humana” revela-se útil. Park, um dos integrantes da chamada “Escola de Chicago” com contribuições definitivas para os estudos das metrópoles, enxergava na vida dos homens nas cidades a 116

Base Aérea do Galeão, os quartéis dos Fuzileiros Navais e a Estação de Rádio da Marinha.

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busca de “organizar-se de acordo com seus gostos e temperamentos”. Uma região moral encarada de acordo com a perspectiva assim proposta “permite ao individuo purgar de impulsos selvagens e reprimidos por meio de expressão simbólica’ (Park, 1979: pp.66). A proliferação de favelas levou a um conseqüente temor dos insulanos em relação a elas, considerando-as lugar onde a pobreza deu lugar a associação com a criminalidade. Temos assim uma região proibida que se afasta da utilização econômica ou social. Os mesmos moradores que tecem loas ao se referirem à Ilha tratam as favelas da região como “um problema, um aspecto negativo” da Ilha do Governador: “A favela se torna perigosa porque a vagabundagem se mistura entre as famílias que moram lá e torna as favelas perigosas.(...) Antigamente era simplesmente moradia de pobre, hoje mudou muito.(...)O morro do Dendê é muito grande e tem várias saídas, então a polícia tem muita dificuldade para pegar alguém que se esconda no Morro do Dendê.(...)Então se torna muito perigoso.” (Morador do Bananal) “Não sei como solucionar a questão das favelas, mas as pessoas tem direito a moradia e a viver com dignidade.(...)Aqui na Ilha estamos familiarizados com o Morro do Dendê ou o Morro do Boggie-Woggie, conhecemos as pessoas que moram ali. E nós sabemos que a grande maioria são pessoas de bem.(...) Um grupo de pessoas do mal transforma aqueles ambientes em ambientes terríveis. Aqui no Morro do Dendê houve vários líderes do tráfico, houve alguns muito violentos e outros mais pacíficos que conduziam seus negócios sem oferecer tantos riscos aos moradores” (Morador do Jardim Guanabara) “Agora o Morro tá tranqüilo. Muito tempo não tem guerra, mas não dá para ficar tranqüilo. A gente tem que saber qual o contexto. Se souber não acontece nada, sempre foi assim.(...) É porque quem vem de fora não sabe qual o contexto, aí acha perigoso.(...) Mas já foi melhor.” (Morador do Dendê)

Esses fatores entram em jogo quando temos como aspecto primordial sua identificação como espaço de venda de drogas e a escola de samba associada à expressão simbólica desse tipo de movimento por uma série de fatores dentre eles e talvez o principal, o mecenato. Ocupando uma área de mais de 230 mil metros quadrados, atualmente e com população de cerca de 9900 moradores ocupando 2704 domicílios117, o morro do Dendê é o ponto mais alto da Ilha do Governador. Ocupando a maior parte do Jardim Carioca, esse morro tem saídas ainda para os bairros do Tauá, 117

Dados do último censo demográfico do IBGE em 2000.

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Cocotá e Cacuia. A ocupação do local iniciou-se em 1940, segundo dados do Instituto Pereira Passos. Os primeiros moradores vindos do Nordeste desembarcaram na Ilha ainda de barca, o único meio de transporte que ligava a Ilha com o resto da cidade. No local, encontraram uma plantação de Dendê que acabou dando nome à comunidade. A ocupação começou pela parte mais alta do morro, atualmente conhecida como Centro. Durante muitos anos proprietários ameaçaram os moradores de remoção, que de fato nunca foi concretizada. Boa parte dessa resistência era ligada a um líder comunitário do início da década de 60, chamado Antônio Bananeira. Foi o mesmo Antônio Bananeira o fundador da Associação de Moradores do morro, em 1961. Procurando entender essa relação através da geografia do bairro, vemos que este complexo localiza-se entre a região próxima da quadra da União da Ilha, localizada no bairro do Cacuia, e a antiga quadra do Boi da Ilha do Governador, localizada na Freguesia. Tal proximidade física entre as três escolas suscita naturalmente uma série de interseções e uma ampla gama de pertencimentos múltiplos dos componentes das três escolas como veremos a seguir. 3 - As interseções entre as escolas da Ilha: o pertencimento e a disputa festiva As relações entre as escolas da Ilha do Governador têm importância vital para o seu desempenho dentro do regime competitivo carnavalesco. Neste ponto, passamos a uma importante reflexão a ser feita ao analisarmos o universo das escolas de samba: a relação entre “co-irmãs”. Como indicou Cavalcanti (2006), as escolas de samba costumam simultaneamente associar-se e rivalizar. Por participarem do mesmo regime de disputa que as organiza em uma mesma hierarquia competitiva, ainda que em grupos diferentes, todas são rivais na mesma competição. Além de competição, trata-se de uma festa em que as escolas compartilham de interesses comuns e organizam-se de modo a realizar com sucesso seus desfiles. Atualmente, uma das manifestações dessa dimensão associativa da vida das escolas de samba pode ser percebida na ocupação da Cidade do Samba, com a cessão de antigos barracões entre as escolas, na troca de adereços, 247


fantasias e esculturas entre as escolas e nas visitas às quadras mais diversas em toda a região metropolitana (FERREIRA:2004). No Ensaio sobre a Dádiva, Marcel Mauss explicita um sistema de prestações e contraprestações obrigatórias, sob pena de guerra privada ou pública. Esse tipo de troca é nomeado e definido pelo autor como “sistema de prestações totais de tipo agonístico”. Essas trocas expressam uma ampla gama de instituições (religiosas, jurídicas, morais, econômicas e outras) e níveis distintos da realidade, o que permite tomá-las como fenômenos sociais totais. Elas envolvem também diferentes formas de vinculação social – da colaboração à competição, fortes rivalidades e hierarquias (MAUSS, 1978). Como já apontou Cavalcanti (2006), essas considerações de Marcel Mauss, posto que vão muito além apenas do desfile carnavalesco, são bastante relevantes para iluminar as relações desenvolvidas pelas escolas de samba no decorrer do processo de preparação para o ritual competitivo que é o desfile. A rivalidade e o antagonismo perpassam estas práticas e, simultaneamente, outros elementos como a colaboração e o apadrinhamento podem ser observados na preparação para os desfiles. Quando percorrermos a história do Dendê, veremos esse tipo de relação, a um só tempo de rivalidade e de colaboração, sempre em evidência em toda sua trajetória. Uma forma interessante para desenvolver esse aspecto da festa carnavalesca seria trabalhar com o conceito de situação social, já proposto por Gluckman (1958), entendido como “o comportamento em algumas ocasiões de indivíduos como membros de uma comunidade é analisado e comparado com seu comportamento em outras ocasiões”. Existem diversas ocasiões na preparação do carnaval do Dendê, e até mesmo após essa preparação, que podem ser isoladas e estudadas a partir de um enfoque sobre suas redes de relações sociais. A experiência no carnaval do Dendê tornou ainda mais claro que boa parte dessa rede tem importância substancial no que diz respeito ao relacionamento entre as escolas da Ilha do Governador e entre as escolas vizinhas ao seu barracão. Para tanto é necessário retomar as noções de rede elaboradas por Elizabeth Bott (1976) e Clyde Mitchell (1969). Para entender melhor o papel de cada uma das escolas de samba da Ilha do Governador passemos, então, ao breve histórico de cada uma delas. Assim, a

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partir da feitura do carnaval do Dendê me deparei com a complexidade dos relacionamentos entre as escolas da Ilha. Começarei pela principal escola de samba, aquela de onde surgiriam as demais escolas do bairro: a União da Ilha do Governador. Aqui temos um componente importante ligado ao fenômeno da chamada “identidade englobante”, ligada neste caso à União da Ilha do Governador, que justifica minha escolha enquanto ponto de partida para a análise das relações desenvolvidas entre as escolas insulanas. No caso do Dendê vemos um processo identitário sendo construído, de modo similar ao que Fredrik Barth apresentou logo no inicio do capítulo sobre os agricultores noruegueses: “(...)a participação e auto-avaliação desses agricultores no que diz respeito aos valores noruegueses mais gerais assegura um pertencimento contínuo ao grupo étnico mais amplo, apesar dos padrões de atividade extremamente específicos e desviantes que a ecologia local lhes impõe.” (Barth, 2000: pp31)

O autor prossegue demonstrando de forma clara o ponto ao qual queremos chegar na comparação dos dois fenômenos enquadrados dentro deste caso do Acadêmicos do Dendê. Trata-se dos casos de contato e mudanças culturais que Barth indica como “fenômeno muito generalizado conforme a dependência dos produtos e instituições da sociedade industrial se espalha pelo mundo” (Barth, 2000:pp.59). Assim, dentre as principais estratégias adotadas por grupos interconectados que participam em diferentes sistemas sociais mais amplos temos: a) a tentativa de passar para a sociedade e o grupo cultural industrial previamente estabelecido; b)aceitar o status de minoria e tentar estabelecer-se dessa forma ou c) reforçar a identidade étnica usando-a para estabelecer novos padrões (Barth, 2000). O que tentarei demonstrar é resultado da adaptação a primeira estratégia onde, conforme Barth demonstra, os “inovadores” optam por enfatizar caracteristicas que os aproximam de uma identidade primária potencialmente adequada para servir de referencial para o grupo. No contexto do Acadêmicos do Dendê, muitas das pessoas que compõem essa escola de samba participam também das duas outras escolas da Ilha do Governador. Esse fato é recorrente. O interessante foi observar que muitas dessas pessoas, ao falarem sobre suas adesões e associações, 249


recorrem à “identidade primária” ou “englobante”, ou seja, a seu pertencimento à escola de samba União da Ilha do Governador. Ainda que em eventos dentro dessa escola de samba - a União da Ilha, ou em eventos que colocavam em contato escolas que ocupam faixas parecidas na estrutura hierárquica do carnaval - o Dendê fosse representado por esses mesmos componentes, que eram nesse contexto relacional “Acadêmicos do Dendê” ou “sou Dendê”. Confrontados por membros ou torcedores de escolas maiores de fora da Ilha, entretanto, esses mesmos componentes recorriam à “identidade primária” na maior parte dos casos e tornavam-se “Ilha” ou “União”. Portanto, mesmo nos casos em que o componente do Acadêmicos do Dendê é “Dendê” e não “União”, ele carrega caracterésticas e traços que o identifica também com a “União”. Referências Bibliográficas ARAÚJO, Eugênio. Valorizando a batucada: um estudo sobre as escolas de samba dos Grupos de Acesso C, D e E do Rio de Janeiro. São Luís: Tese de Doutoramento apresentada ao Programa de Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro . 2008 BANDUCCI, Álvaro., & BARRETO, M. Turismo e Identidade Local: uma visão antrpológica. Rio de Janeiro: Papirus Editora. 2005. BARBIERI, Ricardo. J. Cidade do Samba: Do barracão de escola às fábricas de carnaval. In: M. L. Cavalcanti, & R. S. Gonçalves, Carnaval em Multiplos Planos (pp. 125-144). Rio de Janeiro: Aeroplano. 2008. ___________.

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