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Percepções sobre os desfiles dos blocos de enredo do Rio de Janeiro

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Revista Tecnologia & Cultura - Rio de Janeiro - N. 21, V.15 - jan./jun. 2013 - p. 07-16

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Tecnologia & Gestão Antonio Pithon (Editor - Cefet/RJ) Antônio Mauricio Castanheira das Neves (Cefet/RJ) José Dinis Carvalho (Universidade do Minho - Portugal) José Luiz Fernandes (Cefet/RJ) Luis Enrique Valdiviezo Vieira (Uenf) Marcelo Fonseca Monteiro de Sena (IFRJ) Rui Manoel Souza (Universidade do Minho - Portugal)

Ministério da Educação - MEC Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica - SETEC CEFET/RJ - CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA CELSO SUCKOW DA FONSECA TECNOLOGIA & CULTURA - Revista do Cefet/RJ N.25, Ano 17 - jan./jul. 2015 Tiragem: 300 exemplares Edição eletrônica: acesso em http://revistas.cefet-rj.br/ Av. Maracanã, 229 - Rio de Janeiro/RJ CEP 20271-110 Telefone geral: (21) 2566-3022 r. 3160 Telefax: (21) 2284-6021 http://www.cefet-rj.br E-mail: revista@cefet-rj.br

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Conselho Editorial: Adelaide Maria de Souza Antunes (UFRJ/INPI) Cristina Gomes de Souza (Cefet/RJ) Luiz Flávio Autran Monteiro Gomes (Ibmec/RJ) Maria Lucia Alvares Maciel (UFRJ/SBPC/IBICT) Pedro Manuel Calas Lopes Pacheco (Cefet/RJ) Comitê Técnico-Científico: Tecnologia & Sociedade Marco Braga (Cefet/RJ) Ana Margarida Campello (Fiocruz) Carlos Fiolhais (Universidade de Coimbra - Portugal) Gaudêncio Frigotto (UFF) Guilherme Cordeiro da Graça de Oliveira (UFRJ) Heloisa Helena Albuquerque Borges Quaresma Gonçalves (UNIRIO) Isabel Malaquias (Universidade de Aveiro - Portugal) Marisa Brandão (Cefet/RJ) Olival Freire Junior (UFBA) Pedro Henrique Ribeiro de Souza (Cefet/RJ) Regina Viegas (Cefet/RJ)

Tecnologia & Cultura. _ Nº 25, Ano 17 (jan./jul. 2015) Rio de Janeiro : Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, 2015. v. : il.; 28 cms. Semestral ISSN 1414-8498 I. Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca

ISSN 1414-8498

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Percepções sobre os desfiles dos blocos de enredo do Rio de Janeiro Júlio César Valente Ferreira

RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo mostrar as características e percepções do público sobre os desfiles dos blocos de enredo no Rio de Janeiro. Os dados foram obtidos a partir da aplicação de questionários nos locais de desfile e mostram os blocos de enredo como força viva do carnaval carioca, com desfiles realizados em vários pontos da cidade e reunindo expressivo contingente de foliões. Palavras-chave: Blocos de enredo. Carnaval. Rio de Janeiro.

ABSTRACT: This paper aims to show the characteristics and audience perceptions about the parades of the blocos de enredo of Rio de Janeiro. Data were obtained from questionnaires in the parade of places and show the blocos de enredo as a living force of the Rio carnival, with parades held in several parts of the city and gathering expressive revelers quota. Keywords: Blocos de enredo. Carnival. Rio de Janeiro.

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INTRODUÇÃO O carnaval da cidade do Rio de Janeiro não se resume aos desfiles das grandes escolas de samba. DaMatta (1997) constatou que muitos outros grupos (na época da primeira edição da publicação) compartilhavam o espaço carnavalesco. Destes, o único grupo diferente das escolas de samba que mantém na atualidade seu aspecto de competição é o relativo aos blocos de enredo. Atualmente, os blocos que desfilam na cidade do Rio de Janeiro são de três tipos. Os blocos de rua desfilam no formato de procissão, sem o uso de fantasia obrigatória e sem necessariamente estarem filiados a ligas, associações ou federações de qualquer natureza. Os blocos de embalo (também conhecidos como blocos de empolgação) desfilam no formato de parada, sem alegorias ou enredos, mas com todas as fantasias iguais. Os blocos de enredo possuem estrutura competitiva e estética semelhante às escolas de samba, desfilando, portanto, no formato de parada. Sobre os blocos, generalizando suas considerações para todos os tipos dessa manifestação, DaMatta (1997) pontua a questão que consideramos a mais importante na demarcação de suas identidades em oposição àquelas associadas às escolas de samba. O fato de estarem organizados de modo muito mais simples do que as escolas faz com os blocos acreditem que as escolas “não são mais obedientes à tradição carnavalesca”, estão “miscigenadas” (isto é, cheias de gente de fora: de outros bairros e segmentos sociais) [...] Enquanto as escolas representam esses aspectos, os blocos seriam expressões de valores carnavalescos muito mais puros, voltados [...] para a ritualização da solidariedade dos bairros de onde provêm. Desse modo, os blocos se colocam como reforçadores do bairrismo e da vizinhança, fenômenos que tendemos a tomar como irrelevantes na nossa apreciação do mundo urbano moderno. [...] Na visão dos participantes dos blocos, as escolas seriam muito mais universalistas e voltadas para fora, enquanto eles seriam o oposto: particularistas e voltados para a tradição e para o bairro. (DAMATTA, 1997, p. 128129, grifo nosso)

“Os blocos são a explosão mais espontânea do carnaval carioca. Em geral um bloco nasce da decisão de vizinhos da mesma rua e do mesmo bairro.” (COSTA, 2001, p. 175). Na década de 1950, constatou-se o desaparecimento quase completo dos grandes blocos (muitos desses tornaram-se, ao longo das duas décadas anteriores, escolas de samba), somente restando pequenos grupos (VALENÇA, 1996). Essa manifestação carnavalesca, somente na década pos-

terior, iniciou o processo de retomada na participação no carnaval carioca a partir da fórmula da oficialização, implementada com sucesso pelas escolas de samba nos anos 1930. Desde 1965, os blocos que participam de desfiles competitivos reúnem-se na Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FBCERJ). Antes de existirem como escolas de samba, muitas agremiações existiram como blocos de enredo. A força de penetração dessas entidades carnavalescas persiste em muitos locais, mesmo onde já existam escolas de samba. “Os blocos carnavalescos [de enredo], subdivididos em diversos grupos, contribuem para o engrandecimento do carnaval carioca, passando a desfilar nos subúrbios, oferecendo ao público novas alternativas do carnaval.” (RIOTUR, 1991, p. 99). Apesar da importância dos blocos de enredo para o carnaval do Rio de Janeiro, sendo força viva do carnaval carioca com desfiles realizados em vários pontos da cidade e reunindo expressivo contingente de foliões, não existem dados sobre a percepção do público sobre esse tipo de manifestação. Desta forma, no intuito de constituir uma base inicial de dados que possa auxiliar o poder público e a FBCERJ no planejamento e execução dos desfiles dos blocos de enredo, projetou-se a pesquisa descrita neste trabalho.

Referencial Teórico Ferreira (2014) atesta que os poucos trabalhos os quais citam os blocos de enredo do Rio de Janeiro pouco aprofundam as questões relativas a esta manifestação carnavalesca. Basicamente, encontram-se breves referências sobre o fato de existirem e o paralelismo estético e musical desses em relação às escolas de samba. O material mais extenso sobre esse assunto é encontrado em Riotur (1991), no qual se encontram informações sobre os locais de desfiles, resultados dos concursos e nomes, endereços, datas de fundação e cores das agremiações. Mesmo em trabalhos específicos direcionados aos blocos, não há menção aos blocos de enredo (FERREIRA, 2014). Entendendo que há uma construção de identidade que caracteriza essa manifestação carnavalesca, Valença (1996) e Barbieri (2013) pontuam: Em 1965 se tornam oficiais e se organizam em duas categorias: de enredo e de empolgação. Os primeiros têm estrutura muito próxima à das escolas de samba, enquanto que os de empolgação,

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mais simples, sem alegorias ou enredos e com todas as fantasias iguais, lembram os espontâneos blocos de rua. (VALENÇA, 1996, p. 41-42, grifo nosso) O que caracteriza esse tipo de manifestação carnavalesca e a diferencia dos conhecidos Blocos de Embalo ou Blocos de Sujo é a estrutura competitiva semelhante àquela das escolas de samba. O porte dessas agremiações é bem reduzido, quando comparado às escolas de samba, e a diferença de importância de alguns quesitos as diferenciam das escolas de samba. (BARBIERI, 2013, p. 40, grifo nosso)

Em matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 8 de fevereiro de 1978, e transcrita por Pereira (2003), o então presidente da Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro, Mário Silva, explicava a diferença entre blocos de empolgação e blocos de enredo: O que há é o seguinte: chamava-se embalo, mas com esse nome dava a impressão de que estava todo mundo embalado, no sentido negativo do termo, nós da Federação criamos o nome de empolgação. São blocos sem enredo, mais autênticos, de samba livre. Agora, embora livres, eles devem obedecer a uma norma reguladora, que é para não haver indisciplina. Bloco de enredo já é diferente: são blocos, como o próprio nome diz, com enredo. Já têm uma organização semelhante à escola de samba, mas não são pequenas escolas de samba. (PEREIRA, 2003, p. 68, grifo nosso)

Essa forma de identificar os blocos de enredo é ratificada pelos membros da atual diretoria da FBCERJ. Ao serem solicitados para definirem os blocos de enredo, os membros da diretoria da federação identificam os blocos de enredo como a escola para uma escola de samba (FERREIRA, 2014). Essa fala posiciona os blocos de enredo como locais privilegiados de formação das escolas de samba, sem estabelecer qualquer tipo de hierarquização de importância no carnaval carioca. Muitas escolas de samba que desfilam atualmente surgiram a partir de blocos de enredo. Entretanto, cabe ressaltar que alguns blocos de enredo tradicionais não se transformaram em escolas de samba, como o Bloco do Barriga e o Bloco Cometas do Bispo, fundadores da FBCERJ. Como bem salienta Valença (1996): Os blocos de enredo, quando bem organizados, acabam se transformando, com o passar do tempo, em escolas de samba [...] Outros, porém, mantêm sua condição de blocos e têm grande importância em suas comunidades [...], que fazem a alegria dos foliões alijados das escolas de samba pelo alto preço das fantasias. (VALENÇA, 1996, p. 42, grifo nosso)

Essa aproximação estética e musical dos blocos de enredo com as escolas de samba gerou um discurso de inferiorização dos mesmos. Ferreira (2014) apresenta uma série de referências bibliográficas que identificam os blocos de enredo como protótipos de escolas de samba. Além disso, há cristalizada na comunidade do samba a consideração de que uma escola de samba, quando se apresenta muito mal ou vive uma crise administrativa ou financeira, caminha para “virar bloco”. Esses discursos permitem identificar uma construção subalternizante dos blocos de enredo, pois apenas visualizam essa manifestação carnavalesca a partir de um olhar instrumentalizado pelos referenciais das escolas de samba, tanto estéticos quanto pelo fato de essas agremiações aparentemente apenas promoverem um desfile no carnaval. Sobre essa última parte do olhar instrumentalizado, Valença (1996) desenvolve uma crítica a essa abordagem, a qual se considera neste trabalho válida também para os blocos de enredo. É de grande importância a percepção de que as escolas de samba, a par de sua finalidade estritamente carnavalesca, representam para seus componentes uma forma de lazer, de reunião, de associação, de atividade comunitária que transcende sua mera participação no carnaval. Quem julgar as escolas pelo desfile que apresentam uma vez por ano, no carnaval, e que lhe vale uma classificação, corre o risco de incorrer em grave distorção. As escolas de samba tinham – e têm até hoje – uma vida própria que fervilha durante o ano inteiro e não se limita a atividades sociais, mas inclui até a política interna de cada agremiação e de suas associações. Dessa vida participavam, na origem, quase exclusivamente os membros de uma comunidade, em geral, tendo como elemento aglutinador o local de moradia. (VALENÇA, 1996, p. 57)

Com relação aos blocos de rua (terminologia atual para os blocos de sujo), a atual produção acadêmica imputa-lhes a responsabilidade pelo pseudorrenascimento do carnaval de rua a partir do período compreendido entre as décadas de 1980 e 1990 (BARROS, 2013; LEOPOLDI, 2010; SAPIA E ESTEVÃO, 2012), invisibilizando a existência e a atuação dos blocos de enredo no carnaval carioca. Esse pseudorrenascimento pode ser facilmente contestado inicialmente a partir das informações obtidas em Riotur (1991). Por exemplo, em 1987, 149 blocos de enredo e 50 blocos de empolgação desfilaram em pistas espalhadas na cidade pelos bairros das Zonas Norte, Oeste e Leopoldina, além da região central; não incluindo nesse levantamento os blocos de rua que sempre desfilaram, principalmente nas zonas suburbanas da cidade. Sobre o número de filiados

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no início da década de 1980, destaca-se a constatação feita por Zaluar (1985), que identificou, em março de 1981, 750 blocos (somados os de enredo e os de empolgação) filiados à FBCERJ. Mesmo com o decréscimo no número de blocos filiadas, merece o destaque o fato de que, hoje, a FBCERJ é a única entidade gestora de desfiles carnavalescos na cidade do Rio de Janeiro que organiza suas apresentações em três locais diferentes ao mesmo tempo. Atualmente, as escolas de samba organizam-se em três entidades gestoras diferentes; e cada uma organiza seus desfiles em apenas uma pista em mais de um dia. (FERREIRA, 2014, p. 11)

Percepção do público sobre os desfiles Conforme mostra o Quadro 1, atualmente todos os desfiles dos grupos dos blocos de enredo ocorrem no sábado de carnaval. A pesquisa contou com nove questões sobre as características do público que frequentou esses desfiles no carnaval de 2013 e suas percepções sobre esses e as agremiações em questão. Para esta pesquisa, não houve a possibilidade de se estabelecer a população e a amostra, pois não existem dados sobre a quantidade de público presente nos desfiles dos blocos de enredo. Quadro 1: Divisões hierárquicas, locais e dias de desfiles dos blocos de enredo em 2013 Grupo

Local

Bairro

Dia do desfile

Grupo 1

Avenida Rio Branco

Centro

Sábado

Grupo 2

Estrada Intendente Magalhães

Campinho

Sábado

Grupo 3

Rua Cardoso de Moraes

Bonsucesso

Sábado

Grupo 4

Rua Cardoso de Moraes

Bonsucesso

Sábado

Idade Os dados sobre a faixa etária dos entrevistados encontram-se no Quadro 3. Eles indicam uma dispersão entre as faixas etárias fora das extremidades. Dessa forma, não se pode estabelecer qualquer tipo de conclusão relacionando os desfiles de blocos de enredo com uma faixa etária específica. Quadro 3: Distribuição percentual da faixa etária do público Grupos 3 e 4 Grupo 1 Grupo 2 Até 19 anos

5,7

6,7

Entre 20 e 29 anos 26,6

14,3

30,0

Entre 30 e 39 anos 20,2

14,3

30,0

Entre 40 e 49 anos 17,7

37,1

20,0

Entre 50 e 59 anos 20,2

11,4

10,0

Entre 60 e 69 anos 12,7

14,3

3,3

Entre 70 ou mais anos

2,9

0,0

1,3

1,3

Fonte: Elaboração própria

Local de moradia do público Os Quadros 4, 5 e 6 mostram a quantidade de pessoas que responderam morar em um determinado bairro da cidade do Rio de Janeiro ou em outro município, estado ou país. Dessa forma, pretendeu-se verificar o alcance de atração desses desfiles e sua correspondência com os locais onde são realizados. Quadro 4: Local de moradia do público do desfile do Grupo 1 Local de moradia Qtd. 01

Copacabana, Vicente de Carvalho, Vaz Lobo, Cordovil, Jacaré, Benfica, Rio Comprido, Saúde, Grajaú, Alto da Boa Vista, Vila Isabel, Andaraí, Piedade, Costa Barros, Rocha Miranda, Recreio dos Bandeirantes e Vargem Grande

02

Tijuca, Laranjeiras, Barra da Tijuca, Bangu, Campo Grande, Ilha e outros países

03

Centro, Santa Teresa e Rocinha

04

Bonsucesso

05

Jacarepaguá e outros estados

25

Outros municípios

Fonte: FERREIRA, 2014

O Quadro 2 mostra a quantidade de questionários aplicados nesta pesquisa. Além da limitação temporal de os questionários poderem ser aplicados somente na noite de desfiles, outros fatores limitantes foram a iluminação insuficiente para esse tipo de trabalho das pistas de apresentação e das áreas destinadas ao público, o que obrigou os entrevistadores a lerem as perguntas e as opções de resposta, e o ruído das apresentações dos blocos de enredo, que limitava a aplicação dos questionários somente aos intervalos entre os desfiles.

Fonte: Elaboração própria

Quadro 2: Quantidade de questionários aplicados Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 79

35

30

Fonte: Elaboração própria Revista Tecnologia & Cultura - Rio de Janeiro - N. 25, Ano 17 - jan./jun. 2015 - p. 22-29

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divulgação, ainda temos um contingente (particularmente expressivo no Grupo 1) que identifica essas agremiações como blocos de enredo, que é uma terminologia muito específica e, atualmente, praticamente eliminada do vocabulário carnavalesco do Rio de Janeiro por causa da construção de discursos totalizantes que englobam somente as escolas de samba e os blocos de rua.

Quadro 5: Local de moradia do público do desfile do Grupo 2 Local de moradia Qtd. 01

Cascadura, Engenho da Rainha e Campo Grande

02

Guadalupe, Jabour, Irajá, Taquara e Méier

03

Realengo e outros municípios

04

Oswaldo Cruz

05

Madureira

07

Campinho

Fonte: Elaboração própria

Nos Grupos 1 e 2, o percentual de entrevistados que identificaram as agremiações como escolas de samba justifica-se pois a Avenida Rio Branco foi durante décadas palco de apresentação das escolas de samba, ainda povoando o imaginário popular, e a Estrada Intendente Magalhães é a atual pista de desfiles dos Grupos de Acesso B, C e D.

Quadro 6: Local de moradia do público do desfile dos Grupos 3 e 4 Local de moradia Qtd. 01

Olaria, Penha, Engenho da Rainha, Manguinhos e Del Castilho

02

Ramos e outros municípios

03

Benfica

18

Bonsucesso

Para os Grupos 1 e 2, a circularidade das pessoas por vários dias nos mesmos locais com apresentações de diferentes tipos de agremiações carnavalescas pode ser lida como justificativa para o percentual que alegou desconhecer o tipo de desfile. Para essa mesma resposta, nos Grupos 3 e 4, a própria situação de liminaridade, por serem iniciantes ou por estarem em decadência, dos blocos de enredo nesses grupos explica este desconhecimento.

Fonte: Elaboração própria

Os dados revelam que o desfile realizado na região central da cidade (Grupo 1) possui uma comunicação diferente, pois este é o local de primazia dos festejos carnavalescos, onde os discursos são potencialmente mais audíveis e reverberáveis (FERREIRA, 2008). A região central representa essa possibilidade, incluindo públicos de diversos bairros da cidade, municípios da região metropolitana e turistas brasileiros e estrangeiros, diferenciando-se completamente do público que frequenta os desfiles dos Grupos 2, 3 e 4, majoritariamente formados por moradores da própria localidade e dos bairros vizinhos.

Motivação para assistir O Quadro 8 apresenta os dados sobre a principal motivação das pessoas para assistirem os desfiles. Aqui, mais uma vez, os resultados para o Grupo 1 apresentam características diferentes em relação aos demais. Quadro 8: Distribuição percentual sobre a motivação para assistir o desfile Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4

Caracterização do desfile Nesta questão, cujos dados encontram-se postos no Quadro 7, buscou-se avaliar o nível de afinidade do público com o tipo de agremiação carnavalesca que se apresentava. Quadro 7: Distribuição percentual sobre a classificação do desfile Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 Blocos

34,2

60,0

36,7

Blocos de enredo

30,4

17,1

20,0

Blocos de embalo

6,3

2,9

0,0

Escolas de samba

12,7

11,4

0,0

8,6

43,3

Não soube responder 16,4

Já estar no local

41,8

5,7

40,0

Morar perto

10,1

77,1

60,0

Ser de graça

24,1

14,3

0,0

Torcer por alguma agremiação

24,1

2,9

0,0

Fonte: Elaboração própria

No Grupo 1, pelo fato de o desfile ser na região central da cidade, as pessoas são de outras localidades e acabam circulando mais por essa região. Por outro lado, esse grupo possui expressivo percentual de torcedores de agremiações em relação aos demais. Os blocos de enredo desta divisão hierárquica são bem estruturados, o que motiva um contingente maior de pessoas do local de origem dessas agremiações a acompanharem

Fonte: Elaboração própria

Os resultados mostram que, em todos os grupos, a maior parte dos entrevistados identifica estas agremiações como blocos. Porém, mesmo com todas as limitações no que tange à

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com mais afinco, além de levá-las a um território onde se comunicarão com pessoas de outros bairros, municípios, estados e países. No caso dos demais grupos, a questão da proximidade com o local de moradia é preponderante para o público, reforçando a tese de que esse aspecto potencializa a dispersão das celebrações carnavalescas pelos bairros da cidade do Rio de Janeiro, democratizando o acesso aos eventos momescos também em formato de parada. Tempo de acompanhamento O Quadro 9 mostra os dados relativos à quantidade de anos que o entrevistado assiste ao desfile naquele local. Verifica-se em todos os grupos um indicativo de um público estabilizado e com tendência à fidelização na frequência.

39,2

31,4

40,0

Menos de cinco anos

15,2

25,7

23,3

Mais de cinco anos

45,6

42,9

36,7

Qualidade O Quadro 11 mostra a avaliação do público com relação à qualidade do desfile. Pelos dados mostrados, verifica-se que o desfile é bem avaliado nos Grupos 2, 3 e 4. A equiparação entre os índices regular e bom no desfile no Grupo I pode ser lida como consequência dos problemas de infraestrutura que a Avenida Rio Branco sofre após a passagem do Cordão da Bola Preta.

Quadro 9: Distribuição percentual do período de acompanhamento dos desfiles no local Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 Primeira vez

Os resultados no Grupo 1 têm como consequência o fato de os blocos de enredo desfilarem no mesmo dia que o Cordão da Bola Preta, o qual reúne gigantesco contingente de foliões, não havendo tempo disponível para a recuperação da infraestrutura da Avenida Rio Branco. No Grupo 2, a avaliação positiva deriva do fato de a Estrada Intendente Magalhães ser preparada também para os desfiles de escolas de samba, os quais ocorrem nos dias posteriores. Com isso, o público dos blocos de enredo encontra uma infraestrutura ainda preservada. Nos Grupos 3 e 4, a situação da Rua Cardoso Moraes é semelhante à do Grupo 2, porém sem uso posterior por parte de escolas de samba e sem arquibancadas para acomodação do público.

Fonte: Elaboração própria

A importância desses dados está no fato de que se mostra a construção de um público cativo dos desfiles dos blocos de enredo, apesar da praticamente inexistente divulgação dessas apresentações por parte da mídia e do poder público. Infraestrutura

Quadro 11: Distribuição percentual sobre a avaliação da qualidade do desfile Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 Péssima

13,9

2,9

0,0

Ruim

11,4

0,0

0,0

Regular

34,2

17,1

20,0

Boa

35,4

48,6

73,3

Ótima

5,1

31,4

6,7

Fonte: Elaboração própria

O Quadro 10 mostra a avaliação do público sobre a infraestrutura encontrada nos locais de desfiles. Estes resultados devem ser lidos tendo em consideração a utilização destas pistas de desfiles ao longo do carnaval. Quadro 10: Distribuição percentual sobre a avaliação da infraestrutura do local de desfile Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 Péssima

13,9

2,9

0,0

Ruim

11,4

0,0

0,0

Regular

34,2

17,1

20,0

Boa

35,4

48,6

73,3

Ótima

5,1

31,4

6,7

Fonte: Elaboração própria

No que tange à qualidade das apresentações dos blocos de enredo do Grupo I, Ferreira (2014) destaca que os que planejam se tornar escolas de samba utilizam em seus desfiles elementos particulares desse tipo de manifestação carnavalesca, como a utilização de comissão de frente, a qual não é avaliada no julgamento da FBCERJ. Além disso, nos últimos três carnavais do último grupo hierárquico das escolas de samba, em duas oportunidades sagrou-se campeã uma agremiação estreante oriunda do Grupo I dos blocos de enredo, o que demonstra o alto grau de estruturação desses blocos nesse grupo. Apreciação O Quadro 12 descreve os resultados relativos ao aspecto mais apreciado pelo público no desfile. Nos Grupos 1 e 2, o resultado ex-

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Conclusões

pressivo do aspecto referente à movimentação em geral revela tão somente que as pessoas apreciam circular pelo local de desfile, usufruindo deste como local de lazer (e isto acontece nos desfiles de todos os grupos), não podendo ser utilizado como justificativa para eliminar os incentivos financeiros a esses desfiles no formato de parada com a alegação de que não há público fixo para essas apresentações. Nos Grupos 3 e 4, o equilíbrio com os sambas e alegorias e fantasias é maior.

Apesar de ser um primeiro levantamento sobre os blocos de enredo do Rio de Janeiro, sem a possibilidade de comparação com outras referências bibliográficas, os resultados obtidos já sinalizam conclusões que podem auxiliar no planejamento e execução desses desfiles. Com relação aos locais de desfile, a manutenção do Grupo 1 na região central da cidade é importante, pois permite que os blocos de enredo tenham a oportunidade de estarem no local de primazia dos festejos carnavalescos, então valorizando a ascensão das agremiações nas divisões hierárquicas em prol desse objetivo. Ao lado dessa manutenção, a dispersão dos demais grupos pelos bairros do subúrbio da cidade também é importante para a democratização geográfica das festividades carnavalescas, criando outros locais fixos de celebração, de lazer e de encontro; completando, dessa forma, o carnaval de rua, o qual possui nos blocos seu formato de procissão, sem estabelecer territorialidades estáticas.

Quadro 12: Distribuição percentual sobre o aspecto mais apreciado no desfile Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 Sambas

16,5

20,0

23,3

Alegorias e fantasias 20,3

28,6

33,3

Movimentação em geral

51,4

43,4

63,2

Fonte: Elaboração própria

Aspecto faltante

Os dados mostram que o público conhece e reconhece os desfiles dos blocos de enredo como uma possibilidade de se festejar o carnaval, apesar da divulgação praticamente nula dessas apresentações, valorizando os locais de desfiles e demandando mais investimentos nessas agremiações carnavalescas e na infraestrutura dos locais de apresentação.

O Quadro 13 mostra os dados relativos à opinião do público sobre o aspecto em falta mais perceptível nos blocos de enredo. Em todos os grupos, a questão da falta de apoio financeiro surge de forma preponderante. Outro dado importante é relativo à organização, pois aqui transparece a insatisfação com relação aos atrasos no início dos desfiles. Por fim, no Grupo 1, os problemas na infraestrutura também refletiram na indicação sobre o aspecto da organização.

Um desafio relativo à continuidade dos desfiles dos blocos de enredo é contribuir para torná-los, de forma mais incisiva, uma possibilidade de expressão das comunidades, fraturando uma memória e uma identidade suficientemente instituídas e amarradas das escolas de samba e dos blocos de rua. Com isso, será permitida a essas comunidades a possibilidade de forçar um novo enquadramento e um novo trabalho da memória (já rasurados) do carnaval, não mais somente pautada pelos discursos dominantes referentes às escolas de samba e blocos de rua (POLLAK, 1992).

Quadro 13: Distribuição percentual sobre o aspecto que mais falta nas agremiações Grupo 1 Grupo 2 Grupos 3 e 4 Apoio Financeiro

62,0

60,0

50,0

Honestidade

1,3

8,6

13,3

Organização

25,3

17,1

23,4

Profissionais do Carnaval

5,1

11,4

13,3

Sambistas Interessados

6,3

2,9

0,0

Fonte: Elaboração própria

Revista Tecnologia & Cultura - Rio de Janeiro - N. 25, Ano 17 - jan./jun. 2015 - p. 22-29

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Referências BARBIERI, Ricardo José Oliveira. A Acadêmicos do Dendê quer brilhar na Sapucaí. São Paulo: Paco Editorial, 2013. BARROS, Maria Teresa Guilhom. Blocos: vozes e percursos da reestruturação do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais) – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2013. COSTA, Haroldo. 100 anos de carnaval no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Irmãos Vitale, 2001. DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. FERREIRA, Antônio Eugênio Araújo. Valorizando a batucada: um estudo sobre as escolas de samba dos grupos de acesso C, D e E do Rio de Janeiro. Tese (Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. FERREIRA, Júlio César Valente. (Re)conhecendo os blocos de enredo do Rio de Janeiro. In: CONGRESSO INTERNACIONAL ARTES, PATRIMÔNIO E MUSEOLOGIA, 2014, Parnaíba, Anais..., Parnaíba: Programa de Pós-Graduação em Artes, Patrimônio e Museologia da UFPI, 2014. LEOPOLDI, José Sávio. Escolas de samba, blocos e o renascimento da carnavalização. In: Textos escolhidos de cultura e arte populares, v. 7, n. 2, 2010, p. 27-44. PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Cacique de Ramos: uma história que deu samba. Rio de Janeiro: E-papers, 2003. POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos, v. 5, n. 10, 1992, p. 200-212. RIOTUR. Memória do carnaval. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1991. SAPIA, Jorge Edgardo; ESTEVÃO, Andréa Almeida de Moura. Considerações a respeito da retomada carnavalesca: o carnaval de rua do Rio de Janeiro. In: Textos escolhidos de cultura e arte populares, v. 9, n. 1, 2012, p. 57-76. VALENÇA, Raquel Teixeira. Carnaval: para tudo se acabar na quarta-feira. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996. ZALUAR, Alba. A máquina e a revolta: as organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Dados do autor

Júlio César Valente Ferreira (jcvferreira@hotmail.com), mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor adjunto do curso de Engenharia Mecânica do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ) no campus Nova Iguaçu.

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