Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos O INTERDISCURSO NO SAMBA André Conforte (UERJ) andreconforte@yahoo.com.br
Segundo definição do Dicionário de metalinguagens da didática (Porto, 2000), interdiscurso ...é a articulação entre o extralingüístico e o lingüístico constituindo um hipertexto que engloba um determinado hipotexto. Também pressupõe três componentes importantes: (i) universo discursivo – conjunto de todas as formações discursivas, numa determinada situação; (ii) campo discursivo – conjunto de formações discursivas devidamente limitadas; (iii) espaço discursivo – subconjunto do campo discursivo.
É necessário resumir alguns conceitos básicos ligados à questão; vamos tomá-los emprestados a Maingueneau (1984): · Discurso é uma série (ou dispersão) de textos cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas; · Formação discursiva é um sistema de coerções da boa formação semântica de um dado discurso; · Universo discursivo é o conjunto de formações discursivas de todos os tipos, que interagem numa dada conjuntura; é constituído de muitos campos discursivos: político, religioso, filosófico etc. (Fiorin, 2004) · Campo discursivo é o conjunto de formações discursivas que estão em concorrência, que se delimitam reciprocamente, em uma região determinada do universo discursivo; · Espaços discursivos são subconjuntos de formações discursivas que estão em relação pertinente para os propostos da análise. É importante ainda lembrar que cada campo discursivo é formado de vários espaços discursivos – os interdiscursos, e é no interior de cada campo discursivo que o discurso irá se constituir (Fiorin, RIO DE JANEIRO: CIFEFIL, 2008
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AD – ANÁLISE DO DISCURSO 2004). A relação entre esses discursos não se dará de forma mecânica, mas sim, dialética. Charaudeau & Maingueneau (2004) lembram que o interdiscurso está para o discurso assim como o intertexto está para o texto. Desta forma, torna-se fácil inferir, simplificando, que, se o intertexto é o diálogo entre diferentes textos, o interdiscurso constituirá também um diálogo entre os diferentes discursos. Mas se, por um lado, o conceito de intertextualidade pode ser bastante simplificado, o mesmo não parece se dar com o de interdiscursividade. Não há convergência teórica sobre o assunto. Courtine (apud Charaudeau & Maingueneau, 2004) considera que o interdiscurso é “uma articulação contraditória de formações discursivas que se referem a formações ideológicas antagônicas” (grifo nosso); nesse caso, poderíamos tomar o exemplo de Fiorin (2004), quando se refere ao episódio do Velho do Restelo em Os Lusíadas: Oh glória de mandar! Oh vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos fama! Oh fraudulento gosto, que se atiça Com uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho, e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas! (IV, 94)
Segundo análise de Fiorin (2004), O discurso do velho do Restelo está em oposição a certas concepções dominantes na sociedade portuguesa da época dos grandes descobrimentos, expressas pelo discurso de exaltação da empresa navegadora posta em marcha pela Coroa lusitana. Neste, celebra-se a glória da epopéia portuguesa das grandes navegações, o esplendor de Portugal, a fama dos heróis lusitanos. Nele, justifica-se esse empreendimento como um meio de propagar a fé cristã entre os infiéis e de aumentar o Império, isto é, o território português. É esse o discurso que aparece nas três primeiras estrofes do canto I de Os Lusíadas (...)
...que julgamos desnecessário reproduzir, por demais conhecido. O importante é demonstrar como o exemplo acima se encaixa perfeitamente na concepção de interdiscurso como espaço de articulação de formações ideológicas antagônicas. Mas, ainda segundo Charaudeau & Maingueneau (2004), de modo mais amplo, o interdiscurso também pode ser o conjunto das 126
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Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos unidades discursivas pertencentes a um mesmo gênero ou a diferentes gêneros, sem que haja necessariamente uma oposição ideológica entre os diferentes gêneros ou campos discursivos. Por exemplo, é muito normal que a publicidade tome emprestados gêneros de outros campos discursivos (ou, segundo outra terminologia, domínios discursivos) como estratégia que se tem mostrado bastante profícua nos dias atuais.
A INTERDISCURSIVIDADE NO SAMBA Há determinadas formações discursivas que atravessam os séculos e vão parar “na boca do povo”. Não estamos falando, no caso, de intertextualidades facilmente identificáveis, como frases feitas, como no caso destes dois trechos de famosos sambas: Covarde sei que me podem chamar Porque não trago no peito essa dor Atire a primeira pedra, iaiá Aquele que não sofreu por amor (Atire a primeira pedra, de Ataulfo Alves) O coração tem razões Que a própria razão desconhece Faz promessas e juras e depois esquece (Aos pés da Santa Cruz, de Zé da Zilda e Ismael Silva)
No primeiro samba, a citação bíblica é clara, e não constitui grande mistério, uma vez que o discurso religioso tem penetração inquestionável – trata-se de um caso de intertextualidade explícita; no caso do segundo samba, a famosa citação atribuída a Pascal promove um interessante diálogo entre a música popular e a filosofia. No entanto, sabemos que é um enunciado que já se tornou clichê, sabe-se lá por que tortuosas vias. De qualquer modo, vale o registro do deslocamento de sentido estrategicamente aplicado para que o dito filosófico se adapte à canção dor-de-cotovelo. Há, entretanto, casos em que não ocorre citação, mas sim, em que se percebe que a idéia subjacente ao que diz aquele trecho provém de um campo discursivo específico; ou seja, a heterogeneidade é constitutiva, não se mostra no fio do discurso, no dizer de AuthierRIO DE JANEIRO: CIFEFIL, 2008
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AD – ANÁLISE DO DISCURSO Revuz (1990, passim) vejamos o samba Chico Brito, de Wilson Batista: Lá vem o Chico Brito Descendo o morro nas mãos do Peçanha É mais um processo É mais uma façanha Chico Brito fez do baralho o seu melhor esporte É valente no morro E dizem que usa uma erva do Norte Quando menino esteve na escola Era aplicado, tinha religião Quando jogava bola Era escolhido para capitão Mas a vida tem os seus reveses Diz sempre Chico defendendo teses: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou, A culpa é da sociedade que o transformou
O discurso direto da personagem Chico Brito, criado no morro como o próprio autor do samba, Wilson Batista, é intrigante: é o discurso filosófico de Rousseau. A pergunta é: como esse discurso atravessa os séculos e vai parar na última estrofe do samba de um compositor semi-analfabeto? Algumas pistas biográficas podem-nos ser úteis: é sabido que Wilson Batista, embora não muito dado a leituras, quando se encontrava com o jornalista e compositor Orestes Barbosa (autor da letra da célebre Chão de Estrelas), perguntava-lhe sobre as últimas novidades nas livrarias, com o seguinte mote: “Qual é a tese”? É sintomático que justamente a palavra “tese” apareça antes da fala de Chico Brito. É importante notar que, da forma como se constrói a letra da música, passa-se a impressão de que a tese do homem naturalmente bom e corrompido pela sociedade é do próprio Chico, e não de Rousseau. Não que não houvesse um diálogo entre o samba e a filosofia. Noel Rosa compôs, junto com André Filho (o mesmo autor de Cidade maravilhosa) um samba intitulado Filosofia, em que a palavra aqui parece mais denotar determinado modo de viver, como quando se diz, cotidianamente, “Essa é minha filosofia”:
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Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos O mundo me condena E ninguém tem pena Falando sempre mal do meu nome Deixando de saber Se eu vou morrer de sede Ou se eu vou morrer de fome Mas a filosofia Hoje me auxilia A viver indiferente assim Nessa prontidão sem fim Vou fingindo que não ligo Pra ninguém zombar de mim Eu não me importo que você me diga Que a sociedade é minha inimiga Pois andando nesse mundo Vou vivendo do meu samba Muito embora vagabundo Quanto a você que é da aristocracia Que tem dinheiro mas não compra alegria Há de viver eternamente Sendo escrava dessa gente Que cultiva a hipocrisia
Não se pode negar que há um interdiscurso nessa letra, há um tanto de filosofia estóica, daquele que se resigna com seu sofrimento, isto é, que consegue ser “indiferente assim” a ele, assim como há também o discurso anti-burguês, da sociedade aristocrata “que cultiva a hipocrisia”, o que demonstra o caráter altamente polifônico da canção. Em parceria com Orestes Barbosa, Noel ainda comporia “Positivismo”, em alusão clara e intencional à corrente filosófica de Augusto Comte, ainda em voga em sua época. O deslocamento de sentido opera divertidamente para que o lema positivista se acomode às questões mundanas: A verdade, meu amor, mora num poço É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz E também faleceu por ter pescoço O autor da guilhotina de Paris Vai, orgulhosa querida Mas aceita esta lição No câmbio incerto da vida A libra sempre é o coração O amor vem por princípio, a ordem por base
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AD – ANÁLISE DO DISCURSO O progresso é que deve vir por fim Desprezaste esta lei de Augusto Comte E foste ser feliz longe de mim Vai, coração que não vibra Com teu juro exorbitante Transformar mais outra libra Em dívida flutuante
É verdade que tanto Noel quanto André Filho ou Orestes Barbosa eram compositores de classe média, lidos e esclarecidos. Compunham estes sambas cheios de referências de modo consciente. Não é o que acontecia a sambistas como Wilson Batista e Ataulfo Alves, que, em parceria, compuseram este que seria uma espécie de sambapropaganda do Estado Novo de Vargas, embora não tivesse sido composto com nenhuma intenção de exaltação política: Quem trabalha é que tem razão Eu digo e não tenho medo de errar O bonde de São Januário Leva mais um operário Sou eu que vou trabalhar (...)
Ricardo Cravo Albin (2003) afirma que este samba foi composto por sugestão do próprio DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão da ditadura Vargas “que na época preocupava-se com a grande quantidade de sambas fazendo apologia da vadiagem”. É provável que esse samba tenha sido composto pela dupla em virtude da polêmica gerada pela marcha “Pedreiro Waldemar”, esta de Wilson Batista e Roberto Martins, cuja letra parece dizer o oposto da anterior: Você conhece o pedreiro Waldemar? Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar De madrugada toma o trem da Circular Faz tanta casa e não tem casa pra morar Leva marmita embrulhada no jornal Se tem almoço, nem sempre tem jantar O Waldemar que é mestre no ofício Constrói um edifício E depois não pode entrar
Canção cujo conteúdo parecerá ecoar anos mais tarde no célebre Pedro Pedreiro, de Chico Buarque de Hollanda: 130
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Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã, parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem De quem não tem vintém Pedro pedreiro fica assim pensando Assim pensando o tempo passa E a gente vai ficanto pra trás Esperando, esperando, esperando Esperando o sol Esperando o trem Esperando o aumento Desde o ano passado Para o mês que vem (...)
Se, por um lado, cabia a Wilson e a Ataulfo a “tarefa” de serem cooptados pela ideologia trabalhista do Estado Novo, era dado a Adoniran Barbosa, habitante de São Paulo, a “cidade que mais crescia no mundo”, o papel de nosso Velho do Restelo, uma vez que sua música representava a negação do trabalho e do progresso: Progréssio, progréssio Eu sempre escuitei falar Que o progréssio vem do trabaio Então amanhã cedo nóis vai trabiá Progrésssio Quanto tempo Nóis perdeu na boemia Sambando noite e dia Cortando uma rama sem parar Agora, escuitando o conselho da mulher Amanhã vou trabaiá Se Deus quisé Mas Deus não qué (Conselho de Mulher, Adoniran Barbosa, Oswaldo Moles e João B. dos Santos)
Contra-ideologia com a qual parecem concordar Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves (“O que será de mim”): Se eu precisar algum dia De ir pro batente Não sei o que será Pois vivo na malandragem E vida melhor não há Oi, não há vida melhor Que vida melhor não há Deixa falar quem quiser Deixa quem quiser falar
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AD – ANÁLISE DO DISCURSO O trabalho não é bom Ninguém pode duvidar Oi, trabalhar só obrigado Por gosto ninguém vai lá
O Estado Novo investirá pesado no uso da música como veículo de sua ideologia enaltecedora do trabalho. Daí o surgimento dos grandes sambas-exaltação, cujos maiores representantes serão Ary Barroso (Aquarela do Brasil, Isso aqui o que é), David Nasser e Alcyr Pires Vermelho (Canta Brasil). Já Nelson Cavaquinho, outro compositor absolutamente intuitivo, era “atravessado” pelo discurso religioso, uma vez que a idéia de morte o assombrava; José Novaes, professor de Psicologia da UFF, dedicou-lhe uma obra em que abordou especificamente o tema luto e melancolia (Novaes, 2003): Quando eu passo Perto das flores Quase elas dizem assim: Vai, que amanhã enfeitaremos o teu fim A nossa vida é muito curta Estamos neste mundo de passagem Ó meu grande Deus Nosso criador A minha vida pertence ao Senhor (Eu e as flores, Nelson Cavaquinho e Jair Costa) O sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente É o juízo final A história do bem e do mal Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer (Juízo final, Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)
Compositores como Nei Lopes, Wilson Moreira, João Nogueira, Paulo César Pinheiro e Candeia são alguns dos que fazem de seus sambas veículo para a manifestação de uma ideologia de libertação, em especial em defesa dos direitos dos negros. Como exemplo de muitos de seus sambas, tomemos Noventa anos de abolição, de Wilson Moreira e Nei Lopes: 132
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Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos Hoje a festa é nossa Não temos muito para oferecer Mas os atabaques vão dobrando Com toda a alegria de viver. Festa no QuilomboNoventa anos de abolição Todo mundo unido pelo amor Não importa a cor Vale o coração. Nossa festa hoje é homenagem À luta contra as injustiças raciais Que vem de séculos passados E chega até os dias atuais. Reverenciamos a memória Desses bravos que fizeram nossa história: Zumbi, Licutan e Alumá Zundu, Luís Sanin e Dandará. E os quilombolas de hoje em dia “São Candeia” que nos alumia E hoje nesta festa Noventa anos de Abolição Quilombo vem mostrar que a igualdade O negro vai moldar com a própria mão E em luta pelo seu lugar ao sol Não é só bom de samba e futebol. (Apud Vargens, 1997)
Os samba anti-estrangeirismos, bem mais numerosos do que se pode supor, estão intimamente ligados à concepção nacionalista de cultura desses mesmos sambistas. Um dos primeiros a se manifestar contra a “invasão” de anglicismos e galicismos foi Noel Rosa, com o célebre Não tem tradução (Cinema falado); décadas mais tarde, João Nogueira regravaria este samba e ainda comporia, em parceria com Nei Lopes, outro libelo antiamericano, “Eu não falo gringo”. Eu não falo gringo Eu só falo português Meu pagode foi criado Lá no Rio de Janeiro Minha profissão é bicho Canto samba o ano inteiro Eu falei prá você Eu aposto um "eu te gosto" Contra dez "I love you" Bem melhor que hot-dog É rabada com angu Gerusa comprou uma blusa Destas made em USA
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AD – ANÁLISE DO DISCURSO E fez a tradução A frase que tinha no peito Quando olhou direito Era um palavrão I speak for you Ou me dá um terno branco Ou não precisa me vestir Bunda de malandro velho Não se ajeita em calça Lee As vezes eu sinto um carinho Por este velhinho chamado Tio Sam Só não gosto é da prosopopéia Que armou na Coréia e no Vietnã Tem gente que qualquer dia Fica mudo de uma vez Não consegue falar gringo Esqueceu do português Tu é dark, ele é hippie, ele é punk Todos dançam funk lá no dancin'days Mas cuidado com este paparico O FMI tá de olho em você.
Uma análise da letra deixa claro que, por trás do incômodo dos compositores com a invasão dos termos estrangeiros está o discurso anti-EUA, uma vez que, na visão do sambista mais tradicional, o termo estrangeiro é causa da dominação cultural, e não conseqüência, ainda que não seja difícil demonstrar que o contrário é que é o verdadeiro.
CONCLUSÃO Para Jacqueline Authier-Revuz, como já dito, o interdiscurso é uma forma constitutiva da heterogeneidade, isto é, não vem marcada no fio do discurso (Fiorin, 2004); é fato incontestável que todo discurso trará o outro no bojo, justamente pela concepção inerentemente dialógica da linguagem. Daí Maingueneau postular o primado do interdiscurso sobre o discurso (Maingueneau, 1997). Não se analisa o discurso sem levar em contra o pré-construído, os discursos que nele se inserem, antagonicamente a ele ou não. Portanto, as letras de samba, como material artístico fruto da cultura popular, cons-
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Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos tituem produtivo corpus para que se estude como os discursos se comunicam, e de que forma.
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