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Netnografando o samba de raiz': o que dizem podcasters que pretendem divulgar este gênero musical mu

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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Fortaleza, CE – 3 a 7/9/2012

Netnografando o “samba de raiz”1 O que dizem podcasters que pretendem divulgar este gênero musical mundo afora? Lena BENZECRY2 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

RESUMO O artigo é um recorte da pesquisa de doutorado em andamento no PPGCOM da ECO/UFRJ e dá continuidade ao trabalho apresentado no Intercom 2011, acerca da relação entre o samba e o rádio no contexto da “Radiomorfose” (PRATA, 2009). Aqui, compreende-se o rádio como uma mídia que possui “linguagem comunicacional específica, que usa a voz, a música, os efeitos sonoros e o silêncio, independentemente do suporte tecnológico ao qual está vinculada” (FERRARETTO e KISCHINHEVSKY, 2010b.). Nesse cenário, explora-se como objeto de estudo dois podcasts dedicados a esse gênero musical, realizando, assim, uma primeira incursão à metodologia classificada como “netnografia” (FRAGOSO, RECUERO e AMARAL, 2011), buscando-se estabelecer a conduta investigativa que guiará a tese. Paralelamente, colabora-se com estudos que investigam como as novas tecnologias de informação e comunicação vêm contribuindo para o aparecimento de radialistas, que estão à margem do sistema comercial, promovendo uma alternativa mais “livre” ao modo regulado de se fazer rádio.

PALAVRAS-CHAVE: radiomorfose; rádio expandido; podcast; samba; netnografia.

1. Na consolidação e na reinvenção do rádio, o samba tem seu lugar No último quinquênio, os estudos sobre o rádio vêm abordando os possíveis rumos para o veículo, a partir da sua adaptação às novas tecnologias de comunicação e informação (NTICs) e às novas mídias. Fala-se em “Cultura da Portabilidade”, “do Compartilhamento”, “da Convergência”: indicadores de um novo cenário para a comunicação, no qual o rádio ganha novo fôlego, novo significado e uso ainda mais plural e multifacetado (KISCHINHEVSKY, 2009; FERRARETTO e KISCHINHEVSKY, 2010b).

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Trabalho apresentado no GP Teorias do Rádio e Mídia Sonora do XII Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2

Doutoranda do Programa lena.benzecry@gmail.com

de

Pós-Graduação

em

Comunicação

e

Cultura

da

ECO-UFRJ,

email:

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Nos termos de Prata (2009) este momento de reinvenção do rádio é batizado de “radiomorfose”, num paralelo ao vocábulo “mediamorfose”, cunhado pelo jornalista Roger Fidler (1997) para definir a capacidade de adequação dos meios comunicacionais diante das tecnologias em permanente evolução, que acabam por gerar rupturas e continuidades nas formas de comunicação e mediação das sociedades. A despeito da nomenclatura adequada, o fato é que a noção do que é rádio hoje está em expansão. Controvérsias entre os estudiosos da área colocam, de um lado, autores que resistem à ideia de que certos formatos de programas sonoros, surgidos no novo contexto, como o podcast3, sejam efetivamente rádio. E alegam que os podcasts, além de não serem transmitidos ao vivo, e sim sob demanda, ainda são baseados no modelo comunicacional da radiodifusão massiva, no qual o padrão “um-todos” prevalece em relação ao “um-um” ou “muitos-muitos”4. De outro lado, há uma vertente que se baseia no argumento de que o alargamento do conceito “rádio” está diretamente associado ao seu formato narrativo e de montagem, onde há prevalência de “uma linguagem comunicacional específica, que usa a voz (em especial na forma da fala), a música, os efeitos sonoros e o silêncio, independentemente do suporte tecnológico ao qual está vinculada” (KISCHINHEVSKY, 2011a, p.8.). Este artigo apoia-se na segunda vertente para dar continuidade ao pensamento que vem sendo construído acerca da relação do rádio como o samba em trabalhos anteriores (BENZECRY 2011 e 2012). Ao mesmo tempo, dá o primeiro passo no caminho metodológico que visa a investigar como o samba está presente nesse rádio expandido, que abarca desde o modelo hertziano até as novas possibilidades de entendimento do que é rádio hoje. Enfatiza-se, por hora, o âmbito dos podcasts que ultrapassam o formato de playlist para conjugar elementos usualmente presentes num programa de rádio tradicional.

1.1 Geração Podcasting Conforme exposto em trabalhos anteriores, o advento do mp3 e a facilitação das técnicas de gravação promoveram a disseminação dos arquivos de áudio pela internet, ampliando, exponencialmente, os tipos de música e a gama de artistas aos quais podemos ter acesso. Ao mesmo tempo, vem propiciando condições para a consolidação de uma 3

Podcasts são programas de rádio produzidos, normalmente, de maneira doméstica, que podem ser baixados a partir de um programa de gerenciamento de áudio para computadores e aplicativos móveis ou ouvidos on line. Para saber mais sobre a sua definição e a tecnologia necessária, ver: GALEGO (2010). 4 Para mais detalhes ver: PRATA (2009); MEDITSCH (1999 e 2005).

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cultura de criação de web rádios e podcasts. De uma forma geral, esses novos produtos midiáticos expõem o gosto musical e a opinião de seus produtores, além de possuírem conteúdos tão específicos que acabam se tornando produtos “de nicho”, bem específicos. Por intermédio dessa nova forma de se fazer rádio, torna-se possível programar o repertório de sua preferência e formar um público ouvinte, sem ter que sujeitar-se às normas e regulações de uma rádio hertziana5, tampouco às forças de patrocinadores e majors da indústria fonográfica. Mesmo que se tratando de um rádio, muitas vezes voltado para um público super específico e sem apoio comercial, exerce-se o direito por um “rádio livre”, ou melhor: “mais livre”. Em estudo que aborda a tecnologia do podcasting e os novos usos do rádio na sociedade midiatizada em que vivemos, Herschmann e Kischinhevsky (2008) alegam que a possibilidade de se fazer rádio sob demanda pode contribuir para o estabelecimento de “linhas de fuga” ao fenômeno de espetacularização que atrofia os meios de comunicação desde a segunda metade do séc. XX. Os autores buscam repensar o papel dos atores sociais – podcasters – no estabelecimento de formas inovadoras de mediação sociocultural: (...) com o avanço da tecnologia de compressão de arquivos digitais e a crise da indústria fonográfica, o podcasting começa a inaugurar novas formas de sociabilidade e a construir toda uma rede de identificações culturais valorizadas e prestigiadas pelos usuários. Perdem força as mediações tradicionais realizadas pela indústria da música e do entretenimento, organizadas em torno de paradas de sucesso, grandes vendagens de disco e veiculação de conteúdos de forma sincrônica; ganham terreno a pluralidade nas representações artísticas, as redes transnacionais de identificações culturais, a interação social mediada [por computador], as transmissões radiofônicas assincrônicas e as novas formas de audição. (HERSCHMANN e KISCHINHEVSKY, 2008, p. 104)

Isso não quer dizer que estamos diante da solução em prol de uma comunicação livre. Em trabalhos posteriores, os autores também analisam que o otimismo em torno do fenômeno da desintermediação foi seguido de estudos que comprovam a ascensão de novos intermediários – remediação – no mundo da música, no qual o rádio se inclui (HERSCHMANN e KISCHINHEVSKY, 2011). No entanto, é inegável que a tecnologia do podcasting abre brechas para criações que vão de encontro aos padrões hegemônicos de dominação. Em termos gerais podemos dizer que hoje o podcasting está para o rádio assim como os blogs estão para os jornais. A chamada tecnologia pull (puxar) substituiu a push 5

Ver nota 12 sobre fiscalização do ECAD na rede.

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(empurrar) e o ouvinte deixou de ficar a espera pelo conteúdo que lhe interessa, para ir direto ao ponto e ouvir apenas o que lhe convém, a hora que bem entender. Além disso, as possibilidades de interação entre o autor dos conteúdos e o público são tantas que, cria-se a chance de inversão das posições de emissor e receptor. Outra razão que faz que com o podcasting se torne uma prática cada vez mais popular é seu processo de automatização. Os ouvintes podem fazer assinaturas dos programas, assim como fazem de uma revista ou jornal, dessa maneira, novos episódios de podcasts assinados podem ser baixados automaticamente pelo programa de gerenciamento de arquivos sonoros que o usuário tiver instalado em seu computador e sincronizado pelos seus aplicativos móveis (celulares e tablets) para ser consumido oportunamente. Mais uma característica que começa a ser notada nessa nova forma de se fazer rádio é que, embora o podcast se configure como uma mídia inerente ao mundo globalizado existe uma tendência à produção de conteúdos ligados a identidades culturais locais, fato que, nos termos de alguns teóricos dos Estudos Culturais, geram produtos “glocais” (HALL, 1997). Nesse sentido, chamamos a atenção neste artigo para o trabalho de dois podcasters brasileiros que estão se apropriando das NTICs para difundir o “samba de raiz”, ou ainda, “a autêntica música brasileira” mundo afora. Como fazem isso? Desde quando? E por quê? São algumas das questões que foram feitas a cada um deles a partir de questionários semiestruturados elaborados no intuito de iniciar um mapeamento sobre a “geração podcasting” (HERSCHMANN E KISCHINHEVSKY, 2008) que se consolida diante do novo cenário. Como referencial metodológico, optou-se pela pesquisa netnográfica. Segundo Fragoso, Recuero e Amaral (2011), a netnografia surge no âmbito dos estudos de cibercultura inspirados na abordagem etnográfica como forma de desenvolver pesquisas empíricas na, com e pela internet.

A escolha se deu pelo fato de acreditarmos que,

atualmente, pelo menos nas áreas urbanas, o fenômeno da sociabilidade não deve mais ser pensado sem levar em conta as relações não presenciais fomentadas pelas NTICs. A partir da constatação da internet como um espaço agregador de indivíduos em comunidades “virtuais”, seja devido a identificações culturais, de gosto, políticas etc., a aproximação com a abordagem etnográfica torna-se praticamente inevitável. No entanto, uma crítica pertinente a essa metodologia é levantada pelas autoras: como ignorar os encontros presenciais, o contato, a ida ao campo, a “viagem” do pesquisador até o local a ser estudado, na tentativa de se desenvolver um trabalho de

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inspirações etnográficas? Somando-se a isso, temos a necessidade do encontro e da roda entre amigos como uma característica inconteste do mundo do samba (TROTTA, 2011). Sendo assim, ao longo do desenvolvimento da pesquisa de doutorado, da qual este artigo é parte, um movimento de investigação dentro e fora da rede se fará necessário. Até porque, desde o primeiro momento, foi possível identificar que os produtores dos podcasts aqui analisados usam seu canal de comunicação com o público, também, para noticiar eventos do mundo do samba e promover encontros entre seus ouvintes e seguidores. 2. Samba via podcast: difundindo a cultura “glocal” O podcast “Meu Samba é Roots”, produzido pelo publicitário Dennis Campos, nasceu a partir da criação de um blog homônimo e pode ser acessado por intermédio desse blog; pelo portal de podcasts “Podomatic” e pela web rádio “Cultura Black6”, dedicada a divulgar gêneros musicais ligados à cultura negra7. Em entrevista para a pesquisa, Dennis, conta que: Na verdade o blog surgiu antes, com o intuito de valorizar o bom samba. Estava cansado de músicas pobres de melodias, harmonias e letras. Desde o início eu pretendia ter um podcast, mas com outro formato (que estou desenvolvendo), mas fui convidado pelo pessoal da Rádio Cultura Black para fazer um programa de samba raiz. Topei na hora e comecei a estudar a melhor forma de fazê-lo.

Atualmente, o blog “Meu Samba é Roots” além de servir como porta de acesso ao podcast, também disponibiliza links de outros projetos que estão na rede, ligados à temática do “samba de raiz”. O texto de apresentação do programa diz: “Está no ar o nosso, o seu, o Meu Samba é Roots, o verdadeiro arquivo do samba”. Enquanto a voz do locutor aparece em primeiro plano, é tocado, em background, o refrão da música Zé Tambozeiro, composta pelo sambista Candeia, cujos versos dizem: “(...) bate o tambor de Angola, que o samba chegou agora”. Além disso, há uma logomarca que identifica os produtos criados por Dennis e traz na assinatura o slogan “a chama não se apagou”, identificando entre os amantes e conhecedores do samba, a predileção do blogueiro-podcaster pelo compositor portelense8.

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http://www.siteculturablack.com.br/ www.siteculturablack.com.br 8 O verso “a chama não se apagou” está presente na canção “O sonho não acabou”, de autoria de Luiz Carlos da Vila e Adilson Victor, em homenagem ao sambista Candeia, cujo refrão diz: “a chama não se apagou / nem se apagará / és luz de eterno fulgor / Candeia / o tempo em que o samba viver / o sonho não vai acabar / e ninguém irá esquecer / Candeia...” 7

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Nota-se que o título dos produtos desenvolvidos por Dennis remete à ideia de “raiz”, com o emprego do termo inglês roots. Ao mesmo tempo, a vinheta de abertura do programa canta versos referentes ao tambor de Angola, marcando a origem africana do samba e a ancestralidade da cultura negra. Embora, a cada programa, Dennis faça algumas intervenções sonoras que modificam ligeiramente a vinheta de abertura, a mensagem textual e o trecho dessa música são suas marcas identitárias. Trotta (2011) trabalha à exaustão a categoria “raiz” relacionada ao samba. O autor desenvolve um estudo de fôlego sobre classificação de gêneros musicais e argumenta: (...) o “samba de raiz” procura estabelecer um vínculo com o passado, que seria formador de uma base musical, ideológica, estética e afetiva para o desenvolvimento do samba (...) um samba que procura se referir a esse passado, estabelecendo sua legitimidade por esta “tradição”. (p.210).

Quando indagado sobre como seleciona o repertório de seu programa, a partir do critério “samba de raiz”, Dennis afirmou que age de forma “diferente de muitos radicais”, uma vez que não considera que o samba de raiz esteja obrigatoriamente ligado ao passado e explica sua tática: Prefiro definir alguns critérios que estão presentes desde os primeiros sambas. Para mim, um “samba de raiz” tem que ter: boa letra. Nada de rimar amor com dor e coração e paixão no mesmo refrão; bom tema; boa melodia; instrumentação adequada (...) já vi shows de samba sem ter um cavaco, não tem condições! Considerando esses como alguns dos possíveis critérios, não é difícil se reconhecer bons sambistas nos dias atuais.

A ligação de Dennis tanto com o samba do passado quanto do presente é perceptível em todos os episódios já publicados9. Para se ter uma ideia, num mesmo programa é possível ouvir Nei Lopes seguido de Zeca Pagodinho ou interpretações de composições antigas nas vozes jovens do grupo Casuarina. A experiência de ouvir “Meu samba é roots” faz, portanto, com que o ouvinte tenha acesso tanto à tradição quanto à modernidade do samba. Outro podcaster que opta por mesclar a tradição e a modernidade do samba é o escritor Conrad Rose, autor do “Muqueca de Siri”10. Historicamente ligado ao movimento do “Rádio Livre”, Conrad criou o programa para ser transmitido inicialmente pela Rádio

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Ao todo são 18 disponíveis na rede e a periodicidade de postagem costuma ser mensal. Ver: http://meusambaeroots.podomatic.com/ 10 A grafia da palavra Muqueca, com u, respeita, segundo Conrad, a fonte de inspiração que é a música homônima do compositor Pelado da Mangueira.

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Interferência FM11, no ano de 2006. Em virtude das inúmeras interrupções sofridas pela rádio, Conrad encontrou na internet o terreno ainda livre de regulamentação que precisava para se pronunciar12. Apesar disso, uma de suas preocupações mais constantes é fugir da dominação corporativa sobre os produtos midiáticos e comunicacionais. Ao longo dos episódios, Conrad emite mensagens com o seguinte conteúdo: “We are the mídia” [Nós somos a mídia] e “Use Linux”. Dessa forma, declara a alternativa que representa contra os conglomerados midiáticos e às grandes corporações capitalistas, pronunciando-se, inclusive, em inglês, para que até ouvintes estrangeiros possam entender a sua filosofia. Apesar de reconhecer as facilidades das NTICs como ferramenta para se fazer ouvir, o ideal de Conrad é a liberação do espectro eletromagnético e o fim da concessão de serviço expedida pelo Ministério das Comunicações, bem como, da licença para operar a radiofrequência atribuída pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Rádio livre é o meu grande tesão mesmo. Hoje eu vejo que web rádio é uma coisa que qualquer pessoa pode fazer em casa. É completamente acessível. Até as crianças têm essa capacidade. E tem uma coisa que incomoda um pouco que é você não conseguir ser completamente livre, como no caso do rádio, você pode ser. A partir do momento que sai da tua máquina [o podcast], você utiliza uma tecnologia proprietária, 3G ou ADSL, então, cai nas mãos de uma corporação. O meio é feito através de uma corporação. No rádio, o pessoal do rádio livre tem condições de fazer até receptor de rádio e o meio que utiliza é o ar, o som se propaga pelo ar... então, isso que me encanta na verdade: o espectro.

O gênero musical que Conrad optou por difundir também foi o samba, definido no texto de apresentação de seu podcast como “a mais autêntica música brasileira”. No repertório, além da mistura do samba antigo com o atual, há algumas variações como sambalanço e samba-reggae. Assim, depois de uma gravação original na voz de Zé Keti, pode-se ouvir uma canção interpretada por Orlandivo, Jorge Ben ou Seu Jorge. Apesar dos dois podcasters, defenderem o reconhecimento da produção contemporânea do samba e, em alguma medida, seus subgêneros, no que se refere à discussão sobre rádio livre, Dennis revela não possuir uma identificação tão profunda com a causa. Quando perguntado a respeito, respondeu:

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A Rádio Interferência FM é uma é uma rádio livre criada e mantida pelos estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para saber mais detalhes sobre ela e sua origem, ver: http://www.eco.ufrj.br/portal/servicos/radio.html e KISCHINHEVSKY (2009). 12 Embora, o ECAD atue no sentido de arrecadar direitos autorais para execução de músicas na internet, a fiscalização é precária e segundo Conrad: “nunca houve problemas nesse sentido”.

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Acho o movimento bem fundamentado e importante, do ponto de vista de liberdade de expressão e da utilidade pública para a comunidade (como é o caso da Rádio Heliópolis). Mas discordo quando utiliza meios que atrapalham quem atua legalmente e pagam impostos, as rádios de internet ganham ponto neste quesito.

Já para Conrad, a questão da liberdade é tão fundamental que ele busca disponibilizar seu programa em inúmeras plataformas, sempre em busca de traçar uma linha de fuga ao monopólio das corporações. Atualmente, o programa pode ser acessado pelo mesmo portal de podcasts que hospeda o “Meu samba é Roots”, e ainda pode ser ouvido em diversas web rádios, entre estrangeiras e nacionais, ligadas ao movimento do rádio livre 13, além de estar disponível para download no site www.archive.org, uma organização sem fins lucrativos dedicada a disponibilizar gratuitamente arquivos de recursos multimídia. O próximo passo, segundo Conrad, é enquadrar o “Muqueca” na lei de incentivo e conseguir financiamento para construir um site. (...) o que tá sendo feito só agora, na verdade, é enquadrar o “muqueca” para que ele tenha um website, enquadrar na lei de incentivo, pra construir o website. Entre outras experiências também, mas o website é a principal delas, onde a gente possa hospedar tudo no archive.org, que é uma plataforma sem limite nenhum de banda, um “comunityaudio” e... construir uma máscara para que as pessoas possam ouvir e baixar e que no website contenha muito mais coisas além das “receitas culinárias”, que como “muqueca” é um prato, já em 2007 a gente serviu, pela primeira vez a moqueca, numa feitoria.

A referência de Conrad a um encontro presencial dos ouvintes de seu podcast, para degustação coletiva de uma moqueca de siri, ampliam exponencialmente as metas de investigação dessa pesquisa e impossibilitam esgotar o assunto num único artigo. Contudo, revela estar em consonância com afirmações feitas anteriormente sobre a necessidade de se promover encontros reais no mundo do samba, nos quais, tradicionalmente, tanto a roda de samba, quando a comida, são elementos que compõem a chamada “experiência de raiz”, nos termos de Herschmann (2007) e o estado de epifania provocado pelo encontro de um grupo com afinidades musicais (MAFFESOLI, 2000). Atualmente, o “Muqueca de Siri” possui trezentos e quinze seguidores no “Podomatic”, entre eles, o próprio “Meu Samba é Roots”. Uma investigação mais profunda a respeito da interação entre os seguidores e as comunidades que se formam ali está em andamento. Até o momento, percebe-se que ela se dá, majoritariamente a partir de 13

www.radiobronka.info (Barcelona - Espanha); www.radiorua.com.br (Brasil); www.bsosradio.org (Maui – Havaí); Há ainda os 100 primeiros programas disponíveis para download em www.4shared.com.

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comentários postados no perfil de cada podcast e tem como tônica: elogios referente ao repertório, demonstrações de afeto ao samba e a experiência de curtir o samba, usualmente associada à experiência de viver hábitos e práticas culturais ligadas à brasilidade. A imagem a seguir ilustra a questão:

Figura 1: printscreen de uma série de comentários postados no perfil do podcast “Muqueca de Siri”, hospedado no portal “Podomatic”.

As interações entre os ouvintes do “Muqueca” não se deram da noite para o dia. O programa está na rede desde fins de 2006 e atingiu, em junho de 2012, a edição 118. Quanto ao “Meu Samba é Roots”, nota-se que as interações ainda estão em fase inicial, uma vez que o programa é bem mais recente e ainda está na edição 18. No blog homônimo, há atualmente sessenta e sete seguidores14 e no perfil do “Podomatic”, apenas 315. Mesmo assim, entre maio e junho de 2012, a partir da divulgação que Dennis fez na rede social 14 15

Ver: http://www.meusambaeroots.blogspot.com.br/ <último acesso em: de 28/06/2012>. Ver: http://meusambaeroots.podomatic.com <último acesso em: de 28/06/2012>.

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“facebook”, verificou-se que 80 pessoas “curtiram” a iniciativa. A seguir, o gráfico disponibilizado pela rede social exibe os resultados da divulgação, incluindo a idade do público.

Figura 2: printscreen da estatística fornecida pela rede social “facebook” aos seus usuários.

Interesses pessoais e controvérsias a parte, nota-se que ambos os podcasters usam a possibilidade de estar na rede para difundir seus gostos musicais e suas ideias, e formar um público ouvinte. Cabe ressaltar, no entanto, que: embora usufruam de tecnologias recentes e modernas, ainda baseiam-se no formato estabelecido pelo rádio convencional para compor seus respectivos programas. Se ouvirmos de olhos fechados ambos os podcasts e programas de rádio convencionais dificilmente poderemos diferenciá-los. O ritmo narrativo dos locutores, a mescla de música, fala, silêncio, background e vinhetas obedece a um padrão herdado do rádio hertziano que, em termos de Brasil, assim como o samba, também se consolidou com uma marca da identidade cultural nacional. Nesse contexto, assistimos a um movimento interessante que revela que a representação do samba no rádio expandido hoje envolve elementos que retomam a construção discursiva, em torno do chamado “samba de raiz”, como símbolo da identidade cultural nacional. Mais que isso, vem contribuindo para a formação de “comunidades virtuais” formadas por indivíduos que compartilham o afeto por esse gênero musical e fomentam entre si a partilha de música e informação.

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3. Considerações Conforme mencionado, este trabalho é um recorte de uma pesquisa de doutorado em andamento que, sob o ponto de vista metodológico, ainda está em fase inicial. Dessa forma, como considerações finais, apontamos os futuros passos que serão seguidos, no intuito de aprofundar a investigação dos objetos analisados parcialmente aqui. Além da necessidade de uma investigação detalhada a respeito das interações entre os podcasters e seus ouvintes, pretende-se aprofundar questões relativas à escolha do repertório a partir do critério estabelecido pelos próprios podcasters ao rotularem suas respectivas seleções musicais como “samba de raiz” e “autêntica música brasileira”. Mais adiante, além desses dois podcasts dedicados ao samba, a pesquisa abarcará duas web rádios e dois programas de rádio hertziano exclusivos do gênero, objetivando dar conta da representação do samba no rádio expandido.

4. REFERÊNCIAS BENZECRY, L. Rádio e Samba de Raiz: um binômio glocal. Comunicação apresentada no IV Encontro de Pesquisadores em Comunicação e Música Popular. GT de Linguagens e identtidades da musica contemporânea, 15 a 17 de agostto de 2012, Universiidade de São Paulo – ECA/USP. FERRARETO, L.A. Alterações no modelo comunicacional radiofônico: perspectivas de conteúdo em um cenário de convergência tecnológica e multiplicidade de oferta. In: E o rádio? Novos horizontes midiáticos. Luiz Arthur Ferrareto e Luciano Köckler (Orgs.). Rio de Janeiro: EdiPUCRS, 2010. ____. e KLÖCKNER, L. E o rádio? Novos horizontes midiáticos. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2010 FIDLER, R. Mediamorphosis – Understanding New Media. California: Pine Forge Press, 1997. FRAGOSO, S; RECUERO, R; AMARAL, A. Métodos de pesquisa para internet. Porto Alegre: Editora Sulina, 2011. FROTA, W. N. Auxílio luxuoso. Samba símbolo nacional, geração Noel Rosa e indústria cultural. São Paulo: Annablume, 2003. HALL, S. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. In: Kenneth Thompson (ed.). Media and cultural regulation. London, Thousand Oaks, New Delhi: The Open University; SAGE Publications, 1997 (Cap. 5).

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