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A Revitalização das Matrizes do Samba e Atualidades das Teorias da Conservação do Século XIX

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Anais – IV Semana Nacional de Museus na Unifal-MG ISSN 2236-2088

A REVITALIZAÇÃO DAS MATRIZES DO SAMBA CARIOCA E ATUALIDADE DAS TEORIAS DE CONSERVAÇÃO DO SÉCULO XIX Álea Santos de Almeida1 Marcos Luiz Miranda2 Resumo Este trabalho discute o conceito de revitalização nas práticas de preservação do patrimônio material e imaterial envolvendo a questão de se dar uma função na coletividade para o patrimônio cultural buscando preservá-lo. Traça um paralelo entre as práticas de conservação do patrimônio material e a salvaguarda dos bens imateriais, utilizando como objeto de análise as matrizes do samba carioca, com base na atualidade dos questionamentos realizados no século XIX por Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc e John Ruskin. Analisa a utilização do termo revitalização, presente em documentos que se ocupam de ambas as práticas de preservação por meio da bibliografia pertinente. A problemática de se dar uma função no corpo social para o patrimônio cultural, discutida desde o século XIX, é por fim entendida como uma possibilidade viável para o patrimônio imaterial desde que admitamos a possibilidade de ressignificação dessas manifestações.

Palavras-chave: Patrimônio Cultural. Teorias da Conservação. Samba. Rio de Janeiro. Abstract This paper discusses the concept of revitalization practices for the preservation of tangible and intangible heritage involving the question of whether a given function in the community to the cultural heritage seeking to preserve it. Draws a parallel between the practices of conservation of tangible heritage and the safeguarding of intangible property, as the object of analysis using arrays of samba, based on the timeliness of inquiries made in the nineteenth century by Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc and John Ruskin. Analyzes the use of the term revitalization, present in documents dealing with both conservation practices through the relevant literature,. The problem of providing a social function in the body for the cultural heritage, discussed since the nineteenth century, is finally seen as a viable possibility for the intangible heritage as long as we admit the possibility of reinterpretation of these events.

Keywords: Cultural Heritage. Conservation’s Theories. Samba. Rio de Janeiro.

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Mestranda do Programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). Professor do Programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST).

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1. Introdução As práticas de salvaguarda3 do patrimônio imaterial são bastante recentes, se comparadas com as discussões em torno da conservação do patrimônio material. À primeira vista, estas práticas – as referentes ao patrimônio material e as referentes ao patrimônio imaterial - podem parecer bem diferentes entre si. Mas, é possível perceber que alguns conceitos e práticas estão presentes nessas duas instâncias. Este artigo procura discutir o conceito de revitalização, presente em ambas as práticas de preservação4 e que envolve a questão de se dar uma função na coletividade para o patrimônio cultural na busca de preservá-lo. A idéia de se tornar o patrimônio funcional estabelece uma relação intrínseca entre a apropriação social e a preservação do patrimônio, ou seja, acredita-se que se um bem é utilizado pela população esta se sensibilizará para a necessidade de se preservar o bem em questão e tomará para si essa responsabilidade. A problemática da função na sociedade já era discutida pelas Teorias da Conservação do século XIX, principalmente pelo arquiteto e restaurador Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc (1814-1879). O seu pólo oposto, o pensamento de John Ruskin (1819-1900) com seu não-intervencionismo radical, também contribui para o questionamento dessas práticas que se aproximavam do que hoje denominamos de revitalizações. Para discutir a revitalização do patrimônio cultural utilizaremos o exemplo do registro pelo IPHAN das Matrizes do Samba Carioca no Livro das Formas de Expressão. O Dossiê das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro (2006) apresenta este patrimônio como em vias de desaparecimento e também sugere medidas de salvaguarda. A principal delas seria a promoção da prática dessas formas musicais do passado, acreditando que assim elas poderão ser revitalizadas e transmitidas para as gerações futuras. Mas, será realmente possível repetir formas musicais do passado no presente? A apropriação por parte das novas gerações não acarretaria uma ressignificação dessas matrizes? Isso significa que sua perda é irremediável? Nas práticas de preservação, persiste em aberto a questão de dar uma nova função na coletividade ao patrimônio cultural, recomendação presente tanto na Convenção para Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural (UNESCO, 1972) 3

Usaremos o conceito de salvaguarda da maneira que ele é definido na Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO de 2003. Este documento define que a salvaguarda é o instrumento de proteção do patrimônio intangível, sendo portanto, diferente da conservação e da restauração que se ocupam do patrimônio tangível. 4 Preservação é aqui entendido como um conceito que engloba diferentes instrumentos e práticas de proteção do Patrimônio Cultural.

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que trata do patrimônio material, quanto na Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (UNESCO, 2003). Traçaremos um paralelo entre os dois documentos no que tange a questão da “revitalização” bem como analisaremos o significado desse termo a partir da análise bibliográfica. A “revitalização” das matrizes do samba carioca por meio do instrumento da salvaguarda é analisada a partir das Teorias da Conservação do século XIX que por sua vez influenciaram e impulsionaram reflexões e práticas posteriores no campo da conservação - estas tendem ora para a tendência intervencionista de Viollet-Le-Duc, ora para a não-intervencionista de Ruskin. Procuramos demonstrar que estas teorias também podem ser esclarecedoras quando se trata da salvaguarda dos bens imateriais.

2. Paralelos entre a conservação do patrimônio material e a salvaguarda do patrimônio imaterial A preocupação com a conservação do patrimônio material acontece desde, pelo menos, a Idade Antiga. Essas práticas são sistematizadas no século XIX incluindo-se aí a criação de uma legislação específica para cuidar do assunto -, quando a restauração e a conservação estão organizando-se enquanto disciplina. É também neste período que a revolução industrial estabelece na Europa uma ruptura dramática na percepção sobre o tempo. Os modos de vida, artefatos e construções mudaram rapidamente, criando um grande fosso entre um “antes” e um “depois”. Assim, o sentimento de que as obras e acontecimentos do passado estavam em vias do desaparecimento impulsiona as ações de conservação do patrimônio material. Na França, Viollet-le-Duc conceitua e pratica a restauração, preocupado não em estabelecer o estado original das construções, mas sim um estado ideal “[...] que pode não ter existido nunca em um dado momento” (VIOLLET-LE-DUC, 2006, p. 29). Ele acreditava que se o arquiteto responsável pela restauração, através de um estudo pormenorizado, conhecesse profundamente o projeto inicial de uma construção, bem como os estilos arquitetônicos ali representados, poderia imaginar como o construtor original teria agido se possuísse, à época, todos os recursos do século XIX; este seria o estado “ideal” da construção em questão. Foi duramente criticado por realizar restaurações que reconstruíam partes consideráveis de edifícios, por incluir detalhes até então inexistentes, por muitas vezes não respeitar as modificações (consideradas por ele como “defeitos”) que a construção havia sofrido ao longo do tempo. Mas Viollet-le-Duc também contribuiu para a disciplina Restauração, sendo o primeiro a

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formular uma metodologia desta prática, além de pensar em questões que permanecem em aberto até os dias de hoje, como a problemática de se restaurar não só o edifício, mas também sua função, o que implica, ao se restaurar uma construção, em se ter em mente a função que ela terá no futuro. O pólo oposto ao pensamento de Viollet-le-Duc seriam as idéias de seu contemporâneo John Ruskin que não admitia a restauração, acreditando que esta prática apenas colocava diante de nossos olhos uma mentira, pois sua premissa seria “despedaçar a obra antiga” (RUSKIN, 2008, p 30). Ruskin defendia que a preocupação com o patrimônio material deveria ser contínua – o que hoje chamaríamos de conservação preventiva – e se alguma construção ou monumento não tivesse recebido este tipo de atenção e chegasse a um ponto crítico, o melhor era deixar que este patrimônio se perdesse e desabasse por completo, porque em verdade ele já estava no fim de sua vida. A construção, como a vida de um homem, teria um tempo de vida determinado, sendo a morte a conseqüência final; o trabalho do conservador seria comparado ao trabalho de um médico que possui os meios para retardar ao máximo esse término. Essa corrente teórica defendia que em se tratando de edifícios antigos o melhor era intervir o mínimo possível, acreditando que prevenir e reparar os danos eram ações suficientes para conservá-los. Após Viollet-le-Duc e Ruskin, muitos outros como Camilo Boito , Alois Riegl , Cesari Brandi, Salvador Munhos Viñas se ocuparam da questão da preservação do patrimônio material. Cada um desses teóricos tentou equilibrar as ações de caráter intervencionistas e não intervencionistas primeiramente discutidas por Viollet-le-Duc e Jonh Ruskin, respectivamente. Ao longo dos anos, no mundo ocidental a preservação do patrimônio material tem sido o foco das políticas públicas patrimoniais de Estados nacionais e de organizações internacionais como a UNESCO. Porém, depois da Segunda Guerra Mundial, observa-se um alargamento do conceito de patrimônio: aos poucos a tradicional ênfase na materialidade (ou seja, a preocupação apenas com os chamados bens móveis e imóveis como objetos de museus, construções e monumentos) vai diminuindo e os aspectos imateriais do patrimônio vão cada vez mais ganhando espaço. Isso não significa que no século XIX, os aspectos imateriais do patrimônio fossem ignorados; edifícios, monumentos e objetos museológicos sempre foram valorizados como símbolo de algo importante para uma comunidade específica, seja por terem pertencido a personalidades ou por terem participado de eventos históricos,

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ou ainda por representarem aspectos constitutivos das identidades nacionais. Porém, é a partir da segunda metade da década de 1940 que o conceito de patrimônio imaterial ou intangível vai sendo cunhado e utilizado, e crescem as preocupações com sua preservação. Em 2003, a Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial definiu o patrimônio imaterial como o conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como sendo parte de seu patrimônio cultural. A partir desse processo o patrimônio imaterial começa a engendrar novas formas de preservação, à primeira vista bem diferentes das práticas de conservação e restauração do patrimônio material. Uma construção pode ter passado por várias modificações ao longo do tempo e muitos estudos podem ser feitos para se saber qual o contexto histórico destas transformações. Cabe aos profissionais encarregados optarem por qual tempo histórico privilegiar em suas restaurações, por manter-se ou não as modificações. Na questão da conservação preventiva o objetivo é retardar ao máximo o processo natural de destruição do patrimônio material. No caso do patrimônio imaterial, por se tratarem muitas vezes de manifestações, fazeres e expressões relacionadas à cultura popular - que não possuem nenhum tipo de registro de suas primeiras formas - o trabalho de documentação das fases desses bens mostra-se bastante difícil. Ainda mais importante é a reflexão a respeito da constante transformação desse patrimônio, que torna o conceito de “autêntico” ainda mais problemático. Para a preservação do patrimônio imaterial é utilizado o instrumento da salvaguarda, definido pela Convenção de 2003 como o conjunto de medidas que visam garantir a viabilidade do patrimônio cultural imaterial: práticas como a identificação, a documentação, a investigação, a preservação, a proteção, a promoção, a valorização, a transmissão “[...] e a revitalização deste patrimônio em seus diversos aspectos.” (UNESCO, 2006, p. 5). Percebemos a ratificação da revitalização e da questão de se dar uma função na sociedade ao patrimônio, algo que como vimos já era discutido por Viollet-le-Duc no século XIX com relação ao patrimônio arquitetônico. Até hoje, em se tratando do patrimônio material, as revitalizações são bastante mencionadas nas práticas de preservação de conjuntos arquitetônicos, como no caso dos centros históricos urbanos. Porém, o significado do que seria “revitalizar” ainda é controverso. Para Freitag (2003), em se tratando de revitalizações de construções antigas de cidades históricas que foram modificadas ao longo dos anos pelos imperativos da modernidade (Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, entre outras) o objetivo seria “devolver” a

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função original destas construções. Uma antiga confeitaria deveria ser revitalizada no sentido de novamente funcionar como confeitaria, bem como um antigo cinema e assim por diante. Já para Oliveira (2008), revitalizar significa criar nova vitalidade, dar novo grau de eficiência, reabilitar. Esta autora também critica a revitalização por relacionar-se na verdade com a crescente mercantilização e banalização do patrimônio, e com o processo denominado pelo termo gentrification, ou seja, a expulsão da população local substituída por uma elite interessada em um local “diferenciado”. Esses centros históricos durante as “revitalizações” passariam por um processo que combina a restauração de antigos edifícios com a reconstrução de espaços públicos, medidas que procuram acima de tudo a beleza estética. O objetivo principal seria atrair o interesse do mercado imobiliário e da indústria do turismo, agora empenhada em proporcionar aos turistas uma “experiência cultural” em um espaço intencionalmente modelado para estimular o consumo. Assim, o patrimônio torna-se produto de luxo para elites, com rótulo de “cultural”. Corroborando com as idéias da autora, não podemos deixar de citar o exemplo da revitalização do centro histórico de Salvador, o Pelourinho. Nesta “revitalização” a população local foi expulsa e o espaço foi ocupado pela atividade comercial voltada para os turistas5. É possível perceber nessas revitalizações contemporâneas a herança do pensamento de Viollet-le-Duc, mesmo que a hipótese não seja admitida por aqueles que dirigem esses empreendimentos. A importância dada ao valor estético e ao turismo articula-se à concepção de “estado ideal” defendida por Viollet-le-Duc. Seria como se os responsáveis por estes trabalhos imaginassem o que teriam feito os construtores do centro histórico se à época estivem imbuídos das preocupações atuais de se transformar o patrimônio em um produto destinado ao turismo. De qualquer maneira, as confusões com relação ao significado do que seria “revitalizar” um patrimônio não são aleatórias. A Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural de 1972 da UNESCO - que trata da preservação dos conjuntos arquitetônicos - recomenda em seu Artigo 5° que se determine uma função na vida coletiva para o patrimônio cultural e que se realize o aperfeiçoamento de métodos de intervenção. Não há maiores detalhamentos da natureza dessa função, se seria a função anterior do conjunto ou uma nova função. A Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Imaterial de 2003 novamente deixa em aberto as questões da “revitalização” desse patrimônio e da recomendação de se 5

Fato noticiado pela revista Carta Capital, na edição de 27 de Abril de 2011.

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integrar o patrimônio imaterial a sociedade por meio de uma função que novamente não tem sua natureza especificada6. Novos instrumentos, antigas questões e críticas: como revitalizar ou dar uma função na sociedade para o patrimônio cultural? Fernándes (2011), assim como Oliveira (2008), alerta para a entrada do capital na salvaguarda do patrimônio imaterial dando especial ênfase novamente para o turismo. No caso da “revitalização” de manifestação, fazeres e saberes, corre-se o risco de ou engessarmos este patrimônio em formas acabadas, ou de os banalizarmos. Enfim, o termo “revitalização” chama a atenção para o risco que se corre em tentar “remoçar” ou criar “um estado ideal” do patrimônio imaterial através da sua inserção na lógica da encenação, da teatralização, na tentativa de aglutinar a estes bens aspectos presentes na lógica do turismo. Por outro lado, não podemos esperar que a dinâmica do patrimônio imaterial aconteça totalmente à parte do mercado, porque afinal como tornar estas práticas viáveis se seus executantes não possuem os meios para tal? Uma manifestação não é apenas imaterial, ela tem efeitos materiais: necessita de objetos, lugares, roupas, etc. É preciso incentivo financeiro para que as comunidades possam perpetuar seu patrimônio frente às pressões de um mundo cada vez mais regido pelo consumo.

3. As matrizes do samba do Rio de Janeiro e sua preservação Em 2007, as matrizes do samba carioca foram registradas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No Brasil, o Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000 instituiu o registro do patrimônio imaterial nos livros de registro (Livro de Registro dos Saberes, Livro de Registro das Celebrações, Livro de Registro das Formas de Expressão, Livro de Registro dos Lugares) e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI). As matrizes foram então registradas no Livro das Formas de Expressão; seriam elas: o samba de partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo. É importante que caracterizemos de forma sucinta estas matrizes. O partido-alto é um tipo de samba cantado em forma de desafio por dois ou mais participantes que realizam frases improvisadas ou provenientes do repertório tradicional, estes cantos são intercalados por uma parte coral cantada por um grupo de pessoas (refrão), sendo que 6

Segundo o Artigo 13 da Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Imaterial (2003): “Para assegurar a salvaguarda, o desenvolvimento e a valorização do patrimônio cultural imaterial presente em seu território, cada Estado Parte empreenderá esforços para: a) adotar uma política geral visando promover a função do patrimônio cultural imaterial na sociedade e integrar sua salvaguarda em programas de planejamento;” (UNESCO, 2003, p 8)

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não há obrigatoriedade em se manter o mesmo assunto do refrão nas partes improvisadas. A formação desta matriz teria ocorrido no início do século XX e seria o resultado do cruzamento de diversas práticas musicais e coreográficas como as chulas, o lundu, o samba rural paulista, o samba de roda baiano e o calango (BRASIL, 2006). O partido-alto é um gênero que se apóia na capacidade do sambista de criar no momento da performance versos capazes provocar tanto o outro sambista, como também os outros participantes. O samba de terreiro é caracterizado não por questões estilísticas e formais, mas sim por seu contexto: o samba é de terreiro quando é realizado no terreiro. O terreiro é um espaço sócio-cultural que pode ser o quintal das casas onde os sambas eram cantados, ouvidos e dançado, ou o terreiro de candomblé (BRASIL, 2006). Em um sentido mais restrito o termo terreiro também designa a área comum das escolas de samba, e neste contexto o samba de terreiro é aquele realizado para consumo interno dos participantes do samba organizado. Um samba só pode ser designado como de terreiro pelo grupo de sambistas reconhecidos pela comunidade, já que esta classificação deriva do fato do samba ter sido apresentado nas rodas realizadas no terreiro. Por dependerem apenas do contexto onde são realizados, os sambas de terreiro têm grande variedade estilística: podem se confundir com o próprio partidoalto, dando grande ênfase ao improviso, ou podem ter somente partes fixas. O tema mais recorrente no samba de terreiro é o elogio a escola com utilização da simbologia comum a comunidade que reforça o sentimento de identidade dessa organização; a função coletiva do samba de terreiro é provavelmente seu maior valor cultural (BRASIL, 2006). O samba-enredo baseia-se na estrutura do desfile carnavalesco, associando a sonoridade da bateria da escola de samba com uma forma de canção narrativa. Mas, é preciso distinguir três tipos de samba enredo: 1 - os sambas cantados nos primeiros desfiles, nos anos 1930, que não tinham, na maioria dos casos, não se constituíam como uma narrativa; 2 - os sambas que já eram narrativas, mas compostos musicalmente de uma maneira que não se diferenciava de outros sambas dos mesmos compositores, que prevaleceram aproximadamente do final dos anos 1930 até o final dos anos 1940; 3 - os sambas-enredo propriamente ditos, que desde então associam uma função determinada no desfile a uma forma musical específica (BRASIL, 2006). É importante ressaltar que essas formas musicais não correspondem ao que a maioria da população conhece como samba. Também é importante dizer que o termo

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samba é utilizado para denominar diferentes manifestações como o samba do Recôncavo Baiano, ou o samba rural paulista. As matrizes do samba carioca dizem respeito a um gênero musical surgido na cidade do Rio de Janeiro por volta do final do século XIX e criado por negros pobres recém-alforriados que viviam principalmente no Bairro da Saúde. Sofrendo forte preconceito e tendo suas manifestações culturais e religiosas oprimidas pela força policial, essa população se esforça para manter vivas suas tradições afro-brasileiras, destacando-se aí o grupo de negros que vinham da Bahia e que constituíam uma liderança cultural e política. O samba então nasce de variadas experimentações, estabelecendo um espaço cultural que escapa a opressão do trabalho agora não mais compulsório, mas mal-remunerado (TINHORÃO, 1998). O samba carioca é gravado pela primeira vez em 1917, é o samba “Pelo Telefone” registrado como sendo de autoria do músico Donga e do jornalista Mauro de Almeida. Inicialmente marginalizado, o samba carioca a partir da década de 1930 passa a ser um dos símbolos nacionais, utilizado até hoje para descrever a identidade brasileira. Vianna (2010) descreve esta trajetória do samba carioca como sendo um processo que envolveu vários atores de várias classes sociais: intelectuais, políticos, músicos eruditos, negros, baianos, ciganos, franceses, milionários, entre outros, todos em maior ou em menor grau teriam ajudado na fixação do gênero. Já Matos (1982) destaca a ação do governo ditatorial de Getúlio Vargas que estimulou a entrada do samba carioca para as indústrias fonográfica e radiofônica, esforçando-se para transformar esta manifestação provinda das classes populares em símbolo de brasilidade para em troca conquistar sua simpatia e apoio. O samba então chega até nossos dias não como expressão de uma classe social específica, mas como gênero que conquistou reconhecimento nacional, sendo consagrado no Carnaval no tradicional desfile das escolas de samba. Os sambas-enredos dos desfiles estão bem distantes da matriz descrita pelo Dossiê, assim como o samba interpretado por cantores e grupos de samba da contemporaneidade é bem diferente do partido-alto e do samba de terreiro. O próprio Dossiê descreve este “afastamento” das formas e práticas musicais das matrizes do samba carioca, o principal elemento que estaria se perdendo seria a prática do improviso, cultivado anteriormente nas três matrizes. O improviso musical é uma prática que consiste na criação de letra e melodia no momento da performance, sendo muito comum em vários estilos musicais, é como um jogo entre os participantes que tentam “ganhar” o desafio de criarem e executarem sua composições em um único momento. Sua perda estaria relacionada à entrada maciça da produção de sambas na

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lógica do estúdio de gravação e a conseqüente profissionalização dos sambistas. Nesse espaço, não há tempo para experimentações, a produção em massa exige que os músicos sejam rápidos e perfeitos, sendo o erro – obviamente presente na prática do improviso – mal visto. Outra questão apontada pelo Dossiê é a importância de que as novas gerações conheçam e pratiquem as matrizes do samba carioca, pois os jovens estariam se afastando cada vez mais dessas práticas. Diante do risco de perda dessas manifestações tornam-se necessárias medidas de salvaguarda. O Dossiê então, recomenda que seja realizado um trabalho de documentação dessas práticas, por meio de entrevistas com os sambistas mais velhos e do registro de melodias e letras de antigos sambas. Também aponta para a necessidade de se promover a criação de centros de memória dessas matrizes dentro das comunidades onde o samba se originou, e/ou na Cidade do Samba, e para capacitação de pesquisadores que façam parte das comunidades de sambistas. Porém, a principal medida recomendada pelo Dossiê seria a promoção da prática dessas matrizes dentro das comunidades onde foram criadas: “Mas acima de tudo, é preciso ouvir, cantar e dançar esses sambas” (BRASIL, 2006, p.120). A sugestão é de que essa prática poderia ser transmitida às novas gerações através da promoção de rodas de versadores, onde sambistas antigos e novos pudessem se encontrar para improvisar. Dessa maneira, as matrizes seriam retomadas e “revitalizadas”. O que desejamos destacar é que a prática no presente dessas matrizes dificilmente seria no sentido de repetir as formas musicais do passado. É provavelmente impossível se retomar uma prática musical tão relacionada ao seu momento histórico, pois os negros das comunidades que o Dossiê aponta como criadoras do samba não são mais os mesmos, apesar de ainda estarem em posição social desfavorecida. Novamente temos a confusão com a questão da revitalização. Ainda não é claro se esse compromisso em se preservar o patrimônio por meio do estabelecimento de uma função na sociedade se refere a “devolver” a função que a manifestação possuía antes ou dar uma outra (decorrendo desse novo lugar todas as implicações em relação a entrada do patrimônio na lógica do mercado, como anteriormente discutido). Além disso, será possível afirmar com certeza que o samba pertence apenas a essas comunidades? Tinhorão (1998) nos revela que já na década de 1940 o samba era praticado e criado por músicos brancos e o próprio Dossiê (2006) aponta

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que as rodas de samba de partido-alto continuam presentes, mas em outros locais que não seriam os locais da comunidade supostamente detentora dessas matrizes7. De qualquer maneira voltar ao passado é impossível, é preferível considerar que a salvaguarda deve se concentra principalmente nos processos inerentes à transmissão e à comunicação do patrimônio de uma geração para outra, e não tanto na produção de suas manifestações concretas (FERNÁNDES, 2011). Vejamos por exemplo a afirmação de que a prática do improviso estaria se perdendo, se olharmos com atenção veremos que a improvisação pode não estar mais tão marcante no samba, porém é bastante praticada em manifestações como o rap - tão presente nas periferias das grandes cidades. O que nos leva diretamente a questão da transmissão dessas práticas às novas gerações e a necessidade de despertar o interesse dos jovens por essas tradições. Pensamos que a preservação do patrimônio intangível talvez precise abandonar pretensões de retorno a formas “autênticas”; uma manifestação tem função à medida que pode ser manipulada livremente pelas novas gerações, ou, caso contrário, ela se torna uma forma musical engessada e distante. Como os novos sambistas poderiam continuar compondo com formas musicais, melodias e letras semelhantes as das matrizes do samba carioca? A linguagem musical, como toda produção cultural é fruto do seu contexto histórico e social. Pensemos por exemplo no caso da música erudita ocidental, o que seria de sua história se todos os compositores continuassem compondo à maneira de Bach? É essa mesma música que vai sendo manipulada ao longo do tempo até chegarmos a compositores contemporâneos como Philip Glass. Isso não diminui a importância das orquestras continuarem executando Bach. Esse mesmo raciocínio aplica-se no caso das matrizes do samba carioca, podem-se executar estes sambas, mas para que eles sejam transmitidos de uma geração para outra, fatalmente passarão por modificações. Mas, permitindo que as matrizes sejam modificadas criativamente não estaríamos correndo o risco de perdê-las para sempre? Nesse ponto as idéias de Viollet-le-Duc e de Ruskin, apesar de tratarem do patrimônio de pedra e cal, podem ser úteis. Se as matrizes do samba carioca estão quase perdidas para essas comunidades de origem como afirma o Dossiê (2006), as idéias de Ruskin apontam que o melhor seria deixar morrer essas formas musicais; é como se elas fossem um edifício em ruínas, e restaurá-lo seria impossível. Já Viollet-le-Duc se esforçaria para restaurar esse edifício. Seguindo seu pensamento, as matrizes do samba carioca 7

“Já partido tradicionais são cantados atualmente em rodas promovidas por bares e centros culturais em outros pontos da cidade, fora das comunidades onde foram criados” (BRASIL, 2006, p 118).

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precisariam ser “revitalizadas” pensando-se na sua nova função na sociedade, sendo que partes dessa manifestação poderiam ser inteiramente recriadas. Certamente não poderíamos pensar em forma ideal à maneira de Viollet-le-Duc. Se esse conceito se aplica mal às construções, pior ainda o seria no caso de manifestações, onde é muito difícil se definir o “certo” e o “errado”. Precisaríamos tomar bastante cuidado na hora de definir essa nova função, para não mantermos a prática comum de se associar a preservação do patrimônio ao turismo, ou seja, para não reiterarmos a idéia de que a única função que o patrimônio pode exercer na sociedade é a de ponto turístico. Quanto às recriações, essas não poderiam de forma alguma ficar à cargo dos agentes da salvaguarda, como no século XIX ficavam à cargo de Viollet-le-Duc, mas sim da comunidade de novos e antigos sambistas. A própria Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Imaterial (2003) já aponta para a necessidade de se garantir a participação das comunidades que criam, mantém e transmitem o patrimônio intangível8.

4. Considerações Finais Repetir na prática uma manifestação do passado não é possível. Uma forma musical que nasceu tão fortemente vinculada a um momento histórico específico como o samba carioca não poderia ser “resgatada”. A própria dinâmica do patrimônio imaterial aponta para uma contínua transformação e é preciso também salvaguardar este aspecto, evitando-se assim, sua fossilização ou esvaziamento de sentido (FERNÁNDES, 2011). Porém, é difícil que deixemos morrer, como pregava Ruskin, um gênero musical que ainda tem grande ressonância junto a uma ampla comunidade. Reconstruí-la como um edifício em ruínas aos moldes de Viollet-le-Duc, procurando-se encontrar um “estado ideal” poderia nos levar a resultados insatisfatórios, como no caso das revitalizações atuais de alguns centros históricos urbanos. O registro documental das matrizes do samba carioca – medida também sugerida pelo Dossiê (2006) - pode proporcionar o registro sonoro, marcando uma forma determinada, relacionada a um contexto cultural e histórico também determinado. Assim, este patrimônio imaterial poderia ser reproduzido e re-utilizado, e 8 O Artigo 15° trata da participação das comunidade s, grupos e indivíduos: “No quadro de suas atividades de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, cada Estado Parte deverá assegurar a participação mais ampla possível das comunidades, dos grupos e, quando cabível, dos indivíduos que criam, mantém e transmitem esse patrimônio e associá-los ativamente à gestão do mesmo” (UNESCO, 2003, p 9).

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teríamos a abertura para uma “revitalização” dessas matrizes que seguiriam se modificando em consonância com o momento em que estão sendo criadas. Podemos preservar essas matrizes se admitirmos que elas possam ser ressignificadas pelas novas gerações, mantendo-se assim o fluxo de mudança constante do patrimônio imaterial.

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