ISSN 2237-1508 Ano VI nº 11 - abr/2016 a set/2016 www.pragmatizes.uff.br
Carnaval de rua no Rio de Janeiro: afetos e participação política
DOSSIÊ “MÚLTIPLOS CARNAVAIS: ECONOMIA E POLÍTICA NAS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS POPULARES” DOSSIER “MULTIPLE CARNIVALS: ECONOMICS AND POLITICS IN THE POPULAR CULTURAL EVENTS”
Apresentação do Dossiê “Quando o carnaval chegar”: Carnavais em múltiplos e variados enfoques Dossier’s presentation
“Quando o carnaval chegar”: Carnivals in multiple and varied approaches MARINA BAY FRYDBERG
Street carnival in Rio de Janeiro: affects and political participation JORGE E. SAPIA
O Carnaval do Mindelo, Cabo Verde: reflexões sobre a festa e a cidade The Carnival of Mindelo, Cape Verde: reflections on the festival and the city JULIANA BRAZ DIAS
O bairro do Recife e a Economia Criativa: do Carnaval Multicultural ao Paço do Frevo Recife City District and the Creative Economy: from Multicultural Carnival to Paço do Frevo´s creation CARLA LYRA
Manaus, 2014: o carnaval que nunca terminou Manaus, 2014: the Carnival that never ended RICARDO JOSÉ DE OLIVEIRA BARBIERI
Escolas de Samba nos Pampas: textos e contextos da interculturalidade no carnaval de Uruguaiana Samba Schools in Pampas: texts and contexts of the interculturality in the Uruguaiana’s carnival ULISSES CORRÊA DUARTE
Bananas e abacaxis nos “quintais” do carnaval carioca - impressões etnográficas sobre a produção de um desfile de escola de samba da Estrada Intendente Magalhães Bananas and pineapples in Rio’s carnival “backyards” - ethnographic views on the production of a samba school parade at Intendente Magalhães Avenue
Carnaval, uma festa democrática? Discussão sobre segregação social e o direito à cidade a partir do universo carnavalesco do Rio de Janeiro Carnival, a democratic festivity? Discussions about social segregation and right to the city in the carnival universe of Rio de Janeiro THAIS CUNEGATTO
Blocos carnavalescos: culturas populares, culturas híbridas no carnaval de rua do Rio Carnival street bands (blocos): popular cultures, hybrid cultures of street carnival in Rio de Janeiro RITA FERNANDES
Sambantropologia Sambantropology VINICIUS FERREIRA NATAL
LEONARDO AUGUSTO BORA
Os blocos de enredo do carnaval carioca: identidade e organização The blocos de enredo carnival city of Rio de Janeiro: identity and organization JULIO CESAR VALENTE FERREIRA
Atrás do nosso bloco só não vai quem já morreu - o corpo carnavalesco de Mário de Andrade Behind our block will not only those who have died - Carnival in Mário de Andrade’s body LUCAS GARCIA NUNES
P r a g M AT I Z E S Revista Latino Americana de Estudos em Cultura Ano VI nº 11 - abr/2016 a set/2016 EDITORES 1. Flávia Lages, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, Departamento de Arte, Curso de Produção Cultural, Brasil 2. Luiz Augusto Rodrigues, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, Departamento de Arte, Curso de Produção Cultural, Brasil 3. Ana Enne, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, Departamento de Estudos de Mídia, Brasil CONSELHO EDITORIAL 1. Adriana Facina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Brasil 2. Christina Vital, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Sociologia, Brasil 3. Danielle Brasiliense, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Comunicação, Brasil 4. João Domingues, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, Departamento de Arte, Curso de Produção Cultural, Brasil 5. José Maurício Saldanha Alvarez, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Estudos de Mídia, Brasil 6. Leandro Riodades, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Artes e Estudos Culturais, Brasil 7. Leonardo Guelman, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Arte, Brasil 8. Lívia de Tommasi, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Sociologia, Brasil 9. Lygia Segala, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Fundamentos Pedagógicos, Brasil 10. Marildo Nercolini, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Estudos de Mídia, Brasil 11. Paulo Carrano, Universidade Federal Fluminense, Departamento Sociedade, Educação e Conhecimento, Brasil 12. Rossi Alves, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Artes e Estudos Culturais, Brasil 13. Wallace de Deus Barbosa, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Arte, Brasil COMITÊ EDITORIAL 1. Adair Rocha, Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Comunicação Social, Brasil 2. Alberto Fesser, Socio Director de La Fabrica em Ingenieria Cultural / Director de La Fundación Contemporánea, Espanha 3. Alessandra Meleiro, Universidade Federal de São Carlos, Brasil 4. Alexandre Barbalho, Universidade Estadual do Ceará e Universidade Federal do Ceará, PPG Cultura e Sociedade, Brasil 5. Allan Rocha de Souza, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Direito / UFRJ/PPG em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento, Brasil 6. Angel Mestres Vila, Universitat de Barcelona, Master en Gestión Cultural / Director geral de Transit projectes, Espanha 7. Antônio Albino Canela Rubin, Universidade Federal da Bahia, Instituto de Humanidades, Artes e Ciências / Pesquisador do CNPq, Brasil 8. Carlos Henrique Marcondes, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Ciência da Informação, Brasil 9. Cristina Amélia Pereira de Carvalho, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Departamento de Administração / Pesquisadora do CNPq, Brasil 10. Daniel Mato, Universidade Nacional Tres de Febrero, Instituto Interdisciplinario de Estudios Avanzados/CONICET: Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, Argentina 11. Eduardo Paiva, Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação, Brasil 12. Edwin Juno-Delgado, Université de Bourgogne / ESC Dijon, campus de Paris, Faculdad Gestión, Derecho y Finanzas , França 13. Fernando Arias, Observatorio de Industrias Creativas de la Ciudad de Buenos Aires, Argentina 14. Gizlene Neder, Universidade Federal Fluminense, PPG em História, Brasil 15. Guilherme Werlang, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Arte, Brasil 16. Guillermo Mastrini, Universidad Nacional de Quilmes, Maestría en Industrias Culturales, Argentina 17. Hugo Achugar, Universidad de la Republica, Uruguai 18. Isabel Babo - Universidade Lusófona do Porto, Portugal 19. Jaime Ruiz-Gutierrez, Universidad de los Andes, Colombia 20. Jeferson Francisco Selbach, Universidade Federal do Pampa, curso de Produção e Política Cultural, Brasil
REALIZAÇÃO:
APOIO:
21. José Luis Mariscal Orozco, Universidad de Guadalajara, Instituto de Gestion del conocimiento y del aprendizaje en ambientes virtuales, México 22. José Márcio Barros, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PPG em Comunicação, Brasil 23. Julio Seoane Pinilla, Universidad de Alcalá, Master Estudios Culturales, Espanha 24. Lia Calabre, Fundação Casa de Rui Barbosa, Brasil 25. Lilian Fessler Vaz, Universidade Federal do Rio de Janeiro, PPG em Urbanismo, Brasil 26. Lívia Reis, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras, Brasil 27. Luiz Guilherme Vergara, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Arte, Brasil 28. Manoel Marcondes Machado Neto, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento de Ciências Administrativas, Brasil 29. Márcia Ferran, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Artes e Estudos Culturais, Brasil 30. Maria Adelaida Jaramillo Gonzalez, Universidad de Antioquia, Colômbia 31. Maria Manoel Baptista, Universidade de Aveiro, Departamento de Línguas e Culturas, Portugal 32. Marialva Barbosa, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação / Pesquisadora do CNPq, Brasil 33. Marta Elena Bravo, Universidad Nacional de Colombia – sede Medellín, Profesora jubilada y honoraria da Faculdad de Ciencias Humanas y Económicas, Colombia 34. Martín A. Becerra, Universidad Nacional de Quilmes / CONICET: Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, Argentina 35. Mónica Bernabé, Universidad Nacional de Rosario, Maestria en Estudios Culturales, Argentina 36. Muniz Sodré, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação / Pesquisador do CNPq, Brasil 37. Orlando Alves dos Santos Jr., Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Brasil 38. Patricio Rivas, Escola de Gobierno de la Universidad de Chile, Chile 39. Paulo Miguez, Universidade Federal da Bahia, Instituto de Humanidades, Artes e Ciências, Brasil 40. Ricardo Gomes Lima, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Departamento de Artes e Cultura Popular, Brasil 41. Stefano Cristante, Università del Salento, Professore associato in Sociologia dei processi culturali, Italia 42. Teresa Muñoz Gutiérrez, Universidad de La Habana, Profesora Titular del Departamento de Sociologia, Cuba 43. Tunico Amâncio, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Cinema, Brasil 44. Valmor Rhoden, Universidade Federal do Pampa, curso de Relações Públicas [com ênfase em Produção Cultural], Brasil 45. Victor Miguel Vich Flórez, Pontifícia Universidad Católica del Perú, Maestría de Estudios Culturales, Peru 46. Zandra Pedraza Gomez, Universidad de Los Andes / Maestria em Estudios Culturales, Colômbia EDITORES ASSOCIADOS JUNIOR: 1. Bárbara Duarte, doutoranda em Sociologia, Universidade Federal da Paraíba 2. Deborah Rebello Lima, mestranda em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC, Fundação Getúlio Vargas / pesquisadora pela Fundação Casa de Rui Barbosa 3. Gabriel Cid, doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro 4. Leandro de Paula Santos, doutorando em Comunicação pela ECO, Universidade Federal do Rio de Janeiro 5. Marine Lila Corde, doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro 6. Sávio Tadeu Guimarães, doutorando em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR, Universidade Federal do Rio de Janeiro 7. Virginia Totti Guimarães, doutoranda em Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro / professora de Direito Ambiental (PUC-Rio) CRIADOR DA MARCA: Laert Andrade DIAGRAMAÇÃO: Ubirajara Leal
PARCEIROS:
PragMATIZES – Revista Latino Americana de Estudos em Cultura.
Ano VI nº 11, (ABR/2016 a SET/2016). – Niterói, RJ: [s. N.], 2016.
(Universidade Federal Fluminense / Laboratório de Ações Culturais - LABAC)
Semestral
ISSN 2237-1508 (versão on line)
1. Estudos culturais. 2. Planejamento e gestão cultural.
3. Teorias da Arte e da Cultura. 4. Linguagens e expressões artísticas. I. Título.
CDD 306
Universidade Federal Fluminense - UFF Instituto de Artes e Comunicação Social - IACS | Laboratório de Ações Culturais - LABAC Rua Lara Vilela, 126 - São Domingos - Niterói / RJ - Brasil - CEP: 24210-590 +55 21 2629-9755 / 2629-9756 | pragmatizes@gmail.com
Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016
O Carnaval do Mindelo, Cabo Verde: reflexões sobre a festa e a cidade El Carnaval de Mindelo, Cabo Verde: reflexiones sobre la fiesta y la ciudad The Carnival of Mindelo, Cape Verde: reflections on the festival and the city Juliana Braz Diasi
Resumo:
Palavras chave: Carnaval Cidade Escalas Mindelo Cabo Verde
Este artigo traz algumas reflexões sobre a relação entre o carnaval e a Cidade do Mindelo, na Ilha de São Vicente (Cabo Verde). Tal relação desenrola-se em um processo de influências mútuas, onde um age na constituição do outro, de modo dinâmico. Desenvolvo, especialmente, três pontos. Primeiro, numa perspectiva histórica, demonstro como o carnaval deve ser compreendido na sua vinculação à singularidade da formação social na Ilha de São Vicente. Em segundo lugar, trato das formas como o carnaval tem desafiado os limites internos à cidade, marcada pela coincidência de fronteiras entre bairros e estratos sociais. Por fim, abordo a questão da escala, apresentando o dilema vivido pelos habitantes de São Vicente, entre a pequenez da Ilha e o crescimento da sua festa maior, o carnaval.
Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 95
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Resumen:
En este artículo se reflexiona sobre la relación entre el carnaval y la Ciudad de Mindelo, en la Isla de San Vicente (Cabo Verde). Esta relación se desarrolla en un proceso de influencias mutuas, donde uno actúa en la constitución del otro, dinámicamente. Discuto, en especial, tres puntos. En primer lugar, en un enfoque histórico, trato de mostrar cómo el carnaval debe entenderse en su relación con la singularidad de la formación social en la Isla de San Vicente. En segundo lugar, presento las formas en que el carnaval ha desafiado los límites internos a la ciudad, marcada por la coincidencia de los límites entre los barrios y estratos sociales. Por último, se aborda el tema de la escala, mostrando el dilema del pueblo de San Vicente, entre la pequeñez de la Isla y el crecimiento de su fiesta más grande, el carnaval.
Palabras clave: Carnaval Ciudad Escalas Mindelo Cabo Verde
Abstract:
Keywords: Carnival City Scales Mindelo Cape Verde
This article is a discussion on the relationship between the carnival and the City of Mindelo, in São Vicente Island (Cape Verde). This relationship unfolds in a process of mutual influences where one acts in the constitution of another, dynamically. The discussion aims at three points, in particular. First, with a historical perspective, I demonstrate how carnival should be understood in its relation to the uniqueness of the social formation of São Vicente Island. Second, I presenthow carnival has challenged the internal limits of the city, usually marked by the coincidence of boundaries between neighborhoods and social strata. Finally, I address the issue of scale, focusing on the dilemma experienced by the people of São Vicente, caught between the smallness of the Island and the growth of its biggest party, the carnival.
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Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016
O Carnaval do Mindelo, Cabo Verde: reflexões sobre a festa e a cidade Introdução Naquele 11 de fevereiro de 2015, uma quarta-feira que antecedia ao carnaval, estava em festa o Aeroporto InternacionalCesária Évora, na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Era chegada de voo vindo de Amsterdã, trazendo gente ansiosa para se juntar aos festejos pelas ruas da Cidade do Mindelo. Muitos eram turistas, avisados de que aqueles seriam dias ideais para experimentar a musicalidade e a animação que fazem conhecida a pequena ilha atlântica. Outros tantos eram cabo-verdianos emigrados, filhos da terra que um dia deixaram o país natal em busca de uma vida melhor, mas que não deixam escapar a oportunidade de voltar, ainda que só por uns dias, e reviver o aconchego e a alegria de São Vicente. A recepção dos recém-chegados foi à altura de suas expectativas. Logo à frente do aeroporto, deparavam-se com uma cena impactante: passistas, rainhas e uma porta-bandeira, em trajes coloridos, dançavam sob sol escaldante ao somproduzido pelos integrantes da bateria.Poderiam ser confundidos com uma escola de samba brasileira, não fosse pela paisagem ao redor. As características rochas nuas da Ilha, castigadas pelo clima árido, serviam como moldura para uma estátua de Cesária Évora, a mais renomada filha da terra, que parecia olhar serena para a passista em movimento. O carnaval de São Vicente tem sido pensado, por especialistas e gente comum, através desse prisma comparativo. O Brasil é sempre uma referência im-
portante a balizar as reflexões sobre os festejos que animam as ruas da pequena ilha. Mas se o olhar para o outro lado do Atlântico não pode ser evitado, tampouco deve ofuscar o que Cabo Verde tem de próprio. Neste artigo, direciono a atenção para o carnaval de São Vicente em sua relação com a cidade, a ocupação dos espaços urbanos e a questão da escala. Busco revisitar um tema abordado por vários outros autores que se dedicaram ao estudo dos festejos de carnaval, sobretudo no Rio de Janeiro, atenta agora às singularidades da experiência carnavalesca pelas ruas do Mindelo. Venho desenvolvendo pesquisas de caráter etnográfico sobre a cultura popular em Cabo Verde há mais de 15 anos. Minha atenção tem se voltado em especial para o gênero musical conhecido como “morna”, um dos principais símbolos da identidade nacional cabo-verdiana (DIAS, 2004; 2008; 2010; 2011a; 2011b;2012a; 2012b; 2012c; 2014). A importância da música em Cabo Verde é revelada nas formas de sociabilidade locais e na maneira como os cabo-verdianos se pensam enquanto uma totalidade original. Sua relevância extrapola ainda a dimensão simbólica e ganha peso em projetos voltados para o desenvolvimento do país, no âmbito das “economias criativas” (FURTADO, 2014). Apenas mais recentemente (nos últimos dois anos), comecei a incluir,entre as formas de cultura popular por mim analisadas,o carnaval.II Seu impacto é igualmente notável nos processos de construção de identidade e nos projetos que buscam inserir a cultura popular no universo do turismo, a fim de torná-la cada vez mais atrativa ao visitante e economicamente rentável para a população local. Diferente da morna, que mobiliza os cabo-verdianos em nível nacional, o carnaval está relacionado mais diretamente à Ilha de São Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 97
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura Vicente, uma das dez ilhas que compõem o arquipélago. Já existem atualmente alguns trabalhos voltados para a análise desse festejo, a exemplo da obra de Moacyr Rodrigues (2011), alguns artigos (SANSONE, 2012; VIEIRA FILHO, 2015) e outras investigações em andamento.III Considero, contudo, que o carnaval de São Vicente é ainda um fenômeno pouco explorado em termos antropológicos, podendo render discussões interessantes – tanto em sua singularidade, quanto nos aspectos que o conectam a festejos semelhantes no Brasil e em outras partes do mundo. O que desenvolvo neste artigo são algumas reflexões iniciais sobre a relação do carnaval com a cidade, no contexto cabo-verdiano. Como afirmam Cavalcanti e Gonçalves (2009, p. 10), “[f]esta pública e urbana por excelência, o carnaval conclama os cidadãos a reivindicarem territórios para a folia – rua, avenida, passarela, pista, quadra, terreiro, praça, salão, palco, terraço, onde quer que se possa acender sua faísca”. Essa relação entre a festa e a cidade desenrola-se em um processo de influências mútuas, onde uma age na constituição da outra, de modo dinâmico. Neste trabalho, aponto para três desdobramentos da relação entre o carnaval e a Cidade do Mindelo. Primeiro, num plano histórico, demonstro como o carnaval deve ser compreendido na sua vinculação à singularidade da formação social na Ilha de São Vicente. Em segundo lugar, trato brevemente das formas como o carnaval tem desafiado os limites internos à cidade, que, no tempo comum, está marcada pela coincidência de fronteiras entre bairros e estratos sociais. Por fim, abordo a questão da escala, apresentando o dilema vivido pelos mindelenses, entre a pequenez da Ilha e o crescimento da sua festa maior, o carnaval. Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 98
A cidade, o porto e o florescer da cultura popular São Vicente foi, das ilhas de Cabo Verde, a última a ser habitada. Se a carência de água impedia o uso daquelas terras vulcânicas para a agricultura e a criação de gado, frustrando os que ali tentavam viver, a existência de uma baía perfeita, quase desenhada à mão, trouxe à ilha sua possibilidade de desenvolvimento. Ao redor da baía, transformada em porto, nasceu o povoado que viria a constituir a Cidade do Mindelo, único aglomerado urbano da Ilha de São Vicente, onde se concentra a maior parte da população da Ilha, que alcançamenos de 80 mil habitantes, segundo dados do censo de 2010 (Instituto Nacional de Estatísticas de Cabo Verde, 2016). Foi em meados do século XIX, em um período de intensos fluxos comerciais e migratórios no espaço atlântico, que a Ilha recebeu atenção especial. Navios a vapor cruzavam o oceano e necessitavam realizar escalas para reabastecimento de combustível. Nesse quadro, a localização de Cabo Verde como último ponto de parada possível na travessia atlântica revelou-se ideal para a criação de estações carvoeiras – e a baía segura, de águas profundas, que recorta o litoral de São Vicente foi então preparada para a construção do Porto Grande: Junto ao porto, rapidamente cresceu a cidade. As estações carvoeiras empregavam grande quantidade de pessoas no trabalho de descarga, armazenamento e recarregamento do carvão. Mas o porto demandava mais. Demandava pessoal para trabalhar na venda de água e alimentos (também essenciais no reabastecimento dos navios), além de certa infraestrutura para receber os passageiros em trânsito. Fez-se igualmente necessária a
Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016 instalação de mecanismos administrativos e políticos do Estado português (DIAS, 2004, p. 97).
A Cidade do Mindelo cresceu rapidamente, a partir dos deslocamentos populacionais com origem nas ilhas vizinhas (Santo Antão e São Nicolau).Mindelo ganhou fama no arquipélago pela vida agitada, o fluxo de gente, novidades vindas de fora. No ano de 1888, quando o Porto Grande vivia sua melhor fase, desembarcaram no Mindelo 169.440 passageiros em trânsito (CORREIA E SILVA, 2000, p. 131). Eram pessoas de nacionalidades diversas que traziam vida e transformavam o cotidiano. O contexto portuário foi especialmente significativo para imprimir na cidade que nascia seu caráter cosmopolita. E tal abertura ao mundo teve consequência direta na criação de novas formas de lazer e de sociabilidade. A cultura popular em São Vicenteé fruto desse trânsito de pessoas, ideias, valores e coisas. Nos esportes, por exemplo, é notável a influência inglesa. A população de São Vicente gaba-se por serem filhos da única ilha de Cabo Verde onde floresceram práticas como o golfe e o críquete. No campo musical, outros movimentos mostraram-se relevantes. Atribui-se aos marinheiros vindos do Brasil a influência no gosto e na prática musical cabo-verdiana. O país-irmão, do outro lado do Atlântico, é referência importante. Nos discursos que se ouve em Cabo Verde, menciona-se sempre que a contribuição de São Vicente à configuração atual da morna, o gênero musical nacional, está associada a apropriações de modos brasileiros de tocar e falar (DIAS, 2011a). Igualmente, relacionam-se aos fluxos interatlânticos as cores do carnaval de São Vicente, com traços brasileiros reelaborados e ressignificados pelos ilhéus. O Porto Grande teve seu auge em fins do século XIX, mas mesmo nas déca-
das seguintes, com sua gradual decadência, ainda era fundamental porta de entrada de práticas estrangeiras, rapidamente incorporadas no modo de ser dos mindelenses. No Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, as escolas de samba começaram a surgir na década de 1920 (CAVALCANTI, 1995, p. 22).Segundo a cronologia apresentada por Cavalcanti (ibid., p. 23), com base na crônica carnavalesca, a primeira escola de samba carioca (“Deixa Eu Falar”, do bairro do Estácio) teria sido criada no final daquela década. Em seguida, seria formada a Mangueira e, em 1932, a escola “Vai Como Pode”, mais tarde conhecida como Portela. Ao que tudo indica, o surgimento do carnaval no Mindelo, no formato de grupos organizados, é praticamente contemporâneo ao fenômeno no Brasil: Grupos como Florianos datam de 1920, com orquestra própria, com a sua sede, fazendo os seus famosos bailes, constituído, principalmente, de pequenos funcionários públicos; outros já aparecem, como Nacional (1939), onde já surge o primeiro andor, representando o avião Lusitânia, que levou Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil em 1922, que escalou o Porto Grande; Sousa Cruz (1936) da Ribeira Bote, Grupo Monte dos Amores (1936) do Monte Sossego (RODRIGUES, 2011, p. 57).
Noto, com isso, que não se trata de uma influência tardia, com Cabo Verde apropriando-se de um já estabelecido fenômeno carioca. Dos dois lados do Atlântico, o carnaval foi sendo criado como produto de configurações sociais específicas, mas conectadas por fluxos de várias ordens, cruzando o oceano. Ainda hoje a semelhança entre o carnaval carioca e o mindelense provoca calorosas discussões. Como uma pesquisadora brasileira em terras cabo-verdianas, fui recorrentemente questioDisponível em http://www.pragmatizes.uff.br 99
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura nada a respeito de minha opinião sobre o assunto. De maneira geral, procuravam pelo meu aval, a fim de fortalecer o argumento de que o carnaval do Mindelo é, de fato, como o do Brasil – guardadas apenas as diferenças nas suas proporções (tema de que tratarei adiante). Em termos de uma pesquisa de cunho antropológico, penso que o mais relevante seja, por um lado, observar a importância dessa conexão com o Brasil no modo como a população de São Vicente constrói sua singularidade frente às demais ilhas (DIAS, 2004; 2011a); por outro lado, atentar-se aos fluxos históricos e não-hegemônicos (RIBEIRO, 2010), feito pelas mãos de gente simples, sobretudo marinheiros, protagonistas na construção de um mundo atlântico. Para melhor compreensão do carnaval do Mindelo, o cosmopolitismo que até hoje caracteriza São Vicente não é o único aspecto da formação social da Ilha a ser ressaltado.Mesmo a organização espacialda cidade, com traços próprios do mundo urbano, era uma característica que, no século XIX, surpreendia os cabo-verdianos até então acostumados a uma existência baseada na agricultura e que se adequava bem às manifestações de cultura popular nascentes. Intimamente associada ao contexto portuário, a Cidade do Mindelo reuniu, ainda muito cedo, as vantagens e as desvantagens das aglomerações urbanas modernas. A população da cidade era formada, em larga medida, por um proletariado portuário. Os camponeses pobres das ilhas vizinhas que chegavam para trabalhar no Porto Grande precisavam enfrentar um processo de mudança profunda, passando a integrar uma nova classe social. Como argumenta Correia e Silva (2000, p. 122-124), a transformação desse grupo em operariado urbano deu-se por meio de uma verdadeira socialização empreendida Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 100
pelos ingleses, proprietários das companhias carvoeiras sediadas no Mindelo. Os ingleses empenharam-se na construção de bairros operários em São Vicente, nos moldes das concentrações urbanas da Inglaterra industrializada, alterando o cotidiano da população e suas relações com o tempo e o espaço. [...] o crescente proletariado sanvicentino desenvolvia progressivamente um modo de ser peculiar, nas práticas e valores que compartilhavam e nas formas culturais a que davam origem. Foi nesse meio, entre essas pessoas, que ganhou projeção a morna, experienciada em situações diretamente relacionadas ao cotidiano da população de trabalhadores. Ao fim de um longo dia de trabalho, era ao violão, ao som das mornas, que muitos homens do porto encontravam seu merecido descanso – tocando seu instrumento à soleira das portas, no movimento das tabernas ou mesmo na diversão dos bailes a pau-e-corda (DIAS, 2004, p. 101).
Foi também nesse contexto portuário que surgiram as condições de desenvolvimento das práticas carnavalescas. O carnaval do Mindelo, como fenômeno urbano, ainda hoje reflete as desigualdades que caracterizam a cidade. Os diferentes bairros, associados a diferentes estratos sociais, revelam formas diversas de brincar o carnaval. E a festa apresenta-se como objeto privilegiado para uma análise dos vínculos e das rupturas que marcam esse espaço citadino heterogêneo. E o carnaval desce à Morada... No tratamento que dá ao carnaval carioca, Maria Laura Cavalcanti tem argumentado recorrentemente sobre a relação entre os desfiles das escolas de
Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016 samba e a cidade do Rio de Janeiro: “[s] ua capacidade de articulação social, de estabelecer mediações socioculturais entre diferentes bairros e regiões da cidade, entre morro e asfalto, foi, e é ainda hoje, de fato, ímpar” (CAVALCANTI, 2009, p. 9).Se o carnaval carioca tem início, ainda nos anos 1920, de forma estratificada – “a cada camada social, um grupo carnavalesco, uma forma particular de brincar o carnaval” (CAVALCANTI, 1995, p. 23) –, as escolas de samba teriam demonstrado sua incrível capacidade de mediação, desorganizando as antigas distinções.O foco da autora no caráter mediador das relações sociais que se desenvolvem a partir do carnaval carioca apresenta continuidade com a clássica análise de DaMatta (1997) sobre o fenômeno: um ritual capaz de elaborar mediações e encontros, inventando um momento igualitário. Tal dimensão do carnaval pode também ser investigada no caso mindelense, resguardando suas especificidades. Na vida cotidiana, a Cidade do Mindelo está espacialmente organizada em bairros, cujas fronteiras coincidem com aquelas que separam diferentes camadas da sociedade. No centro da cidade, está a região conhecida como Morada. Nela reside a elite do Mindelo – intelectuais, comerciantes, administradores. Nas zonas periféricas, de maneira geral, estão os bairros que, “como no passado, são ainda hoje verdadeiros dormitórios de homens que tanto trabalhavam no mar” (RODRIGUES, 2011, p. 39) e, em terra, nas ocupações mais precárias, como a construção civil e serviços domésticos. E é nos bairros – Lombo, Ribeira Bote, Monte Craca, Fonte Felipe, Bela Vista, Monte Sossego, entre outros – que vive grande parte dos artistas envolvidos no carnaval (ibid., p. 47). A distribuição da festa por esses espaços e estratos sociais é complexa e está associada a distintos modos de brincar o carnaval em São Vicente.
Aqui, limito-me a lançar algumas informações e ideias, a serem desenvolvidas em outro momento. De forma um pouco simplista, é possível dividir o carnaval mindelense em três tipos de evento: os Bailes, os Mandingas e os desfiles dos Grupos de Carnaval. Os Bailes acontecem sobretudo no sábado de carnaval. São eventos fechados, organizados em hotéis, destinados a elite local. Paga-se caro pelo ingresso, que dá direito a música ao vivo, jantar e concurso de fantasias, com prêmios cobiçados. Já os Mandingas remetem às camadas mais pobres da população mindelense. Trata-se de uma prática relativamente nova, que vem ganhando destaque ano a ano. São grupos que partem dos bairros periféricos, desfilando pela cidade e agregando multidões, adornados de maneira muito característica. Os corpos mestiços de jovens cabo-verdianos são pintados com uma mistura de óleo de cozinha e o pó preto extraído das pilhas. A pele, que ganha assim um tom negro, muito escuro, é combinada ao vestuário, composto por saias de saco, plástico ou sisal, além de outros acessórios, como colares e lanças, objetivando alcançar o aspecto de um “africano selvagem”, imaginado. Há gritos de guerra, danças e músicas próprias dos grupos de Mandingas. Desfilam pelas ruas da cidade nas tardes de domingo, começando no primeiro domingo de janeiro e seguindo até aquele que antecede a terça-feira de carnaval. No domingo imediatamente após o carnaval, realizam ainda o evento conhecido como o Enterro dos Mandingas. Trata-se de uma prática complexa, que inspira reflexões de várias ordens. Opto aqui por apenas sinalizar a presença muito importante dos Mandingas, concentrando-me, mais detidamente, nos Grupos de Carnaval. Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 101
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura Estes últimos têm longa história. São a feição do carnaval mindelense que mais se aproxima da festa carioca. Trata-se de grupos organizados, que desfilam pelas ruas da Morada na terça-feira de carnaval – o local e o dia mais nobres do festejo. Semelhantes às escolas de samba do Rio de Janeiro, os principais Grupos de Carnaval estão vinculados ao local onde estão sediados, acionando pertenças:Cruzeiros do Norte (bairro Cruz João Évora), Monte Sossego (bairro de mesmo nome) e Vindos do Oriente (Morada). Depois de ensaios diários que acontecem ao longo de um período de mais ou menos um mês, descem todos à Morada, compostos por andores e diversas alas, movimentando-se em passos coreografados, ao som da bateria, cujo ritmo difere sensivelmente dos sambas-enredos brasileiros. Os grupos oficiais participam de uma competição, com critérios rígidos e jurados anônimos, que premiam a melhor música, o melhor carro alegórico, a rainha de bateria, o mestre-sala, a porta-bandeira, 1ª e 2ª damas, rei e rainha, além do melhor grupo no geral. Pode-se dizer que, em certo sentido, o desfile dos Grupos de Carnaval tem um caráter igualitário, permitindo que coletivos de pertenças diversas, relacionados a bairros e estratos sociais diferentes, possam se reunir todos na região mais prestigiosa da cidade, em um concurso que os nivela. Como já apontava DaMatta, [...] a ideia de competição (isto é, concurso entre iguais) é algo banido do universo hierarquizado. Nele, ninguém deve subir por meio de provas, o que colocaria o desempenho adiante de outros critérios muito mais importantes, como o nascimento, a residência, a cor da pele etc. (os critérios substantivos). Mas no carnaval tudo é feito por meio de concursos, de modo que
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o idioma da sociedade se transforma. De uma linguagem hierarquizada, passamos a uma linguagem competitiva e igualitária, já que se procura promover uma oportunidade para todos (DAMATTA, 1997, p. 148).
Porém, assim como no universo brasileiro, também em Cabo Verde o caráter igualitário do carnaval não reina soberano. Saídas são encontradas para manter atuantes no carnaval as diferenças que imperam na vida cotidiana. Em São Vicente, se a terça-feira gorda é o dia do desfile competitivo, a segunda-feira de carnaval é reservada ao desfile de um grupo especial, o Samba Tropical. Este não é aberto a todos (RODRIGUES, 2011, p. 61), nem compete com ninguém. Considerado mais luxuoso e refinado, atrai especialmente a elite local, além de gente de fora da Ilha e da diáspora, em condições de pagar pelos trajes de preços elevados. Em “Um carnaval à francesa: a construção da folia na cidade de Nice”, Ferreira (2009) realiza interessante comparação entre a organização do espaço urbano e os estilos de carnaval em Nice e no Rio de Janeiro. O autor argumenta que a metrópole brasileira não teve seu crescimento aliado à incorporação de novos espaços, e sim à sobreposição de diferentes“cidades”, com aproximação física de habitantes de diferentes origens sociais. Tal disposição espacial teria favorecido uma situação em que “diferentes jeitos de brincar carnaval dialogassem uns com os outros, influenciando-se mutuamente e dando espaço para o surgimento das mais variadas formas de diversão” (FERREIRA, 2009, p. 32). Em contraste, a forma de desenvolvimento urbano da cidade de Nice, com a manutenção da Cidade Velha e a construção da parte moderna na outra margem do rio Paillon, teria levado a existência de diferentes carnavais, com espaços pró-
Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016 prios e relativo isolamento entre si. A segregação seria a marca do organizado carnaval niciense.
de cultura popular uma de suas grandes forças unificadoras.IV
Tal análise mostra-se inspiradora para um estudo do carnaval mindelense. Aqui, com planos de desenvolvimentos futuros, limito-me a sugerir que a festa, em São Vicente, combina episódios de encontros(com misturas e dissoluçãotemporária das fronteiras internas à cidade) a situações de conflitos e distanciamentos. Uma análise mais detida sobre essa ambivalência necessita combinar os modos de organização espacial da cidade às características próprias dessa sociedade crioula, fruto do colonialismo português, onde historicamente os diversos estratos sociais estiveram sempre em contato intenso. Trata-se de uma sociedade estratificada mas não segregada, e que tem nas manifestações
Um carnaval no diminutivo Neste trabalho em que levanto uma série de questões sobre o carnaval do Mindelo visando investigações futuras, abordo, por fim, o problema da escala e sua influência no festejo – em particular, no que toca ao desfile dos grupos competitivos. Para tanto, é necessário retomar a relação do carnaval mindelense com o Brasil, que frequentemente traz à tona a reflexão da população de São Vicente sobre as dimensões de sua festa. A relação entre São Vicente e o Brasil ficou eternizada nos versos do compositor Manuel D’Novas, cantados por Cesária Évora:
Carnaval de São Vicente (Manuel D’Novas)
Carnaval de São Vicente (Manuel D’Novas)
J’a’mconchia São Vicente Na sê ligria na sê sabura Ma’mcapudfazê ideia S’na carnaval era mas sab
Eu já conhecia São Vicente Na sua alegria e nos seus prazeres Mas eu não podia ter ideia De que no carnaval era mais gostoso
São Vicente é um brasilin Cheidiligriacheidi cor Ness três dia di loucura Ca ten guerra ê carnaval Nessmorabezasen igual [...]
São Vicente é um brasilzinho Cheio de alegria e cheio de cor Nesses três dias de loucura Não há brigas, é carnaval Nessa cordialidade sem igual [...]
Chamo atenção especial para o verso “São Vicente é um brasilzinho” (no original em crioulo “brasilin”). Esse verso revela, de forma condensada, não só a proximidade entre Brasil e Cabo Verde, mas também o contraste entre suas dimensões. A Ilha de São Vicenteé, nas palavras dos próprios cabo-verdianos, “um grãozinho de terra”. A Cidade do Mindelo conta com aproximadamente
70.000 habitantes, enquanto o Rio de Janeiro abriga mais de 6 milhões de pessoas – e,se levarmos em conta toda a região metropolitana, chegamos a mais de 12 milhões de habitantes, na terceira maior conurbação da América do Sul. Apesar de a população do Mindelo nutrir significativa autoconsciência sobre seu tamanho reduzido, começa Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 103
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura a enfrentar recentemente a necessidade de reavaliar as dimensões do seu carnaval. As ruas da Morada que tradicionalmente foram palco para a festa começam a se mostrar pequenas para Grupos de Carnaval cada vez maiores e um público crescente. Retomo aqui a situação descrita na abertura deste artigo. Além da população local, que participa em massa da festa, o carnaval atrai turistas nacionais e estrangeiros, resultado, entre outros fatores, do forte investimento do governo na espetacularização do evento, movimentando a economia frágil da Ilha de São Vicente. V Notória também é a grande quantidade de migrantes cabo-verdianos que, depois de meses distantes da terra natal, voltam para desfrutar da alegria carnavalesca em São Vicente, trazendo movimento, cores e ruídos à cidade. E a
população local desenvolve sentimentos ambíguos com relação a isso.Trata-sedos dilemas de uma festa popular que cresce, revelando sua vivacidade, ao mesmo tempo em que encontra dificuldades de se expandir mantendo suas características originais. Uma das iniciativas tomadas pelo governo local a fim de organizar o afluxo de pessoas durante o carnaval de São Vicente foi a instalação de cordas ao longo das principais avenidas da Morada, impedindo que o público atravesse os espaços a serem preenchidos pelos Grupos de Carnaval durante o desfile competitivo. A medida é polêmica, gerando a insatisfação de grande parte da população, que se acumula nas calçadas tentando se acomodar minimamente, como podemos observar na fig. 1.
Fig. 1: A organização das ruas para o desfile de carnaval (Mindelo, 2015). Foto da autora
Por causa do grande afluxo de pessoas, outra medida tomada pelos administradores diz respeito à segurança. A polícia e o exército são acionados Disponível em http://www.pragmatizes.uff.br 104
durante todo o evento com o objetivo de evitar incidentes violentos e de manter o público no local a ele reservado, organizando o uso do espaço urbano durante a
Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016 festividade. Os habitantes têm, portanto, o uso da cidade controlado por medidas que estabelecem limites na circulação urbana. E o clima de festa é alterado pela presença ostensiva da força do Estado. Outro tema de discussão frequente entre a população do Mindelo no que tange ao carnaval é o fato de que os grupos oficiais, que integram a competição, têm crescido consideravelmente em número de participantes. Para se ter ideia, o Grupo Carnavalesco Monte Sossego levou em torno de 3.000 integrantes às ruas durante o Carnaval 2015 – quase 5% da população da Ilha. Trata-se de uma marca histórica que se revela, por exemplo, na maior ala de baianas presenciada no festejo. A dimensão dos carros alegóricos tem se mostrado outro problema recorrente ao longo do percurso por entre ruas e avenidas da Morada, com muitas árvores e fios de eletricidade.
Muitas vezes provocam o atraso dos grupos de carnaval e a consequente perda de pontos na criteriosa avaliação dos jurados. Os carros alegóricos – localmente “andores” – transformam o uso das pequenas ruas e principais avenidas do Mindelo, num impacto visual de volume e cor. Trava-se uma verdadeira luta pela ocupação de espaços da cidade – não apenas pelos membros dos grupos oficiais, mas também pelo numeroso público, personagem ativo da festa, que ocupa janelas, varandas e terraços em busca de melhor visão do evento. Como podemos notar na fig. 2, constrói-se um quadro impactante. Por um lado, podem ser observados os usos criativos dos espaços urbanos, na vitalidade dos formas de cultura popular. Por outro, transparecem os limites físicos desses mesmos espaços para comportar um número crescente de participantes do maior evento da cidade.
Fig. 2: Desfile do grupo campeão, Vindos do Oriente (Mindelo, 2015). Foto da autora
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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura Diante de tal quadro, uma dúvida preenche as discussões da população mindelense, do cidadão comum aos responsáveis pela elaboração de políticas públicas: a alternativa mais apropriada seria a construção de um sambódromo como já feito no Brasil? Seria esta a solução de um carnaval que, há tempos, tem como critério de excelência a festa carioca, com seu padrão “made in Brazil”? A pergunta continua gerando reflexões e poucas certezas diante das alterações que provocaria no estilo cabo-verdiano de brincar o carnaval.
A contenção do público nas calçadas, da maneira como já vem sendo realizada, tem sido alvo de muitas críticas. Em particular, ela é associada à diminuição do número de “grupos de animação”, isto é, pequenos grupos que se reúnem de forma mais espontânea para exibir fantasias inusitadas e performances criativas e bem humoradas durante os intervalos dos desfiles dos Grupos de Carnaval oficiais, a exemplo do que se observa na fig. 3.
Fig. 3: “Grupo de animação” em desfile pela Morada (Mindelo, 2015). Foto da autora
Não são raros os discursos de cunho mais purista que veem nos “grupos de animação” o que de mais espontâneo e autêntico há no carnaval mindelense. São discursos que lamentam a diminuição dessas performances frente ao crescimento dos aspectos mais turísticos do carnaval do Mindelo – aqueles mais grandiosos, cheios de brilho e cor, que se assemelham ao carnaval carioca. As iniciativas do próprio governo são ambivalentes. Enquanto se considera a insDisponível em http://www.pragmatizes.uff.br 106
talação de arquibancadas e a espetacularização do carnaval visando o turismo, foi tomada uma iniciativa na direção contrária em 2016, objetivando a preservação e o estímulo aos grupos “espontâneos”, supostamente mais “autênticos”. É o Prêmio Kakoy, resultado dos esforços do Centro Nacional de Artesanato e Design em parceria com a Câmara Municipal de São Vicente, que veio laurear a criatividade da população local que se apresenta nos “grupos de animação”.
Ano 6, número 11, semestral, abr/2016 a set/ 2016 O dilema do carnaval cabo-verdiano encontra paralelo em diversas manifestações da cultura popular, em contextos variados. No próprio carnaval carioca, não foi sem desafios que se criou a monumental Passarela do Samba, com 85.000 metros quadrados e lugares para uma plateia de 59.092 pessoas (CAVALCANTI, 1995, p. 29) – certamente, um elemento transformador da experiência de se brincar carnaval no Rio de Janeiro: A construção de arquibancadas na Avenida Rio Branco, em 1962, com a venda de ingressos ao público, iniciou o irreversível processo de comercialização do desfile, e a procura, muitas vezes dramática, por parte das escolas de um lugar adequado para o seu carnaval. O sucesso dos desfiles fez com que, de ano a ano, as arquibancadas crescessem. [...] A construção da Passarela do Samba em 1984 coroou essa evolução, e representou o reconhecimento e a extraordinária ampliação do potencial econômico dos desfiles (CAVALCANTI, 1995, p. 26-28).
O interesse pelo caso cabo-verdiano no que toca aos dilemas da espetacularização do carnaval e sua inserção no universo das “economias criativas” está no momento inicial em que ainda se encontra, quando se torna possível analisar de perto as diversas dimensões desse processo, com suas particularidades locais. O significativo exemplo do gigantesco Brasil, país-irmão do outro lado do Atlântico, e a simultânea valorização da pequenez cabo-verdiana são parte fundamental do modo local de experienciar os dilemas da espetacularização da cultura popular. Longe de buscar aqui uma resposta para tal dilema, procuro apenas indicar como esta é uma questão relevante a ser trabalhada pela antropologia. Aliás, todo este artigo configura-se, ao fim, como um conjunto de insights e sugestões para investigações futuras, revelando a riqueza
do carnaval do Mindelo para se pensar a relação entre a festa e a cidade, nas suas múltiplas configurações.
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Recebido em 27/07/2016 Aprovado em 11/08/2016
I Juliana Braz Dias. Doutora em Antropologia. Professora da Universidade de Brasília, Brasil. Contato: jbrazdias@hotmail.com II Minha pesquisa sobre o carnaval em São Vicente foi realizada no âmbito do projeto “Transformações do mundo de circulação nas formas estabelecidas de sociabilidade”, desenvolvido através de uma parceria entre a Universidade de Brasília e a Universidade de Cabo Verde, com financiamento do Programa Capes/AULP (Programa Internacional de Apoio à Pesquisa e ao Ensino por meio da Mobilidade Docente e Discente Internacional). O trabalho de campo teve lugar na Cidade do Mindelo, entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015. III No artigo “Ambivalências identitárias em Cabo Verde: da história à etnografia” (DAUN E LORENA, 2015), a autora faz menção ao seu projeto de doutorado, intitulado “História colonial e processos de construção identitária em Cabo Verde: um estudo sobre o carnaval do Mindelo”, desenvolvido no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. IV A esse respeito, ver a análise desenvolvida em outra ocasião (AUTOR, 2004) sobre os chamados “bailes nacionais” em Cabo Verde, que no passado colonial reuniam, em um único evento, elite e povo, imersos em atos de música e sociabilidade. Longe de ser uma comprovação da “harmonia social do mundo luso-tropical”, o fenômeno era apenas mais um exemplo, no universo colonial cabo-verdiano, da existência de certa acomodação às desigualdades de poder, com a convivência regular entre pessoas de diferentes estratos sociais. V Em maio de 2016, o recentemente empossado Ministro da Cultura, Abraão Vicente, afirmou que não poupará esforços para garantir que o carnaval mindelense seja um “ex-líbris nacional e internacional”, atraindo turistas e movimentando a economia da Ilha de São Vicente. Ver: http://carnaval.sapo.cv/carnavaldomindelo/ artigo/abraao_vicente_vamos_garantir_que_o_carnaval_do_mindelo_seja_um_ex_libris-47552qhr.html.