UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA – UNESP INSTITUTO DE ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES MESTRADO
ENSINO E APRENDIZAGEM DA ARTE NA ESCOLA DE SAMBA
ROSANA ANTUNES
SÃO PAULO 2007
ROSANA ANTUNES
ENSINO E APRENDIZAGEM DA ARTE NA ESCOLA DE SAMBA
Dissertação apresentada ao programa de pós graduação em Artes do Instituto de Artes da UNESP, para obtenção do título de mestre em Artes Visuais, sob a orientação da profa. Dra. Luiza Helena da Silva Christov.
São Paulo 2007
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Antunes, Rosana
Ensino e aprendizagem da arte na escola de samba / Rosana Antunes. -- São Paulo, 2007. 213p.: il. Dissertação (mestrado) -- UNESP/IA/SP. 1.Educação Artística. 2.Educação Popular. 3.Artes Plásticas. Tabela CAPES: 80310001
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Em memória ao meu pai José Rubens “Zeca” que tanto me incentivou e acreditou no meu trabalho, e à minha
mãe Ocirema
por ter me mostrado o mundo do carnaval e das escolas de samba. Ao meu filho Bruno pelos momentos que não pude estar ao seu lado. À minha irmã Rosangela “Iaia”, minha companheira nesta jornada. 3
AGRADECIMENTOS
À Profa. Dra. Luiza Helena da Silva Christov pelo seu amor, sua atenção e preciosa orientação. À Profa. Dra. Loris Graldi Rampazzo e Profa. Dra. Marilda Soares pela sua atenção, colaboração, participação e aprovação desta pesquisa. Ao Prof. João Jurandir Spinelli pela sua generosidade e carinho. Ao Prof. Alberto T. Ikeda pela sua colaboração com esta pesquisa. A todos que fazem a escola de samba Sociedade Rosas de Ouro, com especial carinho a Angelina Basílio, Ana, Zé Roberto, Agnaldo “Nanau”, Daniel “Reverendo”, Alberto Borges, Janaína “Jana”, Fernando “Chelaia”, Anderson “Papel”, Edson, Bruno Silvestre, Adriana, “Juba”, Mauro, Júlio César, Adriano, Marcio, Pedro, José Teixeira Gonçalves, Serginho, Wilson, Josias, Galúcio, “Galucinho”, Cibele, “Turquinho” e ao carnavalesco Fábio Borges. A todos que fazem parte da Mancha Verde, Nenê de Vila Matilde, Pérola Negra, Colorado do Brás, Bloco Vovó Bolão em especial ao Paulo Serdan, Rogério, “Xande”, “Cebola”, Virgilio e em memória ao Tovi e Gilson Tavares. À Leci Brandão e ao Chico Pinheiro, por sua atenção e pelo seu carinho as escolas de samba e aos trabalhadores do barracão. Ao Joãozinho Trinta por seus ensinamentos e pela sua grandiosa colaboração ao carnaval brasileiro. Ao Raul Diniz e seu filho André por contribuírem com o carnaval paulistano. A todos os profissionais da festa do Boi em Parintins, em especial ao Mauro, Cabral, “Bitoca”, “Periquito”, e Oseas Bente. Ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista – UNESP. Aos professores e aos colegas do mestrado e a sua secretaria, em especial a Fabíola e Priscila. A CAPES pela bolsa de estudos cedida, a qual me proporcionou condições para que este trabalho pudesse ser realizado. Aos amigos de fé Anderson “Miúda” e André que me auxiliaram no trabalho do barracão. Ao José Veiga Fagundes pelo carinho e incentivo. Aos meus avôs Rubens, Adélia e Aracy e meus irmãos Paulo, Ricardo e Gabriel pelo carinho e incentivo. 4
RESUMO
Esta pesquisa tem como proposta compreender o processo de ensino e aprendizagem das artes plásticas no interior de uma escola de samba, destacando aspectos deste processo que se diferenciam do ensino tradicional em situações escolares. O local pesquisado foi o barracão da escola de samba Sociedade Rosas de Ouro e procurei enfocar o processo de ensino e aprendizagem da arte ali estabelecido. Para este estudo, lanço mão também de minha experiência profissional como artista plástica, professora e profissional do carnaval: escultora e pintora nos barracões das escolas de samba de São Paulo desde 1995. Para a realização desta pesquisa, participei do processo de criação e confecção dos carros alegóricos para o desfile do carnaval paulistano de 2006 na escola de samba Sociedade Rosas de Ouro como profissional do carnaval, trabalhando como pintora artística das esculturas e carros alegóricos. Escolhi a Rosas de Ouro por ser uma escola na qual trabalhei em vários processos carnavalescos, e o fato de conhecer e já ter trabalhado diversas vezes com a maioria dos profissionais do barracão desta escola me facilitou muito a pesquisa, pois já existia uma relação de amizade entre nós, já conhecia seus anseios e dificuldades enfrentadas no dia-a-dia de trabalho no barracão. Presenciei e participei todos os dias, das 10:00 h até às 20:00 h, durante o mês de dezembro de 2005 e os meses de janeiro e fevereiro de 2006, do trabalho no barracão e do processo de criação e aprendizagem que se estabeleceu entre o carnavalesco, as equipes de profissionais, assistentes, ajudantes e aprendizes. Destaco como resultados o aprendizado que ocorre com a vivência e convivência entre os especialistas e aprendizes no barracão da escola de samba, das tentativas experimentais do fazer, do praticar, e da improvisação, e a minha trajetória como profissional do carnaval nos barracões das escolas de samba de São Paulo como uma aprendiz da arte.
Palavras-chave: Escola de Samba, Artes plásticas, Arte-Educação, Arte Popular, Ensino e Aprendizagem. 5
ABSTRACT
This research has as proposal to understand the process of education and learning of the plastic arts in the interior of a samba school, being detached aspects of this process that if they differentiate of traditional education in pertaining to school situations. The searched place was the large cabin of the samba school Society Gold Roses and looked for to focus the process of education and learning of the art established there. For this study, throwing hand also of my professional experience as plastic artist, teacher and professional of the carnival: sculptor and painter in the large cabins of the schools of samba of São Paulo since 1995. For the accomplishment of this research, I participated of the process of creation and confection of the alegóricos cars for the parade to the carnival of 2006 in the samba school Society Gold Roses as professional of the carnival, working as artistic painter of the sculptures and allegorical cars. I chose the Gold Roses for being a school in which I worked in some processes, and the fact to know and already to have worked diverse times with the majority of the professionals of the large cabin of this school facilitated the research very to me, therefore already a relation of friendship between us existed, already it knew its yearnings and difficulties faced in day-by-day of work in the large cabin. I witnessed and I participated every day, of 10:00 h until 20:00 h, during the month of December of 2005 and the months of January and February of 2006, of the work in the large cabin and the process of creation and learning that if established between the teams of professionals, assistants, assistant and apprenticees. I detach as resulted the learning that occur with the experience between the specialists and apprenticees in the large cabin of the samba school, of the experimental attempts of making, of practising, and of the improvisation, and my trajectory as professional of the carnival in the large cabins of the schools of samba of São Paulo as an apprentice of the art.
Word-key: School of Samba, Arts, Art-Education, Popular Art, Education and Learning.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..............................................................................................................14
CAPÍTULO 1
O PROCESSO CARNAVALESCO...............................................................................17
1.1 – Barracão: oficina de arte da escola de samba................................................17 1.2 – Escultura e moldagem das alegorias...............................................................24 1.3 – Pintura artística, decoração e movimento.......................................................30 1.4 – O carnavalesco...................................................................................................32 1.5 – O efeito visual criado pelos materiais utilizados na confecção das Alegorias..............................................................................................................39 1.6 – O transporte dos carros alegóricos para a concentração no sambódromo........................................................................................................40 1.7 – O desfile...............................................................................................................42 1.8 – A apuração das notas dos quesitos julgados durante o desfile....................44 1.9 – Os quesitos julgados.........................................................................................45
CAPÍTULO 2
MINHA EXPERIÊNCIA COM O CARNAVAL...............................................................49
CAPÍTULO 3
ENSINO E APRENDIZAGEM DA ARTE NO BARRACÃO DA ESCOLA DE SAMBA SOCIEDADE ROSAS DE OURO................................................................................100
3.1 – A escola de samba Sociedade Rosas de Ouro..............................................100 3.1.1– Fundação da Escola.......................................................................................100 3.1.2 – Desfiles da Rosas de Ouro...........................................................................101 3.2 - O carnaval de 2006............................................................................................104 7
3.2.1 - Ficha técnica em 2006...................................................................................104 3.2.2 - Enredo de 2006
“A Diásporas Africana. Um Crime Contra a
Raça Humana”...............................................................................................105 3.3 – “Notas sobre o Barracão, Diário de uma Pintora Aprendiz”...................114 3.3.1 – Condições de trabalho: remuneração, alojamento, refeições..................116 3.3.2 - Equipes e espaços.........................................................................................117 3.3.3 – Tempo e interrupções...................................................................................121 3.3.4 – Pinturas, materiais, esculturas gigantes....................................................123 3.3.5 – Momentos finais no barracão......................................................................136 3.3.6 – Ensaios..........................................................................................................140 3.3.7 – Aproxima-se o desfile: ensaios técnicos e trabalho na concentração....141 3.3.8 – O desfile.........................................................................................................143 3.3.9 – Imagens do Carnaval....................................................................................145 3.4 – Ensino e aprendizagem...................................................................................155
CAPÍTULO 4
A CONTRIBUIÇÃO DAS ESCOLAS DE SAMBA PARA O ENSINO E APRENDIZAGEM DA ARTE.......................................................................................158
4.1 – A escola de samba como espaço educativo..................................................158 4.2 – Aprender fazendo.............................................................................................161 4.3 – Relações de conflitos entre mestres e aprendizes.......................................163 4.4 – Considerações finais.......................................................................................167
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS...........................................................................170
APÊNDICE
Depoimentos..............................................................................................................176
ANEXOS
ANEXO 1 – Fantasia das alas da Rosas de Ouro 2006..........................................194 8
ANEXO 2 – Samba enredo de 2006..........................................................................200 ANEXO 3 – Artigos em revistas, jornais e internet sobre os carros alegóricos do desfile de 2006...........................................................................................................201 ANEXO 4 – Crachá de trabalho da autora...............................................................213
LISTAS DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1: Barracão da Rosas de Ouro 1996................................................................. 19 Figura 2: Alegoria dos anjos sendo colocados no carro Alegórico 1995...................... 21 Figura 3: Ferragem do carro alegórico em construção no barracão da Rosas de Ouro 2006.....................................................................................................................22 Figura 4: Estrutura de ferro do carro alegórico sendo revestida com madeira no barracao da Rosas de Ouro 2006.................................................................................23 Figura 5: Trabalhadores do barracão colocando a escultura sobre o carro alegórico no barracão da Rosas de Ouro 2006............................................................23 Figura 6: O escultor José Teixeira Gonçalves esculpindo alegoria no barracão da Rosas de Ouro 2006................................................................................26 Figura 7: Ajudante empapelando alegoria no barracão da Rosas de Ouro 2006.........27 Figura 8: Escultura empapelada pronta para ser pintada. Barracão Rosas de Ouro 1998.................................................................................................................28 Figura 9: Fibreiro Agnaldo “Nanau” batendo fibra no barracão da Rosas de Ouro 2006.....................................................................................................................29 Figura 10: Fernando “Chelaia” batendo placa no barracão da Rosas de Ouro.............30 Figura 11: A autora pintando alegoria no barracão da Rosas de Ouro 2003................31 Figura 12: Aderecistas trabalhando no barracão da Rosas de Ouro, 2007..................31 Figura 13: Aracy “Cici”..................................................................................................49 Figura 14: Minha mãe Ocirema e a minha vó Aracy. Rio de Janeiro............................50 Figura 15: O escultor José Teixeira Gonçalves no galpão da Sandvick em São Paulo 1999.............................................................................................................53 Figura 16: Decoração no Shopping West Plaza. São Paulo, 1997...............................53 Figura 17: Alegoria que a autora pintou no barracão da Rosas de Ouro e 1996. Foi toda pintada com pincel e trincha..................................................................54 Figuras 18 e 19: Jacaré, a primeira escultura que pintei no barracão da Rosas de Ouro com compressor em1996................................................................................55 9
Figura 20: Alegoria do índio e do jacaré na concentração 1996...................................56 Figura 21: Alegoria da índia na concentração 1996......................................................57 Figura 22: Esculturas que a autora pintou no barracão da Mancha Verde em 1999..............................................................................................................59 Figura 23: Fernando “Chelaia” trabalhando no barracão em 1998...............................59 Figura 24: Fernando “Chelaia”, oito anos depois trabalhando no barracão da Rosas de Ouro em 2006................................................................................................62 Figuras 25 e 26: Escultura da Carmem Miranda sendo confeccionada no barracão da Nenê 1996.................................................................................................................65 Figura 27: Corpo da águia sendo pintada pelo no barracão da Nenê 1996...................68 Figura 28: Cabeça do Chacrinha sendo confeccionada no barracão da Nenê 1996................................................................................................................................69 Figura 29: Cabeça do Chacrinha sendo pintada pela autora no barracão da Nenê de Vila Matilde em 1996.......................................................................................69 Figura 30: Alegoria do discóbulo no barracão da Nenê 1996.......................................70 Figuras 31e 32: Alegoria do Monumento das Bandeiras sendo confeccionado no barracão da Pérola Negra em 1997.............................................................................71 Figura 33: Alegoria do carro abre alas da Rosas de Ouro: demônio na concentração do Anhembi 1998....................................................................................73 Figura 34: Escultura de Adoniram Barbosa que pintei no barracão da Rosas de Ouro em 1998...............................................................................................74 Figuras 35 e 36: Alegoria dos Demônios da Garoa sendo confeccionados no barracão da Rosas de Ouro em 1998...........................................................................74 Figura 37 e 38: Trem sendo confeccionado no barracão da Rosas de Ouro em 1998........................................................................................................................75 Figura 39: Alegorias que foram quebradas pelos integrantes da Mancha Verde em 1998.............................................................................................................76 Figura 40: “Tovi” trabalhando no barracão da Mancha, 1999.......................................78 Figura 41: Torcedores aprendizes da Mancha trabalhando no barracão, 1999............80 Figura 42: Virgílio esculpindo a alegoria no barracão da Mancha.................................81 Figura 43: Mesa de corte para isopor utilizado na maioria das escolas de samba, Rosas de Ouro 2006........................................................................................83 Figura 44: A autora pintando a escultura de Caio de Alcântara Machado no barracão da Rosas de Ouro em 2001..........................................................................84 10
Figura 45: Escultura de Caio de Alcântara Machado finalizada....................................84 Figura 46: Eu e André trabalhando no barracão da Rosas de Ouro em 2003..............85 Figura 47: A autora pintando o espantalho no barracão da Rosas de Ouro em 2003........................................................................................................................86 Figura 48: Carro alegórico com a escultura do seu Basílio desfilando no sambódromo 2003.........................................................................................................87 Figura 49: Desenho de um dos carros alegóricos da Colorado do Brás para o desfile carnavalesco de 2004............................................................................88 Figura 50 e 51: A autora cortando os blocos de isopor na mesa de corte e esculpindo o secador de cabelos com o arco...............................................................92 Figura 52: Carro alegórico sendo confeccionado no barracão do bloco Vovó Bolão em 2004....................................................................................................97 Figura 53: Pintura sendo confeccionada na alegoria da cabeça da Vovó Bolão em 2004.....................................................................................................98 Figura 54: Fachada da escola de samba Rosas de Ouro em 2006............................100 Figura 55: Entrada lateral da Rosas de Ouro 2006.....................................................100 Figura 56: Portão de entrada para o barracão e estacionamento da Rosas de Ouro que se localiza depois da entrada lateral da escola, 2006.................................101 Figura 57: Pavilhão da escola Rosas de Ouro.............................................................101 Figura 58: Angelina Basílio, presidente da Rosas de Ouro 2006................................102 Figura 59: Carro abre-alas no desfile de 2006 da Rosas de Ouro..............................109 Figura 60: Comissão de frente da Rosas de Ouro 2006.............................................109 Figura 61: Ala 1 - a civilização africana.......................................................................110 Figura 62: Ala 2 – O reino de Benim...........................................................................110 Figura 63: Ala 3 – O império do Mali...........................................................................111 Figura 64: Ala 4 – O reino dourado de Achan.............................................................111 Figura 65: Ala Razia vindo a frente do carro o Navio Negreiro...................................112 Figura 66: Ala 12 – lavagem do Bonfim......................................................................112 Figura 67: Carro 4 – O animismo................................................................................113 Figura 68: Borges em seu alojamento no barracão da Rosas de Ouro......................117 Figura 69: Espaço de trabalho do escultor Teixeira no barracão 2006.......................118 Figura 70: Jovens da equipe de decoração da “Jana”, Rosas de Ouro 2006.............118 Figura 71: Sibele, seus ajudantes e aprendizes decorando o carro...........................119 Figura 72: “Pelé” da equipe do Galúcio, soldando os ferros no barracão...................120 11
Figura 73: O estagiário de designer Bruno aprendendo a fibrar a escultura no barracão..................................................................................................................121 Figura 74: Alegoria dos bebês do carro abre alas indo para a concentração do Anhembi, 2006........................................................................................................122 Figura 75: Eu e a Leci Brandão no barracão da Rosas de Ouro 2006........................122 Figura 76: Profissionais do barracão da Rosas de Ouro em 2006..............................123 Figura: 77: Alegoria do negro do carro do Quilombo sendo pintado. Na foto a autora e Fábio Borges, o carnavalesco da Rosas em 2006....................................125 Figura 78: Cabelos do negro feito de palha de aço e pintado de preto 2006..............126 Figura 79: Rochedos do carro dos Quilombos sendo pintados 2006..........................126 Figura 80: Alegoria dos negros agachados 2006........................................................127 Figura 81: A autora pintando as alegorias dos negros agachados.............................128 Figura 82: Anderson e seus ajudantes decorando o carro do Quilombo.....................129 Figura 83: Mãe negra do carro abre alas já empapelada aguardando a pintura no barracão 2006.............................................................................................130 Figura 84: Alegoria da mãe negra na concentração do sambódromo.........................130 Figura 85: Comissão de frente desfilando na avenida com a roupa de espuma pintada imitando pedra sabão 2006...............................................................132 Figura 86: Confecção da pintura da alegoria mãe terra 2006......................................134 Figura 87: Teixeira esculpindo a cabeça da mãe terra no barracão 2006...................134 Figura 88: “Dada” fixando as garrafas pet 2006..........................................................135 Figura 89: Cabeça da Medusa mergulhada no mar confeccionado com garrafas pet 2006........................................................................................................136 Figura 90: A autora pintando a máscara representando a raça amarela....................136 Figura 91: Comissão de frente sendo pintada 2006....................................................139 Figura 92 - Ensaio na quadra da Rosas de Ouro 2006...............................................141 Figura 93: A autora na concentração junto aos outros componentes da ala do Quilombo esperando o momento de desfilar 2006.................................................143 Figura 94: Carro alegórico desmontado no barracão após o carnaval 2006...............144 Figura 95 e 96: Estado das esculturas após o desfile.................................................145 Figura 97: Desenho da Comissão de Frente 2006......................................................146 Figura 98: Comissão de Frente 2006..........................................................................146 Figura 99: Desenho do Carro abre alas: A civilização Africana 2006.........................147 Figura 100: Carro abre alas: a civilização africana 2006.............................................147 12
Figura 101: Desenho do Carro 2: O Navio Negreiro 2006..........................................148 Figura 102: Carro 2: O Navio Negreiro 2006...............................................................148 Figura 103: Desenho do Carro 3: Resistência e Escravidão 2006..............................149 Figura 104: Carro da Resistência e Escravidão sendo confeccionado no barracão da Rosas de Ouro 2006..............................................................................149 Figura 105: Desenho do carro 4: O Animismo 2006...................................................150 Figura 106: Carro 4: O Animismo 2006.......................................................................150 Figura 107: Desenho do carro 5: Pela Promoção da Igualdade Racial.......................151 Figura 108: Carro 5: Pela Promoção da Igualdade Racial 2006..................................151 Figura 109: Desenho do casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006........................152 Figura 110: Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006...........................................152 Figura 111: Desenho do casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006........................153 Figura 112: Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006...........................................153 Figura 113: Desenho do casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006........................154 Figura 114: Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006...........................................154 Figura 115: Fábio Borges no ateliê da Rosas de Ouro em 2006................................176 Figura 116: Anderson no barracão da Rosas de Ouro, 2007......................................181 Figura 117: Bruno Silvestre no barracão da Rosas de Ouro 2006.............................183 Figura 118: Júlio César Teixeira no almoxarifado, 2006.............................................185 Figura 119: Serginho no barracão da Rosas de Ouro em 2006..................................187 Figura 120: Janaína na quadra da Rosas de Ouro, 2006...........................................189 Figura 121: Fernando no barracão da Rosas de Ouro em 2006.................................190 Figura 122: Mauro na quadra da Rosas de Ouro em 2006.........................................191 Figura 123: Juba na quadra da Rosas de Ouro em 2006...........................................193
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INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem como proposta compreender o processo de ensino e aprendizagem das artes plásticas no interior de uma escola de samba. As escolas de samba desenvolvem e inventam um saber-fazer cujas bases se apóiam na beleza, na harmonia e na comunicação, tornando-os exemplos das formas populares de se aprender arte, oferecendo material para ser estudado dentro das artes, da arte educação e da estética. Procurei compreender como se aprende arte em um contexto diferente da escola regular ou das escolas de arte, buscando identificar as formas de aprendizagem praticadas na escola de samba. O espaço eleito para esta pesquisa foi o barracão da escola de samba Sociedade Rosas de Ouro, por ser uma escola na qual trabalhei em vários processos carnavalescos, e o fato de conhecer e já ter trabalhado diversas vezes com a maioria dos profissionais do barracão desta escola me facilitou muito a pesquisa, pois já existia uma relação de amizade entre nós, já conhecia seus anseios e dificuldades enfrentadas no dia-a-dia de trabalho no barracão. Além de fornecerem material riquíssimo como objeto de estudo da cultura brasileira, as escolas de samba também nos ensinam acerca do ensino e aprendizagem da arte por meio do processo de criação e confecção dos carros alegóricos para o desfile de carnaval, onde se estabelece um dinâmico processo de ensino e aprendizagem da arte entre as equipes de profissionais, assistentes, ajudantes e aprendizes que trabalham nos barracões, local onde são confeccionados os carros alegóricos e alegorias. Para este estudo, recorro também à minha experiência como artista plástica, professora e profissional do carnaval e de questões advindas de estudos da linguagem visual e plástica dos carros alegóricos, das esculturas carnavalescas, e do ambiente de ensino e aprendizagem da arte que se estabelecem no barracão das escolas de samba, por meio da descrição do processo de criação e confecção destes objetos artísticos, com a participação de profissionais, crianças e adolescentes aprendizes da comunidade. Para a realização desta pesquisa, participei do processo de criação e confecção dos carros alegóricos para o desfile do carnaval paulistano de 2006 na escola de
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samba Sociedade Rosas de Ouro nos meses de dezembro de 2005, janeiro e fevereiro de 2006, trabalhando como a pintora artística das esculturas e carros alegóricos. Presenciar, participar, conviver, compartilhar é o melhor modo de conhecer o que e como as pessoas realizam suas atividades. Registrei num diário o trabalho realizado no barracão, as várias etapas da produção artística dos carros alegóricos e das esculturas carnavalescas, descrevendo toda a técnica utilizada, passo a passo, desde o projeto no papel à sua execução, indicando os materiais utilizados, seus instrumentos, manuseio, mão de obra, fixação das esculturas nos carros alegóricos, a decoração, o transporte dos carros alegóricos para o sambódromo, os retoques finais realizados na concentração, as dificuldades enfrentadas, o espaço físico do barracão, enfim, o cotidiano do barracão de uma escola de samba, visando a aprendizagem da arte proporcionada através de todo este processo. Durante estes anos de experiência nos barracões, pude perceber que a arte faz parte da vida destas pessoas e o seu aprendizado ocorre gradativamente por meio da cultura circundante. Aprender, para eles, antes de tudo é lazer, é prazer, é convívio. Entrevistei os profissionais da escola de samba Rosas de Ouro, os quais são responsáveis pela confecção dos carros alegóricos: ferreiros, marceneiros, escultores, pintores artísticos, decoradores, auxiliares e jovens aprendizes da comunidade, e de instituições culturais e acadêmicas, além do carnavalesco criador do enredo, visando o processo de ensino e aprendizagem da arte de cada uma destas pessoas que participaram do trabalho carnavalesco no barracão. Encontrei, no relato destas pessoas, inclusive em minha experiência, material riquíssimo para a realização desta pesquisa. Para este estudo, participei também dos ensaios na quadra, dos ensaios técnicos, ida ao sambódromo, conversas informais, entrevistas, confecção dos carros alegóricos no barracão, o transporte dos carros alegóricos para o sambódromo, acabamentos finais na concentração, participação do desfile e das principais festas da escola durante os anos de 2005 e 2006. Este trabalho está estruturado em 04 capítulos: No primeiro capítulo, realizei um levantamento geral sobre o processo carnavalesco das escolas de samba, detive-me em tópicos como: o barracão, o trabalho das equipes de profissionais do carnaval, o papel do carnavalesco, materiais utilizados para
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confecção dos carros alegóricos, o transporte até a concentração, o desfile, a apuração e os quesitos julgados no desfile. No segundo capítulo, faço um panorama sobre a minha trajetória como profissional do carnaval, além de relatar toda a minha experiência de aprendizagem da arte adquirida durante estes anos de vivência nos barracões das escolas de samba. No terceiro capítulo descrevo o processo carnavalesco no ano de 2006 da Rosas de Ouro, realizo um breve levantamento sobre o histórico da escola, e descrevo o processo de ensino e aprendizagem da arte estabelecidos no barracão através das anotações do diário que escrevi durante o trabalho no barracão da escola: “Notas sobre o barracão”, tendo registrado tudo o que presenciei neste período. No quarto capítulo analiso a contribuição das escolas de samba para o processo de ensino e aprendizagem da arte, e como objeto de estudo da cultura brasileira, na tentativa de estabelecer um diálogo com os respectivos autores que pesquisam sobre o carnaval e arte educação, descrevo o processo de ensino e aprendizagem da arte no barracão: aprender fazendo e as relações de conflitos entre mestres e aprendizes no barracão da escola de samba. Por fim, escrevo minhas considerações finais, avaliando como esta pesquisa contribuiu para o meu aprendizado e de alguma forma para o ensino e aprendizagem da arte.
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CAPÍTULO 1
O PROCESSO CARNAVALESCO
1.1 – Barracão: oficina de arte da escola de samba
O barracão é o local onde são confeccionados os carros alegóricos da escola de samba. Em alguns barracões em que trabalhei, nos meses que antecedem o carnaval, o acesso ao barracão é restrito por conta da necessidade de manter o segredo e o fator surpresa como exigência da competição que caracteriza o desfile. O barracão é vigiado por seguranças noite e dia, e nas vésperas do desfile, há seguranças até com cães de guarda. No barracão reúnem - se centenas de pessoas que trabalham, almoçam, brincam, e dormem juntas. Todas lutando pela escola. Num lugar onde convivem tantas pessoas, não poderia deixar de haver também desentendimentos, mas nada que seja tão sério a ponto de influir na qualidade final do trabalho. O ambiente do barracão é de euforia, entusiasmo e compromisso, ocasionalmente ocorrem alguns conflitos entre os profissionais, ajudantes, carnavalesco e até com a direção da escola, por diversos motivos como fofocas, falta de pagamento, profissionais que se ausentam do barracão durante o expediente, rádio ligado muito alto, falta de espaço físico no barracão e de material para a execução do trabalho, ciúmes, desperdício de material, lentidão na execução do trabalho, incompatibilidade de gênios, entre outros motivos, mas nada que possa comprometer o trabalho. O trabalho do barracão, a produção dos carros alegóricos e fantasias, ocorrem paralelamente ao cotidiano da escola onde acontece festas, ensaios, shows, cursos, desfiles de moda, entre outras atividades. Os trabalhadores, além de uma relação baseada em valores como fidelidade, admiração e respeito pela escola, também tem uma relação profissional com o carnavalesco e com seus colegas de trabalho. No barracão há um chefe que coordena e dirige os trabalhos de confecção e montagem das alegorias, para que se forme uma equipe que funcione e se integre. 17
Existe um almoxarifado que tem a função de organizar os estoques de materiais dentro do barracão. Todas as entradas e saídas de produto são controladas manualmente em fichas que controlam o estoque. A criatividade, a organização, a motivação das pessoas envolvidas, e a dedicação ao trabalho no barracão impressionam os visitantes. O mero fato de estar todos juntos gera alegria. Os trabalhadores fazem piada enquanto trabalham, riem, conversam, brincam, cantam... A formação profissional para o carnaval, ou seja, o acesso às técnicas, aos macetes, detalhes, minúcias, e segredos desenrola-se através do contato com os mais experientes, aprende-se observando. O trabalho no barracão requer imaginação, criatividade, invenção, organização, responsabilidade, e a capacidade de pensar soluções de acordo com os materiais e os instrumentos de que se dispõem, e fazê-lo com a rapidez necessária que exige o trabalho no barracão. Às vezes é preciso dar um jeito na última hora. Estas habilidades são adquiridas com o passar dos anos e pela convivência no meio. Existem funcionários remunerados, mas também muitos trabalhadores voluntários que só pelo prazer de ver sua escola desfilar na avenida, perdem noites de sono trabalhando no barracão, não é o caso da Rosas de Ouro, onde todos são remunerados, mas na escola de samba Nenê de Vila Matilde muitas pessoas trabalham gratuitamente. “Viver uma escola de samba é aprender a dar um pouco de si e a trabalhar num ambiente de mútua cooperação que se faz presente de carnaval a carnaval”. (URBANO, e NABHAN, 1987, p. 7).
Na produção artística cada profissional, ajudante e aprendizes se sentem responsáveis pelo conjunto. O carnaval trata-se de uma produção coletiva. O barracão é uma espécie de galpão, muitas vezes o barracão se localiza embaixo de viadutos que é o caso do barracão da escola de samba Colorado do Brás, outros são espaços ociosos na cidade que são invadidos pelos componentes da escola de samba, que é o caso do barracão da Mancha Verde. Pouco a pouco o espaço vai se transformando, adquirindo ares de local de trabalho. Instala-se luz elétrica, reformas vão sendo realizadas, tornando o local mais habitável! Já atuei em barracões em que se trabalha em condições muito precárias, principalmente quanto às instalações, com goteiras devido a furos no teto, muitas vezes não há água, banheiros, e instalação elétrica. Muitos barracões possuem energia elétrica através de ligações ilegais, gambiarra, puxando o fio diretamente do poste de 18
luz da rua, ou da casa de algum vizinho. Muitas vezes a iluminação cai pelo excesso de consumo de energia que não é suficiente, além de não haver nenhuma segurança para o caso de incêndio. Alguns barracões em que trabalhei não possuem área coberta, tendo os profissionais de trabalharem sob sol e sob chuva, expostos a ação do tempo. Já trabalhei também em ótimos barracões com toda a infra-estrutura necessária para a realização de um bom trabalho carnavalesco! A organização do espaço de um barracão se transforma o tempo todo, adequandose às necessidades do desenrolar do seu ciclo anual. As pessoas que entram pela primeira vez num barracão se espantam com o movimento constante. O corre-corre de última hora, com pessoas por todos os cantos, serralheiros,
marceneiros,
artistas
plásticos,
aderecistas,
fibreiros,
ajudantes,
estagiários, costureiras, bordadeiras, martelos batendo, pincéis espalhando tintas, mãos colando adereços, barulho do compressor e de outras máquinas ligadas ao mesmo tempo, pelo chão materiais variados: latas, aparas, restos de papelão, plásticos, acetato, sobras de tecidos, pregos, ferro, madeiras, colas, resinas, tintas, papel, arame, restos de espumas, fibra de vidro, acrílicos, muito isopor espalhados como se fossem neve, pedrarias, lantejoulas, espelhinhos, cola quente, tesouras, entre uma grande quantidade de itens. Cheiro de solda, de tinta, de cola, solventes, madeira e isopor queimado que chega a incomodar os que não estão acostumados. As pessoas trabalhando, e no meio de tudo as estruturas gigantescas. Tudo é muito grande ou muito numeroso. Nunca se vê uma fantasia, mas centenas delas. Não há alegorias pequenas, todas são enormes, gigantescas, e complexas. Foto: Rosana Antunes
Fig. 1 - Barracão da Rosas de Ouro 1996.
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Na Rosas de Ouro há vários rádios ligados pelo barracão, geralmente cada equipe leva o seu próprio aparelho de som, a música se mistura ao som do compressor, da furadeira, das várias máquinas ligadas ao mesmo tempo, dos martelos batendo, dos serrotes serrando, e as risadas dos bem humorados trabalhadores. Existem alguns alojamentos no barracão, necessários para as pessoas que transformam o local de trabalho em casa, ou para não perder tempo dentro das conduções indo e voltando todos os dias da sua casa, ou por morar em outras cidades ou estados. Normalmente os profissionais trabalham com contratos, às vezes não existe nem documento. No início das atividades, o contrato é firmado só na conversa entre a escola e o profissional, valendo o voto de confiança. Poucas são as pessoas que trabalham numa escola de samba com carteira assinada. Algumas escolas pagam os profissionais semanalmente, outras somente quando este termina todo o serviço, e muitas vezes este pagamento é feito em várias vezes. Já recebi semanalmente pela Rosas de Ouro durante o trabalho no barracão e quando este terminou a escola dividiu o pagamento em várias vezes, e já recebi também o valor total no final do serviço pela Mancha Verde. O almoço nos barracões de muitas escolas são fornecidos gratuitamente para os trabalhadores, em outras, as refeições são providenciadas pelos próprios funcionários. Os profissionais de carnaval passam meses dentro do barracão. São meses de trabalho, dia e noite. No barracão, muitos começam desde criança, assim vai nascendo a vocação de querer aprender. O trabalho é feito com emoção, os participantes se empolgam com sua realização. Blocos de isopor são entalhados pelo escultor que fica coberto pelo pó do isopor. Várias esculturas vão surgindo e ocupando os amplos espaços dos barracões. Existem alegorias que de tão grandes, não cabem na parte coberta do barracão, tendo que serem confeccionadas no pátio do barracão, trabalhando-se sob sol e chuva. O espetáculo que ocorre no interior dos barracões é fechado, ninguém de fora pode ver e nem sentir a energia que existe dentro do barracão da escola de samba. Quem de fora ver essa bagunça, não acredita que dará certo. É uma bagunça organizada! Dentro do barracão tudo se resume em criar, executar, e correr contra o tempo. O segredo dos movimentos das esculturas é uma técnica manual que passa de artista para artista. Há uma troca de idéias entre eles. 20
A questão do vai quebrar, não vai quebrar. Já tentaram trabalhar com engenheiros, trazê-los de fora, e toda vez é um monte de confusão, não dá certo. Os caras são muito técnicos e na verdade não sabem nada. A escola realmente é na prática. A gente diz: cara, isso aí não vai agüentar. E eles respondem cheios de si – Agüenta sim. Eu sou isso, sou aquilo, sou o bom. Aí a gente avisa: essa merda vai cair ... viu? Eu não te disse que essa porra ia cair? (VALENTIN, e CUNHA, 1998, p. 66).
Foto: José Teixeira Gonçalves
Fig. 2 - Alegoria dos anjos sendo colocados no carro Alegórico 1995.
O trabalho é feito com emoção, os participantes se empolgam com sua realização. A criatividade dos artistas é submetida todos os anos a uma série de testes. O primeiro é saber se o sonho tornará realidade, se os mecanismos de movimento funcionarão, se as luzes acenderão, se os fogos inflamarão no momento exato. E, por último, se conseguirá produzir o efeito desejado no sambódromo. Em cada uma dessas etapas correm suor, adrenalina e muitas lágrimas. A produção no carnaval é executada por vários figurantes, em todos os momentos ao longo do ano, ou seja, um espetáculo com suas variantes naturais: o enredo, o 21
samba, as fantasias, os carros alegóricos e tantos outros elementos que serão fatores de criação para um momento único que é o desfile! São inúmeros os profissionais que se unem para conseguir um bom desfile. Cada um terá uma participação de grande importância e responsabilidade. Todos os setores dentro do barracão dependem um do outro mutuamente para o desempenho e desenvolvimento de suas funções. Os profissionais que trabalham no barracão, concretizam a idéia do carnavalesco, e são responsáveis pelos seus setores e cabe ao carnavalesco supervisionar e unificar o grupo. Existem profissionais no barracão que são mulheres e enfrentam com êxito tarefas consideradas de homem, destacando-se entre os profissionais. Nas escolas de samba, os carros alegóricos são guardados a sete chaves. Eles são muito valorizados pela escola. Portanto o barracão tem uma importância enorme, pois é o local onde os carros são confeccionados. Segundo Joãozinho Trinta a presença das alegorias é uma necessidade para o componente da escola de samba que as entende retratando a sua escola, tanto que procura por elas quando chega à concentração, medindo a beleza e a grandeza do desfile de sua escola através das alegorias que esta apresenta. As estruturas metálicas utilizadas para os carros alegóricos da Rosas de Ouro são reaproveitadas de ano para ano.
Foto: Rosana Antunes
Fig.3 - Ferragem do carro alegórico em construção no barracão da Rosas de Ouro 2006.
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Na confecção de um carro alegórico, a primeira modalidade a entrar em cena no barracão é a ferragem. Primeiro se faz a estrutura do carro em ferragem, que é montada sobre eixos de caminhões com quantas rodas forem necessárias, depois o marceneiro reveste com madeira as estruturas de ferro, dando forma ao carro alegórico. O trabalho de ferragem e marcenaria é muito importante, pois deles depende a segurança das pessoas que irão em cima do carro.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 4 - Estrutura de ferro do carro alegórico sendo revestida com madeira no barracão da Rosas de Ouro 2006.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 5 - Trabalhadores do barracão colocando a escultura sobre o carro alegórico no barracão da Rosas de Ouro 2006.
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Logo após vem a colocação das esculturas, a pintura, decoração, detalhes finais de acabamento e por fim a instalação dos efeitos especiais e a iluminação. Nenhum destes itens pode ser descuidado. O trabalho no barracão começa a ficar intenso a partir do mês de outubro, com a presença simultânea das equipes de ferragem, marcenaria e de escultura. As equipes de pintura, decoração e iluminação começam a trabalhar no barracão apenas na fase final, lá pelo mês de dezembro, só então o barracão começa a ganhar forma, iniciandose assim um ritmo alucinante, obsessivo e permanente de trabalho que só termina na concentração no dia do desfile. Nas semanas que antecedem o desfile, a imprensa visita o barracão e a quadra da escola de samba para tomar conhecimento do enredo do desfile, tudo é transmitido para a imprensa pelo carnavalesco.
1.2 – Escultura e moldagem das alegorias
As esculturas têm lugar de destaque nos carros alegóricos! O escultor tem que ser ágil, rápido, que saiba trabalhar com grandes proporções, e que entenda a intenção do carnavalesco. O escultor transpõe para o isopor o desenho do carnavalesco. A forma idealizada e indicada no desenho do carnavalesco se realiza no trabalho do escultor. Um aspecto peculiar da escultura em isopor é ser efêmera, pois é muito curta a sua duração, durante o desfile algumas esculturas por sua fragilidade são danificadas pelo próprio balanço do carro alegórico com todos os seus destaques em cima dançando e pulando, quando o carro é muito grande, suas esculturas podem bater nos cronômetros da avenida, e quando os carros saem da dispersão do sambódromo, eles vão para um terreno próximo destinado para guardar os carros de todas as escolas até o desfile das campeãs, onde ficam expostos ao tempo o que causa diversos danos as alegorias. Depois os carros são levados novamente para suas escolas, e durante este trajeto mais estragos ocorrem nas alegorias, pois os carros tem que atravessar viadutos, cabos elétricos, dentre outros obstáculos, e dentro da própria escola com o passar do tempo, a alegoria vira sucata, as que ainda permaneceram num estado razoável são
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vendidas para outras escolas ou transformadas em alegorias diferentes para o próximo carnaval. O carnavalesco discute peça por peça com o escultor e entrega-lhe os desenhos dos carros alegóricos com as medidas de cada escultura a ser confeccionada. A partir destas ferramentas, o escultor inicia o seu trabalho.
Antigamente, as esculturas eram em tabatinga¹. O trabalho era muito delicado, sujeito a rachadura, necessitando de uma estrutura interna para segurar o molde de barro, que depois era reproduzido em gesso para só então ser feito de papier mâché². Assim eram feitas as esculturas desse universo mágico até o advento do isopor, o que não invalidou as técnicas antigas. (MAGALHÃES, 1997, p. 59).
Hoje em dia há vários escultores trabalham com isopor. Em geral usam-se blocos de 2m de comprimento por 1,0 de altura e 0,50 de largura. Existem também outras medidas de blocos de isopor. São blocos com densidades diferentes, quanto maior a densidade, maior o preço do bloco de isopor. Alguns escultores preferem trabalhar com o bloco de maior densidade, pois além de mais resistente, dá para realizar um trabalho mais detalhado. Outros preferem o bloco com menor densidade, pois apesar de não se conseguir esculpir detalhes muito pequenos, é mais macio para se desgastar. Riscam-se os blocos e vai-se desgastando utilizando fio de níquel cromo, facões, facas, e escovas de aço. Caso o escultor faça um corte errado, remove-se a parte danificada, colando um outro pedaço de isopor que será esculpido. Para colagem usa-se o poliuretano, cuja secagem é rápida e de fácil corte. O poliuretano é um produto químico na forma de duas substâncias líquidas diferentes, um claro e um escuro que vem em recipientes separados. Mistura-se em pequenas porções e na mesma quantidade o elemento A e o B num copinho de plástico, mas somente no momento em que for utilizado, pois logo após a mistura dos ¹tabatinga: argila de coloração variada. ²papier mâché: massa composta por uma mistura de cola com papel, água, uma pitada de formol ou vinagre para sua conservação, e farinha de trigo. Essa massa é utilizada para modelar.
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elementos, o produto começa a espumar, cresce como uma massa de bolo e endurece imediatamente.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 6 - O escultor José Teixeira Gonçalves esculpindo alegoria no barracão da Rosas de Ouro 2006.
Logo após a mistura, mexe-se com um pedaço de pau e coloca-se imediatamente no local onde se deseja colar as duas partes da escultura, e prende-se segurando com força, porque o produto irá inchar, podendo deslocar as partes à serem coladas. Depois de endurecido, usa-se a faca para retirar as sobras e rebarbas do poliuretano já endurecido, acompanhando as formas da escultura colada. Na foto acima, o poliuretano representa as marcas amarelas que estão nas divisões da escultura, ele foi utilizado para colar, unir as partes da alegoria. O poliuretano é utilizado também para preencher buracos ou espaços vazios na escultura. Este material tem um custo elevado e pesa no orçamento das escolas de samba que o utilizam não só nas esculturas, mas também na decoração dos carros e em outras ocasiões. O poliuretano é uma espécie de coringa no carnaval. Depois de pronta, a escultura é lixada. Após todo esse trabalho, o isopor está pronto para ser revestido por uma camada de papel e cola, técnica chamada de
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empastelamento ou empapelamento. Assim a peça fica pronta para que se tirem cópias em resina com fibra. Geralmente o empapelamento é realizado por crianças ou adolescentes que estão iniciando o trabalho no carnaval.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 7- Ajudante empapelando alegoria no barracão da Rosas de Ouro 2006.
A cola para o empapelamento pode ser comprada pronta ou é feita no próprio barracão, misturando-se água e polvilho num caldeirão ou lata de tinta vazia, sendo aquecido sobre um fogão à lenha improvisado. Há todo o cuidado para não deixar a massa criar pelotas até que levante fervura e, enfim, esteja pronta a receita da cola caseira. Apesar de ter um preço mais baixo, esse tipo de cola dá mais trabalho e se gasta mais tempo para prepará-la, além dos pedaços de papel soltarem com mais facilidade. Quando a cola já é comprada pronta, geralmente utiliza-se a cola cascorez, misturase da seguinte maneira: numa lata, balde ou bacia grande, colocam-se duas medidas de água para duas de cola, mistura-se bem a água com a cola. Cortam-se pedaços de papel craft, ou jornal velho, mergulha-se nesta mistura de cola e água, e são colocados uns sobre os outros, moldando-os à escultura até formarem uma espécie de membrana sobre a escultura. Onde houver alto-relevo ou baixo-relevo, o papel com cola deve acompanhar todas as reentrâncias e volumes da superfície da escultura. Em lugares 27
onde há muitos detalhes, o papel é cortado em tamanhos menores para facilitar o trabalho. Quando a cola e o papel secam, forma-se uma camada dura que reveste, protege, e dá o acabamento a escultura com todos os seus detalhes expostos, desde o mais fino traço, sem deixá-los sumir ou modificá-los depois do empapelamento, a escultura tem que continuar idêntica como era antes de ser empapelada. Para que os detalhes não se percam, é preciso muita habilidade.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 8 - Escultura empapelada pronta para ser pintada. Barracão Rosas de Ouro 1998.
O empapelamento é uma técnica que deixa a escultura muito bonita, em vários tons de marrom, muitas vezes dependendo do efeito que se deseja, não é necessário nem pintar a escultura. As mãos e os braços da turma do papel, assim como são chamadas as pessoas que empapelam no barracão da Rosas de Ouro, ficam completamente enrugadas de passarem horas com os braços mergulhados na cola e água. Depois começam a descascar a cola que secou, puxando os pelinhos do braço. Alguns trabalhadores até passam mal por causa da substância química da cola. A partir da escultura em isopor devidamente empapelada, quando se faz necessária a reprodução de outras peças iguais, entra em cena o fibreiro ou laminador. 28
O seu trabalho é confeccionar o molde em fibra de vidro da escultura já empapelada, que consiste em passar cera em toda a escultura para que a fibra não grude na alegoria, depois colocam-se pedaços de manta acrílica na superfície da escultura que são cobertos com uma mistura de resina e catalisador espalhados com a ajuda de um pincel. Deixa-se secar esta mistura que começa a endurecer, só então com uma serra elétrica, corta-se a camada da resina ao meio de maneira a se abrir em duas partes, desenformando-as da escultura. O molde está pronto! Com este molde podemos reproduzir a escultura em fibra de vidro. O material utilizado neste trabalho tem um custo alto, é um material químico: resina, catalisador e thinner. Para reproduzir a escultura através do molde pronto, passa-se cera no interior das duas partes do molde, colocam-se os pedaços da manta acrílica onde foi passada a cera no molde, pincelando por cima a mistura de resina e catalisador. Foto: Rosana Antunes
Fig. 9 - Fibreiro Agnaldo “Nanau” batendo fibra no barracão da Rosas de Ouro 2006.
Esse processo é chamado de “bater fibra”. Esta mistura é perigosa, se pingar na pele pode formar bolhas. O cheiro da resina é terrível, enjoa, a fibra coça o corpo e pequenos pedaços de fibra entram na pele e inflamam. Além disso, estes produtos são uma ameaça para a saúde. A resina reage imediatamente com a fibra. A secagem é rápida, então a fibra é desprendida do molde e fica repousando até endurecer totalmente. Depois é só unir uma parte na outra. 29
O vacuoforme é o processo de confecção das fôrmas de acetato utilizadas para reproduzir pequenas alegorias em grandes quantidades para as fantasias das alas. A peça que se quer reproduzir é modelada em argila, tira-se a fôrma em resina, depois a placa de acetato é moldada através da fôrma numa máquina especial. Este processo no barracão é chamado de “bater placa”. Foto: Rosana Antunes
Fig. 10 - Fernando “Chelaia” batendo placa no barracão da Rosas de Ouro 2006.
1.3 – Pintura artística, decoração e movimento
A pintura é uma das fases finais da confecção do carro alegórico. No carnaval é necessário um bom pintor de arte. É preciso muita observação, paciência, além de saber pintar. Geralmente se usa tinta à base de PVA. Algumas cores básicas já são compradas prontas, outras são preparadas pelo pintor. Esta tinta não é muito tóxica, tem secagem rápida, e o diluente é a água, além de ser facilmente encontrada no mercado a um bom preço. Na pintura artística outros tipos de tintas também são utilizadas, dependendo do que se deseja pintar. São usadas tintas luminosas, fluorescentes, metálicas, transparentes, e brilhantes. Não existe regra para aplicação da tinta, depende muito do efeito que se deseja. São usados tanto os pincéis, como a pistola e o compressor.
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Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 11 – A autora pintando alegoria no barracão da Rosas de Ouro 2003.
Na decoração, um bom aderecista tem que ter habilidade manual e criatividade para transformar. Adereço abrange forração, decoração e acabamento. Os materiais são os mais diversos, onde se tem a possibilidades de transformá-los, tudo pode ser aproveitado.
Foto:Rosana Antunes
Fig. 12 - Aderecistas trabalhando no barracão da Rosas de Ouro, 2007.
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Em termos de movimentação das esculturas gigantescas, penso que a técnica utilizada pelos especialistas que trabalham no Festival Folclórico de Parintins o qual representa a disputa dos bois Garantido e Caprichoso, seja tão avançada quanto a técnica utilizada no Rio de Janeiro. Eles estão se tornando especialistas em movimentação de alegorias. Aqui em São Paulo, equipes inteiras de profissionais de Parintins são contratadas para atuarem nas diversas escolas de samba. Algumas escolas contratam
equipes completas de ferreiros, marceneiros,
escultores, pintores, e aderecistas, fazendo um pacote fechado com os profissionais de Parintins para trabalharem em seus barracões. A cada ano que passa novos profissionais, ajudantes e aprendizes dos galpões da festa do boi em Parintins estão vindo para trabalharem no carnaval paulistano. As equipes de profissionais de Parintins já trabalham praticamente em todas as escolas paulistanas. Isto fez com que diminuísse a procura pelos profissionais de São Paulo. Logo após o carnaval, eles voltam para Parintins e começam a se preparar para a festa do boi. Depois retornam a São Paulo a fim de trabalharem novamente no carnaval. Já tive a oportunidade de trabalhar com alguns profissionais de Parintins, são pessoas simples e unidas, trabalham bem os temas amazônicos, e utilizam muito as cores vivas, principalmente o verde, e as cores fluorescentes. Eles sabem admirar o trabalho dos artistas Paulistanos. O trabalho nos galpões do Festival Folclórico de Parintins é semelhante ao trabalho dos barracões das escolas de samba, caracterizando-se também num espaço de criatividade e aprendizado.
1.4 – O carnavalesco
A pessoa responsável pela parte visual do desfile da escola de samba é o carnavalesco, cabe a ele achar soluções visuais que causem grande impacto a ponto de transformar a ilusão em realidade.
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“O significado verdadeiro da palavra seria cenógrafo, figurinista e uma espécie de diretor de cena.” (MAGALHÃES, p. 135). A pluralidade de funções assumidas pelo carnavalesco na produção dos desfiles das escolas de samba, torna-o um profissional polivalente na medida em que deve saber de tudo um pouco, além de coordenar as atividades no barracão, no ateliê, acompanhar os ensaios na quadra e a montagem do desfile no sambódromo. Na maioria das vezes é o carnavalesco quem faz o enredo. A própria diretoria da escola pode escolher o tema, que é dado ao carnavalesco para que o desenvolva em forma de desfile. Muitos carnavalescos são autodidatas. Aprenderam olhando, observando. Não existe uma formação específica para carnavalesco. O conhecimento do carnavalesco é principalmente a vivência dentro de uma escola de samba. Ele é responsável pela concepção estética do desfile e controla todo o processo de confecção das fantasias e alegorias. O objetivo do carnavalesco é contar uma história, utilizando como recursos a música, a dança, as alegorias e fantasias. Tem a missão de fazer com que o enredo, as alegorias, e as fantasias estejam em concordância com os critérios de julgamento avaliados pelo júri e satisfazer os critérios estéticos de quem assiste ao espetáculo, admirando sua beleza. O trabalho do carnavalesco é essencial para que se possa não só criar o enredo, mas dar condições, acompanhando todo o trabalho pré-carnaval, juntamente com a diretoria, para que o trabalho possa ser realizado. Terá que se preocupar com os gastos, percebendo as limitações financeiras da escola e a sua própria estrutura. O carnavalesco deverá conhecer e indicar material alternativo, de custo reduzido, com o intuito de produzir o mesmo efeito daquele mais caro que é o apropriado. O enredo, proposto através de texto, transforma-se em linguagem plástica e visual através das fantasias, adereços e alegorias. Depois de escolhido o tema com a comissão de carnaval da escola, o carnavalesco além da elaboração da sinopse do enredo, desenham os figurinos das fantasias e os projetos gráficos dos carros alegóricos. A partir da definição do tema, o carnavalesco realiza uma pesquisa bibliográfica através de livros, revistas, enciclopédias, consultam em bibliotecas e museus, internet, e elabora a sinopse, texto com os principais tópicos de enredo. 33
A sinopse servirá de referência para que os compositores elaborem o samba enredo e o carnavalesco, o projeto estético do desfile. Neste projeto, o carnavalesco irá definir qual parte do enredo cada ala terá que representar, e o que será retratado pelos carros alegóricos. Quando o carnavalesco concebe o enredo, ele se preocupa em atender aos requisitos exigidos pelos jurados, que tem em mãos a sinopse e o roteiro, com o nome e significado de cada carro alegórico. A primeira etapa consiste em entregar à ala dos compositores da escola a sinopse do enredo que tem em mente, fazendo com eles reuniões para explicar o tema a ser desenvolvido. A partir deste enredo é que os compositores criam o samba. Segue-se o estágio denominado dentro da escola “cortar o samba”, ou seja, ir sucessivamente eliminando da competição os sambas mais fracos até que reste apenas um, o samba enredo vencedor, sobre o qual o carnavalesco irá desenvolver cenografia, figurinos, coreografia e tudo mais que lhe compete fazer para o desfile da escola de samba. Depois, desenham-se as fantasias e os carros alegóricos. Alguns carnavalescos sabem desenhar, mas os que não têm essa habilidade utilizam mão de obra especializada. Muitos interessados se candidatam para estágios no barracão. Ao desenhar os figurinos, o carnavalesco deve observar os materiais a serem utilizados na confecção das fantasias. Existe uma variedade muito grande de tecidos e materiais de acabamento. O carnavalesco, enquanto desenha, determina os tecidos que acompanharão cada figurino. Depois se executam os trajes piloto, ou seja, um primeiro exemplar da fantasia de cada ala para que possa ser reproduzido o figurino de cada uma. Cada ala dentro da escola de samba tem um chefe que é responsável pela confecção e comercialização das fantasias, além da sua organização no dia do desfile. A função das alas é representar determinados trechos do enredo no desfile, é o setor mais flexível da escola. A reprodução da fantasia é realizada nos ateliês dos chefes de alas que geralmente são instalados em suas próprias casas. Ao comercializá-las, o chefe de ala não pode comprometer o efeito desejado pelo carnavalesco, seja pela alteração do projeto original, ou pela escolha de materiais mais baratos para sua confecção. 34
A ala da comunidade é confeccionada pela escola em seu ateliê, e são cedidas gratuitamente pela escola aos moradores do entorno. A confecção dos destaques se caracteriza diferentemente das fantasias das alas. São fantasias individuais e resultam de um trabalho artesanal, muitas vezes feito pelo próprio destaque. São fantasias luxuosas e de extremo requinte. A partir daí, com os desenhos dos carros alegóricos prontos, é que se dará início ao trabalho de barracão. Ferreiros montam a estrutura, depois vem a carpintaria, os escultores, pintores, decoradores e iluminadores. Tudo no seu devido tempo. A escola de samba muitas vezes, por falta de dinheiro para maiores investimentos, reaproveita as esculturas de um carnaval para outro carnaval. Muitas vezes as esculturas são herdadas de uma outra escola de samba, sendo recicladas através de nova pintura. A supervalorização do visual imposta pelos carnavalescos, alguns autores atribuem ao excessivo papel conferido às alegorias nos desfiles das escolas de samba dos quais desapareceu a horizontalidade em prol da verticalização. Isto ocorreu depois da construção do sambódromo. Os carros cresceram na medida em que as arquibancadas cresceram, a população aumentou, e as escolas de samba evoluíram. Em nossos dias os carnavalescos recebem bons salários, desfrutam as mordomias que suas escolas lhes proporcionam e são reconhecidos pelo povo como grandes artistas no cenário nacional. Há instabilidade profissional que os espreita quando derrotados. É uma carreira atribulada. Produzir um trabalho original é um desafio para o carnavalesco, e exige muita criatividade! O carnavalesco também tem que estudar as cores a serem utilizadas em seus figurinos. Além das oficiais que são as cores da escola, podem-se usar as cores básicas e, em determinados quesitos, outras previamente registradas. As cores ouro e prata são consideradas cores neutras. O processo de criação na escola de samba se dá desde o momento em que acabou o desfile do ano. Os carnavalescos já estão se organizando para o próximo carnaval, na criação de um enredo e apresentação do mesmo à comunidade para que esta comece a trabalhar no samba, depois surgem as criações de fantasias e alegorias, e assim o trabalho do barracão e do ateliê acontece simultaneamente. A rotina de trabalho segue o mesmo caminho ano a ano. 35
Depende do carnavalesco a organização do desfile da escola pela qual ele se torna responsável em termos de apresentá-la da melhor forma. Por mais que a comissão de carnaval empreste ao carnavalesco sua assessoria no sentido de viabilizar através de recursos financeiros e humanos o que ele determina, compete ao carnavalesco a iniciativa, fiscalização e acompanhamento de tudo que diz respeito ao desfile, não apenas no barracão, mas também na quadra da escola onde sua colaboração é solicitada pelos integrantes e pela diretoria, dada a multiplicidade de atribuições que lhe são pertinentes. E mais, o carnavalesco tem ainda que estar atento às determinações da organização do concurso, sem o que sua agremiação será prejudicada, o que implica em desperdício de milhões e desprestígio para a escola. No caso de um fracasso, é o nome do carnavalesco que estará vinculado ao insucesso. O carnavalesco é uma espécie de mestre de obras que acompanha a realização de suas idéias nos vários setores da escola de samba. A década de 1960, trouxe para o desfile inovações plásticas e temáticas. À sua frente estava um grupo de artistas da Escola de Belas Artes, liderados por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, na escola de samba Salgueiro, os quais foram agentes catalisadores do processo de evolução dos desfiles das escolas de samba. A forma espetacular e monumental do desfile atual resulta de uma longa evolução. O desfile das escolas de samba acompanhou as transformações da cidade.
Os artistas da escola de belas artes desenvolveram um trabalho baseado na troca de experiências, negando qualquer imposição abrupta às raízes da manifestação popular sobre a qual estavam debruçados. Sua meta não era desvirtuar a forma de desfile, mas procurar, impulsionados pelo estímulo competitivo, empreender novas alternativas estéticas, buscando fugir dos padrões adotados por outras escolas. Nesse processo, tanto ensinaram como aprenderam. (MELO, 2000, p. 15).
Na década seguinte, outros artistas também se destacaram no carnaval, entre eles: Maria Augusta Rodrigues, Joãozinho Trinta, Rosa Magalhães e Renato Lage. Pamplona e Arlindo eram cenógrafos no Teatro Municipal, onde Joãozinho era bailarino.
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Joãozinho explorou a profunda relação que existe entre os componentes de uma ópera e os componentes da escola de samba, estabelecendo em sua visão uma nova noção de harmonia em escola de samba.
Eu digo que o desfile de uma escola de samba é uma ópera de rua porque ele tem exatamente toda a estrutura de uma ópera; analisando a espinha dorsal de uma ópera, é o seu enredo, o seu libreto, a sua estória que nós vamos encontrar também no desfile da escola de samba. Imediatamente, nós temos a parte musical que se apóia numa partitura que, no caso, é o samba enredo; nós temos na ópera, a orquestra – na escola de samba nós temos a bateria – na ópera nós temos o corpo coral, na escola de samba nós temos as alas que são aqueles grupos de pessoas que desfilam que evoluem e cantam. Nós temos na ópera o corpo de baile que entra exatamente para dançar, para ampliar a movimentação cênica que o corpo coral não pode chegar a tanto pelo esforço vocal – não é possível alguém cantar e dançar ao mesmo tempo – então na ópera, de repente, entra o corpo de baile que amplia a movimentação cênica; nas escolas de samba nós temos essa mesma representação através dos passistas que executam uma coreografia muito própria que é aquilo que a gente chama de “dar no pé” – eles são os criadores; esse corpo de passistas, correlato com o corpo de baile – ele não canta, apenas dança. E temos a cenografia: na ópera a cenografia, no desfile das escolas de samba os carros alegóricos, as alegorias que criam todo o cenário, toda uma cobertura cênica. Então nós vemos que todos os ingredientes, tudo que é necessário para uma ópera, nós temos exatamente uma correlação com o desfile das escolas de samba e, por isso eu digo que ele é uma ópera de rua. (FERREIRA, 1982, p. 88).
“Joãozinho não simplesmente enfatiza a integração cenográfica da escola e o potencial comunicativo das alegorias no conjunto do desfile de uma escola, mas o faz em função de uma visualidade barroca”. (CAVALCANTI, 2002, p. 2).
Como a ópera, o torneio e a procissão, o carnaval inscreve-se entre as festas barrocas pela possibilidade de rebuscar, de criar usando e abusando dos ornamentos que se multiplicam numa orgia de formas onde a palavra de ordem é a renovação pelo movimento contínuo o qual acentua o caráter transitório inerente a cada impressão ótica. Tudo isto se encontra consumado no barroco
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cuja tendência sensualista e monumental decorativa cresce na expressão de profundidade registrada no carnaval/desfile através dos carros alegóricos onde algumas figuras iluminadas artificialmente e com atitudes não naturais, próprias do palco, são trazidas para um primeiro plano em tamanho maior que o natural enquanto outras, nos motivos de fundo, sofrem súbita redução de proporções. (apud FERREIRA, 1982, p. 88 e 89).
A dificuldade encontrada em se distribuir dentro da escola, para o desfile, as fantasias de escravos, comprova a frase de Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. Quanto ao envolvimento dos intelectuais, o que Joãozinho Trinta pretendeu dizer foi que na prática, essa classe privilegiada que discute as necessidades dos segmentos carentes da sociedade, pouco sabe da vivência sofrida das comunidades oprimidas.
Carnaval é o único momento de realidade. Vá você fazer o carnaval de uma escola de samba no morro e pedir pro crioulo sair de escravo, ele te manda a...Porque escravo ele já é o tempo todo. Ele gosta é do luxo; ele quer sair de príncipe e princesa, que na verdade ele é e foi e tem direito de continuar a ser. (TRINTA, 1985, p. 83 e 98).
Joãozinho Trinta é um especialista em encontrar a possibilidade da beleza. Ele é um artista capaz de criar o luxo partindo de materiais comuns. Essa polaridade de enxergar o lixo e o luxo já vem dentro de Joãozinho desde a infância, pois era de uma família pobre e fabricava a maioria dos seus brinquedos, o que lhe deu uma prática muito grande de fabricar, produzir, transformar. No carnaval o mais importante não é o material usado, mas o que se pode fazer com ele, como criar a ilusão. Uma das características mais fortes de seu trabalho é a sua ousadia em arriscar, inovando e renovando. Em termos de criatividade e capacidade de improvisação, Joãozinho Trinta tem servido de mestre a diversos profissionais do ramo. Em minha opinião, Joãozinho Trinta é um dos carnavalescos mais criativos, ousado e inusitado do Brasil. Dotado de grande talento, possui habilidade em trabalhar com grandes dimensões e multidões. 38
Segundo Joãozinho, a magia do carnaval reside na somatória de tudo, desde as fantasias, os carros alegóricos, as passistas, bateria, música, puxador do samba. Tive a oportunidade de trabalhar duas vezes com Joãozinho Trinta, e o fator surpresa é uma das suas marcas registradas. Exigente, ele mesmo inspeciona tudo no barracão, e se o trabalho não estiver da maneira que imaginou, manda desmanchar e recomeçar novamente, até obter o resultado desejado. Extremamente hábil e imaginativo, é difícil para muitos acompanhar suas idéias.
1.5 – O efeito visual criado pelos materiais utilizados na confecção das alegorias
Efeitos especiais criam a magia do carnaval. As escolas lançam mão de materiais reciclados e muita imaginação para encantar na avenida. Uma coisa é conceber no papel a idéia do enredo. Outra é contar com os fatores tempo e dinheiro para que esta produção se concretize. Essa produção é realizada para o público, os jurados e atualmente para a televisão. Não é todo e qualquer recurso visual que terá o mesmo efeito desfilando na avenida do bairro e no sambódromo com todo o aparato de luzes. Nisto tudo o carnavalesco deve pensar para que a apresentação seja coerente com o enredo, e que seja feito com materiais condizentes com a questão financeira da escola. Muitas vezes os materiais caros e luxuosos, nem sempre dão um bom efeito como os materiais alternativos, reciclados de outros carnavais, que dão um efeito visual surpreendente. Os materiais reciclados podem ser bem utilizados desde que seja bem trabalhado e elaborado, transformando na aparência do que se deseja representar, revelando a beleza da criação. O reaproveitamento de muitos materiais que parecem insignificantes dão um acabamento relevante. Muitas vezes os carnavalescos utilizam materiais alternativos quando não se tem condições financeiras de comprar exatamente aquele material que se pretendia usar. Existem materiais alternativos que substituem o original podendo assim realizar esta mudança que surtirá efeitos, mas existem outros materiais que se não for feito daquela maneira, não existe outro que supra aquela necessidade. 39
O carnavalesco muitas vezes lança mão de determinados materiais a fim de baratear o custo do desfile de sua escola: o papel rochedo vira prata, as penas de espanador transformam-se em plumas, espelhos laminados com lixa dão efeito de cristal etc. Qualquer tipo de material é utilizado na decoração das alegorias: embalagens diversas, garrafas pet, copos plásticos, tampas, latas, ráfias, espelhos, brocal, laminados etc. Esse uso depende muito da imaginação do carnavalesco. A utilização de materiais modernos requer mão de obra especializada. É o caso do vacuoforme e da fibra de vidro, que exigem processos mais complicados para se fazer o molde de cada peça, porém depois de pronto consegue-se produzir uma grande quantidade de peças em pouco tempo. Da engenhosidade eletroeletrônica em forma de produtos de última geração a técnicas rudimentares, ajudam os carnavalescos a comporem cada pedacinho das escolas de samba.
1.6 - O transporte dos carros alegóricos para a concentração no sambódromo
Quando está próximo do dia do desfile, os carros alegóricos prontos são desmontados e empacotados para serem levados do barracão para a concentração no sambódromo.
Um carro alegórico chega a medir 10 metros de comprimento por 10 de largura e sua altura máxima não deve ultrapassar 9 metros. Seu peso varia de acordo com o material empregado na sua confecção, mas, com certeza, pesam em média umas três toneladas. Quando não são motorizados necessitam de pelo menos 25 pessoas para empurrá-los durante o desfile. (apud MAGALHÃES, 1997, p. 71).
No carro alegórico ficam os destaques e os figurantes que fazem parte da composição do carro, que podem ser em grande número. 40
O número de carros alegóricos em um desfile é definido pelo regulamento, podendo ser modificado de ano para ano. Algumas esculturas e alegorias vão de caminhão para serem fixadas no carro alegórico somente na concentração com o uso de guindastes. O trajeto da escola de samba até a concentração no sambódromo, transportando os carros alegóricos é muito penoso, muitas vezes este caminho não é feito com carros motorizados, tendo que recrutar pessoas para empurrarem os carros alegóricos até a concentração. Este momento é esperado ansiosamente pelos componentes da escola de samba, que ao saírem com os carros do barracão soltam uma salva de fogos, e muitas vezes até de tiros para o ar. Esta carreata é feita na madrugada, tanto para não interferir no trânsito quanto para manter o segredo e preservar o fator surpresa. A quantidade de pessoas que fazem a segurança no transporte dos carros é grande, assim como a de pessoas que ficam vigiando os carros no box destinado a cada escola na concentração, tudo isso para evitar sabotagem, coisa comum nesta fase pré-desfile. Os carros saem cobertos com plásticos pretos e vão sendo finalizados na concentração da forma mais discreta possível. Quando os carros já estão na rua, durante o percurso até a concentração, vão driblando carros, buracos, altura de viadutos, cabos elétricos, entre outros obstáculos. Aos poucos os carros de outras escolas também vão chegando à concentração, cada escola ocupando seu box. É um momento de festa, euforia, e muito trabalho para os componentes das escolas. A partir do momento em que os carros chegam à concentração, os trabalhadores do barracão passam a trabalhar no sambódromo. Toda a equipe do barracão começa a trabalhar noite e dia na concentração. A ansiedade e o nervosismo tomam conta desses últimos dias de trabalho, onde as pessoas se ocupam da finalização dos carros, cuidando dos acabamentos, dos detalhes e retoques finais, desafiando o relógio. Começa a montagem final dos carros alegóricos. As equipes de profissionais, munidos de suas ferramentas, tendo um trailer como almoxarifado, dão os retoques finais.
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Os carros são montados novamente, pois estavam dobrados ou desmontados para passarem por viadutos e cabos elétricos. Os marceneiros, escultores, decoradores, pintores, ferreiros montam e consertam pequenos problemas que aparecem. Este trabalho é feito de baixo de sol ou chuva, pois não há cobertura na concentração. O almoço são marmitas servidas na rua mesmo. Os carros alegóricos são vigiados dia e noite, para que não haja nenhum acidente ou sabotagem de outras escolas.
1.7 – O desfile
O desfile das escolas de samba é o momento mais forte e emocionante! Ver nas pessoas com as quais eu trabalhei no barracão uma expressão de êxtase e alegria, o sorriso, a preocupação, a tensão, os gritos, a adrenalina, as lágrimas, o suor, o canto, a dança, e a importância da escola para essas pessoas, muito me emociona! Os componentes da escola de samba deliram neste momento tão emocionante!
“Ali se reflete toda a história de empenho e esforço de cada um, que se vê e se reconhece a partir da escola, e que se sente visto quando a escola é vista, se sente vencedor quando a escola vence, porque se percebe como parte integrante de um contexto que se externaliza no carnaval, através da letra do samba, dos toques da bateria, das cores, do trabalho empregado em cada fantasia e em cada carro alegórico, mas que está profundamente vinculado ao cotidiano da vida dessas pessoas. (OLIVEIRA, 2002, p. 16).
As
escolas
desfilam
no
sambódromo,
cuja
pista
é
ladeada
pelas
arquibancadas. É uma imensa estrutura arquitetônica em concreto armado, com o "visual" – as fantasias coloridas e os expressivos carros alegóricos – e com o "samba" – o canto do "puxador" acompanhado do canto coral de toda a escola e da bateria. O movimento dançado das alas, grupos com fantasias alusivas a temas específicos do enredo, conduz a evolução linear. “Os carros alegóricos pontuam esse alinhamento, elaborando os principais tópicos do enredo”. “A dança ritmada e coletiva dos corpos conduz a escola em
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movimento linear, integrando o “visual” ao “samba”, unindo as dimensões festivas e espetaculares do desfile. (apud CAVALCANTI, 2002, p.1).
A concentração é o local de encontro de todos os componentes da escola que irão desfilar. É preciso chegar com uma hora de antecedência do horário marcado para o desfile da escola iniciar. Na hora do desfile só atravessam os portões, que são vigiados por seguranças, membros das alas devidamente fantasiados e pessoas credenciadas. Os destaques vãos sendo colocados em seus devidos lugares em cima dos carros alegóricos em gaiolas, através dos guindastes na concentração. Do lado de fora, a escola vai se armando, as pessoas vão chegando fantasiadas, carregando seus adereços, encontrando suas alas e se posicionando. Dada a sua longa extensão, a armação de uma escola ultrapassa a área da concentração, chegando até mesmo na rua, aberta ao público. A organização e a montagem das alas na posição pensada pelo carnavalesco, os carros entrando nas horas certas entre as alas, mostram que a montagem ou armação da escola para o desfile é um momento difícil, deixando os seus dirigentes tensos e nervosos. A bateria se coloca próxima à pista, junto aos cantores e músicos. Tudo pronto para iniciar o desfile. Poderão ocorrer pequenas confusões entre os componentes da escola, pois tudo acontece com agitação, muita adrenalina e paixão, porém a organização é maior que tudo. Quando o locutor oficial anuncia a entrada da escola de samba, a expectativa toma conta do público na concentração. Tensão e euforia contagiam os desfilantes. Chegou a hora! O intérprete da escola solta seu grito de guerra, a sirene toca e anuncia que o desfile vai começar! Existe uma ordem no desfile inerente à própria natureza do espetáculo. Cada grupo de pessoas está dividido em alas, representando parte da história a ser contada. A ala das baianas formada por senhoras mais velhas, representam as antigas mulheres que vieram da Bahia para dar origem ao samba, lembrando a tradição, traz a memória, o passado. Suas saias são rodadas, ajudando a dar o rodopio de sua evolução na avenida. À frente da escola vem a comissão de frente. Em seguida o carro abre-alas. 43
As alas estão distribuídas entre os carros alegóricos que ilustram o enredo e dão a visão de grandeza ao desfile. O casal de mestre sala e porta bandeira carrega no pavilhão, o símbolo da escola de samba. A bateria fica localizada no meio da escola. Cada carro, cada ala, tem um responsável. Toda a equipe de carnaval, diretores, harmonias, chefes de alas e o carnavalesco, desdobram-se para que o desfile saia perfeito. A equipe verifica durante o desfile se a escola está compacta sem deixar buracos entre as alas, se os componentes estão cantando o samba enredo e evoluindo bem, se há espaço suficiente para o mestre-sala e porta-bandeira realizarem a sua apresentação ao público, se há algum problema com os carros alegóricos, se estão sendo conduzidos corretamente acompanhando o ritmo do desfile, além de estarem atento na cronometragem, pois o tempo do desfile é regulamentado. Enfim a equipe dá todo apoio técnico à escola. Os desfilantes cantam, brincam e sambam ostentando suas fantasias. Os que assistem ao espetáculo pela televisão, têm uma participação mais restrita, não estando presente para compartilhar suas emoções com o grande público que se encontra nas arquibancadas. No final do desfile, a escola chega à dispersão, os carros são retirados do sambódromo por um portão, enquanto os componentes saem pelo portão do lado oposto para retornarem aos ônibus reservados pela escola que estão à espera para levá-los de volta para a quadra da escola. Quando acaba o desfile da escola, alguns componentes que desfilaram, vão para as arquibancadas assistir ao desfile das outras escolas que ainda irão passar pela avenida.
1.8 – A apuração das notas dos quesitos julgados durante o desfile
Após vários meses em regime de trabalho intenso, as emoções somente terminarão no dia da apuração das notas referentes aos quesitos julgados pelos jurados durante o desfile de cada escola de samba que desfilou na avenida. 44
A apuração revela o lado competitivo do desfile das escolas de samba. É realizada no sambódromo. As notas são anunciadas uma por uma. As torcidas ficam agrupadas em espaços separados da arquibancada. O torcedor vibra, xinga a cada nota anunciada. Se parece muito com a torcida do futebol. Neste momento, as escolas passam a se tratar como rivais. O caráter competitivo para a escola, significa o reconhecimento pelo trabalho realizado durante o ano todo, a capacidade de organização, e pela competência na produção do desfile e na arte de fazer carnaval. Quando termina o carnaval, depois do desfile das campeãs, os carros voltam para o barracão, esperando pelo desmonte. As esculturas, madeiras e ferragens são retiradas do carro para reciclagem. Os queijos, plataformas onde ficam os destaques, geralmente são feitos de maneira para serem reaproveitados. Do trabalho desenvolvido pelas escolas de samba para o desfile de carnaval, restam as imagens na memória das pessoas, nas fotos de revistas, jornais, nos vídeos da televisão, e no samba cantado pelo povo. Com o novo enredo em mãos, o carnavalesco faz os desenhos e projetos. E assim, se inicia um novo ciclo de trabalho rumo ao próximo carnaval. Ferreiros passam a estrutura, depois vêm a carpintaria, os escultores, pintores, decoradores e iluminadores. Tudo no seu devido tempo, até chegar novamente o dia do desfile. Ao mesmo tempo em que o desfile se encerra com a apresentação daquele enredo, ele também inicia um novo ciclo, com novas idéias e criações. “Desse modo, a vida de uma escola de samba constrói-se na sucessão ininterrupta de seus carnavais anuais”. (CAVALCANTI, 1994, pág.75).
1.9 – Os quesitos julgados
As escolas de samba de São Paulo são divididas em vários grupos, sendo o grupo especial e o de acesso gerenciado pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo e a realização do desfile ocorre no Pólo Cultural Grande Otelo “Anhembi”. Os demais grupos de escolas de samba e blocos carnavalescos são gerenciados pela 45
União das Escolas de Samba Paulistanas e sua realização ocorre nos mais diversos bairros da cidade.
Os quesitos de julgamento pontuam e formalizam o conjunto dos elementos que compõe o desfile. Eles expressam a evolução da tradição do desfile das escolas de samba. Tradição, pois estão em jogo conhecimentos transmitidos de ano para ano, desde o primeiro desfile. Evolução também, pois em função da sua natureza vital competitiva, as escolas de samba são também extraordinariamente dinâmicas. (apud CAVALCANTI, 1994, p.46).
As escolas de samba que são gerenciadas pela Liga das Escolas de Samba de São Paulo, recebem notas nos seguintes quesitos: alegoria, fantasia, harmonia, melodia, letra do samba, evolução, enredo, comissão de frente, bateria, mestre sala e porta bandeira. Os quesitos citados a seguir fazem parte do manual de julgadores da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo para as escolas do grupo especial que desfilam na sexta feira e no sábado de carnaval e para as escolas do grupo de acesso que desfilam no domingo. Na segunda e terça feira, no sambódromo e alguns pontos da capital, desfilam as escolas do grupo l, grupo ll e blocos, submetidas à UESP (União das Escolas de Samba de São Paulo). Cabe ao jurado responsável pelo item alegoria, verificar a concepção, a adequação e clareza dos elementos alegóricos ao tema proposto. Cabe também verificar a originalidade, a maneira diferente de criar ou estilizar elementos alegóricos, inclusive o aproveitamento de materiais alternativos. E ainda o acabamento. Em relação ao item fantasia deve ser verificada a adequação da fantasia de acordo com a proposta do enredo, a criatividade, ou seja, a maneira original de concepção incluindo a utilização dos materiais e a combinação de cores e também o acabamento que é o cuidado na confecção de toda escola, e igualdade de todos os acessórios (chapéus, sapatos e complementos) dentro das mesmas alas. No quesito harmonia deve ser observada o sincronismo, que é o perfeito entrosamento entre canto, ritmo e a dança observando-se o compasso da música, a marcação da bateria e a dança das alas.
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A constância, onde toda escola deve cantar o samba inteiro, durante todo o tempo do desfile e ainda a desenvoltura que é o comportamento descontraído de toda escola, transmitindo participação total e prazer em desfilar. Na melodia deve ser verificado a riqueza, a capacidade da melodia em transmitir musicalmente a intenção do samba enredo, a empolgação quando a melodia por si só proporciona com garra o prazer no canto e também a tonalidade, que é o equilíbrio entre o tom do puxador do samba e o tom de toda a escola, facilitando o canto de todos. Na letra do samba deve ser observada a fidelidade, se a letra do samba está fielmente de acordo com a proposta do enredo e a clareza. A letra do samba deve transmitir objetivamente a mensagem literária e poética do enredo e a precisão, é a elaboração da letra do samba em seus versos ou frases fazendo sentido com o tema proposto. No quesito evolução deve ser observada o desempenho rítmico, o deslocamento progressivo de todo o elenco dentro do andamento do samba, a expressão corporal, a movimentação do corpo todo dentro da cadência do samba, a precisão, a manutenção da mesma velocidade entre todos os setores da escola, evitando buracos, aglomerações e atropelos. No enredo deve ser verificado o aproveitamento, observar se as idéias centrais e os aspectos de maior relevo da sinopse foram aproveitados, o roteiro, se a imagem do desfile está proporcionando o entendimento das partes em que se divide o enredo, e se as propostas do enredo foram claramente apresentadas. Nos dias de hoje, os enredos abordam os mais diferentes assuntos. O regulamento do desfile recomenda a apresentação de enredos que tenham raiz ou influência da cultura brasileira. A comissão de frente inaugura o desfile, tem a função de saudar e cumprimentar o público ao longo de toda a extensão da passarela, pedindo passagem para a sua escola. Deve ser observada a postura, o sincronismo dos movimentos entre os componentes dentro da coreografia, e a integração. A comissão de frente é um grupo de até 15 pessoas que tem a tarefa de apresentar a escola. Na maioria das vezes é formada por homens, geralmente altos, bonitos e jovens!
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A comissão de frente deve ensaiar toda semana, algumas escolas começaram até a contratar coreógrafos, muitas vezes os próprios membros da comissão de frente criam e ensaiam a sua coreografia. No bateria deve ser observada a constância, o andamento rítmico que não deve diminuir nem acelerar durante o desfile, o entrosamento, e a perfeita combinação dos sons emitidos pelos vários instrumentos. Em se tratando de mestre-sala e porta-bandeira deve ser verificado o sincronismo, o perfeito entrosamento entre os movimentos do casal, a postura, a forma de conduzir e apresentar o pavilhão da escola com altivez e elegância, o estilo, a maneira singular de evoluir. Deve-se observar a criatividade e desenvoltura dentro do bailado. A roupa do mestre sala e da porta bandeira é baseada no vestuário de Luis XV, a preservação deste estilo de roupa é muito mais para manter a tradição, as raízes da escola de samba. Um Mestre Sala deve cortejar e apresentar a Porta Bandeira, bem como proteger o pavilhão da agremiação. Uma Porta Bandeira deve conduzir com leveza e graça o pavilhão da escola. A presença da ala das baianas é obrigatória nos desfiles, porque ela representa a raiz da escola de samba, mas esta ala não representa um quesito a ser julgado. As baianas são consideradas as responsáveis pela divulgação da cultura popular dentro da escola de samba. O carnaval foi se modernizando, porém a ala das baianas não mudou, tendo sempre o mesmo comportamento, girando durante o desfile, com suas saias rodadas, personalizando uma das alas mais imponente da escola. A obrigatoriedade da ala das baianas vem exatamente afirmar a idéia de preservação das raízes. Outra ala importante é a ala das crianças e da velha guarda, formada pelos sambistas mais antigos da escola.
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CAPÍTULO 2
MINHA EXPERIÊNCIA COM O CARNAVAL
Desde muito pequena, já tinha contato com o desfile de carnaval. Minha família materna nasceu no Rio de Janeiro e morou em Madureira. Meu bisavô Adalberto dos Santos e minha bisavó Alcina dos Santos, na época, eram componentes da Portela. Minha bisavó desfilava na ala das baianas da Portela. Minha avó Aracy também desfilava na mesma escola de samba. “Cici”, assim como era chamada minha avó, sempre nos contava que meu bisavô mandava fazer uma roda e colocava todos os filhos desde pequenos para sambarem. Aquele que não sambava apanhava de varinha nas pernas até aprender. Minha bisavó e avó eram lindas mulatas. Todos os anos quando chegava época de carnaval, a família inteira desfilava.
Foto: autor, local e ano desconhecidos
Fig. 13 – Minha avó Aracy “Cici”.
“Cici” até hoje nos conta sobre as rodas de samba que se formavam entre os componentes da Portela e da Mangueira. Lutavam capoeira de verdade: era uma rivalidade muito grande entre estas duas agremiações.
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Minha mãe desde pequenininha já desfilava de baianinha na Portela. Lembra minha avó que quando ela tinha oito anos de idade, um casal de gringo ao vê-la desfilar, queria adotar e levar minha mãe com eles para o exterior.
Aos dezoito anos, minha
mãe conheceu meu pai, casou-se e veio morar em São Paulo, desde esse dia, ela nunca mais desfilou. Foto: ano e autor desconhecidos
Fig. 14 - Minha mãe Ocirema Izidro Antunes e a minha avó Aracy. Rio de Janeiro.
Quando nasci, já convivia com o carnaval. Todos os anos quando chegava o dia do desfile, era quase um ritual ficarmos os três dias de desfile acordados assistindo pela televisão... naquela época eram só três dias de carnaval. Comíamos pipoca, doces e ficávamos até o dia seguinte sem dormir, era uma festa! E no interior desta festa, sem querer, já fui me educando com a estética dos desfiles das escolas de samba. Era pequenininha e já sabia sobre o mundo do carnaval: o que era um carro alegórico, as alegorias, a comissão de frente, as alas, a bateria... Quando fiz seis anos, eu, minha irmã e meu irmão começamos a passar nossas férias de fim de ano lá no Rio de Janeiro, em Realengo, na casa da minha bisavó. A 50
casa dela era muito pequena e vivia com muita dificuldade. Ela sofreu uma doença elefantíase nas pernas – que a impediu de desfilar. Ao chegarmos à casa dela, ficávamos maravilhados com suas cortinas e colchas, todas confeccionadas com os tecidos das fantasias das baianas por ela apresentadas em antigos carnavais. As fantasias eram desmanchadas e faziam-se cortinas, colchas, e almofadas. Os tecidos eram brilhantes, lindos! Minha avó nos levava em alguns ensaios de escolas de samba pequenas que acontecia próximo a sua residência. Lembro-me vagamente de minha avó ter me levado assistir um desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e em São Paulo, ambos ainda não eram realizados no sambódromo, o qual veio a ser construído anos depois. Além de toda esta vivência com as escolas de samba desde pequena, convivi também durante a minha infância com o candomblé, religião de minhas avós. Muitas vezes, eu e meus irmãos fomos participar das festas dos santos. Íamos à cachoeira, à praia e ao centro de candomblé onde aconteciam as festas. Só queríamos saber de brincar! Víamos as baianas todas de branco dançando, cantando e os atabaques tocando. Sempre quis tocar naquilo, mas ninguém deixava! Não entendia quando via as pessoas agirem de forma estranha para mim: adultos falando como crianças, com chupeta na boca, outras fumavam cachimbo, rodopiavam... Enfim, a minha vivência com o carnaval, com a religião e ritmos africanos, iniciou-se desde muito cedo. É algo vindo dos meus ancestrais, e talvez por isso é que mexe tanto com os meus sentidos! Faz parte da minha vida! Lembro-me uma vez quando estava na faculdade, minha avó me perguntou por que eu não iria trabalhar no barracão da escola de samba? Achei uma boa idéia, mas não levei muito a sério, pois não sabia como penetrar numa escola de samba. Desde 1992, trabalho como arte educadora, ministrando aulas de artes em escolas estaduais, no circo escola projeto da extinta Secretaria do Menor, no hospital psiquiátrico São João de Deus, CAPS - Centro de Atenção Psíquico Social, ongs, oficinas culturais e casas de cultura, através da Secretaria do Estado de Cultura de São Paulo, e Secretaria Municipal de Cultura, Projeto Arquimedes, CEU - Centro Educacional Unificado Vila Atlântica, Projeto PETI – Projeto de Erradificação do Trabalho Infantil pela Secretaria de Cultura de Guarulhos, além de ser artista plástica formada em 1989, pela faculdade Santa Marcelina em São Paulo/SP. 51
Em 1993, já havia participado de algumas exposições individuais no Itaúgaleria de Goiânia e de Penápolis e no Museu Solar do Barão em Curitiba. Participei também de algumas coletivas em São Paulo e de vários salões de artes pelo Brasil. Minha grande paixão era a gravura, principalmente a xilogravura japonesa, a qual se utilizava várias cores. Fiquei encantada com a exposição que visitei no MASP – Museu de Arte de São Paulo e da Fundação Mokiti Okada. As xilogravuras eram maravilhosas. Naquele dia sonhei com a exposição, senti uma grande leveza e harmonia ao ver aquelas imagens expostas, as quais demoraram muito tempo para saírem da minha mente. Neste mesmo ano, participei de diversas oficinas em São Paulo para ampliar meu repertório artístico e cultural, além de me reciclar. Numa destas oficinas: “Ambiental Gráfica Urbana”, cujo coordenador foi Maurício Nogueira Lima, conheci o escultor José Teixeira Gonçalves que também estava participando desta oficina. Ficamos amigos. No final de 1995, Teixeira me chamou para trabalhar como sua assistente na decoração natalina da rede de Shoppings West - Plaza, Plaza - Sul e Paulista, por meio da empresa Sparta Eventos. Esta foi minha primeira experiência com esculturas de grandes dimensões confeccionadas no isopor. Ajudava Teixeira a cortar o isopor na mesa de corte, no acabamento da escultura, a empapelar, decorar e a pintar. Trabalhamos também em outros eventos para os Shoppings além do Natal. Apesar de ser formada em artes plásticas, para mim, tudo era novidade, tanto o material, as ferramentas e o modo de se trabalhar. Fui experimentando de tudo um pouco, sempre sob a orientação de Teixeira. Comecei a me sobressair na pintura artística das esculturas e cenários. No início, encontrei muita dificuldade para trabalhar com as peças grandes, mas rapidamente passei a dominar o trabalho de pintura, a composição das cores, tonalidades e pigmentos, conseguindo representar todos os tipos de superfícies existentes na natureza, lançando mão de diversos efeitos conseguidos com o uso da tinta, diferentes materiais, e da prática artística existente neste tipo de trabalho. Para chegar ao nível de trabalho em que me encontro hoje, foi necessário realizar inúmeras experiências práticas com tintas, diferentes materiais, suportes, maquinários, pigmentos, estudos de luz e sombra, profundidade, volume, cores, texturas, formas, movimento, proporção, expressão e percepção. Todos estes elementos eram estudados não teoricamente como se faz na sala de aula, mas na prática, com a surpresa do dia a dia de trabalho.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 15 - O escultor Teixeira esculpindo no galpão da Sandvick em São Paulo 1999.
Este trabalho no galpão da empresa Sparta para o natal foi muito parecido com o trabalho no barracão da Escola de Samba.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 16 - Decoração no Shopping West Plaza. São Paulo, 1997.
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Logo após o natal de 1995, em janeiro de 1996, Teixeira me convidou para trabalhar pela primeira vez numa escola de samba. Foi na Sociedade Rosas de Ouro, uma grande escola do grupo especial de São Paulo. O carnavalesco era Tito Arantes, criador do enredo “Uma janela para o mundo”, apresentado neste desfile de carnaval em 1996. Teixeira já conhecia um pouco da minha pintura e isso foi suficiente para confiar no meu trabalho e fechar o contrato com o presidente da escola de samba Rosas de Ouro, senhor Eduardo Basílio. O contrato previa a confecção das esculturas, a pintura artística, o acabamento e o empapelamento, ficando tudo sob sua responsabilidade. Esta foi a grande chance que obtive de desenvolver e apresentar as pessoas o meu trabalho como profissional do carnaval. Teixeira contratou também alguns meninos para empapelarem as esculturas. O serviço era grande, muitas esculturas para serem pintadas, e eu ainda não sabia manusear o compressor nem a pistola, aparelhos utilizados para pintar superfícies através de um forte jato de tinta continuo de longo alcance. Com a utilização do compressor, o trabalho de pintura é realizado com maior rapidez, precisão, deixando a superfície pintada uniforme, permite a realização de vários efeitos especiais, e o jato de tinta que sai da pistola possui um grande alcance à distância, facilitando muito o trabalho do profissional. Mas nem tudo na escultura é pintado com compressor, pequenos detalhes como olhos, utiliza-se o pincel para pintar.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 17 - Alegoria que a autora pintou no barracão da Rosas de Ouro em 1996. Foi toda pintada com pincel e trincha.
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Naquele ano, pintei todas as esculturas - que chegavam a medir até 4 m de altura com trinchas e pincéis, pois não sabia utilizar o compressor. O tempo que levei para pintar uma escultura, hoje pintaria seis esculturas iguais. Teixeira orientou-me a utilizar tinta látex semi-brilho, solúvel em água, pois facilita o trabalho e não possui cheiro muito forte. Neste mesmo ano, Teixeira me ensinou a utilizar o compressor e a pistola, que a partir daí seriam meus instrumentos essenciais de trabalho. A sua orientação foi muito rápida, apenas me mostrou como se ligava o aparelho, onde a tinta é colocada e como se faz para sair o jato de tinta. A primeira peça que pintei com o compressor foi um jacaré enorme, que já estava fixado no alto do carro alegórico soldado com um ferro em seu interior.
Fotos: Rosana Antunes
Fig. 18 e 19 - Jacaré, a primeira escultura que a autora pintou no barracão da Rosas de Ouro com compressor em 1996.
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Além da dificuldade de manusear o material, ainda tive a dificuldade de alcançar a escultura. Precisei subir em escadas enormes iguais aquelas da Eletropaulo. Sentia um medo danado! Neste ano, esta foi a única peça pintada com o compressor. Havia uma escultura enorme de uma índia ajoelhada e de um índio com uma arara em seu braço. Esta foi a primeira vez que pintei índios. Precisei pesquisar os tons de pele indígena e qual cor usaria, além do tipo de tinta, para que eu pudesse chegar ao tom da pele do índio. Nesta pintura senti muita dificuldade, mesmo com as orientações de Teixeira.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 20 - Alegoria do índio e do jacaré na concentração no Anhembi em 1996.
Pintei e repintei estas esculturas pelo menos duas vezes... levei dias até começar a entender que para chegar ao resultado desejado da cor de pele, é necessário usar vários tons, uns sobre outros. A pele é composta de diversos tons, então é preciso observar bem, treinar o olhar e decompor tom por tom, até chegar às cores iniciais, descobrindo assim a composição de cada cor que faz parte do tom de pele que se deseja alcançar, até conseguir criar profundidade, luz e volume. Lembrando-se de que a escultura já possui seu próprio volume, não precisando como na pintura bidimensional criar a ilusão de volume, a própria escultura se encarrega disso.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 21 - Alegoria da índia na concentração 1996.
No início foi muito difícil me acostumar com o ritmo de trabalho no barracão. É totalmente fora dos padrões, é muito intenso e pesado. Em vésperas de carnaval, chega-se a trabalhar 24 horas por dia, sem descanso. O almoço é feito rapidamente em torno de 30 minutos. O tempo neste tipo de trabalho é muito precioso. Chegava em casa toda dolorida, como se tivesse levado uma surra, não conseguia nem erguer os braços. Precisei aprender a trabalhar muito bem com as cores, saber a composição de cada cor só de olhar para as fotos e desenhos utilizados como referência pelos carnavalescos. Isto somente se consegue com muita experiência e prática do dia a dia de trabalho no barracão de uma escola de samba. Muitas vezes é difícil saber o que o carnavalesco deseja e somente após algumas tentativas, chega-se ao resultado esperado. Alguns carnavalescos deixam o profissional trabalhar livremente, aceitando sugestões, deixando-o criar em cima de suas idéias, aproveitando o potencial criativo dos profissionais, somando suas idéias com a idéia inicial do carnavalesco. Outros carnavalescos, não aceitam idéias ou sugestões dos profissionais. O trabalho deve ficar igual ao de sua criação original. 57
Com o trabalho de carnaval, aprendi também a subir em escadas altíssimas para alcançar as esculturas de grandes dimensões, muitas vezes algumas alegorias são fixadas nos carros alegóricos antes de sua pintura, o que dificulta muito mais o meu trabalho, pois a altura dobra ou triplica. Já cheguei a pintar esculturas que fixadas nos carros chegavam a medir mais de 15m do chão. O acesso ao topo destas esculturas é muito difícil, e quando já estão fixadas nos carros alegóricos, não se pode mais retira-la para pintar. O improviso é outro item importante no trabalho do barracão da escola de samba, pois muitas vezes falta o material necessário para a confecção da alegoria, tendo que se improvisar outro tipo de material para sua substituição. Outras vezes, o material escolhido pelo carnavalesco não permite o resultado esperado, obrigando a improvisar experimentando novos materiais até o resultado ser satisfatório. E tudo isso num espaço de tempo muito curto! No capitulo 4, dada a importância do assunto, discuto mais a respeito do improviso na confecção dos carros alegóricos. O barracão é separado do ateliê de fantasia, local onde são confeccionadas as fantasias para o desfile de carnaval, e da quadra da escola de samba, local onde acontecem os ensaios, reuniões, cursos, e se localiza a secretaria e a diretoria da escola de samba. A transformação do enredo criado pelo carnavalesco em realidade, dá-se no barracão da escola de samba. Lá são construídos os carros alegóricos, desde a sua estrutura que se inicia pela ferragem, seguido pelo revestimento de madeira do carro, logo após vindo as esculturas, fibra, pintura e decoração. Os barracões de cada escola de samba são muito diferentes uns dos outros, mas todos têm a mesma função: confecção dos caros alegóricos e alegorias para o desfile de carnaval. Poucas são as escolas que possuem o barracão no mesmo terreno da quadra da escola. Ainda, separado do barracão e da quadra, existe o ateliê de costura, local onde as costureiras confeccionam grande parte das fantasias, pois as fantasias das alas, geralmente são confeccionadas pelos chefes de alas fora da escola de samba, em outro local, muitas vezes até na própria casa do chefe de ala, ou de outro integrante da escola.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 22 - Esculturas que a autora pintou no barracão da Mancha Verde em 1999.
O chefe de ala é o nome dado ao integrante da escola que se incube da confecção das fantasias de uma ala. Ala é um conjunto de pessoas que desfilam juntas com fantasias iguais, o número de componentes de uma ala é em torno de 250 pessoas. Logo após a apresentação do desenho feito pelo carnavalesco da fantasia de uma ala, o chefe de ala é responsável de fazer o piloto da fantasia, que é a primeira peça pronta, a qual servirá de modelo, para depois de aprovado pelo carnavalesco, confeccionar todas as outras fantasias da ala conforme o piloto. O chefe de ala organiza, comanda, confecciona e vende as fantasias de sua ala durante os ensaios na quadra da escola de samba para o público, e é o responsável pelos componentes de sua ala. Voltemos ao barracão. Algumas escolas têm o seu barracão localizado em área distante da quadra da escola, muitas vezes até embaixo de pontes e viadutos da cidade. O trabalho do profissional do carnaval no barracão da escola de samba é muito pesado, então somente trabalha no barracão quem gosta ou é muito apaixonado pelo trabalho do barracão ou pela escola de samba, os amantes das artes, ou aqueles que realmente estão muito necessitados. Em todos os barracões há a criação artística, o ensino e a aprendizagem da arte. Lá se respira arte! A maior parte do meu aprendizado em arte vem do barracão da escola de samba. Aprendi várias técnicas no barracão que quando cursava a faculdade de artes 59
plásticas, nem imaginava que existiam. Aprendi a executar qualquer trabalho artístico com autonomia e confiança, me educando e me adequando ao trabalho artístico realizado no barracão. No barracão se aprende praticando, observando e ouvindo o que as outras pessoas têm a te ensinar. É um trabalho dinâmico, não pára, a qualquer hora do dia ou da noite tem alguém trabalhando, criando. Os trabalhadores do barracão já estão acostumados com o improviso, e isso faz com que o seu repertório artístico e visual aumente, adquirindo novos conhecimentos. O barracão é um local de enorme riqueza artística! O trabalho no barracão é muito pesado, puxado e perigoso, exige força. A maioria dos que trabalham lá são homens. Já presenciei alguns trabalhadores terem desmaios e convulsões durante o trabalho no barracão. Algumas mulheres somente se aventuram a trabalhar na decoração dos carros alegóricos, porque o trabalho é mais ameno. Na decoração se trabalha recortando tecidos, espumas, colando espelhinhos, galões, glitter, ou outros tipos de materiais. Geralmente trabalham sentados numa bancada, quando se obtém um número suficiente de enfeites montados para decorar partes do carro, os decoradores começam a colar os enfeites diretamente no carro. O mais difícil, é o exercício corporal que se faz para alcançar alguns locais de difícil acesso no carro alegórico. Existe certo preconceito dos componentes da escola de samba pelas pessoas que trabalham no barracão, talvez porque os trabalhadores do barracão sempre estão com roupas surradas, manchadas de tinta, graxa, pó de isopor, entre outros produtos, levando as pessoas acharem que somos ignorantes, sem cultura e sem educação, o que não corresponde à verdade, debaixo daquelas roupas de trabalho, existem grandes profissionais como engenheiros, artistas plásticos, marceneiros, serralheiros, entre outros. Comecei a trabalhar na Rosas de Ouro em 1995. A comunidade do entorno da escola é conhecida como Minas Gás, pois há um depósito de gás próximo. No meio desta comunidade se localiza o Centro Comunitário Jardim das Graças de Vila Carbone que é da prefeitura, onde as pessoas freqüentam diariamente o local para jogar bola, brincar, tomar lanche, e participar das oficinas culturais oferecidas pela Secretaria do Estado da Cultura durante o ano todo. Um dos projetos atuantes neste Centro de Convivência é o Projeto Arquimedes, o qual participei ministrando oficinas de
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desenho, graffiti e pintura para as crianças e adolescentes desta comunidade. As aulas eram realizadas uma vez por semana com duas horas de duração cada. Trabalhei neste centro comunitário durante quatro anos, vi muitas crianças tornarem-se adolescentes, e os adolescentes tornarem-se adultos. Convivi com suas dificuldades, medos e anseios, criei um forte vínculo com estes meninos. Comecei a trabalhar na Rosas de Ouro em 1995, e com a comunidade do entorno no centro de convivência Jardim das Graças em 2002. Este fato ajudou-me muito com o trabalho de carnaval na Rosas de Ouro, e com o trabalho de arte educadora no centro de convivência. Muitos meninos que começaram a trabalhar comigo em 1996 na Rosas de Ouro são moradores desta comunidade e conhecem os garotos que foram meus alunos no centro comunitário, e muitos destes meninos, hoje são aprendizes e trabalhadores do barracão da Rosas de Ouro. Alguns meninos desta comunidade tornaram-se ritmistas, passistas, chefes de equipe, decoradores dos carros alegóricos, aderecistas, ajudantes no almoxarifado, integrantes da escola, entre outras funções. Todos eles aprenderam no interior do carnaval na escola de samba, seja na quadra, no ateliê ou no barracão, uma profissão artística, a qual foi necessária todo um aprendizado em artes, seja nas artes plásticas, na música, dança, ou no teatro. Fernando da Silva de Oliveira, cujo apelido é “Chelaia”, iniciou seu trabalho no barracão da Rosas de Ouro em 1998, ainda menino, quando foi contratado junto com outros garotos para empapelar as esculturas para o carnaval de 1998, cujo enredo falava sobre os Demônios da Garoa. Lembro-me bem de um dia “Chelaia” começar a empapelar sozinho a mão da escultura de um demônio que media 6m de altura. Esta mão era maior que ele, e “Chelaia” conseguiu empapelar a mão inteira em apenas um dia de trabalho, e o serviço ficou perfeito. Hoje em 2006, “Chelaia” continua na Rosas de Ouro como ajudante do almoxarifado trabalhando junto com o José Roberto Rangel “Zé Queimado” e Júlio César Teixeira. “Zé Queimado” e Júlio César que são os responsáveis pelo barracão. Júlio César é integrante da comissão de frente da escola. “Zé Queimado” tem esse apelido porque sofreu um acidente fora da escola e queimou grande parte de seu corpo, então o apelidaram de “Zé Queimado”, mas ele nem liga!
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Todo o material que necessitamos para o nosso trabalho no barracão é só pedir para o Zé que ele corre atrás e o pedido chega prontamente, no mais tardar no dia seguinte pela manhã. “Chelaia” também realiza outros serviços no barracão, de 1998 para cá, ele aprendeu a utilizar diversos materiais e ferramentas na confecção das alegorias e carros alegóricos.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 23 - Fernando “Chelaia” trabalhando no barracão em 1998.
Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 24 - Fernando “Chelaia”, oito anos depois trabalhando no barracão em 2006.
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Hoje, “Chelaia” aprendeu a manusear o compressor, a máquina de vácuo que bate as placas da acetato, a utilizar os diversos tipos de tintas existentes no mercado, a manusear diversas outras ferramentas, trabalha na decoração dos carros alegóricos, na confecção das alegorias de cabeça, nas alas, conhece os diversos tipos de tecidos utilizados na confecção das fantasias, sabe colar partes das esculturas gigantes de isopor utilizando o poliuretano, entre outras atividades. “Chelaia” obteve um grande aprendizado em artes no barracão, tendo iniciado com a atividade de empapelar esculturas, ele aprendeu na prática, através da observação direta dos profissionais, aprendizes, ajudantes. No mesmo período, final de 95 e início de 96, trabalhei na Escola de Samba Nenê de Vila Matilde. Neste ano, o carnavalesco foi Joãozinho Trinta, cujo enredo era “Comunicação”. Joãozinho vinha para São Paulo quase todos os finais de semana para acompanhar o trabalho que estava sendo realizado na escola. À frente de seu trabalho na escola de samba Nenê de Vila Matilde, aqui em São Paulo, Joãozinho colocou seus assistentes do Rio de Janeiro. O barracão da Nenê de Vila Matilde era no mesmo terreno em que se localizava a quadra e o ateliê. Diferente do barracão da Rosas de Ouro, o barracão da Nenê era menor, o chão era de terra e faltava material para o trabalho. Foi Teixeira, o escultor, que me contratou novamente para trabalhar com ele na Nenê, desta vez ajudando-o no acabamento das esculturas, pois a escola já havia contratado um pintor O nosso local de trabalho não foi no barracão, mas no mezanino localizado sobre a quadra da escola onde aconteciam os ensaios. Lá de cima víamos tudo o que acontecia na quadra, os shows, os ensaios e eventos. Quando trabalhávamos até tarde, em dia de ensaio, o som alto da bateria prejudicava nossa concentração e o calor era insuportável! Naquele ano, eu quis desfilar na escola, seria o meu primeiro desfile. Combinei com o presidente da escola Alberto “Betinho” de pintar a escultura da Carmem Miranda que media em torno de 4m de altura em troca da fantasia para o desfile. Eu pintaria a escultura e ele me daria a fantasia.
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Esta pintura foi feita totalmente a pincel e trincha, pois a escola de samba não tinha compressor. Foi muito trabalhoso pintar uma escultura deste tamanho a pincel, levei três dias inteiros para pintá-la. Precisei de uma referência do rosto da Carmem Miranda para confeccionar a pintura e foi difícil encontrar uma. Eu não podia demorar a pintar o rosto, pois já estava próximo do dia do desfile, foi quando Luciano, assistente de Joãozinho Trinta chegou cantarolando na quadra e me mostrou uma foto em uma revista de um transformista que imitava a Carmem Miranda. Era a única imagem que conseguimos! Ele emprestoume a revista para usá-la como referência e pintar a escultura da Carmem. Pintei baseada na revista. Achei um pouco estranho, mas era aquilo que eu estava vendo! Ao chegar o fim de semana, Joãozinho Trinta voltou a São Paulo para ver o andamento do trabalho como carnavalesco da escola. Todos tinham medo de Joãozinho, pois ele era muito exigente e quando via algo de que não gostasse ou que o resultado não era o esperado, ele se irritava muito e brigava com o responsável pela execução do trabalho. Quando ele gostava do trabalho, elogiava! Ele tinha toda a paciência de ensinar o trabalho à comunidade, aos ajudantes, aos componentes da escola, mas quando um profissional ou chefe de equipe fazia um serviço que não lhe agradasse, ele virava uma fera! Gritava e ficava até vermelho de tão bravo! O pensamento de Joãozinho Trinta é muito veloz, a todo o momento ele está criando, visualizando novos trabalhos. O profissional que não acompanhar o seu raciocínio e não conseguir interpretar o que ele deseja, não consegue trabalhar com Joãozinho Trinta. Ao chegar à quadra naquele final de semana, Joãozinho Trinta foi olhar o andamento do trabalho. Como não era dia de ensaio, algumas esculturas se encontravam na quadra para serem empapeladas pelas pessoas da comunidade. A escultura da Carmem Miranda já estava pintada. Ao ver a escultura da Carmem Joãozinho exclamou: --- Mas está parecendo um travesti! Luciano, seu assistente respondeu logo em seguida: --- Claro! A referência utilizada pela pintora era de um transformista que imitava a Carmem Miranda! O que você queria?
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Fotos: José Teixeira Gonçalves
Fig. 25 e 26 - Escultura da Carmem Miranda sendo confeccionada no barracão da Nenê 1996.
Teixeira me contou sobre o comentário de Joãozinho Trinta. Logo em seguida recomecei a trabalhar o rosto da escultura até não se parecer mais com um travesti. 65
Este fato nos mostra a sensibilidade do olhar que Joãozinho Trinta possui. Ele nem imaginava que utilizei uma referência de um transformista para pintar a escultura da Carmem Miranda. A visão que Joãozinho Trinta possui sobre o desfile de carnaval é fantástica! Os seus ensinamentos são simples, mas essenciais. Joãozinho nos transmite todo o seu saber numa linguagem clara! No dia do ensaio, Joãozinho colocou todas as baianas para ensaiar, e lá de cima do mezanino observava e depois descia na quadra e ensinava muitas baianas a dançar, como rodopiar na avenida. Nada escapa ao olhar de Joãozinho, ele examina ala por ala, fantasia por fantasia, a bateria, harmonia, mestre sala e porta bandeira, os carros alegóricos, desde a sua estrutura: ferro, madeira, escultura, pintura, e decoração, enfim, ele observa e ensina a escola inteira. Na Nenê de Vila Matilde, os ajudantes do barracão eram da comunidade, muitos trabalhavam sem receber nada, por amor à escola. Alguns até ganhavam uma fantasia para desfilar, mas a grande maioria não. A comunidade vinha trabalhar em turnos. Pela manhã vinha uma turma, à tarde outra, e à noite outra, nada era obrigado, eles trabalhavam espontaneamente para ajudar a escola porque adoravam estar participando dos preparativos para o desfile. Quem já possuía experiência de carnaval e já sabia realizar o trabalho, ensinava aos outros que ainda não sabiam. A garra dos componentes desta escola é muito forte, alguns chegam a passar o dia inteiro na escola trabalhando sem receber nada. Vinham homens, mulheres, até crianças e pessoas da terceira idade ajudar no trabalho do barracão. A única coisa que estas pessoas exigiam e não podia faltar, era o almoço. Algumas mulheres da comunidade vinham cozinhar gratuitamente como forma de contribuição à escola e aos trabalhadores. A união, a garra, a força que os integrantes da Nenê de Vila Matilde possui é de se admirar, em todas as escolas que trabalhei não encontrei tamanha garra, a que mais se aproximou foi a Mancha Verde, talvez pelo envolvimento com o futebol! O barracão da Nenê parecia um mutirão, todos ajudavam ao mesmo tempo. Seu “Nenê”, fundador da escola, figura importante no meio do samba de paulistano, sempre estava presente na quadra e no barracão, passava o dia sentado com seu chapéu e sua bengala em um canto observando o trabalho no barracão.
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Seu “Nenê” é um homem lúcido, forte, inteligente e muito simpático! Ele sabe apreciar as coisas boas da vida! Seu “Nenê”, seus filhos “Betinho” e “Bonana”, Iracema esposa de “Betinho” e seus filhos, na época, moravam bem próximos da escola de samba. Muitos integrantes da escola chegaram a ameaçar alguns profissionais que estavam com seu trabalho atrasado, ou quando o trabalho deixava a desejar. Mas ao contrário, também sabiam elogiar um bom trabalho. Lá a comunidade cobra um bom trabalho. Trabalhar na Nenê de Vila Matilde com Joãozinho Trinta, foi muito gratificante, meu aprendizado foi enorme, todos os dias aprendia algo novo em termos de arte dentro do barracão e na quadra. O processo de aprendizagem da arte no barracão de uma escola de samba é muito dinâmico e rápido. A pessoa que trabalha no barracão aprende a ter autonomia, um olhar sensível e um raciocínio rápido e criativo. Se ele não fizer sua parte, ninguém a fará e prejudicará todos os seus colegas de trabalho inclusive da escola. O trabalho neste ano na Nenê de Vila Matilde foi muito tumultuado! Faltou muita organização na escola, e como é uma escola pobre, faltava também o material para a execução do serviço, o que atrasava todo o trabalho do barracão. Um serviço é ligado ao outro, é como numa produção, se um setor parar por qualquer motivo, todos os outros também param de funcionar, porque um depende do trabalho do outro para poder dar continuidade no seu. Faltavam menos de cinco dias para o carnaval, e ainda não havia nenhum carro alegórico da Nenê concluído. O desespero começou a tomar conta dos trabalhadores, diretoria e componentes. O meu trabalho e o do Teixeira já estavam prontos! Sempre fomos muito rápidos no trabalho. Os carros alegóricos foram levados do barracão da escola de samba para a concentração do desfile no Anhembi alguns dias antes do desfile. Lá cada escola já tem o seu lugar separado. Algumas escolas levam todos os carros alegóricos prontos para a concentração no sambódromo alguns dias antes do desfile, tendo que fazer apenas alguns reparos nas alegorias por causa do transporte do barracão ao sambódromo, outras levam para terminar algumas coisinhas lá mesmo na concentração, e outras chegam a levar o carro ainda no ferro, ou seja, só com a estrutura pronta para iniciar o trabalho de decoração na concentração apenas a alguns dias do carnaval, mas isso geralmente acontece por falta de organização da escola. 67
O carro abre-alas da Nenê era uma águia enorme com as asas abertas que se moviam. Cada asa media em torno de 5 m de comprimento. Essas asas não estavam entrando nos encaixes que havia no corpo da águia. Os trabalhadores passaram dias tentando encaixar as asas na concentração. O que ocorreu foi um erro de calculo do ferreiro que não testou o encaixe das asas antes de levar a águia para o Anhembi. Até algumas horas antes do desfile, eles tentaram, mas não conseguiram sanar o problema. O abre alas entrou na avenida e desfilou somente com o corpo da águia, sem asas. Essas ficaram inutilizadas! Foi uma grande decepção para os componentes da escola, Mas no carnaval tudo pode acontecer na última hora!
Foto: Rosana Antunes
Fig. 27 - Corpo da águia sendo pintada pelo ajudante no barracão da Nenê 1996.
Outro carro que viria com uma cabeça enorme do Chacrinha em seu topo, no dia do desfile, quando o guindaste na concentração foi colocá-la em seu lugar, no alto do carro alegórico, a cabeça escapou e despencou lá de cima a uma altura enorme se espatifando no chão. Não machucou ninguém! Ainda conseguiram emendar algumas partes e colocá-la de volta no carro alegórico, mas bastante danificada! Como se isso tudo não bastasse, outro carro que vinha com as esculturas de dois discóbolos, um de cada lado, ao locomoverem o carro alegórico para ajeitá-lo na avenida, as pessoas que o empurravam não viram o obstáculo que bateu em um dos 68
discóbolos e arrancou um pedaço da escultura. Esse carro também teve que entrar assim na avenida.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 27 - Cabeça do Chacrinha sendo confeccionada no barracão da Nenê 1996.
Foto: José Teixeira Gonçalves
Fig. 29 - Cabeça do Chacrinha sendo pintada pela autora no barracão da Nenê de Vila Matilde em 1996.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 30 - Alegoria do discóbulo no barracão da Nenê de Vila Matilde em 1996.
O último carro, aquele que havia chegado só no ferro lá na concentração, não houve tempo hábil de terminá-lo, ele foi decorado somente com tecidos fixado nos “queijos” e desciam até o chão do carro. O queijo de um carro é o local sobre o qual, o destaque, a pessoa que está fantasiada, desfila. O “queijo” é redondo e possui um ferro que sai da sua base e vai até a cintura do destaque para que ele possa segurar durante o desfile para não cair. Nesta escola, vivenciei os maiores problemas na entrada do desfile no sambódromo. Penso ser por causa da desorganização e de alguns profissionais que deixaram para fazer o serviço na última hora, sem testarem o resultado. Lembro-me que, naquele ano, os componentes da escola ficaram muito tristes e revoltados com o ocorrido no desfile de sua escola. Ao final do carnaval, muitos trabalhadores ficaram sem receber. Alguns receberam só a metade do combinado e em pequenas parcelas. Pela falta de pagamento, de material, e de organização, eu não quis mais trabalhar nesta escola de samba! Em 1997, trabalhei para a escola de samba Pérola Negra, pintando a alegoria do monumento às bandeiras de Victor Brecheret, quem esculpiu a alegoria foi o Teixeira. O barracão localizava-se sob uma ponte próxima ao CEASA, região oeste da capital. 70
Na escola não havia compressor, tive de pintar com a brocha. Esta escultura media em torno de 10m de comprimento, deu muito trabalho para pintá-la. Ela não foi empapelada, pois a textura do isopor deu a impressão de pedra.
Fotos: Rosana Antunes
Fig. 31 e 32 - Alegoria do Monumento das Bandeiras sendo confeccionado no barracão da Pérola Negra em 1997.
No carnaval de 1998, trabalhei na escola de samba Rosas de Ouro novamente. O enredo era sobre os Demônios da Garoa. Neste mesmo carnaval, trabalhei também na escola de samba Mancha Verde, quando a escola ainda não pertencia ao grupo especial.
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Eu já estava dominando muito bem a técnica da pintura, a composição das cores, a luminosidade, os tons, os tipos de tintas, solventes, pigmentos, efeitos especiais, e o uso do compressor. Novamente trabalhei com o escultor Teixeira, só que agora trabalhávamos separados. Eu já não era mais sua assistente. Agora eu era a pintora artística da escola, chefe da minha própria equipe. Mas como já estou acostumada com o trabalho do barracão e realizo meu serviço rapidamente, geralmente trabalho sozinha, sem ajudante. Teixeira passou a fechar o seu preço das esculturas empapeladas sem a pintura, e eu passei a fechar o meu preço da pintura diretamente com a escola. Teixeira é considerado um dos melhores escultores de São Paulo no meio do carnaval. Aprecio pintar suas esculturas, e ele gosta da minha pintura, pois valoriza ainda mais as suas esculturas. Dependendo do trabalho de pintura realizado sobre a escultura, se for uma pintura ruim prejudica o trabalho do escultor, chegando muitas vezes a modificar a escultura. Ao contrário, se for realizada uma boa pintura sobre a escultura, ela valoriza, realça ainda mais o trabalho do escultor! Teixeira é muito exigente com o seu trabalho, que é de uma qualidade indiscutível. Suas esculturas possuem movimento, proporções perfeitas, expressão, e uma leveza extraordinária! Já conheci vários outros escultores, mas não vi nenhum com um trabalho tão significativo como o de Teixeira. Joãozinho Trinta elogiou a beleza e a rapidez de seu trabalho! Aprendi muito sobre a arte existente no barracão da escola de samba com ensinamentos do Teixeira. Apesar dele não ter formação superior em artes, a sua experiência, sua prática, e seu talento, me proporcionaram um grande e ótimo aprendizado artístico no barracão. Aprendi a manusear diversos tipos de materiais e ferramentas que antes me eram desconhecidos: isopor em bloco maciço, poliuretano, compressor, pistola de pintura, diversos tipos de tintas e solventes, espuma, mesa de corte do isopor, fio de níquel cromo, transformador, resinas, manta acrílica, poliuretano, entre vários outros materiais. Naquele ano de 1998, na Rosas de Ouro houve o maior número de crianças trabalhando no barracão com remuneração. Teixeira foi quem contratou as crianças
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para empapelarem as esculturas. Ele ensinou todo o trabalho de empapelamento para as crianças que aprenderam direitinho. Os meninos eram moradores do entorno da escola de samba, não gastavam com condução e iam almoçar em suas casas. Entravam para trabalhar às 9:00 horas e saíam às 18:00 horas. À tarde, Teixeira comprava pães, frios, e refrigerantes para o lanche, e todos comiam à vontade. Eram tantas as esculturas, que precisei pintá-las no salão nobre da Rosas de Ouro, pois já não havia mais espaço no barracão. O carro abre alas vinha com um grande demônio segurando um chocalho em uma mão, e um pandeiro na outra.
Foto: Agência do Estado
Fig. 33 - Alegoria do carro abre alas da Rosas de Ouro: demônio na concentração do Anhembi 1998.
Havia uma escultura de Adoniram Barbosa, que foi colocada no carro que representava a favela com várias outras esculturas menores. Todos os músicos do conjunto Demônios da Garoa foram esculpidos em forma de caricatura, ficou maravilhoso! Cada um media em torno de 4m. Teixeira esculpiu um trem enorme medindo em torno de 6m de comprimento por 4m de altura, era o trem das onze. Após o carnaval, este trem foi vendido para ser colocado em praça pública.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 34 - Escultura de Adoniram Barbosa que pintei no barracão da Rosas de Ouro em 1998.
Fotos: Rosana Antunes
Fig. 35 e 36 - Alegoria dos Demônios da Garoa sendo confeccionados no barracão da Rosas de Ouro em 1998.
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Fotos: Rosana Antunes
Fig. 37 e 38 - Trem sendo confeccionado no barracão da Rosas de Ouro em 1998.
Havia também uma libélula que media 5m, e várias outras esculturas. Num dia de trabalho no barracão da Rosas de Ouro, conheci Paulo Serdan, chefe de torcida da Mancha Verde e presidente da escola de samba Mancha Verde. Neste dia, Paulo foi conversar com Teixeira pedindo que ele esculpisse para a sua escola. Ao ver meu trabalho de pintura, Paulo veio pedir-me que fizesse a pintura na Mancha. Acabei fechando a pintura artística das esculturas da Mancha para o carnaval daquele mesmo ano em que ainda estávamos trabalhando na Rosas de Ouro. Paulo Serdan era muito amigo do seu Basílio, presidente da Rosas de Ouro, e de seu irmão Hernani, que na época era chefe de barracão da Rosas de Ouro.
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Seu Basílio e seu Hernani simpatizavam muito com a Mancha Verde, pois eram palmeirenses, e isso rendia à Mancha a ajuda da Rosas de Ouro. Seu Basílio cedia vários materiais à Mancha, além de doar várias esculturas usadas em desfiles anteriores, necessitando apenas de alguns reparos e nova pintura. Teixeira confeccionou as esculturas para a Mancha no barracão da Rosas de Ouro. Paulo Serdan mandava buscá-las de caminhão para levá-las até o barracão da Mancha. Lá, os membros da torcida empapelavam as esculturas que ficavam à espera do meu trabalho de pintura. Precisei terminar o trabalho na Rosas de Ouro para depois ir trabalhar na Mancha, pois faltavam apenas algumas semanas para o desfile. As primeiras esculturas que Teixeira fez para a Mancha foram levadas de caminhão para o barracão da Mancha para serem empapeladas pelos membros da torcida naquela madrugada. Lá o trabalho funciona melhor à noite, pois todos acordavam muito tarde por causa da vida boêmia que levavam. Naquela madrugada, os ajudantes que fazem parte da torcida ficaram sozinhos no barracão da Mancha empapelando as esculturas. Ao invés de empapelarem as esculturas, acabaram brigando e quebrando as alegorias, as quais tiveram que retornar ao barracão da Rosas de Ouro para o Teixeira consertar. Paulo Serdan ficou muito bravo com o ocorrido e chamou a atenção dos torcedores energicamente! Foto: Rosana Antunes
Fig. 39 - Alegorias que foram quebradas pelos integrantes da Mancha Verde em 1998.
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Ao terminar meu trabalho na Rosas de Ouro, no dia seguinte já fui trabalhar na Mancha, pois já haviam algumas esculturas para serem pintadas. O barracão da Mancha se localizava na Barra Funda, atrás da TV Record, na rua do Fórum, quase em frente ao Wall Mart. Este terreno foi invadido pela torcida para montarem o barracão. O terreno é bem grande, e há um córrego que passa ao lado, dividindo o terreno com o vizinho. Sem verba para construir o barracão, pois a escola ainda não fazia parte do grupo especial, Paulo Serdan montou no terreno, uma grande lona de circo para que o trabalho pudesse ser realizado debaixo dela. O chão era de terra, quando chovia ficava uma lama só! Não existia banheiro no barracão, tínhamos que ir ao vizinho pedir para usar o seu banheiro. Não havia também instalação elétrica. Este terreno era cortado por um rio cheio de ratos que passava no meio do barracão. Construíram no terreno um barraquinho de madeira, onde “Tovi”, um dos jovens integrantes da torcida, que havia abandonado a família, passou a morar. Nunca soube o nome do “Tovi”. Este barraco servia também para nós trocarmos de roupa para trabalhar. Dentro do barraco havia somente um fogão e uma geladeira velha, um colchão e uma mesinha. As paredes estavam cheia de pôsteres de mulheres nuas! “Tovi” me disse que várias vezes quando entrava no barraco se deparava com ratos enormes, e que um dia o rato ficou de pé na geladeira querendo atacá-lo! Fiquei com muito medo de continuar me trocando lá, mas precisava trocar de roupa, porque quando vou trabalhar no barracão, eu me sujo toda, então levo uma blusa, uma calça, um boné, uma máscara descartável, luvas de borracha, e um tênis. Estas roupas nunca mais serão as mesmas! Eu passo a chamá-las de roupa de trabalho! A roupa e o tênis ficam inteirinhos sujos de tinta que seca e não sai mais, mesmo depois de lavar! Fica impossível usar essas roupas fora do barracão! Como eu trabalho com tinta, minhas vestes são as piores que há entre os trabalhadores do barracão, fico irreconhecível, pareço um pião de obra! Em casa, tenho uma gaveta cheia destas roupas de trabalho! Todos os dias coloco uma roupa limpinha, mas a aparência é que está sempre suja, e a cada dia vai se acumulando mais tinta na roupa piorando a situação! Chega um momento que preciso jogá-las fora! Só o tênis é que dura mais! 77
“Tovi”, além de morar nesse barraco, ser membro da torcida, ele também era ajudante geral no barracão, aprendia a fazer de tudo um pouco. Conheci também o “Urso”, Robertinho, Rogério, “Cachorrão”, Adilson, “Zeca”, “Barnabé”, Sérgio, entre vários outros integrantes da Mancha. Alguns só conhecia pelo apelido, não sabia o nome. Na Mancha existe uma hierarquia que é muito respeitada entre eles. Há o presidente que, na ocasião, era Paulo Serdan, os diretores da Mancha, até chegar ao torcedor. Paulo Serdan encarregou “Tovi” de me ajudar no trabalho de pintura. Ele me ajudava segurando a escada na qual eu subia, se faltava algum material ele me trazia, se eu precisasse ir ao banheiro, ele me levava e esperava na porta do lado de fora para que nenhum homem entrasse no momento em que eu estivesse lá dentro, me levava para almoçar. Enfim, “Tovi” mais cuidava de mim do que trabalhava! Um dia, Robertinho e o “Urso” ficaram indignados porque eles trabalhavam muito mais que o “Tovi”! Eles diziam que “Tovi” não trabalhava, achavam que ele era apenas meu guarda costas! Toda vez que eles viam “Tovi”, eles cantavam a música do filme “O guarda costas”, só para perturbar! Era muito engraçado! No barracão, se trabalha rindo o dia todo! Isso é em qualquer escola! É muito divertido! Quando acaba o carnaval, sinto muita falta das pessoas e do trabalho!
Foto: Rosana Antunes
Fig. 40 - “Tovi” trabalhando no barracão da Mancha, 1999.
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Paulo Serdan não incentivava a torcida a brigar, pelo contrário, ele era contra essas brigas, dava vários sermões na torcida! Eu fui testemunha! Eu vi o seu modo de agir e ouvi suas palavras! Ele é uma pessoa ponderada, mas controlar toda aquela torcida feroz, era impossível! Paulo Serdan é muito respeitado pela torcida! Já presenciei Paulo chamando a atenção de vários torcedores por causa de brigas, e eles abaixam a cabeça para ouvir o que Paulo tem a dizer. O barracão da Mancha foi o ambiente tenso e mais conflituoso em que já trabalhei! Justamente por causa das brigas! Os componentes sempre estavam em alerta por causa da torcida do São Paulo e do Corinthians que poderiam invadir o barracão a qualquer momento para destruírem as alegorias para o desfile de carnaval da Mancha. No barracão da Mancha, era proibido pintar qualquer alegoria de preto, porque é a cor do Corinthians, e nos Gaviões não se pode pintar nenhuma alegoria de verde por que é a cor do Palmeiras! Um dos meninos contou-me até um caso em que a Gaviões desfilou com vários pés de alface que não pintaram de verde, mas de cinza! O carnavalesco da Mancha neste ano em que trabalhei lá era o Gilson Tavares, que morava no Rio de Janeiro, e todo ano ele e seu assistente Ronaldo vinham para São Paulo fazer carnaval. Gilson tornou-se um grande amigo meu, trabalhamos muitas outras vezes juntos! Na Mancha Verde, eu chegava no barracão em torno das 9:00 h e só saía de madrugada. Sempre havia alguém para me levar até em casa de carro. Muitos rapazes estavam iniciando seu primeiro carnaval como ajudantes. Todos eles eram torcedores e ainda estavam aprendendo o trabalho no barracão. Foram aprendendo aos poucos, logo a torcida já estava trabalhando com arte como se fossem profissionais! Entre estes rapazes, muitos se transformaram em grandes profissionais do carnaval, e tiveram todo o seu aprendizado da arte dentro do barracão da escola de samba! Enquanto eu pintava, muitos rapazes observavam. Alguns faziam perguntas sobre o processo da pintura, todos tinham muito interesse em aprender o trabalho. Alguns chegavam a aprender só observando! Com os outros profissionais é a mesma coisa, todos ficavam à volta observando. Alguns profissionais não gostam de serem observados, então diziam que ali é proibido ficar! Em três semanas conclui o meu trabalho na Mancha!
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 41 - Torcedores aprendizes da Mancha trabalhando no barracão, 1999.
No ano seguinte, 1999, Paulo Serdan me contratou novamente para trabalhar na Mancha. Paulo já havia iniciado a construção do barracão no terreno que fora invadido. O chão já estava todo cimentado, uma parte do teto já estava coberta, e ele havia alugado dois trailers que eram banheiros, um para os homens e outro para as mulheres. O barracão nem se comparava com o do ano passado! O trabalho na Mancha só começava mesmo depois das 18:00 horas, durante o dia o barracão quase não tinha movimento. No ano seguinte, em 2000, novamente fui contratada para trabalhar na Mancha Verde. Paulo Serdan, antes de me contratar fechou o trabalho de escultura e de pintura com outra pessoa, que o decepcionou em termos dos resultados apresentados. A torcida inteira, que já conhecia o meu trabalho, reclamou com Paulo Serdan para que me contratasse com urgência para refazer o trabalho e criar o que não estava pronto. O carnavalesco da Mancha, além de criar, e desenvolver o enredo também fazia as esculturas, pois ele era escultor. O barracão estava maior ainda! Na parte de cima, Paulo construiu vários mezaninos que serviam de camarotes, e nestes camarotes funcionavam também como ateliês de fantasia. Embaixo foi construída uma quadra de futebol e ao lado era o barracão. Havia uma parte atrás do terreno que seria construído o futuro barracão. 80
Foto: Rosana Antunes
Fig. 42 - Virgílio esculpindo a alegoria no barracão da Mancha
Dona Norma, mãe de Paulo Serdan, passou a freqüentar o barracão e a trabalhar na confecção das fantasias, ela trabalhava o dia inteiro. Eu costumava chegar cedo no barracão e só encontrava ela trabalhando, os outros ainda dormiam! Paulo Serdan, sempre ofereceu o almoço gratuitamente a todos os trabalhadores. Desta vez, ele contratou uma cozinheira que fazia o almoço todos os dias. A comida era muito boa e farta! Paulo contratou também um caseiro que cuidava do barracão, da quadra, e da limpeza. Eu acompanhei todo esse processo de construção da quadra e do barracão da Mancha, desde quando o terreno foi invadido pelos torcedores e foi montado um circo sobre o chão de terra. As únicas mulheres que trabalhavam no barracão nesta época, éramos eu e a Dona Norma, mãe do Paulo. Denise, esposa do Paulo Serdan, muitas vezes ajudava no trabalho do ateliê. Sempre trabalhei com rapidez! Os componentes da Mancha já me conheciam há algum tempo e todos gostavam do meu trabalho! Paulo Serdan dizia: “a Rosana é trabalhadeira”! Já estava muito próximo do carnaval e ainda faltava muito trabalho a ser realizado no barracão. Então, Paulo convocou todos os torcedores associados da Mancha, até aqueles que não freqüentavam o barracão para ajudar.
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Eles chegaram no início da noite. Foi um verdadeiro mutirão, empapelavam esculturas de 5m de altura em apenas algumas horas. Um ensinava o serviço ao outro, formando-se assim uma cadeia de ensino e aprendizagem. De vez em quando Paulo ia ver como estava saindo o trabalho. Alguns integrantes não trabalhavam direito, estavam lá só para brincar, mas a grande maioria aprendeu não só a empapelar, mas outras atividades também, ajudando muito o nosso trabalho no barracão! Quando terminei de pintar duas esculturas, Virgílio pediu a Paulo Serdan que colocasse alguns rapazes para decorar as esculturas pintadas com glitter perolado para dar um pouco de brilho. Paulo chamou alguns rapazes e ensinou o que era para fazer. Quando se quer dar um brilho com glitter nas esculturas, ou se usa liquibrilho misturado com glitter na pistola do compressor, ou se coloca pequenas quantidades de glitter na palma da mão e assopra sobre a escultura em toda a sua extensão por igual. Ninguém acompanhou o trabalho dos rapazes, quando Virgilio voltou para ver o trabalho, tomou um grande susto! Os rapazes jogaram tanto glitter nas esculturas, que além de sumir a pintura por causa do brilho do glitter, sumiu também os volumes das esculturas. O brilho era tanto que não se enxergava mais o rosto das esculturas. Estas esculturas tiveram que ser novamente pintadas sobre o glitter. Esta foi a primeira vez que trabalhei com outro escultor que não fosse o Teixeira. A maneira de Virgílio trabalhar era bem diferente. Ele não usava mesa de corte de isopor, e basicamente trabalhava com uma escova de aço para desgastar o isopor até chegar próximo ao formato desejado, para depois trabalhar com a faca detalhando a escultura. Teixeira utiliza uma mesa de corte para cortar os grandes blocos de isopor. Nesta mesa há um fio de níquel cromo ligado a um transformador que esquenta o fio, e este corta de ponta a ponta o bloco de isopor através do calor. Logo após, usa-se um arco, onde passa um fio de níquel cromo de uma extremidade à outra. O mecanismo é o mesmo, só muda o tamanho e o manuseio do instrumento que serve para cortar pedaços menores de isopor. Depois, utiliza-se outro instrumento que possui um cabo e é muito parecido com a ponta de um pirógrafo gigante. Este instrumento serve para detalhar rapidamente a escultura, com ele trabalha-se muito mais rápido do que com a escova de aço. O mecanismo deste instrumento é o mesmo dos anteriores. Em seguida, trabalha-se com a faca bem afiada para fazer os detalhes menores, e depois com a lixa para dar o acabamento. 82
Todos estes instrumentos são improvisados pelo próprio escultor, só o transformador é que se compra pronto. A voltagem utilizada é de 220. É necessário tomar muito cuidado para não se queimar durante o trabalho.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 43 - Mesa de corte para isopor utilizado na maioria das escolas de samba, Rosas de Ouro 2006.
Várias outras vezes fui contratada por Paulo Serdan para fazer a pintura da Mancha Verde. Em um destes anos, fiquei sabendo da morte de “Tovi”, que teve um infarto. Fiquei muito triste com o ocorrido! Nos últimos dois anos que trabalhei na Mancha, a quadra e o barracão já estavam completamente prontos. Paulo Serdan conseguiu transformar o sonho dos torcedores e componentes da escola em realidade! É muito bom trabalhar na Mancha, pois não falta material, temos todas as condições para realizar um bom trabalho, somos bem tratados, diferente de muitas escolas, a Mancha oferece almoço para todos os trabalhadores e paga o combinado pelo trabalho. Hoje a Mancha tornou-se uma grande escola de samba do grupo especial, e me sinto muito feliz por ter participado da trajetória desta escola de samba, que tão bem me acolheu durante vários anos. Neste ano de 2006, infelizmente Dona Norma, mãe do Paulo Serdan faleceu, e o terreno onde se localiza a quadra e o barracão foi interditado para desapropriação. 83
Em 2001, trabalhei na Rosas de Ouro, onde realizei a pintura da escultura que representava Caio de Alcântara Machado, fundador da Alcântara Machado. Esta escultura foi a maior que eu havia pintado até então, e uma das mais bonitas também! Foto: José Teixeira Gonçalves
Fig. 44 – A autora pintando a escultura de Caio de Alcântara Machado no barracão da Rosas de Ouro em 2001.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 45 - Escultura de Caio de Alcântara Machado finalizada.
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Esta escultura foi confeccionada pelo Teixeira e media em torno de 6m de altura. Precisei pintar em cima de um andaime. Em 2003, trabalhei novamente na Rosas de Ouro, cujo enredo era “O circuito das frutas” do carnavalesco Raul Diniz. Raul Diniz é um grande profissional, um dos melhores carnavalescos de São Paulo, uma pessoa com grande talento artístico, e de fácil acesso, o seu conhecimento ele compartilha com todos. Antes de ir para a Rosas de Ouro, ele trabalhava como carnavalesco na Gaviões da Fiel. Seu filho André já segue os seus passos. André é escultor e aderecista. Foto: Sergio Inácio da Silva
Fig. 46 - Eu e André trabalhando no barracão da Rosas de Ouro em 2003.
O escultor foi o Teixeira, mas André também confeccionou algumas peças. Teixeira sempre dava alguns toques para ele. Vários rapazes que foram aprendizes do Teixeira que iniciaram empapelando as esculturas, agora já aprenderam a trabalhar com o isopor, poliuretano, e todo o instrumental de corte para esculpir o isopor. Muitos já ensinam vários garotos que estão iniciando no barracão a empapelarem as esculturas. Raul Diniz deu chance a muitos aprendizes de se tornarem profissionais. Muitos iniciaram seu trabalho na Rosas de Ouro como ajudante de limpeza, limpando o barracão ou empapelando as esculturas. Depois, aprenderam alguma técnica carnavalesca e montaram sua própria equipe, tornando-se líder. Hoje são estes antigos aprendizes que ensinam aos novatos o trabalho no barracão.
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Sergio Inácio da Silva “Serginho” é marceneiro e também aprendeu o seu trabalho no barracão da Rosas de Ouro através do carnavalesco Raul Diniz. Hoje é o chefe da equipe de marceneiros. Ele também faz parte da bateria da Rosas de Ouro. Conheci também o Mauro Olimpo da Silva, ele estava decorando dois carros alegóricos no barracão, hoje o seu trabalho na escola de samba é outro, trabalha no ateliê confeccionando fantasias. Lembro-me que ele sempre queria utilizar o compressor na decoração, e eu também necessitava para o trabalho de pintura, e a escola tinha apenas um compressor. Sem o compressor, o trabalho do pintor é muito prejudicado, se tornando muito demorado.
Foto: José Teixeira Gonçalves
Fig. 47 - Eu pintando o espantalho no barracão da Rosas de Ouro em 2003.
O compressor precisa estar sempre disponível para o pintor, a escola de samba deve ter no mínimo dois compressores, um para o pintor e outro para trabalhos gerais, mas isso não acontece! Mauro percebeu que o trabalho de pintura necessitava mais do compressor do que o da decoração. Esse tipo de problema sempre ocorre no barracão! O carnaval de 2003 foi o último carnaval do presidente Eduardo Basílio na Rosas de Ouro, logo depois ele faleceu e sua filha Angelina Basílio assumiu seu lugar.
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Naquele carnaval de 2003, foi confeccionada uma escultura de 5m de altura em homenagem ao presidente Basílio, ele desfilou pela última vez sentado numa cadeira à frente no carro abre alas!
Foto: escolasdesamba.com.br
Fig. 48 - Carro alegórico com a escultura do seu Basílio desfilando no sambódromo 2003.
Em 2004, trabalhei na escola de samba Colorado do Brás. Esta escola pertencia ao grupo de acesso. No grupo de acesso estão as escolas de samba que competirão para passar ao grupo especial, onde estão as maiores escolas de São Paulo O grupo especial é o único grupo cujo desfile é televisionado pela Rede Globo. Somente as duas primeiras colocadas do grupo de acesso farão parte no ano seguinte do grupo especial, enquanto as duas últimas colocadas do grupo especial, descem para o grupo de acesso. Gilson Tavares, que já foi carnavalesco da Mancha, é quem me chamou para trabalhar na Colorado do Brás. O enredo de Gilson este ano falava sobre os vários tipos de chás: chá de beber, chá de cadeira, colher de chá etc. Fui contratada para trabalhar como escultora e pintora. O trabalho de escultura exige muito mais do que o trabalho de pintura.
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No início, eu não queria aceitar o trabalho por estar muito próximo ao carnaval, e por ser um trabalho muito pesado. Português, o qual ninguém sabia o seu nome, era um dos diretores da escola de samba Colorado do Brás, foi quem me contratou para o serviço.
Desenho: Gilson Tavares
Fig. 49 -Desenho de um dos carros alegóricos da Colorado do Brás para o desfile carnavalesco de 2004.
Português abaixou tanto o meu orçamento que praticamente não valia a pena pegar este trabalho pelo preço que foi combinado. Como ainda não havia sido chamada por outra escola, e o carnavalesco era meu amigo desde 1996, quando trabalhamos juntos na Mancha Verde, resolvi pegar o serviço! Mal sabia o que estava por vir! Este trabalho foi muito sofrido! Resolvi chamar dois alunos meus que fizeram aulas de escultura comigo na Oficina Cultural Alfredo Volpi em Itaquera. Fred dos Santos foi o aluno que mais se destacou na oficina de escultura, ele é um rapaz muito talentoso! Fred vive de suas pequenas esculturas de durepox. 88
Maravilhosas! O problema é que ele não consegue vender uma peça por mais de 15,00 reais. O preço médio de suas esculturas são entre 5,00 e 10,00 reais. Chamei também o Jeferson Rodrigues que foi meu aluno na mesma oficina. Ele e Fred se tornaram amigos durante as aulas na oficina. Jeferson é muito dedicado, esforçado e talentoso! Escolhi os dois para serem meus ajudantes não só pelo talento, mas também por morarem próximo do barracão da Colorado do Brás. Fred começou a trabalhar comigo uma semana antes de Jeferson que veio depois. A Quadra da escola localizava - se no Brás, e o barracão em São Miguel Paulista em baixo do viaduto, no cruzamento da Avenida Imperador com a Jacu-Pêssego. O local era muito distante da minha casa, pois moro na Pompéia. Eu pegava dois ônibus e um metrô para chegar lá, e ainda não existia o bilhete único. Fred ia trabalhar de bicicleta e Jeferson muitas vezes ia a pé, pois os dois moravam perto do barracão. Na rua de cima havia um terreno vazio, sem nenhuma cobertura, onde o diretor da escola queria que eu trabalhasse para não ter que ficar em baixo do viaduto. Este terreno possuía apenas dois barraquinhos de madeira. Um para se trocar, onde dormiam algumas pessoas do barracão, e outro para moradia de dois rapazes, um deles era locutor de uma rádio pirata de rap. Eles tinham um cachorro enorme que vivia preso no terreno pela coleira. O animal era muito mal tratado, e passava dias sem comer. Quando chovia, ele ficava preso pela corrente tomando toda aquela chuva. O único banheiro existente neste terreno era montado com várias madeiras, uma em cima da outra. O vaso sanitário foi simplesmente colocado sobre o chão de terra, como se coloca um sofá no chão, sem nenhum encanamento. Fred exclamou: “O banheiro está vivo”! Eu utilizava o banheiro de um bar que ficava a três quarteirões de distância do terreno onde estávamos trabalhando. O local de trabalho era horrível, o chão de terra, quando chovia, a lama parecia areia movediça! Engolia nosso pé inteiro em alguns lugares onde pisávamos. No dia em que chegamos para trabalhar, não havia material, não tinha mesa de corte para o isopor, o barracão não possuía nenhuma cobertura para nos proteger do sol e da chuva, e o pior de tudo, não tinha energia elétrica! Como iríamos ligar o transformador? E a iluminação? O diretor da escola mandou levantar um toldo apoiado em algumas madeiras grossas, improvisou uma mesa com uma madeira comprida e dois cavaletes. 89
Um dos ajudantes do barracão, puxou com fios a energia elétrica diretamente do poste, era uma ligação indevida, ilegal! Este dia foi totalmente perdido, pois não pudemos fazer nada! No dia seguinte de trabalho, o isopor ainda não havia chegado ao barracão. A energia elétrica já estava funcionando clandestinamente. Colocaram uma lâmpada no toldo e ligaram-na. Português, o diretor, não conseguiu arranjar o transformador necessário para instalar na mesa de corte, então resolvi pedir o transformador do Teixeira emprestado, pois ele possuía mais de um. Este é um transformador especial para esse tipo de uso. Quando ele é ligado, esquenta o fio de níquel cromo. O isopor só chegou no final da tarde. Como ainda faltava o transformador, os fios, disjuntores, entre outros materiais, resolvemos começar a esculpir com o escovão de aço. Que trabalho! Cada bloco de isopor mede 2,0m x 1,0m x 0,50 cm, e sem o transformador não dá para cortar o isopor em tamanhos menores. Saímos com os braços doendo, e o trabalho não rendeu nada. Nossos olhos e gargantas ficaram irritados, nem a máscara adiantava, pois o pó de isopor era muito e entrava nos olhos, ouvidos, boca, nariz e no couro cabeludo. Espalhavam-se como flocos de neve em pleno verão! Ficamos cobertos com o pó de isopor. No dia seguinte, a vizinha que morava a um quarteirão do barracão, foi reclamar da sujeira que o pó de isopor fez em sua casa. A minha vontade era de desistir de tudo! Ao chegar em casa, liguei para o Gilson e pedi a ele que me levasse até o barracão da Rosas de Ouro no dia seguinte antes do trabalho, local onde o Teixeira estava trabalhando para buscar o transformador emprestado. Precisei prestar muita atenção na instalação da mesa de corte do Teixeira e pedi algumas explicações, pois lá na Colorado do Brás, os trabalhadores e o próprio diretor, o Português, nunca havia visto, nem ouvido falar da mesa de corte, seu maquinário e instrumental. Eu mesma teria que montar a mesa, o que me fez perder mais tempo de trabalho ainda. Depois Gilson e seu amigo “Ito” me levaram de carro até o barracão da Colorado. Gilson já havia trabalhado comigo na Mancha Verde, ele era um grande amigo. Nesta época, logo após ele ter trabalhado na Mancha, Gilson sofreu um acidente de moto no Rio de Janeiro onde ele morava e teve que amputar uma das pernas. Mas mesmo com toda dificuldade, continuou trabalhando, e todo ano vinha para São Paulo realizar seu trabalho. 90
Agora neste ano de 2006, fiquei sabendo que Gilson faleceu ninguém soube dizer como isso ocorreu! O fato é que fiquei muito triste! Esse seria o último ano que eu vi e trabalhei com o carnavalesco Gilson Tavares! Ao chegar no barracão, comecei a montar o transformador na mesa de corte, e fazer as ligações no fio de níquel cromo. Todos os trabalhadores e ajudantes do barracão da Colorado do Brás viviam em situação precária, eram pessoas sofridas. Eles iam trabalhar armados. Eu era a única mulher que trabalhava no barracão da escola. Depois de três dias sem poder trabalhar no barracão pelas condições precárias e falta de material, pude enfim iniciar o meu trabalho! Esse tempo perdido significa muito para uma escola de samba em vésperas de carnaval! Neste dia pudemos trabalhar em ritmo que o desfile de carnaval exige! Comecei ensinando Fred a cortar o bloco de isopor utilizando a mesa de corte, depois com o arco, até chegar à faca. Eu fazia os cálculos da escultura para que ela saísse no tamanho desejado pelo carnavalesco e proporcional a este tamanho. Cortava os blocos de isopor na mesa de corte dando a forma inicial da escultura, se necessitasse, colava com poliuretano as formas cortadas em isopor, e melhorava a forma da escultura com o arco e depois com a faca. Quando eu necessitava aprofundar, arredondar, ou fazer alguns detalhes, eu deixava para o Fred fazer. Precisei confiar no trabalho dele, mesmo sendo a sua primeira vez numa escola de samba, pois o tempo era curto e pelos meus cálculos, se não trabalhasse desta forma, não daria tempo de confeccionar e pintar todas as esculturas. Sei do talento e da capacidade de Fred, deixei-o à vontade para trabalhar sobre a escultura. O trabalho de lixar, dar acabamento e empapelar as esculturas ficaram para o Jeferson fazer. A escola não oferecia o almoço, íamos almoçar no bar que eu utilizava para ir ao banheiro. O combinado com Português, era que ele me pagaria semanalmente pelos meus serviços, para que eu pudesse pagar os meus ajudantes. Na primeira semana, ele me pagou somente 400,00 reais. Deste dinheiro, tive que pagar o Fred, tirar minha condução e o almoço da semana trabalhada e da próxima 91
semana. Nestes dias, Jeferson ainda não estava conosco, ele só iniciaria na semana seguinte. Fotos: Fred
Fig. 50 e 51 - Eu cortando os blocos de isopor na mesa de corte sob a lona improvisada pelo “Português” e esculpindo o secador de cabelos com o arco no barracão da Colorado do Brás 2004.
Na segunda feira, Jeferson começou a trabalhar conosco, continuamos a confeccionar dois batons de 3m de altura cada um. Depois teríamos que confeccionar dois secadores de 5m de altura. Já havíamos feito quatro esmaltes de 2m de altura. Se não tivéssemos perdido aqueles três dias por falta de equipamento e material, os secadores já estariam prontos! Este carro seria patrocinado pela Ikesaki cosméticos.
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Já tínhamos feito um batom e o colocamos embaixo da lona onde trabalhávamos. Enquanto Fred dava acabamento no baton pronto, Jeferson começou a empapelar, e eu já estava esculpindo o outro baton. Fred ensinou o serviço de acabamento e empapelamento para o Jeferson, que aprendeu rapidamente. De repente, começou a chover muito, mas mesmo assim continuamos a trabalhar embaixo da lona. A chuva foi piorando cada vez mais e começou a ventar forte. As madeiras que seguravam a lona estavam se entortando, até que a madeira principal que sustentava todas as outras se quebrou! A estrutura caiu sobre nossas cabeças, e o baton que estava sob a lona, amparou parte da estrutura. Foi a nossa sorte! Fomos salvos pelo baton! Se alguma daquelas madeiras caísse sobre nós, iria machucar muito! Só sobrou o baton segurando a lona! Parecia uma tenda! O chão ficou alagado e a lona no chão! Mais uma vez atrapalhou nosso serviço! Precisamos parar e voltar no dia seguinte! Ao chegarmos no barracão no dia seguinte, ninguém queria nos ajudar a levantar a lona. Somente eu, Fred e o Márcio tentamos levantar juntos. Mas foi difícil! Conseguimos apenas um pequeno espaço embaixo da lona para trabalhar, pois a estrutura ficou toda danificada. Quando voltamos ao trabalho, a chuva reiniciou fortemente. Os fios que estavam ligados ilegalmente no poste se soltaram, acabando a energia elétrica. Lá se foi mais um dia de trabalho perdido! Todos os trabalhadores estavam com medo de subir no poste com aquela chuva toda e serem eletrocutados! Márcio disse que teríamos que esperar três dias até secar bem o poste e a fiação antes de alguém subir lá e ligar novamente! Esse trabalho parecia mais um pesadelo! Eu sonhava todos os dias com este barracão! Em outras palavras, ficaríamos sem trabalhar durante três dias! Isso seria impossível! Pois mesmo trabalhando dia e noite naquele barracão, não conseguiríamos terminar o serviço! Não poderíamos contratar mais escultores por não termos outro transformador cujo preço é muito elevado, além do valor fechado com a escola não cobriria todas as despesas, estaríamos pagando para trabalhar! E para aumentar os problemas, o pagamento daquela semana não havia sido feito! Fiquei devendo para os rapazes! Já estávamos pagando para trabalhar! O desânimo começou a me dominar! Fiquei com vontade de chorar! Nunca havia trabalhado naquelas condições! Minha 93
responsabilidade como profissional era muito grande e eu queria cumprir com o combinado!
Como não havia ninguém para levantar a lona, e fazer a ligação ilegal no
poste, resolvi ir trabalhar embaixo do viaduto junto com os outros trabalhadores! Pelo menos lá a ligação clandestina estava funcionando e o viaduto não cairia sobre nossas cabeças! No dia seguinte, montaram a mesa de corte embaixo do viaduto, encostada num pilar de sustentação. Atrás deste pilar morava um homem, praticamente encostado à mesa de corte. O cheiro era insuportável! O banheiro dele era ali mesmo! O homem não gostou nada que invadimos parte de seu espaço para trabalhar! Ele foi obrigado a dividir a sua casa conosco! Havia pedaços de isopor por todos os lados, o morador de rua ficava nos observando. Ele pegou alguns pedaços maiores e foi montando os móveis da sua casa! Fez um banquinho, uma mesa e até improvisou uma cama, tudo com isopor! Ele também fez parte do processo de ensino e aprendizagem da arte no barracão da escola de samba! Toda semana ia um caminhão recolher os pedaços de isopor jogados pelo chão para reciclagem. Eles pagavam para o “Português” pelos restos de isopor que seria reciclado. O isopor com que trabalhamos nesta escola era de má qualidade, ele se desmanchava sozinho, não conseguíamos fazer detalhes pequenos neste tipo de isopor! Existem três tipos de qualidades de isopor, o P1, o P2, e o P3. A diferença entre eles é a densidade. O isopor utilizado naquele momento estava fora desta classificação. Já estávamos no final da terceira semana e nada do nosso pagamento da segunda e terceira semana sair! De vez em quando, Gilson o carnavalesco aparecia no barracão para ver o andamento do trabalho. Gilson ficou indignado com a falta de material, de pagamento, e com as condições de trabalho! Não adiantava reclamar com o Português, ele já nem aparecia mais no barracão para não ser cobrado pelo pagamento e pelo material! Isso é algo que acontece muito em algumas escolas de samba! Na semana seguinte, choveu muito, praticamente todos os dias. Tomávamos toda aquela chuva, ficávamos ensopados passando frio! O viaduto era tão alto que não protegia contra a chuva! Quando chovia o trabalho de empapelamento que é bem
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demorado, se desmanchava todo, a chuva molhava o jornal do empapelamento e tudo ia por água abaixo. Nós e todos os trabalhadores estávamos lutando muito, no limite de nossas forças! Nesta semana apareceu no barracão, um rapaz que veio para decorar um carro alegórico. Ele percebeu o clima do barracão! A impressão que tivemos era de que ele foi para observar as atitudes dos trabalhadores! Todos estavam trabalhando nervosos por não receberem o pagamento! Todos com família para sustentar, mas mesmo assim os trabalhadores não estavam boicotando o trabalho.
Ao perceber a decepção do
pessoal, o rapaz, o qual não me lembro o nome, começou a ameaçar o pessoal indiretamente colocando medo nas pessoas! Ele dizia assim: “Não sei não, se os responsáveis das equipes não terminarem o seu trabalho, aqui na escola têm vários caras que são cachorros loucos e que virão atrás de quem não terminar o trabalho”! Esta frase para mim foi o ponto final! Achei um absurdo as pessoas trabalharem de graça, naquelas condições e ainda sofrer ameaça de morte, como se fosse um trabalho escravo, obrigado e sem remuneração! Nesta escola de samba Colorado do Brás, desvalorizei totalmente meu trabalho como profissional do carnaval, fiquei brava comigo mesma por ter me permitido passar por todo esse abuso! O que valeu foi a experiência dolorida de saber escolher com qual escola se pode trabalhar como uma profissional respeitada! Naquele mesmo momento em que o sobrinho de Dona Marta disse isso, Gilson chegou ao barracão, e eu lhe disse que estava abandonando o serviço, contei tudo a ele o ocorrido na frente do rapaz que disse tudo aquilo, pois nunca tive medo de nada e muito menos de cachorros da escola de samba! Fiquei muito revoltada com essa situação! Tomei as dores de todos os outros trabalhadores, que simplesmente abaixaram a cabeça e continuaram com o seu trabalho naquelas condições e sem pagamento! Peguei o transformador do Teixeira e minhas coisas, e coloquei no carro do Ito! Fiz isso bem na frente do sobrinho da presidente que nos ameaçou, e disse que arrumassem outro escultor para continuar o trabalho no meu lugar! Despedi-me dos meus ajudantes, sem ter como pagá-los e fomos embora! No carro, Gilson disse-me que também estaria abandonando a escola. Ele ficou indignado com a falta de condições de trabalho, a falta e pagamento, e principalmente pelas ameaças!
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Gilson tomou algumas providências no dia seguinte. Enviou uma carta à união das escolas de samba de São Paulo e para a liga das escolas de samba, contando todo o ocorrido e retirou o seu nome que estava como carnavalesco da Colorado do Brás! Gilson foi também a uma delegacia fazer um Boletim de Ocorrência pelas ameaças sofridas no barracão, e ainda iria mover uma ação contra a escola pela falta de pagamento! Eu estava tão esgotada que resolvi não fazer nada contra a escola. Deixei por isso mesmo! A minha maior decepção foi não poder pagar os ajudantes! Fred me ligou e disseme para não me preocupar, pois ele entendeu tudo o que aconteceu, e que para ele valeu a pena ter trabalhado numa escola de samba, pois apesar de tudo, ele obteve uma boa aprendizagem da arte no barracão, e disse-me que Jeferson achou a mesma coisa, e que por ele, continuaria trabalhando mesmo naquelas condições, pois adorou o trabalho no barracão! Não apareci mais no barracão da Colorado do Brás, somente um rapaz que era ajudante da escola me ligava de vez em quando e disse-me que ninguém havia recebido até o dia do desfile, e que eles pretendiam desmontar os carros alegóricos e vender a estrutura dos carros no ferro velho para conseguirem algum dinheiro para dividirem entre eles. Quando abandonei a Colorado do Brás, ficou faltando confeccionar duas esculturas do abre alas, uma cabeça de um pierrô e o brasão da escola, pois todas as outras esculturas já havia confeccionado. O desfile da Colorado do Brás foi televisionado pela TV Cultura e assisti em casa. Foi um fracasso! Algumas esculturas, não puderam ser fixadas no carro pela falta da estrutura de ferro no carro que viria sustentando-as de onde sairiam os queijos para os destaques subirem. Gilson confirmou que os trabalhadores ficaram até o final do serviço e não receberam nada! Todos eram chefes de família e passavam por uma situação difícil. Quando larguei o trabalho da Colorado do Brás, Gilson me pediu para pintar um carro alegórico de um bloco naquele mesmo ano, onde ele também era carnavalesco. O presidente do bloco, o qual não sei o nome era conhecido como “Cabecinha”. O bloco se chama “Vovó Bolão”. O barracão do bloco se localizava próximo à Vila Leopoldina, embaixo de um viaduto, mas a localização era bem melhor do que a da Colorado do Brás. Embaixo
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deste viaduto se localizavam outras escolas de samba que não pertenciam ao grupo especial. Uma delas era a Prova de Fogo! O Bloco Vovó Bolão teve apenas um carro alegórico que representava uma fábrica antiga com algumas fornalhas que se localizava no Parque D. Pedro. O carro era muito grande e trabalhoso, pois eu teria que pintar o carro inteirinho que era feito com pedaços de espuma imitando tijolos que vinham colados na estrutura de madeira que imitava uma grande fábrica!
Foto: Rosana Antunes
Fig. 52 - Carro alegórico sendo confeccionado no barracão do bloco Vovó Bolão em 2004.
Combinei o preço com “Cabecinha”. No dia seguinte comecei o trabalho! “Cabecinha” sempre vinha me buscar em casa e levar-me ao barracão. O almoço era fornecido pelo bloco. Íamos comer um comercial no bar. A comida não era boa! O banheiro se localizava no barracão da escola Prova de Fogo, tinhamos que atravessar todo o barracão e pedir para usar o banheiro. Quando comecei a trabalhar no Vovó Bolão, faltavam apenas quatro dias para o desfile. Trabalhei muito, ficava até as madrugadas trabalhando, depois “Cabecinha” me levava para casa. Foi muita correria! O bloco não tinha compressor, pediu emprestado, e eu emprestei a minha pistola. Além do carro alegórico para pintar, tinha uma cabeça de dois metros da Vovó Bolão que iria à frente do carro.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 53 - Pintura sendo confeccionada na alegoria da cabeça da Vovó Bolão em 2004.
Quando terminei o meu trabalho, “Cabecinha” prometeu-me que me pagaria o serviço logo após o desfile do Bloco. Deu-me o número do seu celular para combinarmos o dia do pagamento. O Bloco Vovó Bolão foi o vencedor do desfile em seu grupo! Depois de alguns dias, liguei para o Cabecinha para acertamos o pagamento. O seu celular estava desligado com sua caixa postal cheia! Tentei durante vários meses, e sempre a mesma coisa! Até que acabei desistindo! Seu Haroldo, o “Cabecinha” não me pagou um centavo sequer pelos meus serviços prestados para o bloco. Não consegui encontrá-lo, a minha única referência era embaixo do viaduto, que já estava abandonado! Fiquei decepcionada por ter confiado no “Cabecinha”! Decepcionei-me tanto que no ano seguinte em 2005, não quis trabalhar em nenhuma escola de samba! Recebi ligações para trabalhar numa escola do interior de São Paulo. Não quis! Fui viajar para Boracéia e assisti alguns momentos do desfile pela TV! Confesso que foi uma tortura ficar de fora do carnaval! Não estar no barracão vendo todas aquelas alegorias sendo confeccionadas para o desfile, rever os amigos, e principalmente não trabalhar com a pintura das esculturas e carros que é a minha 98
paixão! Nunca mais quero ficar de fora! A lição foi dolorida, mas aprendi! Hoje não me arrisco a trabalhar em qualquer escola de samba! Sinto - me mais preparada! Tanto quanto à experiência como profissional do carnaval, como para a negociação com as escolas de samba, e para o tratamento com as pessoas deste meio!
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CAPÍTULO 3
ENSINO E APRENDIZAGEM DA ARTE NO BARRACÃO DA ESCOLA DE SAMBA SOCIEDADE ROSAS DE OURO
3.1 – A escola de samba Sociedade Rosas de Ouro
3.1.1 – Fundação da escola
Data de Fundação: 18/10/1971 Cores Oficiais: Azul, rosa e branco Títulos: 1983-1984-1990-1991-1992-1994 Localização: Rua Coronel Euclides Machado, 1066 – Freguesia do Ó.
Fotos: Rosana Antunes
Fig. 54 - Fachada da escola de samba Rosas de Ouro em 2006.
Fig.55 - Entrada lateral da Rosas de Ouro 2006.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 56 - Portão de entrada para o barracão e estacionamento da Rosas de Ouro que se localiza depois da entrada lateral da escola, 2006.
Fundada em 1971 por um grupo de quatro amigos, José Luciano Tomás da Silva, João Roque "Cajé", José Benedito da Silva “Zelão” e entre eles Eduardo Basílio, presidente da escola. Seu nome vem de uma condecoração do Papa Gregório II em 730, para condecorar virtuosas princesas católicas, o bouquet de ROSAS DE OURO, contidas em um vaso de forma elegante, ricamente decorado, abençoado pelo Papa antes da missa do quarto Domingo de quaresma. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1889, sua Alteza Imperial Princesa Isabel seria condecorada por iniciativa do Papa Leão XIII.
Foto: arquivo da escola
Fig. 57 - Pavilhão da escola Rosas de Ouro.
101
Desfilou, pela primeira vez, no carnaval de 1973 no Segundo Grupo, e ficou em quarto lugar. Em 1974, ganhou o Segundo Grupo e subiu para o grupo principal em 1975. No grupo especial, ficou com o vice-campeonato. Seus sambas, nos primeiros anos, foram feitos pelo compositor Zeca da Casa Verde. Em 1983 a escola se tornou campeã com o enredo "Nostalgia", samba que Zeca da Casa Verde fez para a escola, e que era uma
volta
a
São
Paulo
do
começo
do
século
XX.
A cidade de São Paulo é o tema preferido da Rosas de Ouro. Já foram apresentados na avenida a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a Avenida São João, os vários povos do Brasil e do mundo que fizeram da cidade seu novo lar, o final de semana típico de um paulistano, a evolução da cidade através dos tempos, a gastronomia de São Paulo, e personagens como os Demônios da Garoa e Alcântara Machado. A Rosas de Ouro mantém, junto com a comunidade da Freguesia do Ó, atividades com crianças, adolescentes e terceira idade. As senhoras que fazem parte da ala das baianas, promovem festas e concursos durante ano, formando um grupo de convívio. Além de escola de samba, a Rosas de Ouro é também uma empresa, realiza apresentações durante o ano todo, no Brasil e no exterior.
Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 58 - Angelina Basílio, presidente da Rosas de Ouro 2006.
Em 2003, o Presidente Eduardo Basílio, adoeceu e acabou falecendo em outubro. Como sua sucessora, sua filha Angelina Basílio, assumiu a presidência da escola. 102
3.1.2 – Desfiles da Rosas de Ouro Ano
Enredo
Colocação
Grupo
1971
História de Vila Brasilândia
nono
três
1972
Brasil de ontem, Brasil de hoje
quinto
três
1973
Formação étnica
primeiro
três
1974
Canta e conta os quatro cantos do Brasil
primeiro
dois
1975
A rua
segundo
um
1976
Sete cidades encantadas
terceiro
um
1977
Ataulfo Alves, "o poeta de Miraí"
quarto
um
1978
Salamanca do Jarau
quarto
um
1979
Conversando com as flores
sexto
um
1980
Tudo é Brasil
quarto
um
1981
Do caminho do mar à ilha do tesouro
quinto
um
1982
Ainá, no reino de Baobá
quarto
um
1983
Nostalgia
primeiro
um
1984
A velha academia berço de heróis
primeiro
um
1985
Uma boa idéia
terceiro
um
1986
Cem anos depois
sexto
um
1987
São Paulo, seu povo sua gente
segundo
um
1988
Carvalho, madeira de lei
sexto
especial
1989
Vera Cruz, "a vedete dos anos 50"
terceiro
especial
1990
Até que enfim... "o sábado"
primeiro
especial
1991
De piloto de fogão a chefe da nação
primeiro
especial
1992
"Non ducor duco", qual é a minha cara?
primeiro
especial
1993
É hoje... Um dia de festa
terceiro
especial
1994
Sapoti
primeiro
especial
1995
Paixão nacional
segundo
especial
1996
Uma janela para o mundo
segundo
especial
1997
São Paulo, capital mundial da gastronomia
quarto
especial
1998
Samba da garoa
sexto
especial
1999
A divina comédia de um folião
sexto
especial
2000
Yes, nós temos mais que banana
terceiro
especial
2001
Quem plantou o palco, hoje é o espetáculo
segundo
especial
2002
O pão nosso de cada dia
terceiro
especial
2003
No circuito da fruta. To de bem com a vida
sexto
especial
2004
quarto
especial
2005
“Dos campos de Piratininga à grande metrópole, a história da São Paulo em monumentos” Mar de rosas
sétimo
especial
2006
A Diáspora africana. Um crime contra a raça humana
quinto
especial
103
3.2 – O carnaval de 2006
3.2.1 - Ficha técnica em 2006
Enredo: “A Diáspora Africana. Um Crime Contra a Raça Humana”. Presidente: Angelina Basílio Vice Presidente: Camila Basílio Carnavalesco: Fabio Borges 1º. Casal de M.S e P.B: Luiz Antonio Butinhão Junior / Sueli Ap. Rica Costa Velha Guarda: Maria Helena Brito / Valdir Brito (Dica) Interprete Oficial: Darlan Alves Carneiro Compositores: Marcelo Dias, Silas Augusto, Marcio Bueno, Ricardinho e Baqueta Diretor Geral de Carnaval: Alexandre Vicente Diretora administrativa e financeira: Ana Paltrinieri Diretor de Harmonia: Marcelo Furgeri Diretor de Bateria – Carnaval 2006: Romildo Lacerda Diretores de Bateria – Shows: José Manoel Paulino e José Roberto Santos Diretor da Ala dos Compositores: Antonio Z. Xavier Gonçalves Diretor de Barracão: José Roberto Rangel e Júlio César Teixeira Diretor de Alegoria: Walter Candido Vasconcelos (Turquinho) Diretora de Destaques: Vanderci Medeiros Diretor Musical: Osmar Costa Diretora da Ala das Baianas: Doralisia de Souza Paixão (Dora) Diretora da Ala das Crianças: Maria Regina de Oliveira Strobel ( Regina) Diretor de Marketing: Lívio Junqueira Diretor de Comunicação: Fernando Innecchi (Nova York) Coordenador e Coreógrafo de Comissão de Frente: Júlio César Teixeira Coordenadora de Ateliê: Wilma Terezinha Santos Abreu Coordenadores de Adereços: Sergio Gomes Caputo (Gal), Leandro Germano Coordenadora do Projeto Social: Vanessa Dias de Oliveira
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3.2.2 – Enredo de 2006 “A Diásporas Africana um Crime Contra a Raça Humana”
Sinopse A África é o berço da humanidade. Ali nasceu o homo sapiens, negro, há 200 mil anos. Sendo a África uma região quente, sua pele era escura devido a concentração de melanina, que serve de proteção da radiação solar. À medida que foi migrando para o norte, em direção às regiões frias da Europa, sua pele foi se tornando progressivamente mais clara, culminando nos povos nórdicos. Na África o homem evoluiu, criou a agricultura e a civilização. Na antiguidade os núbios, os etíopes, os kuch e os nok tinham um avançado grau de desenvolvimento, e os egípcios atingiram o apogeu de sua civilização. Os conhecimentos da civilização africana, via Egito, chegaram aos babilônios, persas, gregos, romanos, contribuindo para a civilização da Europa. Até o século XV a África seguia seu próprio desenvolvimento, com importantes estados constituídos, como o Império Songai, o Império de Gana, o Reino do Zimbábue, o Reino do Daomé, a civilização Achanti (refinada pela sua arte), a civilização Yorubá (composta de cidades-estado), e a civilização Ilê Ifé, entre outras. Algumas cidades como Gao, Tomboctu, Djennê e Benim, eram mais povoadas que Lisboa, Veneza e Londres, e possuíam universidades. As sociedades africanas eram constituídas de várias etnias, ricas, complexas, plurais. Possuíam estrutura relativamente estável, e os reinos africanos gozaram de relativa estabilidade até a chegada dos europeus, para quem vendiam ouro, marfim e sal. Os portugueses são os primeiros a chegar à África pelo Oceano Atlântico, em busca das riquezas do continente. Além de ouro, sal e marfim, em 1441 eles levaram a Lisboa alguns africanos como escravos, mais “curiosidade” do que mão de obra. Com o descobrimento da América por Cristóvão Colombo, os portugueses vão dividir com os espanhóis as terras do Novo Mundo. E para construir suas belas colônias nas Américas, explorar suas minas de ouro e de prata, decidem escravizar os ameríndios, que não se submetem ao trabalho forçado. Fracassada a tentativa de usar mão-de-obra indígena, eles vão se voltar para os negros da África, iniciando um tipo de escravidão inédita, baseada no subjugamento de seres humanos em razão da cor da pele. A justificativa para a escravidão negra é a Bula “Romanus Pontifex”, de 1455. Nela, o Papa Nicolau V concede ao Rei de Portugal, D. Afonso V, livre e ampla licença para “invadir, perseguir, capturar, derrotar e submeter todos os sarracenos e quaisquer pagãos e outros inimigos de Cristo onde quer que estejam seus reinos”. Usando o nome de Deus eles vão cometer esse grave crime contra a
105
humanidade, fazendo crer que a escravidão era a única maneira de salvar do inferno a alma desses homens “sem alma”. A religião foi o suporte ideológico de uma barbárie de “civilizados”. Inicialmente essa mercadoria humana era constituída principalmente de populações vencidas por soberanos locais. Estabelecendo com os chefes vitoriosos um comércio baseado no escambo, trocavam com eles tecidos de seda, jóias, tabaco e armas, por seus prisioneiros de guerra. Com a intensificação das exigências comerciais, os pequenos reis levam os brancos ao interior do continente, organizando verdadeiras caçadas, ataques repentinos às aldeias, à procura da “madeira de ébano”. Milhares de pessoas são capturadas e chegam ao litoral em longas filas, como bestas humanas, chicoteadas e presas ao pescoço por pesadas forquilhas de madeira. Ali é feito o leilão, com os belos e fortes sendo escolhidos e velhos ou doentes sendo sacrificados. O comprador examina com cuidado a boca de cada um. Para cada dente que falte, o valor é reduzido. Antes de embarcarem, no ponto do não retorno, que não veriam nunca mais, eram marcados com a cruz em brasa para que passagem do estado de “selvageria” ao estado de “felicidade”. Foram separados pra sempre de suas famílias, para que apagassem da memória suas lembranças e sua identidade cultural. Estima-se que o tráfico custou a liberdade a trinta milhões de pessoas deportadas para as Américas, sem contar as que morreram no momento da captura, na triagem ou nos navios. Durante quatro séculos, portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses, através do tráfico negreiro, vão esvaziar a África de seus homens mais robustos, das mulheres mais sãs, das moças e crianças mais belas. Perdendo suas forças vitais, o desenvolvimento demográfico do continente vai ficar paralisado por duzentos anos. De todos os países americanos, o que mais importou escravos foi o Brasil. Estima-se que durante três séculos de tráfico intenso, o país vai receber entre quatro e seis milhões de pessoas. Como mercadorias eram transportados em navios negreiros, que chegavam a levar 600 africanos amontoados nos porões, acorrentados uns aos outros em condições sub-humanas. Durante a travessia, que durava dois meses, muitos morriam por doença, desnutrição, inanição, banzo (melancolia causada pela saudade da terra e de sua gente), ou desespero. Muitos eram jogados dos navios, outros se jogavam como resistência à escravidão, como se o mar os fosse devolver à África. Na chegada ao Brasil, eram desembarcados como mercadoria, e substituídos por açúcar na viagem de volta. Os primeiros desembarques aconteceram na Bahia, em 1548. Em seguida se estenderam a Pernambuco e Rio de Janeiro. Aqui novamente sofreram a humilhação da triagem, e após a venda eram marcados a ferro em brasa com a
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identificação do comprador. Vão sofrer, além da violência física, a violência cultural, através da imposição do idioma português e da religião católica, em detrimento da cultura africana, das suas crenças religiosas e do seu modo de ser. Aqui foram explorados nas lavouras e nos engenhos de cana-de-açúcar, e a qualquer manifestação de rebeldia eram amarrados ao tronco e sofriam todo tipo de tortura. Os fugitivos capturados tinham a orelha cortada e a letra F gravada na testa. Como reação a essa humilhação, aumentou o número de fugas, e a melhor forma de resistência foi a organização dos quilombos. O mais famoso o de Palmares recebeu tantos fugitivos que chegou a ter 30 mil habitantes. Sob o comando de Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares, vai resistir durante 64 anos. Com a decadência da indústria açucareira no nordeste muitos escravos são deslocados para a extração de ouro em Minas Gerais. Em Ouro Preto a teoria de inferioridade intelectual dos negros vai cair por terra, através do primeiro gênio brasileiro, Aleijadinho. Com o crescimento das economias urbanas, os escravos passam a ser utilizados em outras funções nas cidades, como a produção e venda de produtos artesanais, ou o transporte de cargas. A miscigenação aumenta, nasce o sincretismo religioso através das Irmandades dos Homens Pretos e de terreiros de Candomblé e Umbanda. Os escravos enriquecem o idioma português e fecundam a cultura brasileira com seus temperos, ritmos e danças, com a percussão de seus tambores, criando aqui os vistosos maracatus, as congadas, o jongo, a capoeira, o frevo e o samba. Durante três séculos produziram as riquezas do país nos canaviais, nos garimpos e nas lavouras de café, condenados a viver na pobreza. Nessa vida de sofrimento e resistência, eles conservaram a integridade de sua condição humana, sonhando com o fim da escravidão. Com o crescimento do movimento abolicionista e a pressão internacional, o Brasil será o último país a libertar seus escravos, em 1888. Mas após a assinatura da Lei Áurea pode-se dizer que acabou a escravidão? Ela deixou uma marca tão profunda de preconceito racial, que impediu a elevação dos negros a uma condição de igualdade na sociedade brasileira. Eles continuaram escravos da relação de inferioridade econômica em relação ao homem branco, e do descaso histórico pela cultura afro-brasileira. A prática da Capoeira seria crime previsto no Código Penal até 1937, quando é liberada. E as tradições afro-brasileiras continuam vistas como cultura inferior, “coisa de preto”.
Hoje a Constituição Brasileira assegura a
igualdade de direitos a seus cidadãos, sem preconceito de raça, opção
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religiosa, sexo ou cor. Mas a igualdade perante a lei não assegura aos afrodescendentes condições dignas de vida. O Governo Brasileiro tenta resgatar essa dívida social, através do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, e a criação de cotas nas universidades para estudantes afro-descendentes. Mas um trabalhador negro com formação universitária ainda recebe salário menor que um trabalhador branco exercendo a mesma função. Hoje 45% da população brasileira é afro-descendente. Muitos tiveram ancestrais reis e rainhas, mas por causa da melanina, hoje são apenas reis da ralé, da favela, da fome, da marginalidade, do trabalho pesado, da cozinha, do salário mínimo, do desemprego. O mundo reconheceu a escravidão e o tráfico negreiro como um crime contra a humanidade, o Papa João Paulo II reconheceu a responsabilidade da Igreja nesse lamentável episódio da história da civilização, e o Presidente Lula, em comovente viagem à África, pede perdão pela escravidão no Brasil. Mas não cabe apenas ao governo reconhecer essa dívida social. Cabe a nós, cidadãos brasileiros, em respeito à origem comum da raça humana e à nobreza do leite da mãe negra que amamentou nossos antepassados brancos, restaurar os direitos dos afro-descendentes, fazendo com que eles possam andar de cabeça erguida como nossos irmãos, através da promoção da igualdade racial. (Borges, 2006) .
A Rosas de Ouro foi a segunda escola a desfilar no sambódromo na primeira noite do carnaval de São Paulo, em 2006. A escola desfilou com 3.200 componentes, 27 alas, e cinco carros alegóricos levando para a avenida a conscientização contra o racismo e pregando a igualdade entre os povos. A inspiração para o enredo teve origem em uma matéria do programa Fantástico da rede Globo, apresentando uma visita do presidente Lula e sua comitiva à África, mais precisamente em um museu localizado em uma ilha de escravos. Tal matéria inspirou o carnavalesco Fábio Borges a criar o enredo "A Diáspora Africana, um crime contra a raça humana". Fábio Borges planejou realizar um desfile dramático e chocante, “para que as pessoas se lembrem o que foi feito com os negros”. Segundo Fábio, o fio condutor do enredo e do desfile é a riqueza e a geometria da África: "o que eu usei para dar unidade ao enredo é que a África era um continente
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muito rico material e culturalmente. Então resolvi mostrar a África usando isto: geometria e riqueza”. Abrindo o desfile o abre-alas representa a civilização africana. O carro trouxe a riqueza do povo e da cultura do país. Foto: Botequim do Samba
Fig. 59 - Carro abre-alas no desfile de 2006 da Rosas de Ouro.
A Comissão de Frente formada pelas esculturas dos 12 profetas em pedra sabão de Aleijadinho, o carnavalesco quis mostrar que os negros não eram inferiores intelectualmente Foto:Carnaval Paulista
Fig. 60 - Comissão de frente da Rosas de Ouro 2006
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As cinco primeiras alas representam os reinos africanos de onde vieram negros escravizados para o Brasil.
Foto: Revista Rosas de Ouro 2006
Fig. 61 - Ala 1: A civilização africana.
Foto: Revista Rosas de Ouro 2006
Fig. 62 - Ala 2: O reino de Benim.
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Foto: Revista Rosas de Ouro 2006
Fig. 63 - Ala 3: O império do Mali.
Foto: Revista Rosas de Ouro 2006
Fig. 64 - Ala 4: O reino dourado de Achan.
O segundo carro é o Navio Negreiro trazendo os escravos do continente africano para o Brasil. É a mão-de-obra escrava construindo as riquezas do nosso país. A forma do carro Navio Negreiro é toda feita de negros, o casco, o porão, é todo aberto, mostrando os negros presos. O navio é uma escultura humana. O carro vem com integrantes acorrentados e uma imagem de Iemanjá carregando um corpo que foi atirado ao mar. A ala que vem na frente desse carro encena uma “razia”, palavra que significa invasão de território estrangeiro para saque de pessoas, o processo de caça e captura dos negros na floresta. São escravos chegando ao litoral, presos em duplas pelo pescoço, por meio de forquilhas. Esta ala é uma entre as muitas alas teatralizadas que 111
a Rosas de Ouro mostra na avenida em 2006. Os integrantes andavam em filas, amarrados pelo pescoço com pedaços de madeira.
Foto: Antonio Gauderio/Folha 2006
Fig. 65 - Ala Razia vindo a frente do carro o Navio Negreiro.
A escola falou de personagens importantes da história do negro no Brasil, como Chico Rei, Aleijadinho, Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares. Salvador foi lembrado pela escola na ala das crianças, batizada de Lavagem do Bonfim, que, além dos componentes mirins, contou com uma reprodução de cerca de 4 metros da famosa igreja de Salvador. Foto: Revista Rosas de Ouro 2006
Fig. 66 - Ala 12: lavagem do Bonfim.
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Outro tema abordado pelo carnavalesco foi a natureza, com o carro alegórico animismo, significando religiões que associam espíritos a forças da natureza. Neste carro, foi exibida uma escultura gigante da Mãe Natureza, com cerca de 25 metros de comprimento e oito metros de altura.
Foto: Eduardo Santos 2006
Fig. 67 - Carro 4: O animismo.
O desfile também falou sobre a resistência dos negros, representada pela ala do quilombo. As alas representaram também os escravos produzindo riquezas no ciclo da canade-açúcar, do ouro em Minas Gerias, do café, além dos escravos que saíam às ruas para vender os produtos dos seus senhores. A escola contou como os africanos enriqueceram a cultura brasileira com as tradições folclóricas, danças, religiosidade, o candomblé, as festas de origem afrocatólica, congado, maracatu, reisado, o samba, a capoeira, além do enriquecimento do nosso idioma. A penúltima parte do desfile apresentou a herança da escravidão, a situação atual. Segundo o carnavalesco, foi assinada a Lei Áurea e oficialmente acabou a escravidão, mas o império brasileiro não deixou nenhuma condição para que os exescravos prosperassem. Europeus ganharam terras do império brasileiro para virem para cá; os negros não ganharam nada. Então tiveram que viver em periferias e na pobreza. 113
Fechando o desfile, a Rosas de Ouro exalta as iniciativas que asseguram a igualdade racial no nosso país, mas termina com um alerta: "Não existe raça negra ou branca, existe a raça humana”. O samba enredo segue em anexo.
3.3 – “Notas sobre o barracão, diário de uma pintora aprendiz”
Em 2006, fui contratada novamente pela escola de samba Rosas de Ouro para realizar as pinturas artísticas das esculturas e dos carros alegóricos. Em meio a este trabalho, coletei mais dados sobre o processo de ensino e aprendizagem da arte que se estabelece no barracão de uma escola de samba, entrevistas e depoimentos dos profissionais do carnaval colaboraram para esta dissertação de mestrado. Confeccionei um diário, no qual escrevi dia a dia o que ocorreu no barracão da escola neste ano de 2006. Novamente, Teixeira foi o mediador entre eu e a Rosas de Ouro. Numa terça feira antes do natal de 2005, fui até a escola e Teixeira apresentoume ao Fábio Borges, carnavalesco da escola. O trabalho de pintura a ser realizado em 2006 abarcava:
CARRO 01 – ABRE ALAS: “A Civilização Africana”
- 01 rosa de isopor com 4m de diâmetro - 02 marfins de isopor com 2,5m cada - 01 rainha negra de isopor com 9 m de altura - 02 bebês de isopor com 2m de altura cada - 03 máscaras de fibra com 3,5m de altura cada - 04 máscaras de isopor com 80 cm de altura cada
CARRO 02: “O Navio Negreiro”
- 01 cabeça de medusa de isopor com 3,5m de altura 114
- 02 negros de isopor mergulhando com 2,0m de comprimento cada - 01 Iemanjá de isopor com 5,0 m de altura - 01 negro de isopor nos braços de Iemanjá com 2,5m de comprimento - 04 tentáculos de espuma com 3,5m de comprimento cada - 04 tentáculos de espuma com 2,5m de comprimentocada
CARRO 03: “Resistência e Escravidão”
- 10 negros de fibra da cintura para cima com 1,70 m de altura cada - 08 negros de fibra da cintura para cima com 1,60m altura cada - 18 bacias grandes de fibra com 1 m de diâmetro cada - rochedos de isopor na parte frontal inteira do carro alegórico - 02 escravos de isopor com 3,5m de altura cada - 01 bacia de isopor 3,0m de diâmetro - 02 colunas de fibra com 2,5 m de altura cada
CARRO 04: O Animismo
- 01 mãe natureza de isopor com 8m de altura - rochedos no piso e em toda as laterais do carro alegórico de isopor - 20 vasos de barro - saia do carro alegórico em tecido
CARRO 05: “Pela Promoção da Igualdade Social”
- 02 máscaras negras de fibra com 3,5m de altura cada - 02 máscaras brancas de fibra com 3,5m de altura cada - 02 máscaras amarelas de fibra com 3,5m de altura cada - 01 índio de fibra com 2,5m de altura
COMISSÃO DE FRENTE
Os doze profetas de Aleijadinho confeccionados em espuma, isopor e fibra. A pintura deveria representar a pedra sabão 115
- 01 portal de 3,5m de altura - 12 roupas de espuma que representavam o corpo da escultura com 2,0m cada - 12 cabeças dos profetas de isopor medindo 80 cm cada - 12 placas de fibra que os profeta seguram de 80 cm de altura cada - 01 leão de isopor de 80 cm de altura que um dos profetas carrega - 01 baleia de isopor de 80 cm da altura que um dos profetas carrega - 12 pares de botas de couro sintético
3.3.1. Condições de trabalho: remuneração, alojamento, refeições
Com a presidente Angelina negociei e aprovamos o orçamento. Ela apenas pediu que eu começasse o trabalho o mais rápido possível, pois tinha apenas dois meses para concluir todo este trabalho. Sempre confiei na Rosas de Ouro, pois esta escola age com honestidade com todos os seus trabalhadores, e as condições de trabalho são as melhores possíveis entre as escolas de samba. A Rosas de Ouro paga seus profissionais semanalmente para que possamos repassar o pagamento aos nossos ajudantes e ter dinheiro para as nossas despesas. Penso ser a Rosas de Ouro uma das melhores escolas para se trabalhar. Ela é uma das mais organizadas, está sempre em atividade durante o ano todo. É como se fosse uma empresa. Os chefes das equipes do barracão são contratados diretamente pela escola, e são estes profissionais que contratam seus assistentes e ajudantes, combinando o preço entre eles, que é em torno de 80,00 reais por semana. Toda responsabilidade é do chefe da equipe perante a escola. Algumas pessoas que trabalham no barracão não fazem parte das equipes contratadas, são ajudantes contratados diretamente pela escola para executarem alguns serviços no barracão, é o caso dos meninos do empapelamento, do “Chelaia” que trabalha no almoxarifado, do “Treze”, este é o seu apelido, até hoje não sei seu nome, que trabalha na limpeza do barracão, entre outros trabalhadores.
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Todo ano em que trabalho na Rosas de Ouro, há trabalhadores novos no barracão, estão sempre sendo reciclados, somente alguns se mantém desde 1996, ano em que iniciei meu trabalho nesta escola. Alberto Borges, o profissional que trabalha com arame, morava no alojamento e em uma das manhãs, cheguei a levar café para que ele pudesse preparar. Foto: Rosana Antunes
Fig. 68 - Alberto Borges em seu alojamento no barracão da Rosas de Ouro 2006, onde eu esquentava a comida e guardava minha bolsa.
O alojamento que servia de moradia para Borges era composto por dois pequenos cômodos, um com uma cama e um beliche e outro cômodo com uma geladeira e um fogão velho. Borges permitia que eu fizesse café, quando a fome apertava. Teixeira, lá no seu canto do barracão, espaço que ele utilizava para esculpir, também fazia seu cafezinho numa cafeteira para ele e o Roni, seu ajudante, tomarem de manhã e à tarde. A Rosas de Ouro não oferece refeições aos seus trabalhadores. Ou a pessoa leva marmita, ou almoça na própria escola por quatro reais. A comida é feita por Dona Madalena, esposa do Pedrinho que é o caseiro da Rosas de Ouro.
3.3.2. Equipes e espaços
O espaço do barracão é ocupado pelos trabalhadores organizados em equipes. 117
O primeiro espaço, que fica ao lado direito do portão de entrada do barracão, é do Teixeira, onde ele trabalha esculpindo com o seu ajudante Roni e os meninos que empapelam as esculturas. Lá está a mesa de corte, seu material de trabalho, os blocos e vários pedaços de isopor espalhados pelo chão. Fotos: Rosana Antunes
Fig. 69 - Espaço de trabalho do escultor Teixeira no barracão 2006.
Este espaço já pertence ao Teixeira desde quando ele começou a trabalhar na Rosas de Ouro. Nunca o vi trabalhando em outro lugar do barracão. Ao lado do Teixeira, está o carro abre alas que em 2006, foi decorado pela equipe da Janaína “Jana” e seus meninos, moradores do entorno da escola. Foto: Rosana Antunes
Fig. 70 – Jovens da equipe de decoração da “Jana”, moradores da comunidade do entorno da Rosas de Ouro 2006.
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Neste carro vem a escultura de uma rosa de 4m de altura; a mãe negra que mede 9m; dois bebês negros que medem 3m de altura cada, um de cada lado da mãe negra; uma máscara com 2,5m de altura, e várias máscaras menores. Ao lado da equipe da “Jana”, vinha o carro do Animismo, com a escultura da mãe terra que a equipe da Sibele decorou. Na parte de trás deste carro, está o corpo enorme de uma negra com 6m de altura, do meio do carro saem suas pernas com 5m de comprimento cada, o carro é todo decorado com folhagens. O corpo da mãe terra apresentava reflexos verdes na parte inferior para refletir as folhagens nas quais as pernas estão localizadas, e apresentava reflexos azuis no rosto para simbolizar o céu, onde o rosto se localiza.
Era uma
alegoria da natureza. Ao lado da equipe da Sibele, estava o carro do Quilombo, cuja equipe é do Anderson ou “Papel” como é conhecido.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 71 - Sibele, seus ajudantes e aprendizes decorando o carro do Animismo no barracão 2006
Ao lado da equipe do “Papel” estava o Agnaldo Bezerra da Silva “Nanau”, localizado no fundo do barracão. A seguir, estava equipe do Galúcio do carro Navio Negreiro. Logo após o Navio Negreiro, estava a equipe do Daniel Toledo “Reverendo”, em um local muito escuro.
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Eu fiquei em diversos lugares, mas geralmente no espaço que sobrava entre o “Nanau” e o carro do Quilombo.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 72 - “Pelé” da equipe do Galúcio, soldando os ferros no barracão 2006.
Em cada sessão do barracão, o profissional levava seu próprio aparelho de som para ouvir suas músicas. Em cada pedaço do barracão escutam-se diferentes tipos de música. Às vezes o som é colocado tão alto, e cada aparelho sintonizado numa rádio diferente, gerando a maior confusão, além de atrapalhar o trabalho de algumas pessoas. O barracão conta ainda com a presença de estagiários, estudantes de artes visuais. Adriana Pedrosa, estudante da Faculdade Belas Artes em São Paulo, estagiou em nosso barracão em 2006. Estava fascinada com o trabalho do barracão. Falou que estava aprendendo muito e não imaginava que o barracão pudesse oferecer tão rica experiência. Ela estava sempre fotografando os trabalhos, com grande interesse e curiosidade. Outro estagiário, Bruno Silvestre, que cursa designer, estava aprendendo a fibrar as alegorias com o “Nanau”. Ele também ficou muito impressionado com o trabalho no barracão e está aprendendo de tudo um pouco. Cada dia ele está junto a uma equipe de profissionais observando, perguntando, e muitas vezes pondo a mão na massa. Ele já sabe como funciona o barracão de uma escola de samba.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 73 - O estagiário de designer Bruno Silvestre aprendendo a fibrar a escultura no barracão da Rosas de Ouro 2006.
Em cada equipe, é necessário que os componentes tenham um bom relacionamento, pois um depende do outro para que o trabalho se realize, uma equipe depende da outra.
3.3.3 - Tempo e interrupções
O horário de começarmos a trabalhar no barracão era entre 9:00 e 10:00 horas, indo até às 18:00 ou mais para quem sentia necessidade de colocar o trabalho em dia. Com a aproximação do carnaval, este horário se estendia, muitas vezes chegando a 24 horas por dia, sem tempo para dormir, “virando” a noite toda. Alguns ainda conseguiam dormir umas duas ou três horas por dia. Um dia, ao chegar no barracão, percebi que já não havia espaço para trabalhar, não tinha onde colocar as duas esculturas dos bebês de 4m de altura cada. As esculturas que eu já havia pintado continuavam no mesmo local, não tinha onde guardá-las. Elas tomaram muita chuva, e um dos negros de 4m, de tanto tomar chuva, ficou com o empapelamento enrugado. Fui obrigada a pinta-lo
e
empapelá-lo
novamente. Como não havia mais espaço, “Nanau” desmontou uma bancada e trouxemos os dois negros mais para o fundo do barracão, para que sobrasse espaço na parte coberta
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para os dois bebês. Só para deslocarem as esculturas, os ajudantes levaram a metade do dia de trabalho. Foto: Rosana Antunes
Fig. 74 - Alegoria dos bebês do carro abre alas indo para a concentração do Anhembi 2006.
Outro complicador para utilização do espaço ocorre às sextas feiras, dia de ensaio. O barracão, na parte descoberta é utilizado como estacionamento para as pessoas que participam do ensaio, de forma que uma área de trabalho é eliminada. Além de lidarmos com as questões do espaço, temos que aprender a conviver com diferentes interrupções do nosso trabalho. Temos que saber superar os atrasos provocados por uma dinâmica de visitas que o barracão recebe. Em 2006, tivemos visita de Leci Brandão, de Monique Evans, do jornalista Francisco Pinheiro e de equipes de fotógrafos de diferentes revistas que solicitavam nossa atenção e posicionamento diante das esculturas e carros para realização das fotos. Foto: Bruno Silvestre
Fig. 75 - Eu e a Leci Brandão no barracão da Rosas em 2006.
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Em 2006, a imprensa veio ao barracão diversas vezes: televisão, jornal, rádio, revista, repórteres. Chegamos a receber três equipes de lugares diferentes somente em um dia. A Rosas de Ouro sempre recebeu muito bem a imprensa, dando toda uma atenção especial. Já trabalhei em algumas escolas que não oferecem esta atenção para a imprensa. O período de trabalho mais intenso no barracão acontece no verão quando também há ocorrência de muitos temporais, obrigando-nos a parar a pintura, o que atrasa o trabalho, tendo que trabalhar em dobro no dia seguinte para compensar o anterior.
3.3.4 - Pinturas, materiais, esculturas gigantes
No primeiro dia de trabalho, ao chegar no barracão da Rosas de Ouro, encontrei alguns colegas de trabalho de outros carnavais.
Foto: Daniel Toledo “Reverendo”
Fig. 76 - Profissionais do barracão da Rosas de Ouro em 2006, do lado direito está Mauro, Galúcio, eu, Zé Roberto “Zé Queimado”, Borges, agachado de azul está Agnaldo “Nanau” e Daniel “Reverendo”.
Revi o José Teixeira Gonçalves escultor, Roni ajudante do Teixeira, Sergio Inácio da Silva marceneiro, Agnaldo Bezerra da Silva “Nanau” fibreiro, Galúcio serralheiro vindo de Parintins da festa do boi bumba, “Pelé” e “Dada” ajudantes do Galúcio decoradores do carro Navio Negreiro, Sibele decoradora do carro Animismo, e algumas pessoas
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novas, as quais eu não conhecia: Alberto Borges que trabalha com arame fazendo as armações das fantasias, Anderson “Papel”, Edson, e “Kiko” decoradores do carro dos Quilombos, Janaína “Jana” decoradora do carro abre alas, Anderson decorador do carro pela Promoção da Igualdade Social, Daniel Toledo “Reverendo”, Pedro e seus ajudantes que confeccionaram uma árvore de 6 m de altura, além do Bruno e da Adriana que foram estagiários no barracão. No primeiro dia, Fábio Borges, o carnavalesco mostrou-me todos os desenhos dos carros alegóricos detalhando o trabalho que eu faria. Fiz a lista dos materiais necessários e entreguei-a ao Júlio César Teixeira que é chefe do barracão junto com o José Roberto “Zé Queimado” e responsável pela comissão de frente da escola, além de cuidar do almoxarifado. E qual foi minha surpresa ao encontrar Fernando “Chelaia” trabalhando no almoxarifado! Relembrando: “Chelaia” e seu irmão “Dudu” trabalharam comigo pela primeira vez em 1998 no enredo Demônios da Garoa. “Chelaia” na época era bem pequeno, e empapelou a mão de escultura do demônio que era maior do que ele! A escultura media 5m de altura, e “Chelaia” empapelou a mão inteira em apenas um dia de trabalho e ficou perfeito! Hoje, ele continua na Rosas de Ouro trabalhando no almoxarifado. No segundo dia de trabalho, cheguei às 9:00h no barracão e fui me trocar, colocar a roupa de trabalho. Passei no almoxarifado, peguei as tintas e comecei a pintar a cabeça da Medusa que viria no carro Navio Negreiro. A cabeça media em torno de 3,5m de altura. Na metade do trabalho, a tinta acabou então comecei a pintar as esculturas dos negros do carro do Quilombo, eram 18 esculturas medindo em torno de 2m cada uma. Quando cheguei para pintar as esculturas dos negros, elas estavam pintadas com uma base pink, porque Fábio queria o reflexo rosa por baixo do marrom, pois as cores da escola são o rosa e o azul. Os trabalhadores do barracão estavam indignados com os negros pintados de rosa. Serginho, marceneiro profissional que cuida de toda parte da madeira dos carros alegóricos, passou e me viu pintando os negros e disse: “Agora sim, esse negócio de negrão rosinha não dá não”! Logo depois, Pelé, ajudante do Galúcio, também fez um comentário sobre o negro rosinha.
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Já havia pintado onze esculturas representando os negros e chegou o momento de pintar o detalhe dos olhos, sobrancelhas e boca. Andei pelo barracão pedindo para ver os olhos de todos os negros que trabalhavam lá, para utilizar como referência na pintura. Percebi que os olhos não possuem uma definição rígida, por ser gelatinoso. É esfumaçado bem de leve, e o branco dos olhos, não é totalmente branco, tem a cor amarela, vermelha e algumas manchas marrons. Quando analisei os olhos de Pelé, ele me disse todo feliz: “Meus olhos irão para a avenida”! Terminada a pintura dos negros da parte de baixo do carro alegórico, o carnavalesco mandou fixar no alto do carro alegórico, o primeiro dos oitos negros que irão lá em cima. Os outros dez já estavam pintados e fixados na parte de baixo do carro.
Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 77 - Alegoria do negro do carro do Quilombo sendo pintado. Na foto a autora e Fábio Borges, o carnavalesco da Rosas em 2006.
Os cabelos foram feitos de palha de aço e colados na cabeça dos negros que foram pintadas com uma tinta preta especial para não sair. Ainda faltava a pintura dos últimos sete negros que iriam na parte superior do carro. Foi preciso esperar “Nanau” tirar o molde destes negros em fibra para que eu pudesse dar continuidade ao meu trabalho de pintura.
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 78 - Cabelo do negro feito de palha de aço e pintado de preto 2006.
Os negros pintados ficaram com a expressão de raiva, de ódio. Os trabalhadores do barracão adoraram! Eles se apropriaram das esculturas, além de demonstrarem uma identificação muito forte com elas. É como se elas representassem cada um deles. Se alguém mexer com as esculturas, está mexendo com eles. No dia seguinte, terminei de pintar a cabeça da Medusa, a qual já havia iniciado. Ela iria no carro Navio Negreiro. Particularmente trabalhosa foi a pintura dos rochedos do carro dos Quilombos. Estes rochedos estavam muito altos no carro, foi difícil o acesso para pintar! Usei escadas, subi pelo carro, fiz acrobacias.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 79 - Rochedos do carro dos Quilombos sendo pintados 2006.
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O carnavalesco não gostou das luzes que fiz no tórax dos negros, e pediu para pintar tudo novamente, pois ele achou que sumiu o reflexo rosa que estava por baixo do tom marrom da pele. A sorte é que eu coloquei estas luzes somente em três esculturas. Retoquei-os novamente. Após este retoque, comecei a pintar dois negros de 3m de altura cada um. Eles estavam na posição agachada e deveriam ser colocados no topo do carro alegórico do Quilombo. Foi o terceiro carro a entrar na avenida. Ainda no carro do Quilombo existiam 20 esculturas grandes de negros escravos segurando grandes bacias sobre a cabeça. Estas bacias eram feitas de fibra e estavam fixadas no alto das esculturas que, também, foram fixadas nos carros alegóricos, dificultando muito o trabalho da pintura. Eram dez esculturas na parte de baixo do carro medindo em torno de 1,5m de altura cada um. Oito negros no andar intermediário do carro, medindo 1m de altura cada. As bacias foram feitas com fibra, somente a maior de todas é que foi feita de isopor.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 80 - Alegoria dos negros agachados 2006.
A tinta que utilizei para pintá-la foi a tinta esmalte marrom barroco, sombreados com a tinta esmalte preta, além da base pink. O efeito da tinta esmalte deu a impressão de que os negros estavam suados de carregarem o peso das bacias. Dentro de cada bacia havia um “queijo” ou plataforma redonda onde fica o destaque fantasiado. As esculturas tiveram que ser cobertas com plástico para que o jato de tinta da pistola não sujasse as esculturas que já estavam prontas. Fábio pediu que as 127
pintassem com a cor ocre, porque depois, os meninos da decoração deste carro irão envolvê-las com plástico água para dar o efeito desejado pelo carnavalesco. Depois que pintei as bacias com muita dificuldade, levando quase um dia inteiro de trabalho, os meninos começaram a passar cola na primeira bacia para colar o plástico e perceberam que a tinta saia com aquela cola de sapateiro e manchava todo o plástico. Ficou horrível. Então Fábio pediu-me para repintar as bacias com outro tipo de tinta. Fiz tudo de novo, mas mesmo assim não adiantou, a cola soltava a tinta que manchava o plástico, o qual foi colocado assim mesmo, pois não havia mais tempo. Depois de colado o plástico foi decorado com enfeites para disfarçar as imperfeições. Isso é coisa de carnaval! Os profissionais têm de estar preparados para lidar com esse tipo de problema de última hora e saber resolvê-lo da melhor maneira possível. Por isso é necessário ter o conhecimento dos materiais e saber trabalhar com eles. Outro exemplo: no final de semana que antecedia o carnaval, de última hora, apareceu um índio de 2m para ser pintado, esta escultura era do carnaval do ano passado e Fábio resolveu reaproveitá-la no último carro alegórico. Voltando às alegorias dos negros, conseguimos um resultado interessante, pois os rostos dos negros ficaram com expressão de dor, raiva, indignação e sofrimento.
Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 80 - A autora pintando as alegorias dos negros agachados no barracão 2006.
A pintura dos dois negros agachados, realizei em dois dias, não parei nem para almoçar e fiquei até bem mais tarde. Cheguei em casa muito cansada, meus braços 128
doíam muito, mal conseguia erguê-los. A pistola do compressor quando está cheia de tinta pesa muito, e os braços ficam erguidos o tempo todo para alcançar a parte mais alta da escultura. Muitas vezes tive que subir em grandes escadas, ou deitar as esculturas que pesam muito. O carro do Quilombo foi decorado todo em ouro. Os decoradores responsáveis por este carro são: Papel, Edson e Kiko. Eles estavam muito alegres e brincavam o tempo todo no barracão! Quem fica do lado dos três não pára de rir um só instante!
Foto: Rosana Antunes
Fig. 82 - Anderson e seus ajudantes decorando o carro do Quilombo 2006.
Para este desfile, pintei a maior escultura de minha trajetória: uma negra de 9 metros de altura. A escultura estava deitada sobre o carro alegórico com a parte da frente voltada para o chão, já com o sistema de movimento fixado em seu interior. Ela estava sem os braços. Não podia mais retirá-la do carro, só levantá-la, e mesmo deitada, precisei utilizar uma escada de 6m de altura para alcançar e subir na parte de trás da escultura. Comecei a pintar o rosto dela. Os cílios foram feitos de ferro soldados um a um. No dia do desfile, os olhos piscaram para os jurados. Esta escultura ficou parecendo uma negra americana, com os traços finos e delicados. Chamei Teixeira, o escultor para olhar a alegoria pintada. Ele me disse que tomou como modelo uma moça que estava no ensaio “esta escultura foi inspirada em várias pessoas, tem um pedaço de cada uma”. 129
Foto: Rosana Antunes
Fig. 83 - Mãe negra do carro abre alas já empapelada aguardando a pintura no barracão 2006.
O processo de criação do Teixeira iniciou-se ali mesmo no ensaio da escola, num momento de descontração. O olhar, a idéia, a criação já começava a tomar forma. Estes são os olhos do artista, um olhar sensível, criador, observador.
A escultura
tinha vida própria! Fábio, o carnavalesco, olhou-a e exclamou: “Que linda!” Pedi a ajuda de “Chelaia” para trazer os braços da negra para perto do compressor para que eu pudesse pintá-los. O compressor da Rosas de Ouro é muito grande, pesado e antigo.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 84 - Alegoria da mãe negra na concentração do sambódromo
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Do outro lado da quadra fica o ateliê, lugar onde são confeccionadas as fantasias para o desfile. Conheço algumas pessoas que trabalham lá: Mauro, “Juba”, “Gal”, entre vários outros. No barracão neste ano, somos quatro mulheres. A Sibele e sua ajudante que decoram o carro da mãe terra, a “Jana” que decora o abre-alas, e eu que faço a pintura das esculturas de todos os carros. Esperei o carnavalesco Fábio Borges e Mauro do ateliê terminarem de confeccionar uma das fantasias da comissão de frente que representariam os 12 profetas de pedra sabão de Aleijadinho para eu realizar o teste da pintura. As cabeças foram esculpidas uma a uma em isopor pelo Teixeira, os corpos da escultura foram confeccionados em espuma pelo Mauro. Minha missão consistiu em pintar todas estas peças imitando a pedra sabão. Não foi fácil, pois os materiais eram de superfícies diferentes: espuma, isopor e fibra, o que sempre leva a um resultado diferente um do outro. A espuma é muito grossa e absorve muito a tinta. Fiz uma experiência em uma peça e ver o que aconteceria. Os rapazes da comissão de frente, no dia do desfile vestiram uma roupa de espuma e a cabeça de isopor foi encaixada sobre a cabeça deles. A comissão de frente composta pelos 12 profetas de Aleijadinho e pelo próprio Aleijadinho, representado por Júlio, profissional que ensaia a comissão de frente da escola, foi uma surpresa, um segredo até o momento de entrada no Sambódromo, nem os componentes e os profissionais da escola puderam saber deste segredo. Mauro nem queria que eu pintasse a comissão de frente no barracão, para que as pessoas não vissem, mas numa escola de samba isso é quase impossível. Encontrei um cantinho no barracão entre dois carros alegóricos para pintar, mas mesmo assim, as pessoas passavam e me perguntavam o quê era aquela peça que eu estava pintando. Fábio pediu-me para não comentar nada com ninguém. Em 2006, foram colocadas grandes lonas penduradas como se fossem cortinas para esconder o trabalho que estava sendo realizado. Pensei que há alguns anos tudo ficava aberto e qualquer pessoa que chegasse ao estacionamento, via tudo o que a escola estava preparando para o carnaval. Comecei a pintar com a tinta látex. Tinha que imitar a pedra sabão através da pintura na espuma. Foi complicado e trabalhoso, pois a espuma sugava toda a tinta.
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Fábio queria uma pedra sabão puxada para o tom azul. Gastei um galão e meio de tinta só para pintar uma fantasia, além de levar o dia inteiro de trabalho. Mostrei para o Teixeira e ao Fábio carnavalesco a fantasia pronta. Acharam que ficou bom, mas Julio me mostrou um livro que continha a imagem das esculturas de Aleijadinho para provar que não eram daquela cor, ele estava se baseando na foto do livro, cuja cor estava totalmente cinza claro sem nenhuma nuance e a pedra sabão ao vivo contém nuances de vários tons de cinzas, azulados, verdes, e marrons. Alguns anos atrás, Teixeira já havia feito em isopor os 12 profetas para um evento na feira do Anhembi e eu pintei estas esculturas. Teixeira pediu para a empresa que fossem até Minas para fotografar os 12 profetas para reproduzi-los através das fotos. Nas fotos, as cores eram completamente diferentes das imagens do livro. Elas tendiam mais para o cinza esverdeado e azulado. Não se pode esquecer também a ação do tempo sobre as esculturas. A melhor opção é ter como referência uma pedra sabão de verdade. Como dou aulas de escultura em pedra sabão nas oficinas culturais da Secretaria do Estado da Cultura, já conheço bem a pedra sabão, e muitas vezes ela nos surpreende com sua tonalidade.
Foto: www.fotoca.com.br
Fig. 85 - Comissão de frente desfilando na avenida com a roupa de espuma, cabeça de isopor, e tabuletas de fibra pintadas imitando pedra sabão 2006.
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No dia 25 de janeiro, feriado da cidade de São Paulo, nós estávamos trabalhando no barracão. O barracão estava silencioso e, aos poucos, foram aparecendo as pessoas para trabalhar. Anderson, Edson e “Kiko”, os meninos que decoram o carro dos quilombos, começaram a agitar o barracão. Eles são muito engraçados! “Kiko” e Edson são irmãos e Anderson é primo deles. Eles têm mania de imitar a voz da Gal, que é aderecista, mas ela não se aborrece com a brincadeira dos meninos. Fora o trabalho no barracão, Anderson é bar man, “Kiko” é dançarino de axé profissional, e Edson é tatuador. “Papel”, assim como é chamado o Anderson, é o chefe da equipe, mas nem parece, está toda hora levando bronca do “Kiko” que é o mais sério! Edson é o mais levado, só de olhar para ele já dá vontade de rir! Eles são os mais animados do barracão! Às vezes sobem lá em cima do “queijo” do carro e começam a dançar axé, além de perturbar o “Nanau” que trabalha ao lado deles, quando “Nanau” se irrita, já grita um palavrão lá de trás, mas é tudo brincadeira! Registro este acontecimento apenas para evidenciar aspectos do clima relacional que é estabelecido com as brincadeiras de muitos dos trabalhadores da escola. Com a pintura das pernas da escultura Mãe Terra, também pude ampliar minha experiência. As cores que Fábio escolheu foram o marrom com nuances verdes para o reflexo das folhagens nas pernas. Achei esta combinação difícil, pintei e repintei as pernas de várias maneiras, fiz várias experiências, até encontrar a melhor tonalidade entre o marrom e o verde. Este é um grande desafio: temos que entender o que o carnavalesco deseja e buscar a materialização deste desejo na mistura de tintas e no contato das tintas com o material que será o suporte da pintura. Esta foi mais uma importante experiência adquirida. Fábio pediu-me para repintar os rochedos do carro da mãe terra novamente, mas agora num tom mais escuro, pois ele achou que ficaria melhor, e realmente ficou! Às vezes o que o carnavalesco imagina não dá certo, e este tem que ter a percepção e humildade de reconhecer e modificar o que foi inicialmente pensado. Em seguida, a pintura do busto da mãe terra, foi a escultura mais difícil de ser pintada pelo difícil acesso. Ela foi montada no carro e ficou medindo em torno de 8m de altura. Precisei pintá-la lá no alto, já instalada no carro. Em todos estes anos de trabalho no barracão, esta escultura foi a mais difícil e trabalhosa de ser pintada devido ao tamanho e ao acesso a seu topo. Tive que fazer 133
acrobacias para pintá-la ficando em cima dos seios, ombros e da barriga da escultura. Num determinado momento, a lata de tinta que estava sobre o seio da escultura virou sobre a própria alegoria e fiquei lá no alto patinando na tinta sobre a escultura, que já se encontrava em declínio. Senti medo de cair lá de cima, não tinha segurança nenhuma e nem onde se segurar, e estava completamente escorregadia. Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 86 - Confecção da pintura da alegoria mãe terra 2006.
As pernas desta escultura são levemente esverdeadas por representarem as plantas, os vegetais, e saem de dentro das plantas. Já o seu rosto tem reflexos azuis do céu. Esta escultura é uma negra que representa a natureza, por isso se chama mãe terra. Foto: Rosana Antunes
Fig. 87 - Teixeira esculpindo a cabeça da mãe terra no barracão 2006.
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Os movimentos corporais que realizamos para trabalhar no barracão são complicados, num balé que exige muito dos nossos corpos despreparados para determinados movimentos. No dia 7 de fevereiro, houve uma reunião no barracão, presidida pelo “Zé Queimado” e pelo Júlio que são os chefes do barracão. A pauta principal desta reunião foi o trabalho em equipe. Zé e Júlio colocaram suas preocupações com o trabalho de todos, pois perceberam o atraso na atuação de algumas equipes, acarretando atrasos de outras. Todos manifestaram a intenção de fazer o impossível para não atrasar os trabalhos. A reunião foi importante para uma conscientização e fato é que o ritmo do trabalho foi recuperado a contento. A história de Dada, ajudante de Galúcio, profissional que veio de Parintins, chefe da equipe de ferreiros, ilustra o empenho para a finalização dos trabalhos. “Dada”, passou mal e teve início de convulsão de tanto trabalhar. Os trabalhadores do carnaval arriscam a própria saúde para saldar o compromisso. Trabalhamos em baixo de sol e de chuva, não havia mais lugar coberto no barracão para trabalhar, pintei no meio do estacionamento sob o sol forte que faz em janeiro e fevereiro.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 88 - “Dada” fixando as garrafas pet 2006.
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Foto:Daniel “Reverendo”
Fig. 89 - Cabeça da Medusa mergulhada no mar confeccionado com garrafas pet 2006.
Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 90 – A autora pintando a máscara representando a raça amarela 2006.
3.3.5 - Momentos finais do barracão
No dia 20 de fevereiro, os carros alegóricos foram levados para o Anhembi as 0:00h.
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Os caminhões de transportes chegaram logo após o almoço e já foram carregados com as esculturas que ainda não estavam fixadas nos carros alegóricos. Ainda havia muito serviço a ser feito e que só seria terminado na concentração do Anhembi. Havia a última escultura para ser pintada, mas ela ainda estava sendo confeccionada pelo Teixeira, que, depois de pronta, iria fixá-la no carro abre-alas com poliuretano. Era uma rosa com 4m de altura que estava sendo confeccionada pétala por pétala, para depois ser colada uma por uma no carro. Eu desejava pintá-la antes do carro ir para o Anhembi facilitando assim o meu trabalho. Como não havia esculturas para pintar, pois a comissão de frente ainda estava sendo confeccionada em espuma pelo Mauro, as esculturas de dois mergulhadores que necessitavam serem pintadas ainda não estavam empapeladas, e o portal da comissão de frente com 6m de altura ainda não estava pronto para ser pintado, necessitava ser fibrado. Fiquei com os “braços amarrados”. Esperei no barracão até as 22:00 h para poder pintar a rosa que o Roni e o Teixeira ainda estavam fixando. Quando estava indo embora, eles terminaram o serviço, achei que não daria mais tempo para pintar, pois os outros carros alegóricos já se encontravam enfileirados lá fora na rua. O barracão estava cheio de pessoas entre os trabalhadores e componentes para ajudarem no trajeto dos carros até a concentração, estavam todos eufóricos, alguns tomavam cerveja, foi um momento de alegria para eles, de comemoração por todo o trabalho realizado. Serginho, chefe da equipe da marcenaria, disse-me que já houve anos em que na hora da saída dos carros do barracão, alguns componentes davam salvas de tiros para comemorar. Roni disse-me que ainda daria tempo, então ele conversou com a pessoa que estava organizando o transporte dos carros, e pediu para que me esperasse pintar. Tinha apenas duas horas para pintar a rosa que estava localizada num local de difícil acesso, já fixada no carro abre-alas. A cor escolhida por Fábio para pintar a rosa era o marfim com algumas nuances mais escuras. Veiga me auxiliou neste trabalho, ajudou a empurrar o compressor para perto do carro e a buscar as tintas que estavam no fundo do barracão, pois uma vez dentro da rosa em cima do carro, era muito trabalhoso descer e subir novamente, além de correr
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o risco de quebrar alguma pétala, perdia-se muito tempo, então quando faltava algum material, lá de cima pedia para ele que trazia para mim. Terminei a pintura da rosa. Faltavam poucos minutos para meia noite. Logo em seguida, o carro foi levado para fora junto com os outros que já estavam prontos para fazer o trajeto até o Anhembi. A saída dos carros foi uma bagunça, todos acompanhavam, e alguns até dormiram no Anhembi embaixo dos carros alegóricos. Fui para casa muito cansada, mas feliz por estar sempre aprendendo com o trabalho no carnaval. A cada ano que passa, sinto a diferença em meu próprio trabalho, e isso me deixa realizada! Na manhã seguinte fui para o barracão para pintar as fantasias de espuma da comissão de frente que representavam os 12 profetas de Aleijadinho em pedra sabão. Angelina, a presidente da escola já estava preocupada, pois a comissão de frente é um quesito a ser julgado no dia do desfile, e qualquer falha que houvesse, a responsabilidade seria primeiramente do Fábio carnavalesco, e depois do Mauro que confeccionou as roupas e minha que realizei a pintura. Ana da secretaria passou por mim e disse: “Essa comissão sai ou não sai?” A preocupação agora estava centrada na comissão de frente, e ainda havia o portal para ser fibrado e pintado. Compraram uma tinta especial para pintar espuma, pois a primeira fantasia em que fiz o teste de pintura, o qual descrevi anteriormente neste diário, não deu certo, pois a tinta era látex, e como a espuma suga muito, gastei muita tinta, o que tornou a fantasia muito pesada para a evolução da coreografia, além de ter causado rachaduras na fantasia ao secar a tinta. Fábio mudou também a cor da comissão de frente. No início, ele queria uma pedra sabão puxada para o cinza azulado por causa das cores da escola que é azul e rosa, sem usar tonalidade ocre ou bege. Agora ele já quer o ocre e o bege também. Achei que facilitou o trabalho, foi mais fácil dar a aparência de pedra sabão utilizando também estas cores em combinação com o fundo da espuma que já era cinza chumbo, além da espuma não sugar muito esta nova tinta. Coloquei as 12 fantasias no chão, sob um grande plástico preto, pois só havia dois manequins e iniciei a pintura. Elas precisam ficar prontas hoje para dar tempo de secarem e serem entregues para os componentes da comissão de frente antes do dia do desfile. 138
Além das fantasias pintei 12 pares de botas pretas imitando a pedra sabão, 12 cabeças dos profetas em isopor, 12 tabuletas, o leão, a baleia do profeta Jonas, e 12 pares de cadarços das botas.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 91 - Comissão de frente sendo pintada 2006.
Neste dia trabalhei muito! Nas fantasias de espuma utilizei cinco cores diferentes para conseguir o efeito desejado. A pintura ficou maravilhosa, parecia pedra sabão de verdade. Depois do desfile a presidente da escola de samba Mocidade Alegre perguntou para a nossa presidente se as fantasias eram feitas de pedra de verdade. No dia da apuração, a comissão de frente tirou a nota máxima dos três jurados que a julgaram. Faltavam apenas dois dias para o desfile, no barracão só sobraram algumas alegorias que ainda precisavam serem terminadas. A maioria dos profissionais já estavam na concentração terminando os últimos detalhes dos carros alegóricos. Para começar a fazer os retoques finais de pintura nas alegorias, faltava apenas pintar dois negros de 2m cada um mergulhando, que estavam sem empapelar, pois não deu tempo para os meninos empapelarem, o portal da comissão de frente e duas colunas que também apareceram de última hora. Naquele mesmo dia terminei estas pinturas. As esculturas dos mergulhadores ficaram muito delicadas, não podia encostar nada que já ralava a alegoria, pois ela não foi empapelada, ficando muito frágil. 139
Para pintar o portal de 6m representando a pedra sabão, precisei subir num andaime, de tão grande era a sua estrutura, mas também ficou maravilhoso!
3.3.6 – Ensaios
Em anos anteriores, não fui a nenhum ensaio. No ano de 2006, participei de todos os ensaios às sextas feiras. Os ensaios acontecem geralmente às quartas, sextas e domingos. Às quintas os ensaios acontecem somente para os componentes da bateria. A quadra fica lotada! Na volta inteira da quadra há vários barzinhos, cujos donos são os próprios componentes da escola. Geralmente, as demais escolas de samba cobram de 2,00 a 5,00 reais a entrada para o ensaio. A Rosas de Ouro começou cobrando 10,00 e mais próximo do carnaval passou a cobrar 20,00 por pessoa. Somente os componentes da escola não precisam pagar o ingresso, entramos com crachá ou carteirinha da escola. O ensaio de uma escola de samba consiste em cantar repetidamente o samba enredo da escola na intenção de aprender o samba. O puxador do samba em cima do palco, começa a cantar sem a bateria da escola, canta várias vezes o samba enredo. Depois a bateria começa a tocar. Durante o ensaio, a bateria e os componentes da escola começam a andar em volta da quadra, ensaiando as alas, a rainha e madrinha da bateria, mestre sala e porta bandeira, a ala das baianas, e quem não é da escola vai atrás acompanhando. Eles dão voltas e voltas pela quadra, e o público em geral, que não entra atrás da escola, fica parado em volta da quadra assistindo o ensaio. O clima de êxtase e alegria é indescritível! Quando a bateria começa a tocar, arrepia-nos dos pés à cabeça! O coração acelera, o povo enlouquece, e o corpo se mexe, ninguém consegue ficar parado, porque a energia da bateria é muito intensa, os integrantes tocam com emoção, com a alma, refletindo em suas faces, no suor escorrendo, é lindo! Várias pessoas aprendem a sambar com as passistas, com o mestre sala, porta bandeira e com as baianas. Outros aprendem a tocar um instrumento, a ser um ritmista da escola, misturam-se entendidos com novatos, que também aprendem observando e ouvindo o outro tocar. 140
Com o mestre sala e porta bandeira ocorre o mesmo: pessoas observam o seu balé e tentam imitar enquanto aprendem. É o caso de André Mares Dias, meu amigo que começou a freqüentar os ensaios da Rosas de Ouro, e hoje em dia quer ser mestre sala. Ele está aprendendo com a observação e imitação, e já desenvolveu o seu bailado de mestre sala. Anderson do Nascimento “Miúda”, outro amigo que também passou a freqüentar os ensaios da Rosas de Ouro, é mestre sala desde pequeno na escola de samba Leandro de Itaquera. Aprendeu ainda menino a bailar como mestre sala mirim. Ele e a Karen, já foram os segundos casais de mestre sala desta escola. Hoje, ele ensina André a ser mestre sala, fazendo o papel de porta bandeira. Todos param para observá-los dançar. Todos os trabalhadores do barracão participam do ensaio. Foto: Rosana Antunes
Fig. 92 - Ensaio na quadra da Rosas de Ouro 2006. Vestido de preto, Galúcio ferreiro do barracão, ao seu lado, de azul está o ”Zé Queimado”, chefe do barracão, depois vem o Roni, ajudante do Teixeira, e seu Manoel, chefe de ala.
3.3.7 - Aproxima-se o desfile: ensaios técnicos e trabalho na concentração
No sábado, dia 28 de janeiro, houve o ensaio técnico da Rosas de Ouro no Anhembi. Ensaio técnico é quando a escola vai ensaiar no Sambódromo com todas as alas, os diretores dos carros, enfim, praticamente a escola inteira. 141
A escola se arma na concentração e desfila por toda a passarela até a dispersão, é um desfile sem fantasias. Para este ensaio o ônibus vai à escola buscar os integrantes e levá-los até o Anhembi. Chegando lá todos vão para a concentração. Outras escolas também estão presentes. Há um público na arquibancada para torcer pela sua escola. Com a aproximação do carnaval, as alegorias começam a ser levadas para o Anhembi. O material para retoques também é levado. Na concentração do Anhembi, todas as escolas possuem um espaço onde podem deixar os seus carros alegóricos para serem terminados, até no dia do desfile. As pessoas continuam trabalhando, decorando, fixando as esculturas, pintando, e retocando as alegorias. Algumas escolas chegam com os carros prontos, faltando apenas retocar o que foi danificado durante o transporte até a concentração. Outras escolas chegam com os carros semi-prontos, e há aquelas que chegam com carros ainda no ferro, ou seja, só a armação pronta tendo que realizar todo o trabalho de decoração na concentração. O trabalho na concentração é muito mais difícil do que no barracão, pois a concentração é desprotegida, aberta ao sol, a chuva, e a ventania que lá é muito forte. As pessoas que trabalham na concentração geralmente ficam sem dormir. Algumas dormem embaixo dos carros alegóricos, e para se alimentarem a escola envia marmitas. Este ano a maioria reclamou da comida! Consegui chegar à concentração no dia anterior ao desfile, comecei a fazer os retoques que eram muitos, e a maioria se localizava justamente nos locais mais altos das esculturas, alguns retoques tiveram que ser realizados com a ajuda do guindaste, o qual havia poucos para atender todas as escolas. Tínhamos que ficar esperando a nossa vez. No dia seguinte, ao chegar à concentração, apareceram de última hora os tentáculos da Medusa para pintar. Eram oito peças de espuma com armação de ferro, medindo em torno de 4m de comprimento cada um, não tinha nem local para colocar esses tentáculos para serem pintados. Apareceram também mais 20 vasos para serem pintados em um carro e mais vinte no outro. Trabalhei até às 19:30, sendo que a Rosas de Ouro desfila às 23:50, e eu irei desfilar na ala dos quilombos.
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3.3.8 - O desfile
Até chegar em casa, me arrumar, vestir a fantasia e retornar novamente ao Anhembi, cheguei em cima da hora do desfile. A escola já estava armada na concentração pronta para entrar na avenida. Encontrei minha ala e me misturei com os outros componentes da ala. A emoção é muito grande, quando o samba enredo começa a ser tocado, algumas pessoas até choram, é incrível! Ver os carros alegóricos em seus lugares, com toda aquela alegoria a qual ajudei a ser confeccionada, prontos para entrarem na avenida, é emocionante! O público dança e canta se comunicando com os componentes da escola. A arquibancada estava lotada, não havia espaços sobrando. O tempo de desfile passa muito rápido, e a adrenalina é tão grande que nem sentimos o cansaço no final do desfile. Foto: Anderson do Nascimento
Fig. 93 – A autora na concentração junto aos outros componentes da ala do Quilombo esperando o momento de desfilar 2006.
O desfile da Rosas de Ouro foi ótimo, tudo ocorreu bem, não houve grandes imprevistos como quebra de carros, buracos entre as alas, acidentes, entre outros problemas. Na dispersão, a saída dos componentes é pelo portão do lado esquerdo e dos carros alegóricos é do lado direito. Os ônibus já ficam no portão esquerdo aguardando os componentes da escola que já desfilaram para retornarem à quadra da escola. 143
A apuração dos votos dos jurados foi realizada na terça feira dia 28 de fevereiro pela manhã. A Rosas de Ouro ficou em quinto lugar, houve momentos durante a votação que ela esteve em primeiro lugar, mas no último quesito analisado que foi a bateria da escola, ela obteve duas notas abaixo de dez, e na contagem dos pontos essas notas fizeram a diferença para a colocação da escola. Nos quesitos em que fui uma das responsáveis: alegoria e comissão de frente, a Rosas de Ouro obteve três notas dez de cada jurado, nota máxima em cada um destes quesitos. Cada quesito é julgado por três jurados, então cada quesito obtém três notas que são somadas às notas dos outros quesitos, obtendo-se a nota final da escola. No sábado seguinte, a Rosas de Ouro participou do desfile das campeãs. Mais um carnaval terminou, e com ele vão-se as fantasias e alegorias, onde alguns de seus materiais serão reaproveitados para o próximo desfile. Logo se inicia a desmontagem dos carros alegóricos no barracão. As esculturas serão vendidas, ou guardadas e reaproveitadas para o próximo desfile de carnaval.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 94 - Carro alegórico desmontado no barracão após o carnaval 2006.
O trabalho do carnavalesco logo iniciará com um novo enredo, alguns carnavalescos mudam de escolas de samba, enquanto outros permanecem na mesma escola.
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O desfile de carnaval é um espetáculo que requer muito trabalho, criatividade, dedicação, amor, conhecimento, pesquisa, organização e trabalho em equipe. É uma arte efêmera, leva praticamente o ano todo em sua confecção para uma apresentação de minutos, é uma arte maravilhosa, dinâmica, viva!
Foto: Rosana Antunes
Fig. 95 e 96 - Estado das esculturas após o desfile. Foto tirada em 2006.
3.3.9 - Imagens do carnaval
A seguir apresento os desenhos do carnavalesco Fábio Borges utilizados como referência pelos profissionais do carnaval para a confecção da comissão de frente e
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dos 05 carros alegóricos do enredo “A Diáspora Africana. Um Crime Contra a Raça Humana” para o desfile carnavalesco de 2006. Ao lado dos seus respectivos desenhos, apresento as fotos dos carros prontos transformados do desenho à realidade pelos profissionais do carnaval, para que se possa vislumbrar parte deste processo tão grandioso do qual fizeram parte vários profissionais, ajudantes e aprendizes do barracão da Rosas de Ouro.
Desenho: Fábio Borges
Fig. 97 - Comissão de Frente 2006.
Foto: Almeida Rocha/Folha
Fig. 98 - Comissão de Frente 2006
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Desenho: Fábio Borges
Fig. 99 - Desenho do Carro abre alas: A civilização Africana 2006.
Foto: www.culturatura.com.br
Fig. 100 - Carro abre alas: a civilização africana 2006.
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Desenho Fรกbio Borges
Fig. 101 - Carro 2: O Navio Negreiro 2006.
Foto: www.culturatura.com.br
Fig. 102 - Carro 2: O Navio Negreiro 2006.
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Desenho: Fábio Borges
Fig. 103 - Desenho do Carro 3: Resistência e Escravidão 2006.
Foto: Rosana Antunes
Fig. 104 - Carro da Resistência e Escravidão sendo confeccionado no barracão da Rosas de Ouro 2006.
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Desenho: Fรกbio Borges
Fig. 105 - Desenho do carro 4: O Animismo 2006.
Foto: gmagazine.uol.com.br
Fig. 106 - Carro 4: O Animismo 2006.
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Desenho: Fábio Borges
Fig. 107 - Desenho do carro 5: Pela Promoção da Igualdade Racial 2006.
Foto: www1.folha.uol.com.br
Fig. 108 - Carro 5: Pela Promoção da Igualdade Racial 2006.
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Desenho: Fรกbio Borges
Fig. 109 - Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006.
Foto: Eduardo Santos
Fig. 110 - Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006.
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Desenho: Fรกbio Borges
Fig. 111 - Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006.
Foto: Eduardo Santos
Fig. 112 - Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006.
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Desenho: Fรกbio Borges
Fig. 113 - Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006.
Foto: Eduardo Santos
Fig. 114 - Casal de mestre-sala e porta-bandeira 2006.
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3.4 – Ensino e aprendizagem
O processo de ensino e aprendizagem no barracão da Rosas de Ouro inicia-se a partir do ambiente que cerca a escola de samba, com elaboração do cronograma voltado para o desfile, com vivência da hierarquia interna da escola, com o aprendizado e a necessidade da cooperação entre os que ensinam e os que aprendem, entre os que planejam e os que realizam o carnaval, com criação e seleção do enredo e do projeto de trabalho das equipes de ferreiros, marceneiros, escultores, pintores, e decoradores. As formas de aprendizados começam dentro da própria família, pela preservação de tipos de saberes comunitários e de sua transferência de uma geração para outra, este saber subside no conhecimento dos seus antepassados, dos parentes, vizinhos, na escola de samba, com o mundo em que se está inserido, envolvendo situações de ensino e aprendizagem interpessoais, familiares e comunitárias.
Se é pela educação que a sociedade se perpetua, se é pela educação que à geração mais nova se transmitem as crenças, os costumes, os conhecimentos e as práticas da geração adulta – educação é o processo pelo qual a criança cresce, desenvolve-se, amadurece”. A atividade educativa não se processa no vácuo, independente de objeto ou condições. Ao contrário, ela é sempre uma resposta a estímulos específicos ou gerais, nascidos no próprio organismo e do meio ambiente em que o indivíduo vive. (Dewey, 1978, p. 21).
Antes mesmo das crianças começarem a freqüentar a escola institucional, já trazem consigo um conhecimento adquirido a partir dessa vivência de educação não formal vivenciada na escola de samba. Foi o que acorreu comigo que convivia com o carnaval desde pequena. Nasci numa família carnavalesca, já estava familiarizada com o ambiente da escola de samba, já possuía um conhecimento adquirido por meio da vivência com o carnaval, mesmo sem saber já estava sendo educada esteticamente, como escrevi em "Minha Experiência com o Carnaval" no capítulo 2.
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A criança já presencia a arte produzida pelos adultos, presente em seu cotidiano. É obvio que essa arte exerce vivas influências estéticas e artísticas na criança. É obvio, também, que a criança com ele interage de diferentes maneiras. (apud FERRAZ, e FUSARI, 1992, p. 43).
As pessoas educam-se artisticamente, também, por meio das experiências cotidianas, como dançar, cantar, assistir a um filme, ir ao teatro, brincar, ler, jogar, entre várias outras atividades. A vivência socializadora dentro de casa e na escola de samba pode ser considerada fonte de aprendizagem, que se dá principalmente por meio da visão, audição, do tato, dos movimentos corporais, da imitação, ou seja, da observação, das tentativas experimentais do fazer, do praticar e da improvisação. “A experiência ocorre continuamente, porque a interação da criatura viva com as condições que a rodeiam está implicada no próprio processo da vida”. (Dewey, 1974, p. 247). O barracão da Rosas de Ouro é um exemplo do modo informal de se aprender arte. Refiro-me a um conhecimento adquirido sem as formalidades de currículos, conteúdos programáticos, mas que ocorre de maneira difusa, em casa, no seio familiar ou na escola de samba, o que torna sua prática de ensino acessíveis a todos, havendo a inclusão de pessoas de todas as idades, de classes sociais diferentes, crianças, jovens, adultos, amigos e familiares dos componentes da escola, pessoas de outros bairros, de outros países, incluindo pessoas portadoras de necessidades especiais, pessoas da melhor idade, travestis, mulheres, crianças de colo, não restrita a um determinado grupo ou a um determinado período, sendo uma educação permanente. O ensino e aprendizagem no processo carnavalesco na Rosas de Ouro são práticas de grupos que vêem naquilo algo que consideram fundamental, básico, e sentem prazer de conhecer, fazer, criar, descobrir, construir, na capacidade de explicar, ensinar e aprender. “É o prazer que acompanha o interesse autêntico e legítimo. Sua fonte é no fundo, uma necessidade do organismo”. (apud Dewey, 1978, p. 69). O processo de aprendizagem é ao mesmo tempo social e individual, pois no interior da comunidade que é a escola de samba e no contato com os mestres cotidianos e com o desafio de construir o desfile, os indivíduos decodificam símbolos e interpretam linguagens em um processo dialético de ir e vir do plano pessoal para o plano coletivo/social. O aprendizado ocorre de maneira individualizada, ou seja, no interior de cada sujeito participante, o que significa que os caminhos para se chegar a um bom 156
resultado não acontecem da mesma forma, relaciona-se também com a desenvoltura de cada um. E o aprendizado ocorre de maneira coletiva, no entrelaçamento de relações de conflito, de cooperação, de competição com as outras escolas, de trabalho criativo e imitativo. A ação de cada um dos participantes carrega ao mesmo tempo as conquistas individuais e sociais.
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CAPÍTULO 4
A
CONTRIBUIÇÃO
DAS
ESCOLAS
DE
SAMBA
PARA
O
ENSINO
E
APRENDIZAGEM DA ARTE
4.1 – A escola de samba como espaço educativo
Nesta dissertação, procurei apresentar os desafios e oportunidades de aprendizado no ambiente das escolas de samba. Destaquei minha experiência de vida e minhas histórias com o carnaval. Destaquei ainda minha experiência no interior da escola de samba Rosas de Ouro, preparando o carnaval de 2006. Mostrei dificuldades, conflitos e a alegria de trabalhar criando as alegorias para o desfile anual. A seguir, apresento autores que estudaram escolas de samba e que me ajudaram a compreender o fascínio e os conflitos do carnaval que se ensina e se aprende em cada escola.
A escola de samba, como diz o próprio termo, é um ambiente onde se propõe ensinar e aprender sobre samba, tocando, dançando, confeccionando fantasias, elaborando o samba-enredo, criando arranjos para a bateria... (apud TANAKA, 2003, p.40).
Tanaka, em sua dissertação de mestrado, realizou um estudo sobre o processo educativo que ocorre na bateria da escola de samba Malandros do Morro localizada em João Pessoa. A autora escreveu um diário de “bordo” durante sua pesquisa em que atuou também como ritimista da escola para descrever o processo educativo da bateria desta escola de samba.
A escola de samba pode ser vista como criadora de um parâmetro de beleza, a qual transpira através de entusiasmo e de diferentes estímulos estéticos. Desta
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forma ela pode ser vista também como articuladora do processo arte educação, ao apresentar condições favoráveis à modelagem da educação estética que todos os povos procuram. (apud OLIVEIRA, 1989, p. 39).
Em sua tese de doutorado, Nilza de Oliveira, partindo da estética de Kant, analisa o carnaval como a educação artística do povo brasileiro.
Uma escola de samba é o conjunto cuja artisticidade só pode ser aquilatada enquanto obra gigante; sucede que o desfile de uma escola a nível de descrição posterior, pela fugacidade da apresentação implica em reducionismo da mensagem donde, o que é possível captar como estética seria uma estética da superficialidade, incapaz de dar conta em profundidade do simultâneo e do correlato, instâncias sobre as quais assenta o enredo da escola de samba, espinha dorsal de todo o seu desfile. (apud FERREIRA, 1982, p. 107).
Em sua dissertação de mestrado, “Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis”, Maria Lucia do Pazo Ferreira, faz um estudo sobre a escola de samba do Rio de Janeiro Beija-Flor, sob a direção artística do carnavalesco João Jorge Trinta. O discurso e o trabalho de Joãozinho Trinta foram considerados no sentido de detectar os vetores do sucesso nacional e internacional da agremiação. Em seu livro “Arte em Desfile”, as autoras Maria Aparecida Urbano, Neuza Neif Nabhan, e Yolanda Lhuller dos Santos apresentam o processo de criação e montagem da escola de samba paulistana para o desfile de carnaval, além da vivência adquirida com o trabalho desenvolvido nos bastidores do carnaval.
A escola de samba pode ser caracterizada como a escola da vida. Dela fazem parte a atividade comunitária, o aprendizado, a reflexão sobre os valores nacionais e a convivência permanente entre indivíduos que têm por fim comum o engrandecimento da escola. (apud URBANO, NABHAN, e SANTOS, 1987, p. 81).
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O carnaval associa profissionais, aprendizes e pesquisadores de diferentes saberes. Segundo Melo, o carnaval “É o dialogo entre as culturas erudita e popular que passa a figurar nos desfiles com maior intensidade”. (apud MELO, 2000, p. 6). A escola de samba propicia o acesso e contato com os conhecimentos culturais básicos e necessários para uma prática social viva e transformadora. Possui forte ligação com a cultura popular.
A cultura popular é aquela que não é produzida no interior das instituições ou centros acadêmicos, e nem pelos meios de comunicação de massa. Surge espontaneamente no seio do povo como manifestação coletiva, não se submetendo às avaliações dos centros formadores, ficando à margem das instâncias formais das academias. Sua transmissão se dá oralmente, pela fala, ou pela imitação, mediada pelas relações familiares, de vizinhança, de amizade, de geração a geração, com manutenção de usos e costumes próprios peculiares àquela comunidade. Esta cultura permeia toda a sociedade, prescindindo de um espaço próprio para se manifestar. Pode acontecer em casa, na rua, na feira, na barbearia, na praça, entre outros espaços orgânicos sociais. Ela não consagra autores, é anônima, de criação coletiva. (BORGES, e SERRÃO, 2004, p. 3).
Seymour Papert, educador americano, foi discípulo de Piaget no Centro de Epistemologia Genética de Genebra. No fim da década de 60, começou a pesquisar o uso do computador como recurso pedagógico de acordo com a concepção construtivista de educação. Segundo Papert, Tenho considerado como a matemática pode ser aprendida em ambientes que se assemelham à escola de samba brasileira, em ambientes reais, socialmente coesos, e onde os entendidos e os novatos estão todos aprendendo. A escola de samba embora não seja exportável para uma cultura estrangeira, representa um conjunto de atributos que um ambiente de aprendizagem poderia e deveria ter. (PAPERT, 1980 p. 213).
O professor Seymour Papert e o professor Marvin Minsky, estiveram no Brasil em 1975 e 1976. Embora Papert não tenha visto o desfile das escolas de samba, ele teve 160
a oportunidade de observar o ensaio de uma escola no Rio, e ficou impressionado com o ambiente de aprendizagem da escola de samba. Segundo Papert, aprender não é separado da realidade. A escola de samba tem um propósito, e a aprendizagem está integrada na escola para atingir este propósito. Em seu ambiente, os freqüentadores variam em idade, de crianças a senhores, e em habilidade, de aprendizes a profissionais. Eles dançam, tocam, cantam, brigam e criam juntos, assim todo mundo está aprendendo e ensinando. Há a sensação de pertencer a um grupo, e um sentido de objetivo comum. Uma passista reúne um grupo de crianças e durante alguns minutos se forma um grupo específico de aprendizagem focalizada. Mesmo que depois o grupo se dissolva na multidão.
4.2 – Aprender fazendo
No barracão, as atividades do profissional e do aprendiz perseguem seu resultado final. Nesta trajetória, os incidentes que encontramos são importantes para o aprendizado. São criadas as condições que aceleram o processo, impulsionando-o, como a descoberta de um novo material que surte um efeito maravilhoso ou a descoberta de uma nova maneira de realizar o trabalho, e pelas condições que retardam, detém o seu caminhar em relação ao seu término, como o imprevisto do material não surtir o efeito desejado ou a falta de verba para a compra do material ou ferramenta. Todos estes incidentes que ocorrem durante o processo de construção das alegorias no barracão, tanto os que aceleram, como os que retardam o resultado final do trabalho são situações onde ocorrem diversas descobertas e aprendizados. “A experiência alarga os conhecimentos, enriquece o nosso espírito e dá, dia a dia, significação mais profunda à vida”. (apud Dewey, 1978, p. 17). Diante de qualquer uma destas situações, é necessário improvisar, de modo a aprendermos a lidar com a situação, buscando novas soluções para conseguir obter um resultado final satisfatório. Esta é uma das experiências de aprendizagem que sempre vivencio no barracão da escola de samba. 161
“A experiência constitui-se de um material cheio de incertezas, movendo-se em direção a sua consumação através de variados incidentes.” (apud Dewey, 1974, p.253). A necessidade de saber trabalhar com o improviso e com as experimentações levou-me a um exercício maior de minha criatividade, desenvolveu muito a minha sensibilidade, habilidade do olhar, e a habilidade manual. Os trabalhadores do barracão já estão acostumados a improvisar e experimentar, e isso faz com que o seu repertório artístico e visual aumente, adquirindo novos conhecimentos. O indispensável em profissões como essas são a inventiva, a capacidade de improvisar sobre materiais e formas sensíveis cujo efeito tem que ser intuído pelo artista, já que tempo e dinheiro não podem ser recuperados. Trabalhar com recursos escassos, mas com muita imaginação. A forte presença da improvisação não implica ausência de rigor e de busca perseverante de soluções visuais. O trabalho no barracão requer imaginação, criatividade, invenção, organização, responsabilidade, e a capacidade de pensar soluções de acordo com os materiais e os instrumentos de que se dispõem, e fazê-lo com a rapidez necessária que exige o trabalho. Às vezes é preciso dar um jeito na última hora. Estas habilidades são adquiridas com o passar dos anos e pela convivência no meio. Desta forma, a experiência que se acumula e que é integrada ao repertório de cada artista, de cada artesão e de cada auxiliar constitui um universo sobre o qual são ancoradas as improvisações aparentemente espontâneas, porém advindas de associações e relações elaboradas cotidianamente diante do desafio de criar. Essa experiência comprova-se na execução dos trabalhos artísticos, e na solução dos problemas surgidos no dia a dia durante os preparativos e no decorrer do desfile. É fundamental essa apropriação do trabalho e dos materiais utilizados pelas pessoas que estão envolvidas no processo de criação e confecção das alegorias no barracão da escola de samba. “As experiências passadas afetam a experiência presente e a reconstroem para que todas venham influir no futuro”. (apud Dewey, 1978, p. 34). O menino quando entra no barracão, já aprende como colar um isopor, como se corta um ferro, como se faz uma pastelagem ou empapelamento, dar acabamento nas esculturas, pintar, entre outras atividades.
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Se você pede para um menino colar partes de isopor, ele vê como você prepara a cola de poliuretano fazendo a química na frente dele, ele observa, vai e faz. Aprendeu, passa para os outros! A criatividade dos artistas é submetida todos os anos a uma série de testes. O primeiro é saber se o sonho tornará realidade, se os mecanismos de movimento funcionarão, se as luzes acenderão, se os fogos inflamarão no momento exato. E, por último, se conseguirá produzir o efeito desejado no sambódromo. Em cada uma dessas etapas correm suor, adrenalina e muitas lágrimas. “Vida, experiência, aprendizagem – não se podem separar. Simultaneamente vivemos, experimentamos e aprendemos”. (apud Dewey, 1978, p.16). Pode-se afirmar que a grande diferença entre o aprendizado que acontece na escola de educação formal e o aprendizado que acontece na escola de samba está neste aprender fazendo, integrando experiência e experimentação, improvisação e rigor na busca de soluções. Aprender fazendo, aprender na necessidade de criar respostas e saídas para formas e cores marca a diferença entre o que se aprende na escola formal e na escola de samba. Sabemos que a escola de samba não é o único espaço de se aprender fazendo em nossa sociedade contemporânea. Porém, no que se refere ao ensino da arte plástica, a escola de samba representa uma grande oportunidade justamente pelos conflitos, pelas dificuldades, mas sobretudo pelo desafio de tornar visual, de conferir plasticidade ao universo concebido pelo carnavalesco.
4.3 – Relações de conflitos entre mestres e aprendizes no barracão
Como vimos no capítulo 3, o trabalho no barracão resulta do entrelaçamento de vários atores. Resulta da ação cooperada de várias equipes. Em cada equipe é necessário que os componentes mantenham um diálogo, pois um depende do outro para que o trabalho se realize, uma equipe depende da outra. Cada profissional deve ter a clareza de que outros dependem de seu trabalho e todos devem estar cientes sobre a importância do respeito ao cronograma. Todos os
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profissionais têm que estar cientes da dependência um do outro para a finalização do trabalho. Tal consciência é elaborada de forma distinta por cada um dos componentes da escola e muitos fatores, como vimos no capítulo 3, colaboram para gerar conflitos e desentendimentos. Desde fatores externos, tais como temporais, visitas de jornalistas, de artistas e curiosos até fatores internos como falta de recursos financeiros ou problemas associados às relações interpessoais. Os barracões reúnem centenas de pessoas que trabalham, almoçam, brincam, e dormem juntas. Todas lutando pela sua escola. O ambiente do barracão de uma escola de samba é de euforia, entusiasmo e compromisso, mas também de conflitos entre os profissionais, ajudantes, carnavalesco e até com a direção da escola, por diversos motivos como fofocas, falta de pagamento, profissionais que se ausentam do barracão durante o expediente, rádio ligado muito alto, falta de espaço físico no barracão, falta de material para a execução do trabalho, ciúmes, desperdício de material, lentidão na execução do trabalho, incompatibilidade de gênios, entre outros motivos. Um conflito importante e bastante freqüente é provocado pela incompatibilidade entre o que foi imaginado pelo carnavalesco e os resultados obtidos pelos artistas e auxiliares. Alguns carnavalescos deixam o profissional trabalhar livremente, aceitando sugestões, deixando-o criar em cima de suas idéias, aproveitando a criatividade dos trabalhadores, somando sua idéia inicial a idéia do profissional, e explorando o potencial criativo tanto do carnavalesco como dos artistas. Isto permite ao profissional desenvolver sua criatividade através da execução do trabalho, tornando o resultado final muitas vezes melhor do que o esperado pelo carnavalesco, além de todos trabalharem com maior satisfação. O perfil deste carnavalesco contempla a facilidade para compartilhar o seu conhecimento passando-o adiante, estando disposto a aprender também, a ouvir o que o outro tem a dizer. Isto permite uma autonomia maior para artistas realizarem seu trabalho, este pode explorar áreas que o carnavalesco não havia pensado e apresentar novos caminhos para o carnavalesco que muitas vezes aceita a proposta quando percebe que o resultado será melhor do que o imaginado por ele. Existe aí uma interação entre o carnavalesco e o os profissionais que materializam suas idéias. A mesma coisa acontece no caso do artista pintor ou escultor e seu aprendiz. Muitas vezes o aprendiz percebe caminhos mais fáceis ou com melhores resultados na 164
realização do trabalho e ensina ao profissional, que aceita ou não este novo caminho apresentado pelo aprendiz. No barracão todos estão aprendendo: carnavalesco, profissionais e aprendizes. Quanto maior é a interação entre os profissionais, melhor é o resultado do trabalho, além de todos trabalharem com a satisfação de estarem criando, ensinando e aprendendo! Outros carnavalescos, não aceitam idéias ou sugestões dos realizadores. O trabalho deve ficar igual ao de sua criação original. Já trabalhei com carnavalescos que não aceitam sugestões e muito menos alguma mudança em suas idéias, mesmo que seja para melhor, limitando o trabalho do profissional, tendo este que ficar perguntando toda hora para o carnavalesco o que ele quer que faça agora, e como ele quer que faça, qual o tom exato para pintar a base da escultura? Qual o tom que ele quer para sombrear a escultura? Qual a cor dos olhos? Boca? Tem sobrancelhas? De que cor? O trabalho acaba se tornando automático, cansativo, mecânico, mais demorado, e não satisfaz plenamente quem o está executando, é imposto um limite ao seu desenvolvimento, a sua criatividade artística, o profissional realiza o trabalho com habilidade, mas não pode utilizar plenamente a sua criatividade, esta é exercida dentro de limites.
A atividade é demasiado automática para permitir o sentido do que é e de onde está sucedendo. Chega a um fim, mas não ao término ou consumação na consciência. Os obstáculos são superados com sagaz habilidade, mas não alimentam a experiência. (apud Dewey, 1974, p. 250).
Muitas vezes a execução do trabalho da maneira que o carnavalesco impõe não tem um bom resultado, então eu desobedeço e refaço de maneira diferente daquela que me foi imposta, experimentando diversas formas, até chegar ao melhor resultado, aquele que seja satisfatório, modificando sutilmente o que me foi pedido, sem afetar o enredo, ou o trabalho de outros profissionais. Na maioria das vezes, o carnavalesco nem percebe, ou se percebe acaba gostando! Isso ocorre também com os outros profissionais: escultores, marceneiros, ferreiros, decoradores, e aprendizes.
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Já presenciei alguns desentendimentos entre o carnavalesco e os profissionais e este com seus ajudantes. Lembro-me quando trabalhei na Rosas de Ouro no ano de 1998, com o enredo que falava sobre os Demônios da Garoa, o carnavalesco pediu ao escultor Teixeira que fizesse uma escultura de um demônio medindo em torno de 2,5m de altura, tinha que ser um demônio alegre, brincalhão, bonzinho. Teixeira detestou a idéia, em sua concepção, o demônio tem que ser forte, grande, bravo, e mau! Então Teixeira confeccionou um demônio com cerca de 4,0m de altura, bem musculoso e com cara de mau. O carnavalesco ficou muito chateado com o Teixeira, pois no seu enredo, o demônio não poderia ter estas características! Mas ele não chegou a brigar com o escultor, pois não fazia parte de sua índole, e o demônio acabou desfilando assim mesmo! Outro caso que presenciei ocorreu com o escultor e o carnavalesco no ano de 2003 na Rosas de Ouro. Desta vez não foi por causa do trabalho, mas por incompatibilidade de gênios. Houve uma discussão muito feia entre os dois no barracão, o que acabou dificultando a comunicação entre eles, e até hoje este escultor não gosta deste carnavalesco, nunca mais trabalharam juntos! Outro caso, foi neste ano de 2006, houve uma briga entre o chefe do barracão com alguns profissionais da escola com lesão corporal, o que resultou na saída do chefe de barracão do seu cargo. Outro conflito, também comum, acontece entre a direção da escola e o carnavalesco e entre a direção e os profissionais envolvidos com a realização das alegorias. O motivo principal deste conflito pode ser encontrado em desentendimentos quanto à remuneração dos trabalhos. Ocorrem também brigas entre os aprendizes. Muitas vezes estes desentendimentos podem prejudicar o andamento do trabalho e consequentemente o desfile da escola. O maior desafio é transformar a arena de conflitos em oportunidades de aprendizados, com a reflexão sobre causas e emoções em confronto. Nem sempre isto ocorre no calor da hora de preparação dos desfiles. Nem sempre as lideranças sabem enfrentar tais conflitos com a postura adequada para que aprendizados se instalem. Este seria um tema de grande importância a ser pesquisado no interior das escolas de samba, construindo-se, talvez, referências para formação de lideranças, de escultores, de pintores, de auxiliares, de mestres e carnavalescos.
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4.4 – Considerações finais
Esta dissertação surgiu da necessidade que senti de unir minha experiência como docente em instituições culturais com a minha experiência como profissional de carnaval nas escolas de samba de São Paulo, buscando compreender especificidades do processo de ensino aprendizagem de arte em diferentes espaços. Registrei e procurei pensar a prática de ensino e aprendizagem no barracão de uma escola de samba, com a descrição e análise de minhas experiências anteriores em várias escolas de samba e desta nova experiência em 2006 na Sociedade Rosas de Ouro. Escolhi a Rosas de Ouro, por ser uma escola na qual trabalhei em vários processos carnavalescos, e o fato de conhecer e já ter trabalhado diversas vezes com a maioria dos profissionais do barracão desta escola me facilitou muito a pesquisa, pois já existia uma relação de amizade entre nós, já conhecia seus anseios e dificuldades enfrentadas no dia-a-dia de trabalho no barracão. Juntos, passamos por momentos difíceis, de muita ansiedade, apreensão, nervosismo, pressão, cansaço, decepções, injustiças, tristezas, pois nem tudo no barracão é um mar de rosas. Mas passamos também por momentos de muita alegria, descontração, união, satisfação, orgulho pelo trabalho realizado, aprendizados diversos, enfim de muitas emoções impossíveis de transcrever num papel! Ao descrever minha trajetória de profissional do carnaval, apresento aos leitores um depoimento que contém grande parte da minha vida como aprendiz da arte nos barracões das escolas de samba. Esta trajetória obriga-me a reconhecer a escola de samba como espaço de formação do artista. Em “Notas sobre um Barracão”, descrevo o processo carnavalesco da Rosas de Ouro em 2006, o dia-a-dia de trabalho no barracão, que por si só já descreve na prática o processo de ensino e aprendizagem da arte ocorridos no barracão da escola durante este ano. O aprendizado ocorre com a vivência e convivência entre os especialistas e aprendizes, das tentativas experimentais do fazer, do praticar e da improvisação. É na relação cotidiana das pessoas que freqüentam a Rosas de Ouro que vão sendo construídas relações de aprendizagem.
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A transmissão do saber, do conhecimento, acontece em forma de prazer, aprendese com alegria e interesse e com a necessidade de buscar soluções visuais. O processo de ensino e aprendizagem pode ser permeado pelo prazer de descobrir, construir e criar. E estes são aspectos que não predominam nos espaços de educação formal. Mais importante que o diferencial “fazer e aprender com prazer”, penso que os desafios colocados pela prática dos barracões são fundamentais para o favorecimento do aprendizado. Em geral, na escola regular de educação básica ou mesmo nos cursos superiores, os alunos não são desafiados a buscar soluções que envolvam conceitos ou técnicas estudados. O caráter experimental, a busca de alternativas, a pesquisa permanentes são diferenciais em relação à educação formal e favorecem o aprendizado. A experiência que o trabalho artístico no barracão exige me levou a desenvolver várias experimentações de materiais, ferramentas e técnicas artísticas que antes de trabalhar no barracão eu desconhecia. Esta prática levou-me à apropriação destes materiais, ferramentas e técnicas utilizadas na construção das alegorias e carros alegóricos para o carnaval. No início, encontrei muita dificuldade em trabalhar com as peças grandes, mas com muito trabalho, passei a dominar o trabalho de pintura, a composição das cores, tonalidades e pigmentos, conseguindo representar todos os tipos de superfícies existentes na natureza, lançando mão de diversos efeitos conseguidos com o uso da tinta, diferentes materiais, e da prática artística existente neste tipo de trabalho. Para chegar ao nível de trabalho em que me encontro hoje foi necessário realizar inúmeras experiências com tintas, diferentes materiais, suportes, maquinários, pigmentos, estudos de luz e sombra, profundidade, volume, cores, texturas, formas, movimento, proporção, expressão e percepção. Todos estes elementos eram estudados com a surpresa do dia a dia de trabalho. O trabalho em equipe existente no barracão desenvolveu em mim a importância do trabalho e do aprendizado em grupo. Aprendi também uma maneira mais dinâmica, prazerosa, divertida, descontraída e eficaz de ensinar as técnicas artísticas aos meus alunos. Aprendi a manusear diversos tipos de materiais e ferramentas que antes me eram desconhecidos: isopor em bloco maciço, poliuretano, compressor, pistola de pintura, diversos tipos de tintas e solventes, espuma, mesa de corte do isopor, fio de níquel 168
cromo, transformador, resinas, manta acrílica, poliuretano, entre vários outros materiais. Mesmo depois de ter terminado a faculdade de artes, eu não tinha conhecimento deste universo carnavalesco, e hoje, unindo estas experiências, me torna uma profissional diferenciada. Sempre quando estava pintando, à minha volta haviam rapazes observando a pintura, alguns até faziam perguntas sobre o processo da pintura, todos tinham muito interesse em aprender o trabalho. Com os outros profissionais ocorria a mesma coisa: todos ficavam à volta observando. Alguns profissionais não gostam de ser observados, então diziam que ali é proibido ficar! Minha condição de arte-educadora faz com que eu valorize a observação daqueles com quem compartilhei o barracão. O interesse e a curiosidade por meu trabalho motivava perguntas que favoreciam o aprendizado dos auxiliares. Meu interesse e curiosidade pelo trabalho dos carnavalescos, escultores e pintores favoreceram e favorecem as perguntas e respostas de meu aprendizado. No momento em que encerro esta dissertação, janeiro de 2007, eu continuo aprendendo nos barracões das escolas de samba.
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ÁREA DE CONHECIMENTO DA TITULAÇÃO DO MESTRADO CONFORME TABELA CAPES: ARTES 80300006 SUB ÁREA: EDUCAÇÂO ARTÌSTICA 80310001.
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APÊNDICE
Depoimentos
Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 115 - Fábio Borges no ateliê da Rosas de Ouro em 2006.
Fábio José Borges, 46 anos, nascido em Nova Aurora, Goiás, carnavalesco da Rosas de Ouro em 2006.
A minha experiência com o carnaval aconteceu de uma forma curiosa. Eu fui estudar no Rio de Janeiro, fiquei três anos e nunca me interessei em ver um desfile, não valorizava o carnaval. Depois de três anos no Rio, fui estudar na França e o distanciamento fez com que eu valorizasse mais as coisas do Brasil. Quando voltei definitivamente, fiz um enredo para concorrer na Mocidade. Não ganhei, mas alguém soube e me chamou para fazer uma parceria, e aí consegui junto com esse carnavalesco, o Ernesto Nascimento, estrear na Mangueira como carnavalesco. A gente fez o enredo “e deu a louca no barroco sobre a sinhá Olímpia de Ouro Preto”. Foi assim!
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A maioria dos carnavalescos começam ajudando no barracão e aprendem com alguém. Eu não! Eu, como artista plástico, já comecei sabendo o que eu queria fazer! Já sabia os efeitos que queria, e é claro que tem coisas que você descobre que não dá certo exatamente como você pensava! Mas exatamente por não ter aprendido com ninguém, eu acho que consegui ter uma concepção diferente de carnaval. Eu procuro valorizar as pessoas da comunidade. Quando eu vim para a Rosas de Ouro, havia essa história de contratar equipe de barracão, e não se valorizava ninguém daqui da Rosas! Então eu falei assim, vamos dar um carro para a Jana, que é uma pessoa da comunidade. No início, as pessoas não acreditavam, e diziam: Ela não sabe! Não sabe! Ela vai aprender à minha maneira, eu oriento os profissionais para que façam da maneira que imagino. Eles já sabem como eu quero, então acho que é importante isso para você trabalhar em sintonia com quem está executando o trabalho. Acho que o carnaval tem uma função social! É um trabalho que dura o ano todo, então
você tem que tirar proveito de estar na condição de oferecer
trabalho, de ensinar alguém a fazer isso, não é fácil! Essa festa não é só a coroação de um artista plástico. O ensino e a aprendizagem da arte no barracão é um processo assim de conta-gotas. Eles vão aprendendo, vão assimilando e de repente eles se dão conta que conseguiram fazer. Ficam emocionados com aquilo! Na verdade, eu trabalho assim: Vai, faz isso! Põe espelhinho! Põe galão! Vai colocando! Eu não falo tudo. É em dose homeopática, e é interessante quando eles vêem que começam assim. Quando se distanciam do trabalho e olham, falam assim: Nossa! Que lindo que ficou! Então, na verdade é isso. É uma coisa gradativa. Não sinto dificuldade no aprendizado. Um problema que eu vejo que existe muito, é que nem todos trabalham com paixão! Alguns você percebe que são muito lentos, que tem até um pouco de má vontade, o que é normal, estão trabalhando porque estão precisando. Agora eu acho que o ideal, é que cada um trabalhasse com paixão! O trabalho fica melhor, acho que a energia fica melhor, mas mesmo assim, eu não tenho problema com ninguém. Entendo isso! Gosto de dar a oportunidade de ensinar, então têm pessoas que começam a trabalhar com pouquíssima experiência. Entre os profissionais que estão trabalhando em alegoria, existem alguns atritos. Por exemplo, o serralheiro de repente tem que fazer uma solda no carro que já está revestido, aí a pessoa fica chateada porque vai ter que tirar e refazer tudo, enfim..., mas no final tem que fazer e se faz! Ocorrem alguns atritos neste sentido. Agora, no geral, o que eu percebo é que há um pouco de separação do pessoal do ateliê de fantasia com o pessoal do barracão. É como
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se fossem dois mundos diferentes, e que um não invada o do outro! Este ano aqui na Rosas tem umas 100 pessoas trabalhando no barracão! Eu não gosto de trabalhar em regime de escravidão. O que é comum nas escolas em São Paulo e a maioria no Rio. As pessoas viram a noite, não têm hora de parar! Eu não gosto de trabalhar assim, então comigo as pessoas trabalham o horário de 9:00 às 18:00 horas. Param ao meio dia e só! É isso até o carnaval, não tem essa coisa de escravidão, não gosto, não acho saudável para o trabalho em si! Não funciona porque se esgota, o trabalho não fica bom! A gente tem que administrar o tempo para não ser atropelado por ele. Já tive problema de carnavais inacabados porque a escola não conseguiu comprar os materiais. Foi terrível! Terrível! Mas hoje não! Eu já consigo administrar esse tempo. A questão do improviso, acho que é um dos lados mais fascinantes do carnaval! Aqui na Rosas de Ouro, eu não tenho a liberdade de usar materiais que outras escolas usam. Materiais muito caro! Aqui há um limite, e eu tenho que improvisar, mas eu acho fascinante! De repente no improviso você consegue uma coisa melhor do que se você tivesse todo o dinheiro e usar os materiais mais caros e mais luxuosos. A organização da escola é preciso melhorar um pouco! Existem vários setores na escola. Cada um é responsável por uma coisa e não está havendo um entrosamento perfeito para que na avenida cada um saiba o que irá acontecer! O desfile de carnaval representa a coroação de um ano de trabalho, e eu vejo muito isso na felicidade de quem executou. Lembro-me muito bem do meu primeiro carnaval na Mangueira, era o primeiro, eu sabia o que iria estar na avenida porque eu havia imaginado tudo. Até eu fiquei emocionado, mas não chorei! As pessoas que trabalharam comigo, choravam de emoção de ver o trabalho delas ali pronto. Então é a coroação de um trabalho e ao mesmo tempo é um sentimento de perda, porque o desfile é o encerramento de um ano de trabalho. Então ao mesmo tempo em que é um momento de alegria, de ver a criação de um trabalho, apresentação e sua concretização, é um sentimento de perda, porque vai acabar. Com o carnaval aprendi, principalmente a respeitar a cultura de raiz! Principalmente isso! E dizer como o samba é bonito! Como a comunidade, o verdadeiro sambista é maravilhoso o mundo deles! E o respeito que a gente tem! Carnaval significa sustento, porque hoje eu vivo do carnaval, realização, felicidade, principalmente no sentido de várias outras pessoas participarem e sobreviverem disso. (carnavalesco Fábio Borges, 2006).
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Adriana Pedrosa, 24 anos, nascida em Niterói/RJ, estudante de artes plásticas, estagiária na Rosas de Ouro em 2006.
Estou fazendo faculdade de artes plásticas, e achei que numa escola de samba seria a melhor maneira de aprender e realmente aprendo como se faz as coisas! Nos primeiros dias em que eu estava aqui, mais atrapalhava do que ajudava! Um negócio simples que o Fábio pediu para fazer, levei horas com aquilo, gastei material pra caramba, agora já estou melhorando, estou me sentindo mais solta. Comecei a observar o que o outro fazia e ia tentando. Sem querer as coisas vão acontecendo, você vai testando, porque nos primeiros dias fiquei meio perdida, eu não sabia qual era a minha posição aqui, não sabia qual era o meu estágio aqui, ninguém fala nada, você vê o que as pessoas estão fazendo, sabe que tem que ser feito e você vê onde pode ajudar, tudo é muito fluido, no improviso! É prazeroso trabalhar aqui! Quando ponho o pé aqui, qualquer mal estar passa, o corpo está ativo, a mente está ativa, o tempo passa rápido, tem música, um gritando com o outro, antes eu não entendia, eu olhava assustada e dizia: O que é isso? Mas é a maneira deles falarem um com o outro, é assim mesmo! O ensino e aprendizagem da arte no barracão ocorre de uma maneira muito livre, acho que vai da necessidade que cada um tem do conhecimento e do material que cada um tem perto, então tem que fazer tudo no menor tempo possível, o mais bem feito e com a menor quantidade de material. A dificuldade do trabalho no barracão acho que é o espaço, eu senti dificuldades, pois estou acostumada a sentar numa cadeira, numa mesa com alguém mandando o que fazer, com horários... Aqui não tem paredes, para você chegar ao seu trabalho tem que passar pelo outro, cumprimentar todo mundo, isso é uma delícia! Estar o tempo inteiro todos juntos! Todos sabem das dificuldades uns dos outros, essa relação é ótima! Nos ensaios você encontra com todo mundo, vai beber, dar risada... A escola de samba para mim é uma escola em todos os sentidos, até de vida, é ter que chegar aqui com cara de carnaval, de bom humor! Se você chegar de mau humor está perdido, porque vão te colocar de escanteio rapidinho! Aprendi com o carnaval a humildade de começar as coisas por baixo. No meu primeiro dia eu fiquei atrás do Fábio Borges, indo para todos os lados que ele ia, e ele não pára! Eu queria acompanha-lo, ver qual é o trabalho dele e o
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que ele faz. Nos outros dias eu fui ajudar o assistente do assistente do assistente, lá embaixo e ainda assim fazendo a coisa mais simples do mundo e não consegui fazer direito! Realmente tive que ter bastante humildade para continuar e agora já estou ajudando os meninos aqui no mesmo nível que eles, de tantas repetições minha mão já foi ficando mais solta, não estou tão desengonçada para fazer as coisas. No barracão existe a liberdade de deixar as coisas fluírem, de deixar as pessoas fazerem no momento delas, de aprender a trabalhar com a diversidade de pessoas e de conhecimentos de cada um, e com todo tipo de técnica. Na escola de samba, você aprende a partir do que está precisando e a partir das ferramentas que você tem e numa escola tradicional, o ensino é igual para todos e nem todo mundo é igual, nem todo mundo tem o mesmo ritmo, e ninguém vai entender da mesma forma, e nem com a mesma base para entender do mesmo jeito. Na escola de samba é bem claro que é de formas diferentes e cada um vai aprender e fazer de alguma forma. Aqui no barracão tudo parte da sua iniciativa, não dá para ter aquela pessoa mandando você fazer isso o tempo todo de tal maneira, de tal forma, tal processo, tal horário, é totalmente livre, então você tem uma responsabilidade muito maior, daí é que vem a iniciativa de você se interessar e observar o outro, porque a responsabilidade é toda sua! O tempo para mim foi bastante difícil porque quando você vai fazer uma coisa que não tem a menor experiência, obviamente você vai fazer devagar, graças a Deus eu não recebia salário! Aprendi também a ficar mais ligada, mais atenta! Eu estou gostando do trabalho no carnaval, está sendo muito produtivo para mim, cada dia eu aprendo mais e mais aqui no barracão, eu não consigo deixar de vir ou ir embora mais cedo e acabo ficando a noite também! Acho que o carnaval aqui no Brasil é o equilíbrio entre opostos, é aquela zona neutra para tudo poder acontecer, o pobre se veste de rico, o rico de pobre, homem se veste de mulher, o rico inveja o pobre, o pobre sente orgulho da sua posição, o branco com o preto, então é uma zona neutra, um equilíbrio entre opostos. (Adriana Pedrosa, 2006).
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 116 - Anderson “Papel” no barracão da Rosas de Ouro, 2007.
Anderson, apelido “Papel”, 23 anos, nascido em São Paulo/SP, chefe da equipe de decoração do carro “Resistência e Escravidão” no carnaval de 2006 na Rosas de Ouro.
Atualmente trabalho aqui na Rosas de Ouro, mas sou bar-men. Já trabalhei no carnaval do interior, em Paulínia, fazendo decoração de fantasias. Surgiu a oportunidade de trabalhar aqui na Rosas de Ouro através de uma amiga que já trabalhava aqui. Em 2004 fiz um carro aqui no Rosas com ela. Neste ano de 2006, o carnavalesco Fábio Borges me chamou para vir trabalhar. O trabalho no barracão é meio que uma surpresa, algumas coisas você vê e aprende na hora, vai fazendo, aperfeiçoando cada vez mais, e outras coisas algumas pessoas te dão umas dicas e você vai aprendendo. Cada ano é uma coisa diferente, você vai pegando e aprendendo mais sobre o carnaval. Algumas coisas já sei por ter trabalhado em outros carnavais, e outras o Fábio Borges carnavalesco vai ensinando. Nunca tive dificuldade em aprender em termos de decoração, é bem fácil para mim. Eu gosto deste trabalho, é legal, o carnaval é uma caixinha de surpresas, cada ano é algo diferente! As dificuldades encontradas acho que é algumas vezes o material que falta, mas isso é normal, acontece em todo lugar. Eu não tenho problemas com ninguém aqui no barracão, mas se as pessoas tem problemas comigo nunca chegaram e falaram! Considero a escola de samba uma escola, ainda mais aqui no Rosas que tem diversos projetos. Além de fazer carnaval aqui, eu já fiz vários cursos, de computação, cidadania, de marketing, então realmente é uma escola! Você
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aprende a ver o carnaval com outro olhar, não só com o olhar da pessoa que está assistindo, você vê o que realmente acontece no barracão, dentro da escola. Acho que o carnaval exige muito da pessoa, tem que se dedicar bastante no que está fazendo. O que aprendi no carnaval é deixar a coisa bem aperfeiçoada, bem bonita, bem feita. As vezes a gente faz as coisas mal organizadas que não fica bem feita, para você está bom, mas para os olhares de outras pessoas não está! Então tem que aperfeiçoar o máximo e deixar a coisa mais bonita possível para que as pessoas possam ver e acharem a mesma coisa que você está achando. No barracão eu me considero um aprendiz, pelo fato de ser novo, tenho muitas coisas para aprender no carnaval. Quando vejo as alegorias na avenida, sinceramente dá uma emoção, um arrepio, você diz: Porra! Eu estava lá ralando naquele sol, embaixo de chuva! No final é bem gratificante! Escola de samba é uma escola de vida, na qual você vai ralar por um objetivo que é no caso ganhar o carnaval! Em 2004, a gente pegou uma bomba aqui, faltando um mês para o carnaval, nós pegamos um carro ainda no ferro. O carro era uma caverna com o monumento do Ibirapuera em cima. Aquele ano foi terrível! Eram 22 hs do dia em que o Rosas ia desfilar, a escola entraria a meia noite e a gente ainda estava terminando o carro, então foi um monte de improviso, ficamos trabalhando até altas horas da noite, aquele ano foi uma coisa que eu não gostaria de passar novamente, eu era inexperiente aquele ano! O carnaval é para mim uma festa, uma comemoração, vem pessoas de outros países, gastam, e a economia agradece! Sempre gostei do carnaval, é o maior barato! É uma festa! (Anderson, 2007).
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 117 - Bruno Silvestre no barracão da Rosas de Ouro 2006.
Bruno Silvestre da Silva, 19 anos, nascido em São Paulo na capital, designer, estagiário da Rosas de Ouro em 2006.
Me formei em designer gráfico na Panamericana, e agora estou fazendo desenho industrial. Atualmente faço estágio aqui no Rosas. Estou fazendo um pouco de tudo, conhecendo um pouco de cada área, para saber sobre cada segmento da escola. Nestas três semanas que estou aqui, já peguei amor pela escola! No trabalho do barracão primeiro tem a parte didática de olhar e tentar executar sem pedir ajuda e depois tem a parte de você mesmo perguntar como funciona e qual o tipo de material utilizado. Aqui ninguém tem ensino superior, tem que saber na prática que é o dia a dia. Na escola de samba você vai aprender fazendo, tem que aprender na prática. Até agora as atividades que fiz foram prazerosas, estou aprendendo dia a dia. O que foi mais difícil no barracão para mim e para os trabalhadores são diversos fatores de comunicação serem um pouco falhos. Outra coisa é o suporte, tudo é muito artesanal, muito improvisado, mas mesmo com essas dificuldades o trabalho é satisfatório. Falta um pouco de organização, o trabalho ficaria melhor, mas do jeito que está acontecendo a trinta anos de carnaval está bom! Na minha opinião na escola de samba a gente aprende as coisas e aprende a viver, é a escola da vida que a trilha sonora é o samba.
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O carnaval significa o maior patrimônio brasileiro, a cultura brasileira, retrata que o povo brasileiro é sofrido, você vê isso no barracão. O carnaval mostra a realidade do povo brasileiro! (Bruno Silvestre, 2006).
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Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 118 - Júlio César Teixeira no almoxarifado, 2006.
Júlio César Teixeira, nascido em São Paulo/SP, diretor do barracão da Rosas de Ouro em 2006.
Nasci na zona norte, Brasilândia, curiosamente é o berço da Rosas de Ouro. A minha primeira experiência de barracão foi neste ano de 2006. A presidente me convidou para ser diretor de barracão e eu aceitei o desafio porque confio no meu potencial e felizmente foi nota 30 no primeiro ano! Também sou coreógrafo da comissão de frente a 18 anos, esta é uma das funções que desempenho aqui na escola além de fazer parte da comissão de samba enredo, cuido do palco, tenho diversas funções aqui dentro. Como tenho um ano só de barracão, eu não ensino muito, tenho aprendido porque é o primeiro ano de experiência, mas mesmo assim quem estiver do seu lado ensinando acaba aprendendo também e vice-versa. O ambiente do barracão é um ambiente de competição, um quer mostrar que é melhor do que o outro, porque a alegoria que ele pegou é mais bonita, é mais complicada, mas de alguma maneira a gente consegue perceber que há uma linha de harmonia entre eles e o trabalho acaba dando certo com a ajuda de todos. A escola de samba é mais que uma escola da vida, porque tudo o que acontece aqui dentro, acontece lá fora, então você tem aqui pessoas que querem te ajudar, pessoas que querem te prejudicar, pessoas que precisam de
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ajuda, e você acaba captando isso, ajudando ou atrapalhando também de alguma maneira. A Rosas de Ouro tem uma comunidade com uma boa interação com a escola. A escola proporciona diversas atividades e a comunidade está sempre participando e tomando conhecimento das coisas que a escola virá a fazer. Quando você vê os carros alegóricos prontos para irem para a avenida, é uma satisfação, é como você ver um filho andando por aí! (Júlio César Teixeira, 2006).
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 119 - Serginho no barracão da Rosas de Ouro em 2006.
Sergio Inácio da Silva, 41 anos, nascido em Curitiba/Paraná, chefe da equipe de marcenaria da Rosas de Ouro em 2006, além de fazer parte da bateria da escola a vinte anos.
Trabalho a sete anos no carnaval. O carnavalesco Raul Diniz é quem me ensinou o trabalho, ele é um grande carnavalesco e aprendi muita coisa com ele. Fora o carnaval, tenho outras profissões como eletricista, encanador, pedreiro, e azulejista. Trabalho seis meses no carnaval e nos outros seis meses nestas outras profissões. A primeira vez que trabalhei no barracão como marceneiro e vi um monte de ferro eu pensei: como é que vou fazer?
Você não tem noção por onde
começar! Perguntei ao Raul: Por onde vou começar? A primeira parte é fazer o piso. Fazendo o piso do carro, você tem condições de colocar uma escada, um andaime para trabalhar a parte de cima do carro. Na época do Raul, os carros eram muito altos. O carro mais alto que já fiz foi de 10m. O tamanho do carro depende da dificuldade que é levar o carro para a concentração no sambódromo. Tem muitas alegorias que a gente leva fora do carro e quando chega lá colocamos no lugar. O carro é levado para o Anhembi com guincho, vai uma equipe e nós do barracão. A CET fecha a Marginal no sentido contrário que vai direto até lá, vai um atrás do outro como num trenzinho, cada um com um guincho e mais o apoio do pessoal de carro, a pé, de caminhão, vai muita gente! Os carros
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alegóricos vão de madrugada, soltamos rojão, tiro, é uma bagunça danada, é uma festa! Quando você vai para a concentração, você revê todos que trabalham nos barracões das outras escolas. É uma alegria! Eu adoro o meu trabalho e procuro fazer da melhor maneira possível. É muita responsabilidade! Se afundar uma madeira e um cara na hora do desfile cai lá embaixo, Ave Maria! Não pode fazer de qualquer jeito! Tem que saber o que está fazendo! Tenho um filho de 17 anos e um sobrinho e já estou ensinando o trabalho do barracão para eles. Tirando os palavrões, que é tudo na base da brincadeira, no barracão existe muita fofoca, as vezes o cara até inventa algo! No barracão um depende do outro, tenho que esperar o trabalho do ferreiro para fazer o meu. O ferreiro fazendo a estrutura do carro, a minha parte fica mais fácil, já tem algo pronto! Um trabalho vai sendo entregue para outro profissional na seqüência. O carnaval para mim é folclore, você vê muitas coisas como bois, onça ... É uma festa que não tem igual, todo mundo gosta, representa bem o nosso país! Lá fora é uma maravilha, o carnaval está sendo exportado! O carnaval é uma paixão nacional! (Serginho, 2006).
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Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 120 – “Jana” Janaína na quadra da Rosas de Ouro, 2006.
Janaína conhecida como “Jana”, 21 anos, nascida em São Paulo/SP, é chefe da equipe de decoração do carro abre-alas em 2006 na Rosas de Ouro.
Comecei a trabalhar no carnaval em 1997. Tudo começou em busca do dinheiro! Aí um amigo me chamou para fazer um serviço aqui na Rosas de Ouro onde estou até hoje. Aqui ninguém se preocupa em ensinar nada não, põe você lá e falam é assim que se faz, se vira! Tem que continuar senão a fila anda e você sai fora! No começo eu era bem criança, tinha um pouco de dificuldade, mas com o passar do tempo fui pegando amor e hoje com a maior facilidade faço o meu trabalho aqui no barracão. Dentro de um barracão tem que haver união e companheirismo. O trabalho é feito em grupo, se não tiver espírito de coletividade, não tem como sair o carnaval. A minha equipe é composta de moleques que eu ensinei o trabalho, são criados comigo, quem trouxe eles para cá fui eu. Quando você vê o seu trabalho, o seu suor lá na avenida depois de 4 meses de trabalho, você se sente um artista! Eleva o ego lá em cima, é bom demais! (Janaína, 2006).
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Foto: Rosana Antunes
Fig. 121 - Fernando no barracão da Rosas de Ouro em 2006.
Fernando da Silva de Oliveira conhecido como “Chelaia”, 23 anos, nascido em São Paulo/SP, trabalha no almoxarifado da Rosas de Ouro.
Eu comecei a trabalhar na escola de samba Rosas de Ouro indicado por um amigo no empapelamento das alegorias. Moro aqui na Freguesia do lado da escola. Em 1998 eu tinha 14 anos quando comecei o trabalho de empapelamento na escola. De lá para cá, eu trabalhei aqui todos os anos. A primeira pessoa a me ensinar o trabalho do barracão foi o escultor Teixeira. Aprendi rápido! Foi interessante, um trabalho diferente! Ensino os ajudantes aqui no barracão com muita atenção, calma e inteligência. Tem que ser rápido na inteligência! No barracão você tem que aprender o mais rápido possível, porque se você não souber... Uma equipe de profissionais com outra equipe no barracão, tem que estarem sempre unidas, uma ajudando a outra, porque se não tiver conjunto, não tem como o serviço sair. A escola de samba para mim é mais que uma escola, minha vida é aqui! Carnaval é como se fosse um filho, um pai, uma mãe! (Fernando da Silva de Oliveira, 2006).
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Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 122 - Mauro na quadra da Rosas de Ouro em 2006.
Mauro Olimpo da Silva, nascido em São Paulo/SP, aderecista da Rosas de Ouro em 2006.
Eu decidi que tinha que mexer com o carnaval! Não foi uma necessidade, mas uma curiosidade, aí eu acabei me envolvendo, deixei a minha profissão de lado, que era desenhista e comecei a trabalhar com confecção de fantasias e decoração. No carnaval a gente tem que aprender de tudo um pouco, desde o samba até a confecção de fantasias. Trabalhei no barracão no ano 2000. Fiz a decoração dos seis carros alegóricos com uma equipe pequena e fazia as fantasias também. A dificuldade que temos neste trabalho são todas que você pode imaginar! No carnaval existe uma ética, onde tudo o que você pega para fazer, você tem que fazer e não existe tempo ou hora, tem que fazer! Uma das dificuldades é se a pessoa tem envolvimento familiar, tem filho, esposa ou marido. O horário compromete até a vida pessoal do profissional, mas a ética diz assim, você pegou, tem quer fazer, e não pode existir nada que atrapalhe! Esse trabalho é meio injusto, porque tem que correr contra o tempo e a gente não é reconhecido! Se você é profissional de uma área no carnaval, terá que ter um trabalho bom para que ele seja bem visto, porque se o seu nome estiver em evidência, você terá sempre trabalho, se não tiver, você vai para trás.
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O carnaval é uma festa onde a gente passa informações, a gente aprende! O carnaval é metamorfose, se transforma a cada ano que passa! Tudo o que você fez no ano passado acabou! Você irá começar tudo de novo, uma nova história, vai ter que aprender, que criar, ser dinâmico, sempre aprendendo, senão fica para trás. O desfile das escolas de samba é a resposta do trabalho do ano todo que você realizou, é um ano de trabalho, é um trabalho que não pode ter erro, naqueles 90 minutos na avenida, você está mostrando tudo o que você passou, seja as dificuldades, alegrias, tristezas, empenho, sono, dor, tá tudo ali extravasando no dia do desfile! (Mauro Olimpo da Silva, 2006).
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Foto: José Veiga Fagundes
Fig. 123 - Juba na quadra da Rosas de Ouro em 2006.
Jurandir Nunes, nascido em João Pessoa/Paraíba, aderecista da Rosas de Ouro em 2006.
Comecei a trabalhar aqui a cinco anos, e aprendi com muita facilidade. Eu faço as fantasias de algumas alas. Por exemplo, uma ala com cem componentes, eu faço duas ou três. Faço também fantasias dos destaques, além da minha. Sempre que tem algum evento, alguma dinâmica na escola, eu fico como coordenador para ensinar as pessoas. Com os meus funcionários é a mesma coisa, pois na época de carnaval, muitos não sabem trabalhar com adereços, então eu ensino tudo para eles bem direitinho. O carnaval é minha paixão, eu adoro o carnaval, quando acaba eu fico contando os dias para chegar o carnaval de novo. (Jurandir Nunes, 2006).
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ANEXOS
1 – Fantasias das alas da Rosas de Ouro para o desfile de 2006
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2 – Samba enredo de 2006
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3 - Artigos em revistas, jornais e internet dos carros alegรณricos da Rosas de Ouro sobre o desfile de 2006
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4 – Crachå de trabalho da autora
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