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Revista Semioses | Rio de Janeiro | Vol. 01 | N. 06 | Fevereiro de 2010 | Semestral
Comunicação nas Escolas de Samba: O Discurso que Supera Ruídos Mirian Martins da Motta MAGALHÃES Centro Universitário Augusto Motta, Rio de Janeiro, RJ RESUMO: O presente artigo tem como objetivo analisar a importância da comunicação, mais precisamente da boa comunicação face a face que ocorre nas interações entre os diferentes atores que compõem as agremiações carnavalescas do Grupo Especial do Rio de Janeiro. A pesquisa identificou como ponto-chave para a organização do desfile carnavalesco o discurso dos diferentes agentes, o qual nem sempre é compreendido da forma desejada. Os ruídos são decorrentes da troca entre atores com diferentes formações e com base sócio-econômica-cultural também bastante diversificada. O desafio enfrentado pela organização do projeto de desfile é constante, cabendo a alguns atores em especial uma constante negociação com os pares e permanente ajuste do discurso praticado. Palavras-chave: carnaval; escolas de samba; comunicação organizacional. ABSTRACT: This article aims at analyzing the importance of communication, more precisely, good face-to-face communication that happens in interactions between different actors that are part of the Carnival organizations of Rio de Janeiro Special Group. The research identified as a key for the organization of the Carnival parade the discourse of the different agents, which not always can be properly understood. The noises come from the exchanges between interactancts with different formation and also different socio-economical-cultural bases. The challenge that the organization responsible for the parade project faces is constant, and especially some actors have to face a continual negotiation with its pairs as well as a permanent adjustment of the discourse used. Keywords: Carnival, Samba Schools, organizational communication.
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INTRODUÇÃO O desfile carnavalesco promovido pelas escolas de samba do Grupo Especial é o principal evento da cidade do Rio de Janeiro. Junto com o Reveillon, o carnaval carioca é responsável por 13% do PIB da cidade, provenientes da renda gerada pelo fluxo de turistas que essas duas grandes festas mobilizam. O Carnaval gera, sozinho, 500 mil postos de trabalho, formais e informais, diretamente ligados às agremiações carnavalescas ou não, representando para muitos indivíduos a principal fonte de renda. Mesmo com os números apontando a grandiosidade e a relevância do evento para a economia local, sua maior expressão, ou pelo menos mais conhecida, o desfile das escolas de samba do Grupo Especial, guarda um modelo organizacional bastante singular em muitos aspectos. A gestão do carnaval conjuga elementos originários do trabalho ordinário com outros, encontrados apenas nos modelos culturais, tornando-se um campo bastante fértil e pouco explorado ainda pela pesquisa acadêmica na área da comunicação. Nos institutos humanistas das universidades, em especial na antropologia e na sociologia, e também na área das artes, o carnaval é um assunto muito mais presente nos trabalhos científicos, porém, na comunicação, os trabalhos que envolvem essa expressão e suas formas não costumam ser muito explorados. No entanto, outras áreas do conhecimento, como a Engenharia de Produção, vêm demonstrando gradativamente interesse nos modelos organizacionais culturais (PUC/RJ, UFRJ). Na comunicação, especialmente referindose à comunicação organizacional, as escolas de samba são excelentes campos de observação de problemas relativos ao convívio de diferentes atores sociais.
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Nas agremiações carnavalescas, a principal rede por onde trafegam as informações necessárias para a execução do projeto do desfile é estabelecida através da relação face a face. Essa forma aparentemente singular de transmissão constitui o principal canal de comunicação em uma escola de samba. Embora muitas agremiações já estejam na era da informática, contando com softwares de simulação, desenhos e retoques sofisticados, sites informativos e outras ferramentas tecnológicas, na hora de circular a informação necessária para o projeto de desfile concretizar-se, é a velha e primitiva forma de comunicação que prevalece: a relação dialógica. É justamente nesse ponto que as escolas encontram grandes dificuldades. Elas possuem uma natureza bastante singular em muitos aspectos e, para tanto, visando atender este caráter elas têm buscado um modelo organizacional que prime por uma integração de correntes tradicionais e correntes mais progressistas em sua administração. Apesar do esforço e da incansável reformulação organizacional que elas têm passado nas últimas décadas, em relação ao seu staff as escolas resguardam sua característica inicial: serem compostas por grupos sociais distintos. A diversidade sócio-econômico-cultural dos agentes que conduzem um projeto de desfile é relevante e salta aos olhos em algumas situações, o que tem gerado problemas sérios de entendimento e percepção, atributos necessários para o alinhamento das decisões. É este ponto que o artigo irá discutir, buscando compreender a natureza das relações e a origem dos problemas, visando através da reflexão apontar possíveis caminhos para a resolução deste impasse. Esse esforço ampara-se na compreensão do problema não ser comum somente nos modelos carnavalescos, mas também encontrado no trabalho ordinário, uma vez que o trabalho origina-se de agrupamentos
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sociais, os quais, quase sempre, costumam ser compostos por atores distintos.
proporcionado avanços no entendimento das questões sociais.
Esse artigo apresenta-se organizado em seis tópicos, sendo o primeiro esta introdução. No segundo será delineado, de forma sintética, o quadro teórico-metodológico que foi utilizado como referência. O terceiro fará uma rápida explanação sobre o modelo organizacional das agremiações carnavalescas, ressaltando suas principais características. O item quatro abordará o problema da comunicação e suas variáveis, uma vez que ele não se encontra sempre na mesma forma, e no quinto item possíveis caminhos na busca das soluções serão debatidos. Por fim, no último tópico, a questão da aprendizagem será ressaltada por acreditar ser essa a maior contribuição da pesquisa, além de breve resumo das principais reflexões feitas.
Além da contribuição da etnografia, a visão circular do fluxo de informações em detrimento da visão linear, proposta pela Escola de Palo Alto nos anos 40, já sustentava que a comunicação é um fenômeno muito complexo para ser reduzida a um número pequeno e finito de variáveis. Segundo seus defensores:
2. Quadro teóricometodológico
Nessa linha de pensamento o contexto se sobrepõe ao conteúdo e ressalta as dificuldades culturais, além de destacar as múltiplas linguagens e códigos que há em qualquer processo comunicativo. Os estudiosos pertencentes à Escola de Palo Alto afirmavam existir “linguagens silenciosas” próprias de cada cultura, além de lembrar sua responsabilidade nos “choques culturais”. Ainda segundo Mattelart:
A busca por uma teoria da comunicação esbarra na velha separação entre “as redes físicas e imateriais, entre o biológico e o social, a natureza e a cultura, os dispositivos técnicos e o discurso, (...), o local e o global, o ator e o sistema, o indivíduo e a sociedade (...)” que historicamente se deu no interior das diferentes áreas do conhecimento. (MATTELART, 2005: 10) Apesar das dificuldades, a comunicação tem lutado pelo status de ciência e por um lugar de destaque nas análises multidisciplinares. Embora ela possua todos os contrastes que envolvem as demais ciências, a teoria da comunicação tem marcado presença no mundo acadêmico, em especial pela grande contribuição que a Análise de Discurso vem dando às questões que envolvem diretamente a observação lingüística. Em especial, o olhar etnográfico, desenvolvido nos anos 80, tem
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À noção de comunicação isolada como ato verbal consciente e voluntário, que subjaz à teoria funcionalista, opõe-se à ideia da comunicação como processo social permanente que integra múltiplos modos de comportamento: a fala, o gesto, o olhar, o espaço interindividual. (MATTELART, 2005: 70)
Todas essas linguagens informais encontram-se na origem dos ‘choques culturais’, das incompreensões e malentendidos entre as pessoas que não compartilham os mesmos códigos e não atribuem, por exemplo, às regras de organização do espaço e da administração do tempo a mesma significação simbólica (2005: 71).
A corrente francesa da Análise de Discurso defende que os discursos são decorrentes de práticas sociais apoiadas em contextos histórico-sociais bem definidos. (PINTO, 2002) Isso equivale a dizer que as mediações ocorrem em
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“cenas” conhecidas, porém nem sempre compreendidas. Os embates são repetidos, reapresentados, no entanto, nem sempre assimilados, e quando são, há sempre novas interferências que originam novos embates. As relações sociais que o modelo carnavalesco proporciona costumam se repetir ano após ano, porém os atores participantes não, além das questões nem sempre serem as mesmas. Segundo Pinto (2002: 51) “nem todas as situações de comunicação são tão ritualizadas (...) ou gozam de estabilidade”, muito pelo contrário, em muitas ocasiões as mudanças ocorrem a toda hora, desde a entonação da voz que se altera até o vocabulário usado que não é identificável, gerando desconfiança e desconforto nos atores. Nas agremiações carnavalescas, problemas assim são constantes, pois os grupos sociais que são obrigados a interagir costumam possuir bases culturais muito distintas. Além disso, há o fato da performance carnavalesca exigir níveis de linguagem bastante diferentes e complexos, sendo improvável algum agente envolvido dominar todos com desenvoltura. Embora o domínio total seja difícil, há momentos que o reconhecimento da autoridade é fundamental, senão o ator designado a comandar alguma tarefa, por exemplo, não obterá o resultado desejado, uma vez que seu discurso não será legitimado. Wander Emediato, em artigo destinado a discutir a validação das práticas discursivas, ressalta que “o discurso, nessa perspectiva, é o resultado da busca de acordos sociais que estabilizem as interações, inscrevendo-as em espaços de conformidade e poder”. Isto significa dizer que os atores devem estar sempre atentos e pré-dispostos à negociação, senão os embates serão freqüentes, refletindo no desempenho das ações prescritas. (EMEDIATO et al, 2008: 88) Há uma proposta dentro da Teoria Orga-
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nizacional que diz que a comunicação é o elo entre os diferentes interlocutores, e que ela pode ser extremamente agregadora ou desarticuladora de toda a cadeia produtiva. O princípio básico que norteia essa proposta está alicerçado no trabalho de Philip Zarifian, sociólogo francês, cujo estudo está focado na noção de intercompreensão da comunicação. Este conceito refere-se à linguagem como centro dos processos de comunicação, principalmente no mundo do trabalho, onde as falas profissionais são construções sociais da organização. (ZARIFIAN, 1991) Para Zarifian, a comunicação é compreendida em três dimensões: cognitiva, normativa e expressiva. Durante o desenrolar das ações quando um aspecto desagregador é percebido, cognitivamente o responsável toma uma decisão voltada para eliminá-lo. No entanto, o que o faz escolher aquela decisão é a lógica subjacente ao processo, à prescrição de que aquele movimento favorecerá o desempenho almejado (normativa). E mais, sua decisão também deverá estar amparada no seu envolvimento com aquela organização, que transcende as barreiras profissionais (expressiva). Por isso conhecer a cultura organizacional é fundamental: o que funciona para uns não funciona para outros. (SALERNO, 1999) Conforme a proposta, os alicerces organizacionais estão na boa comunicação, pois se ela falha derruba todo o processo. Ainda dentro dessa concepção teórica, em organizações que resguardem configurações únicas (fora do contexto clássico organizacional), como é o caso das agremiações carnavalescas, esse olhar é bem vindo, mais que isso, bastante adaptável. Segundo Mário Salerno, que dedicou um livro para esse modelo organizacional (nomeado por ele como “organizações flexíveis”): A gestão de organizações flexíveis no
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contexto do trabalho ordinário pressupõe a inovação do produto ou do processo, que responde pela competitividade. Estas organizações têm como características, além da inovação, trabalho organizado em grupos semi-autônomos, coordenação horizontal e novos papéis extrapolando os de referência (SALERNO, 1999: 72).
Esse autor, no desenrolar de suas explanações acerca das organizações flexíveis, enaltece a comunicação como o elemento maior e primordial a ser trabalhado, uma vez que os níveis hierárquicos comuns no trabalho ordinário não existem ou estão alinhados diferentemente das estruturas organizacionais já reconhecidas. Sendo assim, a comunicação, compreendida nas três dimensões apresentadas, significa a base, a semente de todo processo produtivo. Poderá germinar e fazer vingar o projeto ou não, de acordo com a forma trabalhada. A metodologia usada para a pesquisa toma como garantia conceitos interpretativistas de base fenomenológica, como os difundidos pela Etnometodologia e o Interacionismo Simbólico. A Etnometodologia, que tem como precursor Harold Garfinkel, analisa as atividades desempenhadas pelos atores através do raciocínio prático que eles demonstram durante as ações. Esse esforço foi realizado com o intuito de manter o mais próximo possível a análise do campo onde ela ocorria, ou seja, ao se deslocar os discursos sem visualizar sua área de ocorrência, provavelmente perder-seia muito em significados (COLON, 1995). Sendo assim, o mote desse artigo é decorrente da observação realizada para elaboração de dissertação de mestrado, apresentada em 2006 ao Programa de Tecnologia do CEFET/ RJ. Para tanto, vários eventos denominados de ensaio técnico, objeto de estudo na ocasião, foram assistidos entre os anos de 2004 e 2005,
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em diferentes agremiações que compõem o Grupo Especial do carnaval carioca, e de onde o material apresentado nesse trabalho se origina. Embora a substância tenha sido extraída dos ensaios presenciados, as reflexões apresentadas neste artigo também são resultado de contínuo aprendizado referente ao universo das escolas de samba cariocas. Atualmente, as pesquisas têm se voltado para as escolas mirins, organizações que têm como origem as grandes agremiações (escolas-mães), mas que além do modelo organizacional semelhante ao brevemente descrito, lidam com outras proposições, como a educação e o resgate da cidadania de crianças e adolescentes.
3. As escolas de samba Os desfiles carnavalescos acontecem desde a década de 30, porém ao longo do tempo passaram por grandes transformações. Antes eram simples cortejos, onde a distinção entre as alas não era clara, não havia um enredo caracterizado, as alegorias eram muito simples comparadas às de hoje, enfim, constituía um espetáculo muito diferente do que atualmente é realizado. Estudiosos do tema reconhecem ciclos de vida bastante definidos na história dos desfiles, havendo apenas algumas discordâncias nas demarcações de suas etapas ou no que proporcionou realmente as transformações em suas características básicas (CAVALCANTI, 1995, CABRAL, 1996). No entanto, há um consenso em admitir o processo de modernização da organização do desfile que acometeu as agremiações nos anos 90, inclusive assinalando o deslocamento do foco principal do espetáculo – de atender ao público doméstico, para, agora, atender aos turistas estrangeiros e nacionais – como principal direcionador da visão empresarial que tomou conta do evento
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no estágio atual de desenvolvimento (ARAÚJO, 2003). As organizações carnavalescas foram buscar no trabalho ordinário modelos que pudessem ser adaptados ao seu universo. Isso se dava porque os problemas eram patentes, porém as soluções nada claras. Dessa forma, o conhecimento já estabelecido apresentavase como uma boa alternativa na busca das soluções. Além disso, a essa altura as escolas já estavam cheias de profissionais oriundos das mais diferentes áreas profissionais, o que favorecia o aprendizado. Naturalmente, algumas técnicas foram sendo inseridas, adaptadas ao mundo carnavalesco, e aquelas que se mostraram viáveis, incorporadas, as que não, descartadas. Apesar de as transformações serem bem vindas, alguns segmentos mais tradicionais resistiram a certas modernizações. Um exemplo foi a forma como as informações deveriam ser repassadas aos diferentes setores. A interação, a relação face a face foi privilegiada, por acreditar-se ser a forma ideal, a única que resguardava a essência da atividade. As agremiações carnavalescas vivem uma dialética muito interessante: são representantes de uma cultura secular, contêm elementos das três principais etnias que formam a identidade brasileira, trabalham sempre com temas (enredos) nacionais, no entanto, realizam apresentações dependentes de tecnologia, utilizando o que há de mais moderno na confecção de espetáculos. Recentemente, entre outros elementos que lidam com a tecnologia, a iluminação oferecida pela Passarela do Samba (denominação do local da realização dos desfiles no Rio de Janeiro) esteve na berlinda das discussões. Em especial, os carnavalescos, responsáveis artísticos pelo evento, solicitam modificações, uma vez que eles afirmam que a iluminação utilizada (luz fria) empobrece o resultado estético
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das apresentações. Esses profissionais, em sua maioria artistas com passagens pela Escola de Belas Artes ou pelo universo teatral, possuem conhecimentos suficientes para questionar e lutar por uma iluminação diferenciada, que privilegie a concepção artística do projeto de desfile. Segundo informações obtidas através de conversas informais, a luz fria favorece a transmissão para a TV e, portanto, esse seria o motivo principal para que ela não fosse mudada. Essa contenda serve para ilustrar as contradições vividas diariamente nas organizações carnavalescas: o novo e o tradicional convivem, às vezes harmonicamente, outras nem tanto. Além disso, o desfile é um evento rentável para diferentes grupos, evidenciando interesses múltiplos, o que faz com que ele sofra com forças – favoráveis e desfavoráveis – de todos os lados. A dialética se fundamenta, por exemplo, quando áreas distintas são obrigadas a interagir (carnavalesco e compositor) e quando grupos sociais representantes de épocas diferentes (velha-guarda e diretor de carnaval) tornamse indispensáveis na manutenção do modelo. Atualmente, cada vez mais essa dificuldade tem se manifestado de forma complexa, uma vez que o entendimento é o único canal viável. A figura do diretor de carnaval é um bom exemplo de novo agente do carnaval. Ele surge nos anos 90 juntamente com o processo de modernização, e se fixa com o estabelecimento da patronagem – a década de 90 foi o auge do poder dos patronos/banqueiros do Jogo do Bicho nas agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro. Com a instituição dessa função, o diretor de carnaval passa a ser o responsável por coordenar os grupos e direcionar os trabalhos, buscando obedecer precisamente ao projeto – elaborado por ele e/ou com a concordância e participação dele. As escolas que adotam essa
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divisão funcional, vêem na figura do diretor de carnaval o gerente, aquele que é responsável por todo o projeto, no caso a performance que será apresentada no dia do desfile oficial. A interferência do diretor de carnaval na preparação das agremiações para o desfile é absoluta. Embora sua competência seja indiscutível, uma vez que foi designado para esta função, ele terá que desenvolver mecanismos de comunicação com os demais grupos sociais que compõem a escola, elegendo a melhor linguagem para lidar com um ou com outro. Porém, reforçando o que já foi dito, as agremiações carnavalescas são organizações formadas por grupos sociais distintos, remetendo a uma diferenciação de linguagem para tratar com os diferentes segmentos, exigindo do Diretor de Carnaval outra habilidade importante: competência comunicacional. A título de ilustração, nos eventos nomeados de ensaio técnico, essa figura é central no sucesso ou fracasso da simulação. As escolas de samba denominam ensaio técnico as simulações realizadas de partes do projeto organizacional do desfile oficial visando o aperfeiçoamento da performance artística. Porém, neste evento, naturalmente permeado de estética, o aprimoramento é praticado a partir de fundamentos prioritariamente técnicos. (MAGALHÃES, 2006) Os ensaios técnicos podem ter objetivos variados, como por exemplo, apenas o aperfeiçoamento de um determinado movimento da escola (a coreografia da comissão de frente) ou podem ser efetuados visando à performance coletiva (as simulações realizadas com a maioria dos componentes), no entanto, a motivação é predominantemente de cunho racionalista, embora os elementos relacionados à subjetividade em hora nenhuma sejam desprezados pelos dirigentes. A realização deste trabalho compreende um desafio constante, tanto para os componentes que executam os movimentos quanto
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para os responsáveis por esta tarefa, pois aspectos tidos como antagônicos são misturados de tal maneira que se tornam complementares, formando um só corpo, uma só performance. (DUFRENNE, 2004) Essa simulação é coordenada e mediada pelo diretor de carnaval, cuja responsabilidade perpassa todos os níveis de compreensão do evento: estabelecimento de padrões racionais e composição constante de significados estéticoemocionais. Por similaridade ao trabalho desenvolvido por Mário Salerno no contexto de organizações flexíveis, a competência comunicacional desses gestores é fundamental na busca da dimensão coletiva do desempenho organizacional, uma vez que ela é responsável pela aplicação e pelo impulso ao “agir orientado ao sucesso”, estimulando a expressividade e a criatividade dos componentes durante os ensaios (SALERNO, 1999: 72). No entanto, em muitas escolas o diretor é alguém trazido de fora, sua história de sucesso é seu visto de entrada, o que, às vezes, já gera desagrado e desconfiança. Sendo assim, é extremamente importante que o problema de comunicação seja ponderado e que soluções e possíveis caminhos facilitadores sejam encontrados. O conflito é uma questão constante no trabalho do diretor de carnaval, e para garantir fluxos de aprendizagem satisfatórios é fundamental privilegiar a processo comunicacional, favorecendo-o sempre que possível. Para tanto, conhecê-lo e analisá-lo em seus diferentes níveis de interação/compreensão e em seus diferentes códigos de utilização é primordial para salvaguardar sua funcionalidade administrativa.
4. Os problemas de comunicação
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Durante a pesquisa realizada nas diferentes agremiações, várias falas, provenientes de diversos interlocutores, ressaltavam a questão da comunicação. Um ex-diretor de harmonia lembrou-se durante uma conversa informal que o pior numa escola é falar as diferentes línguas, é a articulação entre os diversos grupos sociais durante a confecção do carnaval. Segundo ele, “há reserva de mercado, há preconceito, há divergências sociais, há problemas sérios de comunicação”. Em outra ocasião, um aderecista confessou que o mais difícil em seu trabalho era interpretar o enredo, realizá-lo na forma de fantasias, adereços e tudo mais que compõe o carnaval. No livro da antropóloga Maria Laura Cavalcanti, Carnaval: dos Bastidores ao Desfile, Renato Lage e sua ex-mulher, Lílian Rabelo, falam da dificuldade de negociar “o contrato do carnavalesco”. Lílian relata que era comum os dirigentes (em especial, os bicheiros) “jogarem duro”, não cederem e os carnavalescos se submeterem aos valores oferecidos. No entanto, durante o ano carnavalesco, esses mesmos dirigentes “premiavam” os carnavalescos, fazendo com que ao término do contrato eles recebessem valores superiores aos pedidos. Segundo Lílian, era uma forma de deixar claro quem mandava, e mais, a quem pertencia a escola. (CAVALCANTI, 1995: 64) No mesmo livro, há relatos também dos compositores sobre a dificuldade de compreender o enredo, embora os carnavalescos junto com a direção da escola organizem um evento só para isso: descrever e apresentar o enredo para a ala dos compositores. Há uma fala no livro que lembra esse difícil momento: Não há sinopse que eu não goste, eu gosto de todas elas, o que não gosto é da posição do artista (carnavalesco). Olha, taí (sic) o enredo, eu quero que fale isso e aquilo. (...) A sinopse é dos carnavalescos
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e nós (compositores) fazemos a nossa pesquisa dentro da sinopse deles. Cada um lê de sua maneira e aí vai lá e conversa pra saber se um lance é válido ou não. (CAVALCANTI, 1995: 104)
Outra lembrança importante que reforça essa dificuldade de comunicação (ela estendese a todos os níveis e hierarquias existentes nas agremiações) é da ex-carnavalesca Maria Augusta, quando ela conta como um carnavalesco tem certeza se sua escola vai “acontecer” ou não na avenida: Quando uma escola chega à avenida, o momento mais importante é o da concentração porque aí é que eles (os desfilantes) vão ver as fantasias uns dos outros. Se gostam das alegorias, a escola cresce, a escola sobe. Se não gostam, o ânimo cai e ninguém põe direito aquela escola na avenida. (CAVALCANTI, 1995: 62)
Atualmente, o problema apontado por Maria Augusta foi parcialmente solucionado porque há uma festa destinada à apresentação do enredo e das fantasias, os protótipos, o que dá uma ideia do que virá. No entanto, esta festa é destinada a poucos, normalmente dirigentes de alas e figuras expressivas da escola, ficando de fora a massa de componentes. Essa vê sua escola na íntegra somente na avenida. No livro de Maria Laura Cavalcanti, escrito a partir de pesquisa realizada para seu doutorado, os problemas oriundos da dificuldade de comunicação perpassam toda a narrativa. Em dado momento ela começa um parágrafo da seguinte forma: “A existência de ruídos na comunicação e o confronto entre visões de mundo diferenciadas se evidenciam”. (CAVALCANTI, 1995: 107) O item onde encontra-se o parágrafo é relativo ao enredo, ao seu desenvolvimento e a sua transposição para a forma carnavalesca. Assim, subentendem-se
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diferentes tipos de linguagem (composição da letra do samba; criação dos figurinos, elaboração dos carros alegóricos, etc.) a partir de uma narrativa elaborada na forma monográfica (a sinopse), o que só reforça o problema abordado. Esses relatos podem parecer ultrapassados em um primeiro momento, pois encontramse em uma publicação de 1995, entretanto durante as observações dos ensaios técnicos a dificuldade de comunicação entre os atores foi algo recorrente. Os valores do grupo que compõe os ensaios são compostos por diferentes elementos, sendo que o diretor de carnaval deve possuir sensibilidade suficiente para reconhecê-los e desenvolver seu trabalho de acordo com os mesmos. É por isso que, quando um dirigente muda de agremiação, ele precisa de um tempo para esclarecer à nova comunidade qual é sua metodologia de trabalho. Isso não é feito através de palestras ou cursos, mas sim no próprio espaço destinado ao ensaio, sendo verificado, na maioria das escolas, uma evolução, uma aprendizagem organizacional e pessoal (do diretor) neste processo. No entanto, às vezes, um gesto ou uma palavra inadequada cria barreiras neste entrosamento, dificultando o entendimento e prejudicando, ou mesmo impedindo, o desenvolvimento do ensaio. (GOFFMAN, apud MAGALHÃES, 2006)
5. O problema e seu entendimento O principal ponto a ser ponderado são as diferentes linguagens utilizadas na realização de um projeto de desfile. O produto final das organizações carnavalescas é um evento cultural, é o desfile oficial, e como em qualquer produção na área da cultura, a resultante está repleta de significados de diferentes ordens. Para que isso ocorra, é necessário articular diferentes níveis e concepções de linguagem.
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No projeto de desfile está previsto o arranjo de formas diversas, o que implica em uma complexidade que não pode ser menosprezada. Por exemplo, as dificuldades sócio-culturais (os diferentes grupos sociais que se cruzam na concepção de um projeto de desfile); as diferentes expressões estéticas (a sinopse do enredo – próxima à expressão/linguagem acadêmica; a feitura de um samba-enredo – próxima à expressão poética; a transformação da história em fantasias e cenografia – próxima à expressão teatral; etc.), todas, no entanto, são complementares de uma expressão maior que é a performance carnavalesca. As escolas de samba, principalmente as que hoje se encontram no Grupo Especial, sofreram profundas modificações ao longo de sua trajetória histórica. As últimas décadas foram especialmente dedicadas às transformações organizacionais, alavancadas pelos patronos (bicheiros) através do seu poder financeiro. A evolução de várias agremiações neste mesmo sentido tornou a competitividade crescente, necessitando inovações constantes, tanto dos processos organizacionais quanto do produto apresentado, ou seja, do desfile em si. A aprendizagem dos dirigentes, referente às novas demandas organizacionais, possibilitando que suas escolas alcançassem o patamar competitivo, foi substancial para a consolidação deste processo. No entanto, a incoerência no processo de gestão não podia deixar de ser considerada, pois a organização de um desfile estava tomando ares profissionais, com planejamento estratégico, previsão de gastos, contratação de profissionais qualificados, etc., mas ainda havia e sempre iria existir o imponderável, o imprevisto ou o surpreendente. Compreender o desfile através do conceito de performance ajuda no entendimento de aspectos antagônicos, mas que convivem e se equilibram na manutenção do modelo carnavalesco.
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Uma compreensão simples do termo performance seria relacioná-la a algo em processo, não podendo e não devendo ser apreciada estaticamente, mas sim no transcorrer das ações. Ela é sempre percebida por um observador e só existe desta forma, ou seja, é necessário que alguém lhe conceda esta propriedade para ser vista assim. (PEIXOTO, 2000) Uma conceituação do termo mais livre, inspirada no trabalho de Deightond (1992), compreende performance “como o processo de reconhecer os procedimentos organizacionais, avaliar se respondem pela melhor alternativa e, quando não, subvertê-los, apresentando novos procedimentos”, que podem ser incorporados ou não à cultura organizacional. Na maioria das vezes os eventos são únicos e, por isso, os procedimentos normalmente ficam apenas incorporados ao aprendizado dos atores participantes. (MAGALHÃES, 2006: 23) Na conceituação proposta por Mario Salerno para as organizações flexíveis a comunicação é apontada como uma “alternativa à coordenação hierárquica clássica” uma vez que no modelo clássico ela é negligenciada em relação ao encadeamento das operações. (SALERNO, 1999: 21) Nas organizações flexíveis, ela será o meio para o desenvolvimento do princípio de cooperação, onde a hierarquia é substituída pela compreensão entre os atores como forma de obtenção de desempenho coletivo e organizacional. Como já foi ressaltado, Salerno define três dimensões da comunicação no trabalho ordinário: cognitiva, normativa e expressiva. Pode-se, também, descrever o trabalho dos gerentes do carnaval através do exercício destas três dimensões, lembrando que os embates entre os atores são únicos porque há sempre elementos novos, porém eles resguardam alguma substância comum que se repete no processo comunicacional.
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Como cognitiva ele determina “a legitimação do saber e da competência do outro frente à determinada situação”, envolvendo tomada de decisão correta frente aos eventos que se apresentam (Ibid: 73). A dimensão normativa é referente ao “que cada envolvido considera ser o mais relevante do ponto de vista da lógica da eficiência”, sendo as questões estratégicas de desempenho as norteadoras das relações e da comunicação entre os atores (Ibid: 73). E por fim, a dimensão expressiva da comunicação no contexto do trabalho significa assumir “responsabilidade frente ao resultado de sua atuação, atuação que é avaliada em termos de contribuição ao desempenho (...) da empresa”. (Ibid: 76) É a tomada de decisão alicerçada em conhecimento científico, mas também decorrente da intuição humana. Esta dimensão se refere também ao nível de envolvimento que os trabalhadores possuem com a organização, pois caso ele seja baixo, provavelmente não haverá motivação para que ela se realize. Estas conceituações se aplicam à gestão praticada nas escolas de samba, uma vez que estas organizações possuem a inovação como estratégia competitiva, porém os eventos únicos e inesperados se apresentam no contexto carnavalesco de forma freqüente, obrigando aos atores constante avaliação e/ou revalidação da técnica comunicacional utilizada. O projeto de um desfile carnavalesco conta com aspectos clássicos de normatização dos processos e de sistematização de tarefas, mas, também possuem elementos encontrados no conceito de organizações flexíveis. Segundo Cavalcanti (1995: 25) “as escolas acompanham seu tempo. Sua vitalidade como fenômeno cultural reside na vasta rede de reciprocidade que elas souberam articular, em
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sua extraordinária capacidade de absorção de elementos e inovação”.
pela integração e reconhecimento dos atores envolvidos nesta constante negociação.
6. Considerações finais
Este trabalho tem como mote a reflexão até porque se estamos falando de algo que deve ser constantemente observado e ajustado não há modelos a propor. O principal objetivo foi chamar atenção para o assunto e alertar que atualmente cada vez mais a comunicação terá que lidar com modelos organizacionais nada convencionais, o que provavelmente irá exigir da área no mínimo olhares singulares e novas estratégias para envolver os atores. Sendo assim, o que fica como resultado material da pesquisa é a questão da aprendizagem, que advém de constante observação e decorrente ajuste das ações comunicacionais.
Pesquisar as agremiações carnavalescas foi desafiador, principalmente quando se reconhece que elas não podem ser compreendidas através apenas de uma lógica funcionalista, embora elas apelem para elementos oriundos dessa corrente para obedecer ao projeto de desfile. E continua sendo desafiador, pois é fundamental ao pesquisador se despir de “pré”conceitos e, antes de qualquer coisa, preparar-se apenas para identificar, apreender e compreender. E isto não é fácil. Os modelos organizacionais que são compostos por elementos e atores tão diferentes são desafiadores não só para quem os pesquisa, mas também para aqueles que o gerenciam e atuam, pois estes dois últimos possuem como objetivo o sucesso, clímax bastante complexo quando lembramos que as variáveis que compõem esse universo originam-se de raízes diferentes. Objetividade obtida através de subjetividade, racionalidade que advém da reprodutibilidade, a qual, entretanto, provém de percepção cultivada pela emoção, pela expressividade que o mundo das artes exige. Para dar conta deste emaranhado de ações, algumas decorrentes da racionalidade mais exacerbada, outras originárias da expressividade, da estética, só através de muita compreensão, muita conversação e muito diálogo para chegar a um lugar de mediação. E para que isso ocorra, só com conhecimento gerado
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Como foi relatado no artigo, atualmente a investigação tem se voltado para as agremiações mirins, organizações que têm como proposta outros fins, além da expressão artística. As potencialidades presentes nas agremiações mirins estão focadas nas demandas sociais, na cultura, na mobilização política, na educação, além da preocupação com a valorização da criança. Proposta tão audaciosa sem dúvida resultará em muitos ruídos na comunicação, problema somente mediado através da troca de experiências e muito trabalho voltado para os ajustes nos discursos praticados.
SOBRE O AUTOR; Graduada em Jornalismo (1987) e Mestre em Tecnologia pelo CEFET/RJ (2006). Email: mirianmmm@yahoo.com.br
Artigos
Revista Semioses | Rio de Janeiro | Vol. 01 | N. 06 | Fevereiro de 2010 | Semestral
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