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Matriarcado no samba carioca: lugares estratégicos, poder e tradição

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Anais da V Semana de História Política | II Semana Nacional de História: Política e Cultura & Política e Sociedade Rio de Janeiro: UERJ, 2010 (ISSN 2175-831X)

MATRIARCADO NO SAMBA CARIOCA: LUGARES ESTRATÉGICOS, PODER E TRADIÇÃO Vanessa Dupheim*

RESUMO: A pesquisa sobre o Matriarcado no Samba Carioca e seus lugares estratégicos surgiu da necessidade de uma abordagem de perspectiva teórica, explicativa e de visibilidade às famosas mulheres dotadas de um “espaço definido” de destaque como figuras respeitadas no Mundo de Samba. Essas mulheres são conhecidas como “Tias” das Escolas de Samba e têm seus nomes relacionados a esta manifestação popular de canto, dança e poesia de um gênero específico da Música Popular Brasileira, o samba, possuindo uma “identidade específica”. PALAVRAS-CHAVE: Samba Carioca, Matriarcado e Memória do Rio de Janeiro.

ABSTRACT: Research on the Matriarchy Samba Carioca and its strategic places arose from the need to approach a theoretical perspective, explanatory and visibility of the famous women who have a "defined area" as prominent figures respected in the world of Samba. These women are known as "Tias" Samba School and have their names linked to this outbreak of popular song, dance and poetry of a specific genre of Brazilian Popular Music, samba, possessing a "unique identity". KEYWORDS: Samba Carioca, Matriarchy and Memory of Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO As Tias possuem como característica comum a articulação, pois foram e são capazes de reunir sob suas égides um número considerável de pessoas, seja pelo círculo de amizade seja pelo espaço de encontro em suas famosas “Festas e Feijoadas”. Portanto, não é leviano dizer que esse fator articulador é digno de destaque positivo e é evidenciado pelo o número de agregados que freqüentam as Rodas de Samba, de Partido Alto, Ensaios de Escolas de Samba. Para tanto, acreditava-se que o desenvolvimento dessa pesquisa utilizar-se-ia apenas de uma abordagem historiográfica a pontuar as trajetórias das Matriarcas do Samba do Rio de Janeiro, ou seja, pontuar fatos de suas histórias de vida enquanto estudo detalhado, mas o que se fez surgir foi o estudo de uma verdadeira “instituição”, pois as dinâmicas das relações estabelecidas pelas famosas Tias neste espaço que é o “lugar estratégico” do samba carioca apresentaram-se como um campo possível de exploração, na medida em que constatei a riqueza de vidas que foram misturadas à história cultural do subúrbio Cidade do Rio de

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Janeiro, no contexto histórico do século XX e principalmente no espaço geográfico da “Grande África”. O recorte temporal refere-se ao século XX destacando a sua relação com os lugares estratégicos, isto é, os locais de encontro dessas Tias. As formulações teórico-metodológicas foram realizadas à luz de uma metodologia já consolidada em outros estudos e baseada em análise documental e iconográfica. Ressalto que a Nova História Cultural serviu como suporte para minha investigação, pois seus referenciais têm possibilitado o estudo e a compreensão de novos objetos da Historiografia e da Cultura Brasileira, permitindo-me construir um novo olhar sobre este determinado objeto.

“Entre 1917 e 1931, a vida musical popular brasileira se modificou radicalmente (SANDRONI, 2001). Ao menos, como padrão fonográfico, surgiu um novo gênero, que iria mudar nossa história musical: o samba” [1] Esta pesquisa se insere em uma discussão clássica do século XX: a mulher caberia unicamente gerenciar a casa ou seria casa, o único lugar estratégico, que ela poderia gerenciar? Este é o imaginário presente no objeto desta pesquisa que venho a descortinar pelo papel que estas mulheres de fibra e de coragem desempenharam na sociedade que estaremos analisando. Estes debates possuem dados relevantes que estão presentes na sociedade brasileira até hoje. Partimos do pressuposto de que ser uma Tia em uma Escola de Samba já apresenta por si só e por definição desta categoria de gênero, determinadas abordagens de análise que propõem uma leitura de mundo que também tem objetivos traçados e propósitos bem marcados, ou seja, qual foi o papel dessas Tias em um espaço machista, reitero, em uma sociedade machista e patriarcal e como se deu esta relação de respeito (construída) e não apenas de tolerância (observada). Até que ponto “estas escolhas” foram aceitas e incorporadas pelo público daquela Cidade do Rio de Janeiro, do século XX, as modificações dos costumes, o peso do nome da Tia de tal Escola de Samba, do tipo de Escola (diferenciação que existia entre elas, as disputas e etc), entre outros fatores têm sido o objeto da pesquisa. Não foi apenas uma mudança por questões de política pública daquela época, na verdade houve mudança de paradigmas.

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“O samba é o meio e o lugar de uma troca social, e de expressão de opiniões, de fantasias e frustrações, de continuidade de uma fala (negra) que resiste à sua expropriação cultural”. [2] Aqui centramos a análise também nas mensagens que podemos perceber no percurso da pesquisa e que frente ao que foi exposto, é fácil perceber que essas Tias foram responsáveis por um novo modelo de organização, ao qual reunia as principais características das Escolas de Samba, um modelo utilizado para possibilitar a implantação das estratégias possíveis para extrapolar a questão de gênero (homem/mulher) e ao mesmo tempo fazer-se respeitada, ter poder, ser responsável por um movimento de continuidade das tradições dos ancestrais e ser acima de tudo, a figura de afirmação dos valores culturais negros. De fato, a história cultural, tal como a entende o historiador francês, ”tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade cultural é construída, pensada, dada a ler” (CHARTIER, 1990, p. 17). [3]

METODOLOGIA

“Além disso, o historiador não pode negligenciar os efeitos da conjuntura histórica que ele está estudando e o papel da música em espaços sociais e tempos históricos determinados”. [4]

É metodologia desta pesquisa a operacionalização do conceito de gênero, onde a categoria mulher refere-se a uma dada realidade social, histórica e cultural. E é neste contexto que a relação homem e mulher no mundo do samba é fundamental para a discussão e debate, pois a mulher aqui estudada é um tipo de mulher que é figura respeitada, mas também é aquela que ajudou a criar os filhos ou os criou sozinha, á a Tia da Escola de samba. Possui carisma, é agregadora, é figura simbólica acima de tudo e sabe que carrega este peso. Possui poder, destaque e também referências históricas para análise. Neste sentido, em uma estrutura de classes de uma sociedade patriarcal bem definida, essas mulheres encontraram brechas, sobressaíram e tiveram um papel social relevante (construção do simbólico e em alguns casos na criação musical, pois algumas Tias são cantoras, compositoras). O discurso assumiu nível privilegiado de análise contextualizada, pois outro conceito de destaque metodológico é o do samba carioca relacionado ao subúrbio carioca e onde a Grande

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África comportou vários territórios deste subúrbio, não apenas a área da zona portuária ou o centro da cidade, mas também espaços ricos de vivência do samba como Madureira, Oswaldo Cruz e outros espaços de deslocamento da mão-de-obra. O lugar estratégico onde estava inserido o poder das Tias. Lugar que exigia uma organização e disciplina dos membros do mundo do samba e freqüentadores das escolas de Samba (assiduidade, ordem e etc.). O samba carioca também funcionava como uma “instituição”, sendo controlado através do calendário. Havia também práticas “ritualizadas” e “simbólicas”, como os ensaios e as festas. O processo histórico-cultural vivenciado por seus membros: práticas coletivas, tempo, samba. Qual é a posição desta mulher no samba carioca? Quem é a Tia da Escola de Samba? Elas nunca foram simplesmente o complemento do homem, é bom frisar. Logo, a pesquisa destes tipos femininos privilegia um tipo de análise que remete a mulheres de força. Os limites do presente trabalho situam-se na escolha de uma representatividade destas Tias, por não ter como tratar da totalidade destas com o total respeito que merecem. E muito menos por ter a pretensão de atender á esta demanda.

DESENVOLVIMENTO:

“Com a imigração negra da Bahia para o Rio de Janeiro, as comunidades baianas se estruturaram de forma espacial e cultural e tiveram nas “tias”, velhas senhoras que exerciam um papel catalisador na comunidade, o seu elo central”. [5]

Segundo Monica Pimenta Velloso as tias encarnavam o “reconhecimento e a legitimidade da comunidade negra”. E eram como esteios da cultura urbana do Rio de Janeiro: “estava assegurado, desta forma, um espaço que seria de fundamental importância na história social do Rio de Janeiro”. [6]

Para Rachel Soihet a argumentação é a de que essas “tias ficaram célebres pelos sambas e candomblés que realizavam e pelos blocos e ranchos que organizavam. Suas casas constituíam-se em centros de resistência cultural, núcleos de onde se espraiavam as bases do carnaval e da música popular, predominantes no Rio de Janeiro”. [7]

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Os “lugares estratégicos” que são definidos nesta pesquisa são os pólos de criação, ou seja, as casas das Tias, locais de encontro de sambistas e compositores famosos e também as Escolas de Samba, espaços de “musicalização e circulação pública” (criação e recepção), espaços de apropriação do samba pelas camadas urbanas, não apenas pelas menos favorecidas.

Cabe sinalizar o depoimento de Donga ao Museu da Imagem e do Som em 1967, a saber: “Mas, se a casa da Tia Ciata era o pólo coletivo da criação musical, quando Donga registrou a música “Pelo Telefone”, colocando-lhe o rótulo de “samba”, ele realizou um gesto comercial e simbólico a um só tempo: comercial porque registrava uma música que reunia elementos de circulação pública, e simbólica na medida em que tanto o registro de autoria (na Biblioteca Nacional em 1916) quanto o fonográfico (com o selo Odeon, em 1917) permitiam uma ampliação do círculo de ouvintes daquela música para “além do grupo social original”. [8]

A REPRESENTATIVIDADE DAS “TIAS DO SAMBA” PRESENTES NESTE ESTUDO: Tia Ciata A baiana Hilária de Almeida, ficou conhecida para a História cultural do Rio de Janeiro como Tia Ciata. Tia Amélia (mãe de Donga) Tia Presciliana (ou Perciliana) de Santo Amaro (mãe de João da Baiana)

Tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana) Tia Bebiana Tia Vicentina

Império Serrano Tia Maria 763


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Maria de Lourdes (89 anos), filha de uma escrava, Dona Etelvina, e sobrinha-neta de Lazyr Sinval. Ela é a Matriarca do Morro da Serrinha. Também é líder do Grupo Jongo da Serrinha e de uma Escola de canto, dança e percussão localizada na comunidade em Madureira. Ela possui a mesma musicalidade dos ancestrais, é compositora e utiliza esta tradição com maestria. Tia Eulália Dona Ivone Lara

Portela Tia Doca Tia Surica Tia Eunice Tia Neide Dona Neném Dona Esther Tia Dodô

Mangueira Dona Zica Tia Paula Tia Neuma

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Salgueiro Tia Zezé Tia Neném Tia Maria (Velha Guarda Show)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões a cerca das figuras femininas de nome e peso das Escolas de Samba marcam a história cultural do Rio de Janeiro. Eu não sou a primeira e não tenho a pretensão de ter sido a última. Pretendi apenas trazer uma contribuição no tocante a um dos aspectos de suas personalidades e que as faz serem vistas até hoje como liderança. É o poder feminino e não apenas em seus espaços de circulação, mas é a visibilidade que este poder têm e a eficácia com que estas mulheres souberam representar-se, representar uma época, representar uma classe ou mesmo uma categoria, que de frágil mostrou não ter nada. Por fim, faço minhas as palavras de Neusa Meirelles Costa: “Chiquita, a primeira compositora do Cacique de Ramos; Zica, mulher de Cartola e Líder das Pastoras; Dona Ivone Lara, compositora desde os doze anos e a primeira a enfrentar a ala dos compositores, desfila na Ala das Baianas do Império Serrano; Paula do Salgueiro, da Mangueira; Tia Vicentina, Doca, Eunice Clementina e Tia Esther da Portela, e a própria Tia Ceata: São mulheres do povo, cujas estórias de vida escrevem parte da história do canto popular sobre o cotidiano triste e alegre, da vida na cidade, da sobrevivência do morro e fora dele”. [9]

NOTAS: *Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Graduada em História. Licenciada e Bacharel pela Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE). Pós Graduada em Gestão Urbana pela Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE). Pós Graduada em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes (UCAM). E Pós-Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Univercidade. E-mail: vanessadupheim@pop.com.br.

NAPOLITANO, Marcos. História Cultural da Música Popular. Belo Horizonte: Autêntica, 2002, p.49 [1]

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SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2007, p.59 [2] CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela de Galhardo. 2ª edição. Lisboa. Difel. Rio de Janeiro, 1990, p.17 [3]

NAPOLITANO, Marcos. História Cultural da Música Popular. Belo Horizonte: Autêntica, 2002, p.36 [4] _____________________. Op Cit, p.49 [5] VELLOSO, Monica Pimenta. As Tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro. Estudos Históricos nº 6, 1990. [6] SOIHET, Rachel. Subversão pelo riso: estudos sobre o Carnaval da Belle Époque ao tempo de Vargas, Rio de Janeiro: Ed FGV, 1998, p.88 [7] NAPOLITANO, Marcos. História Cultural da Música Popular. Belo Horizonte: Autêntica, 2002, p.49-50 [8] COSTA, Neusa Meirelles. A mulher na Música Popular Brasileira (Parte 01). > http://musicabrasil.blogspot.com/2010/03/mulher-na-musica-popular-brasileira.html 26/07/2010. [9]

Acesso

< em

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