Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 A ESCOLA DE SAMBA, O CARNAVAL E SUAS DRAMATIZAÇÕES NO BAIRRO PEDRINHAS EM SOBRAL/CE1 Ronaldo Santiago Lopes2
RESUMO O artigo procura analisar o cotidiano das relações sociais no bairro Pedrinhas, em Sobral/CE, no período do carnaval. O foco principal de observação encontra-se na Escola de Samba Unidos das Pedrinhas. Através dela se pode perceber os agenciamentos, práticas e formas de mobilização social, bem como compreender a relevância da instituição para muitos moradores. Palavras-chave:
Escola
de
samba.
Carnaval.
Mobilização
social.
Bairro.
Homossexualidade.
ABSTRACT The article attempts to analyze the daily lives of social relations in the neighborhood Pedrinhas in Sobral / CE during the carnival. The main focus of observation is in the United Samba School of Pedrinhas. Through it we can understand the agency, practices and forms of social mobilization as well as understand the relevance of the institution for many residents. Key-words:
School
of
samba.
Carnival.
Social
mobilization.
Neighborhood.
Homosexuality.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS Um dos aspectos que mais me chamou a atenção durante minha pesquisa no bairro das Pedrinhas em Sobral / CE, distante 225 km da capital Fortaleza, foi a motivação dos moradores durante a época do carnaval e a importância que davam à Escola de Samba Unidos das Pedrinhas. A partir desta constatação pretendo discorrer sobre o cotidiano do
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Este artigo é uma versão modificada do segundo capítulo de minha monografia, defendida recentemente no curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, sob a orientação do professor Dr. Nilson Almino de Freitas. 2 Bacharel em Ciências Sociais.
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 bairro Pedrinhas na época do carnaval, observando alguns aspectos da festa como a participação de alguns homossexuais e a forma como vivenciam aquele evento caracterizando por um estado de communitas (Turner, 1974; Dawsey, 2006). Além disso, descrevo a mobilização social dos moradores no período que antecede o desfile da escola de samba, no dias de carnaval, contemplando as possíveis interpretações e significados que a festa possui para diversos moradores. Os registros que possibilitaram este artigo foram obtidos a partir do trabalho de campo que consistiu em caminhadas pelo bairro, visitas freqüentes ao barracão da escola de samba e entrevistas com diretores, costureiras e compositores, além de conversas com vários moradores. Ao todo foram realizadas 10 entrevistas registradas em fitas Cassete e em áudio-visual, que foram documentadas e transcritas pelo Laboratório de Memórias e Práticas Cotidianas – LABOME. Algumas delas serão utilizadas neste trabalho. Inicialmente, creio que não se pode discorrer sobre a escola de samba das Pedrinhas, sem antes falar de seu fundador Francisco José Holanda, mais conhecido como Baiá, que é apontado como o precursor do carnaval e de outras festas no bairro. Sua personalidade é lembrada com reverência pelos moradores com os quais conversei que, na forma como falam acerca do costureiro, constroem uma narrativa na qual Baiá aparece sob a aura de um “herói” elevado a condição de “mito fundador” das expressões culturais no bairro Pedrinhas. Baiá: “mito fundador” das expressões culturais no bairro A Escola de Samba Unidos das Pedrinhas foi fundada em 1983 pelo alfaiate e carnavalesco Francisco José Holanda, popularmente chamado de Baiá, conhecido por sua criatividade e “amor à cultura”, conforme afirma o aposentado José Arteiro, seu primo. Durante várias conversas que tive com alguns moradores, o nome de Baiá foi sempre lembrado como sinônimo de alegria, que segundo alguns moradores, define bem a pessoa do carnavalesco que morreu há dezesseis anos. O senhor José Arteiro, morador bastante conhecido no bairro, em seu depoimento falou acerca da escola de samba e do carnavalesco. Arteiro afirma ser um dos fundadores da agremiação carnavalesca, juntamente com Baiá. Segundo ele:
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 Baiá foi um cidadão que tem aqui nas Pedrinhas que morreu há uns dez, onze3 anos atrás que era uma pessoa que prezava muito a cultura, ele criava, ele inventava, ele produzia, ele fazia tudo para a cultura, [...] Ele fazia tudo em matéria de carnaval, por sinal foi um dos maiores carnavalescos de Sobral, o Baiá, ele era até meu parente. E a gente trabalhamos muito tempo junto, a gente criava junto, ele criava aquele negocio aí chegava pra mim aí falava, a gente programava e terminava a gente fazendo, no caso até uma escola de samba que ele fez aqui nas Pedrinhas foi criação dele, a gente criou uma escola de samba que hoje ainda existe a escola de samba, hoje ela foi tricampeã em seguida logo, mas em título ela ganhou parece que 12 oi foi 15 titulo de campeã de Sobral né? ela ainda existe a escola de samba. É uma criação do Baiá e José Arteiro [sic] (Entrevista com José Arteiro, em 18/04/2006).
A figura de Baiá aparece na narrativa de seu primo, como o “mito fundador” da “cultura” no bairro, pois o surgimento da escola de samba e outros movimentos festivos como dramas, quadrilhas entre outros está atrelado à sua imagem. Isto confere ao costureiro um lugar privilegiado na história contada sobre o bairro e uma superioridade simbólica diante dos demais moradores. A afirmação de Arteiro quando diz: “ele era até meu parente [...] e a gente trabalhamos muito tempo junto, a gente criava junto...”, é reveladora da importância que se tem ao atrelar a imagem pessoal ao do “mito fundador”, pois isto confere certa honraria e autoridade. Penso que a figura de Baiá se caracteriza como um mito porque, de acordo com Samain (1984), os mitos não são ilusões ou fábulas de outro mundo, mas são os moldes necessários que definem, nutrem e reorganizam constantemente as condutas, idéias e os ideais societários. A imagem de Baiá se configura então, como um arquétipo de morador que valoriza a arte e as manifestações culturais no bairro Pedrinhas. Ainda segundo Samain, o mito é também um poderoso instrumento de manipulação ideológica e a pessoa do carnavalesco também corrobora esta idéia, posto que a conduta dos que administram e participam da instituição criada por Baiá deve estar de acordo com os valores e a ideologia de seu mito fundador. Quem também comenta sobre o carnavalesco é o cabeleireiro Ednaldo das Neves, que durante vários anos foi o puxador do samba das Pedrinhas. Ele fala com respeito e admiração por Baiá, quando diz:
Baia era um grande costureiro né, que nós chamava ai, o povo mais antigo chamava de alfaiate; era um grande costureiro, um... trabalhava para a 3
Segundo seus familiares, Baiá faleceu há 16 anos, ou seja, em 1992.
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 sociedade sobralense, fazia ternos e vestidos para as damas, era um camarada que sabia, ele sabia concatenar as coisas sabe, as cores, essa nossa escola de samba, quando ele colocava na avenida a porta-bandeira e o mestre-sala, eles chamavam a atenção pelo brilho, pelas cores combinando, o realce que levava a avenida, então ele tinha grandes qualidades, fazia belas festas, festas juninas, fazia quadrilhas, ele fazia piqueniques, ele fazia excursões, tudo que ele promovia tinha êxito porque ele fazia com amor, com muita garra, era uma pessoa altamente determinada, uma pessoa que tinha muita força de vontade, tudo que ele queria fazer ele fazia com gosto, com garra, com força, e ele nunca que foi uma pessoa de dizer “foi eu quem fez”, ele sempre juntava as pessoas, ele chamava as pessoas, as cabeças, “vamos fazer isso, você toma conta disso, eu tomo conta disso” , ele sempre foi uma pessoa comunicativa, ele sempre foi uma pessoa que gostava da comunidade, ele não gostava de dizer sou eu quem fez, sou eu quem vai fazer, ele sempre foi uma pessoa que gostou de contar com a colaboração dos outros, dos seus amigos, que ele achava que tinha condições de botar o barco pra frente, seja em quadrilha, seja em escola de samba, seja em qualquer movimento, qualquer coisa que ele fosse fazer, ele sempre usava a idéia mas convidava as pessoas para fazerem junto com ele, junto pra poder a coisa sair bem somada e bem feita (Entrevista com Ednaldo das Neves, em 17/01/2007).
A partir do depoimento do cabeleireiro, é possível observar os adjetivos e qualidades que tornam a figura de Baiá um “mito de origem” da “cultura” no bairro Pedrinhas, pois toda manifestação artística e cultural praticada tem no costureiro seu precursor. Desta forma, enquanto “mito”, Baiá é lembrado pela sabedoria de um mestre em matéria de carnaval, pois sabia “concatenar as coisas”, no que diz respeito a sua imaginação em usar as cores e dar brilho às suas criações. Sua iniciativa em promover “quadrilhas, dramas e festas” reitera sua imagem de precursor da cultura no bairro. Outra característica postulada por Ednaldo e que reforça sua imagem mitificada era sua iniciativa em promover a “cultura” nas Pedrinhas, o que faz de Baiá “uma pessoa altamente determinada, uma pessoa que tinha muita força de vontade, tudo que ele queria fazer ele fazia”. O fato de costurar para a “sociedade sobralense” é algo que também tornou o costureiro uma pessoa distinta nas Pedrinhas e digna do respeito e da admiração dos moradores. Apesar de promover diversos tipos de festas, percebe-se que estava no carnaval sua maior paixão. É, portanto, nesta festa que se observa algumas práticas que fogem do cotidiano do bairro, se delineando apenas em momentos como o carnaval. São fatos que se configuram enquanto “dramatizações”4 da vida social, tendo em vista o seu caráter espaço-temporal específico. A participação de homossexuais é um deles.
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 As dramatizações do carnaval A presença de homossexuais desfilando nas escolas de samba é algo corriqueiro nos carnavais de todo a país. Nas Pedrinhas este cenário não é diferente. Além dos que moram no bairro, existem muitos outros que vêm de diversos locais de Sobral para desfilar na escola pela tradição e respeito que ela conquistou através dos dezesseis títulos que possui no carnaval sobralense. Na véspera do desfile estive no barracão e pude ver a presença de vários homossexuais disputando uma fantasia. Na noite do desfile vi muitos deles em várias alas, porém, a que contava com o maior número era a das baianas. Na ocasião pude fotografar alguns deles, cuja irreverência mostrava o quanto estavam à vontade com aquelas indumentárias. Ao que parece, a participação de homossexuais na escola de samba das Pedrinhas teve a inspiração e o incentivo do próprio fundador, Baiá. Lembro que um deles, visivelmente alcoolizado, adentrou ao barracão quase implorando uma fantasia que lhe habilitaria a participar do desfile. Como as fantasias já tinham acabado ele implorava, desde a costureira até a direção da escola, que lhe dessem a desejada fantasia. Entre um pedido e outro, ele dançava no barracão fazendo reverência, agradecendo e afirmando que aquela escola era a melhor de Sobral por ter sido fundada por Baiá, a quem chamava de pai, numa expressão de respeito e afeto. A trajetória de vida do carnavalesco tem detalhes interessantes que relativizam os padrões sociais estabelecidos pela nossa sociedade, cujo tradicionalismo e valores patriarcais ainda resistem na população, sobretudo nas pequenas e médias cidades, onde os valores morais e religiosos têm muita significação. Apesar do constrangimento de falar sobre assuntos que ainda são tabus para muita gente, observei, através dos relatos de muitos moradores, inclusive de sua própria família, aspectos que tornam o fundador da Escola de Samba, uma pessoa sui generis. Desde muito jovem, manifestava interesse pela dança, teatro e se destacava por isso. Apesar de ser casado e ter duas filhas, era a homossexual. Morreu vítima de Aids, em 1992. Das pessoas que entrevistei, nas quais registrei o depoimento, a única a falar sobre este assunto foi Dona Liduina. Ela revela o pedido feito por Baiá antes de morrer. Segundo Liduina:
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A partir das reflexões de Damatta (1997), podemos pensar o drama enquanto elemento histórico da ação ritual caracterizada pela criação de um espaço especial em que as rotinas do mundo diário são rompidas e de
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 A gente perdeu um grande carnavalesco [...] ele era a pessoa mais importante dessa porque foi ele quem fundou a escola. Ele era louco por carnaval. Quando ele foi pra morrer, ele mandou me chamar e disse, queria entregar um casal daqui a escola, e me pediu pra que eu não abandonasse os nossos amigo, que é os amigos homossexuais né, que até hoje ainda desfila. Quando eles vem pra ca eu acolho eles na minha casa; eles vão pra lá, eles mudam de roupa na minha casa até hoje e enquanto eu existir nessa terra eu dou todo apoio a eles... [sic] (Entrevista com Dona Liduina, em 30/01/2008).
Além de lamentar a perda do carnavalesco, Liduina revela o pedido feito por Baiá para que a aposentada, uma das fundadoras da escola, “não abandonasse os amigos homossexuais”. Penso que o pedido é sintomático da necessidade dos homossexuais naquela época diante da rejeição e do preconceito sofridos. O pedido parece ter sido atendido por Liduina que recebe seus “amigos” em sua casa todos os anos e que, de acordo com ela, “enquanto eu existir nessa terra eu dou todo apoio a eles”, reiterando o cumprimento do pedido feito por Baiá. Baseando-se nas reflexões de Damatta (1997) e Turner (1974), penso a participação e a performance dos homossexuais no carnaval como uma “dramatização” social, posto que o “drama” se constitui como situações vividas que rompem a norma social praticada cotidianamente. A maneira como se apresentam na avenida, as fantasias, a exposição do corpo semi nú à platéia que assiste, a sensação de liberdade de quem não está se importando para as sanções e punições materiais e simbólicas que possam advir, são atitudes vividas no período da festa. No dia-a-dia, esse tipo de manifestação fica restrito à lugares específicos como boates ou bares fechados, pois na rua seriam reprimidas e censuradas. Como reitera Dawsey (2006) é um momento de “communitas”, ou seja, de suspensão dos papéis sociais destas pessoas, nas quais elas interrompem o “teatro da vida” com suas hierarquias, posições e classificações sociais e podem ver-se igualmente apenas como membros do tecido social. A liberdade das expressões, dos movimentos do corpo e de exposição da sexualidade que dá sentido ao termo “se soltar” e atribuído a alguns homossexuais, na verdade, ratifica a importância e significado que eles dão ao carnaval por ser um dos raros momentos5 em que eles podem se portar publicamente desta maneira sem serem
onde se pode observar, discutir ou criticar o mundo cotidiano. 5 Outro momento que nesse contexto seria semelhante ao desfile das escolas de samba seria o “bloco dos sujos”, onde os homens de vestem de mulher e vice-versa. No entanto, o bloco também acontece no fim de semana que antecede o carnaval, o que também pode ser englobado como sendo referente ao período da festa.
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 discriminados. A intensidade com que essas pessoas vivenciam a festa acaba se refletindo nas performances durante o desfile. Sobre isso, Dona Liduina afirma que:
[...] eles sambam muito bem, já deram muito título a essa escola, porque você sabe: tem muita mocinha jovem que não se joga na avenida que nem eles, porque eles gostam, eles gostam, eles se vestem bem, eles se sentem na avenida e as mocinha que sai, parece que na hora tem vergonha e eles não!(Entrevista com Dona Liduina, em 30/01/2008).
Assim, o fato de sambarem bem corrobora a intensidade com que esses homossexuais vivem aquele momento. Tendo em vista que a ocasião só acontece uma vez por ano, a ordem é aproveitar, “se jogar na avenida” e fazer o melhor que puderem. Conseqüentemente, o resultado disso é o reconhecimento de que eles “sambam muito bem”, melhor inclusive, do que as mulheres ou “mocinhas” que por conta da vergonha, não se soltam na avenida. Segundo Dona Liduina, o gosto que eles têm pelo carnaval e a postura na avenida contribuiu significativamente para que a escola fosse campeã em anos anteriores. O fato de que eles se destacam no quesito samba também evidencia uma técnica do corpo, pois segundo Mauss (2003), as técnicas do corpo consistem em maneiras pelas quais os indivíduos costumam servir-se de seu corpo. Usar o corpo para chamar a atenção da platéia, competir com as mulheres e homens heterossexuais, como também competir entre eles mesmos além de consolidar uma tradição de que possuem “samba no pé”, podem ser algumas das motivações para o uso de técnicas do corpo exercidas entre os homossexuais. Outro aspecto pelo qual podemos refletir diz respeito ao pedido feito pelo carnavalesco Baiá, relatado acima no depoimento de Dona Liduina. A atitude da aposentada, de acolher homossexuais, relativiza a formulação feita por Damatta (1997) quando, ao analisar o carnaval a partir de uma dicotomia entre “casa” e “rua”, define o homossexual como pertencente ao universo da rua, ou seja, alguém de fora, desterritorializado e excluído6 do ambiente familiar simbolizado pela “casa”. Ao afirmar que no dia do desfile recebe “seus amigos homossexuais” em sua “casa”, Dona Liduina sinaliza que essas pessoas são identificadas, reconhecidas e que dispõem da confiança e do 6
Esta exclusão, obviamente, se daria em função do preconceito e não aceitação, por parte de muitas famílias, da opção sexual do indivíduo pelo homossexualismo.
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 afeto dela, a ponto de abrir as portas de sua “casa” para eles. Assim, penso que o carnaval, entre outras coisas, é também um espaço de relativização das dicotomias, além de contemplar a solidariedade entre as pessoas, independente dos padrões e valores morais da sociedade. A relativização desta dicotomia também é apontada por Silva (2008), que se baseando em Green, acrescenta o fato de que para alguns homossexuais a rua adquire o significado de espaço intermediário, nem tão público nem tão privado. Pela falta de espaço em casa, a rua acaba sendo um lugar privilegiado para sociabilidades e encontros afetivos. Neste sentido, o carnaval encontra sentido enquanto festa, pois Amaral (2001) pensa o conceito de festa, fundamentando-se em Freud, como manifestação da violação ritual da sacralidade das normas da vida social. Ela se constitui como alteração da ordem, inversão dos interditos e das barreiras sociais, fusão numa imensa fraternidade, por oposição à vida social comum, que classifica e separa. Assim, as pessoas encontram um tempo (os dias da festa) e um espaço (a rua, o bairro, a avenida onde acontece o desfile, etc.) para ritualisticamente violarem as regras sociais que, no cotidiano, impossibilitariam este tipo de manifestação. Obviamente que a dimensão da festa não existe somente para os homossexuais, mas para todos os moradores que nesses dias encontram a oportunidade de fazer certas coisas que não se fariam cotidianamente, principalmente na rua. Lembro de uma mulher que aparentava ter pouco mais de 30 anos, vestindo uma fantasia indígena mais parecida com um biquíni, que cobria apenas as partes íntimas. Observei seu trajeto, provavelmente desde sua casa até a concentração da escola, vestindo apenas sua fantasia. Imagino que esta mesma cena em outros dias poderia acarretar críticas, tanto de seus familiares e/ou conhecidos, como também dos demais transeuntes que ela encontrasse pelo caminho por estar andando na rua com aqueles trajes, ou melhor, pela falta deles. Não faltariam adjetivos tanto para desqualificá-la enquanto mulher, quanto por, teoricamente, estar violando regras morais ou de conveniência. O carnaval propicia a inversão ou subversão das normas estabelecidas socialmente, pois nele se pode extravasar sentimentos e desejos contidos o ano inteiro. Obviamente, que os moradores, de um modo geral, não possuem somente este período para praticar tais ações, existem outras ocasiões, mas o carnaval ganha destaque pela própria natureza da festa, cujo sentido é dar vazão aos impulsos da carne. Ele é também 206
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 um momento marcado pelo envolvimento que caracteriza a mobilização dos moradores das Pedrinhas em prol da escola de samba.
A Escola de Samba, a mobilização, e os significados do carnaval nas Pedrinhas A Escola de Samba Unidos das Pedrinhas é acionada como a instituição mais representativa do bairro, tendo em vista que consegue mobilizar centenas de moradores e por ter a capacidade de modificar o cotidiano das Pedrinhas no período do carnaval. Ela é uma referência na identificação e na construção da imagem do bairro como maior expoente do carnaval de Sobral até hoje. Isso é corroborado na fala dos moradores entrevistados. É, sobretudo através dela, que alguns canalizam o sentimento de pertença não só pela agremiação, mas sobretudo, pelo bairro. No ano de 2008 a Escola de Samba Unidos das Pedrinhas completou 25 anos, chegando ao seu jubileu de prata e isto era apenas um dos motivos que excitavam ainda mais a população do bairro na época do carnaval. Nos dias que antecediam a festa, alguns moradores se reuniam num bar próximo ao barracão e a trilha sonora que alegrava o ambiente enquanto bebiam era o samba-enredo. Esse momento servia como um ensaio espontâneo e uma prévia do que ocorreria no dia do desfile. Ao caminhar pelas ruas do bairro pude ver crianças fazendo de latas e garrafas pet seus instrumentos e improvisando sua própria batucada. Aliás, as crianças e adolescentes compõem parte substantiva da bateria das Pedrinhas. Nos períodos em que estive presente no barracão observei a disposição dos moradores em ajudar na confecção das fantasias e na montagem dos carros alegóricos, de modo que o trânsito de pessoas no lugar era constante. A confirmação de que as Pedrinhas iria desfilar neste ano deixava radiante pessoas que, desde a fundação da escola, participam deste momento, ofertando sua disposição e força para que a Unidos das Pedrinhas desfile na avenida. A costureira Maria Helena reitera esse fato, pois segundo ela a escola: Envolve muito os moradores do bairro, inclusive quando a gente entra aqui ai já começa a aparecer gente pra, no caso, se você tiver alinhavando alguma coisa aparece um pede uma agulha e vai alinhavar; todo mundo coopera né; todo mundo fica vivendo aquilo ali, participa né, em arrumar. Chega, por exemplo fazer uma lista de pessoas das alas, tem uns que se encarregam pelo caderno; as vezes você quer pregar alguma coisa na fantasia eles estão ali, ajudam os aderecistas, ajudam muito os aderecistas. Eles são... o povo do bairro se empenha muito em ajudar. Eles vivem muito isso, [...] é tanto que o
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 carnaval aqui deixa todo mundo movimentado, é um entra e sai aqui dentro dessa escola que a gente vive muito isso porque o pessoal se envolve mesmo. Escola de samba envolve criança, velhos inclusive nós temos uma senhora que desfila com a gente ela tem 77 anos. Quer dizer, ela vive muito isso, ela é a primeira que chega perguntando qual vai ser a fantasia dela e a gente se preocupa em fazer uma coisa bonita pra ela [sic]. (entrevista com Maria Helena em 30/01/2008).
A afirmação da costureira, que trabalha para a escola desde os primeiros anos de sua fundação, de que “eles vivem muito isso” é reveladora do significado que a instituição carnavalesca tem para esses moradores que reservam uma parte de seu tempo cotidiano para colaborar com os trabalhos no barracão. Deste modo, a festa de carnaval se configura como um marco temporal regido sob o signo da identificação. Pelo que pude observar nestes três anos de pesquisa, a movimentação e o trabalho não acontecem o ano todo, portanto, o “tempo do carnaval” se constitui como outro tempo, demarcando um corte espaço-temporal no período do carnaval em que as relações sociais acontecem de forma diferente do restante do ano. O fato de “viverem isso” também revela que essas pessoas se transmutam para a instituição, como se ela fosse mais do que uma simples representante. Ali, são eles próprios, coletivamente, desfilando e mostrando-se aos expectadores. A oportunidade de estar durante algumas horas por vários dias no barracão foi importante também para ver as pessoas “comuns” expressando o que sentem pela escola de samba. Vi atitudes e sentimentos que antes só ouvira de meus entrevistados em suas falas. Notei pessoas simples, que não são líderes, que não ocupam funções no bairro que os tornem pessoas conhecidas, demonstrarem satisfação e alegria em estar ajudando a instituição. Lembro especialmente de dona Jacira, uma senhora de 77 anos que todos os dias freqüentava o barracão para ajudar as costureiras. Sua ajuda se limitava simplesmente a lavar alguns pratos e copos usados pelas pessoas ali. Isso pode ser muito pouco diante de outras atividades, mas justifica a identificação e o significado que a escola de samba tem para ela. A paixão pela agremiação é percebida na fala de Dona Liduina, de 52 anos, já citada anteriormente e que participa da escola desde sua fundação, quando era costureira. Ela fala com alegria e entusiasmo da instituição que, de acordo com a aposentada, é quem melhor representa a imagem das Pedrinhas. Orgulhosa da escola, ela discorre sobre as dificuldades do passado e como ela enxerga atualmente a agremiação:
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Ela não tinha condições, mas a gente levava com muito prazer; ela já saiu de várias, vários tipos de tecido, só não agora. Hoje ela já cresceu muito, dessa época pra cá, eu to contando da época que ela era pobre. Porque hoje eu considero a minha escola riquíssima hoje. De dois mil e... dois pra cá, ela melhorou muito.[...] hoje eu considero minha escola riquíssima mesmo, porque hoje tem muito do bairro; tem muito talento, aqui tem um celeiro de talento, aqui no bairro Pedrinhas, tem! Tem o aderecista, tem o que ajeita os tambores, tem quem faça as cangalhas, tem quem faça os carro. Naquela época ela não tinha nem carro pra sair. Era só mesmo os foliões na avenida... Mas hoje minha escola ta de parabéns, toda a vida, porque eu amo minha escola... [sic] (entrevista com Dona Liduina, em 30/01/2008).
O compromisso e o sentimento pela escola é expressado quando fala da falta de condições quando começou, pois ela diz que mesmo diante da precariedade vivida pela escola “a gente levava com muito prazer”. O que se percebe é que não é somente o desfile que está em jogo, mas o prazer, a alegria e o lazer que a instituição traz a sua vida. Penso que não somente a escola tinha dificuldades, mas a maioria das pessoas que se envolviam e o carnaval é um momento em que se esquecem as dificuldades do dia-a-dia e se extravasa a alegria. Neste sentido, ela define sua emoção: “porque eu amo minha escola”. O fato da riqueza da escola não estar relacionado somente ao aspecto financeiro, mas também a outros aspectos. Ela é rica “porque hoje tem muito do bairro”, o que significa dizer que a maioria dos integrantes moram nas Pedrinhas. A afirmação indica a pertença pelo lugar onde Dona Liduina reside e mostra que um dos diferenciais da escola de samba é que se encontra num “celeiro de talentos”, pois tem “o aderecista, tem o que ajeita os tambores, tem quem faça as cangalhas, tem quem faça os carro...”, isso dá mais valor à escola e também ao bairro. Dona Liduina mostra experiência de quem não só trabalha, torce, se diverte, mas também entende de carnaval, pois o carnaval não é só o desfile, mas envolve outras coisas que ela descreve como quem tem autoridade para falar. Ela diz: Porque eu acho que quando ela sai, só roupa não ganha carnaval, só roupa. Tem que ter o histórico da escola todinho na avenida. Você tem que levar uma escola pra avenida, você tem que levar de acordo com o samba enredo, porque ali eles tão observando o que tem na avenida o que ta no samba enredo. [...] E também carnaval é muito brilho, carnaval é luxo e brilho. Não importa o tipo de material, mas é importante que tenha o brilho. Carnaval sem brilho não é carnaval! [sic] (entrevista com Dona Liduina, em 30/01/2008).
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 Ela chama atenção para o brilho como elemento fundamental do carnaval. A necessidade do brilho tem uma dimensão estética e simbólica, pois o brilho realça, dá destaque e permite camuflar ou criar outras realidades. O brilho maquia, mascara não só a face, o corpo dos passistas, como também as tristezas, carências e necessidades cotidianas que muitos enfrentam. Sobre o dia da apuração, ela comenta: Ai! É uma emoção muito grande. Eu só chego lá pra saber o resultado depois da votação porque eu não tenho coragem de chegar até lá porque a emoção é forte. E quando é na avenida... acho que carnaval vem do sangue [...] carnaval ta no sangue; eu gosto de carnaval. Eu sou uma pessoa que eu sou muito vaidosa, eu gosto de carnaval [sic] (Entrevista com Dona Liduina, em 30/01/2008).
Com relação à apuração ela não assiste, pois “a emoção é forte” e mexe com os sentimentos opostos de euforia e decepção, dependendo do resultado. Emoção é algo que não pode faltar a quem entra na avenida e isso, segundo Liduina, é algo que “vem do sangue”. Outra característica que não pode faltar ao amante do carnaval é a vaidade, por isso ela diz: “Eu sou uma pessoa que eu sou muito vaidosa, eu gosto de carnaval...”. A vaidade assumida por Liduina remete ao momento em que a conheci no barracão da escola de samba. Estava filmando a movimentação no local e entrevistando algumas pessoas lá, quando de repente alguém me recomenda que entrevistasse Dona Liduina. Diante da sugestão, aceitei de imediato. Enquanto isso, foram chamá-la em sua casa. Ela tinha acabado de chegar do rio Acaraú, onde costuma lavar roupas. Quando chegou no barracão e me viu com a câmera, ela voltou imediatamente para casa, para trocar de roupa, se maquiar e se pentear para a entrevista. Dona Liduina não queria aparecer diante da câmera de qualquer jeito, o que mostra que ela realmente é uma pessoa vaidosa. Outra situação semelhante também presenciada no barracão aconteceu com o mestre sala. O rapaz tinha extraído um dente dias semanas antes do desfile e como não tinha condições de colocar uma prótese, pediu aos diretores da escola que o ajudassem financeiramente. Alegando falta de dinheiro, não puderam ajudá-lo. No dia do desfile o mestre-sala informou que não iria desfilar daquele jeito, para desespero dos diretores. Somente depois de muita conversa, o rapaz foi convencido a desfilar, mas passou todo o desfile sem dar um sorriso. A preocupação com a imagem, portanto, é algo presente entre
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 esses moradores, não somente com relação à aparência pessoal, mas também na questão das fantasias e adereços. O uso e a combinação das cores nas fantasias, a preocupação de relacionar as cores da escola com outras cores relacionadas aos objetos utilizados nos carros alegóricos são reveladores dos significados que as costureiras, carnavalescos e aderecistas projetam em suas criações, relacionando-as com o momento e o contexto espacial e temporal vividos pelos que fazem a escola. Para DaMatta (1997), o carnaval é um dos modos básicos de ritualização da realidade cultural brasileira. Através desta e de outras festas, segundo o autor, a realidade brasileira se desdobra diante de si mesma, projetando múltiplas imagens. O momento de criação das fantasias é sintomático dessa complexidade. Numa das reuniões em que estive, presenciei uma conversa entre compositor, aderecista, costureira e carnavalesco, que discutiam sobre as fantasias que seriam criadas, levando em consideração, obviamente, o samba-enredo. Lembro que em uma das alas idealizadas seria utilizado algo que simbolizasse o lixo. A aderecista discordou da idéia de usar a representação do lixo, pois segundo ela “carnaval é luxo e riqueza, não é pobreza na avenida”. A idéia de luxo e riqueza é contrastada com a própria condição social das pessoas que desfilam na escola, cuja maioria é pobre e vive sem “luxo” nenhum, apesar de que não foge aos padrões “normais” alguém querer ser rico. Como diz DaMatta (1997), o espaço do carnaval contempla não só rituais de inversão e como também a relativização das identidades dos atores sociais, característica de espetáculos populares em que o povo representa a si mesmo. É como se nesses quatro dias, sobretudo, durante o ritual do desfile, as pessoas deixassem seu ethos, seus costumes habituais de lado e se transportassem para outro plano, em que pudessem usufruir de tudo aquilo que lhes falta na “vida real”. Após o desfile, os moradores retornam aos seus lares e ao se despirem da fantasia, voltam à sua rotina cotidiana, esperando este momento ritual no ano seguinte. Para Balandier (1997), o rito é um processo adaptado a uma finalidade em que as liturgias, símbolos e discursos estão sempre contemplando o estabelecimento de uma ordem mítica. O mito da identidade coletiva do morador do bairro, dentre outros aspectos, é trabalhado neste processo ritual. A construção da identidade coletiva acontece, sobretudo, por meio da mobilização social, seja em associações, ou em instituições que de alguma forma 211
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 consigam agregar pessoas em torno de algum objetivo. Silva (2000), afirma que a definição da identidade e da diferença também está relacionada a uma disputa de poder que traduz o desejo de acesso aos bens sociais de ordem simbólica, material e política. As identidades são construções do mundo cultural e social e, portanto, são fabricadas Penso que a escola de samba das Pedrinhas se encaixa nesta discussão. Em questão, está muito mais que um título de campeã. Percebo que a preocupação em demarcar um campo espacial e simbólico está entre os interesses dos sujeitos envolvidos na instituição. Tornar-se a melhor e uma referência no carnaval da cidade são alguns de seus objetivos. Estas ambições pleiteadas pela escola são fundamentais para consolidar uma imagem projetada dentro e fora do bairro. Entretanto, na prática cotidiana, os agenciamentos individuais e coletivos nem sempre seguem a prescrição idealizada no conceito de “comunidade” que, segundo Castiel (2004), contempla uma localidade geográfica caracteriza pela proximidade tanto física quanto do ponto de vista das relações sociais entre moradores. O espaço das relações sociais também é cenário de contradições e múltiplas perspectivas sobre o lugar no qual se vive. No bairro Pedrinhas, essas múltiplas percepções acabam sendo qualificadas como subversão, dependendo de quem julga. Nas caminhadas pelo bairro pude ouvir comentários e críticas sobre a postura dos dirigentes da escola. A conduta destes, a forma como administram ou como usam a escola de samba eram motivo para críticas e reprovações. Algumas destas pessoas hoje não se integram mais à escola e sua postura soa como uma oposição tácita aos que lá estão. Todavia, para os que fazem a escola essas pessoas que criticam são inimigas, não só da escola, mas também do bairro. São pessoas que, de acordo com os diretores, não desejam ver as coisas dando certo. A ambigüidade nesta situação é que tanto a acusação dos primeiros, quanto a defesa dos segundos são pautadas num discurso de “amor à comunidade”. Desta forma, as visões que se têm a respeito da comunidade são ambíguas e contraditórias. Através do carnaval e sua riqueza simbólica, podem-se propagar ideologias, sentimentos, perspectivas e tendências de um grupo que os articula politicamente num quadro coletivo, como se fossem ideais da “comunidade”. Um momento exemplar desta ação é a composição do samba-enredo da escola. No carnaval deste ano, a letra do samba fazia referência a várias personalidades da cidade, inclusive o atual governador do Estado Cid Gomes (2006 – 2010), que é sobralense. Sem desconsiderar a proposta e a coerência
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 do samba-enredo, bem como o contexto cultural, social e político vivido nesse momento por aqueles que são responsáveis pela escola de samba das Pedrinhas, percebo também que a letra da música pode ser um artifício, entre outras coisas, para conquistar apoio político e/ou financeiro, configurando uma espécie de permuta. Desta forma, quem homenageia conquista recursos financeiros e o homenageado ganha um espaço de destaque, não só por ser citado na letra da música, mas por ter sua imagem divulgada enquanto a agremiação desfila na avenida. Divulgada não só pela citação da letra, mas por poder desfilar como destaque nos carros alegóricos. No entanto, essa troca nem sempre reflete o desejo dos moradores do bairro representado pela escola. Assim, os interesses e arranjos daqueles que estão à frente da instituição são colocados como se fossem interesses representativos do bairro. Durante os dias que antecederam o desfile não ouvi nenhum comentário que desqualificasse a letra do samba, ou que discordasse da homenagem aos personagens citados na mesma, pelo contrário, para alguns, isso engrandecia não somente a música, mas também a escola das Pedrinhas por estar fazendo referência a pessoas bastante conhecidas na cidade. Chamo atenção apenas para esses agenciamentos que articulam interesses pessoais ou de poucos e o interesse coletivo, da “comunidade”, se é que ele existe. Todavia, essa reciprocidade pode eventualmente favorecer o bairro quando seus habitantes estão pleiteando recursos e obras de responsabilidade do poder público. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do que foi colocado acima, penso que o carnaval adquire uma importância significativa no cotidiano dos moradores do bairro Pedrinhas, pois evidencia alguns elementos que constituem as relações sociais entre os moradores como as sociabilidades praticadas por diversos grupos, desde as crianças até as pessoas mais idosas, como foi mostrado. No aspecto da festa, enquanto ritual, pode-se observar que a ocasião é esperada com expectativa pelos homossexuais que enxergam o carnaval como espaço não se de inversão, mas de intensificação das identidades e das práticas que em outros dias seriam censuradas e reprovadas pela sociedade. Além disso, o carnaval, através da existência da escola de samba, consegue mobilizar muitos moradores que ficam ansiosos para ajudar a colocar na avenida a instituição que mais representa e apresenta as Pedrinhas ao restante da cidade. Muito
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Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 deles, dedicando o tempo de lazer ou de folga do trabalho, procuram contribuir de alguma forma para que sua escola saia bonita no dia do desfile. Do mesmo modo, o processo de mobilização também apresenta seus momentos tensos e conflitivos, principalmente quando instituições como a agremiação carnavalesca, supostamente é utilizada para beneficiar pessoas ou pequenos grupos em detrimento de toda a “comunidade”. A festa também é vivenciada por alguns moradores, como um momento de relativização e idealização de identidades, tendo em vista que a forma como trabalham, pensam e significam o carnaval, no que diz respeito ao cuidado com a imagem, a criação e os adereços das fantasias, demonstram as identificações imaginadas e incorporadas no período do ritual. Referências bibliográficas AMARAL, Rita. 2001. Festa à Brasileira: sentidos do festejar no país que "não é sério". Disponível em publicação eletrônica (e.book) na internet, via URL: http://www.aguaforte.com/antropologia/festaabrasileira/festa.html. Capturado em 08/10/2008. BALANDIER, Georges. A desordem: elogio do movimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. CASTIEL, Luis David. 2004. Promoção de saúde e a sensibilidade epistemológica da categoria 'comunidade'. Rev. Saúde Pública. vol. 38, no. 5 pp. 615-622. DAMATTA, Roberto. 1997. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ªed., Rio de Janeiro, Rocco. DAWSEY, John C. 2006. Turner, Benjamin e Antropologia da Performance: o lugar olhado e ouvido das coisas. Revista Campos, 7 (2), 17 – 25p. MAUSS, Marcel. As técnicas do corpo. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo, Cosac Naify, 2003. SAMAIN, Etienne. 1984. Reflexões críticas sobre o tratamento dos mitos. Revista de Antropologia, vv. 27-28, São Paulo. SILVA, Tomaz Tadeu da. 2000. Identidade e Diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, Vozes. SILVA, Marco Aurélio. 2008. O carnaval das identidades: homossexualidade e liminaridade na ilha de Santa Catarina. http://www.antropologia.com.br/arti/arti_ant.html, edição 22. Consulta em 21/09/2008. TURNER, Victor. 1974. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-Estrutura. Petrópolis, Vozes.
Entrevistas citadas Ednaldo das Neves – 17/01/2007 José Arteiro Ribeiro – 23/04/2006 214
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA Centro de Ciências Humanas-CCH Revista Homem, Espaço e Tempo Setembro de 2008 ISSN 1982-3800 Maria Helena Ferreira – 31/01/2008 Maria LiduinaVenuto – 31/01/2008
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