RENATO SANTIAGO BUENO
SAMBA, ESCOLAS DE SAMBA E POLÍTICAS PÚBLICAS NA
CONSTRUÇÃO DA PASSARELA DO SAMBA NEGO QUIRIDO EM FLORIANÓPOLIS (1980 -1989)
FLORIANÓPOLIS - SC 2008
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO - FAED DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
RENATO SANTIAGO BUENO
SAMBA, ESCOLAS DE SAMBA E POLÍTICAS PÚBLICAS NA
CONSTRUÇÃO DA PASSARELA DO SAMBA NEGO QUIRIDO EM FLORIANÓPOLIS (1980 -1989)
Monografia apresentada ao Departamento de História do Centro de Ciências Humanas e da Educação – CCE/FAED, como requisito parcial para a obtenção de título de Bacharel em História. Orientador: Prof. Dr. Francisco Cardoso.
FLORIANÓPOLIS INVERNO/ 2008
Paulino
de Jesus
RENATO SANTIAGO BUENO
SAMBA, ESCOLAS DE SAMBA E POLÍTICAS PÚBLICAS NA
CONSTRUÇÃO DA PASSARELA DO SAMBA NEGO QUIRIDO EM FLORIANÓPOLIS (1980 -1989)
Trabalho de conclusão de curso aprovado como requisito para obtenção do grau de Bacharel
em História, no Curso de Graduação em História do Centro de Ciências Humanas da Educação CCE/FAED, da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC.
Banca Examinadora:
Orientador: _______________________________________ Prof. Dr. Paulino de Jesus Francisco Cardoso (UDESC)
Membro: _________________________________________ Prof ª. Drª. Janice Gonçalves (UDESC)
Membro: __________________________________________ Profª. Dra. Marilange Nonnenmacher (UDESC)
Florianópolis, 09 de julho de 2008.
Á mágica escrete do E.C Noroeste de 2004, por conseguir o que ninguém esperava. Ao retumbante time do Santos F.C por transformar em festa todos os domingos de 2002.
AGRADECIMENTOS
Agradeço para aqueles, por aquilo. Porém, quilos e quilos de “Obrigado!” não vão me agradecer. O que posso (e consigo fazer) é deixar na memória um selo de garantia escrito assim: “vai por mim, vocês serão eternos enquanto essa cachola viver”
Agradeço aqueles que não me atrapalharam. Aos que me ajudaram, ofereço mais do que isso. Podem cobrar.
A coerência é o ultimo refúgio dos que não tem imaginação Oscar Wilde
RESUMO
O estudo tem como objetivo apontar as relações entre Estado e Cultura no contexto da construção da Passarela do Samba “Nego Quirido” em Florianópolis. Busca discutir as transformações ocorridas no carnaval da cidade durante o século XX e perceber na festa um importante agente de diálogo entre as classes populares e o poder público. Para a pesquisa, foram utilizadas matérias dos jornais “O Estado” e “Diário Catarinense” referentes ao período de 1988 e 1989, época da construção do sambódromo, além da bibliografia disponível sobre o carnaval brasileiro e, sobretudo, da capital catarinense.
Palavras-chave: Cultura. Carnaval. Políticas Culturais. Escolas de Samba. Santa Catarina.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 8 1. O LUGAR DO CARNAVAL EM FLORIANÓPOLIS................................................. 12 1.1. AS ESCOLAS DE SAMBA EM FLORIANÓPOLIS NO SÉCULO XX .............. 19 2. AS (NOVAS) RELAÇÕES ENTRE ESTADO E CULTURA ...................................... 27 2.1 O “TURISMO REDENTOR” COMO OPÇÃO E VOCAÇÃO DA CIDADE ....... 30 2.2 A CULTURA COMO UM AGENTE MODERNIZADOR................................... 34 3. A CONSTRUÇÃO DA PASSARELA DO SAMBA “NEGO QUIRIDO” .................. 39 3.1 1988: O ANO DO CARNAVAL SEM DESFILES ............................................... 40 3.2 1989: A INAUGURAÇÃO DA “NEGO QUIRIDO” ............................................ 44 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 50 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 52 FONTES ............................................................................................................................. 55 ANEXOS ............................................................................................................................ 56
8
INTRODUÇÃO Trabalhar com o tema cultura é uma tarefa complicada, visto as milhares de
interpretações que se pode tomar do assunto, de acordo com as conveniências e interesses de cada um. Para esta monografia, resolvi buscar um sentido onde as manifestações culturais adquirissem um relevo sócio-político, por acreditar que, mais do que qualquer outra instância, ainda é possível trabalharmos com certos aspectos pouco explorados dentro desse horizonte.
Então, o presente texto trata de, a partir de uma análise histórica, observar a crescente
dimensão que a cultura vem adquirindo no cenário sócio-político local, tendo como foco a construção da passarela do samba e o carnaval de Florianópolis.
Ritos, rituais. Carnaval, carnavais. Toda cidade carrega uma série de símbolos e rituais,
que lhe dão características especiais e distintas. Servem para recriar as tradições e despertar um sentimento de identidade, de pertencimento do cidadão ao espaço social em que vive.
Segundo Raymond Williams, na prática, a tradição é a expressão mais evidente das pressões e limites dominantes e hegemônicos. Assim, as tradições são sempre seletivas: “Uma versão
intencionalmente seletiva de um passado modelador e de um presente pré-moldado, que se torna poderosamente operativa no processo de definição e identificação social e cultural” 1
Para além da tradição, os eventos ritualísticos servem também para criar um laço ainda
maior: a distinção de uma cultura específica, seja ela de nível regional ou mundial. Essa
diferenciação confere um caráter exclusivo, capaz de se tornar um elemento atrativo para uma série de utilizações, nos mais variados âmbitos. No caso de uma cidade, a realização de
propagandas turísticas e manobras políticas para um determinado fim é um exemplo dos possíveis usos da tradição. Assim, criam-se mais do que elementos festivos, encerrados tão
somente no intuito da celebração: é estabelecida uma série de diretrizes que combinam as práticas populares com os planos políticos. De acordo com Antonio Villaroya:
Transformar a vida social em vida pública, fazer a festa, é uma atividade disputadíssima em toda sociedade, um território pelo qual distintos grupos sociais lutam para desfrutar. Festa é coisa de quem tem muito a fazer, daqueles que desejam controlar ou pelo menos influenciar na promoção da identidade de um grupo social. 2
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 75. VILLAROYA, Antonio Ariño. La ciudad ritual. La fiesta de las fallas. Barcelona, Antrophos; Madrid: Ministerio da Cultura, 1992 apud FERNANDES, Nelson da Nóbrega. Escolas de samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados - Rio de Janeiro, 1928-1949. Rio de Janeiro: Secretaria das Culturas, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2001. p. 36.
1 2
9 Porém, essa dinâmica não se encerra apenas na atuação dos protagonistas
pertencentes aos grupos dominantes. O entendimento se torna mais complexo, e também mais evidente, quando a memória dos organizadores dos festejos vem a tona, contribuindo para dar
visibilidade a outras percepções sobre a realização das festas. Deste modo, constitui uma tarefa importante ressaltar qual o lugar de cada agente diante desse acontecimento e distinguir onde cada sujeito celebrante realiza uma interpretação própria da celebração, da forma e
conteúdo daquilo que é festejado. Sem dúvida, as festas podem ser encaradas como um mediador cultural. De acordo com Rita Amaral, capaz de, conforme o contexto, diluir, cristalizar, celebrar, ironizar, ritualizar ou sacralizar a experiência social particular dos grupos que a realizam. É ainda o modo de se resolver, ao menos no plano simbólico, algumas das contradições da vida social, revelando-se como poderosa mediação entre estruturas econômicas, simbólicas e míticas e outras, aparentemente inconciliáveis. 3
Dentre as inúmeras festas populares do país, o carnaval, analisado por vários ramos
das ciências humanas, é fonte inesgotável de investigações, visto o seu caráter transformador e dinâmico. No dizer de José Carlos Sebe, “[...] um imenso laboratório onde também se
processam as transformações sociais ocorridas no país” 4. Há vários trabalhos que procura desvendar suas relações, seus significados e suas estruturas, sobretudo no Rio de Janeiro,
cidade considerada como o “berço do samba”. Porém, quando os olhares se focam em outras direções, se percebe que a importância do carnaval como algo além dos festejos não se aplica apenas á capital fluminense.
Talvez inesperado por aqueles que desconhecem a trajetória cultural de Florianópolis,
as escolas de samba da cidade nos revelam uma história ainda mal contada, aonde transparece a questionada “invisibilidade” das populações de origem africana, na capital dos catarinenses, imaginado como o “mais europeu” do Brasil.
Sendo assim, nossa investigação está organizada da seguinte forma: o primeiro
capítulo tem como objetivo, na medida do possível, compreender a trajetória do carnaval e da inserção da população de origem africana e afrodescendente na cidade, e de que modo essa população foi inserida na sociedade e como a sua atuação influenciou nas festas de carnaval,
traçando um breve histórico desde a antiga cidade de Desterro até a Florianópolis
contemporânea. Através dessa análise será possível apontar uma dinâmica que vai ocorrer no final dos século XIX e ao longo do século XX: a ocupação das ruas pelas classes populares e sua conseqüente tentativa de expulsão por parte das elites. 3 4
AMARAL, Rita. Festa á Brasileira: Sentidos do festejar no país que “não é sério”. São Paulo. SEBE, José Carlos. Carnaval, Carnavais. Ed. Ática, São Paulo, 1986. p.76.
10 Nesses termos, este capítulo busca perceber em momentos como as reformas urbanas
do início do século XX e nas constantes transformações espaciais do carnaval, alguns exemplos desse movimento de ocupação/expulsão, e como o advento das escolas de samba na primeira metade do século significaram uma reconstrução destes territórios urbanos a despeito de uma política de invisibilização da presença africana em nossa cidade.
Dessa forma, as escolas de samba e, conseqüentemente a população em geral, adquirem uma importante relevância no cenário sociocultural - a ponto do carnaval se tornar uma das principais festas do calendário festivo da cidade. É o entendimento desse processo
que confere sua especificidade e revela o lugar do samba e das escolas de samba em Florianópolis. Na medida em que o carnaval ganha importância no cenário cultural florianopolitano e
brasileiro, o controle e gerência da festa se tornam mais complexo e abrangente. Com a descoberta dos desfiles como uma opção turística, o carnaval passa a ser considerada uma fonte de renda, que não só ganharia através dos ingressos, mas também pelos impostos sobre a circulação de mercadoria e, posteriormente, sobre a concessão para transmissão em canais
de televisão. Está criada uma dinâmica em que as escolas de samba se transformam em chamariz para aumentar as fontes de renda do Estado, advindo da indústria do turismo. Neste sentido, no segundo capítulo, buscamos entender o contexto onde se dá a
crescente valorização do potencial turístico da cidade e a incorporação das festas pelo poder
público, como um agente de modernização cultural. Se no início do século XX as camadas populares foram consideradas como um elemento contrário á civilização e modernização, a
partir das décadas de 1970 e 1980, suas práticas culturais passam a ser como um fator indispensável para a estrutura da indústria do turismo.
Para entender esta problemática, serão levados em consideração os estudos de Nestor
Garcia Canclini, onde o autor procura elucidar quais as especificidades do movimento de modernização na América Latina.
Para concluir o trabalho, o terceiro capítulo procura analisar a construção da passarela
do samba “Nego Quirido” através da análise dos jornais “Diário Catarinense” e “O Estado”, partindo das premissas estabelecidas nos capítulos anteriores, entendendo esse momento como um dos exemplos de estreita relação entre Estado e Cultura, onde o uso das tradições se torna fator preponderante, tanto no seu aspecto social, quanto econômico. Por final, este trabalho não pretende ser conclusivo, mas procura apontar possíveis
saídas para a problemática aqui estabelecida. Por se tratar de um tema tão abrangente, não é
intenção do estudo estabelecer um contato mais aprofundado com diversas estruturas que
11
contribuem para um entendimento global do assunto, como as parcerias público-privadas, as indústrias culturais, assim como uma discussão acerca dos conceitos de tradição, cultura popular e cultura de massa.
12
1. O LUGAR DO CARNAVAL EM FLORIANÓPOLIS
Neste primeiro capitulo, serão abordados alguns aspectos da relação entre as elites e os
grupos populares, em especial as populações de origem africana em Florianópolis ao longo do
século XX, com o intuito de apreender qual a relevância do samba e das escolas de samba, em especial neste contexto. Para tal, será necessário esboçar um pequeno panorama do ambiente
sócio-cultural da cidade, de finais do século XIX, até Florianópolis da década de 1980, para entender as relações, as mudanças e permanências. Não temos a intenção, ainda, de elaborar
uma genealogia da população de origem africana, tampouco do samba, na medida em que existem vários estudos específicos sobre essas questões. Então, trataremos apenas das informações adequadas ao objeto deste estudo. 5
De certo modo, tanto em matérias jornalísticas como na literatura sobre a temática é
recorrente tomar as experiências das grandes metrópoles, como o Rio de Janeiro, como modelo para outras regiões do país.. No caso deste trabalho, a comparação com a capital
carioca será possível e viável em dados momentos, visto que o assunto em questão e parte da bibliografia consultada sobre o carnaval, e mais especificamente, a construção da passarela do
samba encontra nesta cidade a sua maior expressão. Porém, vale ressaltar que, as experiências
aqui descritas, ao contrário do que convencionalmente é pensado, não estão dadas como uma regra pré-estabelecida. A partir desse esboço proposto, será possível apontar o convívio entre luso-brasileiros, imigrantes e africanos, onde seus habitantes testemunharam uma cidade multicultural, “portuguesa, oitocentista e profundamente marcada pela presença africana” 6, que tinha a rua como o seu lugar por excelência. No final do século XIX e início do século XX, os espaços públicos da cidade passaram
por um processo de reformas sanitárias e urbanas, com o propósito de remodelar a paisagem urbana e produzir melhores condições para a capital do Estado, o que, segundo Hermetes Reis, implicava também na produção de novos hábitos, representações e comportamentos em Para trabalhos sobre o samba, ver SODRÉ e VIANNA. Sobre a origem da população afro-descendente em SC, ver FREITAS, Patrícia de. Margem da Palavra, silêncio do número. O Negro na historiografia de Santa Catarina. Florianópolis, 1997, Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal de Santa Catarina. 6 CARDOSO, Paulino de Jesus. Em busca de um fantasma: as populações de origem africana em Desterro, Florianópolis, de 1860 a 1888 in: PADÊ: estudos em filosofia, raça, gênero e direitos humanos. UniCEUB,FACJS, Vol.2,N.1/07 p.13 5
13 consideráveis segmentos de sua população que lentamente crescia. 7 Entre os resultados dessa remodelação está a restrição à moradia e ao desenvolvimento de atividades econômicas tradicionais (lavadeiras, quitandeiros e pombeiros) das classes populares do centro da cidade, que passaram a residir nos morros distantes a época, como as ruas Crispim Mira e Morro do Antão. Impelidas ao isolamento social, essa parcela encontrou no samba e nas escolas de samba um mecanismo, dentre outros possíveis, para restabelecer contato com a rua e voltar a ocupar o lugar que lhe fora tirado arbitrariamente. Analisada a partir dessa dinâmica de expulsão e retorno dos grupos populares ás ruas, que ocorreu nos séculos XIX e XX, será
possível apreender a importância do carnaval e das escolas de samba na capital catarinense
como um agente capaz de mediar o precário contato das populações marginais com os espaços públicos, até mesmo com o Estado.
Hermetes Reis do Araújo, Joana Maria Pedro, Roselane Neckel, entre outros, já
indicaram que as práticas sociais destes grupos foram consideradas obstáculos ao processo de civilização da cidade. Nestas práticas desde o século XIX, o combate ao entrudo –
considerado como o princípio dos festejos carnavalescos no Brasil - nos possibilita perceber
os esforços das populações marginais em se representar e garantir o mínimo de espaço para os seus rituais e confraternizações. 8 Predominantemente
portuguesa,
a
brincadeira
não
previa
a
inclusão
de
afrodescendentes ou mesmo de trabalhadores luso-brasileiros sem posse alguma. Como é possível perceber através do livro de Cristiana Tramonte, as brincadeiras ocorridas em
Desterro não se diferenciaram do resto do país, tanto em seu aspecto segregacionista, como pelos métodos de sua prática.
9
Porém, mesmo sob vigilância, a população cativa e os
marginalizados encontraram meios de se festejar, longe das vistas dos senhores e da polícia. É
nessas atitudes e comportamentos que se visualiza uma Desterro transgressora, capaz de não se submeter completamente ás condições impostas. Evidências desse caráter apareciam com
freqüência nos jornais da época, onde os senhores publicaram notas anunciando a fuga de escravos ou mesmo solicitando prisões, motivados por insubmissão ou má conduta.
Em oposição ás praticas populares, discriminadamente caracterizadas como um sinal
de atraso e ignorância, as elites da província procuraram reprimir de qualquer maneira tais ARAÚJO, Hermetes Reis de. A invenção do Litoral: Reformas Urbanas e Reajustamento Social em Florianópolis na Primeira República. São Paulo. Dissertação de Mestrado em História, PUC, 1989. p.45. 8 Como um outro exemplo, é possível citar o caso das Irmandades. Para mais detalhes sobre as Irmandades em Desterro, ver SIMÃO, Maristela dos Santos: Lá vem o dia a dia, lá vem a virge Maria. Agora e na hora de nossa morte: A Irmandade da Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, em Desterro (1860 – 1880). Monografia (Graduação em História) – Centro de Ciências Humanas da Educação - UDESC. Florianópolis, 2006. 9 TRAMONTE, op.cit. p. 68 7
14 manifestações. Assim como escreveu o folclorista Mello Moraes Filho, em 1890,
considerando o entrudo “(...) um costume especial que recebemos da antiga metrópole, com toda a sua bagagem de desmandos nocivos e alegres”10, os influentes da política local gostariam de esquecer seu passado colonial, tal como se vira uma página de um livro. Citado por Thaís Colaço, as seguintes palavras de Oswaldo Cabral também ganham espaço neste
trabalho: “[...] em verdade, tudo que havia de bom, capaz de distrair, de divertir, de dar um pouco de alegria á população, coletivamente, as Posturas, as famigeradas Posturas,
proibiam”11. Talvez nem tão simples assim. Não era apenas a questão da alegria que estava em cheque. Era de interesse “civilizatório” botar abaixo essas manifestações.
Peça importante na reestruturação do comportamento desterrense, o entrudo passou a
ser perseguido e repelido pela opinião pública, e ganhou certas condições para se realizar:
É permitido ás pessoas decentes o antigo uso do [...] entrudo, somente nos três dias do costume, empregando para isso os limões de cheiro [...]. Fica absolutamente proibido usar outra coisa para tal divertimento que não sejam os limões. Não se consentirá que os cativos andem nas ruas ocupadas pelo divertimento, de qualquer maneira que ele seja, sob pena de 24 horas de cadeia. 12
E, com o passar do tempo, passou a ser proibido:
Art. 1º - Fica proibido o jogo do entrudo, bem como a venda dos chamados limõesde-cheiro. Os contraventores pagarão 5$000 réis de multa, e o dobro na reincidência, perdendo, além disso, os limões-de-cheiro, os vendedores ou seus donos. 13
Sem limão, nem diversão.
A questão central da proibição das festas não está na repreensão aos momentos de
alegria, como se a ilha estivesse fadada a não festejar. O que não era previsto, nem quisto, é
que todos pudessem sair ás ruas, atirando água, limões de cheiro, todos contra todos, num QUEIRÒZ, Maria Isaura Pereira de. Carnaval Brasileiro: o vivido e o mito. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1992. p. 160. 11 CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Nossa Senhora do Desterro: memória I e II, notícia I e II. Florianópolis, Imprensa Universitária, 1971 apud. COLAÇO, Thais Luzia. O Carnaval no Desterro. Século XIX. Florianópolis: UFSC, 1988. Dissertação (Mestrado em História) – Curso de Pós Graduação em História, Universidade Federal de Santa Catarina. p.151 12 Esta citação de lei foi retirada da dissertação de Thaís Colaço, p. 153 e pode ser encontrado em: SANTA CATARINA. Leis, decretos, etc. Resolução nº 429, artigo 130, cap XII, rendas municipais. Desterro, 28 de março de 1857. (mss.)./ Arquivo Público do Estado de Santa Catarina. 13 Esta citação de lei foi retirada da dissertação de Thaís Colaço, p 154 e pode ser encontrado em: SANTA CATARINA. Leis, decretos, etc. Lei nº 625. : posturas. [Desterro]/ s.n, 11 junho 1869. Arquivo Público do Estado de Santa Catarina. 10
15 ritual coletivo (até mesmo violento) e popular. Nem todos eram considerados dignos de festejar e, isto sim, vai levar a uma adequação daqueles que ainda queriam fazer folia, mas com os seus pares e do seu jeito. A partir daí, surgiram as Sociedades Carnavalescas, que, como o próprio nome já
sugere, é um grupo fechado, de pessoas vinculadas ás elites locais. A criação das sociedades, porém, não extinguiu totalmente o entrudo. Em certos momentos, as duas se realizaram
concomitantemente. Coube á brincadeira o papel de “prévia” dos desfiles das sociedades carnavalescas. No entender de Maria Isaura Pereira de Queiróz, as agremiações superaram uma
primeira etapa, o entrudo, e iniciou - se uma nova fase do carnaval, chamada de “Grande Carnaval” - com níveis de organização inéditos para a época, já que, para a antiga prática, era necessário apenas sair ás ruas e se munir de limão de cheiro. Marcado por se passar na
segunda metade do século XIX, o “Grande Carnaval” foi influenciado pelos bailes realizados na Europa, sendo chamado também de “Carnaval Veneziano”. Essa nova configuração do carnaval desterrense previa desfiles, bailes fechados, com sócios - e não participantes -,
detalhe este que representa o diferencial de Desterro para as sociedades carnavalenses carioca.14 Com a presença de grandes personalidades da época, as sociedades extrapolaram a sua característica festiva, para também atuar no campo político.
Freqüentado pelas elites, os bailes das sociedades adquiriram grande importância para
a vida social da cidade, pois ali se apresentava como uma ótima oportunidade para incentivar
hábitos e formar opiniões. Assim, sob influências abolicionistas, algumas sociedades se
vincularam á idéia, a ponto de organizarem bazares com cartas de alforria e promoverem um bando precatório em favor da liberdade dos escravos. Tamanha foi a influência das agremiações, que a Sociedade Carnavalesca “Diabo Á Quatro” ganhou o título de Benemérita por parte da Câmara Municipal de Desterro15.
Interessada na promoção do trabalho livre, as agremiações tinham em mente a
construção de uma sociedade moderna, capitalista, pois era preciso a introdução de novos mercados consumidores para a indústria emergente. Como ocorreu em todo o Brasil após a abolição do trabalho escravo, o alforriado foi transformado em consumidor e, sob essa
condição, foi forçado á uma situação de isolamento disfarçado, já que agora o trabalhador era livre, mas sem direito ao trabalho ou algo que lhe garantisse um sustento independente e digno. Para exemplificar as reais intenções das sociedades carnavalescas, Thaís Colaço, que 14 15
TRAMONTE, op. cit., p. 77. COLAÇO, op.cit. p.197.
16 na sua dissertação de mestrado em História estudou as sociedades carnavalescas de Desterro no século XIX, afirma que não há registros de ingresso de ex-escravos nas mesmas.16
A visibilidade das Sociedades Carnavalescas perante a opinião pública lhe garantiu um
novo título, mais pomposo. Passaram então a se chamar “Grandes Sociedades”, cada vez maiores, mais onerosas e mais elitistas.
Assim, as condições de participação dos africanos e seus descendentes no carnaval
“oficial” se reduziram a manifestações organizadas pelos próprios, quando realizavam o
“cordão dos velhos”, o cacumbi - autos populares negros que representam a morte e a ressurreição de um príncipe africano,
17
e o famoso “Zé Pereira”, uma andança de um sujeito
qualquer portando uma fantasia e um bumbo, seguido por populares. Segundo Mariza Lira, os cordões surgiram como “um desabafo do povo contra as pressões que vinha sofrendo desde os tempos da Colônia”. 18 Nas palavras de Tramonte, “[...] o Grande Carnaval se definia assim, nessa época,
como um folguedo das camadas urbanas médias e altas; as camadas inferiores forneciam mãode-obra para sua realização e público para aplaudir ou vaiar os cortejos”. 19
É um tanto perigoso afirmar essa posição passiva dos populares, mesmo se analisada
somente no “Grande Carnaval”, e não pode ser considerada como a única interpretação histórica possível para a atuação das classes populares na sociedade. A idéia de se pensar na
inatividade dos escravos, libertos ou luso-brasileiros pobres na cena cultural, adquire relevância apenas se ponderarmos a cultura das elites como única portadora de significados relevantes para o estudo das transformações ocorridas no carnaval ao longo dos tempos.
Considerar a contribuição do africano e seus descendentes somente a partir das escolas
de samba é um equívoco, pois é justamente no período de repressão de suas manifestações
culturais, ao longo do século XIX, que se encontra o embrião de toda a força que a cultura negra irá possuir no decorrer do século XX. Concordando com Rachel Soihet na sua análise do carnaval carioca, é possível transferir esta idéia para a realidade desterrense:
Fruto dessa resistência desenvolvida pelos populares e da mudança da posição dos dominantes, sua cultura não só sobreviveu como veio marcar a própria sociedade 16
Idem, p.201. Para mais detalhes sobre o cacumbi, ver ALVES, Jucelia Maria; LIMA, Rose Mery de; ALBUQUERQUE, Cleidi. Cacumbi: um aspecto da cultura negra em Santa Catarina. Florianopolis: Ed. da UFSC: Secretaria da Cultura e do Esporte, 1990. 18 LIRA, Mariza. Calendário Folclórico do Distrito Federal apud. SOIHET, Rachel. A subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca da Belle Époque ao tempo de Vargas. Ed. Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1998. p.73 19 TRAMONTE, op.cit. p.83 17
17
brasileira. (...) Assim, essa influencia não só teria supremacia no universo dos populares, como acabaria mais tarde, a partir da década de 30, caracterizando o carnaval carioca como um todo. 20
A partir do momento em que a cidade entrou de vez na dinâmica do mercado interno,
novas vias de comunicação se configuraram entre Desterro e Rio de Janeiro, a então capital do Império. Influenciada pelo ímpeto modernizador que se instalou na capital, o desejo de ser
moderna também invadiu o sentimento das elites desterrenses, que logo se espelhou no molde carioca, que, por sua vez, se espelhava nas práticas européias para transformar a cidade, ou
pelo menos imaginá-la assim. Este processo de modernização da cidade interferiu não apenas no plano urbanístico, mas também no modus vivendi de toda a sociedade, que, a partir dessas
reformas, se adequou, de uma forma ou de outra, ás novas práticas e condutas, que predominaram ao longo do século XX. 21
Para as classes populares, o momento representou mais um esforço das elites em
tornar invisível a sua presença no contexto urbano da cidade. Como resposta, ou
conseqüência, surgiram novos territórios no centro da cidade, e desses novos espaços, se organizaram os ranchos e blocos carnavalescos que, posteriormente, serviram de suporte para a fundação das primeiras escolas de samba de Florianópolis.
Esse afã remodelador que imperou na cidade nas três primeiras décadas do século XX
implicou sobretudo na limpeza e reorganização urbana e social. A partir das reformas que
ocorreram, a paisagem da cidade e seus usos e concepções, se tornaram exclusividade das elites, que planejaram outro tipo de vida urbana, uma convivência mais disciplinada, diferente daquela vivida pela “antiga” província de Desterro,
22
que, através do porto, testemunhara a
presença das mais variadas figuras: estrangeiros, comerciantes, escravos, libertos, trabalhadores pobres e componentes da elite. Não era mais aceitável para as elites que, no mesmo lugar em que as famílias tradicionais pegavam a lancha para se transportar para o continente, existissem as prostitutas,
20
SOIHET, op cit. p.179. É nesse contexto da Republica Velha, período entre 1889 e 1930, que houve também uma mudança nos cargos e mandos locais, possibilitando a emergência de políticos como Lauro Muller, Hercílio Luz e Vidal Ramos, assim como o fortalecimento do PRC (Partido Republicano Catarinense). Essa elite política será protagonista no cenário catarinense ao longo do século, e, na maioria das vezes foi sob influência de representantes dessa elite política que o desfile das escolas de samba se estabeleceu. Para mais detalhes sobre as relações políticoempresariais de Santa Catarina, ver MAY, Patricia Zumblick Santos. Redes político-empresariais de santa Catarina (1961- 1970). Dissertação (mestrado em História) – UFSC, Florianópolis, 1998. 22 Nossa Senhora do Desterro teve seu nome modificado para Florianópolis em 1894. Para mais sobre o assunto, ver CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Nossa Senhora do Desterro. Memória II.Ed. Lunardelli, Florianópolis, 1974. 21
18 vendedores de amendoins e balas, enfim, “vagabundos” em geral. Talvez essa imagem da população pobre dividindo o mesmo espaço com as classes mais abastadas traduza um pouco a antiga cidade multicultural citada no inicio do capítulo. Para uma noção do que foram as reformas urbanas e higienistas em Florianópolis,
serão citados alguns exemplos presentes na dissertação de mestrado em história de Hermetes Reis de Araújo, capazes de traduzir o caráter dúbio e elitista dessas mudanças.
Algumas instalações realmente se faziam necessárias, como a construção da primeira
rede de água encanada, em 1909, a iluminação pública através de energia elétrica, em 1910 e a construção das redes de esgoto, entre 1913 e 1917. Através dessas medidas, o controle da proliferação de males como a uncinariose e o impaludismo - na época, considerada como um dos males do homem do litoral – se tornou capaz de obter relativo sucesso, algo praticamente impossível de se realizar até então.
No sentido de evitar problemas para todos os habitantes da cidade, algumas reformas realmente beneficiaram uma grande parcela da população. Por outro lado, outras mudanças drásticas serviram para criar uma barreira entre as elites cada vez mais “civilizadas” e as populações pobres, cada vez mais longe de se inserir na lógica burguesa de convivência e comportamento. Entre os exemplos desse distanciamento voluntário, destaca-se a demolição
de casas, casebres e cortiços para a construção da Avenida “Hercílio Luz”, além das notas nos jornais e decretos oficiais, que ditaram as regras da nova maneira de se viver na cidade. Iniciada em 1919 e inaugurada em 1922, a avenida teve seu traçado feito junto aos
morros do lado oeste da cidade, ligando a baía sul, a partir do largo 13 de Maio, á baía norte, na Praia de Fora, definindo uma espécie de fronteira da área central da cidade e conferindo um aspecto totalmente novo para Florianópolis.
23
A construção da avenida em cima dos
antigos casebres representou de forma objetiva o ímpeto de demolir ou reformar tudo aquilo
que pudesse lembrar a antiga cidade, seu passado escravocrata, tão incoerente com os princípios da República. Representou também mais uma tentativa de se remover a presença das populações pobres da área central da cidade, destinando-as aos morros periféricos, privando o seu direito de acesso ás ruas.
Juntamente com as obras, os jornais também representaram uma frente discursiva, que,
considerando os hábitos da população florianopolitana incondizente com as transformações,
procurou-se suplantar certos hábitos e atitudes consideradas incompatíveis com a nova cidade que se ergueu. Entre as novas regras de conduta, haviam discursos inflamados contra os
23
ARAÚJO, op. cit. p. 20.
19 vendedores de rua, contra a má higiene, contra a sujeira dos cortiços, contra os moradores que secavam suas ceroulas, expondo-as ao sol, na janela... Ou seja, tudo que não fosse digno de se considerar “civilizado”. Até mesmo o beijo deveria ser reservado para a intimidade:
[...] foi entre nós transformado, pelo uso, em um suplício das senhoras e um perigo para as crianças. Não são precisos estudos muito demorados nem conhecimentos profundos de higiene para desde logo se compreender a série enorme de inconvenientes trazidos por esses beijos dados nas ruas, nos bondes, nos restaurantes, nos teatro, em toda parte, enfim”.24
Diante de tantas arbitrariedades legitimadas pelo discurso médico-higienista vigente na época, é preciso ressaltar que a população não foi um agente passivo desses
acontecimentos. Ao mesmo tempo em que a sua permanência nas ruas recém reformadas provocava a ira dos membros das elites, pode-se entender que, de certa forma, essa ocupação indesejada era também um ato de resistência
25
. Outra forma de oposição foi a criação dos
ranchos e blocos carnavalescos, que, mais uma vez, invadiram as ruas, garantindo ás populações marginais uma posição, se não de destaque, pelo menos mais coerente com a importância das suas manifestações.
1.1. AS ESCOLAS DE SAMBA EM FLORIANÓPOLIS NO SÉCULO XX
Com as reformas urbanas e o sistema republicano de governo, Desterro tornou-se apenas um passado. O mundo moderno, sem escravos, ensaiou seus primeiros passos na Ilha de Santa Catarina, ao mesmo tempo em que o crescimento urbano das maiores cidades brasileiras produziu uma readequação dos espaços sociais e dos festejos. O carnaval se
transformou, se tornando mais popular, a ponto de certos grupos da população afrodescendente organizar seus primeiros blocos, também chamados de “ranchos”.
Os resultados dessa ousadia tiveram reflexos imediatos (como os violentos conflitos com policiais, que no propósito de coibir os batuques, não mediram esforços) e reflexos que,
ao longo do tempo, iriam se destacar, mudando a configuração do carnaval festejado até então. “O Beijo”, Jornal O Dia, 01/09/1916, p. 2 In: ARAÚJO, op. cit. p. 42 Como exemplo de resistência nesse contexto, temos a “Revolta da Vacina”, no Rio de Janeiro, no inicio do século XX. Para mais sobre o assunto, ver SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo. Ed Scipione, 1993. 24 25
20 Porém, a “popularização” da festa é sentida e vivida de várias maneiras de acordo com
cada contexto. No ambiente florianopolitano, como escreveu Tramonte: “[...] é preciso
entender sua especificidade: [...] aqui não havia o ambiente cultural do Rio de Janeiro que
possibilitou a criação de belos sambas que hoje o Brasil inteiro canta”.26 Ou seja: para compreender como o carnaval se tornou uma festa tão importante do calendário florianopolitano, é preciso entender também quais os aspectos específicos dessa (nova) relação entre as elites da cidade e a população.
Se antes, o tratamento aos escravos eram práticas pré-estabelecidas, agora será
necessária uma adequação a esse novo mundo tão invocado pelas Sociedades Carnavalescas.
Florianópolis, que tanto almejou a chegada da modernidade, da civilização, teria que se adequar aos novos tipos de celebrações. O surgimento das técnicas de gravações e o rádio possibilitaram a popularização das
marchinhas, viabilizando o reconhecimento dos primeiros compositores locais. É através das transmissões radiofônicas que o samba, música popular urbana, começou a se propagar e,
aliado ao “Redescobrimento do Brasil” 27 vivido nas décadas de 1920 e 1930, invadiu a classe
média, tão ávida por algo genuinamente brasileiro, que garantisse a nossa especificidade como nação. A partir da década de 1920, surgiram pelo país os primeiros blocos carnavalescos já
acompanhados de percussão, juntamente com a chegada do Rei Momo, que teve sua primeira
aparição em Florianópolis no ano de 1935, na Praça XV, o espaço “oficial” das festas
carnavalescas no período. De modo geral, essas mudanças ocorreram por todo o país, porém
em épocas distintas. Enquanto a primeira escola de samba registrada no Rio de Janeiro é de 1928, 28 em Florianópolis esse fato ocorrerá vinte anos depois.
É importante registrar também, a presença dos carros de mutações, algo peculiar do
carnaval florianopolitano. Esses carros, inicialmente puxado por bois, se diferenciavam do resto dos carros alegóricos dos demais carnavais, por possuir um mecanismo todo próprio, que lhe garantia algumas mutações estruturais ao longo do desfile. 29
O contexto social e político da década de 30 e 40 contribuíram no uso das festas para
além do caráter tradicional. Vale lembrar que durante essas duas décadas, o Brasil viveu sob o
Estado Novo - talvez o primeiro momento da história política do país em que a cultura foi 26
TRAMONTE, op.cit., p. 85. Alguns trabalhos de Ângela de Castro Gomes remetem á essa noção de “Redescobrimento do Brasil” nos tempos do Estado Novo. Para mais, ver GOMES, Ângela de C. História e historiadores: a política cultural do Estado Novo. Ed. FGV, Rio de Janeiro, 1996. 28 QUEIRÒZ, op.cit., p. 94. 29 TRAMONTE, op.cit., p. 83. 27
21
considerada peça relevante para o cenário sócio-político brasileiro, sofrendo a forte intervenção do governo de Getulio Vargas.
30
O mundo vivenciou a Segunda Guerra Mundial
que, devido ao grande número de imigrantes residentes no estado, oriundos dos países em conflito, provocaram momentos de tensão em Santa Catarina
31
. Assim, é possível perceber
que a baixa atividade carnavalesca desse período, em Florianópolis e em todo o país, é resultado da conjunção desses e outros fatores. Mas, apesar de toda a situação contrária, em 1948 surgiu a primeira Escola de Samba da cidade. A fundação do 5° Distrito Naval na ilha possibilitou um diálogo de extrema
importância para o destino do carnaval em Florianópolis. Impossibilitados de regressarem
com freqüência para a cidade de origem, alguns marinheiros do Rio de Janeiro passaram a
residir em lugares próximos ao Morro da Caixa, habitada em sua maioria de trabalhadores afro-descendentes pobres. Essa relação entre os habitantes do morro e os marinheiros se
acentuou, na medida em que esses novos moradores passaram a fomentar a prática dos festejos ao modo carioca, como forma de relembrar as suas tradições. A influência é visível
quando a primeira Escola de Samba é fundada: a “Protegidos da Princesa”, inicialmente um grupo, que no carnaval fantasiava-se de índios Bororós e percorria as ruas da cidade. 32
A partir desse episódio, o carnaval se desenvolveu cada vez mais, seguindo os passos
do carnaval carioca. Na década de 50, outras Escolas de Samba apontaram na cidade, como a “Unidos de Chapecó”, sem esquecer os blocos e as Sociedades Carnavalescas que ainda se
reuniam para desfilar. Em 1952 nasceu o “Amanhece Bom Jesus”, um bloco formado pelas classes média e alta do Lira Tênis Clube, dividindo as ruas com blocos como “Xavantes”,
“Cacique Guido”, “Filhos do Mar”, “Narciso e Dião” e “Bloco dos Mofas”, além das
Sociedades Carnavalescas “Tenentes do Diabo”, “Granadeiros da Ilha” e outras...33 Fato marcante foi o desfile em 1953 da Protegidos da Princesa e da Granadeiros da Ilha em homenagem aos políticos Paulo Fontes, governador da cidade e Bornhausen, governador de Santa Catarina.
Para mais sobre o assunto, ver GOMES, Ângela de Castro. Capanema: o ministro e seu mistério. Rio de Janeiro: FGV, 2000. 31 Para mais sobre o assunto, ver FALCÃO, Luiz Felipe. A guerra interna (integralismo, nazismo e nacionalização. In: BRANCHER, Ana (org). História de Santa Catarina: estudos contemporâneos. Florianópolis: Ed. Letras Contemporâneas, 1999 e FÁVERI, Marlene de. Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina. Itajaí: Ed. Univali; Florianópolis: Ed. UFSC, 2004. 32 TRAMONTE, op. cit., p. 86. 33 Idem, p. 88. 30
22 Em 1955 é fundada a Escola de Samba “Embaixada Copa Lord”, que no mesmo ano desfilou pela primeira vez com cerca de 120 integrantes. Entre os seus membros originais encontram-se figuras importantes para o cenário carnavalesco da cidade: Abelardo
Blumenberg (Avevú), “Nego Lô”, Jorginho e “Nego Quirido”. A partir da fundação da Copa Lord, as escolas de samba se fortaleceram, comprovando a sua crescente presença nos aspectos sociais e culturais da cidade. A partir do momento em que a festa foi se tornando popular, se tornando cada vez mais acessível e predominantemente de rua, as formas de relações também se alteraram. De
acordo com Eduardo da Silva, a fundação da “Granadeiros” tem relações diretas com os políticos 34- exemplo que se tornou cada vez mais corriqueiro. Se antes a participação popular
se encerrava nas portas dos salões, o estabelecimento dessa nova dinâmica tornou sua influência cada vez mais relevante para a opinião pública. Para os políticos, foi de extrema
importância o contato direto com os grupos populares, a fim de estabelecer relacionamentos com as comunidades marginais, cada vez mais populosas. Desta maneira, os morros nos quais se situavam as escolas (no caso das duas principais da época, Morro da Caixa e Morro do
Mocotó, para Copa Lord e Protegidos, respectivamente) tornaram-se então pontos de referência, e adquiriram uma relativa visibilidade social.
Cada vez mais parecida com os desfiles da capital carioca, as relações entre as Escolas
de Samba do Rio de Janeiro e de Florianópolis devem ser analisadas de forma criteriosa, afim
de que não sejam estabelecidos alguns parâmetros que, na realidade, não correspondem com a realidade. O exemplo figurativo do sambista, do “malandro”, revela algumas das prováveis
dessemelhanças entre os carnavais. Em terras cariocas esse personagem está ligado ao afrodescendente morador do morro, pobre, bilontra, sambista, que se vira do jeito que dá, enquanto o morador dos morros florianopolitano poderia muito bem ser ilustrado como um sujeito luso-descendente e pobre, dado o alto número de habitantes dessa matriz nos morros.
Se o malandro carioca teve relações com os bicheiros 35 e até mesmo acesso aos níveis
mais altos das elites, devido à sua “adoção” por parte da classe média e alta 36, o morador dos morros de Florianópolis não se beneficiou dessa relação. Por isso, quando se interpreta a “relativa” visibilidade da população periférica através do carnaval, é preciso levar em SILVA, Eduardo da. O (Des) Controle do batuque: transformações no espaço social do carnaval florianopolitano nas décadas de 1970 á 1990. Monografia (Graduação em História) – Centro de Ciências Humanas da Educação - UDESC. Florianópolis, 2002. p.23 35 Para maiores informações sobre a relação dos bicheiros com as escolas de samba no Rio de Janeiro, consultar QUEIRÒZ, op.cit. 36 Para mais sobre o assunto, ver VIANNA, Hermano. O ministério do samba. Rio de Janeiro: J. Zahar, Ed. UFRJ, 2002 34
23 consideração que as escolas de samba de Florianópolis não tiveram a destacada atenção
recebida pelas escolas cariocas a nível nacional, mas, como escrito anteriormente, proporcionaram uma relevância no contexto interno da cidade, e que não deve ser desmerecida. Aquelas, além de eleitas como um dos símbolos da “brasilidade” foi também palco de
atuação dos bicheiros, sempre bem relacionados aos políticos locais, coisa que não ocorreu no
carnaval da ilha. Se o batuque dos morros cariocas foi até as casas dos mais destacados políticos do Rio de Janeiro desde a primeira metade do século, em Florianópolis esse
estreitamento demorou um pouco mais para ocorrer, e pode ser comprovado com as palavras de Abelardo Blumenberg, o Avevú, que no seu livro “Quem Vem Lá? – A História da Copa Lord” conta as dificuldades de se levantar fundos para as demandas da escola, em meados da década de 1950:
Recursos monetários para a confecção das fantasias eram obtidos através de donativos particulares com a circulação do livro de ouro. A Prefeitura Municipal e o Governo do Estado contribuíam com parcelas limitadas que não satisfaziam, muito menos preenchiam as necessidades da instituição. 37
Dentre as muitas histórias interessantes que Avevú narra, um acontecimento também é
interessante ao presente trabalho, pois relata, talvez, o início das relações mais estreitas das agremiações com a cena política local. Após relatar um desentendimento sobre a premiação do desfile das escolas de samba no carnaval de 1957, o autor termina escrevendo: Porém, após fria análise da disputa, tivemos que engolir a grandiosa apresentação da nossa co-irmã (a Protegidos da Princesa), em face de um melhor apoio monetário do governo do Estado e da prefeitura municipal, representados pelo Dr. Jorge 38 Lacerda e pelo Dr. Osmar Cunha.
Em 1958, ocorreu a mesma história, porém com um final diferente: devido à negativa
por parte do prefeito Osmar Cunha em auxiliar na arrecadação da escola, um candidato a vereador se propôs a pagar as fantasias da bateria da Copa Lord 39. Mais uma vez a política se atrelou ao desfile.
BLUMENBERG, Abelardo Henrique. Quem Vem Lá? – A História da Copa Lord. Ed. Garapuvu, Florianópolis, 2005. p. 21. 38 Idem, p. 26 (grifo meu) 39 Ibidem, p. 33 37
24 A década de 1960 foi marcada pela repressão ás manifestações sócio-culturais por
parte do poder público, havendo “um policial para cada folião” 40. Essa nova configuração se deve ao contexto político nacional das décadas de 60 e 70, sobretudo ao Golpe Civil-Militar
de 1964, que estabeleceu censuras e oficializações, com a finalidade de transformar o carnaval numa festa direcionada para os planos político-econômicos assim traçados pela elite
empresarial, em consonância com os militares no poder federal.41 Em 1961, o desfile das escolas de samba de Florianópolis foi oficializado pela prefeitura municipal e seu
planejamento passou a ser administrado pelo Setor de Turismo, do Departamento de Educação e Cultura. A partir desse momento, foram comuns alguns fatos extremamente desagradáveis para a liberdade de expressão das escolas de samba.
Para agir de maneira coerente com a nova ideologia instalada no poder federal, a Secretaria de Segurança Pública iniciou um movimento de repressão, envolvendo censuras, proibições dos desfiles dos “blocos dos sujos” (homens fantasiados de mulher) e qualquer fantasia ou objeto que fosse atentatório á moral. Foi comum o compromisso de o desfile ser dedicado ao governador e ao prefeito da cidade. É nessa época também que a presença das escolas de samba se consolidou, chegando a
penetrar nos espaços das elites, com a apresentação dos “destaques” das escolas no Baile de Gala Municipal e no Clube Doze, locais freqüentado pelas classes mais abastadas. Essa nova visibilidade garantiu um novo espaço de influência e diálogo com o poder público, que remeteu recursos e reforços para os desfiles. É a partir desse momento que a escola de samba começou a ser pensada, ainda que de forma tímida, como um agente de integração nacional, além de se apresentar como um ótimo recurso para a promoção do turismo local. 42
Entre 1960 e o final da década seguinte, a cidade contou com as seguintes escolas
(nem sempre na mesma época): Protegidos da Princesa, Embaixada Copa Lord, Filhos do Continente, Acadêmicos do Samba (antiga Lufa-Lufa), Quilombo dos Palmares, Império do Samba, Unidos da Coloninha e Filhos de Netuno. Os anos 70 foram marcados pelo governo do General Emilio Garrastazu Médici, pelo aumento da repressão e da censura, pelas proibições e perseguições, e pelas contradições entre
Poder Público e sociedade em todo o Brasil.43 Em Florianópolis não foi diferente. Dessa nova
dinâmica de controle e repressão, o diálogo (talvez monólogo) do Estado com as agremiações RAMOS, Átila Alcides. Carnaval da Ilha. Ed. Papa-Livro, Florianópolis, 1997.p 107 Para mais informações, ver SILVA, op.cit., cap 2: “Os Setenta”, Linha Dura e muito Carnaval. 42 TRAMONTE, op.cit., p.116. 43 Para mais detalhes desse período, ver SKYDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 40 41
25 se torna cada vez maior, no sentido de cercear as atividades populares e instaurar a “paz e tranqüilidade”, “(...) com todos se divertindo dentro dessa ordem, colaborando, desta forma, com as autoridades encarregadas da segurança” 44 Como é possível perceber no trabalho de Eduardo da Silva, as ameaças á liberdade de
expressão se tornaram corriqueiras e cada vez mais abrangentes, na medida em que foi se
construindo a imagem do “mau brasileiro”. Como exemplo, o subversivo guerrilheiro, que poderia se infiltrar em meio aos carnavalescos, como relata uma nota citada no trabalho do autor, proveniente da Divisão da Polícia Federal de Santa Catarina, e encontrada no jornal “O Estado”, intitulada “Recomendações para um carnaval sem problemas”
Os foliões não podem conduzir garrafas ou recipientes que contenham qualquer espécie de líquido ao entrarem nos salões [...], fantasias semelhantes aos uniformes usados pelas forças armadas, [...] causarão sérios problemas, inclusive a detenção de 45 quem estiver assim procedendo. [...]
Ao longo da década, as escolas viveram momentos tensos, ao mesmo tempo em que se desenvolveram. Se por um lado o auxílio do poder municipal iniciado ao longo da década de 60 garantiu os desfiles todos os anos, por outro, essa subvenção impôs uma relação de dependência, impedindo o crescimento das escolas de samba, incapazes de se auto gerir e
adotar um sistema administrativo eficaz. Na capital catarinense, as medidas para implantar um sistema empresarial, visando a sua independência financeira, só tiveram início no final da década de 1970, início dos anos 80. Esse momento de “profissionalização” pode ser considerado como um dos vários momentos em que o rumo dos desfiles tomou um caráter completamente oficial, como será estudado adiante. Se o carnaval enquanto festejo se transformou, o espaço social da folia momesca
também se redimensionou para suportar tamanho crescimento, tanto na presença de foliões, quanto na sua importância social. Do entrudo praticado nos arredores da Praça XV ao
sambódromo “Nego Quirido”, é possível explicar a crescente importância dos dias de carnaval e, conseqüentemente, das escolas de samba. Porém, como não é essa a intenção
principal do trabalho, visto a existência de trabalhos que explicitam essa trajetória de forma esmiuçada,
46
vale o registro, no sentido de comprovar que o lugar das Escolas de Samba em
Florianópolis é um espaço privilegiado dentro da esfera cultural da cidade. Esse
44
SILVA, op. cit., p. 36 Idem, p. 32. 46 Para saber mais sobre o assunto, ver SILVA, TRAMONTE, RAMOS e COLAÇO, entre outros. 45
26 reconhecimento, que foi compreendido no primeiro capítulo, mesmo que de forma superficial, explicita a necessidade de análises sobre alguns objetos ainda não estudados. 47
Não foi de interesse realizar um estudo denso de todos os aspectos que constroem os
festejos, nem a busca pelo entendimento pleno da vida político-cultural da cidade nessas poucas páginas. Para isso, como dito anteriormente, existem trabalhos mais profundos que discutem a singular dinâmica da capital de Santa Catarina
48
. O aspecto mais importante que
deve ser reiterado com esse pequeno histórico é a capacidade das escolas de samba em se
introduzir numa sociedade onde a sua presença nunca foi cortejada de forma amistosa. Os
morros habitados pela população de baixa renda adquiriram visibilidade para o resto da sociedade, na medida em que as agremiações instaladas nas comunidades adquiriram valor, como um importante agente social. Desse modo, a memória e as práticas identificadas com as camadas sociais subalternas
não apenas deram suportes aos novos dispositivos de poder, em sintonia com o equilíbrio de forças interno à sociedade moderna emergente. A cultura popular, na mesma esteira do processo, adquiriu o status de marcas indeléveis.
Figuras como Avez-Vous, Nega Tide, D. Uda, Nego Quirido, o compositor Zininho e tantas outras, que permeiam a história do carnaval ilhéu, são lembradas pelas suas estreitas
relações com a festa, com as escolas. Foram pessoas que dedicaram sua vida para o samba da ilha. Esse é o lugar do Carnaval em Florianópolis. Pelo simples fato de ser a razão de viver de muita gente, já seria digno de registro, mesmo que num trabalho de conclusão de curso, que se destina á tediosa eternidade das estéreis estantes da biblioteca acadêmica. Mas, para além, o
carnaval da Ilha de Santa Catarina é um instrumento de resistência, de identificação, de protagonismo cultural na vida da cidade.
Nas considerações finais encontram-se alguns fatos do cenário carnavalesco de Florianópolis que ainda carecem de estudos mais aprofundados. 48 Entre outros trabalhos, ver FANTIN, Márcia. Cidade Dividida. Florianópolis: Cidade Futura, 2000. 47
27
2. AS (NOVAS) RELAÇÕES ENTRE ESTADO E CULTURA
Pensemos em uma festa popular, como podem ser a festa do dia dos mortos ou o Carnaval em vários países latino-americanos. Nasceram como celebrações comunitárias, mas num ano começaram a chegar turistas, logo depois os fotógrafos dos jornais, o rádio, a televisão e mais turistas. Os organizadores locais montam barracas para a venda de bebidas, do artesanato que sempre produziram, souvenirs que inventam para aproveitar a visita de tanta gente. Alem disso, cobram da mídia para permitir que fotografem e filmem. Onde reside o poder: nos meios massivos, nos organizadores das festas, nos vendedores de bebidas, artesanato ou souvenir, nos turistas e espectadores dos meios de comunicação que se deixasse de se interessar desmoronariam todo o processo? Claro que as relações não costumam ser igualitárias, mas é evidente que o poder e a construção do acontecimento são resultado de um tecido complexo e descentralizado de tradições reformuladas e intercâmbios modernos, de múltiplos agentes que se combinam. 49
Neste segundo capitulo, o carnaval oficial na capital catarinense será retomado, com
ênfase no episódio que marcou uma transição no ritual: a construção da passarela do samba. Mais do que uma simples realocação do espaço, a “Nego Quirido” representou uma opção para o formato da festa carnavalesca, indicando sua direção. Representou a escolha pelo carnaval, a priori, como um espetáculo a ser produzido por uns e assistido por outros,
justamente como em São Paulo e Rio de Janeiro – cidades de onde se origina a idéia de
“sambódromo”. A partir da análise do período que antecedeu a sua construção - quando as entidades carnavalescas já se ocupavam, de fato, do ano inteiro para o planejamento do
carnaval, se tornando assim, muito mais do que uma associação para um ritual temporário -
será possível assinalar alguns aspectos do rumo apontado pelo poder público em consonancia com as escolas de samba para o carnaval da ilha, tentando entender quais as causas dessa escolha, tendo em vista alguns conceitos formulados por Nestor Garcia Canclini. No terceiro capítulo o estudo focará na história da construção da passarela do samba “Nego Quirido”, sob os olhares das escolas de samba e do governo. Influenciadas pelas técnicas empresariais das escolas cariocas, o carnaval
florianopolitano iniciou o processo de “profissionalização” do mundo do samba no final da década de 70, inicio de 80. Para atender as novas exigências proporcionadas pelo significativo
aumento de público e de integrantes nas escolas, algumas medidas foram tomadas. Por
exemplo, o deslocamento do desfile da Praça XV para a Av. Mauro Ramos, em 1970. Porém,
tal medida não agradou ao público em geral, já que não possibilitava a mesma interação dos desfiles na Praça – o que causou o seu retorno ao local de origem, permanecendo até 1976, CANCLINI. Nestor Garcia. Culturas Híbridas: Estratégias para Entrar e Sair da Modernidade. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo,1997. p.262. 49
28 quando houve uma nova tentativa de realocar o espaço carnavalesco para a Av. Paulo Fontes, permanecendo por lá até a construção da passarela do samba. 50
Contudo, não seria de proveito nenhum a readequação do espaço, sem a readequação
das estruturas. Assim, ao longo desse período os desfiles ganharam novos equipamentos de som, cronômetros para regular o tempo de cada bloco ou escola, novas tecnologias são
empregadas para a confecção das fantasias, além dos festivais de música de carnaval, como o
de 1976, promovida pelo jornal O ESTADO, TV Cultura, Rádio Guarujá, Gram Meta Publicidade e pela secretaria de Turismo da Prefeitura Municipal.51 Sobre os festivais de música, organizado em parcerias entre o poder público e a iniciativa privada, Edson Farias aponta: Desde aí, a música carnavalesca vai jogar um papel importante na instauração das sociabilidades em torno da diversão, com o aparecimento dos fãs clubes, dos concursos de músicas, reis e rainhas do carnaval, entre outros [...]Assim a festa – cujas características massivas são estimuladas pela interferência do poder público e da iniciativa empresarial que promove eventos, ou ainda pela produção musical que lhe é destinada – firma-se ela própria como um evento no qual se recriam matrizes culturais do ritual carnavalesco. Torna-se, portanto, além de palco, também o bastidor onde pessoas pleiteiam vagas no mesmo campo de produtores artísticos, interagem para negociar canções, num intercâmbio entre a brincadeira e a formalidade, exigido pelo mercado cultural em ampliação.52
Parte essencial dessa dinâmica, a presença do carnavalesco é cada vez mais decisiva
no resultado das votações para a escolha da escola de samba campeã. Essa nova figura é o comandante-chefe do desfile, pelo seu poder dentro das escolas, de decidir desde as cores das fantasias até a evolução dos componentes, e por ganhar os maiores honorários. 53
Como conseqüência e, concomitantemente á essa nova percepção da festa, todo um
envolvimento mercadológico foi incorporado. Os espaços vinculados ao carnaval (a avenida e
arredores) ganharam uma nova dimensão no ponto de vista do sambista, do governo e das
empresas privadas: afinal, seria possível ou não receber gratificação monetária em troca das atividades desenvolvidas nos desfiles das escolas de samba? Resultado dessa série de fatores que alteraram a dinâmica do carnaval, o Estado e a
iniciativa privada ganharam um espaço cada vez maior na gerência da festa. Diante dessa nova realidade, qual é o lugar da intervenção do Estado nesse cotidiano festivo? Que função
Para uma análise completa das transformações espaciais do carnaval florianopolitano, ver SILVA, op.cit. TRAMONTE, op.cit. p. 130. 52 FARIAS, Edson. Carnaval Carioca, a Matriz do Negócio do Ócio. In: CADERNO CRH, Salvador, n. 38, p. 177-208, jan./jun. 2003. p 200 – 201. 53 RODRIGUES, Ana Maria. Samba Negro, Espoliação Branca. São Paulo. Ed. Hucitec, 1983 50 51
29 passou a ter o carnaval para o poder público? A análise feita por Edson Farias estabelece premissas relevantes para a busca de um entendimento: A feição de espetáculo adquirida por algumas das festividades introduziria um apelo à aparência que seria incongruente com as idéias de comunhão e reciprocidade intrínsecas à noção de festa, considerando-se para isso três elementos. Por um lado, a secular divisão social do trabalho, marcada pela assimetria entre os que fazem e os que apenas contemplam. De outro, a individualização dos agentes seria básica à profissionalização e, por conseqüência, estaria na contramão de qualquer ideal comunitário, na medida em que a convergência de meios e instrumentos na perseguição de fins deliberaria contrariamente ao anonimato das atitudes. Ainda, interferiria a mistificação da mercadoria capitalista, isto é, o primado do fascínio na exposição para consumidores (pagantes anônimos) do estético preponderaria sobre o desinteresse da ação pública espontânea. 54
E prossegue: A princípio, a compreensão da síntese entre práticas e símbolos lúdico-artísticos populares e economia capitalista, a partir da prestação de serviços de lazer, exige atentar ao processo mesmo de modernização cultural no Brasil Para isto, a evolução da sistemática turística constitui uma fresta pela qual podemos apreender as condições de possibilidade de uma economia simbólica no País. 55
Explicar essa rede de relações que se configura na cidade não é uma tarefa fácil, visto a quantidade de fatores que influenciam nessa dinâmica. Concordando com Farias, a análise se baseará, sobretudo, num aspecto que influenciou diretamente os rumos do carnaval da ilha:
o crescente desenvolvimento urbano, que ordenou a atividade turística local. Segundo Luis
Moretto Neto, a urbanização acelerada, desordenada e, especialmente o grande influxo de migrantes e visitantes, tiveram conseqüências significativas sobre a cultura local. Sendo assim, o turismo pode ser considerado um dos propulsores das transformações socioculturais,
econômicas e ambientais da Ilha de Santa Catarina.56 Entender esse movimento de
crescimento urbano que se deu em Florianópolis é importante para perceber o momento em que o governo se estabelece como uma influência nas manifestações culturais ilhoa, sob a justificativa da construção do “turismo cultural”.
FARIAS, Edson. Economia e Cultura no circuito das festas populares brasileiras. In: Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 647-688, set./dez. 2005. p 657 55 Idem, p. 657. 56 MORETTO NETO, Luís. A competitividade de destinos turísticos aplicada os espaços insulares de Gran Canaria/Espanha e Florianópolis/Brasil: estudo de multi-casos. Tese (Doutorado em Engenharia da Produção) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa Catarina. UFSC, Florianópolis, 2005. 54
30 2.1 O “TURISMO REDENTOR” COMO OPÇÃO E VOCAÇÃO DA CIDADE
De acordo com os pesquisadores do CECCA (Centro de Estudos, Cultura e Cidadania), Florianópolis pode ser situada a partir da definição de três períodos históricos:
“[...] o do “Modo de Vida Ilhéu (pré-moderno”, que se inicia no século XVI e vai até 1926); o “Desenvolvimentista” (ou da “modernização”, entre 1926 e 1981); e o da “Ilha da Magia” (também denominado “pós-modernidade perversa”, de 1981 até o presente)”.
57
Neste
trabalho, será focado o final do período “Desenvolvimentista” e o início do período denominado “Ilha da Magia”, onde está localizada a origem do planejamento turístico para a cidade. Na década de 1960, a construção da Universidade Federal de Santa Catarina, da
Eletrosul, Telesc, entre outros contribuiu para uma progressiva ampliação do setor público e
estabeleceu feições distintas e decisivas á paisagem urbana, com a chegada de novos
residentes e a conseqüente expansão dos ramos imobiliários. Além da UFSC, a ampliação das instalações do Aeroporto Hercílio Luz, a conclusão da pavimentação asfáltica da BR-101 e a conseqüente conexão da Ilha aos eixos rodoviários de ligação nacional caracterizaram-se como passos decisivos e irreversíveis à integração da ilha ao mercado de turismo nacional e
do cone sul da América. Parte da população nativa foi transformada em mão-de-obra marginalizada, tendo que se mudar de suas comunidades de origem e deslocar-se para o Continente e municípios vizinhos, dando início às ocupações de morros. 58
A transferência da Eletrosul para a cidade, na década de 70, significou para
Florianópolis a consolidação da sua característica de cidade marcadamente terciária, além da definição do aglomerado urbano, formando a “Grande Florianópolis”, uma malha urbana única, concentrando as cidades de Florianópolis, São José, Biguaçu e Palhoça. 59
Apesar de haver registros anteriores que planejavam a sistematização do turismo na
ilha,
60
foi neste contexto de modernização urbana de meados das décadas de 1960 e 1970 que
realmente se efetiva os primeiros projetos com esta finalidade. Segundo Vera Maria Guimarães, “[...] entretanto, apenas em 1968, definiu-se uma política estadual de turismo,
CECCA. Uma cidade numa ilha: relatórios sobre os problemas sócio-ambientais da Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Insular, 1997. p.196. 58 Idem, p. 210. 59 Idem, p. 212. 60 De acordo com o CECCA, vislumbram-se projetos para transformar Florianópolis num centro internacional de turismo desde o governo de Hercílio Luz, em 1918. p. 213. 57
31
criando-se alguns organismos para tal”.
61
Complementando a informação, Eduardo da Silva
descreve que o primeiro organismo voltado ao desenvolvimento do turismo catarinense foi o DEATUR (Departamento Autônomo de Turismo), em conjunto com o DIRETUR (órgão da prefeitura de Florianópolis). 62 Em 1970 foi elaborado o Plano Regional de Turismo, o qual dava destaque especial a condição de Florianópolis, enquanto espaço de atratividade, em face da diversificada base de atrativos naturais e culturais, procurando salientar a necessidade de ofertar equipamentos turísticos que possibilitassem atrair demanda com valor agregado e alavancasse o desenvolvimento regional, enquanto alternativa econômica complementar.63 Nas palavras de Paulo Lago: A crença no turismo redentor foi, inicialmente, um pacto social, um consenso, a proclamação da necessidade do desfrute de valores paisagísticos que (ainda) não tinham significado no mercado. Mais do que a contemplação das imagens que penetram nos olhos, os valores paisagísticos teriam que se converter em ingresso nos bolsos. 64
Então, através dos autores citados, é possível constatar que, mais do que uma série de
termos técnicos, números e departamentos oficiais, o turismo foi uma opção da cidade, de seus governantes e da população. Representou a tentativa de incorporação da Ilha de Santa Catarina ao mercado turístico internacional.
Pouco a pouco, os turistas foram chegando, muitos inclusive optando em fixar-se na ilha, na condição de residentes ou mesmo realizando investimentos em negócios diretos e indiretos ao turismo. Embora já constasse nos discursos e planos de governo anteriores aos anos 1980, a
atividade turística somente vai se tornar um objeto efetivo de realizações políticas a partir
deste período, principalmente após as grandes enchentes ocorridas no Estado em 1983 quando o turismo entra na ordem do dia como uma das alternativas econômicas para colaborar na
GUIMARÃES, Vera Maria. A modernidade e os encontros turísticos: Turistas na barra da lagoa. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) – Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas. UFSC, Florianópolis, 2006. p 135. 62 SILVA, op.cit. p. 51. 63 MORETTO NETO, op.cit. p.190. 64 LAGO, Paulo Fernando. Florianópolis: a polêmica urbana. Florianópolis: Fundação Franklin Cascaes, 1996, p. 264 in SILVA, Eduardo da. op. cit. p.51 61
32 reconstrução do Vale do Itajaí. Basta lembrar que as festas de outubro são inventadas justamente após as enchentes que se abateram sobre Santa Catarina.65
Favorecidos pela crise cambial, facilidades de acesso e atratividade natural, os argentinos chegam de forma massificada, ao longo da década de 80, durante a estação verão, alavancando o processo de internacionalização da Ilha, gerando a falsa idéia do
desenvolvimento e da atividade turística como redenção da economia local. Ocorre que, a intensa e estimulada procura de terras na Ilha de Santa Catarina provocou a transferência das propriedades dos residentes nas áreas consideradas como rurais e periféricas para residentes urbanos, sob a forma de edificação de segunda residência e negócios de hospedagem, através
de forte fragmentação do território, em loteamentos irregulares e totalmente desprovidos de infra-estrutura de suporte. 66 Essa característica de fixar residência na ilha pode ser apontada como um dos
inúmeros problemas que, ao passar do tempo, foi se configurando na sustentação das políticas públicas voltadas á atividade turística.
Se as décadas de 60 e 70 são marcadas pela empolgação quanto ao futuro da cidade, os
anos 80 consolidam o turismo como única forma de atividade econômica vinculada ao
mercado externo, ao passo que as primeiras contradições desse sistema surgem para escancarar a fragilidade do planejamento governamental. Sob este contexto, escreve Mateus Perez Jorge: São muitas as dificuldades encontradas pela Capital do Estado de Santa Catarina em suportar o ritmo do processo acelerado de urbanização, que exerceu fortes pressões sobre sua infra-estrutura, além do aporte financeiro e político necessário para a manutenção de seu dinamismo econômico. Este crescente dinamismo do mercado do turismo – atrelado a uma conjuntura internacional de reestruturação produtiva passava a expor a precarização da infra-estrutura física na região metropolitana, bem como as dificuldades para a realização de investimentos. 67
A avidez de segmentos produtivos ligados ao negócio indireto do turismo, aliada ao
não compromisso de atores sociais, resultou em significativas e freqüentes alterações das leis
relativas a economia turística, para atender aos interesses localizados e comprometidos com a expansão da oferta de espaços construídos, para operação de negócios extra-hoteleiros e
CAON, Caroline & OURIQUES, Helton. Turismo: a invenção das tradições em SC. In: Atualidade Econômica. Florianópolis, n. 47, p. 6-9, jul./ dez/ 2004. p. 6. 66 MORETTO NETO, op.cit. p.158. 67 JORGE, Mateus Perez. Década perdida? Representação da crise econômica e a opção pelo turismo em Florianópolis. (1980 – 1990). Monografia (Graduação em História) – Centro de Ciências Humanas da Educação - UDESC. Florianópolis, 2007. p. 26. 65
33 imobiliários. É a lógica quantitativa que adquire forma na economia do turismo local, com amparo legal, através de ajustes que transformam a desordem em ordem68.
Ciente dessa dinâmica danosa, o IPUF (Instituto de Planejamento Urbano de
Florianópolis) encaminha o projeto de Plano Diretor dos Balneários: (...) A preservação dos recursos naturais e dos núcleos e hábitos tradicionais (pesca, vilas, folclore, etc.) é, portanto, condição fundamental, não só para a sobrevivência de importante segmento da população e da cultura local, como, ainda que paradoxalmente, para a própria sustentação destas áreas como pólos privilegiados de atração turística. 69
Era preciso reordenar o urbano com investimentos de capitais que o Estado já não
tinha condições de prover na mesma proporção necessária que os novos problemas gerados, de forma que a soma de forças com a rede empresarial
70
passou a ser uma importante
resposta à crise fiscal do Estado, na cidade.
Como uma das formas de se abater a crise que se instalara no país e na cidade, o
Plano do Governo Estadual para o desenvolvimento da atividade turística, no período de 1983 a 1986, estipulava ações de formação, aperfeiçoamento e qualificação de capital humano, desenvolvimento de estudos sistemáticos de mercado para acompanhamento das tendências, esforços regulares de promoção junto a jornalistas e formadores de opinião.
Assim, como aponta Helton Ouriques, assistimos ao surgimento do fenômeno dos
grandes espetáculos, ou, nas suas palavras, a “invenção das tradições” no Estado:
Isto é, a produção de espetáculos, baseados na temática dos distintos processos de colonização do Estado. Isso se dá através da colocação, em primeiro plano, dos componentes étnicos como explicativos das diversidades regionais catarinenses. As colonizações alemãs e italianas, por exemplo, pautam a propaganda turística no Vale do Itajaí, no Norte e no Sul do Estado. E a colonização açoriana, configura-se como elemento importante no turismo litorâneo, em especial na Ilha de Santa Catarina. 71
As transformações sociais e culturais na ilha são analisadas também por Mara Lago, que, no início dos anos 80, estudou a transformação da vida dos habitantes de Canasvieiras a partir da expansão urbano-industrial com o processo de especulação imobiliária e investimentos voltados ao turismo. Ver: LAGO, Mara Coelho de Souza. Memória de uma comunidade que se transforma: de localidade agrícola-pesqueira a balneário. Florianópolis, 1983. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais, Antropologia), Universidade Federal de Santa Catarina 69 CECCA. op.cit. p. 216. 70 Como este trabalho não pretende esmiuçar as relações entre a iniciativa privada e o Estado neste contexto, para maiores informações sobre o assunto em Santa Catarina, ver FLORES, Maria Bernadete Ramos. Oktoberfest: Turismo, festa e cultura na estação do chopp. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1997. 71 CAON & OURIQUES, op.cit. p.6. 68
34
No mesmo sentido, sugere Edson Farias: A vigência deste circuito e sua sintonia com prerrogativas econômicas estão na contramão de algumas convicções a respeito das festas em uma condição em que prevalece a indústria, o mercado, as indústrias culturais, o comércio de diversões, entre outras instituições da modernidade. 72
2.2 A CULTURA COMO UM AGENTE MODERNIZADOR
Nas transformações geradas pelo contexto desenvolvimentista, a cultura passa a ser apresentada como pauta no projeto de desenvolvimento socioeconômico, adquirindo relevância quanto ao seu aspecto de agente modernizador local e regional, em contraposição á imagem do “atraso”. Porém, que modernização é essa?
Em “Culturas Híbridas”, Nestor Canclini esclarece: Adotamos “com certa flexibilidade” a distinção do termo modernidade feita por vários autores, desde Jürgen Habermas até Marshall Berman, entre a modernidade como etapa histórica, a modernização como um processo socioeconômico que vai construindo a modernidade, e os modernismos, ou seja, os projetos culturais que renovam as práticas simbólicas com um sentido experimental ou crítico. 73
Num artigo intitulado “A questão nacional: a modernização”, Raymundo Faoro
também procura sistematizar as diferenças entre "modernidade” e "modernização":
[...] a modernidade compromete, no seu processo, toda a sociedade, ampliando o raio de expansão de todas as classes, revitalizando ou removendo seus papéis sociais, enquanto que a modernização, pelo seu toque voluntário, se não voluntarista, chega à sociedade por meio de um grupo condutor, que, privilegiandose, privilegia os setores dominantes. Na modernização não se segue o trilho da 'lei natural', mas se procura moldar, sobre o país, pela ideologia ou pela coação, uma certa política de mudança. [...] a ação social, que dela decorre, não parte da economia, como expressão da sociedade civil. Na modernidade, a elite, o estamento, as classes - dizemos para simplificar, as classes dirigentes - coordenam e organizam um movimento. Não o dirigem, conduzem ou promovem, como na modernização. [...] Talvez se possa dizer, ainda, que a modernização, ao contrário da modernidade,
FARIAS, Edson. Economia e Cultura no circuito das festas populares brasileiras. Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 647-688, set./dez. 2005. p. 656 73 CANCLINI, op. cit., p.23. 72
35
cinde a ideologia da sociedade, inspirando-se mais na primeira do que na segunda. (Grifos do autor) 74
Partindo de Canclini, o emprego da expressão modernização será entendido de acordo
com o proposto pelos autores, ou seja, um processo socioeconômico que interfere diretamente nos projetos culturais e práticas simbólicas. Neste sentido, Edson Farias acrescenta:
Modernização que permitiu a inserção dos meios mecânicos de reprodução da audioalidade e da visualidade na consolidação de um parque industrial da cultura e contíguo à emergência e aprofundamento de um mercado do simbólico e dos ramos responsáveis pelas atividades turísticas. 75
Algumas das declarações do então Ministro do Esporte e Turismo do Brasil, Rafael
Greca de Macedo, presente no artigo de Farias, remetem ao caráter transformador, profissionalizante e capaz de gerar receitas que se vai formando em torno dessas festas. Falando sobre os festejos carnavalescos no Brasil, em 1999, a autoridade acentua a trama de produtores e prestadores de serviços que viabilizam tais acontecimentos e lamenta a ausência de dados oficiais mais precisos a respeito da economia festiva. Lembra, ainda, como eventos dessa natureza “puxam” o turismo e estão alçados numa dimensão transcontinental: O mundo civilizado e rico sabe disso. As maiores cidades têm gerência de eventos. Veneza retomou seu carnaval barroco a partir de 1983, e suas gôndolas deslizam em rios de dinheiro. Barcelona e toda a Costa do Sol espanhola recomeçaram a marcar mascaradas e desfiles. Na Itália, a partir do Sul, até Viareggio, o carnaval está voltando a um litoral quase sempre frio e chuvoso, nesta época do ano (jornal O Globo, 12 fev. 1998). [...} Eu, ministro de Esportes e Turismo do Brasil, vou trabalhar no carnaval. Estarei nos desfiles de Olinda, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Florianópolis, exortando nosso país a profissionalizar sua festa máxima. Que tudo seja sempre limpo, com preços honestos, longe da dolarização. Porque onde tem lixo e carestia não tem turista. Vamos trabalhar, gerar mais emprego no carnaval do ano que vem. (...) Enfim, tudo é carnaval, mas dá um trabalho... (jornal O Globo, 12 fev. 1998). 76
Ambos os discursos se referem à “indústria” do carnaval, como uma instituição
profissional, capaz de gerar empregos e contribuir para o crescimento da nação, comparando a “festa máxima” brasileira com a realidade européia. Se entendido também como uma noção FAORO, Raymundo. A questão Nacional: A modernização. In: Bosi, Alfredo (ed.), Estudos Avançados, nº 14, vol. 6, jan./abr. 1992, São Paulo: USP. P.8-9 75 FARIAS, Edson. Economia e Cultura no circuito das festas populares brasileiras. Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 647-688, set./dez. 2005. p. 649. 76 Idem, p. 668. 74
36 de complexificação da estrutura organizacional, é possível constatar o propósito estatal sugerido pelo ministro: o desenvolvimento de “políticas culturais”. No seu texto “Políticas Culturais para a América Latina”
77
o argentino Nestor García
Canclini esquematiza alguns modelos de políticas culturais praticados na América Latina,
ressaltando as cinco variações básicas. A concepção prende-se à idéia de "nação como sendo um conjunto de indivíduos unidos por laços naturais [...] e irracionais [...] sem considerar as diferenças sociais entre os membros de cada nação". Em segundo lugar, o autor apresenta a
concepção estatista, isto é, o nacionalismo populista, que prevê o Estado como o lugar em que os valores nacionais se condensaram. Na concepção mercantil, a política cultural se preocupa com a construção de mercados, uniformizando a produção e diluindo as diferenças individuais. A quarta concepção do nacional-popular é a militar, ou o nacionalismo
aquartelado, modelo experimentado no Brasil, nas décadas de 60 e 70, com o exército
subordinando o aparelho de Estado; a tendência é suprimir toda participação antiautoritária através da censura e do fechamento de instituições.
Baseado na concepção mercantil de política cultural, Farias analisa o exemplo
carnavalesco: O carnaval passou a ser visto como um negócio estratégico pelos arranjos institucionais públicos e privados que se desenvolvem em seu entorno. Em nome das respectivas estratégias de marketing para conquistar clientes, mas visando, igualmente, às inserções na programação da televisão e à ocupação de painéis publicitários espalhados pelos espaços da festa, é acirrada a concorrência entre bancos, cervejarias, operadoras do setor de comunicação, montadoras de automóveis, entre outras, para vencer os editais lançados pela prefeitura municipal.78
E aponta: Assim a festa – cujas características massivas são estimuladas pela interferência do poder público e da iniciativa empresarial que promove eventos, ou ainda pela produção musical que lhe é destinada – firma-se ela própria como um evento no qual se recriam matrizes culturais do ritual carnavalesco. Torna-se, portanto, além de palco, também o bastidor onde pessoas pleiteiam vagas no mesmo campo de produtores artísticos, interagem para negociar canções, num intercâmbio entre a brincadeira e a formalidade, exigido pelo mercado cultural em ampliação. 79
CANCLINI, Nestor Garcia. Políticas culturais para América Latina. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 39- 51, jul. 1983. p. 40-42. 78 FARIAS, Edson. Economia e Cultura no circuito das festas populares brasileiras. Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 647-688, set./dez. 2005. p. 674. 79 FARIAS, Edson. Carnaval Carioca, a Matriz do Negócio do Ócio. In: CADERNO CRH, Salvador, n. 38, p. 177-208, jan /jun. 2003. p.202 . 77
37
No entanto, até que ponto é possível apontar essa inserção como uma realidade, de fato? Em outras palavras: estando o fundamento na unidade, a qual a festa celebraria a espontânea solidariedade dos integrantes, quando são “industrializadas”, as expressões populares seriam reduzidas a peças funcionais da ampliação dos lucros privados e estatais. É
possível então apontar para a reordenação da categoria do popular promovida nessas circunstâncias socioeconômica e cultural como um produto da modernidade, “[...] ampliando o raio de expansão de todas as classes, revitalizando ou removendo seus papéis sociais”? 80
Como observa Renato Ortiz, a mediação do mercado cultural se tornou incontornável,
agregando ou excluindo mediante o crivo das práticas norteadas pela ética hedonista do
consumo com sua ênfase nas permutas de significados. Integrados nessa rede, os símbolos populares das festas regionais compartilham da economia de signos e espaços, justamente ao
compor tanto o cenário quanto o tráfego intenso de significados que deixam entrever o ambiente da globalidade, com sua propensão para articular cultura e dimensão financeira e especulativa do capital. 81 A questão da relação entre Cultura e Estado, sobretudo a partir dos anos 80, apontam
para várias direções, onde não é possível precisar de forma concreta que o seu resultado é somente a busca pela modernização da sociedade, com a supressão do tradicional e do popular por conta dos novos elementos que entram em cena. Senão, então, como explicar a força do
carnaval dito “oficial”, porém popular, em cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis? Assim, sugere Canclini, esta oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto,
o popular e o massivo precisam ser demolidos, pois não condiz com a realidade latino-
americana. Para o autor, vivemos num um continente em que as tradições ainda não se foram
e a modernidade ainda não terminou de chegar. 82 Entender o seu contexto particular se faz de suma importância. Nestes termos, a oficialização do carnaval através da construção da passarela do samba
representa mais do que apenas a tentativa do Estado de condicionar os rituais á um espaço
previamente estabelecido, com a finalidade explícita de gerenciar seus mecanismos de manifestações sob o ponto de vista coercitivo, assim como a profissionalização não representa
80
FAORO, op.cit. p. 8-9 ORTIZ, Renato. Um outro território. São Paulo: Olho d’Água, 1999. p. 171. 82 CANCLINI, op. cit. p.17. 81
38 a morte da festa. Como escreve Canclini: “o culto tradicional não é apagado pela industrialização dos bens simbólicos” 83, ele se redimensiona.
Conjugadas por esse sistema mediador da rede de consumo dos bens culturais, é
possível pensar que muitas das festas populares regionais não apenas se integram no grande processo de modernização e reordenação societária, mas também se impõem como parte da complexidade social. A cultura, em geral, é encarada a partir de então, como um meio de superar problemas
das áreas econômicas e políticas, como um recurso. Ou como sintetizou George Yúdice:
A arte se dobrou inteiramente a um conceito expandido de cultura que pode resolver problemas, inclusive o de criação de empregos. Seu objetivo é auxiliar na redução das despesas e, ao mesmo tempo, ajudar a manter o nível da intervenção estatal para a estabilidade do capitalismo. 84
83 84
Idem, p. 22. YÙDICE, op. cit. p.28.
39
3. A CONSTRUÇÃO DA PASSARELA DO SAMBA “NEGO QUIRIDO” Florianópolis vai ganhar um sambódromo. Mesmo que este não seja o nome, o novo secretário do turismo do município, Rogério Queiróz afirma que “a idéia vai de vento em popa e que a resposta da iniciativa privada ao seu apelo de união e trabalho já está funcionando”. Segundo o secretário o nome mais apropriado seria “Passarela do Samba” e a idéia consiste em fixar as arquibancadas perto de onde hoje funciona o parque de diversões do Aterro da Baía Sul [...].85
Como é possível notar nesta matéria veiculada pelo jornal “O ESTADO”, em 1985, já
se cogitava a idéia de se projetar um espaço oficial para os desfiles de carnaval da capital.
Mas a sua construção se iniciou apenas em 1988, em meio á muita polêmica referente ao
carnaval deste ano, que não teve desfile das escolas de samba. Em 1989 ela é inaugurada, para o lamento de uns e comemoração de outros. Neste capítulo, será contada a história da construção da Passarela de Samba através da análise das matérias publicadas nos jornais “O ESTADO” e “DIÁRIO CATARINENSE”, focando nos fatos corridos entre 1988 e 1989.
Ainda de acordo com a matéria de 1985, o novo secretário do turismo previa os
alcances possíveis para esse projeto:
Mas Rogério explica que os planos não ficam por aí. Ele pretende dar outros usos para a Passarela, que englobam shows e apresentações folclóricas, corais, bandas, teatro, orquestras e todas as modalidades de esporte. Na parte de baixo funcionarão lojas, bares e restaurantes. “Claro que tudo isso a partir de um cuidadoso projeto arquitetônico que começou com consultas ao arquiteto René Gonçalves, do Ipuf”. [...] Ainda segundo sobre os primeiros estudos, o secretário pretende abrir concorrência pública para as empresas que queiram administrar a “Passarela do Samba”. Sua exploração seria o ano todo, mediante o pagamento de aluguel ou arrendamento á Prefeitura Municipal. [...] “Com isto”, diz ele, “a Prefeitura ficaria com mais espaço para se voltar aos problemas da população, como saúde, saneamento, educação e outras prioridades” 86
Nesta matéria, a mais antiga referente ao assunto, já é possível visualizar o que a
construção da passarela representa para a prefeitura. Nas palavras do secretário, a passarela não seria apenas o local oficial do desfile, mas também fonte para arrecadação de recursos,
através da construção de lojas e bares em parceria com empresas privadas. Além do seu
aspecto mercantil, fica clara a crença do poder público no aspecto social do projeto, pois, com O ESTADO, 13/02/1985, p. 16. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 86 O ESTADO, 13/02/1985, p. 16. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 85
40 a administração da festa sob comando privado, a prefeitura teria mais tempo para se ater á
outros problemas da população. Este mesmo discurso foi usado três anos depois, quando a prefeitura municipal cancelou os desfiles das escolas de samba.
3.1 1988: O ANO DO CARNAVAL SEM DESFILES
Na noite de dez de fevereiro de 1988, o prefeito Edson Andrino faz um pronunciamento na televisão, com o título: “Carnaval de Florianópolis: vamos tirar da cabeça o que o bolso não dá”. Eis a seguir alguns trechos do pronunciamento publicado em 12 de fevereiro no Diário Catarinense:
Neste momento, o Brasil vive um clima difícil, onde o dinheiro público tem que ser bem aplicado. A austeridade daqueles que governam e a priorização na aplicação dos recursos são necessidades do Brasil, do Estado, de todos os municípios brasileiros [...] Não foi a prefeitura que proibiu as escolas de samba desfilarem. Mesmo porque o samba não pertence á Prefeitura Municipal de Florianópolis. Para montarmos toda a estrutura do desfile oficial – arquibancadas, iluminação, som, e mais o cachê de 13 milhões de cruzados que as escolas de samba pediram para desfilar, a cidade teria que desembolsar cerca de 40 milhões de cruzados. Isto em novembro de 87! [...] Se este dinheiro fosse aplicado no desfile oficial, faria falta para a cidade. Faria falta para os mutirões que a Prefeitura faz nos morros com a contribuição e com a colaboração das pessoas que lá moram. [...] E eu, responsável que sou, por ter que tocar uma Prefeitura com enormes dificuldades financeiras, não tive outra opção – nem poderia ser diferente – senão aplicar os poucos recursos nas necessidades prioritárias da cidade em vez de aplicá-los no desfile das escolas de samba. 87
Em outro trecho do pronunciamento, menciona a construção do sambódromo: Esta administração foi a que mais se preocupou com a fixação das arquibancadas. Pela primeira vez na cidade se fez um projeto e se tentou buscar recursos. Nas várias viagens que fiz a Brasília para buscar recursos para a cidade, tentei obter aprovação para o projeto que se encontrava tramitando no MEC 88. Infelizmente não tivemos êxito, apesar das promessas recebidas. Agora, com a decisão do Governo do Estado de juntamente com a Prefeitura, tocar em frente o projeto, em breve teremos as arquibancadas definitivamente fixadas para que as escolas de samba tenham um local para se apresentarem durante o ano todo, obtendo assim recursos para se manter.
DIÁRIO CATARINENSE, 12/02/1988 p 11. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 88 Ministério da Educação e Cultura. 87
41
E também obtendo receitas da iniciativa privada, dos comerciantes, e até das televisões que podem pagar o direito de arena aqui ao invés de pagarem para transmitir o carnaval do Rio de Janeiro.89
E finaliza destacando os aspectos positivos do carnaval da cidade: Pela primeira vez a Prefeitura promove uma série de eventos pré-carnavalescos, valorizando nossos músicos e artistas... [...] Pela primeira vez na história da cidade a Rainha do Carnaval e a Cidadã-Samba foram escolhida junto ao povo, num magnífico show que contou coma presença de Jamelão...90
A negação da ajuda municipal na organização do desfile representou uma
transformação no diálogo estabelecido entre o poder público e as escolas de samba ao longo
dos anos. Pela primeira vez desde a sua afirmação como uma festa relevante no cenário sócio-
cultural da cidade, a prefeitura rompeu com a antiga relação explicitada no primeiro capítulo,
tratada pelo prefeito como “erros do passado”. A gestão de Edson Andrino no comando da Prefeitura de Florianópolis (1985 a 1988) significou a quebra de uma determinada hegemonia que diz respeito à administração da cidade, onde as marcas do novo governo estão
relacionadas com a incorporação da “participação popular” no discurso político da nova administração – por isso a ênfase na prioridade dos recursos para as obras realizadas em vários morros da cidade e na participação popular que, segundo o prefeito, é a dona do carnaval. Com o comunicado, surgiram várias críticas á decisão da prefeitura, partindo da
imprensa, da população em geral e de personagens do cenário político da cidade. Entre as
reclamações, encontra-se um editorial do Diário Catarinense, intitulado “Lições Populares do Carnaval”, que desaprova os métodos escolhidos pela prefeitura quanto à forma de auxilio para a “parcela mais sacrificada da sociedade”:
Florianópolis já teve o terceiro maior carnaval do Brasil. Formava ao lado de Salvador, Olinda e Rio o mais alegre quarteto urbano da época da folia. [...] A descontração e a possibilidade de participar da festa atraíam multidões de turistas de todos os cantos do país e do exterior. Toda a rede de turismo catarinense lucrava com a fama. Porém dessa vez o carnaval murchou. É verdade que a crise econômica e o desencanto político tiraram o bom-humor e parte da vontade de se divertir dos brasileiros. Mas em Florianópolis, aliada a estas questões, houve a ausência do desfile das escolas de samba. As autoridades apostaram na folia de rua, acreditando DIÁRIO CATARINENSE, 12/02/1988 p 11. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 90 DIÁRIO CATARINENSE, 12/02/1988 p 11. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 89
42
que sua força dispensava o desfile dos sambistas. As verbas oficiais deixaram de lado o apoio à cultura popular, que surge no ritmo, som e poesia que vem dos morros. A aposta parece representar um perigoso estrangulamento da cultura e forte decepção para a parcela sacrificada da sociedade. [...] Para uma cidade que vive em função do turismo e orgulha-se do dom da criatividade artística do seu povo, a perda do fôlego do carnaval é algo que precisa ser repensado no momento de se fazer novas apostas com verbas sociais. 91
Este editorial está em consonância com as palavras do ex-governador Espiridião
Amin, que também manifestou sua opinião:
[...] Merencoricamente, aqui em Florianópolis foi revogado o desfile das escolas de samba. Desfile que atraía turistas, que também significava alegria para as famílias humildes, que faz parte da tradição carnavalesca de Florianópolis, que era conhecido fora do Estado e do País. Pois foi revogado! Afinal, para governo(s) competente(s) não é vantagem afrontar “meia dúzia de metidos” [...] Agora, num odioso consórcio de vontades, os governos estadual e municipal do PMDB conseguiram revogar o nosso carnaval! Isso tem que dar samba. Se Deus e os votos permitirem, haverá de dar samba enredo já no ano que vem! Com as escolas na avenida! Com o povo vibrando! Mesmo que o governador não vá! 92
A decisão provocou revolta na população em geral, que, em conjunto com os
dirigentes e passistas das escolas de samba, prepararam uma manifestação com um objetivo: “este ato servirá para que o povo e autoridades percebam quanto um desfile de escolas de samba representa para a cultura do povo”, explica Telmos dos Santos em matéria veiculada no
Diário em cinco de fevereiro.93 Outra matéria do mesmo jornal, datada de sete de fevereiro,
chamada “Morro faz protesto contra o fim do desfile”, relata a organização do evento marcada
para o dia dez de fevereiro, e dá voz ao assessor de imprensa da escola de samba “Unidos da Coloninha”, que acredita no cancelamento do desfile por causa do carnaval de 1987, “um fracasso e elitizado” 94 Para o ato, é criada uma comissão de resgate à cultura, composta por diretores de escola de samba, blocos, compositores, carnavalescos e sambistas que visavam conscientizar a população em geral sobre as razões da revogação do desfile e dar oportunidade para os sambistas se expressarem. Como explicou Antonio Carlos Nunes, o Toninho: “não será um DIÁRIO CATARINENSE, SANTA CATARINA. 92 DIÁRIO CATARINENSE, SANTA CATARINA. 93 DIÁRIO CATARINENSE, SANTA CATARINA. 94 DIÁRIO CATARINENSE, SANTA CATARINA. 91
16/02/1988 p 04. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE 12/02/1988 p 06. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE 05/02/1988 p 10. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE 07/02/1988 p 08. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE
43
protesto, mas uma lamentação”
95
Assim, na mesma noite que veiculava na televisão o
discurso de Andrino, cinco mil pessoas lotaram o Largo da Catedral Metropolitana, além da presença de Lagartixa, o primeiro Rei Momo da cidade que, no evento, recebeu uma placa de prata como homenagem. Para compensar a falta da apresentação das escolas de samba, os clubes sociais
ficaram cheios e a decoração para os bailes públicos no centro da cidade foi caprichada. No
dia quinze de fevereiro foi a vez das Sociedades Carnavalescas desfilarem ao redor da praça XV. Sobre o desfile, ficou uma certeza para todos: o desfile dos carros alegóricos e de mutação ao redor da praça não dá mais certo. Segundo o coordenador técnico do carnaval de 1988, Nicodemus Ribeiro (Nico): “a praça não comporta mais um desfile desse porte, o número de foliões aumentou muito”. Já para Edson Policeno, diretor artístico da “Tenente do
Diabo, faltou segurança e organização: “Não tinha sequer um cordão de isolamento. Na hora do desfile muitas pessoas tiraram lâmpadas, mexiam nos carros, pondo em risco a parte elétrica. ”96
Apesar de todas as manifestações contrárias, o prefeito acreditou no sucesso da
decisão: O prefeito Edson Andrino, convicto que a população de Florianópolis apoiou sua atitude de não financiar o desfile das grandes escolas de samba no Carnaval desse ano, uma pesquisa junto à empresa Perfil. Esta pesquisa e avaliação, segundo Andrino, virá [sic] confirmar sua decisão. 97
Todavia, essa opinião não foi unânime: O prefeito Edson Andrino, de Florianópolis, tentando explicar porque não existe o carnaval de rua oficial, confessou sua adesão á “febre do sambódromo”, que está afetando as principais cidades do país. O engraçado é que todos criticaram o exgovernador do rio, Leonel Brizola, quando ele fez esta obra na Marquês de Sapucaí e agora o imitam, até mesmo para tentar uma justificação perante os carnavalescos locais. É Brizola que estava certo ou a incompetência que não encontra outras alegações. 98
DIÁRIO CATARINENSE, 10/02/1988 p 09. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 96 DIÁRIO CATARINENSE, 16/02/1988 p 12. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 97 DIÁRIO CATARINENSE, Seção “Visor” 18/02/1988 p 12. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 98 DIÁRIO CATARINENSE, Seção “Visor” 15/02/1988 p 12. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 95
44 O ano de 1988 foi um momento de dúvidas quanto aos rumos tomados pela
administração pública na gerência do carnaval. Significou o ponto crucial entre o fim da tradição dos desfiles carnavalescos na rua, e o surgimento de uma nova festa, totalmente remodelada, ou como defendida pela administração local, “moderna”. 3.2 1989: A INAUGURAÇÃO DA “NEGO QUIRIDO” A eleição de Esperidião Amin para a prefeitura de Florianópolis em 1989 não
significou apenas o cambio na administração da cidade, mas também a garantia da realização
dos desfiles das escolas de samba. Desde o artigo que o então candidato publicou em 12/02/1989, já foi assegurado que, caso eleito, Florianópolis voltaria a ter Carnaval. Para isso, seria preciso concluir o projeto da Passarela do Samba, iniciado na gestão anterior.
Assim, no dia vinte e seis de janeiro de 1989, foi publicada uma matéria no Diário
Catarinense intitulada “Empresários garantem Passarela do Samba”:
O prefeito Esperidião Amin, juntamente com o secretário de Turismo Ênio Branco e com o coordenador do Carnaval Airton de Oliveira estiveram ontem á tarde visitando as obras da Passarela do Samba. Pela falta de verbas da Prefeitura para o término da construção, foi feito um acordo com sete empresários da construção civil para que até o dia do Carnaval elas estejam prontas. [...] O presidente da Cota Empreendimentos Imobiliários LTDA e o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil de Florianópolis, Joci Martins afirmou que os empresários da construção sempre tiveram vontade de participar da administração pública, pois eles querem uma visão maior para a área turística da cidade. Eles esperam servir como exemplo para outros segmentos. 99
A notícia gerou comemorações na opinião pública, mas ainda não assegurava a
realização do desfile, visto a falta de recursos para as escolas se prepararem. Sobre este
assunto, foram encontradas várias matérias nos jornais com variados títulos: “Versatilidade substitui dinheiro” bolso”
102
100
; “Sobreviver, só com criatividade”
101
; “Arrastão sai sem dinheiro no
. De acordo com as escolas e blocos, apenas a ajuda por parte da prefeitura e do
DIÁRIO CATARINENSE, 126/01/1989 p 03. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA SANTA CATARINA. 100 DIÁRIO CATARINENSE, 17/01/1989 p 11. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA SANTA CATARINA. 101 DIÁRIO CATARINENSE, 18/01/1989 p 12. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA SANTA CATARINA. 102 DIÁRIO CATARINENSE, 27/01/1989 p 13. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA SANTA CATARINA. 99
DO ESTADO DE DO ESTADO DE DO ESTADO DE DO ESTADO DE
45 direito de transmissão das emissoras de TV RBS e RCE não garantiam a cobertura de todos os gastos, como é possível ver na matéria “Cachê não cobre todos os gastos”:
O Bloco SOS, que desfilará na segunda feira de carnaval em Florianópolis e na terça em Kobrasol, fará com que seus dirigentes desembolsem cerca de NCz$ 10 mil para viabilizar a apresentação deste ano. Do cachê da RBS e RCE, diz o presidente Nestor Aranha, “foi de aproximadamente NCz$ 1 mil, portanto insuficiente para cobrir todos os gastos”. “Ajuda financeira por parte da associação de funcionários da Fundação Hospitalar para o Carnaval inexiste”, completa ele. A responsabilidade maior quanto ao custeio está, ou deveria estar, segundo Aranha, com a Prefeitura Municipal, que tem lucro garantido com a festa. [...] 103
Em outra matéria, o carnavalesco Roleta faz um apelo: As escolas de samba “ [...]
deveriam se mexer mais a exemplo da capital paulista, onde a entidade deles está brigando
feio pela questão dos ingressos, pelo preço das escolas, sem deixar de exigir da Prefeitura sua contribuição.” 104
Outro detalhe foi lembrado por Aldírio Simões, colunista do “Diário” e personagem
influente no mundo do samba florianopolitano: “A cidade não teve concurso de rainha do Carnaval, não teve concurso de Cidadã-Samba, nem Cidadão-Samba. As Escolas não vão desfilar na Praça XV, na chegada do rei Momo. Quem está matando o carnaval da Ilha?”. 105
Através desses exemplos, fica claro que a gestão do carnaval ultrapassa apenas as
questões econômicas do desfile. Se no ano anterior as queixas se davam ao cancelamento do
carnaval oficial, em 1989 as críticas surgiram para contestar a infra-estrutura da folia, já que a passarela foi garantida, porém alguns rituais elementares do carnaval foram esquecidos:
[...] As informações são do coordenador do Carnaval, Airton Oliveira, que explica que esse ano, devido á dificuldades financeiras, não haverá decoração de rua, “a não ser o reforço da iluminação da Praça XV, que já começou a ser feito” [...] Já para o trabalho do Largo da Catedral, “fizemos um contrato com a empresa do Sindicato das Indústrias da Construção Civil que passou a eles a responsabilidade do camarote, por toda a estrutura da passarela e mais o tablado do baile público.
Sobre a passarela, a matéria explica:
DIÁRIO CATARINENSE, 26/01/1989 p 08. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 104 DIÁRIO CATARINENSE, 16/01/1989 p 10. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 105 DIÁRIO CATARINENSE, 30/01/1989 p 06. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 103
46
A receita apurada na venda dos camarotes, em torno de NCz$ 10 mil, segundo Airton, vai ser repassada ás industrias, e todo material empregado que for reaproveitável, como madeirit e tela de arame, será deduzido no custo da obra. A sonorização da passarela vai custar em torno de NCz$ 26 mil e será “uma das ultimas coisas a serem instaladas”. O total de gasto empregado pelo empresariado é estimado por Airton em torno de NCz$ 140 mil. Em cada lance de arquibancada de concreto haverá oito banheiros para os camarotes e mais oito para o público em geral. Estão sendo instalados ainda, dois bares: um para a arquibancada e outro para os camarotes. A Brahma comprou o direito de colocar os bares no local e terá que seguir as exigências da Prefeitura de que não se vende em lata ou garrafa. Há a idéia de se aproveitar os 32 camarotes para que sirvam de sala de aula após o Carnaval, já que correspondem a um espaço de 35 metros quadrados. 106
Apesar de todas as dificuldades, as escolas e blocos se prepararam para a estréia da nova avenida. No dia primeiro de fevereiro, começaram as venda de ingressos com os respectivos preços: para a arquibancada de costas para o mar, com capacidade para 1.137
pessoas, o preço foi de NCz$ 3, 00 para garantir 80 cm de “privacidade”; para a segunda arquibancada de cimento, com 1696 lugares, o preço foi de NCz$ 2,00 (para pouco mais de 50
cm de espaço para cada pessoa) e para as arquibancadas metálicas, NCz$, 1,00. Aliás, sobre estas ultimas, consta no Diário Catarinense de trinta e um de janeiro de 1989 que estas estruturas foram cedidas por Beto Carreiro, garantindo mais quatro mil lugares.
107
Para
surpresa até dos organizadores, os 7008 ingressos para a primeira noite dos desfiles se esgotaram em dois dias. 108 Estava tudo pronto. Ou quase: Na visita que fez ontem ás obras da passarela Nego Querido, na Baía Sul, o titular da Setur, Enio Branco, estava certo de que até as 18h de hoje todos os trabalhos do sambódromo estarão concluídos. Nicodemus Ribeiro, um dos responsáveis pela construção, informou que os trabalhos não seriam interrompidos nem na noite de ontem nem na de hoje, mas o certo é que as obras estão atrasadas, também por causa das chuvas de quarta feira. A prefeitura terá que acelerar o ritmo neste ultimo dia antes da festa, e os preparativos de cada escola antes do desfile deverão ser prejudicados. [...] Cerca de 200 pessoas, entre funcionários da Prefeitura, das empreiteiras, da Casan, da Telesc e da Celesc estavam trabalhando ontem na Passarela, na fase de acabamento, como explicou Ribeiro. A estes trabalhadores se juntaram os técnicos das emissoras de televisão que começaram a instalar seus equipamentos. [...] Pela avaliação de Ênio Branco, a Prefeitura não deverá gastar mais do que NCz$ 40.000 na obra da Passarela. 109
DIÁRIO CATARINENSE, SANTA CATARINA. 107 DIÁRIO CATARINENSE, SANTA CATARINA. 108 O ESTADO, 02/02/1989 CATARINA. 109 O ESTADO, 03/02/1989 CATARINA. 106
31/01/1989 p 10. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE 31/01/1989 p 02. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE p 7. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA p 9. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA
47
Assim, um dia antes da sua inauguração oficial, a “Nego Quirido” ganhou os retoques finais, ao mesmo tempo em que foi testada: [...] A passarela do samba “Nego Quirido” está praticamente pronta para os desfiles das escolas de samba e grandes sociedades. A inauguração que estava prevista para as 8h30m [sic] atrasou e somente próximo ás 23h teve inicio o desfile da Escola de Samba Protegidos da Princesa. As outras escolas foram convidadas a participar da festa, mas preferiram não se revelar. No final do desfile houve um pequeno problema com a iluminação, quando apagaram-se alguns refletores. Quanto ao sistema de som, ele funcionou perfeitamente. [...] “Foi uma obra recorde, quase impossível de ser realizada” contou o assessor técnico da Secretaria de Turismo do Município, José Nicodemus Ribeiro, lembrando que a Prefeitura conseguiu cumprir sua promessa e entregar a “Nego Quirido” no prazo, mesmo faltando pequenos detalhes. [...] O secretário de Turismo, Ênio Branco disse que a execução dos serviços no prazo foi “uma conquista” e agora a sua única preocupação é com a possibilidade de chuvas, que poderá prejudicar o brilhantismo da principal festa popular da Ilha. A passarela é compreendida por uma pista de 460 metros de extensão, possui duas arquibancadas de concreto e duas metálicas, com capacidade para 6800 pessoas. O desfile da Protegidos serviu de termômetro para avaliar como será o Carnaval da capital. Para os sambistas, ele será um dos mais animados. O pessoal está disposto a gastar toda a energia, para espantar a tristeza deixada pelo ultimo Carnaval. 110
Agora sim, estava tudo pronto. No dia quatro de fevereiro, a Passarela do Samba “Nego
Quirido” foi inaugurada, com os desfiles das Grandes Sociedades “Trevo de Ouro” e “Granadeiros da Ilha”, seguida das escolas de samba “Consulado do Samba”, “Embaixada Copa Lord”, “Protegidos da Princesa” e, por última, a “Unidos da Coloninha”. 111
Para a escolha do júri, a secretaria do Turismo apresentou uma lista com sessenta nomes
de diversas áreas para a escolha de dezesseis nomes que só foram divulgados com o inicio das apresentações. Para engrandecer ainda mais a festa, as regras estabelecidas para a comissão julgadora seguiram as mesmas normas do carnaval carioca. inesquecível para a folia da ilha.
Foi sem dúvida um dia
Assim, surgiram as primeiras impressões do carnaval de 1989: 112 O secretário municipal de cultura e turismo, Ênio Branco, acredita que cerca de 25 mil espectadores – sem computar os que pularam o cercado – estiveram na Passarela Nego Quirido, assistindo a outros 25 mil sambistas. [...] A maior lotação ocorreu no sábado, quando as arquibancadas de concreto estavam com a lotação máxima. Airton de Oliveira admite que o espaço de uma pessoa – entre 50 ou 80 centímetros,
O ESTADO, 04/02/1989 p 9. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 111 A escolha das maiores escolas de samba para a apresentação no primeiro dia se deu sob influência das emissoras de TV, que transmitiram ao vivo os festejos. 112 Para mais relatos sobre a transferência do carnaval para a Passarela do Samba, ver FANTIN, Márcia. op cit. 110
48
estabelecidos para valorizar o ingresso, foram extrapolados. “Mas o importante é que todo mundo viu o carnaval”, ressalta. Ele salienta que não houve riscos de segurança, pois a capacidade das arquibancadas é muito maior do que o número de pessoas que entraram. [...] Empolgado com o sucesso do carnaval, Ênio Branco não deixa o pensamento parar. Enquanto concede a entrevista, imagina a possibilidade de trazer para a passarela a escola campeã do carnaval carioca. Afinal ele precisa de atrações para os meses mais fracos.
Na sua maioria, as notas jornalísticas foram favoráveis ao carnaval da Nego Quirido: O carnaval de Floripa merece alguns elogios e outras tantas reclamações, mas aconteceu, ou melhor, está acontecendo dentro da normalidade. A passarela do samba que leva o nome de Negro Querido [sic] merece todos os elogios, em primeiro porque foi terminada á toque de caixa por um grupo de sete empresários que resolveram completar a obra deixada praticamente a zero pela administração do senhor Edson Andrino. Estavam muito bons os desfiles, principalmente os que aconteceram na noite de sábado, com as grandes escolas dando um brilho muito especial ao carnaval de Floripa. A cidade curtiu, as arquibancadas estavam repletas e todos queriam participar da festa que só terminou ao amanhecer. Valeu mesmo. É isso que o povo quer, que o povo precisa, afinal ninguém [é] mais sofrido do que ele.113
Outra matéria elogiava o grau de organização do carnaval: Apesar dos motivos carnavalescos girarem em torno da crise econômica brasileira e seus desmandos políticos, ninguém tinha nada a reclamara no domingo, na Passarela Nego Querido, a respeito da organização do carnaval. Todos satisfeitos, organizadores e foliões, o que restava era espaço para cantar e se divertir, mesmo nos bastidores e discretamente, quando a folia partia daqueles que estava de plantão. Além de um contingente de trinta margaridas da Comcap, que varriam a pista a cada passagem de uma escola ou sociedade e ainda mantinham limpos banheiros e camarotes, 37 homens da PM mantinham a ordem no interior da Passarela e suas imediações. De acordo com o Capitão Manoel Gomes, “a organização do carnaval está muito boa e ajudando e em muito ajudando o trabalho”. Não havia reclamações também a respeito do serviço de auto-falante e iluminação, assim como no espaço nos camarotes – considerados amplos e bem arejados – e transito nas arquibancadas. O incidente registrado no sábado, quando houve invasão da arquibancada não foi repetido, depois que a Prefeitura reforçou os alambrados e o policiamento. [...]. 114
Porém, houve aqueles que não se esqueceram do carnaval da Praça XV:
O ESTADO, 07 e 08/02/1989 p 15. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 114 O ESTADO, 07 e 08/02/1989 p 12. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 113
49
“O carnaval de rua de Florianópolis este ano está fraco”. A frase não passaria de um comentário rançoso de um observador “bem comportado”, não fosse a freqüência com que é repetida pelos próprios foliões dos blocos de sujos, que tentam arrancar da posição de espectador o escasso público que comparecem à Praça 15 de Novembro e às ruas centrais da cidade. [...]. 115
De maneira geral, as festas carnavalescas de 1989 ocorreram de forma positiva, tanto para o público em geral, como para o poder público. E como não poderia deixar de acontecer, iniciou-se um debate para saber de qual administração seria o mérito de tanto sucesso: do governo de Edson Andrino, que projetou e, de forma tímida, iniciou as obras, ou do governo de Esperidião Amin, que a concluiu:
Ambos acompanhavam as escolas de samba do mesmo camarote. Dividiam a gloria do primeiro carnaval no Sambódromo Nego Querido. No entanto, o atual e o exsecretário de turismo do município, Ênio Branco e André Schmitt demonstraram uma visão diferente sobre a questão que envolve os méritos da realização dos desfiles deste ano. “É a concretização de um projeto ambicioso completado em 15 dias”, enfatiza Ênio Branco. “Vejo com satisfação esta conquista de novas definições para o carnaval de Florianópolis”, arremata André Schmitt. No ano passado, a falta de recursos do governo municipal na gestão de Edson Andrino acabou não permitindo a realização do desfile das escolas de samba na Avenida Paulo Fontes. “A verdade é que quatro dias de carnaval representam a metade do orçamento da Secretaria”, explica Schmitt. E o ex-secretário aponta para o projeto iniciado por ele na administração passada “o fim de uma idéia de três anos”. Entre as idéias de Schmitt e Ênio Branco existem pontos diferentes, apesar da complementação do projeto estar nos planos da atual administração de Esperidião Amin. “Vamos aproveitar a estrutura para concretizar nossa idéia de fazer turismo em 12 meses”. Segundo Ênio, os 32 camarotes do atual sambódromo serão transformados em 16 salas de aula de hotelaria, “uma atividade que não conta com muita mão-de-obra atualmente”. Além da construção de um centro de promoções, casas de espetáculos e a estruturação do circuito de Formula-Ford e Formula 3 na nova passarela. “Deficiências existem”, enfatiza Ênio Branco, referindo-se á dificuldade do acesso ao sambódromo Nego Querido. “Mas vamos trabalhar agora para suprimi-las”. A satisfação do atual secretário era evidente. Ele fez questão de demonstrá-la. “Superamos todas as expectativas” [...] A participação da iniciativa privada neste projeto foi outro ponto bastante comentado por Ênio Branco e André Schmitt. As duas emissoras de TV – RCE e RBS – que transmitiram todas as atividades da passarela, ao vivo, investiram 45.000 OTN para pagar o cachê das escolas e grandes sociedades. “Temos que manter esta manifestação cultural e autônoma”, complementa André, cercado de elogios de amigos e foliões que acompanhavam as atividades dos camarotes. Assim como Ênio Branco, pelo mesmo motivo. 116
Agora, restou para o poder público saber quem poderia usar a cultura como um recurso. O ESTADO, 07 e 08/02/1989 p 6. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 116 O ESTADO, 07 e 08/02/1989 p 11. ARQUIVO DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 115
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como foi possível constatar, desde a fundação da primeira escola de samba de
Florianópolis em 1948, muita coisa mudou - inclusive a própria maneira de se pular o
carnaval. Saiu das ruas, ganhou um local construído exclusivamente para a festa, e ganhou artifícios que a modernizaram, tornando-a maior e mais vigorosa. De um amontoado de gente
brincando e jogando limão-de-cheiro no século XIX á um espetáculo planejado por diversos agentes ao longo do ano todo, a festa se tornou mais do que uma festa. Porém, mais do que uma série de eventos elencados numa linha temporal (como se as
relações aqui estabelecidas estivessem, de alguma forma, condicionadas á uma só dimensão),
a história do carnaval , seja ele o carioca, o baiano ou o florianopolitano, revelam algumas características do diálogo entre Estado e Cultura que são imprescindíveis para o entendimento da sociedade contemporânea. Embora já tenha sido utilizada para diversos fins ideológicos, e como argumentou
Foucault e seus estudiosos, ela tenha se tornado um meio de se internalizar o controle social, é
somente no final do século XX que o papel da cultura expandiu-se como nunca para as esferas política e econômica, ao mesmo tempo em que as noções convencionais de cultura se esvaziaram.117 É para essa característica da festa que devemos atentar. Se, por um lado, a festa foi delimitada de todos os lados para funcionar de acordo com alguns interesses socioeconômicos, por outro, essa ação provocou reações.
No caso de Florianópolis, a cultura se tornou um campo político por excelência,
provocando diversas disputas simbólicas sobre quem ou o que poderia falar em nome da tradição local. Como foi possível observar neste caso específico, os dois governos
reivindicaram a autoria da construção da passarela do samba, pois com certeza, atrelar o nome do governo com o novo símbolo cultural da cidade é de grande valia.
Ao longo dos anos, novas disputas surgiram em torno da cultura. Para ficar apenas nas festas de carnaval, existem dois episódios que ainda não tiveram um estudo mais
aprofundado: uma interrupção dos desfiles em 1994, sob administração de Sergio Grando e em 1998, quando, sob administração de Ângela Amin, a prefeitura municipal procurou
117
YÙDICE, op.cit. p.25.
51
estabelecer na capital catarinense um grande carnaval nos moldes baianos, com Trio Elétrico e show com a banda Olodum. Para além do maniqueísmo que considera a cultura contemporânea um processo
homogeneizado, num desejo nostálgico e anacrônico pelo retorno das antigas celebrações, este trabalho procura contribuir na compreensão das novas dimensões das festas na nossa sociedade, como um agente relevante, capaz de proporcionar novas condições de atuação social e diálogo entre a população em geral e o poder público.
É preciso considerar a esfera cultural, antes de tudo, como um campo onde as
lideranças comunitárias, as representações populares e os verdadeiros donos desses festejos se valorizem junto com a festa. No segundo capítulo, foi estabelecida a questão: afinal é ou não possível receber gratificações para atividades que outrora se fazia apenas por satisfação? Oras, sim, é possível!
Não podemos esquecer que sem os atores, não há espetáculo.
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ANEXOS Anexo 1 - AFINAL, QUEM É NEGO QUERIDO?
AFINAL, QUEM É NEGO QUERIDO? Ao longo das páginas deste trabalho, nenhum nome foi mais mencionado que “Nego
Querido”. Não seria justo concluir sem esclarecer a questão: afinal, quem foi o personagem que dá nome ao sambódromo de Florianópolis?
Para responder e, ao mesmo tempo homenagear, será usado um artigo de outro
personagem importante para o carnaval da ilha: Nego Querido, com “E”118 (Aldírio Simões)
“Tem gente que, há muito, vem atravessando o samba por desconhecer o enredo. Sem
essa de chamar o bom malandro Juventino João dos Santos de “Quirido”. Nada disso, é Nego
Querido com “e” e não “i”119. Ele faleceu pouco antes da construção do sambódramo [sic],
construído na gestão do prefeito Édson Andrino, por isso justifica-se o seu nome na Passarela Nego Querido. Alguns vereadores insistiam em homenagear o vice-prefeito Pedro Medeiros, sem nenhuma identidade com o carnaval e, por isso, não ganhou a simpatia dos sambistas e da imprensa. [...] Quando a sociedade local trocou os pomposos salões dos nossos clubes sociais pelos
bailes públicos das escolas de samba, em evolução frente ás câmera de televisão, inflando os desfiles oficiais e tirando a vez do sambista verdadeiro, com o samba no pé, a improvisada passarela da Avenida Paulo Fontes teve que ser transformada em sambódromo oficial, edificado na Prainha. Nunca mais o carnaval foi o mesmo, matou a festa e desestimulou passistas e cabrochas. Mesmo quando os últimos desfiles eram atrás do Mercado Público Nego Querido já
havia se afastado do movimento das escolas de samba, devido a problemas de saúde. Trocou a ginga de uma roda de samba por um defeito físico, em virtude de uma cirurgia, que o acompanhou até o resto da vida.
Este artigo está presente no livro de RAMOS, Átila. op.cit. p.88. Sobre esta confusão acerca do nome da passarela, existem várias versões. Alguns a chamam de “Nego Quirido”, outros de “Nego Querido”. No trabalho, foi usado “Nego Quirido” porque assim foi denominada na maioria da bibliografia usada. 118 119
Fundador da Embaixada Copa Lord, criado carinhosamente pela família Daux, ele tinha a característica, a pose de um bom malandro. Falava, inclusive, com um refinado sotaque carioca, mas, por ironia do destino, não chegou a conhecer o Rio de Janeiro.
Ás sextas-feiras descia a Mauro Ramos desfilando pelos bares da periferia, num bem
recortado terno branco, chapéu com aba quebrada escondendo parte do rosto, bigode fino e bem aparado e os inseparáveis sapatos preto e branco com salto carrapetada, devidamente
lustrados. Fazia pose, com gestos medidos, pouca conversa e fazia cara feia pra os freqüentadores pouco habituais dos botequins, mas era, efetivamente, querido pelos amigos. Um sambista respeitado, que fez história como o maior cuiqueiro de todos os tempos. Valeu negão Querido!”
AN Capital 20/Nov/95