Vol. II
ISSN 2175-831X
VIII SEMANA DE HISTÓRIA POLÍTICA V SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA: POLÍTICA, CULTURA & SOCIEDADE (Anais)
Rio de Janeiro 2014
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-Reitor: Paulo Roberto Volpato Dias Sub-reitora de Graduação – SR1: Lená Medeiros de Menezes Sub-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa – SR2: Monica da Costa Pereira Lavalle Heilbron Sub-reitora de Extensão e Cultura – SR3: Regina Lúcia Monteiro Henriques Diretor do Centro de Ciências Sociais: Léo da Rocha Ferreira Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH): Dirce Eleonora Nigro Solis
Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) Coordenadora Geral: Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves Coordenadora Adjunta: Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Coordenadora do Doutorado: Marilene Rosa Nogueira Coordenadora do Mestrado: Maria Regina Candido
Semana de História Política | Seminário Nacional de História: política, cultura e sociedade (x:2014:Rio de Janeiro) Anais / VIII Semana de História Política / V Seminário Nacional de História: Cultura & Sociedade; Vol. II; organização: Ana Beatriz Souza, David Barreto Coutinho, Eduardo Nunes Alvares Pavão, Iamara da Silva Viana, Paulo Júnior Debom Garcia, Renata Regina Gouvêa Barbatho – Rio de Janeiro: UERJ, PPGH, 2014. 1837p. Texto em português ISSN – 2175-831X 1. História Política – Congresso. 2. Cultura – Sociedade. 3. Relações Internacionais.
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SAMBA MIRIM CARIOCA: BRECHA, RESISTÊNCIA, ENTRE-LUGAR E MEMÓRIA Vanessa Dupheim1886
Resumo: O artigo investiga a presença de jovens no Carnaval Carioca do século XXI, como parte do patrimônio imaterial, pelas Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro. Neste contexto a reconstituição da memória afrodescendente é representada pelo samba mirim carioca que pelo viés carnavalesco, é ―brecha‖, ―entre-lugar‖ e continuidade da matriz cultural afrodescendente. Possui como suporte teórico: Marcos Palácios, Paul Gilroy, Stuart Hall, Paul Zumthor, Michael Pollak, Milton Santos, Muniz Sodré, Sergio Cabral, Hiran Araujo, Mikhail Bakhtin e Eric Hobsbawn. Palavras- Chave: Memória, Samba Mirim Carioca, Patrimônio Imaterial Abstract: The paper investigates the presence of young people in the Rio Carnival of the century, as part of the intangible heritage, the Samba Schools of Rio de Janeiro Mirins. In this context the reconstitution of African descent memory is represented by Bantam samba carioca carnival that the bias is "loophole", "in-between" and continuity of the cultural matrix of African descent. Has theoretical support: Marcos Palacios, Paul Gilroy, Stuart Hall, Paul Zumthor, Michael Pollak, Milton Santos, Muniz Sodré, Sergio Cabral, Hiran Araujo, Mikhail Bakhtin and Eric Hobsbawn. Keywords: Memory, Samba Carioca Mirim, Intangible Heritage
INTRODUÇÃO As Escolas de Samba Mirins da Cidade do Rio de Janeiro pertencem ao calendário festivo da cidade e seus componentes possuem um discurso identitário muito forte, na qual as ―comunidades das agremiações mirins‖ vivenciam um fenômeno específico, que é o samba mirim. O sentimento de pertencimento importantíssimo no mundo do samba, é conceito a ser abordado neste artigo e encontra força no pensamento de Marcos Palácios, pois para ele: 1886
*Graduada e Bacharel em História pela Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE) e Mestranda em Relações Étnicorraciais do Centro de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ)
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VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 ―O sentimento de pertencimento, elemento fundamental para a definição de uma comunidade, desencaixa-se da localização: é possível pertencer a distância. Evidentemente, isso não implica a pura e simples substituição de um tipo de relação (face-a-face) ou outro (à distância), mas possibilita a coexistência de ambas as formas, com o sentimento de pertencimento sendo comum às duas‖. (PALÁCIOS, 2001, p.7)
Por esta citação, a referida ―comunidade‖ assume caráter físico e simbólico. O caráter físico aparece quando os ―pequenos bambas do samba‖ fazem parte da comunidade onde a Escola de Samba mirim está inserida, mas também há o caráter simbólico quando outras crianças e jovens podem não ter moradia fixa na comunidade da Escola de Samba mirim e mesmo assim podem sentir-se parte dela, por ter essa agremiação no campo da afetividade, da emoção. Por tipo de memória trabalhada e relacionada ao objeto pesquisado, destacamos neste artigo a memória afetiva das pessoas, que têm a vida como experiência. E o samba carioca, se apresenta junto à expressão artística ensinada aos pequenos que aprendem muitas vezes pela palavra, uma referência de ancestralidade afro-brasileira, a tradição da oralidade. SAMBA MIRIM CARIOCA: RESISTÊNCIA, ENTRE-LUGAR E BRECHA PELAS “FAMÍLIAS DO SAMBA MIRIM” São as formas de percepção familiar, diferente da família nuclear e expandindo a noção desta, mas que nas Feijoadas, Ensaios de Escolas de Samba, Apresentações de Bateria, de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, são comuns de se observar tais relações interpessoais. Com relação a ―comunidade das Escolas de Samba Mirins‖, destacamos a teoria de Milton Santos onde o lugar está intimamente relacionado à própria concepção de espaço, a saber: ―Tudo que existe num lugar está em relação com os outros elementos desse lugar. O que define o lugar é exatamente uma teia de objetos e ações com causa e efeito, que forma um contexto e atinge todas as variáveis já existentes, internas; e as novas, que se vão internalizar‖. (SANTOS, 1994, P.97) Ou ainda em: ―Um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas e instituições – cooperação e conflito são a base da vida em comum. Porque cada qual exerce uma ação própria, a vida social se individualiza; e porque a contiguidade é criadora de comunhão, a política se territorializa, com o confronto entre a organização e espontaneidade. O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens
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VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 precisas de ações condicionadas, mas é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da ação comunitária, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade‖. (SANTOS, 1997, p.15)
Este envolvimento das ―comunidades do samba‖ diz respeito a noção de ―Grandes Famílias‖, pois nas Escolas de Samba é comum a vinculação com o termo Família, e os componentes
destas
como
fazendo
parte
das
chamadas
―Famílias‖
com
representatividade no mundo do samba, a saber: Escola de Samba Portela, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Filhos da Águia; Escola de Samba Mangueira, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Mangueira do Amanhã; Escola de Samba Império Serrano, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Império do Futuro; Escola de Samba Salgueiro, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Aprendizes do Salgueiro; Escola de Samba Vila Isabel, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Herdeiros da Vila; Escola de Samba Estácio de Sá, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Nova Geração do Estácio; Escola de Samba Grande Rio, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Pimpolhos da Grande Rio; Escola de Samba Caprichosos de Pilares, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Inocentes da Caprichosos; Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, o samba mirim está representado pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Estrelinha da Mocidade; Outras Escolas também têm seus nomes inscritos na história do Carnaval Mirim Carioca, com este mesmo sentimento de identidade e pertencimento. São elas, a saber:
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O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Mel do Futuro;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Corações Unidos do CIEP;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Tijuquinha do Borel;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Ainda Existem Crianças na Vila Kennedy;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Miúda do Cabuçu;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Petizes da Penha;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Infantes do Lins;
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mirim Golfinhos da Guanabara.
SAMBA MIRIM CARIOCA: TRABALHO DE BASE As palavras Muniz Sodré podem ser relacionadas ao samba mirim carioca e ao aspecto de trabalho de base, quando a intenção é desenvolver nas crianças e jovens o talento, a alegria, o gosto pelo samba, suas ―raízes ancestrais‖ (ritmo negro) e com este trabalho de ensaios possa ser feito um belo carnaval. ―Como todo ritmo já é uma síntese (de tempos), o ritmo negro é síntese de sínteses (sonoras), que atesta a integração do elemento humano na temporalidade mítica. Todo som que o indivíduo humano emite reafirma a sua condição de ser singular, todo ritmo a que ele adere leva-o a reviver um saber coletivo sobre o tempo, onde não há lugar para a angústia, pois o que advém é a alegria transbordante da atividade, do movimento induzido‖. (SODRÉ, 2007, p.21).
Segundo Pollak, outras questões são importantes, a saber: ―A questão de que a memória e a identidade passam por um processo de aceitabilidade que se faz por meio da negociação direta com outros‖. (POLLAK, 1992, p.204) O ―trabalho de base‖ que é realizado nas Escolas de Samba Mirins fez com que vários nomes conhecidos hoje em dia tenham despontado no mundo do samba, a partir desta experiência inicial nas agremiações mirins.
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Um dos Personagens com memória e trajetória já construídas a partir do Mundo do Samba Mirim Carioca, temos a destacar neste texto: o Gabrielzinho do Irajá. Gabrielzinho do Irajá, como é conhecido Gabriel Gitahy da Cunha é pessoa de destaque no mundo do samba, e particularmente do samba mirim. Gabriel é cantor, versador, compositor, partideiro, foi ator da novela América, da Rede Globo e também no Instituto Benjamin Constant, onde estudava, na peça ―Mágico de Óz‖. Também foi intérprete da Escola de Samba e hoje faz shows. É sambista conhecido. As Escolinhas de Mestres-Salas e Porta Bandeira também são fator de destaque no trabalho de base com meninas e meninos, realizado nas agremiações mirins. E a fala de uma famosa Porta-Bandeira, Vilma do Nascimento, sobre a sua dança é digna de menção: ―O Mestre-sala e a porta-bandeira apresentam e defendem o pavilhão da escola, bailando num cortejar, mais do que sambando, como já se observou. ―É como o voleio de um beija-flor em torno da rosa. Ele se aproxima, toca e sai. Volta a se aproximar, beija e sai. Nunca as ações serão idênticas. E a rosa, ao contrário do que se pensa, ao sabor do vento das asas do pássaro, não permanece passiva. Ela dança‖, disse a porta-bandeira Vilma do Nascimento, em entrevista à José Carlos Rego‖. (DOSSIÊ DAS MATRIZES DO SAMBA NO RIO DE JANEIRO, p.61)
CONSIDERAÇÕES FINAIS O samba mirim carioca merece ser analisado por ter o comprometimento do movimento inicial com os sambistas das Escolas de Sambas Tradicionais, mas também por romper alguns paradigmas e por destruir preconceitos. Pela sua trajetória, pelas conquistas, pelo trabalho realizado. O carnaval mirim é determinado por regras a serem cumpridas e tempo para ser finalizado. A festa carnavalesca, que de início acontecia ao som dos batuques, das violas e dos atabaques e da dança negra, foi brecha, resistência e entre-lugar, mas com o passar dos anos transformou-se, é memória, e é manifestação cultural reconhecida, patrimônio imaterial. Continuará a existir. Por fim, as palavras em forma de um samba inesquecível, o pedido para o samba mirim carioca: ―Deixo ao sambista mais novo, o meu pedido final: Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...‖ (ALCIONE. Samba: Não Deixe o Samba Morrer, 1975)
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