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A dimensão política e econômica no “Mundo do Samba” paulistano

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DOI 10.5216/ag.v4i12.12783

A DIMENSÃO POLÍTICA E ECONÔMICA NO “MUNDO DO SAMBA” PAULISTANO LA DIMENSIÓN POLÍTICA Y ECONÓMICA EN EL “MUNDO DE LA SAMBA” PAULISTANO POLITIC AND ECONOMIC DIMENSION IN THE PAULISTANO “WORLD OF SAMBA” Alessandro Dozena Prof. Adjunto - Departamento de Geografia Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Av. Sen. Salgado Filho, nº 3000 - BR 101, Km 92 - Lagoa Nova, CEP 59078-970 Natal-RN E-mail: sandozena@ufrnet.br

Resumo Este artigo objetivou compreender os diferentes usos do território na cidade de São Paulo sob a perspectiva particular da dimensão política e econômica manifestada no “Mundo do Samba Paulistano”. Considerando-se os depoimentos dos sambistas e entrevistados, houve a abordagem das negociações presentes no samba paulistano, da geração de empregos durante a fase pré-carnavalesca, da movimentação da economia e das ações políticas. Palavras-chave: samba, política, economia, São Paulo.

Resumen Este artículo intentó comprender los diferentes usos del territorio en la ciudad de São Paulo bajo la perspectiva particular de la dimensión política y económica notable en el “Mundo de la Samba Paulistano”. Considerándose los preciosos testimonios de los sambistas y entrevistados, hube el abordaje de las negociaciones patentes en la samba paulistano, de la generación de empleos durante la fase pre-carnavalesca, del movimiento de la economía y de las acciones políticas. Palabras-clave: samba, política, economía, São Paulo.

Abstract In this paper, we are interested in understand the different uses of the paulistano territory in a particular perspective of the politic and economic dimensions which are associated with samba in Sao Paulo city. From the different evidences of sambistas and intervieweds, we studied negotiations evident in the samba paulistano, the generation of

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employments during the pre-carnavalesca phase, the dinamization of economy and of the political actions. Key-words – key: samba, politic, economy, Sao Paulo.

As negociações presentes no samba paulistano A designação “Mundo do Samba” visa englobar as atividades que têm o samba como o elemento central, dentre elas as que acontecem nas escolas de samba, rodas de samba, bares, casas noturnas especializadas, projetos e movimentos de samba. Em virtude da amplitude de possibilidades de pesquisa, focamos a análise nas escolas de samba, rodas e movimentos de samba. Não houve um apego aos eventos de gafieira, samba-rock e aos que ocorrem em bares sofisticados ou botecos; o que por si só renderia outro texto. Desde o início das reflexões que resultaram na escrita deste artigo, foram buscados subsídios provenientes dos depoimentos de diferentes personagens do “mundo do samba” paulistano 1, a fim de fundamentar a análise dos embates, das negociações políticas e dos interesses econômicos envolvidos. Tais tônicas se exercitam através da busca por se compreender as questões referentes ao uso político do território (a exemplo da ocupação do solo), além da utilização e organização dos “territórios do samba”. Nesses territórios, a instância política constitui um importante aparato que permite o funcionamento e a existência de muitas atividades ao samba relacionadas. A espacialidade da vida política ou os processos políticos da relação entre a sociedade e o território podem ser o centro das atenções em uma perspectiva que busca explicar a relação entre o espaço e o poder (MORAES, 2001). Neste sentido, “a formação dos territórios, apesar de quase sempre possuir motivações econômicas bem determinadas, é fundamentalmente um ato político por excelência” (MORAES, 2001, p. 42). A esse respeito, Moraes (2001) afirma que a idéia da formação dos territórios equacionada como movimento é capaz de resgatar a unidade dialética entre forma e 1

O presente artigo é fruto de reflexões aprofundadas constantes em nossa de Tese de Doutorado intitulada “As Territorialidades do Samba na Cidade de São Paulo”, financiada pela FAPESP e defendida no ano de 2009 no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo-USP.

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processo. Desse modo, a consideração do processo de formação dos territórios faz com que o interesse da análise seja a história da apropriação e uso de uma porção singular do território que projetará as especificidades da sociedade que o produziu, com suas particularidades próprias. Refletindo-se com esses pressupostos, existe um exercício de poder que gera uma conexão subjetiva com o espaço geográfico, “destacando-se aqueles discursos normativos que podem ser definidos como ideologias geográficas, isto é, que visam orientar juízos acerca dos lugares ou comandar a produção e apropriação do espaço” (MORAES, 2001, p. 44). Tem-se, assim, o plano de uma geografia que considera a história territorial. Ao tratarmos de cidade não desconsideramos o fato de que a dinâmica intraurbana se articula com as dinâmicas interurbanas (LEFEBVRE, 1999), em um único processo que comanda a constituição da rede urbana e da metrópole paulistana. Igualmente, a opção pela categoria de análise cidade ocorreu pela demarcação do estudo não abarcar outros eventos de samba presentes na Região Metropolitana de São Paulo, o que ampliaria em muito o recorte aqui proposto. A cidade é aqui considerada como um fato econômico e uma relação política (WEBER, 1982), um fenômeno de origem político-espacial manifestada em sua dinâmica territorial (GOMES, 2002), a combinação entre a forma material e o seu conteúdo social (SANTOS, 2002) e a expressão concreta dos processos sociais na forma de um ambiente construído, que reflete as características da sociedade (MUMFORD, 1961). Complementarmente, cabem algumas palavras sobre a forma como ocorreu a ocupação ou invasão dos terrenos pelas escolas de samba. Ao longo do processo histórico paulistano as manifestações de samba sempre estiveram marginalizadas, condição também imposta à população afro-brasileira2 em sua localização espacial; considerando-se o quadro atual em que a maior parcela da população negra paulistana reside nas fimbrias da cidade de São Paulo, em distritos com maior pobreza. Até hoje,

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É comum encontrarmos na literatura especializada o uso dos vocábulos afro-descendente ou afrobrasileiro. A partir da instauração do debate sobre a temática dos negros e das suas origens culturais, estes termos passaram a ser adotados principalmente pelos integrantes dos movimentos negros brasileiros. Ao se utilizar nesse trabalho do prefixo afro, volta-se de certo modo à África, destacando-se a referência à origem territorial dos negros descendentes de africanos; nascidos no Brasil e moradores da São Paulo contemporânea.

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uma grande quantidade dessa população não foi plenamente incorporada ao “mercado de trabalho”, simplesmente sobrevivendo através de estratégias marginais. Dentre as dimensões dessa exclusão há de se somar esta: a de que as escolas de samba se apresentam como um fenômeno “devoluto” na cidade, pois seus diretores permanecem na maioria dos casos, durante o ano todo, buscando apoio ou favorecimentos políticos para que a escola sobreviva até o ano subseqüente, conforme indica o depoimento abaixo transcrito: O terreno onde está a quadra da Vai-Vai foi cedido pela Prefeitura em regime de comodato (...) A prefeitura em São Paulo não prioriza o samba porque São Paulo é diferente do Rio de Janeiro e da Bahia entendeu? (...) O turismo em São Paulo é só de negócios e no Rio e na Bahia é um turismo especializado em lazer (...) Lá, se parar o carnaval, a cidade sofre, entendeu? (...) Se não tiver carnaval em São Paulo, tudo bem, porque o turismo aqui é de negócios (...) Por isso a prefeitura do Rio investe mesmo, pois o que ela quer é atrair turistas (...) Aqui, todos os anos, você tem que matar dez leões para conseguir verba (...) Enquanto em São Paulo uma escola de samba consegue 450 mil reais da prefeitura, cada uma, no Rio cada escola ganha 1,5 milhão de reais, para o mesmo número de pessoas no desfile (...) E carnavalesco é caro, montar o desfile também, entendeu? (...) Gostaríamos sim que a prefeitura olhasse mais para nós, e não pensasse em carnaval só depois do mês de janeiro, depois do aniversário de São Paulo (...) No Rio, a verba para o carnaval chega muito antecipadamente (Penteado, entrevista realizada em 05/03/2008).

Diante desse quadro, julgamos que grande parte das escolas de samba paulistanas não chega a amadurecer enquanto instituição. Um exemplo desse fato vem da tradicional escola de samba Nenê de Vila Matilde. No ano de 2009, a sua quadra precisou passar por reformas e chegou a ser interditada pelo Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru). Por outro lado, ao longo da história da escola de samba Nenê de Vila Matilde, desapropriações levaram a algumas mudanças de localização de seu barracão, até chegar ao atual; onde a energia elétrica somente foi ligada no dia 7 de dezembro de 2009 (nas vésperas do desfile carnavalesco de 2010).

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Figura 1 – Quadra da escola de samba Nenê da Vila Matilde Fonte: Alessandro Dozena, setembro de 2007. Tal situação de desapropriações é acompanhada por outras ações: a ocupação de locais embaixo de viadutos ou de terrenos vizinhos às marginais dos rios Tietê e Pinheiros (em geral menos valorizados), pelos terrenos cedidos pela prefeitura (que tem a propriedade legitimada), pela ocupação momentânea de barracões, pela grande mobilidade territorial das escolas de samba e pela verba que demora a chegar, como explica nosso entrevistado:

Algumas escolas conseguiram o terreno por comodato e são poucas as que detêm a documentação (...) Nós da Prova de Fogo por exemplo, ganhamos uma área e já fizemos um investimento na ordem de 400 mil reais (...) Mas a insegurança é total pois a qualquer momento o Poder Público pode requerer e nós temos que sair (...) E isso também acontece com a maioria das escolas de samba (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008). Muitas escolas da zona norte tiveram uma grande vantagem, pois a exemplo da Rosas de Ouro e da Unidos do Peruche, ficaram com alguns remanescentes de áreas próximas ao Rio Tietê (...) A maioria das escolas não possuem nem posse regular do terreno, mas vão ficando por ali, até que os subprefeitos cedam estas áreas com interesses políticos (...) Isso, por exemplo, ocorre com o meu barracão, utilizado para a confecção de alegorias e localizado próximo ao Ceasa, local também utilizado por outras quatro escolas (...) Do lado de lá da Marginal Tietê está o barracão da Gaviões, da Nenê, da Morro, da Tom Maior e da Barroca (...) Todas estão em área municipal, próxima ao rio Tietê (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

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Muitas vezes, a perda do terreno ou da quadra se dá pela própria desorganização da diretoria das escolas de samba, conforme demonstram os depoimentos abaixo transcritos3:

Eu não concordo com quem diz que sambista não é organizado, mas às vezes fico um pouco calado, pois a pessoa ganha um espaço para organizar algo comunitário e consegue perder este espaço por não pagar IPTU, água ou luz (...) É preciso zelar, primeiramente porque este espaço é da comunidade (...) Segundo porque se deixar alguma brecha, o Poder Público vem e toma (...) Por outro lado, a comunidade não é orientada para cobrar do presidente a manutenção desses espaços e a proposição de projetos culturais (...) Veja só, na Mangueira por exemplo, bateu um tamborim e colocou feijoada a comunidade já chega (Kaçula, entrevista realizada em 18/10/2007). O Carnaval é um evento que exige o mínimo de conhecimento para se poder organizar (...) As escolas de samba são compostas por uma comunidade que pede uma liderança (...) Principalmente no aspecto da organização financeira, a questão da liderança pesa muito (...) A correta administração está diretamente relacionada com o presidente e a direção (...) Agora, um grande problema, é que o carnaval propicia um tipo de liderança desvairada (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

Assim, o questionamento quanto à possibilidade da regularização da propriedade dos terrenos estabelecida pela compra legal, foi respondido pela dirigente da União das Escolas de Samba de São Paulo – UESP, da seguinte maneira:

No caso da compra dos terrenos onde estão as quadras e barracões, acredito que o samba paulistano deva ser reconhecido pela cidade e por isto mesmo gozar de uma área pública, não comprá-la (Léia, entrevista realizada em 05/03/2008).

Caso os terrenos em os barracões e as quadras das escolas fossem doados pela prefeitura, teríamos provavelmente um maior reconhecimento social das atividades que aí acontecem. É interessante observar que o depoimento acima trafega basicamente pela aceitação dessa constante condição de mendicidade, envolvendo praticamente todas as escolas de samba, notadamente aquelas voltadas à busca de verbas junto à Prefeitura, à União das Escolas de Samba – UESP, à Liga das Escolas de Samba de São Paulo– LigaSP e aos empresários. Na impossibilidade de generalizar esta prática, observa-se

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Os trechos dos depoimentos aqui apresentados são opiniões expressas que demandam uma reflexão teórica mais ampla, o que em decorrência da limitação de páginas colocada pelo formato artigo não será realizada em sua plenitude. Entretanto, esta reflexão poderá ser encontrada na tese supracitada. Por outro lado, a opção pela identificação nominal dos depoentes se dá em virtude da autorização de todos para a divulgação de suas ideias.

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que ela somente perde a efetividade quando há o “patrocínio” proveniente do jogo do bicho e/ou do tráfico de drogas4. É comum ouvir de sambistas integrantes de várias escolas de samba paulistanas, que o dinheiro que financia o desfile da Império de Casa Verde não é lícito. Embora se deva ter cautela ao se falar da relação tráfico/escolas de samba, não há como descartar a possibilidade de o crime organizado financiar algumas escolas do Grupo Especial. Comumente, é alegado que tais financiamentos somente são feitos por meio de subvenção da Prefeitura, dinheiro de bilheteria obtido nos dias de ensaio, venda de fantasias e direito de imagem galardoado pela Rede Globo de Televisão. Entretanto, a prisão de três diretores da Escola de Samba Império de Casa Verde em dezembro de 2006, acusados de integrarem a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), vem ao encontro da acusação anteriormente feita pelo Ministério Público, de que a escola fez apologia ao crime em seu desfile em 2005, ao exibir a imagem do bicheiro fundador da escola, Chico Ronda, morto em 2003. Nesta argumentação, cabe bem estabelecer uma distinção existente na relação entre o governo e os sambistas, que costuma variar conforme as distintas gestões públicas: A Erundina, em sua simplicidade, aceitou construir o Sambódromo em São Paulo, ao contrário do Jânio, que gostaria de ter acabado com o Carnaval (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008). Em minha época na UESP, pegamos um governo mais justo que foi o do Mário Covas, um prefeito que aceitava os movimentos e buscava fortalecêlos (...) Nesta época, houve um grande avanço no carnaval de São Paulo (...) Outro governo socialista que deu muita atenção para a cultura foi o da Erundina (...) E olha, mesmo o governo do Maluf também respeitou muito as escolas de samba (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Deixando-se de lado os argumentos no sentido dos auxílios políticos “prestados”, vale relembrar que, da mesma forma, as atividades carnavalescas beneficiam diretamente o Poder Público. Assim sendo, há que se adicionar o fato de que: O carnaval movimenta o comércio da cidade durante o mês de janeiro, que é um mês de férias, trazendo recursos para a Prefeitura (...) Segundo o Ministério do Turismo, ele movimenta 52 setores da economia (...) Quer dizer, ao mesmo tempo em que a Prefeitura cede 15 milhões, ela recebe 150 milhões (...) Vende-se mais cerveja, movimenta-se a rua 25 de março, além da indústria do ferro e a da madeira (...) Durante os ensaios, vende-se muita 4

Muitas questões pertencentes ao samba paulistano também fazem parte da dinâmica do samba carioca, a exemplo do patrocínio do desfile carnavalesco. Sobre isto ver: EVANGELISTA, Hélio de Araújo. Rio de Janeiro: violência, jogo do bicho e narcotráfico segundo uma interpretação. Rio de Janeiro: REVAM, 2003.

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cerveja nas quadras (...) Então, na realidade, o carnaval não traz somente ônus para a Prefeitura (...) Também traz de volta um lucro muito maior em equivalência ao que a prefeitura gasta (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Nos argumentos dos diretores das escolas de samba, os investimentos que são feitos pelo Poder Público poderiam ser mais vultosos, pois depois de partilhada por todas as escolas, a subvenção acaba sendo pouca. Uma análise detalhada remete à cifra de 18,9 milhões de reais investidos em 2008 pela Prefeitura do Município de São Paulo (Fonte: Prefeitura do Município de São Paulo). Por outro lado, quando se analisam os ganhos e os empregos gerados pela rede hoteleira, encontra-se que: Em São Paulo, até o ano de 2002, a ocupação hoteleira ficava em torno de 6% a 7% (...) Hoje, durante os festejos de carnaval, a cidade preenche de 65% a 70 % de toda sua capacidade hoteleira (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Como já dito, tomando-se a perspectiva das negociações políticas, esta se revela como um campo interessante para se pensar as questões territoriais. Do ponto de vista do uso territorial, o depoimento do organizador do projeto “Rua do Samba Paulista” (roda de samba que acontece em todo último sábado do mês no Largo General Osório), evidencia esta tensão:

Já tivemos algumas conversas com a Sub-Prefeitura e sugeriram que mudássemos de lugar (...) Até por conta do André Matarazzo estar leiloando a região da “Cracolândia” (...) Já estamos fazendo a revitalização da área há oito anos através da cultura e da música (...) A valorização também é dada pela cultura pois trazemos gente de várias idades, de toda a região metropolitana (...) Nesta área, que é vista pela sociedade como um ponto crítico de violência em São Paulo, no último sábado de todo mês a gente transforma a rua num ambiente familiar (...) Houve uma primeira tentativa de retirada (...) Já nos sugeriram mudar para o Anhangabaú ou para o Largo do Paissandu, mas não aceitamos porque foi uma grande batalha construirmos esta história (...) Vamos ver até quando conseguimos resistir (...) Já dissemos que faremos um abaixo-assinado e levaremos para todos os órgãos públicos competentes (...) Temos uma história ali de mais de oito anos (...) Só na Rua do Samba, estamos há cinco anos (Kaçula, entrevista realizada em 18/10/2007)5.

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A acentuada pressão pela saída dos sambistas do Largo General Osório finalmente obteve êxito no mês de Março de 2009, quando esses foram obrigados a continuarem suas atividades em uma área disponibilizada na avenida São João, em frente ao Boulevard. Vale destacar que a Rua do Samba Paulista recebe o apoio da União de Negros pela Igualdade – UNEGRO e do Coletivo de Empresários e Empreendedores Negros – CEABRA, tendo como lema principal presente em seu site: “Rebele-se contra o racismo!”. Para maiores informações, consultar: http://www.projetoruadosambapaulista.com.br/

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Observa-se que, a movimentação dos sambistas em prol de seus territórios necessita de respostas positivas para se objetivar. Tal constatação reforça a busca de votos pelos políticos, notadamente nos anos eleitorais: O carnaval como manifestação cultural está politizado (...) A classe política entendeu que a classe dos sambistas deve ser mais bem avaliada (...) As decisões políticas passam hoje pelas escolas de samba, pois se percebeu, que a mesma comunidade que faz o carnaval e desfila no carnaval é também o eleitor que faz determinado candidato vencer (...) Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008). Existem favores políticos realizados para todas as escolas, pois vereadores, prefeitos e governadores têm muito interesse nelas (...) Evidentemente, as escolas procuram tirar proveito deste fato (...) Contudo, acho que os sambistas não são tão hábeis em lidar com isto, pois se deixam vender por muito pouco, não sabem negociar (...) Se você imaginar uma comunidade como uma escola de samba, perceberá que ela mobiliza muitas pessoas, não somente as que efetivamente desfilam na carnaval (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

Em algumas escolas de samba, há a difusão generalizada de um discurso que apregoa a inclusão social (que acaba sendo utilizado politicamente). Da mesma forma, a aglutinação de grande quantidade de pessoas nos eventos de samba, contribui para que sejam realizadas investidas políticas. Para ilustrar este fato, destacamos o ocorrido no carnaval de 2008, quando a Escola de Samba Vai-Vai foi consagrada campeã, com um enredo que trazia a problemática da educação no Brasil: Quem estava por detrás deste enredo era o Antônio Ermírio de Moraes, com um tema que explicitava a questão da importância da educação (...) Ele deve ter doado uma boa grana para a Vai-Vai (...) O tom emérito do Antônio Ermírio, que a gente já conhece, faz parte das ações do empresariado brasileiro para construir um teatro e se gabar, enquanto tem um montão de pessoas passando fome (Sambista paulistano, entrevista realizada em 15/03/2008).

O atrelamento do samba com a política já é fato antigo no Brasil. Ao longo da história do país, a garantia de apoio político sempre existiu mediante os “auxílios prestados” e as práticas clientelistas 6. Ainda hoje, o próprio processo de filiação a determinado grupo político é garantia de proteção, sobretudo no que se refere à permanência nos terrenos, como é o caso da quadra da Escola de Samba Prova de Fogo, situada às margens da Rodovia Anhanguera:

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Para um aprofundamento desta temática ver: CAVALCANTI, Maria L.V. de Castro. Barracão de escola, barracão de ala: breve estudo dos bastidores do Carnaval. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, n. 20, p.175-184, 1984.

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Figura 2 - Quadra da Escola de Samba Prova de Fogo Fonte: Alessandro Dozena, março de 2009. Isto pode ser bem aprofundado a partir do depoimento do presidente da escola de samba: Eu fui petista por muitos anos, mas não quis ir para o PSOL, pois eles são muito radicais (...) Fui convidado por outro partido e aceitei, até por necessidade de me manter na área da quadra, que pertence ao DER e é administrado por políticos do PSDB (...) A quadra está em um resto de área pública que a Autoban está querendo tomar, sendo que existem milhares de outros terrenos (...) É uma área que estava não utilizada há uns 50 anos e tinha um trevo entre a Marginal da Anhanguera e a Rodovia Anhanguera (...) Só que ao se construir a Anhanguera, sobrou um resto de área (...) Eles tomaram o cuidado de me dar um espaço onde era um resto administrado pelo DER (...) Eu sempre digo, daqui a Campinas tem 500 áreas maiores do que esta e vocês querem justamente esta? (...) Eu gastei 250.000 reais com terraplanagem e agora querem tomar com tudo pronto? (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Então, no momento em que as pressões aumentam, a “proteção política” torna-se a garantia da permanência:

O terreno onde está a escola de samba ainda pertence ao DER (...) Mas eu me garanto com meu deputado e com o próprio diretório (...) Eu falo para eles: Oh, fala para os caras crescerem os olhos para lá! (...) E vou te falar, quando o PSDB sair do poder, eu entro no outro partido (...) Eu falo com dois ou três deputados que vão conversar diretamente com o Secretário dos Transportes (...) Eles fazem isto não por questões de valorização cultural, mais sim por interesses políticos (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

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O apoio principal, acima referido, é dado por vereadores e deputados que, em contraposição, têm assegurada a conquista de votos nas eleições subsequentes:

No meu caso, eu consigo bastante apoio com o deputado Celino, que atende as necessidades da Freguesia do Ó e da minha região também (...) Ele é meu amigo pessoal e na eleição sempre consigo votos para ele (...) Quando a Autoban fez pressão eu fui para cima dele e ele resolveu (...) Em contrapartida, só da minha escola, ele recebeu de 3 a 4 mil votos (...) Ele foi lá na escola, eu marquei algumas reuniões com empresas interessadas em ajudar a escola, chamei a comunidade e o apresentei (...) Ele se deu bem, até porque é muito bom de conversa (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Outro desdobramento interessante a respeito da presença política no “mundo do samba” é potencializado pelos conflitos existentes entre as entidades carnavalescas, sobretudo os que envolvem a Liga das Escolas de Samba de São Paulo - LigaSP e a União das Escolas de Samba de São Paulo - UESP:

Existe um grupo político que apresenta a mesma ideologia (...) Esse grupo, surgiu no início da década de 1990 e está comandando o carnaval nas associações há quase dezesseis anos (...) Temos a proposta de fazer com que o carnaval cresça ainda mais e que haja a preservação da cultura brasileira (...) Tudo bem, o carnaval é negócio, é turismo, mas também é cultura (...) Atualmente, estamos presenciando uma crise na Liga e novamente teremos que auxiliar a resolver o problema (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Poder-se-ia lembrar que a gestão de Róbson na Liga das Escolas de Samba (1998 a 1999 e 2000 a 2005) é tida como uma das mais politicamente conturbadas e que até hoje rende polêmicas interessantes, como esta relatada pelo próprio envolvido:

No desfile das escolas campeãs de 2008 no Rio de Janeiro, estavam uns oito dirigentes das escolas do Grupo Especial de São Paulo e todos ficaram constrangidos com a minha presença (...) Mesmo assim, eu fui até o camarote e os cumprimentei (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Essas tensões também estão expressas na fala do presidente interino da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde:

Agora tem o grupo dos oito (...) De uma hora para a outra um montão de gente nova assumiu a Liga, dizendo: “isto tudo é nosso” (...) São poucas as pessoas que têm coragem de falar coisas para nós em nossa frente (...) Olha, com um bom administrador é possível fazer um bom planejamento e criar uma série de coisas (...) Quando tentaram colocar na direção da Liga o

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presidente da escola de samba Vila Maria eu disse: “O que precisamos é de um administrador” (Betinho, entrevista realizada em 05/03/2008).

Historicamente, houve uma ruptura entre a Liga das Escolas de Samba de São Paulo - LigaSP e a União das Escolas de Samba de São Paulo – UESP, como explica a presidente da UESP:

Houve uma ruptura histórica entre a Liga e a UESP (...) Isto aconteceu pois em um determinado momento, as maiores escolas de samba passaram a receber direitos de imagem e aceitaram a proposta da Globo para que fossem agrupadas pela Liga (...) Por essa exclusividade, as Escolas do Grupo Especial da Liga passaram a receber uma quantia que para o ano de 2007 foi de R$130.000,00 por escola, segundo me informou um diretor (...) Então, as maiores entidades se uniram à semelhança da Liga carioca, copiando até o próprio nome (...) Dizem que o Seu Nenê resistiu em princípio a esta divisão, preferindo ficar do lado da UESP (...) Mas, posteriormente, por questões estatutárias, divisão de dinheiro etc., acabou cedendo (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

Como conseqüência desse rompimento, houve uma redução do poder de pressão pelas duas entidades, pois estas poderiam atuar conjuntamente na busca de seus interesses com maior poder de barganha e sem negociações bilaterais. Entretanto, é interessante notar a contradição apontada por uma de nossas entrevistadas:

O sambista tem uma coisa muito interessante que só convivendo para entender (...) Um pode bater no outro, mas, se alguém falar mal, apanha (...) A Liga e a UESP têm divergências sobretudo por verba, mas no geral, existe uma enorme solidariedade entre as duas entidades (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

Igualmente, é interessante assinalar que a própria relação das entidades (UESP e LigaSP) com a São Paulo Turismo – SPTuris (órgão vinculado à Prefeitura Municipal) varia de acordo com a gestão:

Na gestão atual, os conflitos que a SPTuris teve com a UESP foram diferentes dos tidos com a Liga (...) Eu até diria que com a Liga não houve conflito algum, mas com a UESP foram muitos (...) Essas relações sempre foram muito complicadas (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

É importante destacar que a SPTuris é o órgão da prefeitura municipal de São Paulo responsável pela organização do desfile carnavalesco na cidade, e não a Secretaria Municipal de Cultura, o que talvez trouxesse a maior valorização dos

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elementos culturais presentes no evento. Deste modo, cabe salientar a crítica feita pela presidenta da União das Escolas de Samba de São Paulo – UESP:

Tem muito presidente de escola de samba que é aproveitador e diz que “leva” a comunidade (...) Nós aqui da UESP já pegamos nosso Fundo de Garantia e investimos no samba (...) Infelizmente, hoje existem muitos aproveitadores no samba (Léia, entrevista realizada em 05/03/2008).

Diferente deste ponto de vista, para outro entrevistado, a postura dos presidentes das escolas de samba deve ser exaltada, principalmente pela fiscalização da administração e organização do desfile no Sambódromo (o que trouxe uma significativa redução dos gastos com o evento):

Em todo o lugar que entra um pessoal, toma aquilo como uma coisa particular e põe a sua personalidade, tende a haver um processo que não é muito justo (...) Neste ano, foi montado um colegiado, um conselho gestor com os presidentes (...) Houve uma economia fabulosa nos custos do processo em si: ônibus, som etc. (...) Para você ter uma idéia, no ano anterior, o som custou 345 mil reais para os cinco dias de carnaval (...) Neste ano, caiu para 304 mil reais (...) Com infra-estrutura se gastou 1 milhão e novecentos nos anos anteriores e neste ano 1 milhão e quatrocentos (...) O que a gente percebe é que a administração particular estava gerando custos além dos necessários, pois aconteciam ganhos por fora (...) Em 2008, com a verba que veio, deu para se fazer uma coisa maior, melhor e mais bonita e, no final do carnaval, os presidentes não ficaram tão endividados (...) Eu acho que esta tendência da administração ser feita pelos próprios presidentes é muito mais transparente porque cada um atua como um fiscal, há mais justiça e as coisas ficam mais claras (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Quanto às ações positivas, cabe assinalar a ida dos dirigentes da UESP à Brasília, em uma reunião agendada com o Presidente da República em janeiro de 2008:

A UESP se organizou para que o encontro com o presidente acontecesse (...) Não há nenhuma associação em nível federal que tenha feito um trabalho sócio-cultural e político nos últimos dez anos como o realizado pela UESP (...) Agora as luzes se viraram para isto, pois o presidente Lula deu a importância devida em virtude da UESP levar uma proposta que pertence à agenda nacional (...) Somente agora, a notícia ganhou a importância de fato histórico, embora a UESP venha plantando a sementinha há muito tempo (...) Tivemos 50 minutos com o presidente, levamos todas as propostas sociais e econômicas da UESP, sendo que as audiências em geral duram de 15 a 20 minutos (...) É interessante que agora todos querem ser o pai da criança, dizendo que arrumaram a entrevista com o presidente (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

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Ainda do ponto de vista da manifestação dos sambistas em suas negociações políticas, vale salientar a busca pelos direitos da população negra, muito presente nos argumentos dos entrevistados:

Veja só que incoerência, a dança tem direito a incentivos governamentais (...) A escola de samba tem na dança a sua segunda principal forma de expressão (...) Entretanto, nem os dançarinos nem os músicos da escola de samba são reconhecidos (...) Se você pensar nos escultores, eles também são artistas que não são reconhecidos por suas esculturas (...) Os figurinistas também são artistas que trabalham os adereços e não são reconhecidos (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Neste sentido, observa-se que a dificuldade em “ser sambista” continua muito relevante:

Olha, é difícil viu (...) Você lidar com cultura e ainda mais com cultura negra, em uma entidade regida por uma mulher negra (...) Eu tenho que transpor barreiras todos os dias (...) Ainda mais em São Paulo, que é uma cidade extremamente racista (...) Há muito pré-conceito, a gente sente no olhar (...) Existe gente de bom e de mau caráter, só que nesta cidade se você tem a pele negra já não presta (...) Ainda mais se você gostar de samba, falar a verdade e for da resistência, aí então, serão vários pré-conceitos (...) Isso é até o cara conhecer a gente, pois depois raciocina e até vira amigo (Léia, entrevista realizada em 05/03/2008).

Comentando sobre a visibilidade da cultura negra e do carnaval, Nancy observa que a preparação do carnaval ocorre durante o ano todo (mobilizando a comunidade, seus encontros, rodas de samba e festas), ainda que somente nos dois últimos meses anteriores ao evento é que a festa passa a ser divulgada:

O samba deveria se inserir no calendário cultural da cidade pois, durante o ano todo não há a divulgação dos eventos que ocorrem em diferentes locais da cidade de São Paulo (...) Não existe esta integração pois há uma discriminação muito forte que se justifica por várias questões, inclusive a racial (...) Em termos de composição, a maioria das escolas de samba é formada por negros (...) Outro fato que contribui para esta falta de visibilidade é que a maioria delas está localizada na periferia da cidade (...) Não interessa saber o que acontece lá em Perus ou em Itaquera, entendeu? (...) Em geral, a maior visibilidade é dada aos eventos que acontecem no centro da cidade (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

Opinião semelhante à fornecida por nossa entrevistada é emitida por Maria Isaura Pereira de Queiroz (1992), ao tratar da festa carnavalesca e a considerar inserida em uma dinâmica conservacionista, no que diz respeito às desigualdades nas condições sócio-econômicas de seus participantes:

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Sociedade e Carnaval sempre caminharam emparelhados, guardando a mesma configuração e composição sociais, de tal modo que as modificações da festa correspondem às mudanças que se verificam na sociedade urbana [...] A classe dominante nacional sempre manteve sua preponderância, e a instalação da “bagunça” nunca significou uma reviravolta na ordem sócioeconômica e política existente [...] Durante o carnaval brasileiro a ordem não é subvertida e durante os quatro dias do Reinado de Momo, o nível superior guarda sua preponderância (QUEIROZ, 1992, p. 218).

Ao tratar da questão da subversão da ordem no carnaval brasileiro, a autora está contrapondo principalmente a perspectiva trabalhada por Roberto Da Matta (1979) de que, segundo ela, ao tratar do processo ritual presente num desfile carnavalesco, mitifica esta manifestação cultural na medida em que explora apenas as questões de cunho antropológico. Contrapondo-se a algumas de suas ideias, ajuíza:

A alacridade que se apodera das gentes levando-as a dançar e a cantar, tudo estava ali contado. Fôra no entanto deixado de lado aquilo que tornava a festa possível, isto é, sua organização, assim como a identidade dos que a construíram e dos que dela participavam como atores. Era importante completar o estudo, transformando em dados o que jazia nos escaninhos da memória (QUEIROZ, op. cit., p. 21).

Um dos argumentos apresentados por Da Matta é o de que as escolas de samba promovem “uma sistemática integração das classes em seu desfile altamente complexo” (Da Matta, 1979, p. 96)7, situação em que o desfile apareceria como um “ritual de integração e de mediação”, ocasião em que as diferenças sociais seriam transitoriamente suspensas e ritualmente relativizadas; a partir da dissolvência das hierarquias e da inversão das estruturas desiguais da sociedade 8. Tais reflexões acompanham as efetivadas por Bakhtin (1987), um autor que introduziu as elaborações sobre a carnavalização da vida social. Nele, a fala presente na linguagem popular carnavalesca surge como um modo singular do funcionamento lingüístico, capaz de estabelecer uma comunicação mais autônoma a partir do agrupamento de pessoas. Essa comunicação possibilitaria a abolição de barreiras, na medida em que ocorreriam “maleabilizações” dos códigos hierárquicos, enfaticamente representados pela linguagem das comemorações oficiais e institucionais. Assim sendo,

7

Nessa obra o autor delineia um interessante paralelo entre as procissões, as paradas militares e o carnaval; manifestações demarcadas pelo controle da festa. 8 Roberto da Matta é pioneiro nas reflexões sobre o carnaval como ritual de inversão, estudando-o em uma perspectiva antropológica. Um dos seus textos precursores é: DA MATTA, Roberto. O Carnaval como rito de passagem. In: Ensaios de Antropologia Estrutural. Petrópolis, Vozes, 1973, p. 121-168.

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o princípio conformador da festa passaria a ser o da alegria, e a linguagem popular carnavalesca asseguraria a utopia instantânea e fugaz, de convívio alegre, menos hierarquicamente arbitrário, menos tirânico e mais livre. Retornando à questão central desta introdução, cabe salientar que a construção do Sambódromo do Anhembi foi marcada por muitas negociações políticas no sentido de se conseguir um local oficial para a realização dos desfiles carnavalescos:

Eu trabalhei no Anhembi entre 1989 e 1993, além de ter sido coordenadora do carnaval na passagem da Avenida Tiradentes para o Sambódromo (...) Nesta ocasião, pensamos sobre onde poderiam ser colocados os carros alegóricos e por onde eles iriam entrar e sair... (...) A gente queria tirar aquele posto de gasolina que acabou ficando por lá e ninguém mais conseguiu tirar, pois havia um contrato de noventa e nove anos e também acordos comerciais (...) Não saíram nem com a oferta de dinheiro (...) O terreno da aeronáutica veio neste período, quando de jeito algum o Brigadeiro queria cedê-lo (...) Só cedeu semanas antes do carnaval, quando ameaçaram largar tudo no terreno (...) Hoje, já tivemos acordos e aquele terreno é praticamente do Anhembi, no sistema de comodato (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

A inauguração do Sambódromo ocorreu efetivamente em 1991, quando o recebimento de verbas municipais passou a ser efetuado pela “força da lei” n° 10.830 de 04/01/1990. Por isso, é importante rememorar que a oficialização do carnaval já havia se dado em 1967, ocasião em que pela primeira vez a Prefeitura de São Paulo assumiu o compromisso de auxiliar as escolas de samba; o que também fomentou a “economia do samba”.

A geração de empregos e a movimentação da economia A escolha da dinamização do entorno e a geração de empregos e movimentação da economia servirá de linha mestra para a segunda parte do artigo, quando observaremos a relevância que os eventos ligados ao samba possuem como efeito econômico catalisador de atividades e fluxos intensos durante todo o ano. As escolas de samba mobilizam trabalhos formais e informais que foram esclarecidos pelos depoimentos em torno do tema da economia do samba. No momento em que as escolas de samba de São Paulo preparavam o carnaval de 2008 (em novembro de 2007), souberam da inédita liberação antecipada dos recursos destinados ao desfile. Este fato ocorreu em virtude da festa ter acontecido logo na primeira semana de fevereiro. Como já mencionado, o investimento municipal foi de R$

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18,9 milhões, subvenção destinada às escolas de samba, blocos, bandas e cordões que participavam dos eventos carnavalescos. É por meio de um contrato que se repassa a verba de subvenção, da qual são destinados 65% para a LigaSP e 35% para a UESP. Por sua vez, as entidades distribuem esses recursos às suas associadas de acordo com o grupo a que pertencem, sendo os percentuais deste repasse determinados internamente pelas próprias entidades. Quanto maior o porte do grupo de escolas, maior será a verba destinada, por se entender que as maiores escolas gastam mais para montarem seus desfiles, o que de fato ocorre, uma vez que elas congregam um número maior de alas e de carros alegóricos (FRANGIOTTI, 2007). Atualmente, além do incentivo dado pela Prefeitura de São Paulo para que as escolas possam organizar os seus desfiles, existem outras maneiras de captação de dinheiro proveniente do patrocínio de colaboradores, dos eventos que ocorrem no decurso do ano, dos shows da bateria e passistas, da venda de artigos com o nome da escola, da bilheteria dos desfiles, dos direitos de transmissão de imagens pela Rede Globo, das leis de incentivo aos projetos culturais e sociais; entre outras. Um primeiro ponto de discussão a ser considerado reside exatamente nos eventos ligados ao samba, que possuem um importante efeito econômico catalisador das atividades e fluxos de mercadorias, extrapolando o ponto físico onde acontecem:

O samba movimenta a indústria e o comércio (...) Por exemplo, lá no barracão do Vai-Vai, quando chega a época do carnaval, estamos com umas 150 pessoas trabalhando e recebendo por este trabalho (...) E assim também acontece com as outras escolas (...) Só de vir em um simples ensaio aqui, já se está movimentando a economia do transporte por ônibus (...) Ali fora tem a tiazinha com a barraquinha vendendo cerveja, entendeu? (...) As pessoas vão para a 25 de Março comprar (...) Tem o ICMS arrecadado, além do dinheiro para os comerciantes (...) Então, geram-se muitas novas frentes de trabalho (...) Só na Vai-Vai, são 23 alas, cada ala tem uma costureira, e cada costureira tem 4 ou 5 mulheres que a auxiliam (...) Só de sapatos são feitos 6 mil pares e você imagina isto em cada escola então... (...) Mesmo assim, o governo faz descaso com o carnaval (...) E olha que é dinheiro pra caramba que movimenta! (...) E hoje já tem mão-de-obra especializada para o carnaval pois não adianta eu contratar um carpinteiro, um serralheiro, um senhor que trabalha 30 anos e conhece tudo, mas que só trabalha entre 8h:00min e 17h:00min (...) Tenho que pegar um cara que entra às 8h:00min e vai até 8h:00min de três dias seguintes, risos (Penteado, entrevista realizada em 05/03/2008).

Nota-se que as escolas mobilizam trabalhos formais e informais, conforme indica outro entrevistado:

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O carnaval movimenta uma economia que não é pouca (...) Os dirigentes esperam chegar o próximo carnaval para pegarem a verba (...) Infelizmente, muitos não aplicam 100 % disto para fazer um carnaval bacana para a comunidade (...) Muitos dirigentes de escolas de samba vivem deste dinheiro (...) O carnaval movimenta a economia da cidade em todos os sentidos, porque o que é interessante é o retorno dos turistas que vem para cá (...) Movimenta também os restaurantes, os hotéis, as marcenarias, as serralherias (...) Ou seja, tudo isto movimenta a economia de uma forma geral (Kaçula, entrevista realizada em 18/10/2007).

Todos esses processos geradores de capital e de empregos estão relacionados com as novas dinâmicas carnavalescas surgidas nos últimos anos. Sobretudo nos últimos dez anos, o carnaval ganhou importância econômica e é agora reconhecido como um dos principais eventos anuais da cidade de São Paulo; ativando diretamente o setor turístico, gerando empregos e promovendo negócios. Segundo os dados da São Paulo Turismo – SPTuris há uma clara tendência de ampliação do público participante dos desfiles carnavalescos. Destacadamente, o carnaval movimenta por volta de 60 milhões de reais com o turismo, comércio, transporte, hotelaria e geração de empregos diretos, indiretos e temporários. Por outro lado, estima-se que no ano de 2007 tenham sido gerados por volta de 25 mil empregos nas escolas de samba, bandas e blocos carnavalescos, que o faturamento total tenha sido de 30 milhões de reais e que o número de turistas de 23 mil. Somente no Anhembi, houve a contratação de cerca de 500 empregados temporários para o trabalho na preparação do desfile carnavalesco (Fonte: São Paulo Turismo). É interessante notar que o argumento da geração de empregos é muito forte, a ponto de alguns diretores comumente dizerem que “o problema da distribuição de renda pode ser reduzido pela geração de empregos na fase pré-carnavalesca”. De fato, há uma cadeia produtiva voltada ao desfile carnavalesco, que passa pela compra do material para a fabricação dos protótipos das fantasias, pela contratação do carnavalesco e da equipe de costureiras, pelos chapeleiros, aderecistas, sapateiros; dentre outros. Em um segundo momento, as fantasias são reproduzidas em ateliês espalhados pela cidade de São Paulo, o que permite a venda posterior das fantasias para os componentes de cada ala da escola de samba. 32 Em 2003, foi criado um projeto de parceria entre o Sistema Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE e as escolas de samba que faziam parte do G5 (Unidos de Vila Maria, Unidos do Peruche, Mocidade Alegre, Rosas de Ouro e X-9 Paulistana), intitulado de Projeto “Samba - Sampa”. Nele, as escolas de samba acima elencadas são vistas como parceiras nas ações de estímulo ao turismo em suas quadras, que passam a receber turistas principalmente durante os ensaios pré-carnavalescos.

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Assim, prevê-se a associação com hotéis e agências de turismo, que será acompanhada pela oferta de produtos pelas escolas de samba 9. Para o Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e similares de São Paulo, o crescimento na geração de empregos é cada vez maior. Para o ano de 2007 foram gerados 3,2 mil empregos temporários somente no setor de clubes, com a contratação de garçons, porteiros, seguranças e manobristas. Como pode ser observado, durante os meses de janeiro e de fevereiro, grande parte do capital gerado acaba ficando retido pelo comércio da região da Rua 25 de Março, principal Pólo Nacional fornecedor de roupas e acessórios para o carnaval.

Figura 3 - Loja de produtos carnavalescos na Rua 25 de Março Fonte: Alessandro Dozena, fevereiro de 2009. Estas atividades mobilizam um mercado específico voltado ao comércio de tecidos, plumas e adereços; de acordo com a explicação de nosso entrevistado:

É interessante notar que 70% da receita do carnaval fica na Rua 25 de Março e os outros 30% vão para a cenografia (...) O carnaval movimenta a rede hoteleira além de outros setores (...) As lojas se especializaram para atender a 9

Para maior detalhamento, consultar os trechos da entrevista realizada com a coordenadora do Projeto Sampa-Samba, disponível em: BELO, Vanir. O enredo do carnaval nos enredos da cidade. 215f. Mestrado (Dissertação) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

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demanda existente no período carnavalesco (...) É pluma, é paetê, é tecido diferenciado com bordado, são os aviamentos, o material de acabamento (...) Existem umas cinco ou seis empresas especializadas no atendimento para o carnaval (...) Todas têm lojas na 25 de março (...) O carnaval também movimenta a economia gastronômica, a de negócios, a hoteleira e a do entretenimento (...) A descoberta do carnaval como fonte econômica veio após a introdução do evento na televisão, com grande importância da Rede Globo (...) Com a chegada da televisão, o carnaval aconteceu, consolidando a sua participação na economia (...) Ainda mais em uma metrópole como São Paulo, que tem um importante Turismo de Negócios (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Além da Rua 25 de Março, os bairros do Brás e do Pari também apresentam importantes pontos de venda de material carnavalesco:

Um grande vendedor de material carnavalesco é o Palácio das Plumas, do Elias Ayoub (...) É uma loja que chegou a ser responsável por 50% das vendas de material para as escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas que decaiu bastante (...) Este empresário começou com uma loja pequena, cresceu muito e hoje está muito rico (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Cabe salientar que a polarização concernente aos acessórios carnavalescos extrapola o estado de São Paulo:

Até os cariocas compram em São Paulo, pois no Rio não existe esta gama e estrutura de atendimento (...) Até existem lojas no Rio de Janeiro, mas é aqui onde está o estoque (...) Eles precisam de muita coisa (...) Há muito tempo São Paulo serve não só o Rio, mas o Brasil todo, embora agora isto esteja mais acentuado (...) Estas lojas estão criando filiais no Rio de Janeiro e em Porto Alegre por exemplo, para atender a demanda (...) Mesmo assim, os diretores das escolas ainda preferem vir para São Paulo e depois transportar o material para suas cidades (...) O preço, a qualidade do material, o estoque, o atendimento correto, enfim, a seriedade do negócio; contam muito (...) Aqui você compra 2 metros de tecido e leva os 2 metros de tecido (...) No Rio se vende no catálogo e é preciso recorrer ao estoque de São Paulo (...) Normalmente as escolas têm pressa (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Até mesmo o material utilizado nas fantasias e nos carros-alegóricos sofreu alterações, em decorrência da “espetacularização” ocorrida com a festa:

O carnaval de São Paulo perdeu um pouco de sua identidade pois virou show e atração turística (...) Hoje, envolve 52 setores da economia (...) A sua preparação utiliza ferro, madeira, tecido e até materiais importados (...) Já não temos apenas fantasias de cetim (...) Até se usa o cetim, mas a fantasia mesmo é o complemento que vai encima disto (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

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Conforme matéria publicada em 19/02/2009 no jornal Folha de São Paulo, intitulada “Escolas do Carnaval de São Paulo penam com a “crise das plumas”, a escassez do produto no mercado brasileiro e especialmente no paulistano, deu-se pelos efeitos da crise econômica, que fez com que o principal fornecedor do adorno em São Paulo importasse metade dos 12 mil quilos costumeiramente importados. A declaração de Elias Emile Ayoub, principal fornecedor em São Paulo e proprietário do Palácio das Plumas, evidencia a rentabilidade do setor: "Temi a crise e me arrependi. Se tivesse trazido a mesma quantidade de plumas, certamente estaria vendendo". A matéria conclui alegando que o fato das plumas serem de avestruz e virem de países como Namíbia e África do Sul, acaba fazendo com que as oscilações do câmbio afetem o custo. No ano de 2009, o quilo foi vendido por cerca de R$ 220,00 na loja “Palácio das Plumas”. É perceptível que após a inauguração do Sambódromo, houve uma importante dinamização e crescimento do carnaval de São Paulo. Assim sendo, com a movimentação da economia e a geração de divisas, as fantasias e carros-alegóricos tornaram-se mais “glamorosos”, estimulando as comparações entre o carnaval do Rio de Janeiro e o de São Paulo. Neste sentido, na opinião de Róbson:

O carnaval do Rio de Janeiro é mais glamoroso, é um carnaval pioneiro (...) São Paulo tem uma característica de carnaval muito própria, é um carnaval mais familiar (...) Embora os temas, as formas e as fantasias sejam diferentes, o desfile das escolas de samba é conceitualmente similar (...) No entanto, as alegorias de São Paulo já se apresentam maiores e mais bem construídas (...) Assim como os arranha-céus da metrópole, os carros alegóricos marcam o carnaval de São Paulo (...) Eles apresentam uma grandiosidade e um visual fantástico (...) Em minha opinião, a maior diferença em relação ao carnaval do Rio de Janeiro é o visual, a infra-estrutura e a cenografia do carnaval que se faz aqui (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Ainda que o carnaval carioca receba maior aporte de investimentos, pela ótica do entrevistado, o carnaval paulistano não pode ser considerado inferior em relação ao carioca:

O Rio de Janeiro vive uma realidade econômica e São Paulo outra (...) A questão da verba é muito relativa pois o dinheiro faz duas coisas: alegoria e fantasia (...) Com relação aos outros oito quesitos é uma outra história (...) Você pode ter uma escola que trata de um tema diferenciado e original no carnaval e que pode acabar se dando bem, sem se utilizar de muito dinheiro (...) O carnaval do Rio de Janeiro tem a vantagem de acontecer em uma cidade turística que tem praia e que por muito tempo foi a capital do país (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

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Como conseqüência das alterações relacionadas com a estrutura e organização do carnaval voltado ao espetáculo, busca-se contratar especialistas para a produção cênica dos desfiles:

Hoje um desfile carnavalesco é montado com a mesma qualidade de uma ópera, usando inclusive os mesmos elementos (...) A parte intelectual monta o enredo, fundamentado num texto, de acordo com a história escolhida (...) Como as escolas de samba passaram por este processo, elas perderam um pouco da sua originalidade (...) Mas é assim, faz parte da evolução dos tempos (...) Tudo evolui, como a própria cultura (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Para continuarmos a argumentação, faz-se importante verificar mais a fundo a questão da geração de empregos incitada pelo carnaval10:

A geração de empregos nas escolas de samba é sazonal (...) No período póscarnaval existe uma informalidade para a desmontagem do barracão, visto que grande parte do material é reaproveitada no próximo carnaval (...) A partir de junho, as escolas lançam o enredo e a coisa começa a esquentar, aumentando a contratação (...) Quando chega em novembro, já estamos com uns 80% dos trabalhadores contratados e em dezembro, já estamos com 100 % dos trabalhadores contratados (...) Do contrário não dá tempo (...) A maior empregabilidade no carnaval se dá principalmente de dezembro a março (...) Não conseguimos quantificar precisamente o número de trabalhadores, que a cada ano cresce mais (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Destacadamente, são as escolas do Grupo Especial as que mais geram empregos. Contudo, não podemos deixar de mencionar que as menores também criam possibilidades de emprego:

Também as escolas menores geram empregos pois, se elas chegarem em dezembro e a escola parar, não conseguirá desfilar com qualidade (...) Se a escola de samba parar para comemorar o Natal e o Ano Novo ela não chegará em fevereiro totalmente pronta (...) Festa de fim de ano ocorre no barracão da escola, trabalhando, com tudo aberto rs (...) Não há o recesso como o que ocorre com as empresas (...) Se parar não engata (...) Um dia a mais de trabalho pode decidir o campeonato (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Ao mesmo tempo em que se aproxima a data do desfile, aumenta a movimentação dos trabalhadores, inclusive a dos voluntários:

10

Para uma caracterização crítica a respeito das práticas de trabalho e de emprego na produção artística dos desfiles de carnaval, ver: BLASS, Leila Maria da Silva. Desfile na avenida, trabalho na escola de samba: a dupla face do carnaval. São Paulo: Annablume, 2007.

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Ao perceber que a escola está precisando de auxílio, a comunidade se aproxima e vai terminar as fantasias no barracão (...) Isto acontece em qualquer escola de samba, da pequena à maior (...) São os que amam a escola, chegam e dizem: O que eu posso fazer? (...) Posso colar papel, colocar pluma? (...) Isso acontece até o dia do desfile (...) Se preciso for o cara que é da comunidade tira o terno e vai empurrar o carro alegórico para ajudar (...) Por isso o carnaval é tão emocionante (...) As pessoas se agregam em torno de uma única causa (Róbson, entrevista realizada em 05/03/2008).

Entretanto, atualmente tem havido a preferência pela contratação de profissionais capacitados:

As grandes escolas contratam costureiras, pois há um volume muito grande de fantasias para serem confeccionadas (...) Isto inviabiliza apenas o voluntariado (...) Quando o desfile envolve mais de 3000 mil componentes, não dá para confiar a confecção das fantasias somente para a mão-de-obra voluntária (...) Então, as grandes escolas de samba contratam mesmo (...) Atualmente, a verba recebida pela prefeitura é muito maior do que antes, o que possibilitam maiores investimentos (Nanci, entrevista realizada em 20/02/2008).

Embora muitas escolas de samba do Grupo Especial tenham sido contagiadas por uma lógica empresarial, não raro tal dinâmica se faz acompanhar de outros valores:

Quando você escuta um samba você tem que se arrepiar, ficar emocionado, não dá para pensar só na questão comercial (...) A escola de samba não é uma empresa, há sentimento envolvido, o que a empresa não tem (...) Os diretores de escolas, na maioria dos casos, não ficam ricos com a escola de samba (...) Este discurso de que escola de samba é empresa é discurso de branco (...) É com emoção que se faz a escola de samba acontecer (...) Mesmo que um diretor quisesse mandar alguém embora como se faz com o funcionário de uma empresa, esta pessoa não iria rs... (Léia, entrevista realizada em 05/03/2008).

Com relação à crescente profissionalização da mão-de-obra, há em alguns casos, a sua defesa:

Geralmente os diretores das escolas de samba são trabalhadores voluntários que pagam ou pagaram para que a escola se tornasse profissionalizada (...) O modelo de voluntariado da comunidade aplicado à construção de alegorias e fantasias não funciona (...) A escola deve formar e pagar um salário para as pessoas, para que depois possam encontrar um emprego digno (...) Esta é a função maior das escolas de samba (...) Aprendeu a costurar por exemplo, vai procurar um emprego (...) A “Fábrica dos Sonhos” está vindo com este objetivo, copiando algo que as escolas já fazem (...) O carnaval hoje é profissionalizado e só por isso chegou no estágio que está (...) Não dá para fazer uma coisa bem organizada só com o apoio da comunidade (...) Primeiro

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porque para que a comunidade vá até o barracão de sua escola, precisa tomar um transporte público que é caro (...) Esta pessoa também precisa se alimentar (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Conseqüentemente, embora o trabalho voluntário ainda esteja presente e tenha grande importância na estruturação do desfile, ele é agora acompanhado por uma nova forma de trabalho “profissionalizada”, previamente contratada:

Isso de dizer que é a comunidade quem constrói o carnaval eu diria que já é coisa do passado (...) Eu diria que em 90 % das escolas já há a contratação de coreógrafo, de carnavalesco para fazer o projeto, de serralheiro e de marceneiro (...) Um carro alegórico deve ter segurança, pois tem entre 10 e 11 metros de altura (...) Não é possível permitir que um curioso qualquer faça o trabalho de soldagem (...) No entanto, quem não pode comprar a fantasia, vem ajudar na mão-de-obra e ainda recebe um pouco de dinheiro para ajudar a sua família (...) Tanto que a maioria das escolas de samba empregam muitos membros da comunidade nos seis meses que antecedem o carnaval, ainda que sem registro em carteira (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Ao tratar o carnaval como um acontecimento que envolve muita organização, são primordiais as estratégias de gerenciamento do dinheiro disponível para os investimentos: Montar um carnaval é uma arte, pois você recebe determinada quantia de dinheiro e tem que fazer de tudo (...) Se investir mais em uma parte do que em outra você pode quebrar, tem que “tocar” certo (...) Poucos dirigentes usam o dinheiro para causa própria, do contrário a escola vai à falência (...) Só com o dinheiro que a escola recebe já não dá para fazer o carnaval como se espera (...) Você tem que arrumar uma forma de ajuda externa para completar (...) É muito tecido, além da mão-de-obra, que utiliza quase 50% da verba disponível (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Quanto maior a escola de samba, maior a complexidade das relações de trabalho. Essa contratação de pessoas para a confecção das fantasias é em geral centralizada pela diretoria das escolas de samba, pelos chefes de ala ou pelos carnavalescos. Na maioria dos casos, as escolas de samba contratam primeiramente um carnavalesco, que tem uma equipe remunerada. No caso do carnavalesco, ele tem um contrato e terceiriza os demais especialistas, a exemplo das costureiras (os):

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Figura 4 - Costureiro trabalhando no quintal de sua residência Fonte: Alessandro Dozena, setembro de 2007. Neste sentido, é interessante notar que em algumas pequenas escolas, encontram-se carnavalescos que trabalham sozinhos. Em outros casos, é o próprio presidente da escola o responsável pela contratação de todos os especialistas, ou ainda, o carnavalesco: Primeiro eu contrato o carnavalesco, depois o serralheiro e o decorador para os carros alegóricos, depois o aderecista para as fantasias e as costureiras que são terceirizadas (...) Algumas costureiras costuram para várias escolas (...) Eu tinha uma que só trabalhava para mim, mas agora costura para cinco ou seis escolas (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Esse alargamento do universo de trabalho na confecção dos carros-alegóricos, um importante elemento do desfile, apresenta hoje uma nova realidade que envolve a migração sazonal de mão-de-obra, proveniente de Parintins, cidade amazônica onde se realiza o Festival Folclórico de Parintins:

Atualmente a mão-de-obra é formada por muitos amazonenses, que vêm principalmente de Parintins (...) A gente traz o pessoal de lá, paga a passagem e arruma lugar para eles ficarem (...) Eles permanecem por tempo determinado (...) Hoje é melhor pegar um profissional de Parintins pois o carioca precisa de mais de 1/3 do dinheiro para fazer o mesmo espetáculo, com a mesma beleza plástica (...) Além disso, o carioca usa muito material (...) O trabalhador de Parintins vem e faz uma estrutura no ferro e em vez de comprar madeira, usa uma lona com pano cru e reveste o próprio ferro que é pintado (...) O carioca costuma colocar o ferro, a madeira, o pano e depois pintar (...) Isto encarece muito, e para fazer a mesma coisa (...) O pessoal do

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Boi de Parintins, com 1/3 do dinheiro que é gasto no Rio de Janeiro, consegue fazer um espetáculo igual ou superior (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Sob a influência dessa mão-de-obra especializada, o desfile carnavalesco de São Paulo ganhou muito na movimentação dada aos carros-alegóricos, com a construção de “cenários móveis” grandiosos onde se busca “dar vida” a cada elemento representado. Fixando-se apenas nesta dimensão, usualmente os trabalhadores migram juntamente com uma equipe coordenada pelo carnavalesco, que é também responsável pela elaboração do projeto. Em decorrência da demanda crescente, alguns carnavalescos de Parintins optaram em fixar residência em São Paulo ou no Rio de Janeiro, conforme nos explica Celso:

Esse ano, por exemplo, eu trabalhei com um carnavalesco que era de Parintins e que já está erradicado aqui em São Paulo (...) O enredo era um tema histórico ligado à cultura japonesa (...) Ele não teve que pesquisar pois nós já havíamos pesquisado tudo (...) Pegamos histórias, fotografias de exposições japonesas e montamos o enredo em cima da parte escrita (...) O carnavalesco desenhou e depois desenvolveu as dimensões certas (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

É importante observar que muitos carnavalescos do Rio de Janeiro e de Parintins (conhecidos ou não) costumam telefonar para os presidentes das escolas de samba oferecendo seus serviços11. Tentando se projetar no “mercado carnavalesco”, priorizam as escolas de samba que se destacaram no último carnaval. Assim sendo, nota-se que a contratação de especialistas voltados à produção cênica dos desfiles gerou uma ampla gama de quadros salariais:

Geralmente, o ganho do carnavalesco é 10% do valor total da verba disponível para a escola de samba (...) Este ano por exemplo, só de carnavalesco e serralheiro, eu gastei 45 mil reais (...) O serralheiro é quem dá o formato para os carros alegóricos (...) Todos os meus carros tiveram as esculturas em movimento (...) O carnaval hoje está muito voltado para isto... (...) Tinha um carro da Vila Maria com as esculturas que mexiam os dedos (...) Um carro da Tom Maior mexia os olhos e um da Gaviões tinha um velhinho que ria (...) Essa movimentação dá vida aos carros alegóricos (...) Só de serralheiro eu paguei 20 mil reais, ele fez toda a serralheria e trouxe mais uns quatro ou cinco ajudantes (...) O mesmo pessoal que trabalhou para mim também trabalhou para a Mocidade Alegre, eles já vem em equipe (...) O carnavalesco também era escultor e pintor, e ele tinha mais três ajudantes (...) Para complementar, eu contratei um decorador com uma equipe que forrou os carros e os decoraram (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

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Esta reflexão surgiu pois enquanto a entrevista com o presidente Celso era realizada, um carnavalesco carioca ligou em seu celular oferecendo serviços para o ano subseqüente.

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Analisando a totalidade dos depoimentos, pode-se dizer que as escolas de samba, na maioria dos casos, geram empregos informais, contratando trabalhadores autônomos. Contrastando com as pequenas, as grandes escolas12 exigem um contingente maior de pessoas contratadas todos os anos. Em alguns casos, mesmo nas pequenas, há a contratação do serralheiro para montar os carros alegóricos e do carnavalesco para realizar a coordenação geral. Do ponto de vista da lucratividade, também as fantasias vendidas pelos chefes de ala permitem um retorno para a escola de samba, fundamental para os investimentos posteriores. Assim, alguns diretores de ala podem ganhar dinheiro a partir de cada fantasia vendida:

Na escola de samba Gaviões da Fiel os diretores de ala ganham por fantasia vendida (...) Geralmente, as escolas que conseguem vender todas as fantasias são Vai-Vai, Rosas de Ouro e Gaviões da Fiel (...) As outras escolas vendem uma parte das fantasias e a outra parte dá (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Ainda com relação ao voluntariado, cabe observar que além de “status” e reconhecimento, em troca dos serviços prestados, os integrantes da comunidade costumam receber a fantasia para desfilar:

Tem as alas da comunidade que você tem que dar a fantasia (...) A diretoria tem que bancar a ala da bateria, da comissão de frente e dos cantores (...) Na minha escola por exemplo, o mestre de bateria ganha um salário, mas eu exijo que ele dê aula de percussão para as crianças (Celso, entrevista realizada em 25/02/2008).

Tal processo de profissionalização da mão-de-obra avança e revela o fim de um estágio iniciativo, o qual teve na proliferação de barracões com pouca infra-estrutura seu principal elemento. Nesses barracões, ninguém permanece “sem ser convidado”, pois são territórios diretamente orientados à preparação do desfile carnavalesco.

12

Aqui são classificadas como grandes escolas as pertencentes ao Grupo Especial e ao Grupo de Acesso. Em 2009 eram do Grupo Especial: Acadêmicos do Tucuruvi, Águia de Ouro, Gaviões da Fiel, Imperador do Ipiranga, Império da Casa Verde, Leandro de Itaquera, Mancha Verde, Mocidade Alegre, Pérola Negra, Rosas de Ouro, Tom Maior, Unidos de Vila Maria, Vai-Vai e X9 Paulistana. No mesmo ano, pertenciam ao Grupo de Acesso: Barroca Zona Sul, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real, Flor de Liz, Morro da Casa Verde, Nenê da Vila Matilde, Uirapuru da Mooca e Unidos do Peruche.

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Considerações Finais: O samba pede passagem

A temática aqui trazida estimula um leque grande de questões que poderão ser retomadas em outros trabalhos, em face da riqueza de possibilidades nela contida. Buscamos tratar criticamente da dimensão política e econômica no “mundo do samba” paulistano evitando narrá-la com “ares romantizados”. Contudo, não há como negar que de um ponto de vista ritualístico o samba permite a criação de sensações ou “estados de espírito” impregnados de vivências pessoais e profundas, capazes de suscitar sentimentos de alegria e de renovação, ainda que para o senso comum este se reduza a um estilo musical que também é um dos principais símbolos de representação da brasilidade dentro e fora do país, encarando-o como representante social da mais nacional das expressões culturais brasileiras13. O samba transcende em muito esse significado, a partir do entendimento do samba não só como um gênero musical, mas também como um modo de pensar, de sentir e de construir territorializações particulares na cidade. Assim sendo, é também sinônimo de fonte inspiradora, de ritmicidade, de ludicidade, de poder criativo e libertário, de “exercício religioso” para alguns e de atividade poética e revolucionária para outros (ainda que esteja envolto em uma estrutura social hierarquizada). A mudança ocorrida no carnaval nos últimos anos evidenciou e acompanhou a dinâmica política e econômica do carnaval paulistano. Cabe lembrar que o tema das mudanças sucedidas no carnaval assumiu vários significados entre os entrevistados, ainda que tenha predominado o discurso acerca da lucratividade como sendo a principal intenção da festa. Para o caso das alterações sofridas pelo samba, alguns acreditam que elas estão realmente evidenciadas, por exemplo, na lógica comercial presente nas centenas de bares e casas noturnas em que se toca o pagode (gênero musical nitidamente transformado em produto comercial). Expressivamente, a transformação dos cordões carnavalescos em escolas de samba, assim como as dinâmicas mercantis presentes nas escolas de samba, fazem parte de uma renovação que ocorreu e ainda ocorre, a despeito da oposição apresentada principalmente pelos sambistas mais antigos. O discurso atribuído por alguns 13

Poderíamos considerar o samba como uma commodity brasileira, um produto de exportação remetido desde o fenômeno Carmem Miranda.

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entrevistados caminha na direção de que tudo o que é antigo é “bom”. Esta nostalgia do passado desconsidera o movimento dialético intrínseco presente na transformação do samba enquanto manifestação cultural; considerando o autêntico como um passado que sempre é melhor do que o presente. O espetáculo da mídia e muito lucrativo que ganhou impulso com a entrada da transmissão televisiva na dinâmica carnavalesca, a partir da década de 1970, fez com que os desfiles passassem paulatinamente a sofrer modificações em prol de uma estética padronizadora e valorizadora do visual e do movimento uniforme dos desfilantes. Este processo de mudanças veio também acompanhado pela introdução de profissionais cenógrafos na preparação dos carros-alegóricos, o que contribuiu para o alargamento da dimensão espetacular do carnaval televisivo. Ao se voltarem para o ritmo imposto pelas normas da televisão, as escolas de samba admitiram uma aceleração no passo e consequente prejuízo à espontaneidade e ao “samba no pé”. Essa constatação pode ser obtida, por exemplo, na impressionante pressão feita pelos seguranças na área de dispersão do Sambódromo do Anhembi. Ainda que perpassados por uma sensação de êxtase ao término do desfile, ao cruzarem a “linha de chegada”, os desfilantes são forçosamente obrigados a se retirarem. A introdução de uma lógica de competição entre as escolas de samba veio acompanhada da possibilidade de maior controle da uma parcela populacional que não brinca o carnaval nas ruas, mas nos Sambódromos. Reduz-se, desse modo, a “baderna” que poderia acontecer com a ocupação das ruas durante as festas carnavalescas. Por outro lado, a hierarquia social se mantém dentro dos desfiles “espetacularizados”, com a presença de postos com maior destaque e visibilidade (captados pela televisão com maior qualidade, geralmente nos pontos mais altos dos carros alegóricos). Comumente, quem ocupa tais postos mais elevados é alguém que apresenta um status igualmente elevado junto à agremiação e/ou à sociedade. A dinâmica do carnaval espetacularizado apresenta não só uma hierarquia, mas é política e economicamente transacionado e controlado por interesses lucrativos, que igualmente garantem uma enorme expressividade e beleza da festa; que é ainda uma relevante manifestação popular. No contexto de todas as reflexões sobre o a dinâmica política e econômica no “mundo do samba” paulistano, tivemos como “pano de fundo” as imagens e os cenários

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percebidos ao longo de nossas experiências em campo. Nelas, buscamos compreender a cidade como uma totalidade dinâmica, na qual os sambistas vivenciam no seu cotidiano, com relativa intensidade, as particulares redes de sociabilidade em que residem. Acreditamos que o artigo contribui para ampliar o leque de perspectivas para pesquisas vindouras. Eis porque não se assume, neste momento de finalização, uma pretensão conclusiva.

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Recebido para publicação em setembro de 2010 Aprovado para publicação em novembro de 2010

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