Escolas de Samba: Autenticidade e Tradição Perdidas? Autoria: César Tureta
Resumo O objetivo deste trabalho é apresentar uma discussão a respeito da suposta perda de autenticidade e tradição das escolas de samba, destacando estas organizações como instigantes objetos de pesquisas para a área de Estudos Organizacionais. Apesar de serem significativamente pesquisados na antropologia e na sociologia, tais formatos organizacionais não ganharam ainda a devida atenção da administração. Muitos são os aspectos interessantes que envolvem as escolas de samba. O contexto atual em que se inserem sofreu grandes transformações, as quais contam com o que ficou conhecido como mercantilização dos desfiles “invasão” da classe média. Isso gerou mudanças na forma de organização destas agremiações, devido à necessidade de se adaptarem às novas exigências. No entanto, aspectos “tradicionais” da produção do desfile ainda se fazem presentes e convivem diretamente com os elementos “modernos” que foram adicionados a este processo. Argumentamos que a recente intensificação da “invasão” da classe média nas escolas de samba e da comercialização da arte produzida pelas mesmas não produziram a suposta perda de autenticidade e tradição de tais organizações, já que tanto um quanto outro se fazem presentes no carnaval brasileiro desde o início do século XX, quando as escolas de samba ainda não se configuravam como tais. Alem disso, o caráter espetacular dos desfiles não é contraditório com a tradição do carnaval em outras épocas remotas. Assumimos a posição de que “tradição” e “modernidade” não devem ser vistas de maneia dicotômica e excludente, mas representam duas faces de um mesmo fenômeno, que além de dinâmico está em constante estado de transformação. Desta forma, traçamos a trajetória do carnaval no Brasil desde a chegada dos portugueses, que trouxeram o entrudo como forma de festejar o carnaval, até a formação das escolas de samba, que tiveram influências de vários formatos de organização carnavalescas presentes no Brasil. Apresentamos ainda as origens das escolas de samba cujas raízes se encontram na cidade do Rio de Janeiro, além de sua forma atual de organização para a produção dos desfiles carnavalescos, bem como destacamos a idéia difundida de “invasão” da classe média nestas agremiações. Posteriormente, desenvolvemos nossa discussão sobre a suposta perda da autenticidade e tradição de tais organizações, argumentando que precisamos entender a relação entre modernidade e tradição como um fluxo de transformações, o qual não é necessariamente um processo excludente, mas em que estes aspectos opostos se encontram imbricados. Na seqüência, abordamos linhas de investigações que poderiam ser tratadas dentro dos Estudos Organizacionais. Por fim, tecemos nossas conclusões destacando as escolas de samba como objeto de pesquisa que deveria receber mais atenção da área de administração.
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1- Introdução Manifestações festivas de caráter carnavalescas já se faziam presentes em civilizações remotas, onde as pessoas se reuniam para a realização de algum tipo de ritual que poderia envolver consumo de bebidas, uso de máscaras e/ou fantasias, cantorias e encenações. Estas atividades acompanham a sociedade humana desde então, adquirindo novas formas e expressões, além de serem ajustadas aos costumes locais. No Brasil, o folguedo carnavalesco foi trazido pelos colonizadores portugueses na época do descobrimento. Inicialmente, os festejos se realizavam por meio do entrudo, uma forma de comemoração comum em Portugal onde se festejavam os dias antecedentes a chegada da Quaresma. Em terras brasileiras, este tipo de manifestação perdurou por muito tempo até que novas maneiras de brincar o carnaval foram surgindo e se consolidando. Nas primeiras décadas do século XX, porém, começava a aparecer uma forma de organização peculiar da nossa cultura, que posteriormente seria responsável por transformar o carnaval brasileiro no maior espetáculo carnavalesco do mundo. Esta organização é a que conhecemos hoje como Escolas de Samba. As escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro, e mais recentemente de São Paulo, são as principais referências para as demais escolas no Brasil, embora as agremiações cariocas figurem em uma posição de maior destaque em relação às paulistanas, uma vez que foi na antiga capital do país que elas surgiram, se consolidaram e ficaram conhecidas no mundo inteiro. Essas agremiações e o seu processo de produção de desfiles são objeto de interesse da sociologia e da antropologia desde meados da década de 1970. Apesar de serem organizações tipicamente brasileiras, de significativo impacto econômico e social no país, pouca atenção lhe foi conferida pela administração e mais especificamente pelos Estudos Organizacionais (EO)1. Além do fato de se constituírem como uma forma de organização, passiva de serem investigadas por esta área do conhecimento, as escolas de samba vivenciaram e, ainda estão vivenciando, um processo que ficou conhecido como “mercantilização” do carnaval, tornando ainda mais interessante uma análise detalhada sobre suas práticas organizativas. A comercialização dos desfiles e a chamada “invasão” da classe são interpretadas por alguns autores (e.g. Valença, 1996) como os principais causadores da perda da tradição e autenticidade das escolas de samba, afetando diretamente a sua pureza enquanto cultura popular. No entanto, é preciso observar que essa posição é problemática, na medida em que a interação entre classe média e o mundo do samba sempre existiu (ver Vianna, 2004) e a definição de cultura popular como algo “puro” não se sustenta, uma vez que antigas festas populares na Europa já contavam com a participação da elite local (Cavalcanti, 2008). Assim, considerando o contexto dinâmico no qual as escolas de samba estão inseridas, com transformações que afetam diretamente sua forma de organização, nosso objetivo neste artigo é apresentar uma discussão a respeito da suposta perda de autenticidade e tradição das escolas de samba, questionando a dicotomia tradição/modernidade das práticas organizativas dos seus desfiles, na busca de um entendimento que evidencie estas duas dimensões como faces de um mesmo fenômeno. Além desta introdução, organizamos o trabalho em mais três sessões. Na primeira delas abordamos brevemente a trajetória do carnaval no Brasil desde a chegada dos portugueses até a formação das escolas de samba, cujos desfiles tornaram nosso carnaval conhecido no mundo todo. Em seguida, apresentamos as origens e a constituição das escolas de samba, sua forma atual de organização para a produção dos desfiles carnavalescos e a idéia de “invasão” da classe média nas agremiações. Na seqüência, fazemos nossa discussão sobre a suposta perda da autenticidade e tradição de tais organizações, argumentando que precisamos entender a relação entre modernidade e tradição como um fluxo de transformações, no qual um não exclui o outro, mas estão imbricados. Na seqüência,
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abordamos linhas de investigações que poderiam ser tratadas dentro dos Estudos Organizacionais. Ao final, tecemos nossas considerações finais. 2- O Carnaval no Brasil A origem do carnaval, ou pelo menos suas principais fontes de inspiração, pode ser atribuída a uma série de eventos e lugares, como as primitivas festas de colheita dos camponeses, os cultos egípcios à deusa Ísis, as festas dedicadas a divindades pagãs na Roma Antiga ou o culto ao deus Dioniso na Grécia Antiga2 (Valença, 1996). Não há um consenso a respeito desta questão, gerando várias controvérsias com defensores para cada uma das supostas matrizes. No entanto, referências históricas mais evidentes sobre o carnaval se dariam somente no século XI, com a decisão da Igreja de instituir o período da Quaresma (Ferreira, 2004). No Brasil, com o desembarque dos portugueses no período da colonização, além da vontade pela riqueza fácil, eles trouxeram também na bagagem suas tradições e cultura, o que incluía o carnaval. Com isso, as características do nosso carnaval foram moldadas pela herança da forma de festejar dos colonos (ver Ferreira, 2004; Queiroz, 1999), bem como pelas significativas influências africanas e de outras festas européias, que juntamente se modificaram e se transformaram, ao longo do tempo, de modo peculiar em terras brasileiras (Valença, 1996). O empreendimento europeu, especialmente de Portugal, em implementar sua cultura, formas de convívio e instituições no Brasil pode ser considerado o fator dominante de uma série de conseqüências que configuraram a nossa sociedade: “de lá veio a forma atual de nossa cultura; o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma” (Holanda, 1995, p. 40). Nas palavras de Ribeiro (2006, p. 17-18), “a sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos”. Especificamente no carnaval, essa herança se manifestou no “entrudo”, uma comemoração carnavalesca típica dos portugueses, que por muito tempo se fez presente nas ruas de várias cidades brasileiras. Em Portugal, era muito comum brincar o carnaval pelas ruas nos dias antes da chegada da Quaresma, alvejando os transeuntes com ovos na cabeça, farinha, sacos de areia e outros objetos. O caráter anárquico, grosseiro e, muitas vezes, violento desta prática se manteve na colônia, embora a intensidade, agressividade e tipos de água e pó que eram lançados mudavam muito do entrudo familiar para o entrudo popular. O entrudo familiar fazia parte dos rituais da elite no carnaval e ocorria dentro do perímetro da própria casa de uma dada família, que recebia os amigos para festejar. Desenvolvia-se de maneira mais contida e possuía um forte caráter socializante, o qual servia para aproximar os filhos e filhas da elite, com intuito de que daí nascesse uma relação amorosa, perpetuando o poder daqueles que já o detinham na época. O resto da população, basicamente negros escravos e os pobres em geral, se divertiam nas ruas das cidades com o entrudo popular. Este representava mais um momento de diversão, algazarra e “liberdade” para os marginalizados e para os negros, que aproveitavam a situação de relaxamento social com o intuito de realizarem festas à sua maneira, com cortejos processuais, danças e músicas (Ferreira, 2004). De acordo com DaMatta (1997), no carnaval, a forma hierarquizante e repressiva de funcionamento da nossa sociedade fica em suspenso e, liberdade e individualidade passam a ocupar a cena social, representando uma festa sem dono em que cada um brinca como pode. Paralelamente ao entrudo, várias outras formas de comemoração foram surgindo e ganhando destaque no carnaval brasileiro como os bailes de máscaras, as Grandes Sociedades, os ranchos, os blocos, os cordões e por último, de maneira mais marcante, as escolas de samba (ver DaMatta, 1997; Goldwasser, 1975; Queiroz, 1999; Von Simson, 2007). O carnaval no Brasil sempre contou com a participação tanto da elite quanto do povo, cada um 3
festejando ao seu modo particular, embora ocorresse algum tipo de intercâmbio entre as diferentes camadas da sociedade. Em São Paulo, por exemplo, o carnaval burguês do século XIX era uma cópia do modelo europeu, mas contava com a participação dos negros como coadjuvantes. O carnaval negro, por sua vez, ocorria por meio da manifestação do Caiapó, uma dança dramática que acompanhava as grandes procissões. Os negros saíam vestidos de índio e ao som de instrumentos de percussão encenavam, com movimentos corporais e expressões faciais, a morte do curumim – filho do cacique e seu futuro sucessor, cuja função seria dar continuidade a tradição da tribo. Apesar da aparência de arte popular, a manifestação significava naquela época um símbolo de resistência para os negros de São Paulo, já que a referida tribo (dos Caiapós) possuía a fama de bárbara e impossível de ser dominada (Von Simson, 2008). Entretanto, era na cidade do Rio de Janeiro, em meados do século XIX e início do XX que o carnaval ganhava contornos de principal festa nacional, se tornando referência para as outras capitais. A assimilação do carnaval carioca por parte das demais cidades se deu por um processo dinâmico, no qual cada cidade redefiniu a festa carnavalesca ao seu modo, tronandoa mais ou menos semelhante ao primeiro (Ferreira, 2004). No caso de São Paulo, as primeiras associações carnavalescas sofreram influências dos ranchos cariocas, mas também absorveram elementos do samba rural do interior do próprio estado (Von Simson, 2008). Mas é o carnaval espetáculo das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro que marca decisivamente o carnaval paulistano atual, que durante muito tempo teve os cordões carnavalescos como principal representação das comemorações nos dias festivos e que acabaram ou se transformando em escolas de samba ou desaparecendo no início da década de 1970 (Blass, 2007). A difusão do modelo de escolas de samba, oriundo do carnaval carioca, ocorre a partir de meados da década de 1940 até se tornar atualmente um tipo ideal de organização carnavalesca para apresentação em grandes desfiles (Ferreira, 2004). 3- Escolas de Samba 3.1- Como Tudo Começou As escolas de samba surgiram no Rio de Janeiro na década de 1920, apesar de terem permanecido por muito tempo sem uma denominação definitiva, oscilando entre o termo Bloco3 e Escola de Samba propriamente (Goldwasser, 1975). No início dos anos 30, já definiam uma expressão artística particular com desfiles nos quais as agremiações competiam umas com as outras (Cavalcanti, 2002). Tais agremiações não surgiram de um modelo pronto de organização, mas foram se constituindo a partir da adoção de elementos dos ranchos, dos blocos e das grandes sociedades, num processo de interação entre diferentes camadas sociais, que ainda se faz presente nas mais diversas formas de relacionamento da escola de samba com a sociedade (Cavalcanti, 2008). Muitas controvérsias giram em torno de qual teria sido a primeira escola de samba a ser criada. A expressão “Escola de Samba” tem sua origem no Estácio (bairro do Rio de Janeiro) no final da década de 1920, onde na Rua Joaquim Palhares existia uma antiga Escola Normal da Corte, que servia como ponto de referência para o encontro de sambistas nas suas proximidades. Devido a essa proximidade com a escola e o fato dos sambistas se definirem como os “Mestres do Samba” (Goldwasser, 1975), o termo Escola de Samba seria então apropriado para definir um grupo de professores do samba – compostos por morados da periferia e não-letrados perseguidos pela polícia – que possuiriam o dom para ensinar aos demais o prazer de viver com a dança, a música e o samba (DaMatta, 1997). Os sambistas do Estácio que constituíam o bloco “Deixa Falar” se auto-denominaram Escola de Samba. Contudo, a despeito da denominação de “Escola de Samba”, este bloco não se diferenciava 4
das outras agremiações que também eram conhecidas como blocos na época (Valença, 1996), além de jamais ter se apresentado nos desfiles com essa denominação (Goldwasser, 1975). Ao contrário, o bloco dos Arengueiros, depois conhecido como Estação Primeira de Mangueira, teria sido a primeira agremiação que, de fato, adotou o samba como diferencial aos demais blocos, se apresentando desde sua fundação com a denominação Escola de Samba (Goldwasser, 1975; Valença, 1996). No início, as escolas de samba possuíam uma estrutura de funcionamento bastante informal e com grandes limitações financeiras, buscando na criatividade e na inventividade uma maneira de suprir essa lacuna. A maior parte das pessoas envolvidas no processo de organização do desfile era composta por membros da própria comunidade, que desempenhavam as funções de costureiras, bordadeiras, aderecistas, etc. (Valença, 1996). Segundo Queiroz (1999), uma das principais causas da ascensão das escolas de samba do Rio de Janeiro foi a relação próxima mantida entre elas e os bicheiros da cidade. Assim, quando as agremiações recolhiam as contribuições da comunidade para a produção do desfile, os bicheiros se faziam presente como principais doadores (Cavalcanti, 2008). Por terem surgidas no subúrbio das cidades ou em bairros constituídos por maioria de negros, sua origem é marcadamente popular, sendo composta por pessoas marginalizadas e sem profissão definida, algo que foi acarretado pela migração rural após a abolição da escravidão, que levou um contingente muito grande de pessoas a se amontoarem no centro e nos morros da periferia da cidade do Rio de Janeiro (Valença, 1996). Em São Paulo, não foi muito diferente. As escolas de samba representavam um espaço de socialização e diversão dos negros marginalizados que habitavam os bairros periféricos ou guetos da cidade (Von Simson, 2007). Soares (1999) demonstra como tais agremiações ainda figuram como locais em que os negros se reúnem para a manifestação de sua cultura por meio da música e da dança, e como forma de se projetarem na sociedade, adquirindo respeito e reconhecimento. Apesar da origem popular das escolas de samba, o ritmo musical “samba”, que tornou distinta esta forma de organização carnavalesca, saiu da condição de gênero musical marginal como destaca Vianna (2004), para ocupar um lugar central na musica popular brasileira. Isso ocorreu devido a uma tradição já consagrada no país de contatos e relações entre intelectuais e músicos da camada popular, que objetivam a criação da identidade da cultura popular brasileira, a partir de uma ação de caráter político influenciado pelo sentimento de nacionalismo da década de 1930 (Vianna, 2004). Reunindo o ritmo musical do samba mais uma grande disposição e vontade de se apresentarem no carnaval, as agremiações carnavalescas se constituíram como uma forma de organização com características particulares. Seus integrantes se dedicam praticamente o inteiro para se apresentarem em mais ou menos uma hora na avenida: um ano de trabalho para uma hora de apresentação. Várias são as atividades, pessoas e lugares envolvidos nesse processo de produção, que se inicia com a definição de um tema e finaliza com o desfile na avenida. 3.2- Forma de Organização para a Produção do Desfile A forma e a estrutura de organização de uma escola de samba para a produção de um desfile carnavalesco são extremamente complexas, envolvendo grande quantidade de recursos financeiros e materiais, bem como a mobilização de um número significativo de pessoas e profissionais das mais variadas áreas, desde artistas (carnavalesco e compositores) até marceneiros, ferreiros, costureiras e bordadeiras. Portanto, faremos aqui apenas uma breve descrição de alguns aspectos deste processo que é muito mais amplo e dinâmico a descrição em algumas linhas.
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Estas instituições carnavalescas podem ser definidas como associações recreativas e musicais ou sociedades civis de cultura e lazer sem finalidades lucrativas, cujo objetivo principal é se apresentarem no carnaval (ver Goldwasser, 1975; Queiroz, 1999). Elas são organizadas a partir de uma entidade superior que pode ser uma Liga ou Associação de Escolas de Samba da cidade, responsável pela organização dos desfiles em parceria com o governo local. A produção do desfile propriamente começa logo após o término do carnaval para se dar início aos preparativos do ano seguinte. A primeira tarefa é a definição do tema que será o eixo central para a criação de um enredo a ser apresentado na avenida. Paralelamente outras atividades são desenvolvidas, como a desmontagem das alegorias e fantasias utilizadas no ano anterior, assim como readaptação ou reutilização dos carros alegóricos. Todo o material passa por uma triagem e aquilo que pode ser reciclado ou reaproveitado fará parte da nova produção (Blass, 2007). Desta forma, o carnaval em uma escola de samba significa não somente a festa em si no mês de fevereiro, mas toda a sua preparação ao longo do ano anterior (Cavalcanti, 2008). As tarefas que compõem o processo de produção ocorrem em diferentes lugares (quadra, barracão e ateliers) e em diferentes momentos, já que nem sempre todas as atividades são desenvolvidas de maneira simultânea durante o ano, o que geralmente deixa de acontecer nos últimos meses antes da apresentação, pois há uma intensificação dos ensaios e ajustes finais das fantasias e carros alegóricos (Blass, 2007). Para que a apresentação ocorra, um árduo trabalho precisa ser desempenhado tanto na quadra da agremiação quanto no barracão (Magalhães, 1997). A quadra é um espaço de intensas relações sociais, sendo palco da disputa e seleção do samba-enredo, de ensaios da bateria e do mestre-sala e porta bandeira, contendo também atividades de lazer como shows e pagodes, ou seja, representa a manifestação do relacionamento da escola com o samba. O barracão, por sua vez, pode ser visto como a “fábrica” do desfile, onde os carros alegóricos são produzidos e as fantasias confeccionadas, representando a manifestação do aspecto visual (Cavalcanti, 2008; Magalhães, 1997), embora a elaboração das fantasias, em muitos casos, possa ser terceirizada em oficinas e ateliers. Apesar da separação física entre quadra e barracão e a existência de diferentes etapas, há uma relação direta entre estes lugares e momentos, cujo ponto de encontro é o enredo. Assim, o enredo é o eixo central da condução de toda produção, uma vez que ele será traduzido em código verbal (letra do samba-enredo que será cantada) e códigos não-verbais (instrumentos musicais, movimentos dos corpos com a ginga, fantasias, adereços, carros alegóricos, tecnologia, etc.). O enredo é composto por uma série de “fragmentos” da narrativa a ser codificada em imagens e sons. Essas partes são decompostas durante a produção e reunidas em um todo ao final para garantir a evolução coerente da escola na avenida (Blass, 2007). O enredo pode ser considerado o elemento básico na negociação da realidade carnavalesca, pois defini a natureza e a forma da expressão cultural de uma escola. Ao longo dos meses ele vai sofrendo uma série de transformações e se desdobrando em várias atividades de produção, no sentido de ser materializado em música, fantasias e alegorias (Cavalcanti, 2008; Magalhães, 1997). A escolha de um tema e posterior criação do enredo normalmente fica a cargo do carnavalesco4, que é contratado pela escola nos primeiros meses do ano, e geralmente responsável pela despesa mais elevada de uma escola, em função do alto valor pago pelo seu trabalho (Queiroz, 1999). De acordo com Blass (2007), o carnavalesco é quem viabiliza o cenário plástico-visual para uma escola narrar seu enredo. Suas funções podem contemplar a concepção plástico-visual das fantasias de alas e alegorias, confecção dos protótipos das fantasias de alas e destaques das alegorias, além da “supervisão” da produção das alegorias no barracão, acompanhamento dos processos de trabalho nas oficinas e participação de encontros semanais na quadra. A figura do carnavalesco ganhou maior visibilidade no final da década de 6
1960, quando artesãos responsáveis pela criação plástica das escolas foram substituídos por profissionais contratados como, por exemplo, artistas plásticos, cenógrafos e escultores (Blass, 2007). Seu talento pode ser observado na sua capacidade de traduzir os processos sociais correntes em uma harmonia teatral a ser apresentada no desfile. Esta figura se apresenta na escola como um diretor geral ou maestro de orquestra responsável por coordenar diversos elementos que compõem a mesma (Cavalcanti, 2008). Em uma pesquisa realizada na Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, Goldwasser (1975) observou uma estrutura de funcionamento na qual a flexibilidade coexiste com a burocracia. Segundo a autora, as decisões – muito relacionadas com a capacidade de improvisação do sambista – podem ser alteradas e os prazos dilatados. Por outro lado, a burocracia se manifesta na divisão do trabalho, especialização das tarefas e autoridade de decisão. Em adição, a escola ainda convivia com um excessivo número de cargos nas diferentes alas como, presidente, vice-presidente, secretários, tesoureiros, fiscais, etc., além de ofícios que formalizavam a comunicação com instâncias superiores na escola. Neste sentido, para a autora, a Mangueira se caracterizaria como um burocratismo ad hoc (Goldwasser, 1975). Já Vergara, Moraes & Palmeira (1997), no trabalho desenvolvido no barracão do Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, identificaram uma espécie de organização virtual e flexível ou holográfica, em que o todo do barracão é representado nas partes, além da existência de uma relação de trabalho com características voltadas para o aspecto relacional, a simpatia, o parentesco e o jeitinho. Como qualquer forma de organização, na qual as pessoas se reúnem para a consecução de um ou mais objetivos, o cotidiano de uma escola de samba também é marcado por conflitos e disputas internas, que são negociadas nas relações entre os membros dos diferentes setores. Neste espaço não há somente relações de afetividade e concordância, como idealmente se pressupõem, mas também existe uma série de interesses em jogo. De acordo com Queiroz (1999), a ambição pessoal dentro da estrutura da escola e a competição entre as diferentes alas podem provocar conflitos, principalmente no momento das eleições para ocupação de cargos. Em sua pesquisa realizada na Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Cavalcanti (2008) encontrou a existência de tensões entre carnavalesco e chefes de alas. Se por um lado o primeiro se preocupava com o efeito visual e a harmonia plástica do conjunto das fantasias, o que invariavelmente eleva o custo das fantasias, por outro lado, os segundos, dependentes do comprometimento financeiro dos componentes de suas alas, buscavam constantemente meios de reduzir este custo, que por sua vez, impacta na qualidade do material usado e no efeito visual da fantasia. A busca pelo efeito visual se transformou em uma das principais preocupações das escolas de samba atualmente. O caráter espetacular e comercial que os desfiles adquiriram, nas últimas décadas, fizeram com que mudanças fossem incorporadas neste processo produtivo, redundando na sobreposição de elementos “tradicionais” e “modernos” na forma de organização das agremiações carnavalescas. Se por um lado isso poderia ser interpretado como a perda da autenticidade e tradição, por outro nos parece mais preciso entender essas modificações como a continuidade/intensificação de aspectos já presentes no mundo do carnaval desde seu surgimento, bem como de sua consolidação no Brasil. 3.3- A “Invasão” da Classe Média O ingresso do carnavalesco nas escolas de samba foi um dos marcos na mudança de orientação acerca da execução de tal função nas escolas (Queiroz, 1999), bem como dos padrões estéticos que se transformaram significativamente com a presença de artistas de formação acadêmica (Valença, 1996). Por conseqüência de seu trabalho, ele acabou exercendo um papel de mediação entre as agremiações e as concepções estéticas presentes em 7
outros meios culturais (Cavalcanti, 2008). Valença (1996) ressalta que concomitante a isso, houve um crescimento das escolas de samba na década de 1960 e uma maior aceitação por parte da classe média, que até então relacionava o envolvimento com estas agremiações carnavalescas a atividades de marginais. Além do mais, segundo ela, o júri teve participação determinante neste processo de transformação, já que começou a se constituir de pessoas de classe média, que se identificavam com os novos padrões estéticos. Com efeito, todas as escolas precisaram se adaptar aos novos padrões e também buscar profissionais do setor artístico. A aproximação da classe média com as escolas de samba – conhecida por “invasão” da classe média – teria, então agravado “ainda mais a perda de identidade cultural decorrente do abandono do caráter comunitário e artesanal da origem” (Valença, 1996, p. 62). Isso fez com que houvesse uma perda dos valores fundamentais que regem a cultura popular, gerando significativas conseqüências nas décadas seguintes, como por exemplo, o uso dos desfiles como um meio de atrair turistas e transformar-se em fonte de renda (Valença, 1996). Goldwasser (1975), por sua vez, observa que a aproximação da classe média se deu muito em função de mudanças no contexto nacional, principalmente àquelas vinculadas a um movimento de valorização da cultura popular, que fizeram as escolas de samba se tornarem objeto de interesse para o consumo da sua arte produzida. Esse movimento se iniciou na década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, período no qual ganhou destaque a idéia de uma identidade única do Brasil. Deste modo, tudo que pudesse representar a mistura das “raças” constitutivas do país seria substancialmente valorizado (Ferreira, 2004). Paralelamente, a mídia, de modo geral, também passou a se interessar pelas agremiações com intuito de comercialização do espetáculo proporcionado nos dias de desfile: “para o adventício ‘branco’, de ‘classe média’, os sinais mais aparentes de sua própria influência estão no luxo ostentatório dos Desfiles, no tratamento erudito dos enredos e sobretudo nas concepções de cenografia e figurinos” (Goldwasser, 1975, p.50-51). Se, por um lado, a “invasão” da classe média colocaria em risco a “pureza original” das escolas de samba, por outro, possibilitou o reconhecimento e valorização desta manifestação junto a sociedade como um todo, fazendo com que as escolas se consolidassem como uma importante instituição cultural e do carnaval do país (Ferreira, 2004). 4- Autenticidade e Tradição Perdidas? O percurso das escolas de samba, desde seu surgimento nos morros e subúrbios cariocas, tem sido interpretado a partir da transição de uma organização genuína e autêntica para uma organização descolada de sua origem e tradição, em função da mercantilização do carnaval e da “invasão” da classe média. No entanto, como destaca Cavalcanti (2008), essa é uma visão limitada, já que enfatiza a dimensão festiva e comunitária do desfile em detrimento de uma análise mais profunda sobre o caráter espetacular e comercial que faz parte desta história. A visão romântica e nostálgica da cultura popular acaba por criar um dilema que coloca de um lado, a cultura do povo como pura e original e, por outro lado, o sentimento de constante ameaça de degradação da tradição, violentada pela modernidade e expansão do capitalismo. Estes argumentos, segundo a autora, são metodologicamente insustentáveis, já que o acesso a uma suposta tradição pura é praticamente impossível, além dos próprios constructos “pureza” e “autenticidade” comportarem problemas. Na história, podemos verificar casos de participação da elite em manifestações populares na Europa, nos séculos XVI a XVIII. Na Idade Moderna européia festas populares e participativas cederam lugar para espetáculos comercializáveis. No Brasil, em fins do século XIX, grupos da elite também freqüentavam festas como Bumba-Meu-Boi e o Carnaval (Cavalcanti, 2008), além de
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reuniões e encontros entre intelectuais e músicos da camada popular ser uma longa tradição de relações entre diferentes segmentos da sociedade brasileira (Vianna, 2004). Ademais, Ferreira (2004) salienta que no final dos anos de 1920, o governo municipal do Rio de Janeiro já assumia uma postura gerencial em relação ao carnaval. Na medida em que os acontecimentos vinculados aos festejos carnavalescos passaram a ser vistos como uma oportunidade de negócio, a atração de turistas estrangeiros e a projeção do carnaval carioca como uma festa de alcance internacional se tornaram um dos principais objetivos naquele período. A partir de artigos publicados em jornais, no final da década de 1920 e início da década seguinte, o autor demonstra a importância que o carnaval carioca estava conquistando, bem como as estratégias do governo municipal para consolidá-lo como um grande evento internacionalmente conhecido. Dentre as notícias da época, se relatava a chegada de turistas estadunidenses em navios luxuosos, a presença de ingleses na semana que antecedia o carnaval, além de turistas argentinos, chilenos e uruguaios. Como “estratégia de marketing” a prefeitura passou a financiar a produção de vídeos dos ranchos e grandes clubes para propaganda e divulgação no exterior, com objetivo de atrair a elite da Europa e dos Estados Unidos. Acordos com empresas organizadoras de excursões, lançamento de propagandas e anúncios na imprensa dos Estados Unidos também foram usados como forma de atrair divisas. No jornal O Cruzeiro, de 20 de janeiro 1932, foi publicado um texto que ressaltava “... O Carnaval é uma mina de ouro... ...É fácil convertê-lo em libras e dólares” (Ferreira, 2004, p. 324). O carnaval, já no início do século XX, se configurava como um rentável negócio e as autoridades não só tinham consciência disso, como buscavam estimular este potencial, algo não muito diferente do que acontece nos dias atuais. A concepção mercantil do carnaval não seria, portanto, algo recente. Diferente disso, aspectos comerciais e a atração de turistas fizeram parte da gênese e consolidação do carnaval tipicamente brasileiro, no que diz respeito às manifestações que acabaram conduzindo ao aparecimento dos grandes desfiles das escolas de samba. O foco do comércio apenas se alterou, se direcionando para a nova fonte de renda e atração turística: o desfile das escolas de samba. Desta forma, a estrutura de funcionamento destas organizações e, por conseqüência, seu processo de produção dos desfiles também são influenciadas pelo caráter espetacular e comercial que acompanha o carnaval nas suas mais diversas formas de manifestação. A problemática que se insere não é, como ressalta Clifford (2008), a possibilidade de desaparecimento de costumes e valores, mas a idéia (mesmo que implicitamente presente) de que coisas tão essenciais e historicamente construídas possam se perder de maneira rápida. Assume-se que o importante é seu passado e não o seu presente ou futuro. Essa lógica de resgate de tradições nos conduz a uma intrigante regressão. Se “em cada momento que se encontra um escritor olhando para trás, para um lugar mais feliz, para um momento ‘orgânico’ perdido, encontra-se um outro escritor, daquele período anterior, lamentando um prévio e similar desaparecimento. O referente último é, claro, o Éden” (Clifford, 2008, p. 79). Este mesmo autor, baseado no trabalho de Raymond Williams (1973), argumenta que esta posição encarna uma nostalgia crítica, ou seja, uma forma de produzir rompimentos com um presente hegemônico e corrupto, que assumiu o lugar de um passado romântico e autêntico. Assim, há uma tentativa de criar rupturas por meio da afirmação de uma realidade alternativa radical. Neste sentido, as entidades e organizações sofreriam de um constante progresso que forçosamente levaria a uma perda das tradições. A idéia de que a “tradição” ou a “pureza” da cultura popular produzida pelas escolas de samba esteja sendo, inexoravelmente, colocada em risco em função da relação estabelecida com a classe média nos parece reducionista. Essa suposição carrega consigo a premissa de que a cultura da elite consegue dominar, se sobrepor e impor sua ordem cultural ao mais fraco de modo que este último, de maneira passiva, aceite tal relação. Uma forma mais apropriada 9
seria entender que as culturas são heterogêneas, ou seja, marcadas por aspectos próprios, bem como por elementos de influência de outras culturas (CUCHE, 2002). Além do mais, a dicotomia tradição/modernidade dificulta o entendimento da complexidade que envolve esta questão. Como ressalta Catenacci (2008), a tradição não implica necessariamente em uma recusa as transformações, assim como o moderno não redunda numa implacável destruição das tradições. Ao contrário disso, estas duas dimensões deveriam ser entendidas como complementares e não excludentes, como parte de um processo dinâmico e não como algo estático. DaMatta (1997) salienta que a vitalidade das escolas de samba se deve, principalmente, por ser uma forma de organização, cuja raiz do interesse despertado nos seus membros ocorre de dentro para fora, de maneira genuína e espontânea, a despeito de qualquer modelo externo. Este formato organizacional não saiu de livros de política, sociologia ou administração; nem de algum modelo de gestão criado por empresas de consultorias, visando fins instrumentas dentro de uma lógica de custo/benefício tão cara ao mundo das organizações privadas. Menos ainda são provenientes dos Estados Unidos ou de algum país da Europa por terem sido um exemplo organizacional bem sucedido de associação social. Diferentemente, ressalta DaMatta (1997), este formato reflete diretamente a realidade brasileira e faz parte da sua história social, cultural e política. Talvez ai resida o seu caráter mais peculiar. 5- Escolas de Samba e Estudos Organizacionais A autenticidade de uma escola de samba, portanto, estaria ligada muito mais ao seu histórico de formação, enquanto uma organização tipicamente brasileira, e que emerge dentro de um contexto social particular com suas nuanças. A intensificação do caráter mercantil que se configurou o carnaval parece muito menos causa destas mudanças e muito mais conseqüência de transformações econômicas, políticas e sociais que ocorreram no Brasil (ver Ferreira, 2004), embora tudo isso seja uma questão empírica passiva de ser investigada. Desta forma, a mercantilização e a “invasão” a classe média seria muito menos o que explica e muito mais aquilo que precisa ser explicado. Tem-se ai uma lacuna de investigação interessante para os Estudos Organizacionais. Além do mais, seria possível desenvolver pesquisas que retratem as semelhanças e diferenças entre as escolas de samba e empresas privadas no que diz respeito aos seus modelos de gestão. Apesar de possuir semelhanças com o processo empresarial/industrial, a produção do desfile de uma escola de samba se diferencia em muitos aspectos deste. Como o enredo se renova a cada ano, fantasias, alegorias e adereços são modificados, o que não permite qualquer forma de padronização ou processo de produção em massa. Além disso, cada desfile é um novo projeto, ou seja, produtos únicos resultantes do trabalho de diversas pessoas e, principalmente, sua produção não se desdobra na mesma lógica empresarial, na qual há uma clara separação entre produtores e produto final, já que no caso das escolas de samba aqueles que produzem também são consumidores (Blass, 2007). Quem produz a festa de Carnaval, a faz, antes de tudo, para si mesmo e não para os outros. Uma escola de samba representa um bairro, seus moradores e componentes. A sua glória na avenida, mesmo que efêmera, decorre... ...de um envolvimento efetivo e afetivo de quem faz acontecer o desfile e o produz. Todos ganham ou perdem o Carnaval, não apenas a diretoria ou o carnavalesco. Todos são protagonistas e produtores e consumidores dessa festa e, enquanto tais, são responsáveis pelo resultado alcançado (Blass, 2007, p. 133).
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Na visão de Blass (2008), a expressão máxima da modernização da produção do desfile das escolas de samba, talvez seja a construção da Cidade do Samba no Rio de Janeiro. No entanto, isso não gera perda ou diluição da arte, “tradição” ou “autenticidade” dessa produção, já que muitos dos processos de trabalho da arte não se alteram de maneira fundamental. Para a autora, um paradoxo marca a existência atual das escolas de samba: mesmo com a implantação de soluções de gestão e organização empresarial modernas, não há uma invalidação ou destruição de uma “tradição” carnavalesca que perpetua há décadas na nossa sociedade (Blass, 2008). A produção do desfile propicia, em certa medida, a recriação de formas tracionais de organização baseadas no trabalho artesanal, remetendo às corporações de ofício, ao mesmo tempo em que emprega mecanismos modernos de gestão da produção, como entrada do material no tempo certo, distribuição das tarefas por equipes, uso de novas tecnologias de comunicação e informação, centralização combinada com descentralização de decisões (Blass, 2007). A coexistência de práticas de organizar “tradicionais” e “modernas” dentro de um mesmo espaço, bem como de profissionais contratados e pessoas sem o domínio do conhecimento de administração são aspectos que poderiam ser investigados pelos Estudos Organizacionais, a fim de entender melhor quais são as práticas organizativas empregadas e como elas são desenvolvidas neste ambiente híbrido. O processo de produção do desfile das escolas de samba é repleto de elementos “internos” e “externos” à agremiação e que afetam diretamente o seu modo de organizar. Muitos são os atores e interesses envolvidos. A “invasão” da classe média nas escolas e a mercantilização do carnaval é muito menos o estabelecimento de uma nova relação e muito mais a sua intensificação. O entendimento destes processos passa pela visualização da organização “escola de samba” como uma entidade dinâmica, cujas fronteiras não podem ser bem definidas. Neste sentido, suas práticas organizativas estão imersas em uma rede de relações localmente produzida, cujas peculiaridades são uma questão empírica a serem investigadas. 6- Considerações Finais As escolas de samba têm passado por uma série de mudanças nas últimas décadas que geraram algumas modificações na forma de organização de sua estrutura de funcionamento. Neste artigo, procuramos discutir como tais mudanças não significam a perda da tradição e autenticidade destas agremiações carnavalescas, ressaltando o potencial para pesquisas em tais organizações carnavalescas. Assim, apresentamos de maneira breve o percurso do carnaval no Brasil, desde a chegada dos colonizadores portugueses até o aparecimento das escolas de samba com seus desfiles, que representam atualmente o principal símbolo do carnaval brasileiro. A produção do desfile de uma escola de samba requer o envolvimento de um grande número de pessoas e recursos, que são reunidos ao longo do ano para a preparação do carnaval seguinte. As práticas organizativas para tal produção passam, atualmente, por um modelo que possui algumas características das organizações empresariais modernas por um lado, mas que convivem com aspectos “tradicionais” por outro, criando uma especificidade típica destas agremiações. A mudança no aspecto visual dos desfiles é tida como conseqüência da mercantilização do carnaval e daquilo que ficou conhecido como “invasão” da classe média no mundo do samba. Esta “invasão” e o aspecto mercantil seriam nesta visão responsáveis pela perda da tradição e autenticidade das escolas de samba. Esta posição, porém, é limitada na medida em que a comercialização do carnaval brasileiro já se fazia presente desde o início do século XX e a relação dos sambistas com a elite é um fenômeno de longa data. Afirmar que a partir da década de 1960, com o aparecimento da figura do carnavalesco e a valorização do aspecto visual, as escolas de samba perderam sua tradição e autenticidade é negar a 11
história de formação e consolidação do carnaval brasileiro e destas agremiações, que em maior ou menor intensidade estiveram próximos da elite e do governo. Como muito bem ressaltado por Ferreira (2004), aquilo que conhecemos hoje por “Carnaval Brasileiro” – que envolve os desfiles das escolas de samba, embora não se reduza a eles – é o resultado de uma articulação histórica de diferentes interesses, de diferentes camadas da sociedade e de diferentes atores (elite, povo, escolas de samba, governo, rádios, gravadoras, televisão, etc.), que ao longo de anos estabeleceram uma série de relações e disputas de poder. Cumpre ressaltar que a maneira como as práticas organizativas se desdobra nas agremiações é sempre uma questão empírica. Por isso, parece-nos que o estudo empírico profundo da ambigüidade e complexidade das organizações “escolas de samba” se faz necessário pela lente dos Estudos Organizacionais, já que este objeto tem sido significativamente analisado pela sociologia e antropologia, mas marginalizado na área de administração, apesar da riqueza de sua forma de organização e do contexto dinâmico no qual se insere. Neste sentido, algumas linhas de investigação poderiam ser direcionadas para entender como as práticas organizativas para a produção de um desfile das escolas de samba se desenvolvem no cotidiano da agremiação, envolvendo uma série de atores com interesses que podem ser comuns e divergentes ao mesmo tempo; ou como ocorrem as relações de trabalho em um espaço em que há a lógica empresarial coexistindo com elementos tradicionais e comunitários. 7- Referências Bibliográficas BLASS, L. M. da S. Desfile na Avenida, Trabalho na Escola de Samba: a Dupla Face do Carnaval. São Paulo: Annablume, 2007. BLASS, L. M. da S. Rompendo Fronteiras: A Cidade do Samba no Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais. RBCS, v. 23, n. 66, 2008. CATENACCI, V. Cultura Popular: entre a Tradição e a Transformação. São Paulo em Perspectiva. v.15, n.2, 2001. CAVALCANTI, M. L. V. de C. Os Sentidos no Espetáculo. Revista de Antropologia. v. 45, n. 1, 2002. CAVALCANTI, M. L. V. de C. Carnaval Carioca: dos Bastidores ao Desfile. 4ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008. CLIFFORD, J. A Experiência Etnográfica: Antropologia e Literatura no Século XX. 3ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008. CUCHE, D. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 2002. DaMATTA, R. Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. FERREIRA, F. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. GOLDWASSER, M. J. O Palácio do Samba: Estudo Antropológico da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
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Na área de EO no Brasil uma exceção foi a pesquisa realizada por Vergara, Moraes & Palmeira (1997), no barracão do Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, na cidade do Rio de Janeiro, cujo objetivo consistia em analisar os aspectos administrativos que compõem o barracão, a fim de identificar os elementos da cultura brasileira presentes nesta administração. Os autores observaram uma série de elementos de gestão típicos do mundo dos negócios e das empresas privadas. 2 Para uma diferenciação mais detalhada entre “Carnaval” e festas de caráter carnavalesco ver Ferreira (2004). 3 Um bloco pode ser caracterizado como um agrupamento de pessoas sem uma ordenação interna bem definida, em que os foliões circulam de maneira mais livre ao longo do desfile do que em uma escola de samba (DaMatta, 1997). 4 Em algumas escolas de samba ao invés da contratação de um carnavalesco, que pode representar um gasto acima do orçamento, é criada uma comissão de carnaval com integrantes da própria escola, que serão os responsáveis por executar as atividades do carnavalesco.
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