"Fé, Carnaval e Alegria de Lavar a Alma na Lavagem de Senhora Santana”. Rennan Pinto de Oliveira*
Nas primeiras décadas do século XX, segundo o memorialista Boaventura (2006a) “obra das dez horas, a manhã se estremecia e com ela [a Lavagem1] toda a cidade com a lírica e surupemba música do terno desengonçado dos Zabumbas.” Antes dos toques da Zabumbas, bem cedo, homens e mulheres iam buscar água e suas vassouras para lavar o templo, dando suporte estavam os burricos todos enfeitados com laçarotes e ornamentados a caráter para dia tão especial, eles auxiliavam o transporte das águas carregando esse elemento simbolicamente purificador nas suas cangaias. As águas eram trazidas das fontes dos Olhos d’ Água, nome revelador da região em que brotavam olhos de água minadouro e outros pontos. Homens comuns eram os guiadores desses animais. No dia da Lavagem eles quebravam parte de sua lógica cotidiana, se permitindo viver uma experiência diferenciada da sua rotina anual. Essa efeméride se apresentava como ritual composto de vários símbolos, sendo uma espécie de ritual de renovação e reafirmação dos laços daqueles crentes com sua fé e esperança de novas conquista. O ritual era encenado de forma cadenciada através das várias performances dos sujeitos integrante dessa etapa da Festa, dividida em dois momentos supostamente distintos, porém complementares, um mais contrito com a entrada de pessoas no templo e outro que pode ser considerado uma grande festa momesca devido a sua organização de ritual-cortejo. Sendo o ritual como expressa Cox (1974, p.79) uma “forma de ação humana, que alimenta a fantasia e corporifica-a na sociedade e na história”, nessa manifestação popular de caráter historicamente construído, os partícipes se liberavam de suas restrições morais e sociais, expressando corporalmente seus desejos e fantasias através dos gestos, movimentos e dança embalada pelos sons das zabumbas e bandinhas. Nesse dia muito se era permitido: homem se vestir de mulher, mulher se vestir de homem, se mascarar ou até mesmo se vestir de baiana, sendo a criatividade o grande marcador da originalidade das fantasias materializadas para serem usadas na Festa da Lavagem. * Mestrando na Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS-BA 1 Minha anotação.
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Esse dia pode ser comparado a uma grande manifestação carnavalesca, não com um caráter de inversão como aponta Da Matta (1986) em seus estudos sobre Carnaval, também não parece se apresentar hermeticamente como um rito de reforço como discute o autor. A Lavagem de Santana parece ser composta por manifestações de caráter polissêmico apresentado pelas suas multivivências, produtoras de significados para seus partícipes. Estes se apropriavam da Festa para revelar seus sentimentos e representar, mesmo por um curto tempo, a sua fé na padroeira da cidade, participar da Festa podia ter um sentido muito mais amplo de compartilhamento, cumplicidade, curtição e até mesmo de homenagem, sendo possível também unir todos esses sentidos. A Festa da Lavagem com bandinhas, em outros momentos com trio elétrico, acontecia na Praça da Matriz. Esta festa, dita profana, devia e acontecia fora dos muros da Igreja, imageticamente o templo religioso deveria ser resguardado da profanação, sendo possível apenas a Lavagem de seu chão e santuários no turno oposto à Lavagem “carnavalesca” que acontecia sempre à tarde normalmente depois das 16h. A separação e divisão de espaços evidenciam as fronteiras desses dois universos - o sagrado e o profano - proibidos pela Igreja Católica de se imiscuirem, porém o grande paradoxo é saber que a Lavagem também fazia parte da festa em homenagem a Santana e era indissociável dela. Essa separação não aconteceu apenas nos anos 60-80, a Igreja Católica já assumia essa postura desde as primeiras décadas do século XX quando proibiu os batuques e festança nos espaços considerados sagrados e no interior da Igreja Matriz. Aquela proibição seguia o Concilio Plenário Brasileiro e as determinações de Pio X, o qual “proibi[a] as bandas de músicas tocar dentro das igrejas. Fora delas são permitidas nas procissões, contanto que os músicos se comportem com respeito e edificação cristã e se abstenham de executar composições profanas e ligeiras2”. Essa postura da Igreja Católica seguia a perspectiva de neocristandade, esta tinha como base princípios do ultramontanismo que desejava o fortalecimento da doutrina e a criação de zonas para separar as expressões de religiosidade oficiais da religiosidade popular considerada como práticas de profanação. Silva (2009a) 3, Mainwaring (1985) 4 e Azzi (1994) 5. 2
Idem. p. 55 Apud,, Livro tombo I da Catedral de Santana, Feira de Santana( 1930-1968) f.97. . Segundo Cândido da Costa a romanização se iniciou no século XIX e seu objetivo era a criação de um clero ilustrado e probo, ligando-se diretamente à Santa Sé e afastando-se da órbita política e de subordinação do
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As determinações de proibição da Igreja representavam também uma reformulação da sua estrutura que passava por uma crise, após a laicização do estado durante a proclamação da república. O rompimento entre o Estado e a Igreja provocava, naquela antiquíssima instituição, novas perspectivas e formulas de autogerenciamento e sobrevivência no Estado brasileiro republicano como aponta Silva(2009b). E os primeiros anos do século XX ainda sentiam as reverberações das mudanças nas suas estruturas, isso parecia ressoar também na Feira de Santana dos anos vinte e trinta. O desejo da Igreja Católica por normatizar esse ritual segue praticamente todo o século XX, ganhando mais força nos finais dos anos oitenta. Este período é o marcador do fim da festa considerada profana e realocação da festa apenas religiosa do mês de janeiro para o mês de julho considerado pela Igreja Católica como o mês original de comemorações em homenagens a Senhora Santana. A lavagem de Santana, assim como a Festa, sofreu profundos processos de remodelamento e organização, alterando, com isso, as relações produzidas para sua sustentação e reprodução até o final das décadas de 1980. No entanto, as mudanças mais marcantes e definidoras do seu ordenamento ocorreram entre os anos 1960- 1987, período estudado pela pesquisa que ora desenvolvo. A Lavagem de Santana parecia se organizar em seus diferentes momentos históricos de forma muito parecida, sofrendo algumas alterações ou inclusões de novos elementos folclóricos ao longo do século XX. Ela se organizava em um grande cortejo composto pelo que poderíamos chamar de alas ou grupos partícipes distribuídos nas ruas, os quais ocupavam as artérias do centro comercial para cumprir seu trajeto, em um espaço que em dias normais tinha outras funções. Este cortejo era possuidor de características próprias e se diferenciava da procissão religiosa efetuada pela Igreja Católica como última etapa das homenagens à Padroeira.
Império, com intuito de influenciar a vida nacional, tendo como principais características a “espiritualização” do clero, distanciando-o da realidade social e de seus problemas. In Segadores e a messe. 4 Conforme Scott, as fronteiras cronológicas da Neocristandade podem ser fixadas entre os anos de 1916 e 1955, tendo seu apogeu durante o governo Vargas (1930- 1945), sendo seu percussor Dom Leme. 5 Segundo AZZI (1994) nesse período, a Igreja católica começou a dar mais atenção a seus problemas institucionais, relativo às suas fragilidades, deficiência nas práticas religiosas populares, sua falta de padres, precariedade da educação religiosa na sociedade brasileira, ausência de intelectuais católicos, limitada influência política da Igreja e frágil situação financeira.
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A Lavagem era um lugar de participação de todos, inclusive dos mais abastados da cidade. Os filhos de empresários, comerciantes, médicos, populares, homens, mulheres, crianças e outros que estudavam na capital vinham se fantasiar para se entregar à diversão e saírem pelas ruas. O universo da Lavagem era composto por agentes fixos e outros flutuantes, misturados em prol de um interesse comum: a diversão e a fé. Puxando a Lavagem, tradicionalmente, estavam as porta-bandeiras. No começo, de manhã, corria o zabumba a recolher os porta-bandeiras. Apanhou Calu e lá se foi o grupo buscar Paciência. Eram velhas raparigas, agora de respeito, de idade provecta, que se apresentavam de saia bem rodada e bata aberta em rendas, como costumavam vestir-se. Apanhavam agora Feliciana Carneiro. (BOAVENTURA, 2006b, p.22).
A narrativa do memorialista nos remete ao cenário das primeiras décadas do século XX, apesar de não citar parece ser as baianas a quem se refere. Nos anos cinquenta o grande destaque na comissão de frente da Lavagem é a baiana Dolores do acarajé6, já entre os anos de 60 e oitenta a Lavagem era pensada e levada pelos terreiros de candomblé da Ialorixá Mãe Socorro e do Babalorixá Zeca de Iemanjá, figuras cativas e marcantes na Lavagem7. Na sequência, organizadas pelos barraqueiros, em sua maioria, vinham às carroças sempre enfeitadas e prontas para a disputa da mais bela. Durante o desfile era promovida a famosa guerra de talco entre os seus “passageiros”. Acompanhando as carroças estavam os cavaleiros montados, ignorando sempre as críticas feitas pelos jornais quanto a sua presença no evento, pois questionavam o risco de pisoteamento8 dos acompanhantes do festejo. Misturando-se aos partícipes da Lavagem estavam os mascarados e os fantasiados diluídos entre as pessoas. Valia de tudo, o mais importante era a criatividade e a capacidade de singularizar-se no meio de uma manifestação coletiva de tantos atores criando e elaborando de forma hilária suas performances, apresentadas aos espectadores a partir dos
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Sua presença na Lavagem é narrada nas memórias de Lajedinho em seu livro de memórias: A Feira na década de 30 (memórias); [s.n] Feira de Santana, 2004.p.24 7 A presença dessas duas figuras é comentada nos jornais Feira Hoje e Folha do Norte durante anos de 1960 a 1987. 8 Essas discussões sobre o risco de pisoteamento foi noticiado no Feira Hoje entre os anos de 1960-19787.
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diversos temas. Os mascarados parecem ter presença mais forte na primeira metade do século XX, segundo os depoimentos de seu Antonio Ramos participante da Lavagem. A.R - Os caretas que eram danados mudando de fala, mudando de voz com máscara, para a gente conhecer um mascarado era difícil. R.O-E eles faziam o que durante a Lavagem? A.R- Eles pediam beijo, davam beijos, diziam piadas, declaração de amor era uma brincadeira gostosa viu! A verdade é que era gostosa9.
No depoimento, é perceptível o comportamento e práticas dos caretas durante a Lavagem, especialmente nas décadas de 40, 50, 60 e 70, período de participação mais ativa do Senhor Antonio Ramos na Lavagem , seja fantasiado ou simplesmente como espectador. Porém nas Lavagem da década de 70, Magalhães (2009) relata em seu livro a quase ausência
dos mascarados. No rodapé da foto, o autor revela as imagens já rarefeitas de mascarados na Lavagem, a foto se refere também ao grupo folclórico presente na Lavagem “Segura a veia” organizado e apresentado pelo mestre Muritiba10, homem que durante os anos 70 e 80 lutou pela valorização das expressões folclóricas. Seu grupo era formado por um pequeno núcleo, 9
Entrevista concedida pelo Senhor Antonio Ramos em (05/02/13). Ele também é conhecido por Antonio Feirense. Católico ativo participava de eventos da Igreja Católica se destacando em especial no ano de 1979, ao renunciar a presidência da Festa de Santana. 10 Mestre Muritiba esteve presente na Lavagem até o ano de 1986 após seu falecimento sua esposa assumiu o grupo que desfilou no ano de 1986 e 1987. Como assinala o jornal Feira Hoje, 24/06/1986.
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inclusive sua esposa que após a sua morte deu continuidade ao grupo. Seus palcos de encenações eram as ruas da cidade, mas seu palco principal era a Praça da Matriz onde se apresentava para os espectadores presentes fazendo graça e interagindo com as crianças. Suas apresentações não se restringiam a Lavagem, também se apresentava nas cidades circunvizinhas, parecia que o grupo usava essas performances/ encenações como um meio de sustento da família, mas também não era só isso, era uma expressão cultural resistente ao tempo e às mudanças de hábitos culturais presente no século XX. A Lavagem pode ser lida como um texto no qual estava presente uma linguagem com códigos próprios. Este texto trazido por ela pode ser passível de compreensão, assim como fizeram Darnton (1986), ao buscar interpretar as procissões que aconteceram em Montpellier no século XVIII e Ryan (2001a), ao investigar sobre a Parada Norte-Americana. Ryan (2001p.180b) concorda com Darnton quando interpreta o seu objeto de pesquisa como “um texto especial, intricadamente emaranhado em seu contexto histórico e social. Tendo múltiplos autores: os milhares de participantes que levaram, para uma cerimônia composta, dos símbolos que eles próprios escolheram”, sendo passíveis de leitura pelos historiadores. Assim como a Parada estudada por Ryan (2001c), considero a Lavagem de Santana uma espécie de performance cultural. Esta, segundo Geertz (1989) é encenada publicamente também como rituais religiosos, sendo “unidades de ação discrimináveis, caracterizadas por ocorrerem durante um determinado período de tempo; englobando ainda, um programa organizado de atividades, um conjunto de performers, uma audiência e um lugar ou ocasião para realizar a performance11”.
Santos (2006a) afirma ser a performance cultural também composta da mídia cultural, referindo-se aos modos de comunicação que incluem igualmente a linguagem falada e os meios de comunicação não linguísticos, tais como o canto, a dança, a encenação, as artes plásticas e gráficas - que se combinam de várias maneiras para expressar e comunicar o conteúdo de uma determinada cultura.
11 SANTOS, Eufrázia Cristina Menezes, com base nos estudos do antropólogo americano Milton Singer, criador do termo Performance cultural; e de Geertz. In Performances culturais nas Festa de Largo da Bahia.Depois apresentada como paper no GT: Performance, Drama e Sociedade, durante o 30º Encontro Anula da Anpocs, Caxambu, out de 2006, com o Título: Performances culturais nas Festas de Largo da Bahia. Site http://www.antropologia.com.br/arti/colab/a40-esantos.pdf acesso 02 de fevereiro de 2012, às 21h00.
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Como uma performance cultural e texto passível de ser lido, a Lavagem de Santana se organizava a partir de uma linguagem com códigos compartilhados entre os sujeitos participantes envolvido em um enredo desdobrado em multivivências. Sua composição heterogênea sugere que o cortejo seja visto não só em seu aspecto religioso. Contudo, como discute Santos (2006b) a respeito da Lavagem do Bonfim, em Salvador, este tipo de festejo deve ser visto “como um instrumento vivo e abrangente de comunicação social utilizado pelos diferentes grupos que dela participavam para tornarem públicos os conteúdos, valores e símbolos12”, e no transcorrer do cortejo era possível “impor um panorama móvel”, uma espécie de imagem pública, repleta de significados13. Assim como a Lavagem do Bonfim, a Lavagem de Santana também possuía seu panorama móvel marcado pelas práticas dos participantes em suas performances, constituído por uma forma de ser e acontecer singularizando-se diante das outras manifestações presentes nas homenagens a Santana14. As condutas dos participantes os identificam a partir de suas práticas expressas através de seu jogo corporal e dança cadenciada pela energia rítmica e sonora do som das bandinhas e zabumbas. Nesse movimento se exalava sensualidade e outras simbologias aceitas no universo da Lavagem, mas totalmente rejeitadas em outro universo social-moral. Essa expressão corporal simbolizante da Festa era uma marca de representatividade transmitida e reproduzida pelos participantes nos seus ciclos de mudanças e transformações da Festa. Ela tinha práticas e formas verticalizantes ao longo de sua existência tais como a presença das baianas, as músicas com tom de ambigüidade e ironia, as brincadeiras e as irreverências. Muitas práticas vivenciadas e vista no festejo não deixaram de serem, representações apropriadas e reproduzidas pela comunidade feirense ao longo dos anos na festa. Essas práticas eram transmitidas e reinventadas de geração em geração. Em alguns momentos acreditamos que a forma da Lavagem estava posta, quem mudava eram seus personagens e à
12 Ibidem p.12 13 Ibidem p.12 14 Para Paul Zumthor (2007), a performance “ está marcada por sua prática –manifestação cultural lúdica não importa de que ordem ( conto, canção, rito, dança), a performance é sempre constituída de forma. p.30.
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medida que aconteciam as mudanças, muitas práticas eram redefinidas e resignificadas, sejam pelos seus participantes ou até mesmo pelos seus espectadores. Havia uma fusão e interação muito forte entre ambos, pois, ir à Festa da Lavagem mesmo que apenas para olhar, não podia deixar de ser em certa medida aprovação a esse tipo de manifestação cultural. As performances apresentadas não se ligavam somente ao corpo, mas, por meio dele, ao espaço não delimitado - apenas as ruas e a Praça da Matriz – no qual os ecos da festa parecia se arrastar e fixar-se nas memórias tanto dos participantes como dos espectadores, que, possivelmente, levavam para suas casas lembranças marcadas no corpo, e na memória, comportamentos e práticas vistas e vivenciadas durante a Festa e que, em certa medida, era reproduzida em outros espaços. Um sinal disso é fala de seu Antonio Ramos. R.O-Gostaria de saber em que momento a Lavagem e o bando ficaram pornográficos. Por que o Senhor disse que naquele tempo eles já cantavam coisas pornográficas. Nas décadas de 40 e 50 eles já cantavam coisas pornográficas? O Bando e Lavagem cantavam coisas pornográficas? A.R- O Bando não tanto, o Bando podia acontecer de vez em quando, mas esse pau dentro pau fora era uma cantiga quase que popular o pau dentro pau fora quem tiver pau pequeno vá embora sempre se cantava isso, e aquela quando eu vim da Bahia, e Eu não notava nada, cantava abria a boca e um dia papai reclamou, porque você está cantando isso, mas ela não definia a palavra buceta. Quando Eu vim da Bahia eta! Encontrei Seu Tim vuceTA ,esse negócio ela não dizia, mas ai foi percebendo, a gente vai esquecendo essas coisas da rua. Ai se deixou de cantar e nunca mais se cantou em casa, mas se cantava na rua e nessas lavagens e levagens15.
È difícil avaliar, mas também não é possível deixar de acreditar que esses sujeitos ouvintes ou partícipes não levassem para casa um pouco da Lavagem dentro de si. A narrativa de seu Antonio Ramos sobre a repreensão de seu pai ao reproduzir em casa uma música que deveria ser restrita às ruas e à Lavagem, negava a prática de cantar músicas ambíguas e de duplo sentido fora de espaços definidos. A sua fala nos permite fazer essa dedução e reflexão do quanto àquela manifestação se desdobrava e ecoava em outros espaços. Podemos considerar que esses tipos de músicas em sua dimensão material, foram elaborados, transmitidos e apropriados pelos indivíduos mediante os processos de produção,
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Entrevista com seu Antonio Ramos (em 05/02/13).
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circulação e recepção. Pois elas se propagaram e se reproduziram durante longos anos na Festa, sendo ouvidas e repetidas em muitas Lavagens, em diferentes épocas. Levados pelas músicas de duplo sentido logo atrás das baianas, das carroças, das bandinhas e zabumbas vinham os travestidos16, transitando entre sua ala e as das baianas, pois muitas vezes eles se fantasiavam de baianas, mas eram facilmente reconhecidos por destoarem delas pelos tons de cores extravagantes estampado nas suas roupas e enfeites.
Foto 1: Travesti caricato: sutiã de maiô, saia midi de chita, lenço. Feira Hoje (26/01/82). Ano XII n.2305.p.6
Foto 2: O Travesti passa, uma Senhora o aponta e a criança fica espantada. Feira Hoje (26/01/82). Ano XII n.2305.p.6
Foto 3: Ilkias, o “Momo” de travesti: eufórico. Feira Hoje (26/01/82). Ano XII n.2305.p.6
A festa da Lavagem para eles parecia ser um avesso17 ou travessura, rompiam em certa medida com a ordem estabelecida, mas não fazia dela uma inversão total como acontecia nos carnavais medievais apontados por Burke (2010), nos quais ficavam em suspensão por um tempo a ordem estabelecida e tudo era permitido desde mudança de hierarquia à liberação total do prazer corporal. Como no Carnaval europeu no próprio Carnaval brasileiro, a Lavagem dentre suas manifestações apresentava encenações e performances próprias, nestas
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O jornal os coloca como travesti, porém os diferenciam dos travestidos que ganham a vida usando roupas de mulher, denominando eles de Travesti de carnaval pois tinham outros objetivos. Discussão travada no jornal Feira Hoje (26/01/82). Ano XII, n.2305.p.5-6 17 Tomo emprestado o conceito explicitado pela Marlene Soares Pinheiro (1995) em seu estudo sobre o carnaval“em termos sócio-culturais, a noção de avesso se prende a toda e qualquer linguagem, principalmente a comportamental, que contradiga as “boas normas” da moral vigente. P. 21. Avesso é toda e qualquer linguagem que - de inusitada-, de súbito, perverte o hábito de estar e de ser, instaurando uma nova interrogação, captação pura, ao textualizar ou ler um nascedouro nuança do mundo. P.21
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eram representados temas e mensagens diversos, falando de sexo, formas de fé, religião, maternidade e política. Participavam do grupo dos travestidos, tanto homens comuns, quanto filhos de comerciantes, empresários, industriários, além de homens solteiros, casados ou até os enrustidos que não podiam se expressar no cotidiano, pelos tabus e preconceitos existentes. De forma lúdico-festiva, eles tinham seus corpos modelados por roupas femininas e maquiagem para, de forma irreverente, fazer suas performances para o público. No ano de 1982 o jornal Feira Hoje os descrevia: Grandes bustos postiços, saias de cores variadas, tipos carnavalescos vestindo “maxi-sais”, “mulheres”, maternalmente embalando “bebês” de trapos, fantasias de “velhas’, quase 400 travestis continuaram a velha tradição da Lavagem, com seus trajes pitorescos, destacando-se da multidão em ritmo de samba e arrancando aplausos pela ousadia de muitas de suas criações. O predomínio foi das “mães” e dos travestis caricatos. Eles espalharam-se atrás da procissão de carroças. Estavam animados, sorridentes, posavam para fotografia e nada traziam que o escondesse o rosto. (Jornal Feira Hoje, 20/01/1985, Ano XV, nº3213, p.05)
No momento do desfile, os homens comuns, vestidos de mulher , quebravam sua rotina - como apresentado nas fotos 1, 2 e 3 - se abandonando ao divertimento, à irreverência e de forma ousada rompiam como já foi dito os limites e regras sociais, se deixando fotografar sem nenhum temor. Eles brincavam, a exemplo de “Um casal, “ele” de uns 30 anos, ela de uns 45 anos, perguntavam aos espectadores se queriam ver “um beijo”, mas logo depois explicavam: “é um beijo de mentirinha18”. Os travestis19 se entregavam ao som esfuziante das bandinhas. Basta à bandinha soltar o primeiro acorde que não sobra nada para ninguém. Cada um se segura, pois daí em diante só se vê muita animação, e é justamente nessa hora que aparecem os travestis, alguns assumidos, enquanto outros aproveitam para atravessar as tensões dos dias de trabalho. Loucas, desvairadas, soltando piadinhas e paquerando todo mundo que passa, As “bonecas” não deixam escapar nada, atraindo todas as atenções 18 Noticia publicada no Jornal Feira Hoje, 20/01/1985, Ano XV, nº3213, p.05. 19 Nos jornais do período estudado é insistente e recorrente o uso do termo “Travesti”, ao invés de homens travestidos, apesar de que as expressões se apresentam como sinônimos no sentido usado nos jornais.
11 para si, o que lhes transformam numa das principais atrações da Lavagem. (Jornal Feira Hoje, 25/01/1985, Ano XV, nº3218, p.05)
Eles eram a grande maioria da Lavagem, sempre engrossavam o cortejo com suas centenas de participantes distribuídos nas ruas e eram admirados por seus observadores das calçadas pela ousadia (quase transgressão), apesar de muitas vezes serem criticados, eles já faziam parte da identidade da Lavagem, como descreve o jornal Feira Hoje, no ano de 1987: “os personagens que nos últimos anos tanta polêmica vêm despertando na comunidade feirense, ora estimulando elogios, ora conduzindo as críticas ferrenhas - no sentido de estarem desvirtuando a intenção sacro-folclórica da lavagem, de Santana20”. Dando continuidade ao cortejo estavam os grupos folclóricos, entre este o do Mestre Muritiba com “Segura a véia” e tantos outros que se misturavam ao desfile com samba-deroda e encenações do bumba-meu-boi, do maculelê, roda de capoeira e dos grupos pastoris. O mestre Muritiba solicitava dos órgãos públicos uma maior valorização das manifestações folclóricas na Festa e na conservação da tradição. Após percorrer seu itinerário, o cortejo sempre voltava para o largo da Catedral, apesar da Lavagem ter cumprido seu percurso, a Festa no Largo da Matriz continuava como uma extensão dela. O público transitava entre as barracas e o coreto para assistir as apresentações dos grupos folclóricos com seus sambas de roda e se entregar ao samba ou ser apenas um mero espectador para escutar os sons mecânicos das barracas ou shows, quando aconteciam no palco da Praça Padre Ovídio ou para acompanhar os trios elétricos. No seu panorama móvel a Lavagem levava para seus participantes e espectadores imagens e representações repelidas e negadas pela Igreja Católica em especial nos anos 70 e 80. O resultado foi o choque de representações21 entre o que se expressava na Lavagem e como a Igreja desejava ser representada. Nesse momento o jogo de equilíbrio e manutenção da Lavagem é posto em risco. Os interesses do Clero, dos organizadores e participantes da Lavagem parecem não entra mais em negociação e conciliação, por conseguinte, ela parece apresentar sinais de que poderia acabar. Em alguns momentos essa ordem se tensionou e quase rompeu, mas se recriaram novas relações ou se tirou de linha o objeto tensionador, 20 Noticia publicada no Jornal Feira Hoje, 23/01/1987 ,Ano XVI, nº3611, p.03. 21 Discussão baseada nos estudos de Roger Chartier.
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destarte o ponto de equilíbrio dura até 1987, quando se muda o dia da Festa de Santana de janeiro para julho e se proíbe manifestações de caráter profano como a Lavagem da igreja. Referências: AZZI, Riolando. A neocristandade: um projeto restaurador. São Paulo: Paulus, 1994. BOAVENTURA, Eurico Alves. A paisagem urbana e o homem: memórias de Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2006. BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. Tradução Denise Bottmann. 2ª Ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras,2010. COSTA e SILVA, Cândido. Os Segadores e a messe: o clero oitocentista na Bahia, Salvador: EDUFBA, 2000. ______. Roteiro da Vida e da Morte. São Paulo, Ática, 1982. ______. Religião e sociedade Baiana do século XIX. In BINA, Eliene Dourado et al. Memórias da Bahia, palestras. Salvador, Bahia. V.1. 2009. CHARTIER, Roger. A “nova” história cultural existe? In: LOPES, Antonio Herculano, LOPES, Antonio Herculano, VELLOSO, Monica Pimenta e PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). História e linguagens: textos, imagem, oralidade e representação. Rio de janeiro: 7Letras, 2006, p.29-44. ______. O mundo como representação. Estudos Avançados. São Paulo, v. 11, n. 5, jan-abril 1991.
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