SAMBA DE RODA DO RECÔNCAVO BAIANO: OBRA-PRIMA DO PATRIMÔNIO ORAL E IMATERIAL DA HUMANIDADE Raiana Alves Maciel Leal do Carmo Unesp Resumo: O samba de roda é uma manifestação coreográfica, poética e musical presente em todo o Estado da Bahia, particularmente, na região do Recôncavo Baiano. Em 2004, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi proclamado pelo IPHAN Patrimônio Cultural do Brasil. Posteriormente, em 2005, tornou-se Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, título declarado pela UNESCO. Com vistas a garantir a sua valorização e continuidade, foi implementada no universo do samba de roda, a política federal de salvaguarda. Dessa maneira, a partir de uma abordagem etnomusicológica da manifestação, essa pesquisa teve como objetivo verificar os principais impactos da política de salvaguarda no contexto sociocultural musical do samba de do Recôncavo Baiano, procurando identificar as contribuições e as possíveis desvantagens dessa política para a manifestação segundo a óptica nativa. O trabalho teve como suporte metodológico amplo estudo bibliográfico que abordou produções em Etnomusicologia, Antropologia e áreas afins ao foco do estudo, assim como documentos da UNESCO, do IPHAN e do Ministério da Cultura. Além do estudo bibliográfico, foi realizada uma pesquisa de campo, junto aos grupos de samba de roda, que contemplou a coleta de dados através de observação participante, realização de entrevistas, e registros fotográficos e em vídeo. A partir da etnografia realizada nessa pesquisa, foi possível observar mudanças no samba de roda que foram influenciadas, direta e indiretamente, pela política de salvaguarda. Dentre os impactos observados pode-se ressaltar a afirmação da Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia; a formação e a reativação de grupos de samba de roda no Recôncavo; a crescente necessidade de profissionalização dos grupos e a consequente inserção de novos elementos na música, como instrumentos considerados não "tradicionais". Palavras chave: samba de roda, política de salvaguarda, patrimônio imaterial Ictus 13-1
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Abstract: Samba de roda is a choreographic, poetic, and musical expression present throughout the State of Bahia, especially in the Recôncavo region. In 2004, IPHAN (the Institute of Historical and Artistic National Heritage) recognized the Bahian Recôncavo's samba de roda as Brazilian Cultural Heritage. Later, in 2005, it became a UNESCO Masterpiece of the Oral and Intangible Heritage of Humanity. In order to guarantee the cultural tradition's valorization and continuity, federal safeguarding policies were implemented in the samba de roda universe. Utilizing an ethnomusicological approach, this research had the objective of verifying the principal impacts of the safeguarding policy in the socio-cultural musical context of the Bahian Recôncavo's samba, looking to identify the contributions and possible disadvantages of this policy for the tradition as seen through a "native" lens. This work was supported methodologically by in-depth bibliographic research of ethnomusicological and anthropological works, as well as information related specifically to the study, such as UNESCO, IPHAN, and Brazilian Cultural Ministry documents. In addition to the bibliographic investigation, fieldwork was done with samba de roda groups, resulting in data collection through participant observation, interviews, and visual documentation through photography and film. From the ethnographic research conducted in this research, it was possible to observe samba de roda changes that were influenced, directly and indirectly, by safeguarding policy. Among the impacts observed are the consolidation of the Association of the Sambadores and Sambadeiras of the State of Bahia; the formation and the reactivation of samba de roda groups in the Recôncavo; the growing necessity of professionalization of the groups; and the consequential insertion of new elements in the music, such as instruments considered "non-traditional." Keywords: samba de roda, immaterial heritage, safeguarding policy
As políticas públicas, inseridas no campo da cultura, denotam o esforço em ampliar as discussões acerca da diversidade e da pluralidade cultural brasileira, evidenciando a importância da cultura em seus aspectos econômicos, de inclusão social, de cidadania e enquanto produção simbólica. Esse tema, emergente na área de música, tem merecido atenção 106
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pelo impacto de suas ações sobre as manifestações musicais envolvidas no processo de integração e desenvolvimento cultural através de incentivo público. Entendendo que a expressão musical transcende seus aspectos estruturais, que se esgotam em si, elucido a necessidade de pensar a música como um fenômeno social, contemplando valores que a caracterizam e a determinam dentro do contexto no qual está inserida. A música, por sua relação determinante com a cultura, vem ocupando um espaço significativo nos discursos que orientam os processos decisórios que dizem respeito às políticas culturais. Dessa maneira, o estudo das manifestações musicais, entendidas como bens culturais representativos do patrimônio imaterial brasileiro, torna-se importante também para a avaliação dessas políticas, implementadas através de ações governamentais, verificando as suas contribuições para os indivíduos e grupos sociais que compõem esse patrimônio. Nesse contexto, pode-se dizer que a constituição de novos olhares na Etnomusicologia tem se manifestado nas discussões sobre políticas culturais e música, incorporando os debates acerca dos processos de patrimonialização das manifestações musicais. Incluídas nesses processos estão as propostas e as ações da política federal de salvaguarda do patrimônio imaterial. Tais ações têm sido adotadas principalmente pelo Ictus 13-1
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poder público, com o intuito de contribuir para a difusão, a preservação e o fortalecimento das manifestações culturais do país. Visando compreender as perspectivas e os caminhos da política de salvaguarda, delimitei como foco deste estudo o universo do samba de roda do Recôncavo Baiano. Em 2004, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi proclamado pelo IPHAN Patrimônio Cultural do Brasil. Posteriormente, em 2005, tornou-se Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, título declarado pela UNESCO. Com vistas a garantir a sua valorização e continuidade, foi implementada no universo do samba de roda, a política federal de salvaguarda. A partir da notória relevância que a música ocupa na caracterização dessa manifestação, este trabalho apresenta um breve recorte dos resultados apresentados na dissertação de mestrado intitulada " A política federal de salvaguarda do patrimôno imaterial e os seus impactos no samba de roda do Recôncavo Baiano"1. Essa investigação teve como suporte metodológico ampla pesquisa bibliográfica que abordou fontes específicas sobre o samba de roda, estudos em Etnomusicologia, Antropologia e áreas afins ao foco do estudo, assim como documentos da UNESCO, do IPHAN e do Ministério da 1 Defendida no Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal da Bahia, em 2009. A dissertação completa pode ser encontrada no link: http:// www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=3724
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Cultura. Além do estudo bibliográfico, foi realizada uma pesquisa de campo, junto aos grupos de samba de roda, que contemplou a coleta de dados através de observação participante, realização de entrevistas, e registros fotográficos e em vídeo. Como amostragem do universo da pesquisa foram selecionados quatro grupos, entre, aproximadamente, quarenta grupos observados, foram eles: Samba de Roda Suerdieck, da cidade de Cachoeira; Suspiro do Iguape, de Santiago do Iguape, distrito de Cachoeira; Samba Chula Filhos da Pitangueira, da cidade de São Francisco do Conde e Grupo Cultural Samba de Maragogó, da cidade de Maragogipe.
1. Aspectos históricos e musicais do samba de roda do Recôncavo Baiano O Recôncavo Baiano, região que corresponde a uma "vasta faixa litorânea que circunda a Baia de Todos os Santos, à entrada da qual se ergue a cidade de Salvador", ocupa uma posição importante na "história dos engenhos de cana, da escravidão e da indústria açucareira no Brasil" (IPHAN, 2006, p.25). Durante muito tempo, a exploração da região concedeu benefícios aos colonizadores portugueses e atualmente é marcada pela degradação ambiental e pelas desigualdades sociais. Entretanto, o Recôncavo, que apresenta uma população predominantemente negra,
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abriga uma riqueza singular herdada das tradições culturais da sociedade escravista. Essas tradições, decorrentes do contato entre africanos escravizados e portugueses colonizadores, resultaram em formas de expressão que particularizam os costumes, os valores, as crenças e os hábitos da região até os dias de hoje. Com efeito, algumas práticas culturais constituem-se como verdadeiros patrimônios, evidenciando o rico universo cultural dos brasileiros afro-descendentes. No Recôncavo Baiano, em especial, formas de expressão herdadas pelos escravos negros mantêmse ao tempo: é o caso do samba de roda. O samba tem ocupado um espaço significativo nas discussões sobre música popular brasileira desde o início do século XX, quando se cristalizou como gênero popular urbano na cidade do Rio de Janeiro. Dois momentos importantes desse período são o lançamento da canção "Pelo Telefone", em 1917, considerada como "marco inicial do gênero" e, posteriormente, a sua aceitação nos anos 30 como "música nacional". Essas discussões foram aprofundas em dois estudos importantes: no livro O Mistério do Samba, de Hermano Viana, e em Feitiço Decente: transformações no samba do Rio de Janeiro (1917-1933), versão resumida e modificada da tese de doutorado de Carlos Sandroni (VIANA, 1995; SANDRONI, 2001). Nesse amplo universo do samba, me interessa 110
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discutir a respeito do samba de roda, enquanto herdeiro das formas tradicionais de samba no Recôncavo Baiano, não sendo objeto aqui de estudo o chamado "samba carioca". Vale dizer, porém, que existe o consenso entre grande parte dos estudiosos de que o samba produzido na região do Recôncavo Baiano seria uma das "matrizes" na configuração do samba carioca, que por sua vez passara a ser difundido e reconhecido no Brasil no decorrer do século XX. Dentre outras questões, essa afirmação é sustentada pelo fato de que, no final do século XIX a imigração nordestina para o sudeste elevou a concentração de negros baianos no Rio de Janeiro e as chamadas "Tias baianas" se tornaram personagens importantes no cenário musical e sóciocultural da constituição do samba carioca (SANDRONI, 2001, p. 8499; IPHAN, 2006, p. 70). Na segunda metade do século XX, alguns pesquisadores realizaram estudos significativos a respeito do samba de roda do Recôncavo Baiano. Dentre esses estudos, pode-se destacar o importante trabalho etnográfico realizado pelo etnomusicólogo Ralph Waddey, na década de 1970. A pesquisa de Waddey "centrou-se em Salvador, Saubara, Santo Amaro e Castro Alves" (IPHAN, 2006, p.33), evidenciando, principalmente, um tipo de samba até então pouco abordado pelos pesquisadores, o samba de viola ou samba chula. Outra pesquisa Ictus 13-1
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importante foi realizada pelo etnomusicólogo Tiago de Oliveira Pinto, na década de 1980, especialmente, na região de Santo Amaro da Purificação. Os resultados da pesquisa resultaram em sua tese de doutorado e foram publicados no livro Capoeira Samba Candomblé. Esse material ainda não foi traduzido para o português e encontra-se disponível apenas em Berlim, Alemanha (IPHAN, 2006, p. 33). Na década de 1990, as pesquisadoras Rosa Zamith e Elizabeth Travassos realizaram um breve trabalho de pesquisa com samba de roda nas cidades de Cachoeira, São Félix e Muritiba. O material coletado na pesquisa resultou no artigo (ZAMITH, 1995) e na gravação de um disco, produzido no âmbito da Coordenação de Folclore e Cultura Popular da "Fundação Nacional de Arte" - FUNARTE, na série "Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro2". Nos anos 2000, foram escritos trabalhos significativos sobre o samba de roda. A dissertação de mestrado da etnomusicóloga Katarina Doring, O Samba de Roda do Sembagota, defendida em 2002, no Programa de Pós Graduação em Música da Universidade Federal da Bahia, é um estudo sobre um grupo de samba de roda da cidade de Salvador. Nesse mesmo ano, foi defendida no Programa de Pós-
2 Samba de roda no Recôncavo Baiano. Coleção Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro. CD. Rio de Janeiro: Minc/Funarte/CFCP, 1994.
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Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba a dissertação de Erivaldo Sales Nunes, Cultura popular no Recôncavo baiano: a tradição e a modernização do samba de roda, que aborda principalmente a região de Santo Amaro da Purificação. A dissertação da pesquisadora Francisca Marques, Samba de Roda em Cachoeira, Bahia: uma abordagem etnomusicológica, defendida em 2003, no Programa de Pós Graduação em Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, enfoca o samba na Festa de Nossa Senhora de Boa Morte, em Cachoeira. A dissertação de Cássio Nobre, Viola nos Sambas do Recôncavo Baiano, defendida em 2008, no Programa de Pós Graduação em Música da Universidade Federal da Bahia, consiste em um estudo sobre a presença da viola na formação instrumental dos conjuntos musicais do samba de roda do Recôncavo Baiano. E, recentemente a publicação do artigo O samba de caruru da Bahia: Tradição pouco conhecida, autoria do pesquisador norte-americano Michael Yanaga.
1.1. Aspectos musicais do samba de roda O samba de roda é uma manifestação coreográfica, poética e musical presente em todo o estado da Bahia, mas que predomina,
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particularmente, na região do Recôncavo Baiano. A expressão "samba de roda" é uma denominação genérica concedida aos sambas encontrados nessa região. A performance musical dos sambadores e das sambadeiras - como se autodenominam os praticantes do samba de roda- não tem local nem data especiais para ocorrer, podendo acontecer em diversos ambientes, como em um bar, em uma praça, ou em uma rua. Pode também estar associada às festas populares do calendário religioso católico e de cultos afro-brasileiros, como acontece nas festas de "São Cosme e Damião", comemoradas no mês de setembro. Durante essa comemoração, o samba acontece depois que é servido o Caruru, iguaria da culinária afro-brasileira. As crianças são as primeiras a serem servidas, pois São Cosme e Damião são considerados seus protetores. A popularidade dos chamados carurus no Recôncavo é tamanha que os sambas que se realizam durante o período da festa foram batizados por alguns sambadores como sambas de caruru. O samba de roda também acontece na Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, no mês de Agosto, na cidade de Cachoeira. A Festa é promovida pela Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e o samba 3 É importante ressaltar que a denominação "samba de roda" utilizada neste trabalho foi retirada dos documentos do IPHAN referentes ao registro, e é também apresentada nos discursos de sambadores do Recôncavo Baiano ao se referirem ao samba na região. Assim, considera-se a expressão "samba de roda" como sendo uma maneira generalizada de referir-se ao samba encontrado no Recôncavo.
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é um elemento fundamental, constituindo-se como um símbolo de celebração. Outra importante festa religiosa está relacionada ao culto aos caboclos, entidades espirituais cultuadas no contexto afro-brasileiro. O samba de roda também pode acontecer "depois de festas de candomblés de rito nagô ou angola, em alguns casos, já como tradição institucionalizada e, em outros casos, como algo espontâneo que pode acontecer ou não a depender do ânimo das pessoas" (IPHAN, 2006, p. 19). O samba de roda do Recôncavo Baiano apresenta uma variedade de estilos, distribuídos entre os grupos de sambadores e sambadeiras das diversas regiões do Recôncavo. Os "tipos" de samba variam de acordo com a época e lugar em que é praticado. Na década de 1960, Carneiro cunhou as expressões corta-jaca, samba-batido, corrido e samba para designar o samba na Bahia (CARNEIRO, 1961, p. 24). Na década 1980, Waddey registrou os termos samba chula, samba de parada, samba de partido alto, samba santo-amarense, samba amarrado. E o termo "Samba de viola", considerado pelo pesquisador uma denominação genérica do samba na região onde era praticado (IPHAN, 2006, p. 105). Das inúmeras denominações encontradas nessa pesquisa, posso destacar duas categorias nativas que foram amplamente citadas pelos sambadores: o samba chula e o samba corrido. A essas duas categorias permite-se subsumir sambas diversos que contêm traços em comum. O Ictus 13-1
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"Dossiê de Registro do samba de roda do Recôncavo Baiano" propõe o entendimento do samba de roda em dois grandes grupos. O primeiro grupo refere-se ao samba chula que mantém uma proximidade com o amarrado, de parada ou de viola. O segundo remete ao samba corrido, que também é conhecido por alguns de seus participantes como "samba de roda". As diferenças entre samba corrido e samba chula estão centradas, basicamente, na música e na dança (IPHAN, 2006, p. 34). Aos passos coreográficos do samba de roda dão-se os nomes de corta-a-jaca, separa-o visgo e apanha-o-bago, além do miudinho que, de uma maneira geral, são executados da seguinte maneira: "um dos presentes inicia o samba, dançando, sozinho, no meio da roda, por alguns minutos, depois do que, fazendo mesuras, meneios de corpo e arremedos de atabaque com as pernas, provoca outras pessoa a substituí-lo, com a umbigada[...]". Carneiro acrescenta que o convite para a dança pode ser "ora a união dos ventres, ora um leve toque com a perna, ora um convite mímico à dança" (CARNEIRO, 1961, p. 24). O samba de roda apresenta uma "variedade de instrumentos[...] a depender do contexto, influência e possibilidade" (ZAMITH apud DORING, 2002, p. 88). Os instrumentos dos quatro grupos têm características semelhantes, sendo utilizados fundamentalmente cordofones, membranofones e idiofones. O instrumental encontrado é composto pelos 116
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seguintes cordofones: cavaquinho, violão, bandolim . No samba chula, em especial, o instrumento mais valorizado é a viola, que pode ser encontrada em dois tipos: a chamada viola paulista e o Machete. Os membranofones encontrados foram: pandeiros, atabaques, timba, timbal;e os idiofones: prato e faca, triângulo, maracá, reco reco, taubinhas, chocalhos. Além dos instrumentos mencionados, alguns grupos possuem também sanfona de oito baixos. Como pôde ser percebido, o samba de roda do Recôncavo Baiano apresenta características variadas. Não é possível constatar com precisão a quantidade de sambadores e sambadeiras existentes atualmente no Recôncavo. É cada vez maior o número de pessoas se organizando em grupos de samba. Dentro dessa diversidade, esses grupos têm se apresentado com características bem singulares, que os particulariza dentro do amplo e diverso universo musical e sócio-cultural do samba de roda. As formas de cantar e de tocar, a utilização de vestimentas, de adereços e de instrumentos podem ser percebidos de uma maneira bem peculiar em cada grupo.
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2. Os principais impactos da política federal de salvaguarda no contexto sociocultural musical no samba de roda do Recôncavo Neste tópico abordo o samba de roda do Recôncavo Baiano a partir da sua constituição enquanto patrimônio cultural. Para tanto, apresento as discussões a respeito da candidatura do samba de roda à proclamação das Obras-Primas do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, pela UNESCO; e as ações da política de salvaguarda, constituídas pelo registro e pela salvaguarda do samba de roda. Posteriormente, apresento alguns dos principais impactos da política de salvaguarda no contexto sociocultural musical do samba de roda do Recôncavo, procurando identificar as contribuições e as possíveis desvantagens dessa política para a manifestação segundo a óptica nativa. A partir da etnografia realizada nessa pesquisa, foi possível perceber esses impactos nos quatro grupos selecionados, o que me levou a refletir a validade de tais impactos na dimensão total do samba de roda. Nessa perspectiva, nota-se que as questões colocadas se inter-relacionam e, apesar da tentativa de situá-las em categorias específicas de impactos, essas questões não podem ser separadas umas das outras. Vale ressaltar que os resultados apontados nessa pesquisa, constituem de reflexões acerca dos impactos da política de salvaguarda em um determinado período, mais precisamente entre março de 2007 a setembro de 2008. 118
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Em 30 de setembro de 2004, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi registrado no livro "Formas de Expressão" e proclamado pelo IPHAN Patrimônio Cultural do Brasil. Esse registro foi proposto por três associações culturais da Bahia: "Associação Cultural do Samba de Roda Dalva Damiana de Freitas", "Associação de Pesquisa em Cultura Popular e Música Tradicional do Recôncavo" e "Associação Cultural Filhos de Nagô". Posteriormente, em 2005, tornou-se Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, título declarado pela UNESCO. A escolha de uma manifestação cultural brasileira para candidatar-se à III Declaração de Obras Primas do Patrimônio Imaterial da Humanidade gerou uma série de debates entre Ministério da Cultura, IPHAN, pesquisadores, UNESCO e demais interessados. O Brasil, como estado membro da UNESCO, poderia indicar apenas um candidato e essa escolha não seria uma tarefa fácil, tendo em vista a diversidade das manifestações culturais brasileiras. No início, a proposta do então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, foi a de indicar o samba brasileiro. A escolha inicial do samba, mais precisamente o samba carioca, obedeceu ao critério de representatividade social, exigido pela UNESCO. Contudo, após uma criteriosa análise dos
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parâmetros específicos da Declaração , foi constatado que os candidatos à proclamação deveriam estar em "risco de desaparecimento". Segundo o pesquisador Carlos Sandroni, coordenador da equipe responsável pelo Dossiê de Registro, [...] a declaração da UNESCO tinha exigências incompatíveis com o samba brasileiro, porque exigia alguma coisa com uma certa localização geográfica, que você pudesse limitar geograficamente de uma maneira um pouco limitada, o que em termos de samba brasileiro seria muito difícil, e também alguma coisa que estivesse, nas palavras deles, em "risco de extinção"(SANDRONI, 2007).
Estaria então o samba brasileiro em "risco de extinção"? Alguns pesquisadores e envolvidos na questão entraram em um consenso de que para a UNESCO a ideia principal era salvaguardar as expressões culturais em risco de desaparecimento e, todavia, o samba brasileiro não se enquadrava nas diretrizes do programa proposto. Já não acontecia o mesmo com o samba de roda do Recôncavo Baiano que foi considerado como estando sob ameaça de desaparecimento e, uma vez enquadrandose nos critérios de preservação da UNESCO, resultou sendo indicado5. A noção de "risco de desaparecimento" dentro do samba de roda também foi bastante discutida. Segundo Sandroni (2005, p.49), "de fato, 4 Os parâmetros da III Declaração de Obras Primas do Patrimônio Imaterial da Humanidade poderão ser encontrados no link: http://www.unesco.org/culture/ich/ index.php?lg=es&pg=00103 5 Vale ressaltar que essa decisão de não indicar o samba brasileiro apoiou-se no fato de que em 2003 a Argentina apresentou a candidatura do tango, e por não apresentar risco de extinção, como apontam os parâmetros da declaração da UNESCO, a sua candidatura não foi aceita.
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o principal risco de desaparecimento do samba de roda parece estar ligado à desvalorização social de que são vítimas seus praticantes". Além disso, a escolha dessa manifestação para representar o Brasil na proclamação da UNESCO, justificou-se também pelo fato de que "o samba de roda da Bahia tinha e tem de especial neste rico universo é sua ligação histórica com o conjunto do samba brasileiro" (SANDRONI, 2007). A pesquisa que resultou no Dossiê de Registro foi realizada no ano de 2004. Em um primeiro momento a equipe6 mapeou a ocorrência do samba de roda em 21 municípios e 37 localidades da região do Recôncavo Baiano. Posteriormente, os pesquisadores selecionaram uma quantidade menor de localidades para uma investigação mais aprofundada. O levantamento etnográfico possibilitou o Registro e levou à candidatura do samba de roda como Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade (IPHAN, 2006). A partir desse Registro, foi elaborado um Plano de Salvaguarda com duração de cinco anos, que pode ser definido como um conjunto de "[...] ações que contribuem para a melhoria das condições sócioambientais de produção, reprodução e transmissão de bens culturais imateriais" (IPHAN, 2012, p. 25). A implementação do plano foi realizada 6 A equipe de pesquisa constituiu-se das etnomusicólogas Katharina Döring e Francisca Marques; do antropólogo Ari Lima; da pesquisadora de dança Suzana Martins e do documentarista Josias Pires.
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entre os anos de 2004 e 2009, acompanhada pelo IPHAN e pela Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia. Portanto, a política de salvaguarda, implementada no samba de roda, consistiu em dois aspectos fundamentais. O primeiro, o registro do samba, realizado em 2004; e o segundo, as ações de salvaguarda fundamentadas, principalmente, no Plano de Salvaguarda. Assim, para verificar se os objetivos dessa política foram e ainda estão sendo alcançados tornou-se essencial o acompanhamento do plano. Dentro desse contexto, é de fundamental importância analisar o papel da Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia (ASSEBA), tendo em vista que grande parte das ações do Plano de Salvaguarda está centralizada em suas atividades.
2.1. A Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia A criação da Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia7, em 17 de Abril de 2005, foi uma das medidas "emergenciais" propostas pelo Plano de Salvaguarda, com o objetivo de "contribuir para o processo de auto-organização dos sambadores do Recôncavo" (IPHAN, 2006, p.85). A ASSEBA vem participando dos processos de estruturação, organização e gestão da Casa do Samba, que 7 Para informações atualizadas sobre as atividades da ASSEBA, consultar o site: http://www.asseba.com.br/welcome
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foi instalada no município de Santo Amaro, dentro da proposta de criação de um Centro de Referência do samba de roda, como assegura o Plano de Salvaguarda (IPHAN, 2006, p.86). Inaugurada em 2007, a Casa do Samba gerou uma série de situações conflitantes. Primeiro, os conflitos gerados entre os sambadores a partir da escolha do local onde seria instalado o Centro de Referência do samba de roda. Depois, a inauguração da Casa, que ocorreu antes mesmo de sua abertura oficial aos próprios sambadores e ao público. Após a sua instalação no município de Santo Amaro, se esbarrou em "dificuldades na questão administrativa", como mencionou Rosildo, coordenador geral da ASSEBA (ROSÁRIO, 2008). Essas dificuldades referiam-se principalmente à burocracia por parte do poder público, ou seja, a "lentidão" nas tomadas de decisão. Motivo esse de grande insatisfação por parte dos sambadores. As situações conflitantes colocadas acima demonstram a necessidade de que, em uma política como essa, deve-se garantir com efetividade o empoderamento das pessoas envolvidas. Que as decisões não sejam tomadas "verticalmente", ou seja, impostas pelos órgãos governamentais. Outra questão que se coloca é o cuidado que se deve ter com as situações de conflitos geradas entre os grupos de samba. Por exemplo, depois da decisão de que o Centro de Referência do samba de roda seria chamado de Casa Ictus 13-1
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do Samba de Santo Amaro, alguns sambadores questionaram se, de fato, esse nome seria o mais viável, tendo em vista que a Casa pertence ao Recôncavo. Essa questão colocada pelos sambadores foi fundamentada em decorrência de uma das propostas do plano que define que o Centro de Referência do samba de roda "deverá ligar-se a uma rede de centros menores a ser criada, aos poucos, em todos os municípios da região (IPHAN, 2006, p. 86). Periodicamente, os sambadores se organizavam em assembléias, momentos em que a participação dos integrantes dos grupos era importante para se definir assuntos de interesses comuns. Além disso, eram realizadas reuniões específicas com os coordenadores dos grupos, para se discutir a pauta da assembléia e outras demandas que, ocasionalmente, poderiam surgir. Dentre os assuntos discutidos nessas reuniões estavam, principalmente, os relacionados ao andamento dos projetos geridos ou intermediados pela ASSEBA. Geralmente, depois das assembléias e reuniões, era servido um almoço e após esse almoço alguns sambadores se apresentam com seus grupos. A ASSEBA se tornou responsável por gerir o projeto do "Pontão de Cultura". Esse projeto faz parte de uma modalidade de pontos e "pontões" de cultura, do programa "Cultura Viva", executado pelo Ministério da Cultura. A implementação dos chamados "pontões" de cultura 124
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está vinculada à montagem dos centros de referências dos bens culturais proclamados como patrimônio . Assim, por viabilizar recursos financeiros, o pontão serviu como um auxílio para o andamento do plano. As ações do Pontão de Cultura foram previstas para os anos de 2008, 2009 e 2010, sendo os recursos disponibilizados pelo Ministério da Cultura. Dentre as ações desse projeto, foi realizada a distribuição de instrumentos musicais e de equipamentos eletrônicos entre os grupos de samba de roda e a execução de uma pesquisa sócio-cultural com os sambadores do Recôncavo, com o objetivo de levantar dados acerca dos indivíduos que fazem samba de roda em sua comunidade. Os pesquisadores, que foram responsáveis em fazer esse levantamento, são jovens que têm algum envolvimento com o samba de roda. Como contrapartida ao MINC, a ASSEBA disponibilizou os seus serviços e os grupos tiveram que participar ativamente do processo. Por exemplo, através de apresentações musicais, do auxílio dos coordenadores dos grupos à pesquisa sócio-cultural, assim como a capacitação para elaboração de projetos culturais auxiliada pelos membros da coordenação da associação. As discussões a respeito do Pontão foram levadas frequentemente às reuniões dos sambadores. E quando se trata de distribuição de recursos Ictus 13-1
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para grupos com realidades tão diferentes, as situações de conflito têm que ser negociadas. Nessas estratégias de negociação, a associação se tornava uma mediadora, agindo com a burocracia do estado e ao, mesmo tempo, com a demanda apresentada pelos sambadores. A "lentidão" no processo, ou seja, a demora em colocar em prática as ações previstas no projeto, também levou alguns sambadores a ficarem insatisfeitos com o trabalho da ASSEBA. Entretanto, pude perceber que o trabalho da associação tem sido transparente e um dos grandes problemas enfrentados advém da burocracia do Estado (ROSÁRIO, 2008; AFONSO FILHO, 2008). A insatisfação com o trabalho da ASSEBA não era generalizada e pude notar uma diferença entre as opiniões dos grupos antigos dos grupos mais novos. A diversidade de grupos e as diferentes necessidades apontadas pelos sambadores ainda hoje é um desafio para a associação. Por exemplo, como deve ser o trabalho da ASSEBA para grupos que têm uma autonomia maior, como o Samba de Roda Suerdieck, por exemplo? O grupo Suerdieck vem se estruturando através da captação de recursos pela sua própria associação, a Associação Cultural D. Dalva Damiana de Freitas. E, com a colaboração da pesquisadora Francisca Marques, tem feito um trabalho de formação de lideranças, ou seja, a escolha de membros do grupo para elaborar e gerir os seus projetos. 126
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A associação incentivou a criação e a reativação de grupos de samba no Recôncavo. Muitos desses grupos acreditavam que através dos incentivos viabilizados através da ASSEBA, eles poderiam se equipar com mais instrumentos, equipamentos de som, além de receberem mais convites para apresentações. Acredito que para muitos desses grupos recentemente formados, o reconhecimento é legitimado através da sua participação na associação. É através dessa participação que eles poderão efetivar a interlocução com os órgãos governamentais, como acredita Paulo César, coordenador do Grupo Cultural Samba de Maragogó, que garante que o principal benefício da associação tem sido a visibilidade conquistada pelos grupos de samba de roda através das ações na Casa do Samba: Desde que a associação foi implantada houve logo uma visibilidade ampla do Recôncavo. Tem uma Casa de Referência em Santo Amaro, a casa do samba de roda, isso nos proporcionou e foi uma vitória nossa dos sambadores de modo geral pra que nessa casa a gente desse ideias às pessoas que vêm nos prestigiar, pessoas do próprio Ministério, pessoas do IPHAN [...] pra ouvir também os problemas locais, problemas sócio-culturais, socioeconômico pra se ter uma visibilidade e saber da importância e das dificuldades que os grupos também passam[...] Então a gente tem esse lugar para agora nesse momento a gente ter como chegar ao órgão federal, estadual e dizer: olhe, nós temos a casa. Nós estamos tendo atenção[..] (PAULO CÉSAR SANTOS, 2008).
Além disso, outro benefício da associação, percebido pelos integrantes do Suspiro do Iguape, são as reuniões que têm possibilitado o contato entre os grupos. Esse tipo de situação não era percebida com frequência antes da fundação da ASSEBA. Ictus 13-1
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De fato, a criação da associação vem contribuindo para a troca de experiências entre os grupos. Rosildo (2008) afirma que "um dos grandes impactos da salvaguarda e bastante forte é essa interação, o convívio social das pessoas, dos indivíduos do movimento de samba de roda" . Francisca Marques (2008), integrante da equipe da pesquisa que resultou no Dossiê, completa que essas pessoas são sambadores e sambadeiras das diversas localidades do Recôncavo que, em sua grande maioria, não se conheciam. A pesquisadora diz que "na primeira reunião em São Francisco do Conde, os grupos de Cachoeira foram todos e [...] quando o grupo de São Francisco do Conde apresentou, eles [os grupos de Cachoeira] não sabiam nem como entrar na roda"(MARQUES, 2008). A linha de ação "pesquisa e documentação" referida no Plano de Salvaguarda atenta para a necessidade "de continuação da pesquisa sobre o samba de roda" (IPHAN, 2006, p.86). Pude perceber que a ASSEBA tem exercido o importante papel de incentivar as pesquisas, orientando os pesquisadores a devolverem o material coletado. Acredito que a contribuição de pesquisadores para o registro do samba de roda favoreceu a abertura da associação para outros pesquisadores. Durante as reuniões e as assembléias, Rosildo ressaltava a minha presença, explicando aos sambadores a necessidade de mais pesquisas e a importância dos pesquisadores nesse contexto. 128
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De fato, o interesse de pesquisadores e estudantes pelo samba de roda do Recôncavo Baiano tem aumentando após a proclamação do título. Na maioria dos encontros na Casa do Samba ou nas demais apresentações dos grupos, é possível notar a presença de pesquisadores de diversas áreas. A necessidade de constituição desse acervo na Casa do Samba tem levado a associação a realizar um trabalho de conscientização dos grupos a respeito do material coletado pelos pesquisadores. Dessa maneira, tornou-se comum os integrantes dos grupos pedirem o material de áudio e vídeo e as fotografias realizadas durantes suas apresentações. Depois do reconhecimento, esses grupos, assim como a maioria dos grupos do Recôncavo vêm lutando por uma maior visibilidade para além das comunidades as quais fazem parte. Por esse motivo, muitos sambadores compartilham da opinião de que o título concedido pela UNESCO tem os dado a possibilidade de participarem de pesquisas, sendo este um benefício para o seu grupo. Seu Antônio, do grupo Maragogó, em entrevista concedida a mim garantiu que "tô aqui conversando com você, essa oportunidade quem me deu foi eles" (FERREIRA, 2008). Para Sr. Antônio, "eles", são as pessoas que possibilitaram o título ao samba de roda. Alguns grupos mais antigos do Recôncavo, pelo menos os considerados mais "tradicionais", em especial o Samba de Roda Suerdieck, Ictus 13-1
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afirmaram que pesquisadores não retornavam o material recolhido em suas pesquisas e, além disso, algumas pessoas, como por exemplo, jornalistas, se aproveitavam das informações tiradas dos sambadores para fins comercias, sem o devido retorno ao grupo. Por esse motivo, os pesquisadores e jornalistas interessados em recolher informações acerca do grupo têm que preencher um "cadastro de pesquisa" com dados pessoais, como endereço, telefone, e-mail e assinar um termo de compromisso se comprometendo a "retornar ao entrevistado uma cópia do material bruto de todo o trabalho desenvolvido juntamente com o mesmo, que por sua vez não possui finalidade comercial". Essa foi uma saída adotada pelos integrantes do grupo para que tivessem sob seu domínio o conhecimento que, de fato, os pertence. Outra questão interessante a se refletir a respeito da ASSEBA é a sua importância na formulação e implementação de políticas públicas de cultura. Embora a sua própria existência esteja vinculada a uma política pública do Estado, a política de salvaguarda, a associação tem cumprido o papel de fomentar políticas culturais para o samba de roda, assim como o de intermediar o discurso com órgãos públicos, como o Ministério da Cultura e o IPHAN com as prefeituras locais. Tal mediação é necessária para se firmar o compromisso das próprias prefeituras com os sambadores.
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A maioria dos sambadores se mostrou insatisfeita com o fato de que as prefeituras dos seus municípios não apoiam seus projetos. Pôdese perceber que nesses municípios as ações para a área da cultura, geralmente, se limitam a eventos e festas da cidade. E o valor, quando pago a esses grupos, é irrisório, tendo em vista a grande quantidade de integrantes e de despesas que o grupo tem para se apresentar, tais como transporte e alimentação. Assim, devido à notável ausência de políticas culturais, de ações com caráter perene, de continuidade, na grande maioria desses municípios, a ASSEBA tem um papel importante no desenvolvimento dessas políticas no âmbito do samba de roda, em especial. Como exemplo, o incentivo à organização dos sambadores em seus municípios; o apoio na captação de recursos através de fontes de financiamento diversas; além da realização de projetos na Casa do Samba, como o Pontão de Cultura. Apesar das dificuldades enfrentadas pela associação, tais como as questões burocráticas e a falta de verba, pude perceber que, de fato, existe um compromisso por parte da coordenação com os sambadores. Esse compromisso é ressaltado ainda pela validade do Registro feito pelo IPHAN e pelo título concedido pela UNESCO. Ou seja, pelas normas dessas instituições existe a possibilidade do samba de roda do Recôncavo perder o título, caso haja "descaracterização" da Ictus 13-1
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manifestação. A respeito dessa descaracterização é uma situação difícil de prever. Além disso, muitas discussões ainda podem ser estabelecidas a respeito do conceito de "descaracterização". "[...] De algum modo o Estado, ao titular um bem, traz para sim uma responsabilidade que é muito relativa na medida em que a preservação do sentido depende principalmente dos grupos e das comunidades "(FERREIRA, 2008, p. 6). Assim, o ideal é que os próprios sambadores estabeleçam os limites da mudança. Acredito que a compreensão dos sambadores a respeito do valor que lhes foi atribuído com a proclamação do título já é uma medida de salvaguarda. Evidencia-se a falta de informação de alguns sambadores a respeito do significado de terem as suas práticas culturais consideradas bens representativos da "humanidade", como propõe o título da UNESCO. É verdade que alguns integrantes de novos grupos não sabiam que o samba havia recebido esse título. Se a noção de "referência cultural", adotada na política de patrimônio imaterial, é definida pelo " ponto de vista das populações para quem esses bens - em primeiro lugar - fazem sentido" (ARANTES, 2008, p. 5), até que ponto e para quem essas representações coletivas constituem de fato referências? O desconhecimento e a falta de informação, além de serem uma realidade no universo dos sambadores, ganham proporções maiores em 132
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suas comunidades. Portanto, muito ainda deve ser feito pela relação que os grupos têm com a sua comunidade. Se um dos propósitos da salvaguarda dos bens imateriais é articular a preservação às dinâmicas culturais e os modos de vida, será necessário um trabalho mais direcionado para a educação patrimonial. Outra questão que se coloca são as diferenças estabelecidas entre tombamento e o registro, dois instrumentos jurídicos direcionados para a preservação do patrimônio cultural. Preservar os bens de natureza imaterial não significa cristalizar formas de expressão, saberes e visões de mundo que são, em essência, dinâmicos, por isso o tombamento não se aplica. Como aponta Ferreira "a idéia de valor disseminada por quem até hoje detém e conduz o que se entende por cultura e patrimônio contagia a própria idéia que esses grupos têm do que seja cultura e patrimônio (FERREIRA, 2008, p. 4). Nessa perspectiva, novamente remeto à necessidade da educação patrimonial, direcionada não apenas aos grupos e às comunidades envolvidas, mas à sociedade de uma maneira geral. E se isso não for uma questão fundamental a ser discutida dentro da política de salvaguarda, algumas falhas irão se perpetuar . Como por exemplo, a disseminação pela mídia de um erro que deve ser reparado: Tornou-se comum escutar o discurso de pessoas famosas, atribuindo a palavra "tombamento" aos bens culturais de natureza imaterial. No dia três de janeiro de 2008, em Ictus 13-1
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programa exibido na Rede Globo, gravado na Casa do Samba em Santo Amaro, a cantora Beth Carvalho foi enfática ao referir-se ao tombamento do samba de roda. O instrumento jurídico de preservação dos bens imateriais é denominado Registro8 e não "Tombamento". Além disso, o termo folclore, tal como discutido por Reily (1990), no sentido de se remeter a uma manifestação cultural "engessada", "estática" e, muitas vezes, "primitiva", é frequentemente abordado nos discursos dos órgãos governamentais e dos meios de comunicação de massa. Até que ponto esses discursos influenciam as práticas culturais desses grupos? A questão que se coloca é como deve ser a relação desses agentes externos com os membros dessas manifestações, mediante os sintomas da "espetacularização" e a promoção do "exótico", por exemplo. O ideal é que se possa compreender a manifestação popular como representação simbólica de aspectos do seu contexto cultural, inserida nos processos de transformação. Pude perceber que no Recôncavo os grupos de samba de roda não se autodenominam como "manifestação folclórica". Esses grupos
8 Através do Decreto 3551 de 4 de Agosto de 2000, instituiu-se o registro de bens culturais de natureza imaterial que constituem o patrimônio cultural brasileiro, e a criação do "Programa Nacional do Patrimônio Imaterial", com o objetivo de "implementar política de inventário, registro e salvaguarda desses bens".
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incorporaram em seu discurso o termo "cultura". Isso pode ser notado nos discursos da associação e também em entrevistas com os sambadores, como demonstra a afirmação da sambadeira D. Dalva (2008)"[...] já estamos caminhando pra o direito reconhecido pela UNESCO, pelo conhecimento dos órgãos que estão reconhecendo o que é cultura, que é uma coisa viva, é uma coisa que não pode deixar morrer. O samba não pode morrer de espécie nenhuma[...]". Acredito que a inclusão desse termo nos discursos do sambadores está atrelada à valorização do samba de roda.
2.2. A formação e a reativação de grupos de samba de roda "Já estava surgindo a revolução do samba e a gente não tava sabendo de nada" ( PACHECO, 2008 ).
Essa é uma afirmação da sambadeira Maria São Pedro, da cidade de Maragogipe, a respeito do momento em que acontecia a formação do seu grupo e a realização do Registro do samba de roda. Um dos principais impactos da política de salvaguarda é a reativação e a formação de grupos de samba de roda no Recôncavo Baiano. No início do trabalho da ASSEBA, em 2005, foram registrados dezessete grupos. No final de 2008, sessenta e dois grupos estavam trabalhando com a associação. Com exceção de poucos grupos mais antigos, como o Samba de Roda Suerdieck, 50 anos, e o Samba Chula Filhos da Pitangueira, 40 Ictus 13-1
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anos, a formação de grupos de samba de roda é fato recente. Segundo a maioria dos sambadores entrevistados, "antigamente" eles se encontravam para os sambas de caruru, nas Festas dos Santos Cosme e Damião. Rosildo (2008) afirma que: Se você for a qualquer cidade até a década de 80, por exemplo, muito raramente você ia encontrar um grupo de show de samba de roda. Você tinha pessoas que fazia samba[...]era festa de caruru, de santos, rezas e depois as pessoas se reuniam pra fazer o samba de roda[...].Ai, com advento dessa coisa de música de rádio, as pessoas também vão se juntando e já nasce como grupo, que não é ruim [...]é uma nova característica da modernidade. Muito raramente você via pessoas pra ensaiar samba de roda, samba de roda se fazia depois de uma festa, de uma reza, se juntava pandeiro e tambor[...].
Muitos grupos foram formados após o reconhecimento pela UNESCO, como o Suspiro do Iguape e o Grupo Cultural Samba de Maragogó. Segundo D. Maria de Jesus (2008), do grupo Maragogó, antes "era assim, tinha um Caruru aqui, ia, batia, sambava, mas ninguém nunca se dedicou a completar um grupo mesmo como estamos nesse grupo agora". Apesar da formação de muitos grupos de samba de roda no Recôncavo ter sido incentivada pelo reconhecimento, em um momento anterior à proclamação do título, por volta da década de 1980, como menciona Rosildo, o fato da formação de grupos de samba de roda já era evidente, sendo essa uma das soluções encontradas por alguns sambadores para disputar o espaço com outros grupos no mercado cultural.
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Pela quantidade de grupos que vêm sendo formados e outros grupos reativados, foi possível perceber que os sambadores acreditam que o reconhecimento é oportunidade de serem mais valorizados. E, de fato esse reconhecimento, imbuído ou não de ações efetivas por parte dos órgãos governamentais, proporcionou uma maior visibilidade do samba de roda para além das comunidades as quais fazem parte. E essa visibilidade tem elevado a auto-estima dos seus praticantes. Além disso, um dos motivos para essa recente organização é também a necessidade de receberem os incentivos que são conduzidos, principalmente, através da associação. Embora o trabalho proposto pela ASSEBA não esteja pautado apenas em conseguir a verba, mas também em conceder aos grupos a possibilidade de captar os recursos sem o intermédio da associação. Através, por exemplo, da capacitação em elaboração de projetos culturais, como realizado no mês de setembro de 2008, com apoio da "Fundação Cultural do Estado da Bahia"- FUNCEB. Apesar de não ser a realidade da maioria dos grupos, alguns sambadores estão trabalhando na elaboração de projetos e na captação de recursos através de leis de incentivo a cultura, fundos de cultura e patrocínio direto de empresas.
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Considerando o aumento significativo do número de grupos, será necessário investir em uma estrutura capaz de responder a essas novas demandas. Possivelmente, o fortalecimento dessa estrutura acontecerá a partir de uma maior articulação entre as esferas do poder público. Ou seja, o estreitamento das relações entre os poderes municipal, estadual e federal para que, de fato, as ações de salvaguarda do samba de roda possam conceder benefícios aos sambadores. Embora essa não seja uma questão simples de ser resolvida, tendo em vista as dificuldades encontradas. Por exemplo, a necessidade de uma participação mais efetiva das prefeituras municipais do Recôncavo nesse processo. Algumas dessas prefeituras assinaram um termo de adesão ao Plano de Salvaguarda, e ainda muito pouco vem sendo cumprido. Embora a idéia de grupos de samba de roda tenha se fortalecido nos últimos anos, ainda existem sambadores que não pertencem a grupo nenhum. No entanto, percebe-se que as ações de salvaguarda têm privilegiado o trabalho com grupos. O direcionamento dessas ações demonstra como o trabalho da ASSEBA tem favorecido aos grupos, como por exemplo, a "ficha de cadastro" a ser preenchida pelos grupos, os instrumentos e equipamentos disponibilizados pelo projeto do pontão aos grupos, as reuniões direcionadas aos coordenadores de grupo. 138
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Nessa investigação não tive contato com os sambadores que não pertencem a grupos e, portanto, deixarei essa reflexão entreaberta.
2.3. Impactos na música Segundo Merriam "todo sistema musical está baseado em uma série de conceitos que integram a música às atividades da sociedade como um todo, definindo-a e colocando-a como um fenômeno da vida entre outros fenômenos9" (MERRIAM, 1964, p. 63, tradução minha). A afirmação de Merriam aponta para o seguinte questionamento: de que forma a perfomance musical dos sambadores do Recôncavo Baiano têm sido influenciada pela política de salvaguarda? Tendo em vista o entendimento de Behague (1984), de que a perfomance musical não deve ser entendia só como evento, mas também como processo, e a afirmação de Turner (1988) de que o gênero performático "reflete" a configuração cultural e o sistema social. Com efeito, a maneira de compreender a música que é produzida dentro dos grupos era, geralmente, diferenciada entre os sambadores dos grupos mais antigos e os sambadores dos grupos com formação recente. Nota-se que no Samba de Roda Suerdieck e no Samba Chula Filhos da
9 "Every music system is predicated upon a series of concepts which integrate music into the activities of the society at large and define and place it as a phenomenon of life among other phenomena".
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Pitangueira, os sambadores faziam questão de serem conhecidos pelo estilo de samba que executam, sendo este um discurso de legitimação do grupo. O Suspiro do Iguape o Grupo Cultural Samba de Maragogó não demonstravam tanta preocupação em atribuir a sua música estilos musicais específicos, na medida em que os integrantes desses grupos asseguravam que o seu samba era "diferente", "misturado". A grande quantidade de grupos formados e reativados após a proclamação do título dá margem a uma série de reflexões. Uma delas fundamenta-se nos apontamentos dos sambadores no que concerne à escolha dos grupos a serem beneficiados pelos incentivos. Quer dizer, ao fomentar e estabelecer medidas de salvaguarda, o Estado necessariamente acena com investimentos públicos, despertando outros interesses. Vários grupos que são detentores de determinado saber, e que eventualmente não viam nele muito sentido, passam a se reorganizar. Porém, o ato de titulação também motiva o "surgimento", em torno de vários bens já titulados, de inúmeros detentores, na medida em que a patrimonialização também significa reconhecimento social. Essa expectativa determina e reforça a importância de a política pública estar associada, no processo, com os próprios grupos detentores, que estabelecerão os limites das mudanças e alterações, designando se tais alterações são válidas mediante a análise de seu caráter (FERREIRA, 2008, p. 5). Quais serão os limites da 140
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mudança? A partir de quais critérios poderá se definir o que não pode ser considerado como grupo samba de roda? Um caso "clássico" bastante debatido pelos sambadores é a entrada do instrumento baixo elétrico em alguns grupos. Segundo Nettl, "uma cultura musical pode definir como 'novo' e conseqüentemente estranho algum material não relacionado ao pensamento ou conteúdo musical já existente (NETTL, 1983, p. 48, tradução minha)". Para Nettl, o novo elemento inserido não possui valor igual aos outros, a menos que a cultura lhe atribua um significado. Dessa maneira, a partir de informações recolhidas nos grupos investigados, assim como em outros grupos, pude perceber que a maioria dos sambadores concorda que o baixo elétrico, por exemplo, não é instrumento de samba de roda. Através da política de salvaguarda novas configurações surgem no universo musical dos sambadores, como a entrada de "novos" instrumentos. Pode haver então sentidos contrários à intenção de preservar? Outra questão que se coloca é o período estabelecido pelo IPHAN e pela UNESCO para revisão do registro10. A entrada do baixo pode significar um entrave para "revalidação" do título? Se existe um entendimento de que Registro foi constituído para acompanhar os 10 Vale ressaltar que o Decreto 3.551/2000 determina que a documentação etnográfica do bem cultural registrado seja atualizada, no máximo, a cada 10 anos e que seu registro como patrimônio cultural seja re-avaliado e confirmado.
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processos de mudança e para se garantir o protagonismo dos sambadores o ideal é que esses critérios e limites sejam estabelecidos por eles mesmos. A inserção de equipamentos de som, tais como amplificadores e microfones, assim como a utilização de instrumentos musicais "industrializados" tem aumentado entre os grupos. Como afirma João Gomes dos Santos (2008), do grupo Suspiro do Iguape: O samba hoje do Suspiro evoluiu pra aquele samba de antigamente, né. Qualidade de instrumento, que o pandeiro hoje não é mais aquele pandeiro, a viola de antigamente era a viola que aqui realmente a energia [eletricidade] eu me lembro foi de 1972 pra cá, então era feita a coisa manual mesmo, era madeira mesmo, o cavaquinho não era elétrico e a viola não existia a viola elétrica, hoje existe, então a diferença grande é isso aí, porque até os pandeiro hoje a gente bota ele na qualidade e no ritmo que nós gosta, tem como o aro pra gente apertar e tudo mais. O pandeiro antigamente tinha que esquentar no fogo, aquele negócio, aquele couro de jibóia, couro de gato [...] mas hoje tá realmente diferente, o samba hoje tem muito mais brilho.
Apesar de constatar a inserção de equipamentos de som e de alguns instrumentos, nem sempre esses novos elementos estavam disponíveis aos sambadores, que reclamam frequentemente a ausência ou as péssimas condições de uso desses instrumentos e desses equipamentos. No que se refere aos instrumentos, o desaparecimento dos artesãos que faziam o machete foi uma questão colocada pelos sambadores e citada no Dossiê de Registro (IPHAN, 2006, p.75). Dentro desse contexto, "revitalizar no Recôncavo a feitura artesanal das violas de samba, em especial, de machetes" e "salvaguardar o repertório e a técnica do 142
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machete[...]" (IPHAN, 2006, p. 85) se tornaram medidas emergenciais do Plano de Salvaguarda. No ano de 2005, foram realizadas oficinas para a aprendizagem desse instrumento musical, que antes contava com apenas um executante, o mestre Zé de Lelinha, falecido em 2008. Também foi reestabelecida a construção dessa viola que há quase duas décadas não era fabricada. O incentivo financeiro para a realização das oficinas limitou-se a essa primeira etapa. Depois disso, o grupo Samba Chula Filhos da Pitangueira retomou essas atividades através da contribuição do Etnomusicológo Jean Joubert Mendes, sendo mantidas através de recursos próprios. Apesar de terem sido bastante enfatizadas no Plano de Salvaguarda, as ações direcionadas ao Machete foram momentaneamente "esquecidas" por parte dos órgãos responsáveis pelo andamento do plano. Além disso, nada foi feito ainda para apoiar o único luthier conhecido de viola Machete no Recôncavo. Contudo, as primeiras oficinas incentivaram os sambadores do Samba Chula Filhos da Pitangueira a aprender as técnicas e o repertório do Machete e dar continuidade à valorização dessa viola. Após o falecimento do mestre Zé de Lelinha, o músico e colaborador do grupo Milton Primo, que participou das oficinas, assumiu o instrumento no Samba Chula Filhos da Pitangueira.
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Grande parte dos grupos observados não possui a figura dos "mestres", comumente encontrados na cultura popular. As funções de repassar os conhecimentos de geração em geração são agora compartilhadas com os coordenadores ou "presidentes" que atuam como verdadeiros agentes culturais, responsáveis pela captação de recursos, e demais aspectos que compõem a organização dos grupos. Esse fato demonstra que a política de salvaguarda requer articuladores locais, provocando, dessa maneira, uma rearticulação dos padrões de liderança.
2.4. Profissionalização dos grupos Uma das questões preponderantes a ser observada é a profissionalização dos grupos. Na década de 1990, Rosa Zamith (1995), em sua pesquisa com grupos de samba de roda da cidade de Cachoeira, apontava para a aproximação desses grupos ao mercado da música, em que o trabalho musical era oferecido como serviço remunerado. Atualmente, a necessidade de profissionalização é evidente entre a maioria dos grupos, ou seja, apresentar-se através do pagamento de cachê, possuir materiais de divulgação, como DVDs e CDs, além da vontade de mostrar o seu trabalho em outras localidades. Pude perceber que a idéia de profissionalização foi incentivada pelo sentido de "promoção dos grupos", atribuído pelo Plano de Salvaguarda. "Essa linha relaciona-se à valorização do samba de roda 144
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junto a um público mais amplo, tanto em nível local, nacional e internacional" e a "difusão do conhecimento produzido pelos sambadores através de livros, CDs, vídeos e outras mídias disponíveis" (IPHAN, 2006, p. 88). Dentro dessa linha, realizou-se a gravação do CD Samba de Roda - Patrimônio da Humanidade, com uma seleção do repertório dos grupos que participaram da pesquisa para o Registro, e também a edição do Dossiê de Registro. Dos quatro grupos selecionados nessa investigação apenas o Samba de Roda Suerdieck possui CD gravado em estúdio, intitulado Samba de Dalva. O Samba Chula Filhos da Pitangueira possui um CD de músicas gravadas "em campo", pelo pesquisador Jean Joubert Mendes e, além disso, recentemente foi lançado o DVD A tradição da viola Machete pelo colaborador e violeiro do grupo, Milton Primo. O Grupo Cultural Samba de Maragogó lançou um DVD em homenagem ao sanfoneiro do grupo, o senhor Eduardo Salles. O Registro do samba de roda e sua proclamação como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade proporcionou o aumento dos convites aos grupos para apresentações fora das comunidades locais. O grupo Samba Chula Filhos da Pitangueira participou do projeto Sonora Brasil, patrocinado pelo SESC, realizando apresentações em 17 capitais do país. A profissionalização dos grupos também é percebida através da preocupação dos sambadores com as vestimentas. Vários grupos se Ictus 13-1
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apresentavam com blusas de uniforme, com nome do grupo na parte da frente e, muitas vezes, o telefone de contato na parte de trás. A preocupação em adquirir equipamentos de som, assim como em testar o som antes das apresentações também evidenciam o interesse em se profissionalizar. No grupo Suspiro do Iguape, por exemplo, os sambadores, quando não estavam dançando na roda, ficavam responsáveis em auxiliar os tocadores do grupo na "organização" da apresentação, ou seja, percebendo os possíveis problemas com o som, oferecendo água, etc. A ideia de profissionalização levou alguns grupos a produzirem materiais de divulgação, como "cartões", contendo os contatos do grupo, como puderam ser encontrados no Samba de Roda Suerdieck e do Grupo Cultural Samba de Maragogó. Além disso, uma demanda atual da maioria dos grupos é o registro, ou seja, o grupo possuir o seu CNPJ. Pela vontade de se tornarem mais "profissionais", os grupos consideravam a possibilidade de captação de recursos, via editais, como uma forma de se manterem, de adquirirem novos instrumentos, novas vestimentas e o equipamento de som para os ensaios e apresentações. E, alguns casos, como pôde ser observado no Grupo Cultural Samba de Maragogó e o Samba de Roda Suerdieck, a elaboração de projetos foi facilitada, por exemplo, por pessoas que estavam se capacitando para tal atividade. Na perspectiva da política de salvaguarda, "ter ao acesso e uso 146
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de fontes de financiamento e ao conhecimento do funcionamento do estado são medidas essenciais para a promoção da autonomia dos atores sociais que produzem esse patrimônio e que devem ser vistos como os principais protagonistas da salvaguarda" (SANT' ANNA, 2008). Contudo, no Recôncavo essa não era a realidade da grande maioria dos grupos, que quando tinham a oportunidade procuravam o apoio da ASSEBA ou de profissionais especializados para a elaboração desses projetos e para busca desses recursos nas fontes de financiamento. A profissionalização sinaliza ainda para a passagem dos sambas de caruru para os chamados sambas de palco, expressão comumente utilizada pelos sambadores do Suspiro do Iguape. João dos Santos (2008), integrante do grupo, afirma que no caruru amanhecia o dia e os sambadores continuavam tocando. Nas apresentações de palco, o repertório fica limitado ao tempo de apresentação, com a duração de, geralmente, uma a duas horas. Além disso, nessas apresentações existe uma preferência pelo samba corrido. Segundo os sambadores, o corrido é mais pra cima e "agita" mais o público. Ainda hoje os Carurus de São Cosme e Damião acontecem no Recôncavo, assim como pôde ser observado na festa do grupo Samba Chula Filhos da Pitangueira e do Suspiro do Iguape, no mês de setembro de 2008. A mudança dos "antigos" sambas de caruru para os atuais é que, durante os Ictus 13-1
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carurus, mesmo se apresentando na rua, nas casas ou em outro lugar, os grupos utilizam uniformes e, pode-se perceber também uma preocupação com a "equalização do som", além de outras questões. Nessa discussão, cabe espaço a uma passagem do meu "diário de campo", referente a uma conversa entre os integrantes do grupo Suspiro do Iguape: O tema da discussão era uma apresentação que havia sido realizada na semana anterior e que não havia saído como desejado. Os sambadores, assim como pessoas próximas que assistiram julgaram como uma péssima apresentação. Eu perguntei a eles o porquê de ter sido ruim e eles me disseram que a vozes não estavam casando com os instrumentos e que eles não se ouviam no palco (CARMO, 2008).
Durante essa discussão, percebi que os comentários remetiam à falta de profissionalização dos integrantes do grupo, ou seja, no palco eles não conseguiram fazer o eu melhor para agradar ao público e o som não estava bom. Diante dessas questões, surgem alguns questionamentos, tais como: o horizonte desses grupos é o mercado? Eles têm o objetivo de viver de samba? Cada caso deve ser investigado separadamente, tendo em vista as particularidades de cada grupo. Contudo, existe uma perspectiva entre os integrantes dos diversos grupos de conseguir cada vez mais recursos para divulgarem o seu trabalho. A profissionalização dos grupos, como um impacto indireto da política de salvaguarda, provavelmente não foi pensada pela UNESCO e pelo IPHAN. No Plano de Salvaguarda, a idéia de "promoção" do samba de roda parece ser entendida no sentido de facilitação das condições de 148
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continuidade do bem, ou seja, menos intervenção e mais cautela. Com efeito, proponho a seguinte reflexão: atualmente, pautados nos debates sobre cultura e desenvolvimento econômico, deparamo-nos com uma série de questionamentos relacionados à inclusão dos saberes da cultura popular nesse processo. O tema "cultura e economia" tem sido um dos pilares dos discursos atuais dos órgãos governamentais responsáveis pela gestão do campo da cultura. Acredito que esse tema envolva questões relacionadas ao mercado, circuitos de difusão e indústria cultural, ou "indústrias culturais", expressão utilizada nos dias atuais. A questão aqui é entender alguns aspectos importantes a cerca do envolvimento das culturas populares com a divulgação e difusão dos seus saberes performáticos. Assim, destaco alguns pontos que podem ser mais discutidos a partir da relação entre esse patrimônio imaterial e o mercado no Brasil: espetacularização das artes populares; o desenvolvimento de uma indústria cultural do "exótico"; a transformação de rituais sagrados em mercadoria e, enfim, o direito à propriedade intelectual dos portadores dessas manifestações. A respeito da propriedade intelectual, enfatizo a necessidade de discussão sobre a legislação vigente de direito autoral, que não contribui para a "proteção" dos conhecimentos tradicionais, especialmente as produções coletivas. Assim, além de discutir os processos de divulgação e difusão das manifestações culturais que compõem o patrimônio imaterial brasileiro, a Ictus 13-1
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questão fundamental é pensar se essas manifestações continuarão sendo reproduzidas e transmitidas em seu contexto original. Os impactos da política de salvaguarda apontam ainda para outras questões. Como exemplo, perceber como as necessidades e os problemas, ou seja, as "tendências de enfraquecimento" do samba de roda foram apontadas pelos sambadores na pesquisa que resultou no Dossiê de Registro, para as principais problemas e necessidade apontados pelos sambadores nessa investigação. O que se pode perceber é que no Dossiê de Registro os principais problemas e necessidades dos sambadores foram: a desvalorização do samba, a carência ou péssima condição dos instrumentos musicais, o desinteresse de jovens, assim como a falta de acesso aos materiais decorrentes das pesquisas realizadas sobre o samba do Recôncavo (IPHAN, 2006, p. 75-81). Isso não quer dizer que essas "tendências de enfraquecimento" indicadas na pesquisa que resultou no Dossiê não sejam consideradas atualmente. Contudo, pude perceber que, aproximadamente três anos após a realização dessa pesquisa, os problemas e as necessidades apontados pelos sambadores são canalizados para outras questões. Ao serem questionados sobre as principais necessidades e os problemas, os sambadores remetiam às questões decorrentes da formação e reativação
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de grupos e da profissionalização, como por exemplo, a necessidade de vestimentas para se apresentar. A falta de transporte também é um dos problemas mais apontados, o que evidenciou o interesse dos grupos em se apresentarem fora das comunidades locais. Além disso, outro problema amplamente colocado pelos sambadores é a "disputa" com grupos da mídia. Paulo César Santos (2008), coordenador do Grupo Cultura Samba de Maragogó afirmou que Ah! O samba de roda tem que estar aqui por causa da desenvoltura do grupo, o grupo tem uma cultura mesmo diferente e vamos colocar no palco. Mas os valores pagos para os grupos culturais do samba de roda não são valores que são pagos à bandas de mídia. Então a gente concorre é um problema que a gente tá indo concorrer mesmo com a valorização do título, mais a gente ainda passa por uma conseqüência e disputas que bandas de grupos, ou seja, de mídia[...].
Dessa maneira, embora considerem o Registro uma contribuição importante para a valorização do samba de roda, a maioria dos sambadores que foram entrevistados ainda não se mostrou totalmente satisfeita com os resultados da salvaguarda. Contudo, pode-se dizer que o reconhecimento pelo IPHAN e, principalmente, pela UNESCO possibilitou uma maior articulação dos sambadores com representantes do Estado, isso pode ser confirmado através de uma fala de Moacir (2008), integrante do grupo Suspiro do Iguape: O samba ele tá ai, tá vivo, graças a Deus, graças ao Ministro, e também se o presidente não botasse o Ministro da Cultura que hoje se chama Gilberto Gil, por sinal o nosso companheiro
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ai fez até um samba, ai se não fosse essa pessoa, quer dizer, super inteligente esse Gilberto Gil pra resgatar uma coisa que tava morta, né. A gente não se falava mais em samba.
Portanto, finalizo esse artigo com uma letra de um samba amarrado composto por Seu Fernando, integrante do grupo Suspiro do Iguape: Suspiro do Iguape, tem com coisa que indá não viu, Tem coisa que indá não viu (2x) É o ministro da cultura, ô beleza Se chama Gilberto Gil (2x)
Considerações finais Com base em estudos bibliográficos e dados empíricos coletados junto aos sambadores do Recôncavo Baiano, foi possível observar mudanças no samba de roda que foram influenciadas, direta e indiretamente, pela política de salvaguarda. Dentre os impactos observados pode-se ressaltar a afirmação da Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia; a formação e a reativação de grupos de samba de roda no Recôncavo; a crescente necessidade de profissionalização dos grupos e a consequente inserção de novos elementos na música, como instrumentos considerados não "tradicionais". De uma maneira geral, esses impactos revelam uma maior valorização do samba de roda, principalmente, pelos próprios sambadores. De fato, a política de salvaguarda tem contribuído para o restabelecimento do samba no contexto sociocultural musical do Recôncavo Baiano. 152
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Contudo, acredito que os responsáveis pela implementação dessa política devem garantir um diálogo mais aberto com os sambadores, efetivando-se, dessa maneira, o protagonismo dos grupos e indivíduos que compõem esse patrimônio. Deve-se ainda ampliar as discussões sobre os impactos da salvaguarda, atentando-se, principalmente, para as questões possam surgir com a profissionalização dos grupos, tais como a "espetacularização"e a "descaracterização" do samba de roda. A experiência da política de salvaguarda dos bens imateriais ainda é recente. Acredito que ainda existe muito a ser realizado e, por isso essas ações têm sido discutidas também por pesquisadores, produtores culturais e pelas próprias manifestações envolvidas, com o propósito de contribuir para os processos de implementação, avaliação e reformulação dessa política. Vale ressaltar a necessidade de uma maior articulação da política de salvaguarda com as políticas públicas de educação, tecnologia, saúde, meio ambiente, e a elaboração de estratégias - em caráter de urgência para a para a melhoria das condições sociais dos indivíduos que produzem o nosso patrimônio cultural. Através desse trabalho, apresento reflexões e contribuições fundamentais para o entendimento de aspectos sociais e culturais do samba de roda do Recôncavo Baiano. Tais reflexões apontam também para a necessidade de ampliar e sistematizar os estudos de avaliação da política Ictus 13-1
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de salvaguarda implementada no âmbito dos outros bens imateriais proclamados como patrimônio. Aqui, a música é coadjuvante expressiva e funciona como intermediadora propiciando ao mesmo tempo a manutenção da identidade do homem e a atualização da linguagem que necessita para ajustar-se à mudança sem perda de si mesmo. Lidamos com pobreza e sofrimento e, por isso, necessitamos de desenvolvimento econômico que por sua vez depende do desenvolvimento cultural.
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