SABERES E PRÁTICAS EDUCATIVAS NO ESPAÇO DA ESCOLA DE SAMBA BOLE-BOLE NO BAIRRO DO GUAMÁ EM BELÉM DO PARÁ. Margarida do Espírito Santo Cunha Gordo1. Resumo Este texto tem como objetivo, apresentar em linhas gerais meu projeto de doutorado em educação, cujo objetivo é identificar e desvelar os saberes construídos no cotidiano de uma escola de samba, para que sejam reconhecidos e integrados aos da escola formal, bem como (re)conhecer a identidade cultural demarcada nos sujeitos que se interrelacionam nesse espaço de efervescência cultural. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter etnográfico, de grande relevância acadêmica e social. O lócus da pesquisa será a escola de samba Bole-Bole – que está localizada no bairro do Guamá, um bairro populoso e pobre da periferia de Belém no Estado do Pará.
Palavras Chave: Saberes e práticas educativas na escola de samba. Carnaval. Cultura Popular. Educação Não-Formal.
Introdução
Meu envolvimento com o carnaval, considerado por Amaral (2001) e DaMatta (1997) a maior e uma das mais duradouras festas do Brasil e, mobilizada por uma paixão adquirida ao longo de vinte anos devido a minha ligação com a escola de samba Bole-Bole, localizada na cidade de Belém no Pará, me motivaram a propor ao curso de Pós-Graduação em Educação da UNICAMP, um estudo que desvele os saberes e as práticas educativas existentes nesse espaço de efervescência cultural e que analise, como estes podem ser significativos e expressar a cultura e a identidade dos sujeitos que interagem nesse espaço. Ao tratar de escola de samba e, consequentemente, de carnaval, poderia me direcionar para o do Rio de Janeiro por toda sua exuberância espetacular, bem como por toda sua consistência, importância cultural, midiática e de geração de renda que assumem nesse local. Porém, esse tema finca mais ainda meus pés no carnaval de Belém, mais especificamente na Bole-Bole, a principal referência cultural no bairro do Guamá2 1
Doutoranda em Educação pela UNICAMP (Dinter UFOPA/UNICAMP). Pesquisadora do LABORARTE/UNICAMP.
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(DIAS JUNIOR, 2009), agregadora de corpos, campeã em todas as categorias que desfilou – vindo de bloco até ascender à categoria de escola de samba do grupo especial, em que é bicampeã – e ilustre moradora da Passagem Pedreirinha, uma pequena rua (re)conhecida por sua efervescência e ecletismo cultural. Nessa passagem ocorre durante todo o ano uma série de eventos festivos, entre os quais se destacam cortejos carnavalescos, juninos e religiosos. Nessa pequena passagem convivem ora em harmonia, ora em conflito um terreiro de umbanda centenário, bois-bumbás, bloco de carnaval, escola de samba, igreja evangélica e uma capela de vocação católica (FERREIRA, 2012). É importante pontuar que no entorno da Bole-Bole, a mais ou menos 500 metros de distância, há três escolas públicas estaduais. Segundo Dias Junior (2009) o bairro do Guamá por si só já é um caldeirão cultural, o que lhe levou a traçar vários aspectos que o caracterizam e que consequentemente imprimem uma forte identidade ao mesmo. Acrescenta ainda, que a Bole-Bole representa para o bairro uma espécie de base, de local de reprodução, de apreensão e de reconhecimento social e cultural. Já nos primeiros anos de sua existência, a Bole-Bole iniciou oficinas de confecção de instrumentos de percussão, de musicalização, de dança e de papel maché, atraindo muitos jovens, sendo que alguns deles seguiram uma carreira impulsionados por essas vivências na escola de samba. Inclusive essas oficinas deram origem ao único projeto proposto e mantido pelo poder público municipal em 1997, que teve curta duração, “O Moleque Pandeiro”. Essa Agremiação também, é muito preocupada em revigorar e manter as tradições culturais, não só do bairro, mas do próprio Estado do Pará, visto que trabalhou firme pela reconstrução do boi-bumbá Malhadinho, na versão mirim – numa tentativa de manter viva essa manifestação folclórica que fora inserida por seu Almerindo no bairro do Guamá e por Mestre Bandeira na passagem Pedreirinha, em versão adulta, e que não mais se apresentava. Criou a escola de samba Bole-Bole do Futuro, constituída por crianças e em cujos enredos são discutidos os problemas do bairro. Participou da criação do bloco infantil Frutos do Xequerê. Recriou o bangü-ê, ritmo originário da região do Baixo-Tocantins cuja manifestação de rua se encontrava adormecida pela invasão de outros ritmos. Tudo isso entre tantas outras ações de cunho cultural e social.
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Um dos bairros mais populosos da capital paraense.
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Os sujeitos que habitam esse populoso bairro, interagem com essa e nessa escola de samba, não só no carnaval, mas durante todo o ano em outras atividades culturais como o bangü-ê, que acontece em forma de cortejo em uma das principais avenidas da cidade, a Presidente Vargas, no domingo que sucede o Círio de Nazaré3; a Festa de São Pedro em junho, promovida pela comunidade da Pedreirinha; ensaios de outros blocos carnavalescos, como Mexe-Mexe, Frutos do Xequerê e Bole-Bole do Futuro; ensaios e apresentação de quadrilha junina, de boi-bumbá, de pássaros juninos e da própria escola Bole-Bole para o carnaval; ainda em ações sociais, aulas de música e dança, oficinas de artes plásticas, que ganham status de práticas pedagógicas que se transformam consequentemente em aprendizado e saberes. Esse grande fluxo de sujeitos e, por conseguinte, esse conjunto de saberes que circula nesse espaço, atrai muitos estudiosos, como antropólogos, sociólogos, psicólogos, educadores entre outros pesquisadores que procuram entender a rede de significados que é tecida nesse espaço sócio-cultural e acabam se envolvendo e contribuindo para que mais saberes sejam produzidos no cotidiano da Bole-Bole. Porém, ao mesmo tempo em que vislumbro que há saberes sendo produzidos e partilhados na escola de samba, me deparo com visões ainda distorcidas sobre o valor que pode ter uma escola de samba em uma comunidade. Na garimpagem de material que fiz para construir meu projeto, encontrei uma prova de vestibular de uma instituição de ensino superior de Belém, que inicia com textos sobre o Brasil ser reconhecido como o país do futebol e do carnaval. No decorrer do texto lamentam essa adjetivação sugerindo que Precisamos quebrar essa ideia de que o Brasil é o país do carnaval e do futebol. O Brasil pode ser o país da honestidade, da cultura, da educação, da saúde, da tecnologia, isso só depende de nós, de uma conscientização em massa de que é necessário romper com a mesmice, basta ver que somos o 3
O Círio de Nazaré instituiu-se na cidade de Belém do Pará em fins do século XVIII, em 2004 foi registrado como patrimônio imaterial pelo Instituto de Patrimônio Histórico Nacional – IPHAN e, constitui-se em um conjunto de comemorações incluindo festas públicas e privadas, procissões, novenas, missas e um arraial. A Festa do Círio de Nazaré se organiza em torno de três grandes procissões, o Círio Fluvial na segunda sexta-feira do mês de outubro pela manhã, a Trasladação no sábado à noite e a Procissão do Círio no domingo pela manhã, seguido do tradicional almoço do Círio, regado por pratos típicos regionais. Em torno dessas atividades, toda a cidade de Belém do Pará se agita e, durante a quinzena da festa, o espaço urbano sofre uma transfiguração cujos aspectos mais evidentes são a ornamentação das ruas por onde passam as procissões, a alteração do trânsito, entre outros. O Círio de Nazaré é considerado o Natal do Paraense e leva para as ruas do centro de Belém, com saída da Catedral da Sé até a Igreja Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, mais de 3 milhões de fiéis, vindos do mundo inteiro (SARÉ, 2005).
4 país onde há a maior e mais avançada rede de captação de leite humano. O Brasil é exemplo no combate à AIDS. Somos o único país do hemisfério sul a participar do projeto genoma. Nosso processo eleitoral está todo informatizado, dando em tempo recorde o resultado das eleições em um país de dimensões continentais. Nossos internautas representam 40% do mercado latino americano. Somos o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos (IESAM 2012, adaptado do site http://www.artigos.com/artigos/sociais/).
Acredito que o Brasil pode sim ser o país de tudo isso aí, inclusive do carnaval e do futebol sem arranhar sua honra e imagem. Por que negar o carnaval e o futebol? Por que desvincular a educação, a honestidade, a cultura, a saúde e a tecnologia desses dois grandes ícones nacionais? Por que não usar o espaço e o poder atrativo que ambos têm a favor da honestidade, da educação, da cultura etc.? Acredito na escola de samba como local de construção e de circulação de conhecimentos e de saberes, pois nesse espaço transitam centenas de pessoas, sendo que cada uma carrega consigo seu mundo de experiências vividas, adquiridas pelas vivências em diferentes e diversos espaços e contextos educacionais, culturais, sociais, profissionais, etc.; possui características e um cotidiano que servem de polo de atração de jovens e adultos; o conhecimento partilhado nesse espaço tem a seu favor um ambiente informal, de descontração e liberdade, além de ser isento de disciplinas curriculares e da formalidade impregnada na escola. Maués (2006), em estudos sobre currículo dentro de uma concepção dinâmica de cultura que se dá em um contexto de relações sociais, de negociação, de conflito e de poder, baseada em Silva (1999), afirma que ao considerar essa abrangência do currículo, essa discussão não deve estar restrita ao espaço da educação e do conhecimento escolar, mas a diferentes espaços onde determinados conhecimentos e saberes são produzidos e veiculados, por e para sujeitos diferentes. Para além dos conhecimentos e das trocas culturais facilitadas pelo ajuntamento de vários sujeitos, outro aspecto interessante a ser pontuado, são os enredos e as temáticas produzidas pelos carnavalescos, que são desenvolvidos após extenuante e meticulosa pesquisa. Os enredos sempre articulados com a realidade e os contextos regionais, nacionais e universais, se constituem em uma incessante fonte de conhecimentos e de reflexão, possibilitando que grande parte dos envolvidos na escola de samba se interesse e troque ideias sobre esses temas. Exemplo disso foi no carnaval do ano 2000, quando o Brasil completou 500 anos e, as doze escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, decidiram contar
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a história do Brasil, cada uma cantou um trecho dessa história que ecoou a partir da Marquês de Sapucaí para os brasileiros e para mundo. O enredo para o carnaval de 2012 da Bole-Bole, por exemplo, fez uma homenagem aos 50 anos da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, proporcionando não só aos guamaenses4, mas a toda a capital paraense uma aproximação com a história do Teatro e da Dança, o que aconteceu por meio do samba, das fantasias, das alegorias, proporcionando às pessoas que cantassem o Teatro e a Dança na avenida do samba. Mais especificamente, na sede da Bole-Bole, foram realizadas apresentações e oficinas de teatro e de dança, que atraíram dezenas de jovens e adultos, constituindo-se em verdadeiros instrumentos de aprendizagem. E dessa mesma forma acontece e vem acontecendo com outros enredos. Vale ressaltar que esses saberes e conhecimentos produzidos e veiculados no espaço da escola de samba se dão ao prazeroso som de cuícas e tamborins. E envolvida por esse contexto e, por não ser nem ruim da cabeça e nem doente do pé, que meu corpo se mobilizou para tecer as teias de significados que estão em volta dessa escola de samba e, consequentemente, desse bairro, até por entendê-la como mediadora e promotora de saberes e de conflitos que permeiam o cotidiano dos que dela participam.
Corpo, carnaval e educação
No cenário mundial, o carnaval representa uma das mais importantes festas, constituindo-se em um reservatório de ritmos e símbolos que sobreviveram à multiplicidade de “carnavais” ao longo do tempo, que se retroalimentam constantemente e que possui como características a liberdade e o rompimento com regras pré-estabelecidas (CARVALHO; MADEIRO, 2005). Segundo Bakhtin (1987, p. 6) o carnaval representa uma fuga, mesmo que seja provisória, das regras impostas pelo dia-a-dia e, que “se situa nas fronteiras entre a arte e a vida. Na realidade, é a própria vida apresentada com os elementos característicos da representação”. E mais, que
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É a denominação aos habitantes do bairro do Guamá em Belém do Pará.
6 Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade. O carnaval possui um caráter universal, é um estado peculiar do mundo: o seu renascimento e a sua renovação, dos quais participa cada indivíduo. Essa é a própria essência do carnaval, e os que participam dos festejos sentem-no intensamente (BAKHTIN, 1987, p. 6).
Turner (apud Dawsey, 2005, p. 22), revela que “os carnavais surgem como momentos extraordinários, ou interrupções do cotidiano. No mundo do capitalismo industrial, eles surgem como interrupções do trabalho. São como momentos de “loucura” que se contrapõem ao cotidiano”. Da Matta (1981) concebe o carnaval como uma festividade que estilhaça a realidade social, inventando uma ordem invertida, sem a existência de um centro de gravidade. Turner, Bakhtin e Da Matta referem-se ao carnaval como uma quebra do cotidiano em busca de liberdade, mesmo que momentânea, do indivíduo, da pessoa, do ser humano, mais especificamente (fazendo um viés com minha área de interesse por conta de minha formação em Educação Física) do corpo. Corpo e carnaval tem uma relação muito estreita, por isso é importante destacar que a historiografia do corpo revela que este atravessou séculos vivenciando restrições e tabus, envolvido por mistérios, enigmas, contenção, discrição e silêncio. Somente na sociedade contemporânea ele passa a ser o centro das atenções, principalmente o feminino, que “de ocultado transformou-se em objeto de exposição, admiração, desejo, interferências” (MATOS, 2007, p. 11), intervenções e estudos. Essa centralidade assumida pelo corpo revela muito mais do que o próprio corpo, ela é carregada de valores simbólicos e age como demarcadora de sua identidade cultural. Como o corpo é o primeiro contato do ser humano com tudo e com todos que o cercam (contato entre pessoas é uma constante no carnaval), nele é delineado o arcabouço cultural de um grupo específico. Kofes (apud Daolio, 2009, p. 39) reforça esse pensamento quando diz que “o corpo é a expressão da cultura, portanto cada cultura vai se expressar por meio de diferentes corpos, porque se expressa diferentemente como cultura”. Seguindo essa linha, é relevante mencionar que corpo e cultura mantém uma interdependência, a cultura precisa do corpo para se materializar, se mostrar, se fazer presente, assim como o corpo precisa da cultura como instrumento de civilidade e de
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socialização, tomando-se sempre o cuidado, como alerta Csordas (1990) para que o corpo não seja reduzido como um objeto a ser estudado em relação à cultura. Ainda em relação a corpo e cultura, Morin (2011) enfatiza que o corpo é tecido por uma grande teia de símbolos e de significados, possuindo vários aspectos que se conectam formando um ser complexo e, Geertz (2008) acrescenta que quem tece essa teia de significados, a qual denomina de cultura é o próprio homem5. Desta forma o corpo humano não é um corpo puramente biológico sobre o qual a cultura impinge especificidades, o corpo é fruto da interação entre natureza e cultura e, conceber o corpo como meramente biológico é pensá-lo como natural, e como consequência desse pensamento, entender que a cultura é um processo posterior ao desenvolvimento do homem, uma mera coadjuvante e, não que a cultura é a grande responsável por esse desenvolvimento (GEERTZ, 2008). Mauss (1934) em estudos que denominou de “as técnicas corporais” considerou que os movimentos e gestos do corpo são o resultado de técnicas criadas pela cultura, passíveis de transmissão através das gerações e imbuídas de significados específicos, cercado de atos simbólicos ou por um conjunto de atos simbólicos. Também, mesmo de uma forma menos densa, mas bastante significativa introduziu o conceito de habitus definindo-o como a soma total de usos culturalmente padronizados do corpo em uma sociedade. Conceito este que mais tarde foi ressignificado por Bourdieu (apud Csordas, 1990) que foi além do conceito de habitus como um conjunto de práticas, definindo-o como um sistema de disposições que é perene com princípio inconsciente e coletivamente inculcado para a geração e estruturação de práticas e representações. Complementa citando Hegel que o corpo, tendo a propriedade de estar aberto e exposto ao mundo, está sujeito a um processo de socialização cujo produto é a própria individuação, a singularidade do “eu” sendo forjada nas e pelas relações sociais. Corroborando com esse pensamento Le Breton (2009) assegura que apesar do corpo representar o principal ponto de diferenciação entre as pessoas e por marcar a individualidade de cada um, acredita que parte dele a ligação entre outros corpos, ou seja, o corpo é o fio condutor das relações interpessoais, “o conector que o une aos outros” (idem, p. 11). 5
Quando a palavra homem não tiver acompanhada da palavra mulher ou feminino, estarei me referindo a ser humano e não a uma flexão de gênero.
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Desta forma faz-se necessário ressaltar que no espaço da Escola de Samba transitam muitas pessoas, muitos corpos, que se entrecruzam em seu cotidiano e, que por uma vasta rede de socialização se conectam (re)produzindo saberes que são essenciais para a construção de sua identidade. Porém, antes do corpo ser tomado pela ação festiva do carnaval, ele é um corpo cotidiano que experimenta vários estados e sensações que acabam se tornando rotineiros, sendo entendido como um corpo preso a convenções, tolhido de uma expressão maior e automatizado que em seu dia-a-dia desempenha tarefas e cumpre papéis de modo mecânico. Não necessariamente um corpo infeliz, mas um corpo comportado, educado e contido. Nessa
concepção
de
comportamento
e
contenção
dos
corpos
e,
consequentemente do sujeito, fica nítido o papel da escola tradicional como protagonista desse processo, que se fundamentou na instrumentalidade, no disciplinamento e na aprendizagem da civilidade e elegeu o controle e a disciplina como marco para uma boa educação (NÓBREGA, 2005). Mas o que seria uma boa educação? Essa boa educação pode, também ser construída na escola de samba? Ela está alicerçada somente nos conhecimentos científicos? Como as experiências do cotidiano são levadas em consideração na escola formal? Na escola formal há tempo e espaço para compartilhar os conhecimentos científicos e os conhecimentos da vida? Tem espaço para a criatividade na escola formal? Os currículos adotados pelas escolas formais dão conta de formar integralmente o sujeito? Há como integrar os conhecimentos acadêmicos apreendidos na escola com os saberes produzidos nas escolas de samba? Diante de muitas indagações que me faço a respeito do alcance da educação na escola para a formação do ser humano e, inspirada em Boaventura (apud Alves et al, 2011) quando indicou a necessidade de haver um deslocamento radical dentro do mesmo lugar, com o intuito de valorizar toda uma rede de significados que permeia o cotidiano da escola, me arrisco a propor um deslocamento do olhar da educação para a escola de samba, com o objetivo de identificar e significar os conhecimentos e os saberes que são dinamicamente produzidos nesse local de sociabilidade, liberdade criativa e ao mesmo tempo de entretenimento, o que a deixa muito atrativa. Pois,
A Escola de Samba com sua maneira peculiar de organização, prática social e cultural, sua relação com o carnaval, sua abertura para as diversas classes sociais e grupos culturais, com suas reuniões de organização de cada parte
9 (alas de desfile, harmonia, bateria, compositores, baianas, passistas, barracão, diretoria etc.), seus ensaios de bateria, seus ensaios gerais, seu culto à bandeira da Escola, seus almoços e comemorações com comidas típicas, sua socialização de saberes, seu desfile na avenida... (LIMA, 2005, p. 96).
Desta forma podemos aferir que a cultura do samba ou o mundo do samba é composto de vários elementos, que se enriquecem constantemente e lhe dão identidade. A vivência nesta cultura implica uma relação com o mundo que a toma como uma das referências de vida e de construção simbólica da realidade. Tramonte (2001) em seu livro O samba conquista passagem: as estratégias e a ação educativa das escolas de samba, identificou os saberes produzidos na escola de samba e os subdividiu em seis vertentes, que são: 1. Pedagogia da Ação Social; 2. Pedagogia da Ação Política; 3. Pedagogia dos Valores Éticos e Morais; 4. Pedagogia da Ação Escolar; 5. Pedagogia da Ação Cultural e 6. Pedagogia da Arte. A Pedagogia da Ação Social se estabelece nas vertentes comunitárias e de socialização de saberes, sendo que a comunitária está associada com sua sociabilidade, multiplicidade, diversidade e interação entre os sujeitos que participam diretamente da escola de samba e, também de sujeitos que por lá transitam temporariamente. Já a de socialização de saberes, possibilita organizar e manter a escola de samba, tanto para o desfile quanto para as atividades cotidianas durante o ano todo, vale ressaltar que essas atribuições requerem uma organização muito bem elaborada e, também é o espaço onde se vivencia muitas experiências. A Pedagogia da Ação Política desenvolve-se na busca de consenso interno e externo, trabalhando, por exemplo, as divergências entre ‘velhos’ e ‘novos’ e entre as visões da agremiação e os interesses do Estado. Em todos os setores da escola de samba, nas alas, na diretoria, na escolha do enredo, na escolha do samba-enredo, no uso e cessão do espaço da quadra, a todo o momento se exercita uma ação política, pois ela serve como mediadora de conflitos. A Pedagogia dos Valores Éticos e Morais, diz respeito aos valores que precisam ser cultivados para que haja respeito entre as pessoas e os espaços em que ocupam. É fato que esta vertente enfrenta dificuldades em se manter viva onde há relações humanas, principalmente, devido a sociedade estar baseada em valores cada vez mais individualistas, fúteis, competitivos e distorcidos, ficando difícil praticar a solidariedade do grupo, o amor à escola sem busca de lucro, o desapego à vantagem quando se trata do bem coletivo, o respeito ao ambiente familiar, a integração das diversidades, etc.
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A Pedagogia da Ação Escolar está presente nos vários conhecimentos necessários para a organização da escola de samba, que vão desde suas atividades mais elementares até o desfile, perpassando pela pesquisa e construção dos enredos, reconhecimento dessa pesquisa nas fantasias e alegorias, entre outros, como os conhecimentos disciplinares básicos como português, matemática, química e física aliado à literatura, artes plásticas, teatro, conhecimentos do mundo do trabalho como costura, carpintaria, solda, etc., que passam até despercebidos, são realizados com alegria e diversão, mas são compreendidos, pois os resultados de todo esse aprendizado é demonstrado na avenida. Outro aspecto importante de frisar na Pedagogia da Ação Escolar é que no caso específico da Bole-Bole, as escolas formais localizadas no bairro do Guamá, principalmente as que ficam em seu entorno, mantém uma espécie de ligação acadêmica no período do carnaval, solicitando aos seus alunos pesquisas dos sambas, dos enredos, sobre os compositores, a relação de pertencimento com o bairro, a apresentação de alguns elementos nessas escolas, etc. O desenvolvimento e a valorização da cultura brasileira estão inseridos na Pedagogia da Ação Cultural. Para Tramonte o centro da escola de samba continua sendo uma expressão da cultura afro-brasileira, tendo um grau de importância e de valor simbólico muito grande, tanto para nossa história cultural quanto para a diversidade cultural brasileira. Porém, o multiculturalismo pode ser explicitamente exercido, pois estão presentes no espaço da escola de samba pessoas de gênero, raça, poder aquisitivo e grau de escolaridade diversificados. Sem dúvidas é um campo de conflito, mas também de negociação. Segundo a autora, o enriquecimento, a diversificação e a sofisticação do universo estético das classes populares que participam da escola de samba e daqueles que assistem ao desfile ou frequentam as quadras das escolas fazem parte da Pedagogia da Arte. Com as possibilidades de criação, devido a uma liberdade criativa e expressiva e, o envolvimento de trabalhadores/artistas populares possibilitados pelo carnaval, é inegável seu status de arte reconhecida e a riqueza estética de suas apresentações. Fazendo uma breve análise dessa subdivisão e comparando-a com a Bole-Bole, identificamos todos esses elementos lá, uns com mais e outros com menos vivacidade, mas estão lá e, talvez nós consigamos encontrar outros elementos mais particularizados que inclusive digam respeito à região Amazônica – onde essa escola está inserida – e, que se conectam no cotidiano dessa escola. Deste modo, percebemos que as escolas de
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samba atuam como produtoras e veiculadoras de conhecimentos e, que se articulados e integrados à escola podem elevar o nível de educação, principalmente quando nos referimos às periferias dos grandes centros urbanos.
Conclusão
Como este estudo ainda está em andamento, ainda não é possível falar em conclusão. Porém, os resultados que pretendo alcançar são o de referendar que há produção de conhecimento e de saberes nas escolas de samba, que essa produção pode ser articulada entre Escola/Escola de Samba e ser muito mais profícua do que um trabalho isolado da Escola formal, sendo que pelo poder atrativo que a Escola de Samba exerce, esse espaço deveria ser melhor explorado e não relegado ou negado, como o é na maioria das vezes.
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