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Escolas de Samba de Belém: Do principio ao meio

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23 ESCOLAS DE SAMBA DE BELÉM: DO PRINCIPIO AO MEIO Carmem Izabel Rodrigues3 Claudia Suely dos Anjos Palheta4

Resumo: As Escolas de Samba de Belém fazem parte de uma tradição cultural que remonta ao século passado. Conta essa tradição que o atual formato das escolas de samba da cidade surgiu na década de 1930, a partir de um modelo importado do Rio de Janeiro por Raimundo Manito, morador do bairro do Jurunas, viajante apaixonado pela capital do país e pelas novidades que nela surgiam no século XX. Durante quase um século de existência, as escolas viveram momentos alternados de extrema valorização – vividas intensamente pela população, festejadas pelos cronistas dos jornais locais e cortejadas pelos poderes públicos – e um crescente apagamento dessa história na memória pública da cidade. Atualmente, os sujeitos e grupos envolvidos nas práticas carnavalescas, embora em número bastante reduzido, confirmam a permanência dessa manifestação popular inscrita no espaço vivido e na memória da cidade, ao mesmo tempo em que acreditam em um novo grande momento para o carnaval de Belém. Palavras-chave: Tradição cultural, Escola de Samba, Belém Abstract: The Samba Schools of Belém are part of a cultural tradition dating back to the last century. Account this tradition that the current format of the samba schools of the city emerged in the 1930s, from an imported model of Rio de Janeiro by Raimundo Manito, a resident of the neighborhood Jurunas, passionate traveler and the nation's capital for the news that arose on it in the twentieth century. For almost a century, the schools experienced alternating moments of extreme appreciation - intensely experienced by the population, celebrated by the chroniclers of the local newspapers and courted by the government - and a growing erase public memory of this history of the city. Currently, individuals and groups involved in the practices carnival, although greatly reduced in number, confirm the permanence of this popular event entered in lived space and memory of the city, while they believe in a great new moment for the Carnival of Belém.

Keywords: Cultural tradition, Samba school, Belém

Doutora em Antropologia, professora da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Carnaval e Etnocenologia (TAMBOR-UFPA). E-mail: cisbel@yahoo.com.br 4 Mestre em Artes (PPGARTES-UFPA), professora da Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA). Coordenadora do projeto de Extensão Artes Carnavalescas; pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Carnaval e Etnocenologia (TAMBOR-UFPA). E-mail: claudiap@ufpa.br 3


24 1. Introdução Conta a tradição do carnaval de Belém que o atual formato das escolas de samba que se organizam anualmente para participar do concurso oficial da Prefeitura Municipal surgiu na década de 1930, a partir de um modelo importado do Rio de Janeiro. Quem trouxe esse modelo de carnaval carioca para Belém foi Raimundo Manito, morador do bairro do Jurunas, trabalhador das docas, viajante apaixonado pela capital do país e pelas novidades que nela surgiam no século XX, amálgamas de diversas conjunções e fluxos culturais que conectavam o norte e o sul do país. O norte aparentemente isolado mantinha comunicações com a capital do país via rádio e telégrafo, por longos caminhos terrestres, que alternavam travessias de rios e caminhos tortuosos e, principalmente, por navios que faziam longos percursos pela costa atlântica, com paradas demoradas nas principais cidades do nordeste. Havia também poucas e recém-estabelecidas linhas aéreas no país, que faziam viagens regulares para Belém. Apresentações artísticas movimentavam grandes companhias teatrais e musicais, de projeção nacional e internacional, através do país. Grupos teatrais e orquestras sinfônicas faziam esses percursos marítimos, em tournées que costumavam durar de três a seis meses, com escalas nas grandes capitais nordestinas, até chegar a Belém e Manaus. No século XX, grandes eventos artísticos e culturais que dinamizavam a cidade para atender o consumo das elites locais, não impediam o crescimento de uma vida cultural intensa da população em geral, que desde o século XIX já participava dos eventos festivos públicos oficiais – como nas comemorações cívicas e eclesiásticas, nas ruas principais da capital – e não oficiais, eventualmente controlados e regulados pela polícia, mas sempre permitidos ou “deixados à mão”. Nas praças e largos dos bairros centrais da cidade, assim como nos bairros mais periféricos/subúrbios, nas vilas e passagens, aconteciam as festas populares em períodos como a quadra natalina, o dia de reis, a “estação carnavalesca” e a “quadra joanina”. Havia ainda um vasto ciclo de festas religiosas que homenageava os santos do catolicismo popular, através de grandes procissões organizadas por irmandades ou associações religiosas ou leigas, que mobilizavam um grande número de fiéis e uma soma considerável de recursos materiais e simbólicos, cruzando as ruas e bairros da cidade, com a presença ou mesmo ausência dos poderes civis e eclesiásticos. Herdeiras de tradições seculares que consagraram esses santos protetores na capital e nas cidades do interior próximas a Belém, essas festas mantinham diversos elementos das festas coloniais, ao


25 mesmo tempo em que também se transformaram em novas festas, adaptadas à diversidade própria da modernidade urbana presente na cidade de Belém.

2. Breve história: um século de carnaval na cidade

Desde fins do século XIX, a cidade apresentada nos discursos oficiais e nos jornais locais como “a metrópole da Amazônia”, é imaginada como espaço e lugar em rápida transformação, em direção à modernidade contemporânea. Práticas culturais arcaicas ou primitivas são substituídas por outras consideradas mais elegantes, modernas; as novas práticas carnavalescas substituíram as antigas formas do entrudo português. Essas novas práticas misturavam influências culturais vindas do sudeste e nordeste do país, como os clubes carnavalescos, os bailes populares, os blocos de sujos e mascarados, com manifestações locais, como os cordões de roceiros, pretinhos e marujos (OLIVEIRA, 2006, p.15). Mas o carnaval da primeira metade do século seria definitivamente transformado pela invenção das escolas de samba. Invenção surgida nos morros do Rio de Janeiro, no final de 19205 espalhou-se pelo país já nas décadas seguintes. Em Belém, os primeiros registros são da década de 1930: Rancho Não Posso me Amofiná (Jurunas, 1934), Tá Feio (Umarizal, 1935-1942), Escola Mixta de Carnaval (Umarizal, 1936-1948), Escola de Samba Uzinense (Cremação, 1937-1949). As que desapareceram foram imediatamente substituídas por outras: Quem São Eles (Umarizal, 1946), Maracatu do Subúrbio (Pedreira, 1951; hoje Embaixada de Samba Império Pedreirense), Boêmios da Campina (Campina, 1952) (OLIVEIRA, 2000, p.17). Oliveira (2006) classificou o carnaval paraense em três grandes fases, que correspondem a três momentos na linha do tempo: o carnaval do entrudo, o carnaval pósentrudo, o carnaval da era do samba, e subdivide a última fase em: carnaval das batalhas de confete (até 1957) e carnaval oficial de avenida, pós-1957 (p.13). Acrescentamos aqui uma terceira subdivisão: o carnaval dos anos oitenta do século XX. Na década de 1980, considerada pelos frequentadores do carnaval da cidade como o momento mais expressivo do carnaval local, surgiram importantes escolas de samba, Sobre a origem e evolução do carnaval carioca, consultar Eneida de Moraes (1987[1957]), Pereira de Queiroz (1992), Felipe Ferreira (2004, 2005), André Diniz (2008), ente outros. 5


26 como o Acadêmicos da Pedreira (Pedreira, 1981) e as escolas de samba Arco-íris (1982, Guamá) e Bole-Bole (1984, Guamá). Esta última localiza-se na passagem Pedreirinha, território simbólico de importantes manifestações culturais que atualmente ocorrem no bairro. No Jurunas e Cidade Velha surgiram a Academia de Samba Jurunense (1989) e a Deixa Falar. Das disputas internas saíram outras escolas: a Tradição Guamaense da BoleBole, e a Coração Jurunense da Academia de Samba Jurunense. Na década de 1970 as escolas passaram a valorizar a criação de enredos regionais como “Eneida Sempre Amor (Quem são Eles, 1973), Marajó ilhas e maravilhas (Quem São Eles, 1974), “Jurunas relembra Pai do Campo na pessoa do Coronel Macambira (Rancho, 1976), Minha namorada Belém (Rancho, 1977). Nessa linha de valorização da cultura regional, o Quem São Eles conquistou o tricampeonato, de 1976 a 1978, com os enredos “Cobra Norato, pesadelo Amazônico”, “Largo de Nazaré, fantasias do passado” e “Theatro da Paz, cem anos de arte no Pará”. Mas uma inovação no carnaval de 1979 mudou o cenário: atendendo a um convite de Bosco Moisés, gestor de carnaval da escola jurunense, o arquiteto Bechara Gaby fez o projeto carnavalesco para o enredo “Tempo de Criança”. Em entrevista para este artigo, Bechara Gaby afirmou que Eu nunca tinha feito carnaval, nem era ligado nisso, mas tudo que aparecia de desafio eu topava, aí eu comecei a ir pros ensaios do Rancho e eles começavam a me mostrar os movimentos que a bateria fazia e a me dizer como é que tinha que fazer as fantasias e o que era uma escola de samba. Eu aprendi o que era escola de samba naquele ano, com eles e eu tive vinte dias pra fazer e como eu não tava acostumado a fazer carnaval então eu acabei fazendo tudo diferente (Entrevista, 10 de dezembro de 2012).

Tempo de Criança surpreendeu os admiradores do carnaval. As diferenças percebidas no carnaval de Bechara Gaby iam desde movimentos coreográficos das alas, que combinavam com o refrão do samba, às dimensões e ao acabamento das alegorias. Na década em que as escolas buscaram valorizar enredos com temas regionais, buscando também superar as limitações financeiras através do uso de materiais locais, a escola de samba jurunense surpreendeu o público, apresentando uma visualidade que ainda cresceria mais em 1980-1982, com os enredos Museu Paraense Emílio Goeldi (1980), Tuyá, o pequeno índio guardião da floresta (1981) e Belém, cidade das mangueiras (1982), dando à escola jurunense um inédito e exclusivo tetracampeonato no desfile oficial da cidade.


27 A disputa entre Rancho e Quem São Eles crescia na mesma proporção do público que buscava assistir ao desfile. A Avenida Presidente Vargas, ladeada de mangueiras e atravessada por fios de energia elétrica, tornou-se pequena tanto para os carros alegóricos como para a quantidade de pessoas que dançavam ou que iam assistir às apresentações das escolas. Em 1982, o desfile foi transferido para a Avenida Visconde Souza Franco (a Doca), que divide os bairros do Reduto e do Umarizal. A Avenida possui um canal de esgoto bem no centro, mas a extensão e o fato de à época ser uma área mais comercial do que residencial fez dela o palco ideal para o desfile e para aquele que entrou definitivamente para a memória dos simpatizantes como o melhor de todos os seus carnavais, “o carnaval da Doca”. Nesse ano o Rancho sagrou-se tetracampeão dentro do bairro do seu principal rival com o enredo Dança das folhas na cidade das mangueiras, e parecia imbatível, até que em 1983, no bairro do Guamá, o mais populoso da cidade, que até então não tinha uma grande escola de samba que disputasse campeonatos com as demais, foi fundado o Grêmio Recreativo Guamaense Arco-íris. Segundo Oliveira (2006, p.149), o Arco-íris “já nascera com estrutura de potência, disposta a acabar com a supremacia do Rancho”.

Essa afirmação é condizente com o que hoje recordam muitas pessoas que fizeram parte do Arco-íris. Como afirmou Neder Charone, “O Arco-íris veio na dimensão da riqueza, e de deixar um pouco de lado esse regionalismo tão defendido na época”. Em um momento em que os enredos pendiam para valores culturais locais, o enredo do Arco-íris era brasileiro, “Um grande coração chamado Brasil” falava da selva dos índios, da nobreza dos brancos e da raiz dos negros como formadores do Brasil. E, apesar de o intercâmbio entre sambistas do Rio de Janeiro e de Belém já acontecer desde a década de 1970, principalmente no que se refere à participação de cantores como Dominguinhos do Estácio e Rico Medeiros, foi o Arco-íris que trouxe carnavalescos do Rio de Janeiro para pensar uma escola em Belém. A vinda de Joãozinho Trinta e Laíla, da Beija-flor, divide a opinião dos dois carnavalescos que, em momentos diferentes, trabalharam com eles no Arco-íris, e que antes já haviam sido protagonistas da acirrada disputa, acima referida, entre Rancho e Quem São Eles: Bechara Gaby e Néder Charone. Nesse momento Bechara Gaby não estava mais no Rancho e foi procurado por Mário Couto, fundador e presidente do Arcoíris, para trabalhar na escola do Guamá, na realização do projeto proposto por Joãozinho Trinta. Segundo Gaby


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Ele já tinha desenhado a escola e eu ia desenvolver, acertamos eu e o Mário tudo e eu comecei a trabalhar. Ele (o Joãozinho) raramente vinha aqui [...] Outro dia ele foi no barracão e começou a dizer que tinha que mudar isso, aquilo outro, aí eu chamei o Mario Couto e disse: faz o seguinte, fica com o João e com o Laíla, que esses caras não vem de lá do Rio dizer o que eu vou fazer aqui... fica com eles que eu já vou. Porque eu não ia admitir os caras virem do Rio pra me dizer aqui o que eu ia fazer. Acabou que ele foi embora e eu fiquei né? Mas isso ninguém fala... e eu não mudei nada que ele queria (Entrevista, 10 de dezembro de 2012).

O Arco-íris foi a escola de samba mais “carioca” do carnaval de Belém, segundo afirmam com orgulho muitos guamaenses que participaram da escola nesse período. Já os jurunenses a criticavam dizendo que suas fantasias eram cópias das fantasias da Beija-Flor do ano anterior. A escola do Guamá estreou sendo campeã em 1983, ano em que nem o Rancho e nem o Quem São Eles participaram do desfile. Em 1984 e 1985 o Rancho voltou a ser bicampeão com os enredos Rancho de Ouro, o canto do Jubileu e Amanheceu. Somente em 1986 o Arco-íris venceu o Rancho pela primeira vez como o enredo A caminho do arco-íris, feito que se repetiu em 1989 como enredo Brasil, o Pará é o teu futuro, quando desfilou pela última vez. Na década de 1990 os desfiles passaram a incomodar os moradores da Doca, que se tornava uma área residencial cada vez mais valorizada, e as escolas desfilaram em três lugares diferentes: a Doca, a Avenida Presidente Vargas e a Avenida 25 de setembro. Nesse período as chamadas micaretas baianas tomavam conta do país e de algumas cidades do interior do Pará e passar o carnaval no interior passou a ser mais atraente do que esperar por um desfile onde não se sabia se a escola de sua preferência viria ou não para o desfile. As micaretas eram empresas altamente organizadas, que vendiam abadás com até um ano de antecedência, para um público consumidor que pagava para dançar ao som de conjuntos musicais liderados por cantores famosos, enquanto as escolas de samba ficavam cada vez mais carentes de organização e de investimentos que as movimentassem durante o ano. O abandono pelos poderes públicos, o desinteresse por parte da imprensa local tomaram conta das escolas de samba de Belém na década de 1990, até que no final da década uma boa notícia reanimou os sambistas. O prefeito Edmilson Rodrigues começou a construir o que seria o sambódromo de Belém, a Aldeia Cabana de Cultura Amazônica


29 Davi Miguel6. Um futuro diferente parecia despontar no carnaval de Belém. A Aldeia Cabana foi inaugurada no carnaval do ano 2000, na Avenida Pedro Miranda, no bairro da Pedreira e ainda que com muitos problemas arquitetônicos, como arquibancadas muito próximas à pista, dificultando a visão do desfile, e um aclive de mais de um metro e meio que tornava o desfile uma subida “heroica”, todos os ingressos e camarotes foram vendidos7. Escolas e público compareceram e o Acadêmicos da Pedreira, campeão de 1999, sagrou-se bicampeão, o primeiro campeão da Aldeia Cabana. O novo lugar para o desfile não foi exatamente unificador. Representantes da Prefeitura Municipal (PT) e do governo do Estado (PSDB) protagonizaram conflitos diversos sobre a gestão do carnaval na cidade, até que o governo, contanto com o apoio do prefeito de Ananindeua, município vizinho a Belém, viabilizou, através da Secretaria de Cultura e de projetos de apoio, recursos financeiros consideráveis, em tempo recorde, para as escolas que escolhessem participar de um desfile recém-criado, nesse município. Como costuma acontecer quando as disputas políticas importam mais que os interesses das classes populares, esse conflito viabilizou uma histórica separação entre as escolas, que culminou em desfiles diferentes em lugares diferentes. Em 2002 e 2003, Quem São Eles, Acadêmicos da Pedreira, A Grande Família e Bole-Bole, desfilaram em Ananindeua enquanto Rancho Não Posso me Amofiná, Embaixada de Samba do Império Pedreirense e Academia de Samba Jurunense desfilaram em Belém. Como desdobramentos desse conflito, em 2004 e 2005 havia dois grupos de escolas de samba desfilando na mesma Aldeia Cabana, em Concursos separados, organizados por duas ligas diferentes: a LIESGE (Liga Independente das Escolas de Samba do Grupo Especial) e a ESA (Escolas das Escolas de Belém). Em 2006 apenas duas escolas desfilaram na Aldeia Cabana: A Deixa Falar (Cidade Velha) e o Império Pedreirense (Pedreira). Somente no carnaval de 2007 juntaram-se as escolas da LIESGE e da ESA, agora num total de quatorze agremiações, por conta de convidadas que engrossaram os grupos em 2004 e 2005. Em 2011, após novas discordâncias entre dirigentes de escolas, o desfile contou com apenas quatro das oito agremiações: Tradição Guamaense, Quem São Eles, Piratas da Batucada e Bole-Bole. Por decisão de suas diretorias, Rancho, Deixa Falar, Embaixada do Davi Miguel (1926-2000) foi um dos mais destacados compositores de samba-enredo do carnaval de Belém, tendo realizado obras para o Rancho e para o Quem São Eles. 7 Nesse ano, os camarotes foram vendidos ao preço de R$ 300,00 (trezentos reais) cada, enquanto as arquibancadas tiveram o preço de R$ 3,00 (três reais). 6


30 Império Pedreirense e Grande Família não desfilaram. A Bole-Bole, fundada em 1984 por pessoas que participaram do Arco-íris, entre elas Herivelto Martins (Vetinho), justamente por não concordarem com a forma “carioca” dessa escola, conquistou o segundo bicampeonato para o bairro do Guamá com o enredo Bonecos pra lá de animados. Os enredos regionais são a característica mais marcante da escola. O desfile de 2012 foi marcado por uma organização surpreendente para as agremiações, com Carlos Amilcar, funcionário público e artista do carnaval, à frente da FUMBEL. Ainda que a tão sonhada antecipação da verba da subvenção não tenha vindo antes da véspera do desfile, a Aldeia Cabana teve sua iluminação melhorada e sua pista de desfile pintada de branco, valorizando fantasias e alegorias. O desfile que foi transmitido ao vivo pela RBA (Rede Brasil Amazônia de Televisão) começou pontualmente no horário e encerrou no tempo previsto. Mas o ano de 2013 chegou com mudanças na Prefeitura e consequentemente no secretariado, e até que o novo prefeito tomasse pé da situação da cidade as escolas de samba não tinham certeza de como seria o carnaval, nem se todas iriam se inscrever para o concurso, até que no dia 9 de janeiro de 2013, há exatamente um mês do sábado de carnaval, 9 de fevereiro, o Rancho, a Bole-Bole, a Embaixada e o Piratas da Batucada confirmaram sua inscrição, unindo-se à Deixa falar e a Rosa da Terra Firme, até então as únicas que afirmavam que iriam participar do desfile desde o ano de 2012. Produzido em um mês, o desfile de 2013 mostrou a competência artística de carnavalescos, artesões, costureiras, músicos e demais integrantes, fazendo um carnaval que parecia não ter na disputa do título seu objetivo maior. Foi um carnaval para garantir a existência do carnaval. O resultado deu o bicampeonato ao Rancho com o enredo Sangue de minh‟alma e a Bole-Bole, com a reedição do enredo de 2007, Mestre Lucindo, estrela no céu de Marapanim, foi novamente a vice-campeã. Quem foi à Aldeia Cabana viu um belo desfile, e quem não foi não viu nada. Não houve transmissão ao vivo pela televisão, nem mesmo um compacto no outro dia. Os jornais televisivos não dedicaram mais do que um bloco de poucos minutos que mostraram rápidas cenas de algumas agremiações que passaram pela Aldeia Cabana nos três dias de desfile. O carnaval de 2013 só foi notícia para os que dele fizeram parte.


31 3. Do princípio ao meio... chegamos ao fim?

Nos bairros do Jurunas, Umarizal e Pedreira estão as mais antigas, premiadas a ainda em atividade escolas de samba de Belém: o Rancho Não Posso me Amofiná, fundado em 1934, o Império de Samba Quem São Eles, fundado em 1946, e a Embaixada de Samba Império Pedreirense, fundada em 1951, respectivamente. Escolas de samba existem em Belém desde 1934, menos tempo que no Rio de Janeiro e mais tempo do que em qualquer outra capital da região amazônica. A partir de sua criação, manutenção, permanência e/ou desaparecimento da cena carnavalesca, foi possível acompanhar uma parte importante da história do carnaval paraense, a partir de diversos registros orais ou escritos, entre eles as narrativas autobiográficas através das quais os participantes dos antigos carnavais de Belém reapresentam os eventos carnavalescos como acontecimentos memoráveis que, revividos na memória coletiva dos foliões, são construídos com relatos vividos e registrados na memória pública da cidade. Diferentes gerações têm em comum o relato de que teria sido nos “anos oitenta” o grande momento do carnaval de rua de Belém, ainda que entre os mais antigos encontremos quem defenda essa saudade desde o início da década de 1970, com “o carnaval da Presidente Vargas”. Quase todos compartilham um sentimento de perda, de que estamos chegamos ao fim de “um tempo que não volta mais”. Curiosamente a passagem de terceiro carnaval do país, na década de 1980, para nenhuma classificação ou sequer visibilidade regional, quiçá nacional, não está atrelada a um grande fenômeno ou catástrofe. Os motivos que encontramos para que o carnaval de hoje seja tão diferente do dos “anos oitenta”, vão do desinteresse atual dos poderes públicos, antes demonstrado em visitas de prefeitos e governadores aos barracões das escolas e assistência entusiasmada ao desfile; passam pela falta de interesse dos próprios moradores da cidade, que preferem os carnavais do interior do Estado; e chegam à falta de condições mínimas das escolas em manter atividades em prol do carnaval. A tristeza dos amantes do carnaval de Belém se agrava quando estendemos o olhar para a Amazônia e encontramos na vizinha Macapá, capital cuja primeira escola de samba data do ano 1954 (Universidade de Samba Boêmios do Laguinho), políticas públicas que incluem planejamento e divulgação do carnaval local, incluindo a exibição, em Belém, de outdoors que nos convidam a passar o carnaval na cidade, onde o governo do Estado


32 inaugurou o sambódromo em 1998, e garantiu os barracões para as escolas em 2011. Ou quando verificamos que em Manaus, onde a escola de samba mais antiga ainda em atividade data de 1975 (G.R.E.S. Vitória Régia), foi construído um sambódromo como um lugar fechado para as agremiações carnavalescas, onde funcionam, durante todo o ano, escolas de artes visuais, dança, teatro e informática, e que essas agremiações já dispõem, desde 2004, de barracões localizados ao lado da pista de desfile. Enquanto isso, as escolas de Belém ainda gastam boa parte do dinheiro do carnaval para pagar o aluguel de galpões, e estes estão cada vez mais distantes do local de desfile, posto que grandes espaços necessários à confecção de carros alegóricos tornam-se cada vez mais raros. A própria Doca de Souza Franco, que nos anos oitenta era um espaço de galpões e empresas, hoje é lugar dos mais modernos e caros edifícios residenciais de Belém. Sob diversos fluxos e refluxos, as escolas de samba de Belém viveram momentos de crescente valorização, festejadas pelos cronistas dos jornais locais (Folha do Norte, Estado do Pará, Província do Pará) e cortejadas pelos poderes públicos (Estado e Prefeitura), que disputavam o direito de realizar concursos oficiais para escolher a melhor escola de samba. Sob o impulso dessa crescente popularização, proliferavam também os blocos de bairro (Xavante, Grande Família, Vila Farah, Piratas da Batucada). Nas décadas de 1970 e 1970, conforme matérias feitas pelos jornais locais, as escolas de samba recebiam apoio financeiro do Estado e Prefeitura, que financiavam a maior parte dos gastos das escolas com a preparação do carnaval, e aparentemente obtinham lucros vendendo ingressos, pois havia grande interesse e participação do público em assistir ao desfile oficial. Mas a partir dos anos noventa, há uma reversão lenta e contínua, que resulta em uma crescente desvalorização do carnaval das escolas e blocos de Belém, conduzindo a um processo que muitos definem como de “decadência” do carnaval paraense, definida por alguns carnavalescos locais como uma “grande perda de interesse popular” que tinha nas décadas anteriores. As mudanças de gestores foram geralmente acompanhadas por mudanças ou mesmo ausências de políticas culturais voltadas para as manifestações carnavalescas, em sua feição popular tradicional. Novas políticas de gestão cultural, que deslocaram o espaço público do carnaval paraense, da Praça da República para a Doca de Souza Franco e depois para a Aldeia Cabana de Cultura Amazônica (2000), articulavam-se também com a crescente preferência do público, especialmente das camadas médias e altas, pelo modelo comercial do carnaval baiano, vendido a públicos consumidores da capital e das cidades do interior.


33 Cada vez mais a Prefeitura, o Estado e a grande mídia afastaram-se do modelo até então praticado no carnaval paraense. Houve um momento, inclusive, em que gestores do carnaval propuseram mudanças na estrutura das escolas de samba, visando criar um “novo produto”, algo que aproximasse mais o carnaval “tradicional” – cada vez mais acusado de ser uma cópia do carnaval do Rio de Janeiro –, de uma forma regional, que pudesse apresentar um produto “típico” da região (como o Boi de Parintins) para ser bem sucedido e reverter a inevitável “decadência” do carnaval local. Ocorre que os gestores locais não atentaram para um princípio básico, fundamental: o de que os processos de produção e circulação dessas manifestações populares não podem ser constituídos de cima para baixo. Embora apropriadas, transformadas, recriadas através de diversas direções e fluxos horizontais e verticais, essas manifestações são populares, coletivas, espontâneas. Se os gestores não tem um projeto claro, o controle gerencial e a certeza do sucesso (econômico e/ou político) do projeto, desistem do investimento. Já do ponto de vista dos sujeitos que se identificam com os projetos populares ou participam das experiências dos grupos subalternos que produzem o carnaval, fica o gosto amargo do final da festa que pode acabar, mas ainda não acabou porque, como afirmam os defensores da cultura popular, “quem faz a cultura popular é o povo, e enquanto existir povo ela não vai morrer” (BOSI, 1987, p.44). E se a cultura é um processo, cuja dinâmica é produtora da vida social e da reflexividade sobre a condição humana de viver uma vida compartilhada com outros, estamos todos envolvidos nessa experiência de viver o cotidiano e refletir sobre essa realidade, mesmo que com diferentes expectativas.

Assim, quando perguntamos a Bechara Gaby porque ele não faz mais carnaval, ele respondeu: “porque não tem mais carnaval”. Quando perguntamos a Vetinho por que fazer (ou não fazer) carnaval, sua resposta foi: “porque se a gente não fizer vai acabar”. Já para Néder Charone , “o prazer do carnaval está na criação artística, a gente pensa uma coisa que vai se corporeificando e de repente não é mais só tua essa criação, é de um grupamento de gente. Eu faço carnaval porque eu gosto de carnaval”.


34 4. Considerações Finais Diante desse quadro melancólico, pintado com o tom cinzento de um cenário quase apocalíptico, como explicar a manutenção, a força, a persistência, a resiliência dessas escolas de samba, que se organizaram há oito décadas para brincar o carnaval de rua seguindo o modelo surgido na capital do país, ao mesmo tempo em que produziam diversas inovações culturais de base regional? Em um primeiro plano, acreditamos que a força dessas escolas deve-se à aceitação e participação dos moradores dos bairros onde estão situadas. Jurunas, Umarizal, Pedreira e Guamá constituíram-se como bairros periféricos de forte conteúdo étnico-cultural, onde se desenvolviam grandes festas e ritos populares nas quadras natalina, junina e carnavalesca. Ao mesmo tempo em que participavam das manifestações festivas e culturais que aconteciam nos pontos centrais da cidade, também levavam o carnaval da periferia para esses lugares centrais (Praça da República, Praça Brasil, Praça Amazonas). É próprio da escola de samba narrar a cidade e os bairros onde acontecem os eventos carnavalescos. Ao fazê-lo, reproduzem, ao mesmo tempo, estratégias de manutenção, táticas de resistência (CERTEAU, 2000, p. 45-47), formas de resiliência (HOGGART, 1970, p. 265-267), modos de vida próprios. No caso específico das práticas carnavalescas, é preciso olhar toda essa produção, desde as escolhas dos enredos até as elaborações e preparações para o desfile carnavalesco, como múltiplas falas, artísticas, estéticas e políticas sobre os lugares onde essas práticas são construídas, desenvolvidas e apresentadas, como processos de enunciação de diferentes sujeitos, em posições de subalternidade, mas que não desistem de sonhar.


35 REFERÊNCIAS

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36 RODRIGUES, Carmem I. Vem do bairro do Jurunas: sociabilidade e construção de identidades em espaço urbano. Belém: NAEA/UFPA, 2008.


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