O narrar da escola de samba e o narrar da televisão: perspectivas para o uso da transmissão televisiva de carnaval como fonte histórica1 LEITE, Willian Tadeu Melcher Jankovski (mestrando em História) 2 Universidade do Estado de Santa Catarina/SC Resumo: Este artigo discute o uso dos registros audiovisuais das transmissões televisivas de desfiles de escola de samba como fonte histórica a partir dos conceitos de campo, instâncias de consagração e legitimação e valor simbólico, de Pierre Bourdieu, e das noções de duração social propostas por Fernand Braudel. Para isso, apresenta a formação do modelo narrativo das escolas de samba, com suas permanências em formato e processo de produção que permitem caracterizar uma certa imobilidade, dentro da qual ocorrem inúmeras nuances que, embora não alterem a estrutura geral do funcionamento da escola de samba, são significativos na relação indissociável entre acontecimento e estrutura, como proposto por Braudel. Apresenta também a formação de um modelo de transmissão televisiva do carnaval no âmbito nacional, mas com atenção especial para Florianópolis, recorte de pesquisa do autor. Por fim, problematiza as relações entre a narrativa da escola de samba e a narrativa da televisão, bem como a adaptação das escolas de samba à transmissão televisiva que amplia a gama de possibilidades de criação de narrativas para os produtores culturais do carnaval. Palavras-chave: escolas de samba; televisão; narrativa; fontes históricas.
Impõe-se como uma relevante discussão à História do Tempo Presente no Brasil, dada a penetração social e o enraizamento cultural das narrativas construídas pelas agremiações carnavalescas, a análise das transformações que um texto de enredo de escola de samba sofre até se tornar um desfile transmitido pela televisão. Por outro lado, é necessário mapear o processo de consolidação desse formato de narrativa e transmissão televisiva. Ao se debruçar sobre a narrativa de escola de samba como problema de pesquisa, o historiador encontrará, de partida, dois aspectos elementares que devem ser dissecados
1 Trabalho apresentado no GT de História da Mídia Audiovisual e Visual, integrante do 10º Encontro Nacional de História da Mídia, 2015. 2 Willian Tadeu Melcher Jankovski Leite é mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGH/UDESC). Graduado em História pela mesma instituição com a monografia “Enredo e samba-enredo: o caso das escolas de samba de Florianópolis (19771990)”, atualmente estuda as narrativas carnavalescas nas transmissões televisivas entre 1989 e 2015, sob orientação do Prof. Dr. Rafael Rosa Hagemeyer. Também realiza produções artísticas ligadas a agremiações carnavalescas, como figurinista e autor de enredos e sambas-enredo. Currículo disponível em http://lattes.cnpq.br/7939097472721184.
antes que se passe ao exame de problemas subjacentes. São eles o ciclo de construção do carnaval ao qual à narrativa está subordinada e a formação histórica desse modelo de narrativa. A partir da noção de duração social – “esses tempos múltiplos e contraditórios da vida dos homens que não são só substância do passado, mas também a matéria da vida social atual” (BRAUDEL, 1965, p. 9) - é possível organizar elementos tão abstratos e dispersos no conjunto da atividade social que envolve as escolas de samba. Esta divisão nos leva a dois caminhos diferentes, contudo indissociáveis: a descrição de um modelo narrativo e seu processo de produção, que sofrem poucas alterações desde a década de 1940 – o “ciclo carnavalesco” de Leopoldi (1978), do qual falaremos mais adiante – se comportando com significativas permanências características na longa duração e uma série de nuances, acontecimentos e construções narrativas, mais variantes em seu conteúdo do que na estrutura que as suporta, como matizes de curta duração que não afetam as características gerais. Imaginemos o problema de pesquisa acerca da narrativa de escola de samba como os contornos da costa de um determinado espaço geográfico representado em uma foto de satélite. Avançamos nossa visualização a uma praia específica, onde percebemos movimentos, certos tipos de ondas, formações, cores, natureza: estamos em um período selecionado do processo histórico do carnaval. Direcionamos o olhar a uma fotografia em solo e recortamos a imagem de uma onda específica. Estamos, então, em um desfile de escola de samba, onda que se forma no início de um ciclo anual e deságua na areia de um carnaval e cujos contornos e movimentos estão relacionados a outros elementos da paisagem. No entanto, esta onda não é independente: ela está relacionada ao restante da paisagem e a ela se conforma, por maiores que sejam as variações de suas características específicas. É nesta restrição de possibilidades de ação que encontramos as estruturas, como um conjunto de permanências historicamente constituídas que, num tempo significativo decorrido, mantêm as escolas de samba sob um mesmo padrão de práticas, condutas e produções culturais. É uma estrutura a ser desvendada e descrita – a da narrativa derivada de um ciclo anual sob certos padrões e formas recorrentes - e uma série de acontecimentos e transformações a serem narrados acerca da formação desta estrutura e das variações encontradas na tessitura da vida social. Nos termos de Prost (2008, p. 213-5), temos um quadro, descrição situada no tempo e no espaço, mas que tem a função de sugerir uma
narrativa, como percurso no tempo que evidencia a formação desse quadro num plano cronológico. Isto é possível porque, segundo o próprio Prost, há uma temporalidade precedente a qualquer quadro e é a partir desta temporalidade que ele deve ser pensado, o que faz com que estes modelos de prática historiográfica não sejam rígidos e seja possível encontrar formas mistas. Ou, como defendeu Braudel em sua militância acadêmica, a contribuição do historiador à noção de estrutura das Ciências Sociais é remetê-la às águas mutáveis do tempo.
A formação de um modelo narrativo de desfile de escola de samba No carnaval, enredo é o nome dado à narrativa da escola de samba em seu formato consagrado na atualidade. Complexa trama de representações e leituras, é o mais abstrato dos quesitos em julgamento, por se tratar da sobreposição de camadas narrativas oriundas de expressões artísticas concomitantemente independentes e interligadas: o samba-enredo, as alegorias, as fantasias e as coreografias. Trata-se de uma construção similar – por critérios diferentes – às do historiador que escolhe o enredo como o “fio condutor mais inteligente, a identificação de um sentido que permita hierarquizar as sequências selecionadas e estruturar sua montagem” (PROST, 2008, p. 226). No mesmo sentido, a “seleção do fato, sua construção, os aspectos selecionados e o valor que lhes é atribuído dependem do enredo escolhido” (Ibidem, p. 220). Por serem, em sua maioria, narrativas de caráter histórico e terem uma capilaridade social muito desenvolvida, devem ser observadas com cuidado pelos historiadores, seja para a compreensão de discursos que concorrem com os produzidos na academia e, concomitantemente, expressam e colaboram para formar uma consciência histórica, seja para pensar na possibilidade de colaborar para essas narrativas a partir de seus critérios, mas respeitando suas especificidades de linguagem. Não discutiremos diretamente esta última possibilidade, pois ela merece debate específico, partindo das críticas do sempre provocativo Hayden White (2010) ao pretenso realismo adotado pelos historiadores em sua narrativa tradicional e à sua omissão num mundo repleto de formas de narrar – como se ainda estivessem no século XIX – que se torna extremamente instigante quando pensamos no universo audiovisual, incluindo o espetáculo promovido pelas escolas de
samba. Fernand Braudel (1965, p. 26) alerta que “ainda mais significativos que as estruturas profundas da vida são os seus pontos de ruptura, a sua brusca ou lenta deterioração, sob o efeito de pressões contraditórias”. Comparando o modelo a um barco, “o naufrágio é o momento mais importante”. O aparecimento de uma estrutura regrada e relativamente rígida na elaboração artística dos desfiles de escolas de samba é o momento de formação de um modelo de desfile carnavalesco menos espontâneo e com teor narrativo explícito, que iria caracterizar definitivamente (pelo menos até o momento atual) os desfiles das escolas de samba, que substituíram o “náufrago” modelo elitista das grandes sociedades. A compreensão da estrutura se torna mais natural – e envolvente, porque narrativa – a partir de seu surgimento. Até a década de 1940, no Rio de Janeiro, as escolas de samba desfilavam com sambas sem ligação discursiva ou narrativa com os elementos plásticos de desfile. Nos primeiros desfiles competitivos – começaram em 1932 – não havia segunda parte nos sambas e versos improvisados eram cantados (CABRAL, 1996, p. 48) e “as escolas iam disputar na Praça Onze com um dos seus sambas de terreiro” (VALENÇA, 1983, p. 35). Apesar de alguns episódios de encenações relacionadas às letras dos sambas na década de 1930, como o célebre caso em que Paulo da Portela entregava canudos de diploma aos componentes no desfile de 1936 ao som de “Teste ao samba”, foi apenas na década de 1940 que casos mais robustos de consonância entre a letra do samba e os demais elementos de apresentação começaram a aparecer e se tornar populares. O sucesso foi tão estrondoso que quando a escola Prazer da Serrinha desistiu de levar uma proposta nestes moldes para a disputa de 1946 (o samba Conferência de São Francisco foi substituído por um samba de quadra), “causou grande comoção no morro da Serrinha e jogou a escola para a 11ª colocação” (AUGRAS, 1998, p. 78). A partir de 1952, a adequação do samba ao enredo passou a ser exigida por regulamento. O narrar da escola de samba É na transição entre as décadas de 1940 e 1950 (cabe lembrar que a divisão da vida em décadas é mero marco temporal arbitrário) se conforma uma hegemonia do formato narrativo nos desfiles e, no que se refere a estas narrativas, é possível pensar
numa estrutura de comportamento cíclico anual. Segundo Cavalcanti (1999, p. 12), há nas escolas de samba uma dimensão exterior (por ser mostrada ao público), composta por “tudo aquilo que se refere ao desfile) e uma interior, das práticas do samba e das recreações da agremiação. “A vida de uma escola transcorre nessas duas dimensões e seu marco básico é o desfile – auge e desfecho de um ciclo e reinício de outro”, a ponto de prevalecer na memória “o tempo cíclico da festa: na fala e na memória, a menção à data é substituída pela referência aos enredos” (Ibidem, p. 81). Esse transcurso cíclico da vida da escola tem sua narrativa (enredo) como peça de extrema relevância, seja pela maneira como adquire significado para público e componentes, seja por todo o trabalho girar em torno de sua construção. Mussa e Simas (2010), sem usar este termo, descrevem o modelo de narrativa em vigor entre as escolas de samba do Rio de Janeiro desde a década de 1950 a partir de duas acepções de enredo que existiriam no chamado “mundo do samba”3. A primeira é o enredo teórico, ou seja, o tema proposto pela escola, geralmente na forma de um texto chamado de sinopse. A outra é sua representação em elementos plásticos e performáticos. Há, portanto, um enredo teórico e um enredo representado plasticamente. Tenho, desde a graduação, demonstrado minha discordância e reinterpretação dos conceitos destes autores sobre o samba-enredo. Por isto, cometerei a deselegância de uma autocitação extensa, porém relevante. Enquanto para eles o samba-enredo remete ao enredo teórico, aceito nas discussões a ideia de que o samba remete ao enredo teórico, mas não apenas a ele, pois é sensível a influência das transformações do enredo plasticamente desenvolvido (...) nas mudanças sofridas pelo samba-enredo ao longo do tempo. (...) Os próprios autores consideram fundamental a relação entre a representação do enredo teórico no samba e nos elementos plásticos para o conceito e a existência do samba-enredo (LEITE, 2013, p. 20)
Este é produto de uma operação na qual “o enredo (...) é apresentado pelo carnavalesco a um universo cultural específico e, nessa passagem, é novamente interpretado pelos compositores para a produção do samba, (...) [que] é sempre uma versão seletiva do enredo, que deve, no entanto,
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Leopoldi (1977, p. 34) afirma que “o mundo do samba é expressão corrente que circunscreve um conjunto de manifestações sociais e culturais que emergem nos contextos em que o samba predomina como forma de expressão musical, rítmica e coreográfica”.
elaborar seus principais episódios ou ideias” (VALENÇA, 1999, p. 35).
É desta ebulição cultural que nasce o samba-enredo, precedido por um enredo teórico e relacionado a um enredo representado plasticamente. Conforme Mussa e Simas (2010, p. 24), “é o samba cuja letra, entre outros requisitos estéticos, desenvolve, expressa ou alude ao tema da escola, que também se manifesta, paralelamente, em fantasias, alegorias e adereços”. Estas camadas narrativas coexistem em uma ambivalência de significados: podem ser lidas separadamente ou em conjunto, sendo que em cada uma destas possibilidades produzirá um sentido diferente. Circulam entre a autonomia e a dependência uma vez que “não há relação de precedência entre o enredo plástico e o samba de enredo: ambos decorrem e devem expressar, da melhor maneira possível, o enredo teórico da escola” (Ibidem, p. 24). É na sobreposição de camadas que se produz sentido no desfile e é deste conjunto que se forma a narrativa da escola de samba. Para quem assiste aos desfiles em casa, o que é possível desde meados da década de 1970 no carnaval carioca, há uma camada adicional, a da transmissão televisiva. Desde sua adoção, no Rio de Janeiro em meados da década de 1940 e em Florianópolis na metade final da década de 1970, é possível perceber o comportamento das camadas narrativas com uma organização, coerência, apresentando relações suficientemente fixas entre realidades e massas sociais que demoram a se desgastar. Este é precisamente o conceito de estrutura, caracterizada como “uma série de traços comuns que permaneceram imutáveis, enquanto em redor, entre outras continuidades, milhares de rupturas e de abalos renovavam a face do mundo” (BRAUDEL, 1965, p. 17). Não se trata de negar os matizes artísticos e culturais desta manifestação de uma narrativa construída em coletividade, mas de perceber certos padrões que se repetem de maneira muito significativa. É evidente que há matizes importantes entre o carnaval de 1940 e o carnaval de 2015, pois o desenvolvimento da linguagem e da técnica alteram as expectativas e posturas do público. Contudo, na manutenção de um modo de narrar o enredo estruturado em alegorias, fantasias, coreografias e samba-enredo temos uma certeza dificilmente contestável de que há uma expectativa do público para a prática deste modo de narrar num desfile de escola de samba. Estes matizes com os quais cada enredo de escola de samba colore a estrutura
estão diretamente relacionados à natureza polissêmica dos desfiles de escolas de samba, que é evidenciada pela variedade de produtores envolvidos em suas diferentes etapas: pesquisadores, carnavalescos, compositores, coreógrafos, dirigentes e jornalistas, entre outros. Cada um deles contribui para uma ou mais camadas narrativas, que se acumulam e interagem na produção de sentido para o espectador. Do momento em que a definição de um tema começa a ganhar forma até a massificação do desfile pela televisão, estes agentes atuam como homens e mulheres que “elaboram ideias sobre o real, as quais se traduzem em imagens, discursos e práticas sociais que não somente qualificam o mundo como também orientam o olhar e a percepção sobre essa realidade” (PESAVENTO, 2008, p. 13). Ainda que entrem em ação diferentes representações, em seus mecanismos de construção temos as definições impostas pela estrutura à qual estão subordinadas.
O narrar da televisão A disputa entre as escolas de samba do Rio de Janeiro já era transmitida nacionalmente em meados da década de 1970, ganhando relevo na década seguinte, pois “foi a vez do meio artístico ser incorporado aos desfiles, motivo de um grande aumento na audiência, aliado ao fato de que nesta época o alcance da TV já era de mais de 75% do território nacional” (SOUZA, 2004, p.19). Em Florianópolis, há registros de gravações televisivas pontuais na década de 1980 e, após uma transmissão nacional pela OM TV em 1993, o interesse cresceu e tornou a divulgação em nível estadual ininterrupta. Seria ingenuidade tomar como mera coincidência a adoção do modelo carioca de desfile narrativo na mesma época em que se iniciam as transmissões televisivas (LEITE, 2013), com constantes iniciativas de se tornar um produto televisivo similar aos carnavais do Rio de Janeiro e São Paulo, compreendendo essa permuta linguística no campo do carnaval “como outros tantos mercados que se especificam segundo a estrutura das relações entre os capitais linguísticos ou culturais dos interlocutores ou dos seus grupos” (BOURDIEU, 2007, p. 68-9). Esta tendência à repetição e às fórmulas de sucesso (no caso, a do carnaval carioca) como fetiche por um padrão que se repete na forma de clichê (não me valho aqui do teor pejorativo que o termo costuma carregar), seja no modelo de carnaval narrativo
em geral, seja na transmissão televisiva com a reprodução, nas exibições regionais, de todo o mise-em-scène feito por apresentadores e comentaristas cariocas, leva a uma analogia com o cinema como visto pelos pensadores da Escola de Frankfurt, com um exemplo bastante direto: Desde o começo do filme, já se sabe como ele termina, quem é recompensado e, ao escutar a música ligeira, o ouvido treinado é perfeitamente capaz, desde os primeiros compassos, de adivinhar o desenvolvimento do tema e sente-se feliz quando ele tem lugar como previsto. (ADORNO, HORKHEIMER, 1985, p. 118)
Não é possível entender de maneira isolada as teias que se iniciam em “um texto que nasce sob a égide da necessidade e possibilidade de ser transformado em imagem carnavalizada, palavras que só encontrarão seu destino se escaparem da narrativa escrita e forem compreendidas em narrativa visual operística” (CUNHA JÚNIOR, 2006, p. 145) e, ao final de suas complexas etapas de transformação e releitura, serão alvo das transmissões televisivas, com seu papel de simultânea revelação e construção, afinal, “diante da realidade, existem uma escolha, pontos de vista, montagem e mise-en-scène” (KORNIS, 2008, p. 13). Seja no quotidiano da escola de samba, nas arquibancadas do sambódromo ou no sofá da sala, o consumidor cultural aciona seus filtros culturais, conjunto de “dados heterogêneos e móveis” a partir do qual a audiência do desfile ressignifica as imagens conforme as camadas narrativas são sobrepostas e soma a estas camadas seu acúmulo de saberes e experiências anteriores¸ constituindo táticas diante de um modelo de historicamente formatado e que, no caso da transmissão televisiva, visa a uniformização da experiência – a estratégia da emissora4. Afinal, “a presença e a circulação de uma representação não indicam de modo algum o que ela é para seus usuários” (CERTEAU, 2008, p. 40). Há a fabricação de sentido própria do consumidor que pode diferir das intenções de cada um dos produtores. Sob outra perspectiva teórica, que nos parece mais adequada a uma análise ampliada de nosso objeto – que não se limite à produção e recepção da transmissão televisiva – devemos lembrar de Pierre Bourdieu (2007), para quem a percepção artística deve ser problematizada por meio da análise histórica da constituição de seu campo e de 4
Para as definições de estratégia e tática, ver as páginas 46 e 47 de CERTEAU, Michel de. Introdução geral. In: -. CERTEAU, Michel et al. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer, Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. v.1, p. 37-53.
suas condições sociais de possibilidades, pois o sentido e o valor simbólico são frutos de experiências coletivas que envolvem o criador e os demais agentes do campo. Entendendo o campo das escolas de samba como um universo intermediário entre os desfiles e seu contexto social mais amplo, um espaço de lutas, regras, disputas de poder entre agentes que disputam posição e legitimação, a transmissão televisiva, o julgamento, os modelos vencedores seriam, então, apenas alguns dos aspectos que, em via de mão-dupla, são causa e sintoma do valor simbólico do desfile como bem cultural. Atuam, estes aspectos, como elementos de distinção e, ao mesmo tempo, intermediários entre os “iniciados” no campo e o olhar externo. A televisão tem papel fundamental como uma instância de legitimação entre outras. Basta pensar em como um comentário na televisão busca induzir o telespectador a determinado entendimento ou em como o resultado do carnaval atribui valores aos desfiles (internos ou externos ao campo). Pensar a transmissão televisiva do carnaval como fonte histórica requer compreender que, “para ser filmado, o real está submetido a uma verdadeira roteirização” (LAGNY, 2009, p. 113). Esta pode ser consciente ou inconsciente, mas se faz presente nas transmissões televisivas, por exemplo, através de esquematizações que procuram dar tempo de exposição similar aos mesmos elementos de desfile de escolas diferentes, mesmo que seu desempenho, relevância ou mesmo impacto estético subjetivo sejam, por óbvio, diferentes. Neste sentido, estas transmissões são estabelecedoras do desfile como acontecimento, bem como instâncias de consagração e legitimação. Se, para Pierre Nora (1988), o acontecimento no tempo presente não é mais “criado” pelo historiador, mas tem diversas origens que fazem o historiador se debruçar sobre acontecimentos definidos como tal por outros, a análise das transmissões televisivas exige a sensibilidade a este lugar do acontecimento no tempo presente. Afinal, os desfiles já são imediatamente alvo até mesmo de juízo de valor e da constituição de valores simbólicos. Os comentários difundem valores e as narrações perpetuam percepções e memórias acerca do enredo da escola de samba que podem ser diferentes daqueles originalmente propostos pelos artistas e, até certo ponto, mais difundidos entre os iniciados no campo do carnaval, que acompanharam as etapas anteriores ao desfile e tiveram acesso aos materiais de apoio à sua leitura. Contudo, esta percepção do desfile estabelecido midiaticamente como
acontecimento em nada abala a estrutura. Como lembra Braudel (1965, p. 10), o acontecimento “é explosivo, ruidoso. Faz tanto fumo que enche a consciência dos contemporâneos; mas dura um momento apenas, apenas se vê a sua chama”. A ele, “anexa-se um tempo muito superior à sua própria duração. Extensível até ao infinito, unese, livremente ou não, a toda uma cadeia de acontecimentos, de realidades subjacentes”. Se, em nossa sociedade, a televisão é encarada como acesso à existência social e política (MARTÍN-BARBERO; REY; 2004, p. 87), a emissora específica que transmite determinado desfile, agente no campo da televisão, atua como instância de consagração e legitimação no campo do carnaval. Esta troca, muito significativa socialmente para as escolas de samba, é ainda mais evidente quando percebemos que a história destas agremiações é uma história do popular que busca sua inserção no mercado de bens simbólicos do qual é, originalmente, um excluído (GARCIA CANCLINI, 2008). As escolhas das emissoras na produção das transmissões do carnaval ajudam a reforçar seu papel como instância de consagração. O formato deriva das transmissões esportivas: há um narrador com função semelhante à do narrador de futebol, aquele que narra todas as ações. Há também comentaristas, que nos remetem à discussão de Marc Ferro (1992) ao tratar o cinema como fonte histórica. Ferro destaca a necessidade de diferenciar a atuação e a percepção de quem se interessa pela linguagem (no caso do carnaval, os envolvidos nas etapas internas da agremiação) e o grande público (alcançado pela transmissão televisiva, principalmente). Somos levados então a uma figura que articula as duas dimensões: o comentarista, geralmente um indivíduo com trajetória reconhecida no campo do carnaval ou um acadêmico, estudioso externo ao campo que, primeiro, fez dele seu objeto de estudo e, depois, tomando esse estudo como legitimador, passa a interferir no valor simbólico das produções sequentes ao momento inicial em que estudou o campo. Por fim, também é importante a atuação dos repórteres de pista, que descrevem os acontecimentos corriqueiros, os imprevistos, no que a informação sobre a quebra de um carro alegórico ou sobre a aproximação do limite do tempo de desfile se assemelha à informação sobre uma lesão de um jogador de futebol. Muitas vezes, os profissionais escolhidos para atuar nas transmissões de carnaval atuam cotidianamente na esfera esportiva. Exemplos latentes disso são as escolhas da Rede Globo para a apresentação do carnaval carioca, que já contou com Léo Batista, Fernando Vanucci, Cléber Machado e Luís Roberto. Em Florianópolis, a transmissão foi
protagonizada em diversos momentos da década de 1990 por Roberto Alves, conhecido pela atuação no jornalismo esportivo no rádio e televisão. A partir do momento em que os desfiles começam a ser transmitidos, passou a existir entre o campo do carnaval e o campo da televisão uma intersecção que permite a ocorrência de poderosas trocas simbólicas. Podemos perceber uma significativa diferença entre os enredos e os materiais produzidos pelas escolas de samba antes da transmissão televisiva em Florianópolis e depois da transmissão televisiva. Antes os enredos tinham temáticas mais pontuais e lineares, que supomos permitir ao público uma leitura mais imediata, que dispensa explicações, dada a familiaridade com o tema ou a fácil conexão entre os elementos visuais. Quando a Unidos da Coloninha desfilou em 1985 com seu célebre “Na boca da noite”, por exemplo, as alas representavam a estrelas, planetas, cometas e outros elementos característicos da noite. Os enredos desta época não se desenvolviam de maneira tão complexa como atualmente, quando há ligações entre temporalidades diferentes, realidades geográficas diferentes, etc. Comparando-se os cadernos produzidos pela Secretaria de Turismo de Florianópolis (SETUR) entre 1977 e 1990 reunindo as informações de desfile de todas as escolas de samba aos cadernos produzidos pelas escolas de samba entre 2001 e 20155, é possível perceber que a era da transmissão televisiva tornou os materiais mais complexos: as sinopses dos enredos se tornaram mais extensas e detalhadas e os roteiros de desfile explicam mais densamente as alas e carros alegóricos, o que passa a ser uma necessidade fundamental para a televisão que. No caso de Florianópolis, as transmissões televisivas foram, até a década de 1990, marcadas por certa informalidade e pouco compromisso com a narrativa dos enredos. O narrar da televisão era mais preocupado com os acontecimentos na pista e as opiniões de comentaristas eram eivadas de maior teor crítico. A partir da década de 2000, sobretudo com o monopólio de transmissão da RBS TV iniciado em 2006, há uma adesão gradual ao “padrão Globo”, marcado pela descrição de cada ala e carro alegórico. Comparações simples entre os cadernos produzidos pelas escolas de
Estão disponíveis no acervo da Casa da Memória, localizada em Florianópolis, cadernos produzidos pela SETUR entre 1977 e 1990, contendo diversas informações sobre o carnaval da cidade, incluindo apresentações de enredos e roteiros de desfile das escolas de samba. Até o momento, não foram encontradas informações sobre o ano de início e o ano de encerramento da produção desses cadernos. Na mesma instituição, é possível encontrar o caderno da escola de samba Consulado do ano de 2001. Outros cadernos recentes foram consultados em acervos pessoais. 5
samba e as falas dos narradores permitem perceber que é muitas realizada a leitura literal dos roteiros de desfile, numa prática fundamental para o aumento da complexidade dos enredos de escola de samba6. Se Lev Kulechov empreendeu uma “demonstração radical do predomínio absoluto da montagem sobre cada imagem singular” no intento de entender o sucesso dos produtos de Hollywood e percebeu que “o fator fundamental responsável pelo sucesso americano é o ritmo da montagem” (XAVIER, 2012, p. 46) porque a justaposição e o relacionamento entre os vários planos expressam o que eles têm de essencial e produz o significado do conjunto, algo similar ocorre em relação às várias camadas narrativas dos desfiles de escola de samba, que adquiririam significados diferentes caso expostas com a retirada ou alteração de uma das camadas. A narrativa com maior complexidade passa a ser possível quando é voltada para a televisão, ou seja, quando a escola de samba passa a produzir uma narrativa não mais voltada apenas para o público das arquibancadas, mas para um público muito maior que, em sua maioria, verá os desfiles por intermédio da televisão, com a reconstrução narrativa que a transmissão faz, geralmente baseada no material descritivo fornecido pela agremiação carnavalesca. Portanto, noções tão distintas como as de campo, de longa duração e de estrutura podem ser utilizadas concomitantemente para o uso das transmissões televisivas como fontes históricas a partir do momento em que, em nossas escolhas teóricas, não percamos de vista a percepção de que a teoria é apenas um instrumento para a interpretação da experiência vivida por homens e mulheres em seu tempo. Tais experiências podem ser esquematizadas de outra maneira ou reinterpretadas à luz de outras perspectivas teóricas, mas nosso olhar apenas altera a leitura feita no presente e não a experiência vivida no passado. Na permanência de um formato de um ciclo carnavalesco dentro do campo do carnaval, vemos uma tendência de longa duração, o ciclo basicamente continua o mesmo. Temos, sim, diversas nuances, como a própria intersecção com o campo da televisão, que aumenta as nuances em relação ao que diz respeito à narrativa. Esta basicamente é a ideia 6
O acesso ao registro das transmissões televisivas é geralmente dificultado pelas emissoras de televisão, quando os arquivos não se perderam. Em Florianópolis, muitos registros em VHS foram reunidos e digitalizados pelo colecionador Rodrigo Darosci, cujo acervo passou a integrar o acervo da Liga das Escolas de Samba de Florianópolis (LIESF) em abril de 2015. O autor obteve acesso imediato aos arquivos e o presente artigo apresenta considerações iniciais. Há ainda muito a ser desvendado.
de estrutura definida por Braudel (1965): a ideia de permanência que restringe a ação. A mudança que percebemos só pode ser vista a partir da identificação da permanência. Não é possível falar de mudança sem falar de permanência, como não é possível falar de permanência ignorando as nuances que ocorrem no campo. Referências ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985. AUGRAS, Monique. O Brasil do samba-enredo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. BRAUDEL, Fernand. História e ciências sociais: a longa duração. Revista de História, São Paulo, v.30, n.62, p. 261-294, abr.-jun.1965. CABRAL, Sérgio. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996. 79 CAVALCANTI, M. L. V. de C. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Funarte/UFRJ, 1994. CERTEAU, Michel de. Introdução geral. In: -. CERTEAU, Michel et al. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer, Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. CUNHA JÚNIOR, Milton Reis. Paraísos e infernos: Na poética do enredo escrito de Joãosinho Trinta. Dissertação (Mestrado) – Curso de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1992. GARCIA CANCLINI, Néstor. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 2003. KORNIS, Mônica Almeida. Cinema, televisão e história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. LAGNY, Michele. O cinema como fonte da História. In: Cinematógrafo: um olhar sobre a História. Salvador: EdUFBA/São Paulo: EdUNESP, 2009. LEITE, Willian Tadeu Melcher Jankovski. Enredo e samba-enredo: o caso das escolas de samba de Florianópolis (1977-1990). 2013. 145 p. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) - Universidade do Estado de Santa Catarina, Curso de História, Florianópolis,
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