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Provaremos ao subúrbio e toda a cidade: Memórias e identidades através do G.R.E.S. Império Serrano

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Provaremos ao subúrbio e toda a cidade: Memórias e identidades através do GRES Império Serrano ALESSANDRA TAVARES DE SOUZA PESSANHA BARBOSA* Deixei minha mente vagar E no rastro da memória O Império vem mostrar Histórias da nossa história (JANGADA: 1990)

A epígrafe que faz parte de um dos sambas enredos da escola de samba Império Serrano nos remete à reflexão sobre memória e história. Como matéria prima da história, a memória, em diferentes meios sociais, apresenta-se de maneira difusa. A memória assume uma relação dialética com a história na medida em que, através da primeira, diferentes grupos sociais baseiam os discursos que lhes dão existência. O recurso memorialista é utilizado por grupos sociais na construção de discursos identitários, e através destes discursos o historiador se depara com a relação entre memória e história. Ao se lançarem à pesquisa histórica que contempla a memória, os historiadores se acham em território movediço. Acostumados ao tempo passado1·, deparam-se com o aspecto subjetivo da construção e/ou reconstrução das lembranças. Assim, faz-se necessário considerar que a memória de um fato está perpassada pelos valores que a experiência individual forja ao longo do tempo. Desta forma, assim como em Bosi, o historiador deve observar que: “Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ele não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas ideias, nosso juízos de realidade e de valor.” (BOSI, 1994) A dualidade entre o coletivo e individual na constituição das identidades pode ser encontrado na constituição das memórias. Na direção da construção de um discurso memorialista, que dá continuidade à identidade aos grupos, a memória seria um

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Mestre em História Social – PPGHS- UERJ/FFP

Em relação às fontes históricas. Mesmo a um passado próximo, como a história do tempo presente, o passado é o tempo que o historiador está habituado a utilizar.


elemento constituinte de um sentimento de identidade, que dá coerência e continuidade às memórias coletivas. Segundo Pollack: A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. (POLLACK, 1992:.204)

De maneira geral, o termo identidade pode ser compreendido como um processo de articulação pelo qual nos identificamos com os outros, a partir do reconhecimento de alguma origem ou semelhança comum. Como efeito de processos políticos e/ou sociais, a identidade é uma categoria de representação social fundamentada na relação dialética entre o individual e o social, baseada na ideia de que o homem estabelece uma relação dupla, em que ao mesmo tempo é individual e coletivo. Neste caso, a identidade coletiva é sustentada através de interações entre os indivíduos. Diante da amplitude do conceito de identidade, considera-se relevante as concepções que envolvem as questões culturais. Para Stuart Hall, “as identidades modernas estão sendo ‘descentradas’, isto é, deslocadas ou fragmentadas” (HALL, 2002: 8). Desta forma, certo tipo de mudança estrutural estaria transformando as sociedades, “fragmentando as paisagens culturais”, abalando a ideia de sujeito integrado, na “crise das identidades”. No entanto, tal crise não seria uma perda de referências identitárias, mas o delineamento de novas formas de relação entre os indivíduos, na chamada “pósmodernidade”. A questão de identidade é colocada a partir da busca dos indivíduos por seu lugar na sociedade, construindo parâmetros próprios de identificação. Assim, novas formas de identificação são construídas na medida em que os “sistemas de significado e representação cultural se multiplicam”, uma vez que: A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. (HALL, 2002: 8)

O Morro da Serrinha e fundação do Império Serrano

Serra dos meus sonhos dourados Onde nós fomos criados Hei de morrer


Não desfarei de ninguém Serrinha custa mais [sic] vêm2

Desde as primeiras décadas do século XX, Madureira recebeu famílias que começaram a lotear o terreno e construir suas casas no sopé do Morro da Serrinha. O loteamento da Serrinha ficou a cargo da Companhia de Colonização Agrícola (FERNANDES, 2001). A respeito da questão da moradia na região, Pedrina Rocha, a Dona Pedrina, secretária da Velha Guarda da escola de samba, afirma que na época da sua mocidade, na década de 1930, no morro da Serrinha “não tinha barraco, só tinha casa; cada um melhorava a sua casa como podia” (BARBOSA, 2012: 112). Se o crescimento desordenado não foi uma característica do povoamento da região do morro da Serrinha, Nelson Fernandes, no entanto, destaca o local não era uma favela, também não era um bairro, e possuía como característica, a realidade de periferia mais pobre do subúrbio de Madureira. Assim era identificada a Serrinha: [...] comunidade situada numa encosta do Morro do Dendê que juntou com o Morro da Congonha e formou o vale que liga os subúrbios de Madureira e Vaz Lobo. A Serrinha ficava num morro, mas não era uma favela e, segundo Vasconcellos (VASCONCELLOS, 991:25), teve origem num dos muitos loteamentos da Companhia de Colonização Agrícola, de propriedade do Visconde de Morais, que desde o princípio do século XX converteu em áreas urbanas as imensas áreas do subúrbio carioca ocupadas por chácaras e fazendas (GERSON:1965; RIBEIRO: 1983) . Mas se a Serrinha não era uma favela, também não era um bairro, sendo na realidade umas das periferias mais pobres do subúrbio de Madureira. (FERNANDES, 2001) A época da ocupação é lembrada por algumas famílias, como um período de dificuldade, contudo, o baixo custo da moradia superava a carência de estruturas físicas. A superação das dificuldades estruturais é mencionada pelas senhoras da região como uma época em que a felicidade era partilhada, como narrou Tia Eulália: “À noite, nós passeávamos aqui, não tinha iluminação nenhuma, tudo escuro, não tinha uma luz nas ruas para iluminar, e nós éramos felizes [...]” (OLIVEIRA, 2007). A ocupação é evocada por Tia Eulália como uma espécie de “época de ouro”, enquanto a dificuldade é destacada em contraposição à felicidade de um tempo que já se foi. Ao indicar os

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BEM-TE-VI, Carlinhos et tal. Serra dos meus sonhos dourados. Rio de Janeiro. [entre 1930 e 1940].


caminhos percorridos pela memória, na ressignificação do passado no presente, quando se dá a evocação, percebe-se uma idealização dos tempos de outrora. Apesar da falta de estrutura física, o baixo custo das moradias motivou a fixação das famílias no morro da Serrinha. Em um movimento que se aproveitava das oportunidades, o desenvolvimento da região foi sendo conquistado com táticas que partiam das lideranças locais. Os moradores resistiam às dificuldades estruturais e se mantinham com as possibilidades que lhes eram apresentadas, estabelecendo relações com o objetivo de atrair o olhar, mesmo passageiro, do Estado. Como é o caso de uma passagem conhecida na região, em que Zacarias de Oliveira3, pai de Tia Eulália, aproveitando-se de sua relação pessoal com o político Edgar Romero, negocia a instalação de uma bica no morro, solucionando uma das questões de estrutura física do local. Tia Eulália relata o episódio, um tanto extenso, mas rico em detalhes que expressam a proporção e a teatralização que a inauguração da torneira, que levaria água por anos ao morro da Serrinha, teve para a comunidade: O dia que veio esse cano foi uma festa na Serrinha! Aí o meu pai mandou que todos os moradores que estavam morando... viesse tudo de lata nova, pintada; e na hora marcada de abrir a torneira para jorrar a água, não é?[...] eles alugaram umas quatro figuras, figurante para tocar, né? [...] Aí foi no Romero, e falou: - Romero nós vamos de branco. Ele e o Romero vieram de branco. Os dois, quando foram chegando, os fogos, fogos bastante, não é? [...] Hino Nacional, pessoal de palmas, muitas palmas, não é? Eles dois levaram, o alicate, na primeira, cortaram! A música a tocar, os fogos. Aí jorrou a primeira água, na segunda água eles encheram a taça, trocaram meu pai deu a dele pro Romero, o Romero deu pro meu pai, se abraçaram e quebraram as taças. Aí, a água, e o pessoal na Serrinha... Ah! Água na Serrinha! [...]. (GANDRA , 1995:59) A localização geográfica da região também influenciou a relação dos moradores com o lazer. Distantes do centro da cidade e dos espaços de diversão, os moradores do morro da Serrinha promoviam seus próprios espaços de lazer. Nas casas das famílias, a comunidade reunia-se em torno da música e da comida farta, na criação de espaços de identificação e pertencimento em relação ao lazer local. As festas vinculavam-se a uma tradição herdeira de uma cultura do cativeiro, como o Jongo e a Umbanda, além dos

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Segundo a memória local, Zacarias de Oliveira era funcionário da Companhia de Limpeza Urbana e cabo eleitoral de Edgar Romero. Quando este ganhou uma eleição, ofereceu àquele um emprego melhor. Zacarias, porém, negociou no lugar do emprego a instalação da água para a região.


batizados, casamentos e outras comemorações, onde o samba estava presente. Havia um calendário festivo religioso baseado na devoção de cada anfitrião, como diz Boy: O Dia dos Pretos-Velhos, comemorado no dia 13 de maio, é também o Dia da Abolição da Escravatura e, por ser uma data importante para a população negra, os jongueiros costumavam se reunir na casa de um morador para uma roda de jongo em homenagem aos antepassados. Na ocasião, preparavam uma feijoada, comida dos Pretos-Velhos segundo a umbanda, e antes de abrir a roda cantavam três pontos para as almas. (BOY 2006: 48-49) Nos momentos de festa, a tradição dos fazeres e dos lazeres eram disseminados e perpetuados entre as famílias. As práticas culturais funcionavam como amálgamas que levavam ao estreitamento dos laços de solidariedade, na articulação e na extensão das relações locais, como sugerido nas palavras de Tia Eulália: “Eu fui quem dei o primeiro jongo na Serrinha [...], aí, depois do jongo, o pessoal veio dançar; a minha comadre Maria Joana 4 dançava no meu terreiro” (OLIVEIRA, 2007). Algumas famílias que exerceram liderança cultural na região faziam parte deste contingente de pessoas que migraram da região do Vale do Rio Paraíba para a localidade. Os Monteiro, de Valença, e os Oliveira, de São José de Além Paraíba, em Minas Gerais, compunham dois núcleos culturais que se fixaram no Morro da Serrinha. Maria Joana Monteiro5 consagrou-se no Morro da Serrinha por sua liderança espiritual, como Mãe de Santo e por fazer parte de um tronco familiar que tomou para si a continuidade do jongo da região. Tia Eulália, pó sua vez, foi fundadora da GRES Império Serrano, participando da escola até seus noventa e cinco anos. Estas mulheres fazem parte da história de liderança familiar que teciam espaços de lazer desenvolvidos no seio das famílias e que depois, gradualmente, avançaram para o espaço público. Nas festas familiares, identifica-se a dinâmica dos lugares de interação, a integração das ações e das práticas culturais que constituem a relação com o local. As interações através das festas fizeram parte de um processo histórico de valorização do grupo social com o meio. A festa e seus elementos, como a música, são extremamente importantes para a relação entre o homem e o meio, pois essas manifestações sempre refletiram o modo como os grupos 4

Maria Joana Monteiro foi líder religiosa e uma das matriarcas do jongo no Morro da Serrinha. A partir de sua liderança, aspectos modernizantes foram aceitos na prática do jongo para que este não se perdesse com a morte dos mais velhos. 5

Nascida em 1902.


sociais pensam, percebem e concebem seu meio ambiente, e ainda valorizam mais ou menos certos lugares. (FERNANDES, 2004: 4) Os espaços de lazer na Serrinha seriam locais construídos para firmar e possibilitar a integração do grupo, gerando uma proximidade através das práticas culturais, que variam em conteúdo e forma. Os momentos de festa estreitavam a relação cotidiana entre os moradores, forjando proximidades. A coexistência de diferentes estilos de vida e visões de mundo revelava-se de forma mais evidente nos momentos de festa, gerando laços. A integração do grupo numa ação coletiva gerada pela fundação e consolidação do GRES Império Serrano, sustentada por crenças e valores compartilhados, marcava a relação dos moradores do morro Serrinha com suas práticas culturais. Segundo a história desenvolvida pela literatura que estuda o Império Serrano e as narrativas dos integrantes da agremiação, houve uma articulação dos insatisfeitos da Escola de Samba Prazer da Serrinha e de outros blocos da região, cujas famílias abriram as portas de suas casas, onde as reuniões para a fundação e a sede da nova escola de samba tiveram lugar. Sobre esse movimento, declara Luiz Fernando Vianna: Pouco depois do carnaval, em 23 de março, os descontentes reuniram-se na casa da Eulália Oliveira, na Rua da Balaiada, no alto da Serrinha, e criaram o Império Serrano, absorvendo ainda integrantes da Unidos da Congonha e da Unidos da Tamarineira, também do morro. (VIANA, 2004: 76) A Escola de Samba Prazer da Serrinha era considerada a representante da comunidade nos campeonatos de escolas de samba no Rio de Janeiro. Os primeiros campeonatos entre as agremiações foram patrocinados pelos jornais cariocas. Coube ao jornal “Mundo Sportivo”6 o pioneirismo na organização dos desfiles das escolas de samba, em 1932. A partir da iniciativa dos jornais, os líderes das agremiações se organizaram e fundaram em 1934 a União das Escolas de Samba (UES). Com objetivo de organizar as exibições públicas e a “obtenção de favores e outros interesses que [se] revertam em benefício para as filiadas” (CABRAL, 1996), a UES adquiriu os subsídios financeiros e a oficialização dos desfiles.

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Segundo Sérgio Cabral, o acervo do jornal Mundo Sportivo se perdeu, as notícias que envolviam sua participação como instituição promotora do evento pode ser pesquisada através de outros jornais da época. Ver. CABRAL, Sérgio. As Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996.


A Escola de Samba Prazer da Serrinha foi participante do processo de organização e oficialização dos desfiles. No entanto, segundo a narrativa local, a relação dos integrantes com o seu presidente, Alfredo Costa, era conturbada, pois era acusado de ser arbitrário em sua administração. Do carnaval de 1945 ao de 1947, uma série de desentendimentos por parte dos integrantes em relação à administração da escola de samba motivou o movimento que levou à fundação do Império Serrano. Dentre os desentendimentos com a administração da Prazer da Serrinha, houve o episódio de 1945, quando o Mestre Fuleiro 7, diretor de harmonia, quebrou as alegorias em protesto contra as decisões de Alfredo Costa. Naquele ano, a escola de samba foi à Praça Onze sem suas alegorias e fantasias, sem o objetivo de concorrer; apenas para se fazer presente. Em 1946, houve a substituição do samba que, segundo o discurso local, levou à cisão dos componentes da Prazer da Serrinha. Por conta de um desentendimento com a Ala dos Compositores, Alfredo Costa decidiu, no momento do desfile, substituir o samba “A Conferência de São Francisco”8, de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, pelo samba “Alto da Colina”, de Albano, que não tinha ligação com o tema do desfile, revoltando componentes e compositores. Segundo a narrativa local, teria sido por conta da substituição do samba que a Prazer da Serrinha obteve o décimo primeiro lugar no campeonato das Escolas de Samba (VALENÇA & VALENÇA, 1981 e CABRAL, 1996) . Eulália do Nascimento9, ao narrar os acontecimentos do desfile de 1946, reforça o discurso local a este respeito: O Império Serrano aqui surgiu por procedência de aborrecimentos, todos nós aqui éramos Serrinha, todos nós aqui saímos na Serrinha, no Prazer da Serrinha. Nós fizemos um carnaval Conferência da Paz, muito bom o carnaval, e nós tínhamos até plena certeza que podíamos não ser os campeões, mas nós íamos ser classificados em algum lugar, vínhamos em algum lugar no desfile, quando chegou o momento [...] chegamos lá, era na Praça Onze, era na Praça Onze que era antigamente, a Serrinha chegou entusiasmada, os rapazes 7

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Antônio dos Santos. Nascido em 1911. Este samba ficou conhecido também como “A Conferência da Paz”.

Eulália era membro da família Oliveira. Adotou o sobrenome Nascimento de seu marido, para que não haja confusões sobre sua ligação familiar, será referida da mesma forma como ficou conhecida na região: como Tia Eulália.


vestidos de alferes aquelas roupas bonitas, as meninas, nós todos esperando o samba que era da Conferência da Paz , o seu Alfredo Costa canta o samba de terreiro que não era o samba, era um samba da quadra, um samba comum. (OLIVEIRA, 2007). Mesmo com as insatisfações derivadas do carnaval de 1946, a Prazer da Serrinha conseguiu reunir sua Ala de Compositores e saiu no Carnaval de 1947 com o samba enredo composto por Silas de Oliveira de Mano Décio da Viola, alcançando o sétimo lugar (CABRAL, 1996). Os descontentamentos aliados aos resultados deixaram “feridas que já não eram mais cicatrizáveis, tanto que muitos componentes haviam deixado de desfilar” (VIANNA, 2004), no carnaval de 1947.

A construção do lugar social Meu Império vamos caprichar neste carnaval nós iremos disputar a grande prova real Imperial! quero te ver no jornal como uma verdadeira glória para ficar, com nome na história Provaremos ao subúrbio e toda a cidade que nosso sonho foi realidade meu Império eu lhe digo a verdade o momento pr’a nós é muito sério oh! meu Império...10

Em um dos sambas compostos por Silas de Oliveira e Orlando, em exaltação ao Império Serrano, a nova escola de samba que se apresentava pela primeira vez no carnaval carioca de 1948, observam-se algumas questões sobre a relação entre a comunidade e o carnaval. Como porta-vozes da escola de samba, seus compositores destacaram na letra a necessidade de se fazer presente para ganhar o espaço de divulgação. Neste caso, a mídia seria o jornal, e o objetivo seria “provar” aos diferentes

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OLIVEIRA, Silas e Orlando. Rio de Janeiro. [entre 1947 e 1948]. O samba em questão é conhecido pelos pesquisadores e frequentadores da escola de samba, mas não se tem uma ficha técnica que informe o ano e o nome da música; sabe-se unicamente que foi um dos primeiros sambas compostos por Silas de Oliveira em exaltação à nova escola de samba.


espaços da cidade que o grupo disputaria o campeonato das escolas de samba para entrar na história. É provável que, além da apresentação de um carnaval que ficasse na memória, através do espaço da mídia, houvesse o interesse de “provar” a existência de um grupo social em busca de um lugar na sociedade. A menção aos espaços do subúrbio e da cidade chama atenção uma vez que estes aparecem separados em uma lógica geográfica própria para os envolvidos. Através do carnaval, o grupo se apresentaria e se colocaria na história “provando” ao subúrbio e à cidade a força de sua presença, marcando espaços diferenciados no território urbano. Os espaços referidos pelos compositores do samba não são espaços compartilhados pelo grupo do morro da Serrinha. O espaço, neste caso, adquire conotações variadas, onde a cultura popular transpassa o território da cidade, abrangendo lugares aos quais esses atores sociais talvez não tivessem acesso. Enfatizando os recursos acumulados pelos indivíduos, Gilberto Velho concebe a sociedade como um agregado de relações sociais, no qual a cultura é conteúdo, à medida que transmite recursos simbólicos que compõem os homens em sociedade (VELHO, 1989). A cultura não seria algo exterior aos indivíduos, mas um aspecto de composição destes homens em sociedade. O autor propõe a ampliação da análise considerando o dinamismo dos sistemas de interações no espaço urbano. Assim, a questão das identidades partiria da consideração das trajetórias nas quais se movem os indivíduos: Creio que uma contribuição importante para a releitura da problemática das identidades passa pela percepção do dinamismo e complexidades desses sistemas de interações, em que os indivíduos se movem, através de trajetórias que raramente são lineares num sentido restrito (...). (VELHO, 2009: 14). O deslocamento dos moradores do Morro da Serrinha para a região estava inserido no processo de segregação espacial do início do século XX, que configurou as regiões do subúrbio carioca. Diante de uma mobilidade imposta aos grupos sociais menos favorecidos, a escolha do local, no caso do subúrbio e dos morros cariocas, não foi escolha simples. Quando, por exemplo, Dona Vilma11 refere-se à fixação de sua família na região, destaca que o Morro da Serrinha foi uma opção diante da necessidade,

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Nascida em 1939.


“porque era o lugar que ela [a família] achou para fazer a casa. Todo mundo era pobre” (BARBOSA, 2012: 118). A mediação social feita pelo grupo da Serrinha foi a de levar ao conhecimento dos espaços de fora da comunidade a relação que já possuíam com o local. Como espaço de interação dos atores sociais no morro, a escola de samba foi o espaço escolhido dentro do local para a inserção social do grupo nas políticas públicas. Desde os anos de sua ocupação até a fundação do Império Serrano, a relação da comunidade, diante da necessidade de encontrar caminhos para seu reconhecimento, foi desenvolvida dentro do movimento de táticas e estratégias. Michael de Certeau define a relação entre os poderes circunscritos pelos movimentos de táticas e estratégias como fundamentados pelos acasos do tempo, onde “a tática é determinada pela ausência de poder, assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder” (CERTEAU, 1994:101) Através da letra do samba, pode-se refletir sobre a relação que os compositores fazem entre a escola de samba e a questão do espaço. Quando o grupo sai da localidade e se coloca no território da cidade como escola de samba, está representando o seu lugar. A cultura popular, neste caso o carnaval, seria uma forma de se impor para fora da comunidade. Através da interação entre o espaço local interno e o espaço externo, por meio do carnaval, vai sendo construída, social e politicamente, a identidade local. Na construção das identidades coletivas, o indivíduo adequa-se aos costumes e valores dos grupos com os quais se relaciona. Sendo assim, o espaço geográfico assume um papel importante na construção de identidades ligadas às escolas de samba. Através dos processos políticos, sociais e culturais, os espaços ganham significados. As relações cotidianas, dos indivíduos com o local passam por uma espécie de construção que dá valor afetivo a certas regiões. Desta forma, alguns laços afetivos se mantêm na circulação cotidiana, através de pontos de encontros, desde espaços reservados para as tarefas diárias até os espaços de lazer, como as escolas de samba. As escolas de samba são agremiações que foram, nos seus anos iniciais, constituídas por pessoas que habitavam o mesmo lugar e que congregavam o gosto pelo carnaval. As bases da relação das escolas de samba com o lugar são os “sambistas moradores”12, pois são estes, de maneira geral, que ensaiam durante o ano, participam 12

Ao longo do tempo, estas agremiações incorporam diversos elementos externos, pessoas que não necessariamente moram na região sede da escola de samba, mas que se aproximam em épocas de carnaval. Os primeiros autores a trabalharem com o movimentos de grupos sociais exteriores às comunidades de origem das escolas de samba foram : GOLDWASSER, Maria Júlia. O Palácio do Samba: estudo antropológico da escola de samba Estação Primeira de


de eventos em datas diferentes do carnaval (quando levam o nome e a bandeira da escola, e com eles o seu lugar). As escolas de samba, neste caso, são vias de comunicação entre as comunidades periféricas e a cidade de modo geral. A noção de pertencimento a um lugar é um caminho para a construção e/ou manutenção de identidades individuais e coletivas através das escolas de samba. Para Cavalcanti, a vinculação ao local onde se encontram as sedes das escolas de samba é até hoje uma de suas características básicas, uma vez que muitas delas trazem o bairro no seu nome. No entanto, para a autora, a relação afetiva do grupo ligado às escolas de samba com o local de origem ganhou proporção ao longo do tempo, na medida em que os sambistas perceberam, em determinado momento, que a questão local é um elemento de crescimento da comunidade, uma vez que: (...) o termo “comunidade”, tão usado pelos membros das grandes escolas, repórteres e comentaristas de televisão, referese menos à mitificação de uma suposta origem do que ao necessário enraizamento de todas as escolas, grandes e pequenas, no bairro em que se situam. Os sambistas perceberam que a união da sua comunidade e o apoio de diferentes atores sociais do lugar onde a agremiação está sediada são elementos vitais para a sobrevivência e crescimento da escola de samba. (CAVALCANTI, 1994:.25) Os grupos ligados às agremiações projetam-se em suas comunidades e nos lugares que estas estão sediadas – uma espécie de prolongamento de suas identidades. Em uma análise superficial dos nomes das agremiações em diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro, a identificação com o lugar é levada desde o momento em que a escola é anunciada13, antes da sua entrada, em qualquer apresentação, como se pode observar em: Estação Primeira de Mangueira, Mocidade Independente de Padre Miguel, União da Ilha do Governador. Os sambistas são identificados não só pela escola de samba a qual pertencem, mas ao local sede destas. Para Matos e Guimarães, o momento de desfile das escolas de samba é o momento máximo da representação das identidades por apresentar-se como: [...] um “confronto de lugares”, onde cada comunidade procura mostrar sua capacidade de união e sua capacidade Mangueira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1975. e LEOPOLDI. José Sávio. Escola de samba, ritual e sociedade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010. 13

Um dos momentos de destaque nos desfiles das escolas de samba é quando a escola se coloca em posição de entrada para desfilar e os intérpretes oficiais fazem uma espécie de chamada, um “grito de guerra”, que além de incentivar os sambistas, identifica a escola de samba e o seu lugar.


organizacional na disputa com as demais comunidades. Isto se explica no fato de que o lugar habitado pelo sambista, ou o lugar onde está sediada a sua escola de samba constitui um dos principais elementos de identidade desta agremiação. (MATOS & GUIMARÃES, 2006: 280) O lugar é um dos pontos de referência no qual se constrói o diálogo entre as diferentes identidades. A escola de samba congrega uma coletividade de pessoas que possui diferentes trajetórias, as quais acabam por se encontrar diante do cotidiano de quem mora em um mesmo lugar e se interessa por um mesmo lazer, no caso, o carnaval. A ligação com o lugar ganha proporção na medida em que este se torna um dos constituintes da construção das identidades que se desenvolvem em torno da escola de samba. Deste modo, a relação entre o lugar e a escola de samba está expressa na identidade individual e, por conseguinte, constitui uma identidade coletiva. As afinidades pessoais efetivas são os alicerces da relação dos sambistas com o lugar sede da escola de samba. A cada carnaval, o sentido de lugar pode ser evidenciado. Nos desfiles, os sambistas reivindicam a visibilidade de seus lugares, e com isto as identidades, que estão ancoradas na relação dos indivíduos com suas agremiações. No carnaval há um movimento no qual a escola de samba suscita a identidade da comunidade, como um grupo unido capaz de produzir elementos culturais e do lugar. A principal referência para um sambista é a sua comunidade, termo que adquire uma conotação não só psicossocial, mas também espacial, uma vez que esta comunidade ocupa um local específico no espaço urbano. O lugar onde se encontra a sede da escola de samba e onde habitam os componentes desta escola representa a base territorial desta comunidade. (MATOS & GUIMARÃES, 2006: 280) O sentido de comunidade se manifesta através das relações sociais que os indivíduos mantêm no lugar. As bases das experiências e aprendizados dos sambistas estão fincadas na ideia de comunidade. A escola de samba seria um elemento amalgamador dos indivíduos com o lugar, na composição de uma geografia sociocultural tecida pelas escolas de samba no Rio de Janeiro. A respeito da mobilização que envolve as relações dos sambistas com as escolas de samba e com os lugares, Matos e Guimarães destacam: Estes cenários são próprios dos muitos lugares que existem na metrópole carioca, onde a força do carnaval reflete a força do lugar. A sobrevivência da cultura do samba na cidade dos


cariocas e a identidade socioespacial dos sambistas com suas comunidades fazem o Rio de Janeiro das escolas de samba se apresentar repleto de significados e valores, de cooperação e conflito, de experiências e práticas; portanto, um lugar por excelência. (MATOS & GUIMARÃES, 2006: 292) A segregação espacial de diferentes grupos sociais é uma realidade em espaços urbanos. De maneira imposta ou autoimposta, os processos de segregação traçam certo perfil de algumas regiões na cidade do Rio de Janeiro. Madureira pode ser visto como um exemplo da intervenção cultural dos grupos sociais que ali se fixaram. Considerada como a capital do samba e do subúrbio por conta das diferentes manifestações musicais, essa região foi identificada por seus moradores como possuidora de um perfil delineado pelas tendências festivas dos grupos da localidade. Tal concepção contempla as transformações dos espaços físicos em lugares onde laços afetivos são estreitados e objetivos são traçados. Neste caso, o espaço urbano seria considerado como resultado de um processo cultural que se realiza em variadas formas de comunicação entre os grupos sociais que compõem estas regiões. Através das escolas de samba, parte de uma célula social se liga ao local de maneira afetiva. Esta relação com o local é o que nos primeiros momentos do surgimento das escolas de samba levou-as a ganhar força, gerando uma coesão entre os moradores ligados às práticas culturais engendradas pela realização do carnaval. A comunidade aqui não é entendida somente como espaço físico geográfico, mas como parte constituinte da identidade coletiva. Assim, a questão local ganha complexidade quando, em dado momento, as escolas de samba adquirem maior importância e tornamse elementos a serem considerados em direção às construções de identidades dos próprios locais. Em uma relação dialética, o local é parte da identidade coletiva das escolas de samba e de seus componentes, assim como é constituído destes mesmos componentes e escolas de samba. A partir da análise de aspectos culturais dos grupos que se deslocaram para o Morro da Serrinha, identifica-se um processo de deslocamento familiar baseado na atração exercida inicialmente por amigos. A aproximação entre as famílias locais é motivada não somente pela supressão das carências físicas da localidade, mas também pelas afinidades. Através de um calendário de festas, casamentos e batizados, amizades foram sendo aproximadas, famílias foram sendo estendidas. Por esse viés, pode-se pensar como os aspectos culturais estão ligados às diferentes estruturas que dão sentido à vida social. O carnaval das escolas de samba


adquiriu um significado que vai além da festa popular. É possível contemplar os caminhos estabelecidos pelos populares em direção ao diálogo entre os aspectos culturais, políticos e sociais, em uma espécie de extrapolação das festividades e do carnaval como diversão. A escola de samba tornou-se uma ferramenta na direção da negociação. A construção das identidades dos moradores do Morro da Serrinha baseou-se na memória de práticas culturais, entendida, também em Pollak, como constituinte da identidade. Festas de aniversários e ladainhas seguidas de jongo e pagode, em homenagem aos santos de devoção, eram comemorações em que os laços se estreitavam e que atingiam maior dimensão nos dias de carnaval, quando os moradores se faziam representar para além dos limites da comunidade, atuando em seus blocos ou escolas de samba. Dessa maneira, em direção à construção de um lugar social para a região e para os seus moradores, as práticas culturais, antes dispersas nas casas das famílias, passaram por um processo de adaptação e centralização. Houve no Morro da Serrinha um processo de associação de uma narrativa que evoca a memória da fundação da Escola de Samba Império Serrano a outra que se liga a um projeto orientador da construção de identidades de seus moradores. A articulação entre projeto e memória “ao dar significado à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade” (VELHO, 2003:101), foi um caminho de ação dos grupos da região para atrair o olhar, mesmo que passageiro, de políticas públicas e/ou de ações individuais externas que pudessem favorecer a comunidade. Como mecanismos que possibilitam a relação entre os indivíduos em grupo, memória e identidade são categorias que permitem que os espaços individuais sejam compartilhados em uma experiência coletiva na construção de identidades, levando ao reconhecimento de um pertencimento que promove coerência individual ou coletiva. Trata-se de um passado histórico lembrado em suas práticas culturais, gerando uma identificação da região e da sua comunidade como possuidores de uma história/memória particular que os diferencia dos demais moradores das favelas cariocas. A história da fundação da escola de samba passou por um processo que se fez reconhecido e reproduzido pela comunidade através da participação coletiva do grupo. A fundação do GRES Império Serrano, inserida em uma narrativa de ruptura das relações individuais, acabou por aglutinar os discursos e, por conseguinte, os grupos, dando coerência a uma espécie de sentimento identitário para a comunidade local.


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