(RE) CONHECENDO OS BLOCOS DE ENREDO DO RIO DE JANEIRO
RECOGNIZING AND PERCEIVING THE BLOCOS DE ENREDO OF RIO DE JANEIRO JÚLIO CÉSAR VALENTE FERREIRA | jcvferreira@hotmail.com
Nota biográfica Graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Cursa doutorado em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Atualmente, é professor assistente do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ); desenvolve pesquisas na área de Antropologia Urbana, nos setores de atividades artísticas, criativas e de espetáculos. Resumo O presente artigo tem como objetivo apresentar a inserção dos blocos de enredo no contexto do carnaval da cidade do Rio de Janeiro e compreender a posição e a importância desta manifestação cultural na configuração do carnaval carioca. Palavras-chave Blocos de enredo – Carnaval - Rio de Janeiro
Abstract
This article aims to present the insertion of blocos de enredo in the context of the carnival city of Rio de Janeiro and understand the position and importance of this cultural event at the Rio de Jaaneiro carnival setting. Keywords Blocos de enredo – Carnival - Rio de Janeiro
Anais Congresso Internacional Artes, Patrimônio e Museologia Tema: Territórios, Comunidades e Sustentabilidade De 19 a 22 de Agosto de 2014 ISBN 978-‐85-‐62364-‐03-‐7 Programa de Pós-‐Graduação em Artes, Patrimônio e Museologia Universidade Federal do Piauí Campus Ministro Reis Veloso Parnaíba, Meio Norte do Brasil
Introdução Ao conduzir pesquisas sobre as escolas de samba dos últimos grupos de acesso que desfilam no Rio de Janeiro, cujos primeiros resultados podem ser encontrados nas publicações de Ferreira (2012; 2013) e Ferreira e Lobo (2012), deparou-se com a realidade dos blocos de enredo; pois, desde 2011, o regime hierárquico estabelecido pelas entidades gestoras dos desfiles das escolas de samba e dos blocos de enredo e pela Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A. (Riotur) envolve a ida das últimas colocadas no desfile das escolas de samba do último grupo de acesso (atualmente, Grupo de Acesso D) para o primeiro grupo da Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FBCERJ) e a ida da primeira colocada da Federação para o último grupo de acesso das escolas de samba, organizado pela Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro (AESCRJ). Esta hierarquização imposta chamou a atenção para a existência de uma manifestação carnavalesca, atualmente pouco divulgada, mas que ainda se estabelece como contraponto às escolas de samba no que tange às competições carnavalescas. Barbieri (2013) também destaca esta existência e as relações com as escolas de samba ao realçar que “[...] paralelamente a esse mundo das escolas de samba, uma outra forma carnavalesca – os blocos de enredo – convive com esse sistema em constante interseção, pois a cada ano há blocos que viram escolas e escolas que viram blocos”. (BARBIEIRI, 2013: 20). Da Matta (1997) já chamava a atenção para o fato de que o carnaval na cidade do Rio de Janeiro não se resumia somente aos desfiles das grandes escolas de samba. O autor constatou que muitos outros grupos (na época da primeira edição da publicação) compartilhavam o espaço carnavalesco. Desses, o único grupo diferente das escolas de samba que mantêm na atualidade seu aspecto de competição é o relativo aos blocos de enredo. As referências aos blocos de enredo não aprofundam as questões relativas a essa manifestação carnavalesca. Basicamente, encontram-se breves referências sobre o fato de existirem e o paralelismo estético e musical dessas em relação às escolas de samba. O material mais extenso sobre blocos de enredo é encontrado em Riotur (1991), onde se situam informações sobre os locais de desfiles, os resultados dos concursos e nome, endereço, data de fundação e cores das agremiações. Mesmo em trabalhos específicos direcionados aos blocos, como os publicados por Barros (2013) e Pimentel (2002), não há menção aos blocos de enredo.
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1 Identidade dos blocos de enredo: primeiras discussões “Os blocos são a explosão mais espontânea do carnaval carioca. Em geral um bloco nasce da decisão de vizinhos da mesma rua e do mesmo bairro”. (COSTA, 2001:175). Os blocos podem apresentar uma estrutura mais fechada ou formas mais livres. A importância desse tipo de manifestação carnavalesca é destacada por Valença (1996). Este carnaval livre e alegre fica por conta das centenas de blocos carnavalescos que existem em nossa cidade. Inscritos ou não em entidades representativas, oficiais ou não, eles aí estão em todas as regiões da cidade para provar que as formas populares de brincar na rua têm raízes profundas em nossa cultura. (41-42)
Em matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 23 de fevereiro de 1979, e transcrita por Pereira (2003), definem-se os tipos de blocos que até a atualidade desfilam no carnaval carioca: Há três tipos de desfile de blocos: de enredo, de empolgação (antigo bloco de embalo) e o bloco de sujo. Na verdade, a escola de samba nasceu do bloco, que apresenta um enredo com menor rigor, mais leve e mais rápido. O bloco pode ser definido como um desfile de carnaval, enquanto a escola já é um verdadeiro teatro ambulante. Cada bloco se fantasia de acordo com o enredo [...] O número de participantes varia de 300 até duas mil pessoas. Enquanto o bloco de enredo funciona exatamente como uma escola de samba – sujeito a um rígido regulamento que prevê enredo, formação de alas, mestre-sala e porta-bandeira – o bloco de empolgação [ou de embalo] não possui enredo e os quesitos julgados são samba e empolgação, música e bateria. Mas não se preocupam com alegoria e estandarte. Já o bloco de sujo não precisa ser filiado à Federação dos Blocos, só necessitando se inscrever na Riotur. (PEREIRA, 2003: 68; grifo nosso)
Pelo fato de existirem semelhanças estéticas e musicais entre os blocos de enredo e as escolas de samba e da origem de muitas escolas de samba ter sido um ou mais blocos de enredo, tende-se a identificar os blocos de enredo como escola de samba de proporções reduzidas. Diversos autores centram esta similaridade com as escolas de samba para caracterizar este tipo de manifestação carnavalesca. ‘Os blocos de enredo eram escolas de samba em escala reduzida, que desfilavam e competiam.’ (COSTA, 20: 177). ‘Embora funcionando como uma sub-escola de samba, o bloco de enredo mantém diferenças fundamentais com a escola de samba, pela presença do estandarte e a ausência de carros alegóricos.’ (FERNANDES, 1986: 24; grifo nosso). ‘Nas noites de sexta e sábado desfilam na Intendente Magalhães os blocos de enredo dos grupos de acesso. São grupos pequenos, protótipos de escolas de samba [...].’ (FERREIRA, 2008: 98; grifo nosso). ‘Os blocos de enredo podem ser definidos como “mini-escolas de samba”, uma vez que além das fantasias são confeccionadas também algumas alegorias.’ (SANTOS, 2012: 21; grifo nosso).
Porém, destaca-se que nem todas as visões sobre os blocos de enredo comungam deste tipo de caracterização. Entendendo que há uma construção de identidade que caracteriza esta manifestação carnavalesca, Valença (1996) e Barbieri (2013) pontuam: Em 1965 se tornam oficiais e se organizam em duas categorias: de enredo e de empolgação. Os primeiros tem estrutura muito próxima à das escolas de samba, enquanto que os de empolgação, mais simples, sem alegorias ou enredos e com todas as fantasias iguais, lembram os espontâneos blocos de rua. (VALENÇA, 1996: 41-42; grifo nosso) O que caracteriza esse tipo de manifestação carnavalesca e a diferencia dos conhecidos Blocos de Embalo ou Blocos de Sujo é a estrutura competitiva semelhante àquela das escolas de samba. O porte dessas agremiações é bem reduzido, quando comparado às escolas de samba, e a diferença de importância de alguns quesitos as diferenciam das escolas de samba. (BARBIEIRI, 2013: 40; grifo nosso)
Este processo de construção de identidade é explanado por Hall (2005): Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença. (HALL, 2005: 21)
Ao dar voz aos gestores da FBCERJ, esta construção da identidade é feita sob outras condições de contorno. Em matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 08 de fevereiro de 1978, e transcrita por Pereira (2003), o então presidente da Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro, Mário Silva explicava a diferença entre blocos de empolgação e blocos de enredo: O que há é o seguinte: chamava-se embalo, mas com esse nome dava a impressão de que estava todo mundo embalado, no sentido negativo do termo, nós da Federação criamos o nome de empolgação. São blocos sem enredo, mais autênticos, de samba livre. Agora, embora livres, eles devem obedecer a uma norma reguladora, que é para não haver indisciplina. Bloco de enredo já é diferente: são blocos, como o próprio nome diz, com enredo. Já têm uma organização semelhante à escola de samba, mas não são pequenas escolas de samba. (PEREIRA, 2003: 68; grifo nosso)
Esta forma de identificar os blocos de enredo é ratificada pelos membros da atual diretoria da FBCERJ. Ao serem solicitados para definirem os blocos de enredo, os membros da diretoria da federação identificam os blocos de enredo como “a escola para uma escola de samba”. Esta fala posiciona os blocos de enredo como locais privilegiados de formação das escolas de samba, sem estabelecer qualquer tipo de hierarquização de importância no carnaval carioca. Muitas escolas de samba que desfilam atualmente surgiram a partir de blocos de enredo. Entretanto, cabe ressaltar que alguns blocos de enredo tradicionais não se transformaram em escolas de samba, como o Bloco do Barriga e o Bloco Cometas do Bispo, fundadores da FBCERJ. Como bem salienta Valença (1996):
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Os blocos de enredo, quando bem organizados, acabam se transformando, com o passar do tempo, escolas de samba [...] Outros, porém, mantêm sua condição de blocos e têm grande importância em suas comunidades [...], que fazem a alegria dos foliões alijados das escolas de samba pelo alto preço das fantasias. (VALENÇA, 1996: 42; grifo nosso)
Sobre os blocos, generalizando suas considerações para todos os tipos desta manifestação, DaMatta (1997) pontua a demarcação de suas identidades em oposição àquelas associadas às escolas de samba. O fato de estarem organizados de modo muito mais simples do que as escolas faz com os blocos acreditem que as escolas ‘não são mais obedientes à tradição carnavalesca’, estão ‘miscigenadas’ (isto é, cheias de gente de fora: de outros bairros e segmentos sociais) [...] Enquanto as escolas representam esses aspectos, os blocos seriam expressões de valores carnavalescos muito mais puros, voltados [...] para a ritualização da solidariedade dos bairros de onde provêm. Desse modo, os blocos se colocam como reforçadores do bairrismo e da vizinhança, fenômenos que tendemos a tomar como irrelevantes na nossa apreciação do mundo urbano moderno. [...] Na visão dos participantes dos blocos, as escolas seriam muito mais universalistas e voltadas para fora, enquanto eles seriam o oposto: particularistas e voltados para a tradição e para o bairro. (DAMATTA, 1997: 128-129; grifo nosso)
Este aspecto que os colocam em oposição baseado na espacialidade é pouco trabalhado academicamente, pois as escolas de samba são assumidas por reunirem pessoas com trajetórias de vida distintas, mas que possuem duas características comuns: gostam de samba e habitam o mesmo lugar (FERREIRA, 2013). Entretanto, considerando a dissociação dos conceitos de lugar e espaço físico (AUGÉ, 1994), a observação de DaMatta (1997) é pertinente e explica, por exemplo, a composição dos desfilantes em uma escola de samba e as dinâmicas empregadas para a constituição das denominadas “alas de comunidade” (alas onde as fantasias possuem preções bem módicos ou são distribuídas gratuitamente), onde o pertencimento é feito a partir da frequência aos “ensaios técnicos” das escolas de samba. Estes ensaios caracterizam-se pela repetição exaustiva do samba-enredo que será interpretado e dos movimentos que estas alas executarão durante o desfile. Desta forma, o folião que deseja desfilar em uma escola de samba escolhe em participar de uma destas “alas de comunidade” ou adquire uma fantasia por um custo monetário muito alto. Esta dinâmica não ocorre nos blocos de enredo, pois, além de serem formados por pessoas que habitam a mesma localidade, portanto tendo todas as alas uma característica de “alas de comunidade”, sem a questão dos exaustivos ensaios técnicos, não há a necessidade de dispensar grande soma de recursos para adquirir a fantasia, sendo que, em muitos casos, nem há este tipo de cobrança.
2 Estrutura organizacional e atuação no carnaval carioca Em plena ascensão das escolas de samba, na década de 60, os blocos carnavalescos se unem e se reestruturam fundando a FBCERJ em 1965, com duas categorias: blocos de enredo e blocos de empolgação (popularmente, conhecidos como de embalo) (RIOTUR, 1991). Apesar de muitas escolas de samba serem oriundas de blocos de enredo, as relações entre as entidades gestoras destas manifestações carnavalescas nunca foram harmoniosas, mesmo com a unificação nos critérios de transformação de blocos de enredo em escolas de samba e vice-versa, destacadas no início deste artigo. Desde sua fundação, a FBCERJ busca ocupar um espaço muito peculiar dentro da arena de disputas pela primazia na festa carnavalesca do Rio de Janeiro, contrapondo-se às escolas de samba (principalmente àquelas que não pertencem ao primeiro grupo da hierarquia competitiva). Esta disputa envolve principalmente a captação de mais recursos para suas filiadas nos contratos de prestação de serviços com a Riotur e o uso das principais pistas de desfile do carnaval, situadas no centro da cidade. Estas relações com a Riotur são destacadas por Gonçalves (2008), as quais são consideradas fundamentais na configuração do carnaval carioca. É importante chamar a atenção para o fato de que as redes de relações que formaram a Riotur teceram-se organicamente com as redes do mundo do carnaval. Em termos mais amplos, tais redes fizeram desses lugares ligados aos órgãos públicos espaços de conhecimento orgânico sobre o carnaval. Este é um ponto que merece desenvolvimento, pois parece indicar importantes pistas para o sucesso e o vigor dos desfiles. (GONÇALVES, 2008: 98)
Dentro da arena de disputas dos festejos carnavalescos, após o auge dos blocos de enredo no final da década de 70 e início da década de 80 (GONÇALVES, 2008), três momentos foram importantes na aceleração do processo de esvaziamento da FBCERJ e na consequente transformação de muitos blocos de enredo em escolas de samba. Primeiramente, segundo Riotur (1991), a partir de 1979, ocorre o desdobramento do desfile das escolas de samba da primeira divisão da divisão hierárquica, o que demanda a cessão de um dos dias de uso da principal pista de desfile da cidade por parte dos blocos. Com a construção da Passarela do Samba (popularmente, conhecida como Sambódromo), em 1984, na Avenida Marquês de Sapucaí, situada no centro da cidade, este processo de desdobramento é incrementado. Segundo Riotur (1991): Novamente os blocos carnavalescos são consultados para cessão [...]. Mas, os blocos [de enredo] não concordam em sair, alegando que seus desfiles são melhores do que o das escolas de samba do grupo 1-B [atual segunda divisão da hieraquia competitiva] [...], estando, portanto, suas (dos blocos) apresentações à altura das
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propostas exigidas, considerando-se, ainda, amparados pelo direito de permanência, pois há 21 anos desfilavam nesse dia [...]. Entretanto, em 1987, a resistência é vencida e os blocos carnavalescos deixam em definitivo a tradição de desfilarem na pista principal – a Passarela do Samba. (RIOTUR, 1991: 99)
Depois, em 1988, devido ao não acordo entre a Riotur e a FBCERJ sobre o valor a ser pago à segunda pela prestação de serviços no carnaval através dos desfiles, os blocos de enredo não desfilaram naquele ano. Por conta deste quadro, tradicionais blocos de enredo como Canarinhos das Laranjeiras, Difícil É o Nome e Unidos da Vila Kennedy, dentre outros, solicitaram filiação à AESCRJ. Em depoimento transcrito por Gonçalves (2008), Manoel Dionísio explicou este impasse: De 1988 a 1991, fui assistente técnico de carnaval da Riotur. Fui porta-voz dos blocos na Riotur e era eu quem representava a Riotur na Federação dos Blocos. No ano de 1988, eles fizeram uma greve e não queriam desfilar porque o dinheiro era pouco. Eu fui convencê-los a desfilar e fui voto vencido. Falei com o Secretário [de Turismo]: ‘Olha, eles não vão desfilar”. Ele então falou pra pegar esse dinheiro e convocar os blocos não filiados. E vamos fazer o carnaval de rua. E deu tão certo que ninguém se lembrou dos blocos de enredo da Federação dos Blocos. Eles tinham 350 blocos. Eu disse: “Vocês não vão desfilar um ano, quando voltar vai ser mais difícil”. E assim aconteceu. Quando voltaram, de 350, me parece que ficaram 160. (GONÇALVES, 2008: 98)
Por fim, em 1994, há uma alteração na hierarquia competitiva das escolas de samba, pois as duas entidades organizadoras dos desfiles destas agremiações entram em conflito. Com isto, a responsável pelos desfiles das principais escolas de samba, a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) cria outra liga (Liga Independente das Escolas de Samba dos Grupos de Acesso – LIESGA) dedicada aos desfiles das escolas de samba das divisões hierárquicas inferiores. Desta forma, para se manter representativa dentro do carnaval carioca, a AESCRJ filia um grande número de blocos de enredo nos dois anos seguintes, quando então a LIESGA é desfeita, retornando todos os grupos de acesso para o controle da AESCRJ. O presidente da AESCRJ explicou a Ferreira (2008) este cenário: Nesse período, a Associação [AESCRJ] teve que abrir as portas. Convidamos alguns blocos de enredo pra virar escola: como é que se ia fazer um desfile de dois dias sem escolas de samba sem desfilar? Depois, quando as escolas voltaram houve o problema do inchaço. [...] Tivemos que chamar vários blocos para virar escolas de samba e fortalecer a Associação [AESCRJ]. Muitos deles não estavam preparadas e nem queriam virar escola, mas tivemos que fazer isso. Por isso, você vê muitas escolas sendo criadas na década de 1990. (FERREIRA, 2008: 54)
Estas sucessivas disputas implicaram na queda acentuada no número de blocos de enredo participantes dos desfiles organizados pela FBCERJ. Este processo pode ser visualizado no Quadro 1, a qual mostra a evolução do número de blocos de enredo e de escolas de samba desfilantes ao longo dos anos.
N
o
A Blocos de Enredo
1 965 1 966 1 967 1 968 1 969 1 970 1 971 1 972 1 973 1 974 1 975 1 976 1 977 1 978 1 979 1 980 1 981 1 982
8
Escolas de Samba
10
51
18
50
42
45
42
46
47
38
43
42
22
43
54
40
58
40
65
44
72
44
(*1)
44
137
44
154
44
171
44
168
44
160
44
154
44
no
A Blocos de Enredo
1 990 1 991 1 992 1 993 1 994 1 995 1 996 1 997 1 998 1 999 2 000 2 001 2 002 2 003 2 004 2 005 2 006 2 007
Escolas de Samba
87
55
86
58
78
60
(*1)
63
64
66
43
65
39
69
31
69
39
65
30
67
29
70
28
70
29
68
33
71
30
72
33
72
31
72
32
72
1 983 1 984 1 985 1 986 1 987 1 988 1 989
152
44
150
44
149
45
146
45
149
48
(*2)
46
94
55
2 008 2 009 2 010 2 011 2 012 2 013 2 014
31
72
29
73
30
73
31
76
34
72
31
68
27
64
Quadro 1 - Evolução do número de escolas de samba e de blocos de enredo. (*1) Não há dados sobre o número de participantes neste ano. (*2) Não houve desfile neste ano.
Outra questão importante a ser incluída nesta análise refere-se ao histórico da participação do poder público, que durante certo tempo reduziu sensivelmente os investimentos na promoção do carnaval de rua. [...] o período de 1993 a 2008, correspondente na cidade à primeira gestão de César Maia, seguida de Luiz Paulo Conde e da segunda e terceira gestão de César Maia novamente, pode ser entendido do ponto de vista das atitudes de governança, como um bloco de quase duas décadas dirigido sob a mesma orientação política redutora do Estado e de tentativas de se alinhar às orientações mundiais da acumulação capitalista. (NACIF et. al., 2011)
3 Os blocos de enredo na ocupação do espaço público no carnaval “Os blocos carnavalescos, subdivididos em diversos grupos, contribuem para o engrandecimento do carnaval carioca, passando a desfilar nos subúrbios, oferecendo ao público novas alternativas do carnaval”. (Riotur, 1991: 99). Ferreira (2008) destaca que as escolas de samba somente passaram também a utilizar pistas de desfile fora do local de primazia dos festejos carnavalescos, o centro da cidade, em 1998, quando o número de escolas de samba já era superior ao de blocos de enredo, os quais desde a criação da FBCERJ ocupam diversas pistas de desfile espalhadas pela cidade. Mesmo com a redução do número de blocos de enredo e, consequentemente, do número de divisões
hierárquicas, a FBCERJ continua a utilizar pistas de desfile fora do centro da cidade. Para exemplificar, os Quadros 2 e 3 apresentam os locais de desfile em 1990 e 2014, respectivamente, para os blocos de enredo, e os Quadros 4 e 5, para as escolas de samba.
Grupo
Local
Bairro
Dia do desfile
Grupo 1
Avenida Rio Branco
Centro
Sábado
Grupo 2
Avenida 28 de Setembro
Vila Isabel
Sábado
Grupo 3
Rua Dias da Cruz
Méier
Sábado
Grupo 4
Estrada Intendente Magalhães
Campinho
Sábado
Grupo 5
Estrada Henrique de Mello
Oswaldo Cruz
Sábado
Grupo 6
Avenida Nélson Cardoso
Jacarepaguá
Sábado
Grupo 7
Estrada Intendente Magalhães
Campinho
Domingo
Grupo 8
Avenida Nélson Cardoso
Jacarepaguá
Domingo
Grupo 9
Rua Figueiredo Camargo
Padre Miguel
Segunda-feira
Grupo 10
Estrada Intendente Magalhães
Campinho
Segunda-feira
Grupo de Avaliação
Avenida 28 de Setembro
Vila Isabel
Segunda-feira
Quadro 2 – Divisões hierárquicas, locais e dias de desfiles dos blocos de enredo em 1990.
Grupo
Local
Bairro
Dia do desfile
Grupo 1
Avenida Rio Branco
Centro
Sábado
Grupo 2
Estrada Intendente Magalhães
Campinho
Sábado
Grupo 3
Rua Cardoso de Moraes
Bonsucesso
Sábado
Grupo 4
Rua Cardoso de Moraes
Bonsucesso
Sábado
Quadro 3 – Divisões hierárquicas, locais e dias de desfiles dos blocos de enredo em 2014.
10
Grupo
Local
Bairro
Dia do desfile
Grupo Especial
Avenida Marquês de Sapucaí
Centro
Grupo 1
Avenida Marquês de Sapucaí
Centro
Sábado
Grupo 2
Avenida Marquês de Sapucaí
Centro
Terça-feira
Grupo 3
Avenida Rio Branco
Centro
Domingo
Grupo de Avaliação
Avenida Rio Branco
Centro
Segunda-Feira
Domingo e Segunda-Feira
Quadro 4 – Divisões hierárquicas, locais e dias de desfiles das escolas de samba em 1990.
Grupo
Local
Bairro
Dia do desfile Domingo e
Grupo Especial
Avenida Marquês de Sapucaí
Centro
Série A
Avenida Marquês de Sapucaí
Centro
Sábado
Campinho
Domingo
Campinho
Segunda-feira
Campinho
Terça-feira
Grupo de Acesso B
Grupo de Acesso C
Grupo de Acesso D
Estrada Intendente Magalhães Estrada Intendente Magalhães Estrada Intendente Magalhães
Segunda-Feira
Quadro 5 – Divisões hierárquicas, locais e dias de desfiles das escolas de samba em 2014.
Mesmo com o decréscimo no número de entidades filiadas, merece o destaque o fato de que, hoje, a FBCERJ é a única entidade gestora de desfiles carnavalescos na cidade do Rio de Janeiro que organiza suas apresentações em três locais diferentes ao mesmo tempo. Atualmente, as escolas de samba organizam-se em três entidades gestoras diferentes; e cada uma organiza seus desfiles em apenas uma pista em mais de um dia.
Conclusões Os blocos de enredo permanecem como força viva do carnaval carioca com desfiles realizados em vários pontos da cidade e reunindo expressivo contingente de foliões. A força de penetração destas entidades carnavalescas persiste em muitos locais, mesmo onde já existam escolas de samba, traduzindo o conflito global/local apontado por DaMatta (1997). Apontar para os blocos de enredo não somente nos revela uma face pouco conhecida e divulgada do carnaval carioca, como também aponta para a origem de muitas escolas de samba (principalmente aquelas que hoje se encontram nos grupos de acesso da hierarquia competitiva), além dos aspectos de concentração/dispersão das celebrações carnavalescas pelos bairros da cidade do Rio de Janeiro.
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