Anais da VII Semana de História Política | IV Semana Nacional de História: Política e Cultura & Política e Sociedade Rio de Janeiro: UERJ, 2012 (ISSN 2175-831X)
O “TAL” E A CIDADE: RELAÇÕES ENTRE CIDADANIA E IMAGINÁRIO NAS CANÇÕES DE MOREIRA DA SILVA Isabelle Portes1
Resumo O artigo pretende discutir um traço do exercício de cidadania em relação ao conceito de imaginação social, através da trajetória de Moreira da Silva e de sua canção: Cidade Lagoa, que como apregoa o próprio título marca um malandro citadino. Anuncia, pois a sua relação com a cidade, entendida como a projeção dos imaginários sociais no espaço, além de sua atitude crítica diante dela. A cidade é a escala de observação para relacionar tais conceitos. Palavras-chave: cidadania, cidade, imaginário. Abstract he article discusses a dash of exercise of citizenship in relation to the concept of social imagination, through the path of Moreira da Silva and his song: Lake City, who touts himself as a “rascal” (malandro) city title tag. Announces because their relationship with the city, understood as the projection of imaginary social space, in addition to its critical attitude before her. The city is the scale of observation to relate these concepts. Keywords: citizenship, city, imaginary.
A noção de imaginário diz respeito, em certo aspecto as representações coletivas, no entanto divergem em seu significado à sociologia durkheimiana ou ao positivismo. Este movido por uma lógica cartesiana vê no imaginário um espectro de fantasias, de efeitos deformadores da realidade, nocivos ao desenvolvimento da ciência, que deveria perpassar pelo exercício de desmascaramento do plano simbólico. O imaginário para tal sociologia está presente como força construtora de coesão social, assinala a preponderância do fato, com certo imperialismo da sociedade sob o indivíduo. Para Baczo tal conceito de imaginação social é capital em todas as relações humanas, pois modelam comportamentos, mobilizam energias, legitimam violências; intervém em todo e qualquer exercício de poder, e designadamente o poder político, seja ele cotidiano ou no interior de esferas institucionais2. Nesse sentido, a ideia de imaginário que elabora traz em seu cerne uma organização dialética, na medida em que critica a impermeabilidade entre saber e prática, presente em uma série de estudos nas ciências sociais. Exercer o poder político simbólico não consiste em meramente acrescentar um “q” de ilusório a uma potência real, removendo seu vértice a fim de suplantá-lo com sonhos, fantasias, desejos, como se estes não fossem humanos ou transparecessem algo diverso da realidade. Ao contrário, a imaginação pode representar a duplicação, segundo o autor e o reforço da dominação efetiva pela apropriação de símbolos, que visam garantir subserviência, conjugando as relações entre sentido e poderio3.
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Contudo, os caminhos dessa apropriação são uma via de mão dupla: não tratam apenas de força fatal, oriunda dos aparelhos de Estado, nem mesmo representam apenas a filosofia de diferentes classes. Simbolizam tais relações, interconexões entre ambos. O imaginário social é obra e instrumento. Uma determinada classe cria sua própria identidade através destas representações de si mesmas, em relação aos ditames de um poder político dominante e também através de suas experiências e leituras do ambiente em que vivem, reelabora tais elementos simbólicos. De modo similar o Estado (Sociedade política) se apropria do imaginário “alheio” e elabora um campo simbólico que lhe é mais peculiar. Há nesse embuste certa reciprocidade, diálogo e, sobretudo luta, o que Chartier denomina de “luta de representações”4. Esta interpretação de Baczo assume parte do tecido teórico desse trabalho, posto que um de seus problemas está justamente relacionado a relação entre indivíduo e poder político: Estado e Sociedade. Tal problema é redimensionado na discussão sobre outra noção: a de cidadania ou do lugar do cidadão, a partir de um espaço e tempo: a cidade em fins da década de 1950, além ainda da pessoa e personagem de Moreira da Silva: “O Tal”. Baczo busca em autores de outrora, demonstrar como a imaginação é capital no bojo das discussões e disputas políticas, em diferentes níveis. Para Maquiavel, por exemplo, governar implica na consideração das aparências, ou seja, de uma construção de poder político baseado na máxima: “governar é fazer crer”, o que constitui uma força manipuladora, ritmada por assimilações e possibilidade de “respostas” entre criadores e receptores de tais crenças. Rousseau considerava crucial a utilização da linguagem como um campo de educação pública. Logo, símbolos, ritos e hábitos podem estar a serviço da formação de um cidadão virtuoso ou ideal. Entretanto, o autor traça, considero outros percursos ou direcionamento de foco no que tange a imaginação social, se aproximando de Marx, em certo aspecto, ainda que em seu texto assuma a postura do que denominou de “heresias ecléticas”5, característica salutar das ciências sociais de beber da água de diversas fontes: da antropologia, linguística, filosofia. Tal afluência decorre da preponderância que dá a ação (práxis). Portanto, o imaginário social, além de assinalar para a formação de identidade social, da representação ou ideia de um grupo para si mesmo ou para outrem revela uma visão de mundo, as forças reguladoras da vida coletiva, segundo Baczo, a definir o modo mais ou menos inteligível de relações de indivíduos com ela6. O imaginário tornar-se-ia inteligível e comunicável, deste modo via linguagem e discursos. Porém estes não devem ser apreendidos
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como uma propriedade individual ou psicologia autônoma. Não nos interessa, portanto Moreira da Silva como indivíduo de trajetória ímpar ou canções tomadas como singulares per se, mas sim sociedade a partir dessa trajetória, em articulação com um projeto de cidadania ideal e pedagógico, pensado por intelectuais ou Estado, através de uma escala: sua relação com a cidade, que corresponde com a projeção dos imaginários sociais no espaço. Nesse artigo a proposta é analisar um traço do exercício de cidadania, ou da relação dos conceitos propostos, através do exemplo de “O Tal”: Antônio Moreira da Silva e uma de suas canções: Cidade Lagoa, que como apregoa o próprio título marca um malandro citadino, retrator e delator da cidade. Anuncia, pois a incoerência urbana através de sua critica. Em hipótese, a trajetória e boa parte das canções de Moreira apresentam essa espécie de “resposta”, como já mencionado ou alternativa aos projetos de cidadania que lhe são correlatos e postos. O cidadão ideal, por exemplo, durante o Estado Novo seria aquele, cujas atuações e comportamentos estivessem coadunados com um projeto de modernização via trabalhismo; ou via transformações urbanas estendidas às duas décadas posteriores, como nesse caso. Ao longo do século XX, de acordo com Milton Santos esse cidadão ideal (trabalhador) torna-se um cidadão mutilado, em sua capacidade plena de cidadania, substituído por um reforço sua prática apenas como consumidor. A cidade, nesse sentido é tomada como espaço, em que é passível tal observação: seu habitante e a construção de alternativas. Mas por que Moreira da Silva: O Tal, O Último Malandro, seus personagens e não apenas Antônio7? Um cancionista e trabalhador eminentemente urbano, que percorreu constantemente em seus ofícios os diversos pontos da cidade (e seus problemas) como ele se torna representativo, justamente de um projeto de civilização e cidadania via música, engendrados por intelectuais, cooptados ou não pelo Estado. O ideal de um projeto cívico relacionado às artes diz respeito a um pensamento político brasileiro já bastante antigo, remonta aos intelectuais de início do século passado, debruçados sobre a questão da brasilidade e do pensamento mestiço; de um projeto modernista simbolizado, sobretudo desde a década de 1920-30 por Mário de Andrade; além de suas construções via Estado, a exemplo, na ditadura Vargas um projeto cívico-musical ligado ao Ministério da Educação de Gustavo de Capanema8. A música no Brasil, segundo Wisnik e Naves sempre esteve relacionada intimamente com práticas sociais: canto de trabalho, práticas religiosas, ritos, de modo que interessava ao
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poder político. Para Santuza Naves a “música interessada” era um projeto capital no campo das artes e na esfera política9. Moreira da Silva, sua trajetória e suas canções são construídas ao cabo das discussões sobre projetos cívicos e de modernização. Todavia, o imaginário social que faz parte do personagem Moreira da Silva e de sua obra demonstra tanto o sentido polissêmico do termo malandro, como as múltiplas vozes engendradas na sua apropriação de imagens e sentidos da cultura política brasileira. Seu personagem bilontra, que foi sem dúvida fundamental para sua mobilidade sócio-econômica, embora tenha continuado como funcionário público por muitos anos, traz caracteres do teatro de revista; de clowns músicos das décadas de 1910-20; das relações ambíguas entre trabalhismo e as malandras canções, brincando, inclusive com a ambiguidade da ideia de regeneração; além da ambivalência e negociação nas relações clientelísticas. Portanto, as hipóteses gerais de uma pesquisa mais ampla são pontuadas aqui em relação à Cidade lagoa, gravada pela Odeon no LP A Volta do Malandro de 1959. O exemplo foi escolhido por considerar que quatro álbuns nesse contexto são capitais na construção do imaginário de um malandro “boa praça” e cordial, assinalado sempre como personagem artístico e, talvez por isso tolerado e exaltado. A convivência de Antônio, nesse caso com os “verdadeiros malandros” (como ele mesmo se refere a alguns companheiros), ou sua capacidade de crítica como cronista são minimizadas em detrimento de certa “picardia desinteressada”, do destaque de um sujeito pacato. Como exemplo, o texto do pesquisador de música popular Lúcio Rangel na contracapa do LP de 1959: “Identificando-se tão bem com os personagens dos seus sambas, que puxam a navalha, fincam o aço na laringe dos otários, que vivem metidos nas delegacias, quando não (…) desafiam a polícia com seus jogos proibidos (…), a muitos poderá parecer que o cantor é também “desordeiro” e “mau-elemento”. Nada mais falso (…) Malandro sim, mas “malandro artístico”, aquele que vê nos motivos pitorescos do carioca um personagem ideal para os sambas maliciosos e divertidos”.
Porque tal bilontra ainda que aparente a conjugação de várias variedades artísticas é sempre assinalado apenas como tal e retratado sempre como figura desvencilhada da malandragem tida como desordeira e nociva? Já que se identifica com esses personagens ou sujeitos por que de tantas aspas em sua descrição? Que perigo e que força pode haver nesses termos sem aspas? Para além das estratégias de venda de seu disco. Porque alguns elementos de sua vida ou de suas canções não são destacadas? Permanecem recônditas. O samba ideal é o malicioso e divertido apenas?
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O Malandro e a cidade O cidadão em seu significado primevo é um habitante da cidade, pertence a uma dada totalidade social, em geral entendida em seu aspecto jurídico-político junto de sua dimensão sociológica. Entretanto, ainda que uma parte da nação, de um dado espaço eminentemente público, permeado pelo conjunto de direitos e deveres nesta é também indivíduo, que ao largo de suas experiências cotidianas é demarcado por expectativas e ações singulares que elabora. Logo, a cidadania corresponde a toda conduta individual em relação ao coletivo e a si mesmo, é formadora, não obstante de identidade social e ações. No Brasil a historiografia costuma apontar o cidadão como um ser incompleto, seria este dotado de direitos civis e políticos, a priori; este último dificilmente alcançando e direitos sociais objetivados como parte de concessões vindas do Estado, a fim de regular o exercício de cidadania. Ser cidadão brasileiro, segundo Da Matta é permanecer em um escopo pejorativo desse conceito, que é arrogado em função de seus relacionamentos. Logo, ser cidadão é estar sujeito às regras e limitações, pois, ao contrário possuir direitos e espaço de atuação política correspondem à rede de relações. Tal inversão faz com que o cidadão esteja, em suma, condicionalmente submerso a um cálculo personalizado de sua performance10. Cidade Lagoa é significativa a esse respeito, nela o habitante da cidade se depara com o problema renitente das enchentes. Tal indivíduo, protagonista da canção procura ler e se adequar aos novos códigos urbanos. Sua performance está voltada para superação possível e alternativa das deficiências da cidade. A cidade contemporânea, em que vive Moreira da Silva, nesse caso, reúne como fundamental: a economia monetária e a atitude intelectualista do metropolitano, demasiadamente pragmático com as coisas e os homens, vivendo sob uma constante oscilação: entre mobilidade geográfica e mobilidade social ou o desejo desta. Milton Santos propõe saídas diante disso para o exercício de cidadania: a redescoberta do cotidiano; o direito ao entorno (a reflexão sobre o território); a reversão do poder massivo do mercado; o pensar político e social sobre o cotidiano e a reconstituição do indivíduo em sua integridade. A cidadania ou o modelo cívico, para o autor implica em dois aspectos fundantes: cultura e território. A gestão do espaço é fundamental ao ser humano, tanto no que diz respeito a uma política efetivamente redistributiva dos recursos materiais, quanto imateriais. O território, nesse aspecto não é reflexo, exclusivamente da sociedade, mas fator desta, com papel ativo e constante11 Vencer a alienação produzida tacitamente, mas não de modo fatal, depende da forma como é apreendida. Depende, em última instância da relação
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cultura-território. A cidade, o entorno, portanto é passível de ser lida por seus cidadãos e reinventada. Produz imaginários, representações, bem como é representada. Tomado como texto o espaço urbano é escrita e escritura, bem como seu campo semântico está relacionado diretamente com a reciprocidade entre indivíduo e cidade. As marcas e a troca de informações entre ambos não são fortuitas, são a expressão e impressão de uma memória e imaginação constantemente trabalhadas que podem romper com a cidadania mutilada, segundo Lynch: “No processo de orientação, o elo estratégico é a imagem ambiental, o quadro mental generalizado do mundo físico exterior de que cada indivíduo é portador. Essa imagem é produto tanto da sensação imediata quanto da lembrança de experiências passadas, e seu uso se presta a interpretar informações e orientar a ação” 12.
Cidade lagoa (Cicero Nunes e Sebastião Fonseca): Esta cidade, que ainda é maravilhosa Tão cantada em verso e prosa Desde os tempos da vovó Tem um problema vitalício, renitente Qualquer chuva causa enchente, não precisa ser toró Basta que chova mais ou menos meia hora É batata não demora, enche tudo por aí Toda a cidade é uma enorme cachoeira Que da Praça da Bandeira Vou de lancha ao Catumbi Que maravilha nossa linda Guanabara Tudo enguiça, tudo para Todo transito engarrafa Quem tiver pressa, seja velho , seja moço Entre n’água até o pescoço E peça a Deus pra ser girafa Por isso agora já comprei minha canoa Pra remar nessa lagoa, toda vez que a chuva cai E se uma boa me pedir uma carona Com prazer eu levo a dona Na canoa do papai
Como metodologia para análise das canções são usados os referenciais da Semiótica, sobretudo os conceitos de Greimas, que procuram justamente articular texto e contexto de enunciação: a canção (letra e melodia) e contexto sócio-histórico, respectivamente com intuito de apreender o sentido do texto: o que este diz e como ele faz pra dizê-lo. Seu sentido é mais do que um campo de significação, reitera o desejo de comunicação imprescindível. A canção como “texto” só existe nessa dualidade*. Em Sémantique structurale Greimas traça três níveis para análise da sintaxe e
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semântica, que denomina percurso gerativo de sentido: nível fundamental, narrativo e discursivo. No nível fundamental considera as tensões do texto pelas relações de negação, contrariedade e complementaridade. No nível narrativo chama atenção para as relações actanciais (relações entre sujeito-objeto e destinador-destinatário) e na análise do elemento discursivo a presença de artifícios fóricos (disposição afetiva fundamental), representadas pela: euforia e disforia (conjunção e disjunção), que significam ainda condução (phoria) do próprio discurso ou da mensagem13. Para as canções de Moreira outro elemento relevante é o que Beneviste denominou de dinâmica entre enunciação e enunciado, posto que qualquer enunciação é sempre enunciada (revela a vontade de comunicação), e corresponde a combinação das tensões do nível fundamental e narrativo, quando há, justamente o desenvolvimento da noção de competência : do querer e dever para noção de performance: saber e poder14, adentramos então, nesse sentido já no plano de discurso. Na enunciação enunciada há sempre a compreensão de relações entre tempo, espaço e pessoa, momento da instauração, pelo discurso, da pessoa: a passagem para ação. A formação desta subjetividade demonstra a transferência de um estado imanente para a manifestação-comunicação, constituída na relação entre tempo e espaço ou na sua ocupação, ao encontro da reciprocidade entre cultura e território: o elo estratégico, fundamental para a formação cidadã. A porção musical é considerada, segundo os referenciais metodológicos de Tatit, autor que procura demonstrar que a canção, em seu processo embrionário decorre da própria fala, na inflexão da voz, que guarda uma gramática rítmica e melódica15. Logo, em tal relação a entonação da voz, com sua musicalidade própria e sua força de condução são cruciais e destacam-se a partir de três formas, segundo Luiz Tatit: passionalização, tematização e figuratização. Em Cidade lagoa a tensão fundamental estabelecida é entre o habitante da cidade e a cidade, revelado nos termos na relação entre os contrários: cidade X lagoa. A enchente como problema vitalício e renitente é o mote central da canção, definida em dois momentos marcantes na letra e melodia: “Esta cidade” e “nessa lagoa”, esses fragmentos de versos acompanhados pelos pronomes demonstrativos (dêiticos temporais e espaciais) denotam a proximidade do narrador com duas cidades: antes (cidade) e depois da enchente (cidade lagoa), com essas duas experiências presentificadas no tempo, como indicam alguns versos: “Qualquer chuva causa enchente/ Basta que chova, mais ou menos meia hora/ É batata, não
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demora, enche tudo por aí” a demonstrar a rapidez com que isso ocorre, o descaso, ou seja o aspecto recorrente, pois não é preciso que chova muito ou durante muito tempo para que o espaço seja transformado, e em certo sentido a surpresa, a perplexidade do indivíduo que é tomado por tal problema. Na canção, no nível narrativo há dois sujeitos: a cidade na primeira parte da canção (em negrito) e o narrador e ser atuante, em segundo momento: quando adquire a canoa e pode se deslocar. Todavia, a cidade, como indica seus dois momentos distintos: a cidade que ainda é maravilhosa, cantada em verso e prosa há tempos e a cidade com problemas visíveis e perturbadores, intensificada nos versos irônicos: “Que maravilha, nossa linda Guanabara/ Tudo enguiça, tudo para/ Todo trânsito engarrafa”. Nesse sentido, a cidade torna-se o antisujeito que impõe na relação recíproca entre indivíduo e espaço a necessidade urgente de intervenção, tornando a cidade objeto de sua ação. Tal momento destaca a cidade antes, em junção com o narrador e personagem da canção, agora a cidade como força disjuntiva. Esse álbum de Moreira demonstra uma mudança em uma série de sambas que lhe foram contemporâneos: o uso de orquestra como acompanhamento na gravação. Os antigos regionais, com instrumentos de pau e corda (violão, flauta e cavaquinho) passaram a usar também pandeiro e tamborim, com advento da gravação elétrica em 1927. Nesse canção há elementos do regional, junto de Oswaldo Borba e sua Orquestra com os instrumentos de sopro, sobretudo metais, estes eram, inclusive marca dos álbuns de Moreira pela Odeon. Nos momentos de tensão na melodia ocorre grande presença do pandeiro, sobretudo em momentos de tematização, representados na letra também por certa paronomásia entre os termos: todo, tudo, enchente, enguiça, engarrafa. Já, os momentos de passionalização, que marcam maior entonação do cantor junto das vogais ou de ditongos no fim da alguns versos representados pelas palavras: toró, aí, catumbi, cai e papai há um “silenciar” do pandeiro e o uso mais notável dos metais, marcando, portanto no nível narrativo, além do discursivo alterações na trajetória do sujeito, a exemplo, na letra a palavra toró, momento em que o primeiro elemento disfórico (relação tensa com a cidade) torna-se presente. Os princípios eufóricos (da linda Guanabara apesar de suas deficiências) tornam-se disfóricos então, para o que a canção traz grande figuração, elementos recorrentes e comuns ao destinatário (que ouvirá a canção ou mensagem), que intensificam o tema da enchente. Por exemplo, a cachoeira, os termos “tudo enguiça”, “tudo para”, o trânsito engarrafado, mesmo o uso do termo todo, tudo revela quantidade e a qualidade de determinados problemas, além da
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capacidade de evocar imagens a partir da audição. Algumas rimas e o breque de Moreira da Silva ao fim da canção atesta isso: “Mas que toró!/ Vou meter uma roupa de escafandro para atravessar essa Lagoa”. Ora como escafandrista o sujeito tornar-se-ia impermeável ao problema da enchente e da própria cidade, que atropela os indivíduos, impede seus percursos. Seria o preço de uma modernização urbana equivocada? A cidade como espécie de monstro devora sua criatura: o cidadão. Quanto as rimas são permeadas de figuras de linguagem: a metáfora para cidade alagada em a cachoeira, na rima com Praça da bandeira, revelando também seu sentido metonímico (a parte pelo todo), o local encharcado: a Praça, como representativa de toda cidade, exatamente porque aquela não permite seu trânsito nela. A enorme cachoeira que faz com que ele tenha que ir de lancha da Praça da Bandeira ao Catumbi. Outra rima crucial na letra é canoa e lagoa, pois compreendem, segundo o campo discursivo a passagem da categoria de competência para performance: a constatação do problema, sobretudo nos versos: “Quem tiver pressa, seja velho ou seja moço/ Entre n'água até o pescoço/ E peça a Deus pra ser girafa”. Quando a figura do narrador percebe que a enchente assola a todos: velho e moço, quaisquer cidadãos que precisem se movimentar e a impossibilidade de enfrentar prontamente tal problema. É preciso, pois ser girafa, transgredir sua condição. A brincadeira com certo aspecto antropomórfico homem e girafa, designa o impasse e a elaboração de uma saída para o conflito, diante da força da natureza (enchente). Não podendo ser girafa e sozinho transformar de fato a situação, tanto da cidade como a de si mesmo a compra da canoa pra remar até seu destino torna-se plausível. Ou seja, tal imaginação (simulação) constrói sua performance, além de uma embreagem: o relato de duas cidades, entre as tensões eufóricas e disfóricas da identificação com cidade ainda maravilhosa e ironicamente com a linda Guanabara: do engarrafamento, dos enguiços e enchentes (nesse caso o individuo e apenas narrador e não protagonista nas ações). Já a debreagem enunciva, ocorre quando o personagem passa a participar diretamente da história; além do aspecto eufórico recuperado, quando em seu desfecho aponta a possibilidade de oferecer carona à dona. A performance, segundo Diana Barros: o movimento da competência para a ação, diz respeito à construção de uma simulação imaginativa, espécie de ensaio atuante, a partir de certa consciência: do querer e dever agir para o poder e saber agir: “Por isso agora já comprei minha canoa/ Pra remar nessa lagoa, toda a vez que a chuva cai”. Nada mais impede, portanto
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seu percurso pela cidade quando constrói esse caminho alternativo. O plano de privação (enchente) torna-se o plano de aquisição (a lancha, a canoa, remar, a travessia a carona, a dona) que culmina na passagem pela cidade lagoa. Tal indivíduo no enredo e discurso elaborado de sua trajetória não é passivo, passa da modalidade do ser para a do fazer. O cálculo ou simulação de sua performance a partir de suas vivências, relações, por vezes de modo personalizado como afirmou Da Matta, se faz presente, mas ainda assim articulando: saber e ação.
Considerações Finais Acompanhar, em suma a trajetória e algumas canções de Moreira da Silva não é tratar o artista como figura politizada e essencialmente crítica, mas de verificar sua construção contrária. Moreira e Antônio talvez apontem para outro aspecto: a de um sujeito que articulado com o ambiente, com as leituras e releituras que fez a partir de suas experiências e imaginação. Nessa direção, não há pretensão, em tese, de sobrepujar certo empirismo exagerado versus racionalismo, mas justamente ressaltar a comunicação entre saber e práxis e a necessidade de certa filosofia, fundamental para formação de cidadania. Esse malandro: O Tal, foi capaz de percorrer os espaços da cidade e de criticá-la, construiu em meio aos projetos de modernização, projetos civilizadores, e dos problemas deles decorrentes como: as dificuldades no trabalho e na estrutura da cidade um personagem que, em uma espécie de leitura folheada da sociedade, das prerrogativas políticas e discussões destas
no
âmbito
cultural
possibilitou
certa
mobilidade
social
alternativa,
via
profissionalização como cancionista, além de um espaço de manifestação. Não era essencialmente um intelectual orgânico, engajado, mas, ao inverso do que se destaca, não só de cordialidade foram construídos seus breques, as críticas lhe foram também muito presentes. 1 Mestranda PPGHC- UFRJ. Orientador: José D'Assunção Barros. E-mail: belleportes@yahoo.com.br. 2 BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: Leach, Edmund et. Antropos-Homen, v. 5. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1985. p. 299. 3 BACZKO, Bronislaw. op. cit. p. 308. 4 CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietude. Porto Alegre:UFRGS, 2002. p. 78. 5 BACZKO, Bronislaw. op. cit. p. 301 6 BACZKO, Bronislaw. op. cit. p. 322.
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7 Os dois termos são aqui utilizados: Antonio e Moreira da Silva, como meios de distinguir o personagem malandro do cancionista de si mesmo. Moreira se refere ao O Tal, ora como outra pessoa, ora como ele mesmo. 8 NAVES, Santuza Cambraia. O Violão Azul: Modernismo e Música Popular. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1998. p. 19. 9NAVES, Santuza Cambraia. O Violão Azul: Modernismo e Música Popular. op.cit. p.33. 10MATTA, Roberto Da. A casa & a Rua. 5ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 91. 11 SANTOS. Milton. O Espaço Do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987. p.6. 12 LYNCH, Kevin. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 4. 13 TATIT, Luiz. Análise Semiótica Através das Letras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 11-26. 14 BARROS, Diana Luz Pessoa. A teoria Semiótica do Texto. São Paulo: Editora Ática, 2005. p. 80. 15 Os conceitos chaves estão presentes em duas obras do autor: TATIT, Luiz. O Cancionista. 2 Ed. São Paulo: Edusp, 2002 e TATIT, Luiz. Análise Semiótica Através das Letras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 11-26.
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