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O enredo do carnaval nos enredos da cidade. Dinâmica territorial das escolas de samba em São Paulo.

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

VANIR DE LIMA BELO

O ENREDO DO CARNAVAL NOS ENREDOS DA CIDADE. DINÂMICA TERRITORIAL DAS ESCOLAS DE SAMBA EM SÃO PAULO.

SÃO PAULO 2008


II

Vanir de Lima Belo

O ENREDO DO CARNAVAL NOS ENREDOS DA CIDADE. DINÂMICA TERRITORIAL DAS ESCOLAS DE SAMBA EM SÃO PAULO.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Geografia. Orientadora: Profa Dra Mónica Arroyo.

São Paulo 2008


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Para meu pai Petrúcio, Para meu amor, Gil. É que carrego o samba bem dentro do peito Sem a cadência do samba não posso ficar... (Davi Moreira e Nelson Custódio, 1972).


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A biografia do samba é linda Não vou narrar Porque o tempo não me favorece Simplesmente por alto eu digo Ele veio do lamento Dos escravos ao fazerem suas preces Ôôôô São súplicas que o Brasil jamais esquece (Talismã, 1969)


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RESUMO

O carnaval das escolas de samba na cidade de São Paulo vem adquirindo um importante conteúdo social, político e econômico. Ao longo de seu desenvolvimento, passou por diversas transformações acompanhando o crescimento da cidade e adaptando-se aos novos conteúdos urbanos e a imposições políticas e técnicas. Todavia, ainda guarda um caráter genuíno atrelado à festa, característica de sua gênese. Diante disso, essa pesquisa se desenvolve a partir de uma periodização composta por três períodos definidos pelos eventos mais significativos observados ao longo da história dessa manifestação cultural. As variáveischave determinantes para a ruptura dos períodos são as normas e as políticas públicas realizadas com a finalidade de desenvolvê-las e, como conseqüência dessas ações, as divisões sociais e territoriais do trabalho criadas na produção dos desfiles carnavalescos em relação aos diferentes circuitos da economia urbana. O objetivo é compreender a dinâmica territorial das escolas de samba em São Paulo através da análise do processo de produção do carnaval que inclui a ação de diversos agentes na cidade, considerando a tendência à apropriação dessa manifestação popular pela indústria cultural. E analisar a forma como os membros das escolas de samba produzem cultura e fazem política, utilizando-se dos novos conteúdos técnicos que a cidade oferece, para se organizar e buscar formas de suprir suas necessidades.

Palavras-chave: carnaval, cidade, cultura, escolas de samba, São Paulo.


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ABSTRACT

The carnival made by the Schools of Samba in the city of SĂŁo Paulo has been acquiring important social, politics and economics content. Throughout its development several changes have occurred, following the city growth and adapting itself to the new urban contents and political and technical impositions. It still keeps a genuine feature related to the party, typical of its genesis. Thus, this paper has been developed, based on a three- part periodisation determined by the most significant events through the history of this cultural manifestation. The determinant events that mark the rupture of periods are the public politics and norms created with the purpose of developing this manifestation and, as a consequence of these actions, the social and territorial division of labour originated during the production of carnival parades related to different circuits of the urban economy. The objective is to comprehend the territorial dynamics of Schools of Samba in SĂŁo Paulo through the analysis of the process of carnival production that includes the action of several agents in the city, considering the trend of appropriation of this manifestation by the culture industry. And to analyze the way the members of Schools of Samba produce culture and political actions, making use of new technical contents offered by the city, to organize themselves and search for new ways of fulfilling their needs.

KEYWORDS: carnival; city; culture; school of samba; SĂŁo Paulo.


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AGRADECIMENTOS

As dificuldades que uma pesquisa acadêmica impõe a quem se propõe realizála, apenas se tornam transponíveis com a ajuda, compreensão e paciência das pessoas com quem o pesquisador convive. Assim, após árdua, porém prazerosa tarefa, gostaria de agradecer a todos aqueles que direta ou indiretamente, contribuíram para a realização dessa pesquisa. É certo que no decorrer do tempo que estive envolvida com este trabalho, tive a colaboração de muitas pessoas, o que torna impossível mencionar aqui todos os nomes. A esses, minhas desculpas e meus agradecimentos. Começo agradecendo à minha família pelo apoio e o incentivo de toda a vida e aos amigos queridos que, mesmo distante, estiveram presentes ao longo do processo. Muito obrigada. Agradeço profundamente a minha querida orientadora Mónica Arroyo que, com toda confiança e paciência, me apoiou desde o início. Sem sua ajuda, essa pesquisa, de fato, não se realizaria. Aos companheiros do Laboplan, em especial ao grupo: Laércio (Lau), Regina, Evelyn, Daniel, Carolina e Rodrigo. Aos professores do Departamento de Geografia que contribuíram para a minha formação e aos professores Maria Laura Silveira e José Guilherme Magnani que participaram de minha qualificação e trouxeram ricas contribuições para a minha pesquisa. Agradeço imensamente à comunidade da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, companheiros de samba e avenida, em especial ao Presidente Serginho, Mestre Mi e Wanderlei, Ramos, Márcia, Elaine, Mercadoria, Seo Levil, Seo Ataliba, Seo Irineu, Gilberto, Zé Carlos e Seo Claudinho (in memorian), pela abertura e pelas preciosas informações, e, também pelo convívio no mundo do samba.


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Às comunidades das escolas de samba Príncipe Negro da Cidade Tiradentes, Paineira do Sapopemba e Unidos do Peruche nas figuras da Presidenta Rossimara (Inhana) da Príncipe Negro, do Presidente De Paula, da Paineira, do Diretor Social Waldir Romero e especialmente ao companheiro de Samba e Geografia Márcio M. Macelino, também pelas reflexões e discussões, ambos da Unidos do Peruche. União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP) e Centro de Documentação e Memória do Samba, pelo precioso acervo de grande utilidade para minha pesquisa e, em especial, ao Marcos dos Santos, coordenador do CDMS, pelas longas e frutíferas conversas sobre samba e carnaval, e também ao Caio Pereira e ao Adriano Bejar, pelas preciosas informações. Luiz Sales e Clara Azevedo da São Paulo Turismo, Camila Patrício do Sebrae, Dona Cida (Maria Aparecida Urbano) e Instituo Moreira Sales pela concessão das fotos de Claude Lévi-Strauss. À Secretaria de Educação do Estado de São Paulo pela bolsa concedida. Aos companheiros de trabalho da E.E. Frontino Guimarães pelo apoio no início do mestrado, e aos da Oficina Pedagógica ao longo do processo, bem como aos meus alunos e companheiros de trabalho da E.E. Buenos Aires que me apoiaram e compreenderam minha ausência no período de redação. Agradeço também aos amigos e colaboradores imprescindíveis para a realização desse trabalho, os Geógrafos Débora Aversan, Nilo Lima e Sandro Dozena pelas leituras e reflexões acerca do trabalho, Renata Salles pela confecção dos mapas e pela disponibilidade nos mais variados momentos e Alexandre Silva pela revisão e prontidão. Valeu gente. Por fim, agradeço ao Gil, meu amor, geógrafo, sambista e companheiro de todos os momentos, pela reflexão e, principalmente, pela compreensão nos momentos mais críticos. Te amo.


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SUMÁRIO Introdução.................................................................................................................................01 1.Carnaval dos Cordões............................................................................................................10 1.1. Os Cordões carnavalescos no contexto das transformações urbanas.....................11 1.2. As ações das agremiações carnavalescas e a aproximação da sociedade paulistana.......................................................................................................................27 1.3. O interesse da iniciativa privada nos desfiles carnavalescos.................................35 1.4. A ação do poder público e o caminho para a oficialização....................................40 2. Carnaval das Escolas de Samba – oficialização e consolidação...........................................43 2.1. Oficialização e reestruturação do carnaval paulistano...........................................44 2.2. Novas relações econômicas no desenvolvimento das Escolas de Samba..............52 2.3. Normas, técnicas e políticas no desenvolvimento dos desfiles oficiais.................58 2.4. A regulamentação do Carnaval paulistano no contexto da cidade corporativa......76 3. Profissionalização do Carnaval e uso da cidade...................................................................84 3.1. As ações do poder público e da iniciativa privada no desenvolvimento do carnaval paulistano......................................................................................................................85 Sambódromo......................................................................................................86 Rede Globo de Televisão...................................................................................95 Potencial turístico...........................................................................................100 3.2. Ampliação da divisão do trabalho na produção dos desfiles carnavalescos........106 3.3. Distribuição espacial das escolas de samba e uso da cidade................................125 Quadras e Barracões.......................................................................................130 Os ensaios técnicos..........................................................................................139 O desfile...........................................................................................................141 O bairro...........................................................................................................150 4. Ação social das Escolas de Samba – Formas e abrangências.............................................154 4.1. O desenvolvimento de ações socioculturais nas Escolas de Samba.....................155 4.2. Unidos de Vila Maria...........................................................................................162 4.3. Unidos do Peruche...............................................................................................178 4.4. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes...................................................................184 4.5. Paineira do Sapopemba........................................................................................193 Considerações Finais...............................................................................................................198 Referências Bibliográficas......................................................................................................205


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Anexos....................................................................................................................................210

LISTA DE MAPAS Mapa 1. Área urbanizada – 1882-1914.....................................................................................13 Mapa 2. Área urbanizada – 1930-1949.....................................................................................21 Mapa 3. Área urbanizada – 1950-1962.....................................................................................22 Mapa 4. Área urbanizada – 1963-1974.....................................................................................77 Mapa 5. Área urbanizada – 1975-1985.....................................................................................78 Mapa 6. Agremiações filiadas à Associação de Bandas Carnavalescas de São Paulo – localização por distrito – 2007................................................................................................129 Mapa 7. Escolas de Samba filiadas à UESP e à LIGA – localização das sedes – 2008.........131 Mapa 8. Escolas de Samba por período de fundação..............................................................132 Mapa 9. Escolas de Samba – Município de São Paulo – 2008...............................................133 Mapa 10. Salas de cinema, teatro e cinema e unidades especiais da PMSP – Município de São Paulo – 2006............................................................................................................................133 Mapa 11. Salas de teatro, shows e concertos – Município de São Paulo – 2006....................133 Mapa 12. Centros Culturais, Casa de Cultura, espaços culturais, galerias de artes e museu..133 Mapa 13. Localização das Escolas em relação ao sambódromo – 2008.................................134 Mapa 14. Localização das Escolas em relação aos locais de desfile – 2008..........................135 Mapa 15. Localização das quadras em relação aos barracões – Escolas selecionadas...........138 Mapa 16. Associados à Escola de Samba Unidos de Vila Maria por distrito de origem – 2008.........................................................................................................................................170 Mapa 17. Associados à Escola de Samba Unidos do Peruche por distrito de origem – 2008.........................................................................................................................................180


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LISTA DE FOTOS Foto 1 – Piquenique do Cordão Camisa Verde, 1925..............................................................28 Foto 2 – Músicos do Grupo Barra Funda em Piquenique, 1925...............................................28 Foto 3 – Grupo da Barra Funda na Festa de Pirapora do Bom Jesus, 1915..............................31 Foto 4 – Acampamento dos Romeiros, 1937............................................................................31 Foto 5 – Espera pelos Desfiles na Avenida São João, 1937.....................................................32 Foto 6 – Desfile do Cordão Campos Elíseos, 1935..................................................................33 Foto 7 – Desfile da E.S. Nenê de Vila Matilde no Parque Ibirapuera, 1954............................42 Foto 8 – Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes, 1982.................................67 Foto 9 – Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes, 1982.................................67 Foto 10 – Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes, 1982...............................68 Foto 11 – Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes, 1982...............................68 Foto 12 – Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes, 1982...............................68 Foto 13 – Sambódromo, 1991...................................................................................................83 Foto 14 – Sambódromo, 2008...................................................................................................83 Foto 15 – Fotografia Aérea da Região do Sambódromo, 1962................................................89 Foto 16 – Fotografia Aérea da Região do Sambódromo, 1994................................................90 Foto 17 – Sambódromo, 2006...................................................................................................91 Foto 18 – Sambódromo, 1996...................................................................................................97 Foto 19 – Barracão da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, 2007...................................111 Foto 20 – Profissionais de Parintins trabalhando na E.S. Unidos de Vila Maria, 2007..........111 Foto 21 – Jovens trabalhando no barracão da E.S. Unidos de Vila Maria, 2007....................111 Foto 22 – Barracão da E.S. Império de Casa Verde, 2008.....................................................137 Foto 23 – Barracão da E.S. Vai-Vai, 2008..............................................................................137 Foto 24 – Barracão da E.S. Nenê de Vila Matilde, 2008........................................................137 Foto 25 – Barracão da E.S. Leandro de Itaquera, 2008..........................................................137 Foto 26 – Ensaio Técnico – Sambódromo, 2008....................................................................140 Foto 27 – Área de Dispersão do Sambódromo em dia de Ensaio Técnico, 2008...................140 Foto 28 – Área de Estacionamento – Sambódromo, 2008......................................................140 Foto 29 – Componentes da U. V. Maria Aguardando a Saída para o Sambódromo, 2007....146 Foto 30 – Ônibus Estacionados nos Arredores da Quadra da E.S.U. de Vila Maria..., 2008.147 Foto 31 – Componentes da Ala das Baianas da Unidos de Vila Maria, 2007........................147 Foto 32 – Destaque de Carro Alegórico posicionando-se para o Desfile, 2007.....................147 Foto 33 – Carro Alegórico da E.S. Unidos de Vila Maria na Concentração..., 2008.............148 Foto 34 – Carro Alegórico da E.S. Rosas de Ouro em Desfile no Sambódromo, 2006.........148 Foto 35 – Carro Alegórico da E.S. Vai-Vai em Desfile no Sambódromo, 2006....................148 Foto 36 – Público Espectador Aguarda Desfile em Passarela no Autódromo..., 2008...........149 Foto 37 – Público Espectador Aguarda Desfile em Passarela no Butantã, 2008....................149 Foto 38 – Público Espectador Aguarda Desfile na Vila Esperança, 2007..............................149 Foto 39 – Ensaio na Quadra da E.S. Unidos de Vila Maria, 2008..........................................176 Foto 40 – Ensaio Geral nas Ruas do Bairro de Vila Maria..., 2008........................................177 Foto 41 – Mostra Cultural Promovida pelo Ponto de Cultura..., 2007...................................177 Foto 42 – Projeto Clube Escola Realizado no CDM Lauro Megale..., 2008..........................177 Foto 43 – Desfile da E.S. Unidos de Vila Maria na Av. Guilherme Cotching..., 2007..........177 Foto 44 – Ensaio da E.S. Unidos do Peruche, 2008...............................................................183 Foto 45 – Folia da Cidadania, 2006........................................................................................183 Foto 46 – Sede da E.S. Principe Negro da Cidade Tiradentes, 2008......................................190 Foto 47 – Ensaio. E.S. Principe Negro da Cidade Tiradentes, 2008......................................191 Foto 48 – Ensaio. E.S. Principe Negro da Cidade Tiradentes, 2008......................................191


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Foto 49 – Produção de Fantasias na Casa da Presidenta da E.S. Príncipe Negro ..., 2008.....191 Foto 50 – Construção de Alegorias da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes, 2008......192 Foto 51 – Desfile da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes, 2008..................................192 Foto 52 – Desfile da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes, 2008..................................192 Foto 53 – E.S. Paineira de Sapopemba. Ensaio, 2008............................................................195 Foto 54 – E.S. Paineira de Sapopemba. Ensaio, 2008............................................................195 Foto 55 – E.S. Paineira de Sapopemba. Ensaio, 2008............................................................195 Foto 56 – Paineira do Sapopemba. Carnaval 2008.................................................................196 Foto 57 – Paineira do Sapopemba. Carnaval 2008.................................................................196 Foto 58 – Paineira do Sapopemba. Carnaval 2008.................................................................196

LISTA DE TABELAS Tabela 1. Município, Região Metropolitana e Estado de São Paulo, e Brasil. Crescimento populacional 1820-1860............................................................................................................23 Tabela 2. Evolução do número médio de componentes das agremiações carnavalescas.........41 Tabela 3. Participação do município, da Região Metropolitana e do interior do Estado de São Paulo na industrialização brasileira...........................................................................................79 Tabela 4. Município, Região Metropolitana e Estado de São Paulo, e Brasil. Crescimento populacional 1960-2000............................................................................................................80 Tabela 5. Número de componentes, alegorias e tempo de desfile exigidos das agremiações carnavalescas.............................................................................................................................93 Tabela 6. Audiência dos desfiles do Rio de Janeiro e de São Paulo de acordo com o Ibope...97 Tabela 7. Número de associados por município de origem....................................................169

LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1. Número de Escolas fundadas por período (filiadas à UESP e à LIGA em 2008)...58 Gráfico 2. Número de Escolas fundadas por década (filiadas à UESP e à LIGA em 2008).....59 Gráfico 3. Número de associados à E.S. Unidos de Vila Maria por região de origem...........163 Gráfico 4. Faixa etária dos associados à E.S. Unidos de Vila Maria......................................168 Gráfico 5. Faixa etária dos associados à E.S. Unidos do Peruche..........................................179 Gráfico 6. Número de associados à Unidos do Peruche por região de origem.......................179


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LISTA DE QUADROS Quadro 1. Escolas participantes do carnaval de 1978...............................................................63 Quadro 2. Intérpretes que participaram do Grupo Especial por pelo menos duas vezes – 20022008.........................................................................................................................................115 Quadro 3. Divisão das Escolas de Samba por grupo – filiadas à LIGA e à UESP – Carnaval 2008.........................................................................................................................................127 Quadro 4. Distribuição das agremiações carnavalescas por entidade representativa – Carnaval 2008.........................................................................................................................................128 Quadro 5. Cursos desenvolvidos em parceria com o Projeto Barracão..................................160 Quadro 6. Ações da sociedade Rosas de Ouro........................................................................161 Quadro 7. Ações do G.R.C.E.S. Mocidade Alegre.................................................................161 Quadro 8. G.R.C.S.E.S. Unidos de Vila Maria – Atividades relacionadas à comunidade.....165 LISTA DE FIGURAS Figura 1. Informe Paulistur – Carnaval 1985............................................................................66 Figura 2. Montagem das arquibancadas na Av. Tiradentes......................................................71 Figura 3. Fila para compra dos ingressos para os desfiles do carnaval 1986...........................71 Figura 4. CD 2002 – Capa......................................................................................................119 Figura 5. CD 2003 – Capa......................................................................................................119 Figura 6. CD 2004 – Capa......................................................................................................119 Figura 7. CD 2005 – Capa......................................................................................................119 Figura 8. CD 2006 – Capa......................................................................................................119 Figura 9. CD 2007 – Capa......................................................................................................119 Figura 10. CD 2008 – Capa....................................................................................................119 Figura 11. CD 2008 – Contra Capa.........................................................................................119

LISTA DE IMAGENS

Imagem 1. Sambódromo de São Paulo.....................................................................................91


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Introdução

O entendimento da cidade de São Paulo passa pela compreensão dos mais diversos aspectos que a caracterizam, como, por exemplo, a existência de manifestações culturais que, na atualidade, apresentam um importante conteúdo social, político e econômico, contribuindo para seu dinamismo, pois ao se realizarem geram ações e relações entre diversos agentes e objetos. Dentre essas manifestações está o carnaval que, ao longo de seu desenvolvimento, passou por diversas transformações acompanhando o crescimento da cidade e adaptando-se aos novos conteúdos urbanos e a imposições políticas e técnicas, sendo as escolas de samba uma adaptação dos cordões carnavalescos criados no início do século XX. O carnaval das escolas de samba caracteriza-se atualmente como um símbolo da cultura brasileira e tornou-se um espetáculo que, na sua produção, movimenta milhões de reais a cada ano e cria um número significativo de postos de trabalho diretos e indiretos, além de fomentar uma série de negócios afins. Todavia, o carnaval das escolas de samba ainda guarda um caráter genuíno atrelado à festa, característica de sua gênese, e as agremiações carnavalescas promovem diversas ações sociais nos bairros que as abrigam. O dinamismo dessa manifestação popular despertou o interesse de estudiosos de diferentes disciplinas, como historiadores, antropólogos, sociólogos, economistas, entre outros e, mais recentemente, geógrafos. Há diversos trabalhos que analisam o carnaval: a festa propriamente dita; o desfile e seu significado; as escolas de samba e o que elas representam para as pessoas envolvidas ou para os lugares onde se localizam; a forma como essas agremiações atuam no desenvolvimento de suas localidades; ou a forma como são cooptadas pelo poder público, pela mídia e pela indústria cultural1, entre outros aspectos.

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A indústria cultural (Adorno e Horkheimer, 1947) atribui uma nova qualidade aos elementos culturais: cria produtos padronizados, adaptados ao consumo das massas e difundido pelos meios de comunicação de massas;


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O carnaval das escolas de samba possui maior força – econômica em especial – no Rio de Janeiro, em função de um trabalho mais direcionado por parte das entidades carnavalescas e do poder público naquela cidade. Isso se reflete na bibliografia disponível, pois a maioria dos trabalhos desenvolvidos sobre essa temática tem como referência de análise o carnaval carioca. Em termos comparativos, ainda são poucos os trabalhos que analisam o carnaval paulistano. Dentre os estudos que se dedicam ao carnaval e as escolas de samba paulistanas destacam-se: Escolas de Samba de São Paulo de Wilson Rodrigues de Moraes (1978); Samba na Cidade de São Paulo (1900-1930): um exercício de resistência cultural de Iêda Marques Britto (1986); Brancos e Negros no Carnaval Popular Paulistano – 1914-1988 de Olga Rodrigues de Moraes Von Simson (1989); Arte em desfile: escola de samba paulistana de Maria Aparecida Urbano e Neuza Neif Nabhan (1987); Convocação Geral: a folia está na rua: o carnaval de São Paulo tem história de verdade, Nelson Crecibene (2000); Carnaval & samba em evolução na cidade de São Paulo de Maria Aparecida Urbano (2006). Poucos são os trabalhos geográficos que analisam o samba, as escolas de samba ou o carnaval, dentre eles destacam-se: Escolas de Samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados, Nelson da Nóbrega Fernandes (2001); O lugar do Bairro no Mundo do Samba de Carlos Eduardo S. Maia (2003); Uma leitura do samba rural ao samba urbano na cidade São Paulo de Marcio M. Marcelino (2007); e O espaço do carnaval na periferia da cidade de São Paulo de Nanci Frangiotti (2007). Os dois primeiros trabalhos focam a analise para o Rio de Janeiro e os dois últimos para São Paulo, e todos abordam questões que se aproximam do objeto de estudo da pesquisa que aqui se apresenta. É interessante observar a preocupação recente e crescente de geógrafos em relação a essa temática. Isso pode ser visto como um indicador da importância adquirida por essa manifestação na atualidade. atua, com uma estrutura empresarial, nos mais diversos ramos culturais e artísticos; e tem como objetivo o lucro e o reforço da ideologia dominante.


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Há na Geografia brasileira uma retomada de temas que envolvem a relação entre espaço e cultura, fortemente baseada nas idéias da chamada Geografia Cultural2. Todavia esta dissertação não se inscreve diretamente nessa perspectiva, pois, embora se atenha à análise de uma manifestação cultural, seu objetivo é compreender a dinâmica territorial das escolas de samba na cidade de São Paulo através da análise do processo de produção do carnaval que inclui a ação de diversos agentes na cidade, considerando a tendência à apropriação dessa manifestação popular pela indústria cultural. Mais especificamente pretende-se compreender como as escolas de samba se desenvolveram acompanhando o crescimento da cidade e como se organizaram para chegar ao que são hoje. Para isto busca-se analisar a forma como os membros das escolas de samba produzem cultura e fazem política, utilizando-se dos novos conteúdos técnicos que a cidade oferece, para se organizar e buscar formas de suprir suas necessidades. O ponto de partida é a compreensão do espaço geográfico como o espaço de todos os homens, de todas as instituições e de todas as empresas, independentemente de suas diferenças, de sua força e de seu poder3. Ao longo do desenvolvimento do carnaval, as escolas de samba paulistanas estabeleceram, cada uma a seu modo, relações com os diferentes agentes dos circuitos da economia urbana4 com a finalidade de atender às necessidades da produção dos desfiles

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Definida como um subdomínio ou subcampo da disciplina a Geografia Cultural possui diversas linhas de pesquisa, mas, de acordo com Correa e Rosendahl (2003), procura analisar a “dimensão espacial da cultura” centrando-se nos “significados atribuídos pelos diversos grupos ao mundo real em todas as suas manifestações”. Jackson e Hudman (1990, p. 15. [Jackson, R.; Hudman, L.E. Cultural geography: people, places and environment. Saint Paul: West Publishing Company, 1990] Citado por Maia, 2003, p. 185) chamam a atenção para o fato que ela “examina as variações espaciais entre grupos culturais e os relacionamentos espaciais associados à sociedade (...) [e] interessa-se pela distribuição espacial e padrões de funcionamento de todos os sistemas da cultura” e sua reflexão nos fenômenos culturais. Nas palavras de Claval (2002, p. 20) o objetivo da abordagem cultural é entender a experiência dos homens no meio ambiente e social, compreender a significação que esses impõem ao meio ambiente e o sentido dado às suas vidas. A abordagem cultural integra as representações mentais e as reações subjetivas no campo da pesquisa geográfica. 3 “Esse é o espaço de todas as dimensões do acontecer, de todas as determinações da totalidade social. É uma visão que incorpora o movimento do todo, permitindo enfrentar corretamente a tarefa de análise” (SANTOS, 2000, et. al., p. 3). Como ensina Santos (1999, p. 51) “o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá”. 4 Ao estudar as especificidades dos territórios nos países subdesenvolvidos e as enormes diferenças de renda na sociedade, Santos (1979) chama a atenção para o fato que o aparelho econômico tem a necessidade de se adaptar


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carnavalescos. Nessa produção foram criadas diversas divisões sociais e territoriais do trabalho que se sobrepõem e convivem na atualidade. Como ensina Santos (1999, p. 106) “a divisão do trabalho pode, também, ser vista como um processo pelo qual os recursos disponíveis se distribuem social e geograficamente”. A divisão territorial do trabalho é compreendida pela distribuição geográfica dos recursos, os quais constituem uma totalidade e podem ser materiais (naturais ou artificiais) ou imateriais (relações, idéias, sentimentos, valores) e se renovam a cada momento formando outra totalidade, podendo ser pensada em escala mundial, nacional ou local. Segundo o autor a divisão territorial do trabalho gera uma hierarquia entre os lugares e redefine a capacidade de ação de pessoas, firmas e instituições. As diversas modalidades do poder público e as diversas firmas e instituições agem no sentido de atender aos seus próprios interesses, criando ou induzindo divisões do trabalho, o que pode ser observado também nas escolas de samba, que se definem como organizações culturais sem fins lucrativos, cujo produto final é o desfile carnavalesco. Embora as escolas de samba tenham como objetivo principal a produção do desfile, como entidades organizadas elas também são veículo para realização de ações sociais voltadas à comunidade. A escassez à qual é submetida boa parte da população das cidades – que não tem acesso ao consumo, aos equipamentos tecnológicos modernos e mesmo aos serviços básicos necessários a uma sobrevivência digna – impulsiona a formação de grupos

ao mesmo tempo aos imperativos da modernização poderosa e às realidades sociais. Surgem consequentemente dois circuitos, o circuito superior ou moderno e o circuito inferior, responsáveis não apenas pelo processo econômico, mas também pelo processo de organização do espaço. O circuito superior, originado da modernização tecnológica, é formado pelas grandes empresas nacionais e estrangeiras de produção, de finanças e de informação e pelo comércio moderno, entre outros segmentos de grande abrangência e o “essencial de suas relações ocorre fora da cidade e da região que os abrigam e tem por cenário o país ou o exterior” (SANTOS, 1979, p. 16). Ao passo que o circuito inferior abriga as atividades de pequena dimensão e menos modernas que mantém forte ligação com o lugar onde estão instaladas. Esses circuitos são, portanto, compostos por atividades que apresentam diferentes níveis de capitalização, tecnologia e organização e criam, consequentemente, oportunidades de produção, de trabalho e de consumo que atendem às necessidades das pessoas de diferentes níveis econômicos. O autor atenta também para a existência de um circuito superior marginal, o qual seria constituído por formas de produção menos modernas tanto do ponto de vista tecnológico, como do ponto de vista organizacional. Esse circuito “ostenta alguns elementos genéticos comuns tanto ao circuito superior como ao circuito inferior” sendo “em grande parte resposta às necessidades de consumo localmente induzidas” (SANTOS, 1994, p. 96).


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organizados e o desenvolvimento de ações no sentido de minimizar ou superar essa situação. Embora não estejam livres de contradições e interesses divergentes, as escolas de samba agem nesse sentido possibilitando a criação de redes de solidariedade e a ampliação de horizontalidades5 capazes de construir algo novo e promover mudanças significativas, ainda que pontuais6. O carnaval das escolas de samba na cidade de São Paulo tem forte influência do carnaval do Rio de Janeiro, onde surgiu, em 1928, aquela que ficou conhecida como a primeira escola de samba7 do Brasil, a Deixa Falar. O modelo carioca de festejar o carnaval se difundiu no território nacional devido à maior organização e estruturação do samba e do carnaval daquela cidade que, já na década de 1930, chegava aos diferentes rincões do Brasil através das transmissões da Rádio Nacional. Vale lembrar que há diversas formas de festejar o carnaval no Brasil e no mundo. Trata-se de uma festa de origem européia trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses, no século XVII, onde adquiriu características particulares devido à influência de elementos das diferentes culturas dos povos que habitavam ou viriam a habitar esse território. Como conseqüência, em cada lugar a festa apresenta especificidades que condizem com as características, os costumes e as lendas locais. Diferenças que podem ser claramente observadas na atualidade: nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, por 5

De acordo com Santos (1998, p. 55), “as horizontalidades são o domínio de um cotidiano territorialmente partilhado com tendência a criar suas próprias normas, fundadas na similitude ou na complementaridade das produções e no exercício de uma existência solidária. Nesses subespaços, e graças a essa solidariedade, consciente ou não, há um aumento da produtividade econômica, mas também da produtividade política, alimentadas pela informação”. 6 Questionando-se sobre a possibilidade de superação da face quase exclusivamente mercantil da informação e de sua transformação em comunicação útil, bem como da reconstrução dos laços de solidariedade desfeitos pela ampliação dos mecanismos parciais de modernização da sociedade urbana, Ribeiro (1997, p.154) afirma que “a resposta a essas questões vem sendo claramente procurada pelos segmentos sociais afastados dos impulsos à modernização seja através da adoção de comportamentos ostensivos que declaram à sociedade o reconhecimento da própria exclusão, seja através de práticas culturais reforçadas de coletivos pelo menos aparentemente solidários, como exemplificam o crescimento da religiosidade pentecostal (...) e de orientação carismática (...) nos espaços metropolitanos do país e a multiplicação de grupos com práticas culturais explicitamente marcadas pela busca identitária (...). As limitações existentes nestes mecanismos de coesão não impedem o reconhecimento da potencial resistência, presente na sociedade, à vida exclusivamente pautada pelo consumo de bens e serviços ou pela projeção tecnicamente normatizada do futuro”. 7 Existem diversas explicações para a denominação “escola”: há quem diga que vem do fato da primeira escola de samba ter se estabelecido ao lado de uma escola primária tradicional; outros afirmam que o nome tem relação com o fato de, na época, se falar muito em reforma do ensino nacional; e outros afirmam que se deve ao fato de os fundadores da primeira escola de samba serem considerados “professores do samba”.


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exemplo, há um predomínio das escolas e samba; já em Olinda e no Recife são comuns os blocos de maracatu e frevo; em Salvador os trios elétricos e blocos de afoxés; e em São Luis do Paraitinga as típicas marchinhas. Essas e outras manifestações carnavalescas existentes no Brasil se desenvolveram de forma singular num contexto histórico específico. A análise da dinâmica territorial das escolas de samba em São Paulo exige, portanto, a compreensão do processo de desenvolvimento dessa manifestação na cidade, fazendo-se necessária a elaboração de uma periodização que a considere a partir de seu surgimento, o que contribui sobremaneira para a interpretação dos eventos8. Destarte, essa pesquisa se desenvolve a partir de uma periodização composta por três períodos definidos pelos eventos mais significativos observados ao longo da história dessa manifestação cultural. As variáveis-chave determinantes para a ruptura dos períodos são as normas e as políticas públicas realizadas com a finalidade de desenvolvê-la e, como conseqüência dessas ações, as divisões sociais e territoriais do trabalho criadas na produção dos desfiles carnavalescos em relação aos diferentes circuitos da economia urbana. O recorte temporal aqui definido inicia-se em 1914, com o surgimento do primeiro cordão carnavalesco popular paulistano do século XX, e se estende até os dias atuais, 2008. Foram definidos três períodos, são eles: Carnaval dos Cordões – do surgimento dos cordões carnavalescos em 1914 à oficialização do carnaval em 1967; Carnaval das Escolas de Samba – Oficialização e Consolidação – do carnaval oficializado em 1968 à inauguração do sambódromo em 1991; e Carnaval das Escolas de Samba – Profissionalização e Ação Social – do início dos desfiles no sambódromo aos dias atuais.

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Como afirma Santos (1985 (1992, p. 2-3)), “(...) a análise, qualquer que seja ela exige uma periodização, sob pena de errarmos frequentemente em nosso esforço interpretativo. Tal periodização é tanto mais simples quanto maior a escala do estudo (os modos de produção existem à escala mundial) e tanto mais complexa e capaz de subdivisões quanto mais reduzida é a escala. Quanto mais pequeno o lugar examinado, tanto maior o número de níveis e determinações externas que incidem sobre ele. Daí a complexidade do estudo do mais pequeno”.


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A análise dos dois primeiros períodos tem como objetivo principal levar a uma melhor compreensão do período atual, pois o centro da discussão se dá neste último, pois é a partir da regulamentação do carnaval das escolas de samba (1990), da inauguração do sambódromo (1991) e do início das transmissões dos desfiles pela Rede Globo de Televisão (1999) que o carnaval paulistano ganha novo impulso e se desenvolve fortemente, no que se refere tanto à produção dos desfiles carnavalescos como ao desenvolvimento de ações sociais voltadas ao atendimento às comunidades das escolas de samba. É importante esclarecer que essa periodização não pretende ser exaustiva na descrição dos acontecimentos históricos; sua finalidade é pontuar e analisar algumas características e alguns eventos mais significativos para a compreensão dos aspectos que se pretende analisar na atualidade. Por isso a elaboração dos dois primeiros períodos baseia-se em fontes secundárias e entrevistas, ao passo que o terceiro período é fortemente e baseado em fontes primárias, entrevistas e observações em campo. Para isso foram observadas e analisadas diversas escolas de samba, com maior atenção para Unidos de Vila Maria, Unidos do Peruche, Príncipe Negro da Cidade Tiradentes e Paineira do Sapopemba. A partir da análise dessas escolas de diferentes tamanhos e localizadas em diferentes pontos da cidade, pretende-se ter uma noção da totalidade, mas, como lembra Arroyo (1996, p. 79) sem perder de vista o fato que a totalidade não é “homogênea ou uniforme; ao contrário, ela se compõe de especificidades, de complexidades, de conflitos tanto das estruturas quanto das formas. A totalidade sem contradições é vazia e inerte; sua concreticidade está determinada pelas contradições”. Na realização dessa pesquisa a ênfase maior foi dada aos aspectos qualitativos, porém os aspectos quantitativos não foram desprezados. Mas como ainda não houve, por parte do poder público, das entidades representativas ou das próprias escolas de samba, a realização de um estudo abrangente que quantifique e analise de forma detalhada o carnaval paulistano,


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os registros disponíveis são vagos, dispersos e no geral baseados em estimativas9. Dentre as fontes pesquisadas para a composição deste trabalho estão os diversos livros que descrevem e analisam o carnaval das escolas de samba; materiais de imprensa, em especial jornais e revistas; material audiovisual tais como documentários, materiais fonográficos, depoimentos e imagens; entrevistas realizadas com pessoas envolvidas na produção do carnaval, representantes do poder público, das entidades representativas e das escolas de samba entre outros; e diversos anos de observação em campo. Além do longo convívio junto à Escola de Samba Unidos de Vila Maria como membro participante de sua comunidade. O primeiro capítulo, intitulado Carnaval dos Cordões, se atem ao primeiro período e apresenta uma breve análise do surgimento, do desenvolvimento e da multiplicação dessa manifestação em São Paulo, com atenção à sua adaptação ao crescimento da cidade numa constante busca pelo reconhecimento por parte da sociedade e do poder público, e a forma como os agentes privados, baseados em interesses econômicos, atuaram no sentido de impulsionar esse desenvolvimento. O segundo capítulo, intitulado Carnaval das Escolas de Samba – Oficialização e Consolidação, se atem ao segundo período e analisa as transformações decorrentes da oficialização do carnaval das escolas de samba, em 1967, que, por um lado, descaracterizou a manifestação popular através da imposição de normas geradas fora de seu contexto original e, por outro, levou à sua consolidação na cidade que, ao crescer e se desenvolver, impõe novos conteúdos e direcionamentos, levando à construção do Sambódromo paulistano. O terceiro e o quarto capítulo se atém à análise do terceiro período da periodização proposta nesta pesquisa Carnaval das Escolas de Samba – Profissionalização e Ação Social. O terceiro capítulo intitulado Profissionalização do Carnaval e Uso da Cidade,

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Diversos fatores podem explicar essa situação, como a falta de recursos ou mesmo de interesse, pois embora o carnaval e as escolas de samba sejam oficializados e recebam apoio do poder público, há diversas relações informais e, muitas vezes, ilegais como, por exemplo, as questões trabalhistas ou a existência de interesses paralelos por parte de alguns dirigentes.


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analisa o carnaval paulistano a partir da sua regulamentação, em 1990, e do início dos desfiles no Sambódromo, em 1991, relacionando esses dois eventos com o impulso tomado por essa manifestação, que desponta como um negócio turístico, chamando a tenção para a entrada da Rede Globo de Televisão como um agente determinante das inovações; além de apresentar uma reflexão acerca da atual distribuição das escolas de samba na cidade e da forma como se utilizam dos fixos nela presentes. O quarto capítulo Intitulado Ação Social das Escolas de Samba – Formas e Abrangências, analisa as diversas ações de algumas escolas de samba no sentido de se utilizar dos novos conteúdos com a finalidade de atender não apenas aos interesses da produção carnavalesca, mas também aos interesses das comunidades. Em todos os capítulos procura-se compreender as ações das agremiações carnavalescas em relação à cidade e as ações dos agentes públicos e privados em relação às agremiações. Por fim, nas considerações finais, vislumbra-se a possibilidade de emergência de um novo período de desenvolvimento do carnaval paulistano, baseado nos novos conteúdos que despontam na atualidade, como a utilização da Lei Rouanet como fonte de recursos e o projeto de construção da chamada Fábrica de Sonhos, um objeto geográfico que se pretende construir nas proximidades do Sambódromo para abrigar os barracões das escolas de samba do Grupo Especial. A efetivação desses eventos abrirá um novo leque de oportunidades para os diversos agentes envolvidos, direta e indiretamente, com as escolas de samba e com a produção carnavalesca.


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1. Carnaval dos Cordões

Minha gente saia fora Da janela venha ver O Grupo da Barra Funda Está querendo aparecer! Cantamos todos, com voz aguda Trazendo vivas ao Grupo da Barra Funda

(Grupo da Barra Funda, 1914, Dionísio Barbosa e Luiz Barbosa).


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1.1. Os Cordões Carnavalescos no Contexto das Transformações Urbanas

Na passagem do século XIX para o XX, a cidade de São Paulo registrou um acelerado processo de crescimento. Diversos fatores contribuíram para seu desenvolvimento, mas foi a expansão industrial resultante do êxito da produção cafeeira que o impulsionou de forma mais contundente. A lucrativa produção de café do Oeste Paulista10 que contava com solos férteis, clima favorável e baseava-se na utilização de máquinas de beneficiamento – o que poupava mão-de-obra11 – e da ferrovia como meio de transporte – o que a tornava mais barata – transforma a economia brasileira transferindo o eixo econômico do Rio de Janeiro para São Paulo. O Porto de Santos tornou-se o mais importante do país e a cidade de São Paulo, até então sem muita força no cenário nacional, se desenvolveu tornando-se, em pouco tempo, um poderoso centro comercial. O café, principal produto de exportação brasileiro desde a década de 1830 até as primeiras décadas do século XX, recuperou a economia deficitária brasileira12 possibilitando crescentes superávits já a partir da década de 1860. Mas, a exemplo de outros produtos brasileiros, como cana-de-açúcar e ouro, a produção cafeeira foi marcada por um período de apogeu seguido por um processo de decadência, resultado, principalmente, da política de valorização empreendida pelo governo e agravada pela crise de 1929 que provocou a queda no preço internacional.

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“Os últimos vinte anos do Império marcariam o início da crise em toda a Zona do Vale do Paraíba e o espetacular avanço da cafeicultura no chamado Oeste Paulista. Esta região não corresponde rigorosamente ao oeste geográfico. Ela abrange a área que vai de Campinas a Rio Claro, São Carlos, Araraquara, Catanduva, na linha férrea da Companhia Paulista; e de Campinas para Pirassununga, Casa Branca e Ribeirão Preto, na Estrada de Ferro Mogiana. Historicamente, as alusões ao Oeste Paulista referem-se à região servida por estas duas estradas e seus ramais, onde a famosa terra roxa do café paulista espalha em manchas de terreno” (Boris Fausto, 2000, p. 196-197). 11 Vale lembrar que no Oeste Paulista “a utilização do escravo se tornou uma opção de emergência, enquanto as várias tentativas de trabalho livre iam sendo ensaiados até lograr forma definitiva, com a imigração em massa dos colonos europeus, a partir de meados dos anos oitenta [1880]” (Boris Fausto, 2000, p. 180). 12 Resultante de crises na produção agrícola - como a açucareira e a algodoeira - e de sucessivas políticas econômicas que estimulavam a importação (FURTADO, 1959; PRADO JUNIOR, 1956; BECKER e EGLER, 1994).


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A partir do final do século XIX os produtores de café passaram a diversificar seus investimentos e boa parte dos lucros era aplicada em outros setores econômicos, tais como no comércio, em instituições financeiras e principalmente na indústria, e a cidade de São Paulo, lugar onde diversos produtores fixaram residência, passa a ser a grande beneficiária desses investimentos. De importante centro comercial São Paulo torna-se o principal centro industrial brasileiro, já no início do século XX. Uma conseqüência, talvez a mais importante, desse processo foi o surgimento da metrópole paulistana que, naquele momento, modernizava-se com a consolidação de uma base territorial composta por redes de transporte (ferrovias e posteriormente rodovias), comunicação (telégrafo e telefone) e também financeira, cujo objetivo principal era sua adequação às necessidades da incipiente indústria e dos grupos que as controlava13. Modernização que se deu com a utilização maciça de capital estrangeiro, notadamente inglês. Observa-se, portanto, a incorporação da técnica ao território possibilitando o desenvolvimento industrial e a integração nacional, que somente em meados do século XX começaria a se consolidar14. A

industrialização

impulsionou

a

urbanização

e

a

cidade

cresceu

acompanhando os leitos dos rios e as linhas de trem. A falta de interesse pelos terrenos marginais às ferrovias como local de residência, favoreceu a indústria que os adquiria a baixo custo para a instalação de estabelecimentos fabris (PETRONE, 1958). Mas nos terrenos à 13

Esse processo ocorria concomitantemente ao período da chamada segunda revolução industrial, ou revolução científico-tecnológica período em que se verifica um acelerado processo de difusão das inovações tecnológicas (ferrovias, telegrafo, telefone, eletricidade, etc.) e a necessidade dos países centrais em ampliar sua área de influência. Como afirma Sevcenko (1998, p. 12-13) “não basta, entretanto, às potências incorporar essas novas áreas [antigas e novas colônias] às suas possessões territoriais; era necessário transformar o modo de vida das sociedades tradicionais de modo a instilar-lhes os hábitos e práticas de produção e consumo conformes ao novo padrão da economia de base científico-tecnológica”. 14 De acordo com Santos e Silveira (2001, p. 27-28) “As técnicas pré-máquina e, depois, as técnicas da máquina – mas apenas na produção – definem o Brasil como um arquipélago de mecanização incompleta. Mais tarde, com a incorporação das máquinas ao território (ferrovia, portos, telegrafo), estaríamos autorizados a apontar um meio técnico da circulação mecanizada e da industrialização balbuciante, caracterizado também pelos primórdios da urbanização interior e pela formação da Região Concentrada. No pós-guerra sobrevém a integração nacional, graças a construção de estradas de rodagem, à continuação do estabelecimento das ferrovias e a uma nova industrialização. Dá-se uma integração do território e do mercado, com uma significativa hegemonia paulista”.


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beira das estradas de ferro e também naqueles localizados nas diversas várzeas da cidade, a população pobre que não tinha acesso à crescente modernização fixava residência. Na transição do século XIX para o XX São Paulo apresentava um significativo crescimento em sua área urbana, ainda fortemente concentrada nas proximidades do núcleo central (Mapa 1).

Mapa 1. Área Urbanizada – 1882-1914


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Naquele momento a população paulistana era composta em sua maioria por imigrantes de diversas nacionalidades e seus descendentes, na maior parte italianos que vieram trabalhar na indústria nascente15, muitos dos quais provenientes das fazendas de café do interior paulista. Havia também uma significativa quantidade de negros recém libertos16 que ainda sofriam as conseqüências do sistema escravocrata, tinham pouca inserção na economia urbana e se submetiam às mais diversas formas de exploração. A aristocracia cafeeira que se urbanizou ao fixar residência nos casarões construídos em bairros nobres e agradáveis da cidade – Campos Elísios, Higienópolis e Avenida Paulista – influenciada pelo modelo europeu de comportamento, ansiava por uma cidade moderna e limpa a exemplo de Paris17, e com os predicados necessários ao desenvolvimento do mercado imobiliário18. Com a finalidade de modernizar a cidade “a todo custo” (SEVCENCO, 1998, p. 15) e adequá-la às necessidades do capital, a partir do final do século XIX inicia-se uma remodelação das vias e praças públicas – onde se concentravam a população pobre e as mais diversas atividades comerciais e profissionais – e um processo de limpeza, higienização e padronização de ruas, praças, fachadas e construções diversas. Essa ação não se restringiu aos lugares públicos, mas se estendeu também aos locais privados, direcionando-se principalmente às habitações coletivas existentes na cidade e que abrigavam os menos abastados, imigrantes e negros em sua maioria, que ali se aglomeravam devido à

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“Em 1901 existiam na cidade de São Paulo 7.962 operários, dos quais 4.999 eram estrangeiros, em sua maioria italianos” (MATOS, 1958, p. 69). 16 Após a Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, diversos negros dirigiram-se do interior paulista para a capital em busca de oportunidades. 17 Na segunda metade do século XIX a cidade de Paris passou por uma reestruturação urbana, promovida pelo prefeito G. E. Haussmann, que transformou a antiga cidade com ares medievais na moderna e limpa Paris, com largas avenidas, parques, jardins, saneamento básico e serviços públicos. O que foi um exemplo de modernização excludente e segregadora (BERMAN, 1986). Esse modelo foi seguido em diversas cidades do mundo, inclusive em São Paulo (ROLNIK, 1999). 18 São Paulo passou por diversas reformas urbanas “que se inspiraram no que o Barão de Haussmann fizera alguns anos antes, em Paris. As cidades adquiriram importância que nunca tiveram antes, como lugar da crescente produção industrial e como mercadoria, elas próprias, por meio de um mercado imobiliário crescente importante” (MARICATO, 1996, p. 38).


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falta de acesso à moradia, problema que se agravou com a conseqüente valorização dos terrenos e imóveis da região central. O discurso da higienização e do controle de epidemias como a febre amarela justificava as diversas ações, em muitos casos violentas, do Departamento de Saúde Pública. Todavia, enquanto os cortiços eram proibidos pelo Código Sanitário de 1894, a construção de “vilas operárias higiênicas fora da aglomeração urbana” (ROLNIK, 1999, p. 47) era incentivada pelo poder público, o que mostra por um lado a necessidade de retirar a população pobre da região central e por outro a de concentrar os operários próximos às unidades fabris. Desde o início o processo de urbanização paulistano foi intenso, violento e segregador. A cidade apresentava áreas residenciais de elite – concentradas nas regiões mais altas – que contavam com grande investimento público, infra-estrutura e saneamento básico; e áreas que concentravam bairros pobres – as várzeas e as margens das ferrovias nas proximidades dos bairros de elite ou na periferia da cidade – cuja população sofria com a quase ausência do Estado (PETRONE, 1958; SEVCENKO, 1998; ROLNIK, 1999). Era comum a população pobre fixar residência nos terrenos desvalorizados próximos aos bairros de elite, onde encontravam trabalho. Diversas mulheres residentes no Bexiga, por exemplo, prestavam serviços domésticos19 nos casarões da Avenida Paulista e nos Jardins, e as residentes na Barra Funda trabalhavam nos Campos Elísios e em Higienóolis (ROLNIK, 1999; SIMSON, 1989). Entre os homens era comum a realização de pequenos serviços temporários, como os de carroceiro, carregadores, vendedores de rua, tropeiros, pedreiro etc., ou o trabalho como carregadores e ensacadores em armazéns, na Estrada de Ferro São Paulo Railway a Santos/Jundiaí ou na Estrada de Ferro Sorocabana. Na Barra Funda, junto à linha férrea da Sorocabana, localizava-se o Largo da Banana20, lugar onde diversos negros se reuniam para 19 20

Diversas mulheres negras eram cozinheiras, quituteiras, lavadeiras, passadeiras, engomadeiras e amas de leite. Onde hoje se localiza o Memorial da América Latina.


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vender as bananas que ganhavam como parte do pagamento pelo carregamento que realizavam. Esse lugar ficou conhecido como um reduto de samba da cidade de São Paulo, pois os negros ali reunidos aproveitavam os momentos de folga para fazer samba e jogar tiririca, uma espécie de luta semelhante à capoeira. Como afirma Geraldo Filme21 (...) o ordenado era pequeno, o soldo era pequeno, então eles ganhavam tantos cachos de banana. A cada tantos cachos carregados eles ganhavam um (...) então eles colocavam ali na praça pra comércio e na hora em que folgava um pouquinho eles armavam um samba (Programa Ensaio, TV Cultura, 1992).

Naquele contexto urbano cosmopolita a festa estava presente, em especial aquelas com motivos religiosos, mas as comemorações carnavalescas também eram comuns e realizavam-se de diversas formas, como os bailes de máscara nos salões, os corsos22 no Centro da cidade e posteriormente na Avenida Paulista, os corsos populares no Brás, as bandas e sociedades carnavalescas em bairros como Lapa e Água Branca, entre outras (SIMSON, 1989; MORAES, J., 1997; URBANO, 2006). As festas populares tinham relação direta com as festividades religiosas, e eram nessas ocasiões que pessoas de diferentes origens se reuniam, possibilitando a integração das diferentes manifestações culturais23, pois, por se tratar de uma das poucas formas de lazer, as festas religiosas atraiam pessoas não apenas pelos motivos divinos, mas também pelos mundanos. No entanto, as festas promovidas pelas elites ou pelas classes intermediárias excluíam a população pobre e negra, que festejava a seu modo e da forma como era possível, ou, como era permitido. Desde o século XVII os negros sofreram restrições para participar das festas religiosas, pois se temia a afirmação e a expansão de seus folguedos e suas crenças. No século 21

Um dos mais renomados sambistas de São Paulo – compôs sambas de enredo para diversas escolas paulistanas e foi presidente da União das Escolas de Samba Paulistanas na década de 1970. 22 Desfiles ou passeios de carruagens e automóveis enfeitados em dias de carnaval. 23 Como afirma Moraes, J. (1997, p. 33) “negros libertos e ex-escravos, imigrantes italianos, portugueses e espanhóis, trabalhadores brancos vindos do interior da província carregados de uma cultura própria, iriam produzir imprevistos encontros e confrontos culturais e determinar imprevisíveis formas de experiências humanas”.


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XIX foram proibidos de participar de tais festas e passaram a se reunir nos adros das irmandades católicas simpáticas à causa negra, tais como as igrejas Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora dos Remédios, São Bento, São Benedito e São Francisco. Nas reuniões que ocorriam normalmente após as procissões, os negros podiam, com a permissão do poder municipal, realizar suas festas. Dentre os objetivos dessa ação estava o de impedir a manifestação religiosa de origem africana (MORAES, J., 1997), pois nos terrenos sagrados da Igreja Católica era possível observar e controlar suas ações. Os festejos carnavalescos negros paulistanos consolidaram-se nessas ocasiões, onde o sincretismo estava presente. Isso mostra que, apesar do caráter repressor, as irmandades católicas contribuíram para a manutenção das manifestações negras na cidade. A São Paulo cosmopolita do início do século XX, era repleta de contradições e experiências culturais diversas. Sua população pobre, no geral negra e imigrante, buscava na cidade em desenvolvimento formas de sobreviver e, com pouco ou nenhum acesso aos bens sociais e culturais, criava e recriava nas ruas, quintais e festas populares, suas manifestações culturais24. De um modo geral, eram destinados aos negros os piores trabalhos e as piores condições de vida. Uma boa parte dessa população concentrava-se em habitações coletivas nos bairros deteriorados próximos ao centro – Bela Vista (Bexiga), região do Lavapés, Liberdade, Baixada do Glicério e Barra Funda – onde conviviam com um grande número de imigrantes25. Havia concentração de negros também em bairros como Brás, Belém, Mooca, Penha, Jabaquara e Saúde. No entanto, embora negros e imigrantes habitassem o mesmo bairro, no geral as relações não iam muito além de uma convivência cotidiana pacífica. Scarlato (1988) chama a atenção para o fato que negros e italianos formavam a maior parte da

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José Geraldo Vincci de Moraes, em seu estudo “Sonoridades Paulistanas: final do século XIX e o início do século XX” (1997) faz uma bela apresentação das festas que ocorriam na cidade naquele período. 25 Como afirma Moraes, J. (1997, p. 67) “segregados em seus territórios, os negros procuravam manter vivas suas tradições através da releitura de suas memórias nas experiências cotidianas proporcionadas pelo novo conjunto urbano social internacionalizado, e que se expressavam nas festas populares, nos batuques, nas pernadas e capoeiras, nos times de futebol, nos sambas de roda, nas rodas de macumba e jongo”.


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população do Bexiga, mas em raras ocasiões eles partilhavam o mesmo espaço; os negros formavam seus próprios cortiços e somente em caso de necessidade os italianos mais pobres aceitavam morar em cortiços junto a eles. Nesse contexto surge, em 1914, o Grupo Carnavalesco da Barra Funda26, primeiro cordão carnavalesco paulistano27, fundado por Dionísio Barbosa e alguns membros de sua família. Tratava-se de algo genuíno, mas influenciado pelos folguedos negros interioranos como o samba rural (ANDRADE, 1950) ou samba de bumbo (MANZATTI, 2005), trazidos por negros que chegavam de cidades como Araraquara, Piracicaba, Sorocaba, Tietê, Campinas, Capivari, entre outras; e também pelas manifestações carnavalescas populares cariocas, como os ranchos28. Teve início uma nova forma de festejar o carnaval, o desfile de cordões, manifestação que possibilitou à população negra uma maior participação na vida cultural da cidade, ainda que de forma marginal. O Grupo Carnavalesco da Barra Funda era formado por um grupo de homens que desfilavam uniformizados pelas ruas da Barra Funda ao som de marchas29, cantando e tocando instrumentos de percussão e harmonia. No início as mulheres participavam apenas da organização e da montagem (URBANO, 2006). No primeiro ano desfilaram oito componentes, mas já em 1918 eram aproximadamente cinqüenta pessoas (SIMSON, 1989). Esse cordão se desenvolveu e estimulou o surgimento de diversos cordões na cidade, como

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O Grupo Carnavalesco da Barra Funda, parou de desfilar em 1936, mas dezessete anos depois, em 1953, Inocêncio Tobias reúne os sambistas e funda o Cordão Mocidade Camisa Verde e Branco que, em 1972, torna-se oficialmente uma escola de samba. 27 Vale lembrar que já no século XVIII havia grupos de negros e caboclos que se fantasiavam de índios e tocavam uma música de base percussiva, formando uma espécie de cordão, e acompanhavam as procissões religiosas. Eram os “Caiapós”. Em meados do século XIX essa manifestação foi proibida durante as procissões, sendo permitida apenas nos adros das igrejas ao término dos eventos religiosos. Entre 1890 e 1910 esses grupos passaram a se apresentar nos festejos carnavalescos. Além dos Caiapós havia o “Zuavos”, uma espécie de cordão, criado entre 1857 e 1860, formado por funcionários públicos, políticos e outros representantes da elite, mas esse grupo não tinha uma produção musical (VON SINSOM, 1989; URBANO, 2006; MARCELINO, 2007). 28 Uma espécie de cordão carnavalesco surgido na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, no qual os componentes desfilavam fantasiados, no geral de índios, ao som da mercha-rancho (QUEIROS, 1987, p. 56). 29 De acordo com Geraldo Filme (Programa Ensaio, TV Cultura, 1992) os cordões carnavalescos paulistanos faziam um ritmo chamado “marcha sambada”, no qual a percussão tocava um “batuque pesado” e a divisão do canto era em ritmo de marcha.


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Campos Elísios (Barra Funda), Geraldinos (Barra Funda), Desprezados (Barra Funda), Flor da Mocidade (Barra Funda), Vai-Vai (Bexiga), Esmeraldino (Pompéia), Moderado da Água Branca (Água Branca), as Caprichosas (Casa Verde), Marujos Paulistas (Cambuci), Baianas Paulistas (Baixada do Glicério), entre outros. Em 1935 Elpídio de Faria fundou no bairro da Pompéia a primeira agremiação a denominar-se “escola de samba”, a Escola de Samba Primeira de São Paulo. Em 1937 Deolinda Madre (Madrinha Eunice), seu marido Francisco Papa (Chico Pinga) e seu irmão José Madre (Zé da Caixa) fundaram na Baixada do Glicério a Escola de Samba Lavapés, a mais antiga em atividade, que, com pouco mais de trinta foliões percorria as ruas do bairro e seguia em direção à Praça da Sé tocando sambas de rádio. Embora fosse inspirada nas escolas de samba do Rio de Janeiro essa agremiação possuía características de cordão30. Assim como os cordões, as escolas de samba proliferaram na cidade. As diferenças entre as duas formas de manifestação eram pouco significativas ou inexistentes, e em ambos os casos a organização era de base familiar31. No início, os desfiles se realizavam nas ruas dos bairros de origem das agremiações, pois seus integrantes temiam a repressão policial; e para que tudo corresse de forma tranqüila buscavam constantemente o apoio dos demais moradores. Em poucos anos essa manifestação ganha relevo entre a população negra e também a simpatia de parte da população branca de seus bairros, dentre eles alguns comerciantes que contribuíam com doações em dinheiro ou em produtos (SIMSON, 1989; URBANO, 2007), mas ainda era pouco aceita e muitas vezes rechaçada, pela sociedade de um modo geral, em especial pelas elites e pelo poder público, sofrendo por isso forte repressão. A partir da década de 1920, alguns comerciantes e órgãos de imprensa passaram a incentivar essa manifestação por enxergarem nela uma oportunidade de 30

A Lavapés viveu seu auge entre as décadas de 1940 e 1960, mas após a oficialização do carnaval paulistano em 1967, não acompanhou as inovações entrando em processo decadência. No carnaval de 2008 desfilou no Grupo II, ficou em décimo quarto lugar e foi rebaixada para o Grupo III da UESP. 31 “(...) as Escolas de Samba assim como os Cordões, sempre traziam a marca do sistema familiar (...) e esta característica era tão importante que dela dependia o sucesso ou o fracasso da Escola” (FESEC, s/d).


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incrementar seus negócios e, como conseqüência, os desfiles se estenderam para o centro e para outros bairros. Assim se inicia o processo de desenvolvimento e adaptação dessa manifestação à cidade, o qual este trabalho procura analisar. As agremiações carnavalescas contribuíram fortemente para a manutenção das manifestações negras na cidade, pois embora fossem o resultado de uma mescla de traços da cultura paulista com fortes influências cariocas, era através delas que essa população colocava-se publicamente e, de certa forma, reivindicava e reafirmava seu lugar como agente produtor de uma manifestação cultural paulistana. Na primeira metade do século XX a cidade de São Paulo passou por diversas transformações devido às necessidades impostas pelo seu crescimento urbano industrial, tais como: construção de largas avenidas e viadutos; retificação e canalização de córregos e rios para o posterior aproveitamento de suas várzeas; desenvolvimento dos meios de transporte; e implantação de infra-estrutura urbana, sobretudo energia elétrica e abastecimento de água e esgoto. A conseqüente valorização de terrenos e imóveis nos bairros centrais, inviabilizou a permanência da população menos abastada nessa região obrigando-os a buscar lugares mais acessíveis economicamente. Verificou-se, portanto, uma dispersão da população pobre em direção à periferia. A mancha urbana paulistana cresceu velozmente (Mapas 2 e 3) com a implantação de diversos loteamentos distantes do centro e com a manutenção de grandes áreas vazias a espera de valorização (PETRONE, 1958; ROLNIK, 1999), uma estratégia de especulação imobiliária que orientou a expansão da cidade32.

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Em relação aos loteamentos Petrone (1958, p. 156) afirma que “uns são oferecidos a baixo preço, através de prestações módicas, quando não acompanhados por uma quantidade de tijolos. Naturalmente, o paulistano de escassos recursos, atormentado pelo pagamento dos aluguéis e pelo desconforto da pequena casa ou do “cortiço” situados na cidade, não tem dúvida em adquirir o seu lote, no justificado anseio de possuir sua casa própria, embora grandes distâncias venham a separá-lo do local em que trabalha. Daí o rápido crescimento de uma infinidade de “vilas”, que surgem como cogumelos nos arredores e nos subúrbios da metrópole. De outro tipo são os loteamentos de preços altos, com terrenos de maior área e dotados de comodidades que os anteriores citados não conhecem; encontram-se no próprio perímetro urbano ou em sua periferia e não tardam a transformar-se em bairros residenciais de classe média ou mesmo rica. Embora ocupem áreas maiores, sua densidade demográfica é, evidentemente, muito menor que a do tipo atrás citado”.


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Mapa 2. Área Urbanizada – 1930-1949


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Mapa 3. Área Urbanizada – 1950-1962


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O crescimento populacional da cidade de São Paulo também foi bastante elevado desde o final do século XIX. De 1890 a 1900 a população quase quadruplicou, e de 1900 a 1940, o crescimento foi de aproximadamente cinco vezes e meia (Tabela 1). Isso foi uma conseqüência da consolidação e do desenvolvimento de seu parque industrial, pois além de estrangeiros e interioranos, há uma chegada maciça de migrantes provenientes dos mais diversos lugares do país, em especial da região Nordeste e do estado de Minas Gerais, atraídos pela crescente oferta de emprego33.

TABELA 1. MUNICÍPIO, REGIÃO METROPOLITANA E ESTADO DE SÃO PAULO, E BRASIL. CRESCIMENTO POPULACIONAL – 1820-1970

Anos 1872 1890 1900 1920 1940 1950 1960 1970

São Paulo (Município)

31.385 64.934 239.820 579.033 1.326.261 2.198.096 3.781.446 5.924.615

RMSP

1.568.045 2.622.786 4.739.406 8.139.730

São Paulo (Estado)

837.354 1.384.753 2.282.279 4.592.188 7.180.316 9.134.423 12.974.699 17.771.948

Brasil 10.112.061 14.333.915 17.318.556 30.635.605 41.236.315 51.944.397 70.119.071 93.139.037

Fonte: IBGE – Censos Demográficos. Elaboração da Autora.

O censo de 1950 mostra que aproximadamente 12% da população residente em São Paulo eram naturais de outros estados brasileiros, ao passo que o percentual de estrangeiros era de 13,7%. Isso revela que a população estrangeira ainda era muito significativa, embora inferior ao registrado no início do século, 35,4% em 1920. O mesmo censo mostra que 10,2% dos habitantes eram negros e mestiços, enquanto 87,78% eram brancos34. 33

Como afirma Petrone (1958, p. 104) “o surto industrial ainda influi sobre a cidade, concorrendo para o aumento da população (em virtude da crescente necessidade de mão-de-obra e impulsionado pela “miragem” que vive a atrair, para a metrópole, a população da zona rural e do interior, em geral) e, sobretudo, modificando a paisagem urbana e acabando por concretizar a existência do “Grande São Paulo””. 34 Embora os negros representassem o segundo grupo mais populoso, apareciam em número bem inferior a outras cidades brasileiras, como Rio de Janeiro (29,8%), Recife (50,3%) e Salvador (66,1%). Isso se deve à pouca utilização da mão-de-obra escrava no estado de São Paulo, que passou a ser utilizada em larga escala


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Em meados do século XX, a população negra, de um modo geral, ainda vivia em casas humildes ou habitações coletivas, pertencia às classes menos favorecidas, exercia, em sua maioria, serviços domésticos e pesados, e tinha como principais formas de lazer o futebol e as escolas de samba, ou cordões carnavalescos. Ao analisar esse grupo étnico, Araújo Filho (1958) afirma que as mulheres trabalhavam em fábricas e, principalmente, como empregadas domésticas; os homens aparecem como operários em fábricas e construções, nos serviços ligados ao transporte e às comunicações, nas categorias inferiores do funcionalismo público, etc. O futebol, as sociedades de dança (“gafieiras”) e as “escolas de samba” constituem, juntamente com o cinema, os principais derivativos para as horas de folga. Os preconceitos de cor, agravados pela predominância de brancos de origem européia recente, fazem do negro paulistano um marginal, embora lhe caiba uma parcela de inegável importância na vida e no progresso da grande metrópole.

Importante lembrar que a partir da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, houve um grande incentivo à industrialização e à urbanização em território nacional, acompanhado de uma legislação trabalhista direcionada à mão-de-obra urbanaindustrial (SINGER, 1998), o que contribuiu para atrair trabalhadores para as cidades, estimulando o êxodo rural e, conseqüentemente, o processo de urbanização. Mas boa parte da mão-de-obra disponível na cidade de São Paulo, independentemente da etnia a qual pertencia, não foi absorvida pela indústria, o que levou ao desenvolvimento de uma série de atividades econômicas e formas de produção não-modernas, e de pequena dimensão, para atender às necessidades mais imediatas dessa parcela da população, ampliando assim o circuito inferior da economia urbana (SANTOS, 1979). Como lembra Silveira (2004, p. 60), quem não é moderno também tem lugar na grande cidade, e São Paulo “ao longo de sua história tem sido atraente para pobres do país inteiro e também de outros países. E, assim, seu tamanho apenas no século XIX em função da produção cafeeira; e também devido a grande imigração estrangeira, pois em 1836 o percentual de negros e mestiços no município era de 52,5%, em 1872 de 39,9% e em 1886 de 23,8%. No entanto de 1940 a 1950 houve um aumento no percentual de negros de 8,2% para 10,2%, muito provavelmente devido ao movimento migratório nacional (ARAUJO FILHO, 1958, p. 201).


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aumenta não apenas pela concentração de riqueza mas, sobretudo, de pobreza”. E a população migrante concentrava-se, em sua maioria, nos bairros periféricos que se multiplicavam nas franjas da cidade e já nasciam com diversos problemas habitacionais e de infra-estrutura, desprovidos dos serviços básicos, de cultura e de lazer. A dispersão da população em direção à periferia provocou a extinção de diversas agremiações carnavalescas. Apenas algumas mais antigas e mais consolidadas sobreviveram, pois mesmo distantes os integrantes mantiveram suas relações. O Cordão Carnavalesco Vai-Vai, por exemplo, possuía alas inteiras em bairros afastados do centro. Por outro lado, o crescimento populacional nas periferias contribuiu para a ampliação do número de participantes nas entidades carnavalescas existentes e para a criação de diversas outras, o que colaborou para o desenvolvimento do carnaval paulistano35. Nos bairros periféricos a população buscava soluções para os diversos problemas existentes, o que estimulava o desenvolvimento de ações e relações entre os grupos, fomentando a integração e a criação de solidariedades. Dentre essas ações, inclui-se o surgimento de entidades carnavalescas que satisfaziam as necessidades de diversão e festa36. Dentre as escolas fundadas nesses bairros em meados do século estão Nenê de Vila Matilde, no bairro de mesmo nome em 1953, Unidos de Vila Maria, no bairro de Vila Maria em 1954, Unidos do Peruche, do Parque Peruche em 1956. Nesse momento as escolas de samba já representavam para a cidade um símbolo do bairro onde se originaram37. 35

Como afirma Simson (1989, p. 166) “(...) as novas “filiais” periféricas, além de aglutinadoras dos antigos membros dos cordões, muito cedo passaram a funcionar como centros motivadores e receptores de novos elementos que, vindo enriquecer as alas das agremiações, provocaram um significativo crescimento numérico das entidades negras”. 36 De acordo com Magnani (1982, p. 14) “(...) os deslocamentos de população para os grandes centros não envolvem apenas questões de ordem econômica, demográfica ou urbanística; para o próprio migrante, a mudança não se esgota no problema de uma maior ou menor capacidade de adaptação às exigências do trabalho urbano, mas significa alterações profundas no seu modo de vida, na forma de satisfação de suas necessidades. Implica, em suma, um reordenamento de todo seu estoque simbólico. Urge, na grande cidade, reconstruir uma nova identidade, reconstruir laços de parentesco e vizinhança, acostumar-se aos equipamentos urbanos. Nesse processo junta-se o velho ao novo, tradições rurais com valores próprios da sociedade industrial; algumas coisas permanecem, muitas se transformam, outras ainda desaparecem”. 37 Como afirma Simson (1989, p. 113) “com o passar dos anos, devido ao sucesso obtido por algumas agremiações nas disputas de Momo, elas foram se tornando para a sociedade mais ampla uma espécie de símbolo


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No geral as agremiações carnavalescas paulistanas tinham como base um grupo familiar que se ampliava agregando vizinhos e amigos. Nas palavras de Maria Aparecida Urbano38: sempre vai ter a relação com família. É o bairro, mas dentro do bairro uma casa que se destaca, e essa casa que se destaca é que movimenta, e vai movimentando. Como se fosse um ramo vai crescendo pelo bairro todo.

Os laços de vizinhança e o sentimento de pertencimento ao lugar de moradia eram muito significativos, tanto que diversas escolas antigas e recentes fazem, em seus nomes, uma referência aos seus bairros, como, por exemplo, Nenê de Vila Matilde, Unidos de Vila Maria, Unidos do Peruche, Morro da Casa Verde, Acadêmicos do Tucuruvi, Príncipe Negro da Cidade Tiradentes, Paineiras do Sapopemba, Império de Casa Verde, entre outras. Nas primeiras décadas de desenvolvimento dessa manifestação, mesmo quando os desfiles já ocorriam em outros pontos da cidade, a relação com o bairro era muito forte. Desfilar por suas ruas e para sua gente era um ponto alto dos desfiles carnavalescos.

do próprio bairro de origem, reforçando novamente a íntima ligação entre os folguedos carnavalescos populares e os grupos de vizinhança da grande cidade”. 38 Entrevistada em 17/12/2007. Estudiosa do carnaval paulistano, que foi carnavalesca por diversos anos em diferentes escolas de samba de São Paulo.


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1.2. As Ações das Agremiações Carnavalescas e a Aproximação da Sociedade Paulistana

A maior parte das atividades das agremiações carnavalescas paulistanas concentrava-se em época de carnaval. No entanto era comum a realização, ao longo do ano, de ações que proporcionavam momentos de lazer para seus membros. Ao analisar o conjunto de atividades, Simson (1989) as classifica em três tipos: atividades pré-carnavalescas, atividades carnavalescas e atividades de meio de ano. Dentre as atividades pré-carnavalescas havia as batalhas de confete realizadas em diferentes bairros da cidade como Lapa, Penha, Brás, Pinheiros, Bela Vista e Água Branca. Eram concursos organizados pelos comerciantes locais e por órgãos de imprensa – jornais e emissoras de rádio – cuja finalidade residia no incremento do comércio sazonal relacionado ao carnaval. Dentre as atividades carnavalescas estavam os desfiles propriamente ditos, que ocorriam nos bairros dos cordões e, posteriormente, em direção ao centro ou em outros pontos da cidade, como a Cidade da Folia, no Parque Antártica, e o Parque do Ibirapuera, entre outros. Além dos desfiles, alguns cordões promoviam atividades em suas sedes – as casas dos dirigentes – ou em salões alugados, como bailes de carnaval, concursos internos ou refeições coletivas. Dentre as atividades de meio de ano, havia os bailes que ocorriam periodicamente, ou sempre que possível, no geral em salões alugados, com a finalidade de manter o vínculo entre os membros dos cordões e arrecadar fundos para o desfile de carnaval. Até meados do século XX eram comuns os passeios com piqueniques, realizados em São Paulo e em algumas cidades próximas, como Rio Claro, Tietê, Campinas, Jundiaí e Santos, que proporcionavam momentos de lazer (Fotos 1 e 2), bem como as serenatas (SIMSON,


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1989) que, embora não envolvessem toda a agremiação, eram muito representativas, assim como os jogos de futebol.

Foto 1 F.S. Photo Piqueniqie do Cordão Camisa Verde. Zezinho da Casa Verde ao clarinete e sua mãe ao violão. Santos – SP 1925 Centro de Documentação e Memória do Samba

Foto 2 Autor desconhecido Músicos do Grupo Barra Funda em piquenique. Santos – SP 1925 Centro de Documentação e Memória do Samba

Importante ressaltar que os times de futebol de várzea tiveram, desde o início, forte ralação com as agremiações carnavalescas. As partidas e campeonatos realizados nas várzeas eram momentos de encontro onde se tocava samba, e a partir desses encontros


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surgiram diversos cordões ou escolas de samba como, por exemplo, a Vai-Vai que tem sua origem relacionada a um time de futebol chamado Cai Cai39. E vale lembrar que “o futebol foi, em São Paulo, a primeira festa do povo fora da perspectiva da Igreja” (SEABRA, 2004, p. 293). Também eram comuns as idas a Pirapora do Bom Jesus por ocasião da Festa de Bom Jesus, realizada no mês de agosto40. Essa festa tem grande importância para o samba paulistano, pois lá se reuniam pessoas de diversas cidades do Estado (Fotos 3), embora os negros participassem de forma marginal, acampados (Foto 4) ou reunidos nas Casas dos Romeiros – barracões às margens do Rio Tietê. Esses encontros promoviam o diálogo entre as diversas manifestações populares negras de São Paulo – os Batuques41 – que influenciaram fortemente o samba paulistano. Explicando as origens do samba de São Paulo e comparandoo com o do Rio de Janeiro, Geraldo Filme afirma que o samba paulista é mais pesado, ele é mais valente. Vem do batuque, na base de bumbo, caixas de guerra, repique, aquelas coisas todas, ganzás. Sendo que o deles [referindo-se ao samba do Rio de Janeiro] é mais da origem do candomblé, é mais balançado. É mais balançado devido justamente aos instrumentos miúdos. Para a gente montar uma bateria aqui em São Paulo é um negócio gozado. Você chega lá: Fulano o que você toca? Surdo, surdo, surdo, surdo... Entende? (Geraldo Filme, Sampa, Estúdio Eldorado, 1980).

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O Cordão Carnavalesco Vai-Vai surgiu a partir da iniciativa de um grupo de amigos que não jogava futebol mas acompanhava os jogos do Cai-Cai. “Eles eram considerados por muitos como um grupo de penetras e arruaceiros, que só eram lembrados quando tocavam na beira do campo nos jogos do Cai-Cai, (time de futebol que tinha em seu uniforme as cores branco e preto) para satirizarem este time de futebol, e as gozações que surgiam eles se denominaram de a turma do VAE-VAE. A fama desta turma cresceu na região, e em quase 2 anos não havia uma festa boa em que eles não estavam e a folia do carnaval no bairro, já não poderia acontecer sem eles (...) em 01/10/1930, foi instituído legalmente o CORDÃO CARNAVALESCO E ESPORTIVO VAE VAE” posteriormente chamado Vai-Vai (www.vaivai.com.br, acesso em 26/04/2006). 40 A Festa de Bom Jesus de Pirapora, ocorria todos os anos entre os dias 3 e 6 de agosto. Pirapora do Bom Jesus teve sua origem a partir da aparição de uma imagem do “Bom Jesus” nas margens do rio Tietê, em 1724 no local onde hoje se localiza a cidade. De acordo com relatos populares, a referida imagem foi levada diversas vezes para Santana do Parnaíba, a vila mais próxima, mas, sem explicações sempre aparecia no mesmo local. Fato que levou à construção de uma Capela e, posteriormente, do núcleo urbano. 41 Há diversos trabalhos que analisam os Batuques e como essas manifestações influenciaram o samba paulistano em sua origem, dentre eles: ANDRADE, 1950; SIMSON, 1989; MORAES, J., 1997; MANZATTI, 2005; MARCELINO, 2007.


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Geraldo Filme relata, na letra do samba “Batuque de Pirapora” de 1972, um acontecimento que retrata um pouco do cotidiano da Festa de Pirapora e da marginalização dos negros que, mesmo religiosos, sofriam restrições: Eu era menino

Mamãe mulher decidida

Os bambas da Paulicéia

Mamãe disse vamo’ embora

Ao santo pediu perdão

Não consigo esquecer

Você vai ser batizado

Jogou minha asa fora

Fredericão na sabumba

No samba de Pirapora

Me levou pro barracão

Fazia a terra tremer

Mamãe fez uma promessa

Lá no barraco tudo era

Cresci na roda de bamba

Para me vestir de anjo

alegria

No meio da alegria

Me vestiu de azul-celeste

Negro batia na zabumba

Eunice puxava o ponto

Na cabeça um arranjo

e o boi gemia

Dona Olímpia respondia

Ouviu-se a voz do festeiro

Iniciado o neguinho

Sinhá caia na roda

No meio da multidão

No batuque de terreiro

Gastando a sua sandália

Menino preto não sai

Samba de Piracicaba

E a poeira levantava

Aqui nessa procissão

Tietê e campineiro

Com o vento das sete saias!

Em 1937 a Prefeitura de Pirapora do Bom Jesus, preocupada com a crescente importância que os festejos negros vinham adquirindo em relação à festa religiosa, proibiu a realização dos sambas nos barracões, os quais foram demolidos na década de 1940. Como conseqüência observou-se um empobrecimento da festa religiosa que deixou de ser referência para o samba paulista42.

42

Atualmente há uma preocupação por parte da Prefeitura de Pirapora em resgatar as raízes do samba local e incentivar sua produção através de um projeto cultural desenvolvido no Espaço Samba Paulista Vivo, localizado nessa cidade e inaugurado em dezembro de 2003, o qual procura reunir sambistas paulistas de diferentes gerações. Além disso, há um apelo turístico, pois como informa o sítio oficial da cidade “buscamos estreitar o relacionamento entre as mais diversas instituições voltadas ao samba de forma a difundir Pirapora do Bom Jesus como referência das origens do Samba Paulista. Para tanto priorizamos enriquecer o acervo histórico, transmitir a cultura do Samba de Roda para os jovens do município e aprimorar o Espaço do Samba Paulista Vivo como atrativo Cultural e Turístico, para isso buscamos parcerias” (www.piraporadobomjesus.com.br, acesso em 12/05/2008).


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Foto 3 Autor desconhecido Grupo Barra Funda na festa de Pirapora do Bom Jesus – SP c. 1915 Centro de Documentação e Memória do Samba.

Foto 4 Claude Lévi-Strauss Acampamento do Romeiros Pirapora do Bom Jesus – SP Agosto de 1937


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Com base na classificação de Simson (1989), em relação às atividades das agremiações carnavalescas e também nos depoimentos dos sambistas que viveram as primeiras décadas dessa manifestação popular, é possível constatar que as atividades não se restringiam apenas ao período carnavalesco. As agremiações agregavam sua comunidade ao longo do ano, o que fortalecia o grupo e possibilitava uma série de ações. Essa característica não é uma exclusividade do primeiro período, mas com o desenvolvimento econômico da festa, ela se torna menos intensa nos períodos seguintes. No que se refere à relação da sociedade paulistana com as agremiações carnavalescas, observa-se uma progressiva aproximação. Nas primeiras décadas, quando os cordões começaram a realizar desfiles fora de seus bairros, o público espectador era mais contido. Mas já a partir da década de 1930, o público apresentava-se de forma mais participativa, cantando, dançando e por vezes acompanhando os cordões (SIMSON, 1989), o que mostra uma maior aceitação por parte da sociedade e uma maior liberdade de uso da cidade por parte dos cordões, embora fosse algo restrito aos dias de carnaval (Fotos 5 e 6).

Foto 5 Claude Lévi-Strauss Espera pelos desfiles na Av. São João. São Paulo – SP 1935 Instituto Moreira Salles


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Foto 6 Claude Lévi-Strauss Desfile do Cordão Campos Elíseos, no trecho provável entre as ruas João de Barros e Cons. Brotero. São Paulo – SP 1935 Instituto Moreira Salles

O fato de ser uma festa realizada pela população negra sem dúvida contribuía para o distanciamento entre os foliões e o público e restringia a participação da população branca – o que a princípio era mal visto tanto por brancos como por negros – embora ela participasse assistindo e, em alguns casos, contribuindo financeiramente ou com materiais utilizados na produção do desfile. Com a consolidação dessa manifestação na cidade, os homens brancos começaram a participar mais efetivamente. No entanto, no caso das mulheres brancas, a participação foi mais tardia, o que reflete não apenas uma questão étnica, mas também a situação da mulher naquele contexto social. Além disso, a partir da década de 1930, com o surgimento de cordões em diferentes bairros da cidade, a rivalidade entre eles torna-se mais acirrada, o que provocava conflitos muitas vezes violentos. Esse fator, além de intimidar a população que deles não participava, servia como justificativa para a ação repressora da polícia, que também agia de forma violenta. Os conflitos podiam acontecer pelos mais diversos motivos, dos quais muitos tinham origem fora da época de carnaval (SIMSON, 1989). Mas essa situação conflituosa não se estendeu por muito tempo devido ao maior interesse pelos concursos propriamente ditos, que já a partir da década de 1930 passaram a ser organizados e patrocinados por empresas


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privadas e, eventualmente, pelo poder público. E, como afirma Maria Aparecida Urbano43, na década de 1940 a situação de repressão fez com que os componentes dos cordões atraíssem pessoas brancas para o desfile com a finalidade de atenuar a ação policial. Segundo ela: uma forma que eles [cordões e escolas] encontraram para poder se organizar para sair, foi começar a colocar o branco junto. E de que forma? Na frente. Cada bairro começou a pensar, quem? Ah! Eu vou pegar o filho do delegado, porque ele vivia nos ensaios e ele gostava, ele samba também, então eu vou convidar. O dentista o dono da padaria o dono da mercearia alguns guardas da polícia que também gostavam e estavam de folga. E aí então chegava a polícia via aquela turma na frente, e conhecia todo mundo. Deixa passar.

As agremiações desfilavam com um grupo de músicos que tocavam instrumentos de percussão, harmonia e sopro. A utilização de instrumentos que originalmente não faziam parte da cultura negra, também tinha relação com a necessidade de buscar uma maior aceitação por parte da sociedade de um modo geral (SIMSON, 1989; MORAES, J., 1997). De acordo com Simson (1989), isso também ocorria com outros elementos típicos desse folguedo, como a dança gingada, pois no desfile, a ênfase era dada à melodia e à evolução, ficando a percussão e a dança em segundo plano. Situação que se altera com a maior organização devido à promoção de comerciantes, jornais e emissoras de rádio, com local previamente definido, prêmios em dinheiro e, conseqüentemente, uma maior aceitação.

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Entrevistada em 17/12/2007.


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1.3. O Interesse da Iniciativa Privada nos Desfiles Carnavalescos

A forma de produzir os desfiles carnavalescos se altera ao longo do desenvolvimento dessa manifestação. Até a sua oficialização, em 1967, a produção das fantasias e alegorias era realizada de forma artesanal e, de um modo geral, o trabalho era voluntário e realizado pelos membros das agremiações, pois as escolas não contavam com recursos próprios significativos e tampouco com incentivos públicos constantes. No entanto, também havia relações de trabalho remunerado, pois em alguns casos, como o dos sapateiros e algumas costureiras, o pagamento pelo serviço prestado era necessário, embora o valor fosse negociado. Os parcos recursos também impunham a necessidade do improviso. Diversos relatos descrevem a precariedade do primeiro desfile do Grupo Carnavalesco da Barra Funda cujos membros saíram com roupas simples e remendadas (SIMSON, 1989, p. 89) e instrumentos improvisados, como chocalhos confeccionados com tampinhas de garrafas de cerveja (BRITTO, 1986, p. 74), o que não desqualifica artística e musicalmente os cordões, apenas retrata a situação naquele momento. Seria um equívoco supervalorizar os instrumentos musicais industrializados e largamente utilizados pelas escolas de samba na atualidade em detrimento daqueles que, embora improvisados, cumpriam sua função. Para obter os recursos, os materiais necessários e arcar com os custos da produção das fantasias e alegorias, os dirigentes dos cordões buscavam diferentes formas de arrecadar fundos. Os membros que possuíam condições financeiras contribuíam mensalmente, mas como essa arrecadação não era suficiente, os organizadores dos cordões recolhiam donativos entre os comerciantes do bairro. Isso podia se dar sem um registro formal ou com a passagem do chamado Livro de Ouro, no qual se registrava os nomes dos doadores e os valores doados, prática essa que se prolifera nas décadas de 1940 e 1950.


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Alguns comerciantes apoiavam os cordões de outras formas, como, por exemplo, os da Rua Barra Funda que deixavam as luzes dos comércios acesas para iluminar a passagem do Grupo Carnavalesco da Barra Funda (SIMSON, 1989), ou aqueles que doavam tecidos e outros artigos para a confecção das fantasias. As agremiações costumavam retribuir o apoio com lazer e entretenimento, ou seja, durante os desfiles passavam pelas ruas onde se localizavam os comércios dos contribuintes e ali realizavam apresentações especiais. Essas formas de solidariedade, muito comuns até meados do século XX, foram muito importantes para a manutenção e para o desenvolvimento dos cordões carnavalescos na cidade. Além disso, mostram que as relações entre seus membros e entre eles e outros sujeitos, como os comerciantes do bairro, embora baseadas em relações de troca, vão além dos interesses exclusivamente econômicos. Outra fonte de renda comum entre as agremiações carnavalescas era a realização de bailes, festas e leilões, entre outras atividades, nos salões alugados – quando os cordões já tinham uma maior organização e um maior número de componentes – para os quais eram cobrados ingressos e vendiam-se comidas e bebidas. A partir da década de 1930, algumas

agremiações

já

contavam com

estatuto e

associados

que

contribuíam

financeiramente, o que se refletia em suas ações44. Havia também os concursos e batalhas de confetes realizados em outros bairros – comuns na Lapa e na Penha – em especial a partir da década de 1930 organizados por comerciantes que viam nessas atividades a possibilidade de incrementar o comércio de seus produtos, nos quais eram premiadas as agremiações com melhor desempenho. No caso das competições realizadas na Cidade da Folia montada no Parque Antártica, no Bairro da Água Branca, cuja finalidade era animar o carnaval interno do parque de diversões, todas as entidades participantes eram premiadas. Quando essa

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Como afirma Brito (1986, p. 81) “os cordões mais organizados como o Camisa Verde e o Campos Elíseos tinham criado uma estrutura administrativa, haviam se constituído em sociedade, regidos por estatutos, e os sócios tinham acesso aos bailes e demais atividades festivas, bastando apresentar o recibo da mensalidade em dia”.


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manifestação já tinha certa aceitação, algumas agremiações, como o Vai-Vai, realizavam apresentações ou ensaios nas ruas do centro para arrecadar doações (SIMSON, 1989). Os eventos carnavalescos da cidade eram cobertos pela imprensa, mas no início os folguedos negros não recebiam muita atenção, ou eram citados apenas nas páginas policiais. Posteriormente, a partir da década de 1930, alguns concursos passaram a ser cobertos e até promovidos pela imprensa local e, muitas vezes, também pelos meios de comunicação mais abrangentes, normalmente jornais e emissoras de rádio. Em 1935, uma reportagem do jornal Correio Paulistano relata o ensaio da Escola de Samba Primeira de São Paulo às vésperas de sua apresentação em 31/12/1935 (...) Ao seu último ensaio geral estivemos presentes, admirando a rapaziada de Elpidio de Faria. Era no salão Itália Fausta, à rua Florêncio de Abreu. Natural que não podíamos encontrar ali uma demonstração igual a do “terreiro” soberano do morro carioca. Mas aquela cadência angustiosa do ronco das cuícas, o estrepitar alvissareiro dos pandeiros e o tam-tam gingado dos tamborins, admiravam-se presentes de corpo e alma. Depois, a escola fazia antes um ensaio para a passeata do dia 31 e as “alumnas” e “cadetes” deviam ser substituídos pelas pastorinhas e balisas. As suas evoluções, porém, revelam, desde logo, que eram sambistas de valor. (Jornal Correio Paulistano, 29/12/1935, p. 7, apud URBANO, 2006, p. 110).

Esta notícia compara a Escola de Samba Primeira de São Paulo com as agremiações cariocas, as quais são vistas como superiores ou melhores, ou seja, embora o jornal tivesse interesse em noticiar fatos relacionados às entidades carnavalescas desta cidade, o fazia apresentando como algo inferior ao que era produzido no Rio de Janeiro. Em 1936 o carnaval contou com o apoio da Prefeitura e teve como uma de suas atrações o “Dia dos Cordões dos Negros” do qual participaram a Escola de Samba Primeira de São Paulo, o bloco Baianas Paulistas, o rancho Mimoso Príncipe Negro e os cordões Mocidade do Lavapés, Marujos Paulistas, Geraldinos e o Grupo Carnavalesco da Barra Funda. Esse evento foi organizado pelo jornal Correio Paulistano, que teve a colaboração de


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diversos parceiros, tendo também publicado diversas notícias sobre o evento (URBANO, 2006). Em 1937 o jornal Diário Popular publicou a seguinte notícia sobre o carnaval, a qual possui um tom mais informativo e refere-se ao desfile como um evento importante e organizado: O torneio dos cordões uma das mais interessantes práticas carnavalescas alias de cunho nitidamente nacional, foi marcado para amanhan, domingo as 20 horas (...). Os cordões deverão entrar pela praça do Patriarca, e sahir pela rua José Bonifácio, passando também, duas vezes diante do jury (...). Disputarão a competição de cordões os seguintes clubes: Campos Elysios, Barra Funda, Flor da Mocidade, Geraldinos, Mocidade do Lavapés, Marujos Paulistas, Nacionalistas, Rugerone, Juventos Nacional, Grupos das Baianas, União Bom Retiro, Escola de Samba 1ª de São Paulo, Cravos Vermelhos e Vae Vae e Diamante Negro, rancho extra-concurso (Diário de São Paulo, 06/02/1937, p. 12, apud URBANO, 2006, p. 113, grifo nosso).

O carnaval de 1939 foi promovido pelo jornal Correio Paulistano e o de 1940, realizado na Avenida São João e transmitido pela rádio Cosmos, pelo Centro Paulista dos Cronistas Carnavalescos e pela rádio São Paulo, os quais promoveram também o carnaval de 1941 na Cidade da Folia, no Parque Antártica (URBANO, 2006). Em 1967 os desfiles realizados na Lapa foram transmitidos pela TV Paulista, por iniciativa dos lojistas do bairro, mas já na década de 1950 a TV Record transmitia notícias e imagens dos desfiles (SIMSON 1989). Esses fatos mostram o crescente interesse de diversos agentes da iniciativa privada no carnaval paulistano que no final do primeiro período, década de 1960, já era visto como um evento de grande potencial econômico. A partir da década de 1930, as agremiações carnavalescas populares relacionavam-se com agentes dos diferentes circuitos da economia urbana, tanto do circuito inferior – sapateiros, costureiras, artesãos e pequenos comerciantes –


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como do circuito superior e superior marginal – poder público, empresas diversas, diferentes ramos comerciais, imprensa escrita, emissoras de rádio e TV. Embora não houvesse uma normatização oficial e as ações fossem baseadas nos interesses dos envolvidos num determinado momento, sem regularidade, a relação das entidades carnavalescas com esses agentes, em especial os da iniciativa privada que promoviam e patrocinavam os desfiles mesmo na ausência do poder público, foi um dos fatores decisivos para a manutenção da festa na cidade45. Baseadas nessas relações, as agremiações carnavalescas buscavam formas de consolidar sua inserção, mesmo que isto resultasse em alterações necessárias à sua adaptação à cidade.

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Ciente da importância dessa relação, Simson (1989, p. 157) afirma que “(...) a atuação da iniciativa privada criou pois condições para que as agremiações negras pudessem manter seus folguedos em funcionamento, possibilitando a emergência do atual carnaval paulistano com sua maior criatividade, todo ele praticamente baseado nos folguedos negros”.


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1.4. A Ação do Poder Público e o Caminho para a Oficialização

Na primeira metade do século XX, a relação entre as entidades carnavalescas e o poder público era inconstante e frágil. No início, anos 1910 e 1920, os desfiles não eram muito bem vistos, mas diante de seu desenvolvimento surge a necessidade da regulamentação, o que se traduziu nos seus registros na Seção de Divertimentos Públicos da Prefeitura Municipal, com a necessidade de preenchimento de fichas, definição das cores da agremiação e pagamento de taxas (SIMSON 1989). No entanto, a tranqüilidade dos foliões dependia, ainda, da boa vontade da autoridade responsável no momento que podia, informalmente, permitir ou não a manifestação. A permissão para a realização dos desfiles rendia homenagens às autoridades em frente à Delegacia Central no Páteo do Colégio (SIMSON, 1989; URBANO, 2006) com apresentações especiais, assim como ocorria com os comerciantes que contribuíam financeiramente. Mas essa manifestação era tolerada apenas em dias de carnaval. As primeiras ações do poder público no sentido de incentivar o desfile de cordões ocorreram nos anos 1935 e 1936, quando o prefeito Fábio Prado promoveu o carnaval paulistano em todas as suas manifestações, incluindo os cordões carnavalescos. Desses carnavais participaram quarenta e seis cordões filiados à Federação das Pequenas Sociedades Carnavalescas (SIMSON, 1989). Em 1936 o “Dia dos Cordões Negros” foi organizado pelo jornal Correio Paulistano em colaboração com a Companhia Antártica, e o percurso do desfile foi “avenida São João, rua Libero Badaró, largo e rua São Bento, rua Direita, rua 15 de Novembro, rua João Bricolla, rua Bôa Vista, largo São Bento, viaduto Santa Ephigênia, rua Antônio de Godoy, largo Paissandú, avenida São João, rua Líbero Badaró, largo São Bento e dispersão” (URBANO, 2006, p. 111). Com o aumento do número de agremiações carnavalescas organizadas pela população negra e, conseqüentemente, do número de foliões – um crescimento lento, mas


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ininterrupto (Tabela 2) – a repressão policial também aumentou tornando-se mais violenta. Situação que se estendeu até a oficialização do carnaval em 1967. Lamentando a repressão policial que ainda ocorria nas décadas de 1950 e 1960 e comparando com os dias atuais, Seo Irineu46 afirma que Naquela época a escola saia e a viatura saia atrás. Quando chegava lá em cima eles acabavam com o nosso samba. Pode parar! Pode parar! Hoje a polícia faz a segurança para nós. TABELA 2 - EVOLUÇÃO DO NÚMERO MÉDIO DE COMPONENTES DAS AGREMIAÇÕES CARNAVALESCAS

Décadas Componentes*

1910 -1920 60 a 70

1930 80 a 100

1940 100 a 150

1950 100 a 150

1960 150 a 200

* Dados referentes ao Camisa Verde e Branco, ao Vai-Vai, à Nenê de Vila Matilde Fonte: Simson (1989) e Urbano (2006). Elaboração da Autora.

O carnaval de São Paulo não era definitivamente oficializado e dependia do interesse dos governantes, do prefeito em especial, e da disponibilidade de verbas, para obter alguma subvenção. A oficialização se dava anualmente, podendo, portanto, ficar um ou mais anos sem apoio do poder público. O carnaval de 1950, por exemplo, não recebeu nenhum tipo de incentivo da Prefeitura – sequer houve uma iluminação diferenciada no centro da cidade onde se realizaram as festividades carnavalescas47 – mas foi promovido pelo Jornal de Notícias em colaboração com o Centro Paulista de Cronistas Carnavalescos, e contou com a participação de vinte e cinco agremiações entre escolas de samba e cordões. O desfile teve como ponto de partida o Vale do Anhangabaú e seguiu pela Avenida São João até a Praça Julio Mesquita (CRECIBENE, 2000). Em 1954, ano do IV Centenário da cidade de São Paulo, o prefeito Jânio Quadros decidiu oficializar o carnaval e, com grande investimento, realizou o Concurso Estadual de Desfile Carnavalesco no Parque do Ibirapuera (Foto 7), também inaugurado para 46

Componente da Velha Guarda da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, entrevistado em junho de 2002. Em seu estudo sobre a história do carnaval paulistano, Crecibene (2000, p. 26) afirma que “(...) no início da década de cinqüenta, o centro da cidade sem qualquer iluminação ou decoração especial mais parecia esperar um cortejo fúnebre e não o carnaval. Não foi só a animação que deixou de existir: a ornamentação também desapareceu, evidenciando o descaso da Prefeitura”.

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as comemorações do IV Centenário, o qual, nos anos seguintes, passou a ser utilizado para a realização dos desfiles.

Foto 7 Autor desconhecido Desfile da E. S. Nenê deVila Matilde no Parque Ibirapuera durante o IV Centenário de São Paulo São Paulo – SP 1954 Centro de Documentação e Memória do Samba

Na década de 1960 os desfiles carnavalescos das agremiações negras já eram uma atração do carnaval paulistano. Mas elas ainda enfrentavam diversas dificuldades, e o próprio carnaval não contava com investimentos significativos. Diante disso, em 1967 os sambistas Inocêncio Tobias (Mulata) do Cordão Mocidade Camisa Verde e Branco, Deolinda Madre (Madrinha Eunice) da Escola de Samba Lavapés, Alberto Alves da Silva (Seu Nenê) da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, Sebastião Eduardo Amaral (Pé Rachado) do Cordão Carnavalesco Vai-Vai, Carlos Alberto Alves Caetano (Carlão) da Escola de Samba Unidos do Peruche e Benedito Nascimento (Xangô) da Escola de Samba Unidos de Vila Maria reuniram-se e, com o apoio dos radialistas Moraes Sarmento, Evaristo de Carvalho, Vicente Leporace e Ramon Gomes (URBANO, 2006) solicitaram auxílio ao poder público. Essa ação provocou a uma verdadeira revolução no carnaval popular paulistano, pois resultou em sua oficialização e, consequentemente, em diversas inovações nas agremiações carnavalescas, como mostrará o segundo capítulo.


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2. Carnaval das Escolas de Samba – Oficialização e Consolidação

Tradição (Geraldo Filme) Quem nunca viu o samba amanhecer Vai no Bexiga pra ver, vai no Bexiga pra ver O samba não levanta mais poeira Asfalto hoje cobriu nosso chão Lembrança eu tenho da Saracura Saudade tenho do nosso cordão Bexiga hoje é só arranha-céu E não se vê mais a luz da lua Mas o Vai-Vai está firme no pedaço É Tradição e o Samba continua.

Último Sambista (Geraldo Filme) Adeus, Tá chegando a hora Acabou o samba Adeus, Barra Funda, eu vou-me embora Veio o progresso Fez do bairro uma cidade Levou a nossa alegria Também a simplicidade Levo a saudade lá do Largo da Banana Onde nóis fazia samba Todas noites da semana Deixo esse samba Que eu fiz com muito carinho Levo no peito a saudade Nas mãos, o meu cavaquinho Adeus, Barra Funda...


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2.1. Oficialização e Reestruturação do Carnaval Paulistano

Diante da situação em que se encontrava o carnaval paulistano no final da década de 1960 – falta de um local definido, de infra-estrutura e de apoio financeiro – uma comissão formada por representantes de diferentes agremiações carnavalescas reivindicou apoio junto à Prefeitura. Ciente do potencial dessa manifestação em relação ao mercado e à indústria do turismo, visto o que já ocorria na cidade do Rio de Janeiro48, a Prefeitura de São Paulo, na figura do Prefeito Faria Lima, decide apoiar a festa oficializando-a, mas impõe como condição a reorganização de toda a estrutura do carnaval e das entidades participantes. Imposição prontamente aceita pelas agremiações carnavalescas, pois a oficialização significava apoio, infra-estrutura e subvenção49. O carnaval foi oficializado através da Lei N. 7.100 de 29 de dezembro de 1967, a qual dispõe sobre a promoção das festas na cidade e deixa clara a intenção da Prefeitura em utilizar o carnaval para incrementar o turismo, o que fica explícito em seu primeiro artigo: Art. 1º ─ Fica a Prefeitura autorizada a promover festas de cunho popular e festejos carnavalescos no município de São Paulo, visando incrementar o turismo, conservar e desenvolver as tradições folclóricas brasileiras e contribuir para a recreação popular [podendo] conceder auxílio, instituir e outorgar prêmios.

A partir da oficialização, foi criada uma comissão50 vinculada à Secretaria de Turismo e Fomento – Decreto N° 7348/68 – com a finalidade de organizar o carnaval de 1968, cujo desfile oficial ocorreu no Vale do Anhangabaú e contou com a participação de

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A oficialização do carnaval carioca ocorreu em 1932, quando as escolas de samba passaram a desfilar na Praça Onze. Em 1935 as escolas começaram a receber subvenção do poder público (MAIA, 2003). 49 Como afirma Penteado (2003, p. 69) a oficialização “representava a liberdade que até então os sambistas não tinham fora do carnaval, pois nos ensaios eram perseguidos pela polícia como se fossem bandos de marginais”. 50 “Para que tudo saísse a contento, o Prefeito Faria Lima, pelo decreto 7.348 de 11 de janeiro de 1968, instituiu e constituiu a primeira Comissão Organizadora do Carnaval Paulistano, presidida pelo Dr. Paulo Augusto Memberg, contando com nomes respeitáveis nos meios de comunicação e poderes públicos (...) bem como representantes as Força Pública, Corpo de Bombeiro, Guarda Civil, Juizado de Menores e Polícia Feminina” (URBANO, 2006, p. 119).


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dezoito agremiações divididas em grupos. São elas: Escola de Samba Nenê de Vila Matilde; Sociedade Esportiva, Recreativa e Beneficente Unidos do Peruche; Sociedade Recreativa, Beneficente e Esportiva do Lavapés; Grêmio Recreativo Mocidade Camisa Verde e Branco; Cordão Carnavalesco e Esportivo Vai-Vai; Cordão Carnavalesco Fio de Ouro da Bela Vista; Escola de Samba Acadêmicos do Ipiranga; Grêmio Recreativo Mocidade Alegre; Sociedade Príncipe Negro de Vila Prudente; Grêmio Recreativo Estrela Brilhante; Escola de Samba Império do Cambuci; Grêmio Recreativo Unidos de Vila Maria; Grupo Folclórico Irmãs Ibejy; Escola de Samba Acadêmicos do Peruche; Grêmio Recreativo Acadêmicos do Tatuapé; Folha Azul dos Marujos; Sociedade Carnavalesca Morro da Casa Verde; e Escola de Samba Primeira de Santo Estevão. A oficialização, que se traduziu na organização do carnaval, exigiu a criação de normas para a regulamentação, através das mais diversas regras de ação e comportamento, as quais, conseqüentemente, levaram à sua uniformização. Criou-se a necessidade de estabelecer um estatuto para o carnaval paulistano, mas a inexistência de uma organização ativa levou o prefeito Faria Lima – um carioca que valorizava as manifestações carnavalescas, mas desconhecia suas características nessa cidade – a contratar um carnavalesco do Rio de Janeiro para escrever o regulamento do desfile e do concurso. E, por exigência do poder público, as agremiações se organizaram em uma instituição representativa, a Federação das Escolas de Samba, Blocos e Cordões Carnavalescos, a qual havia sido fundada em 1958, mas até então não tinha muita representatividade. Analisando esse momento, Evaristo de Carvalho51 faz a seguinte afirmação: ouvimos em 1968 do saudoso prefeito Brigadeiro Faria, a exclamação de não conhecer as escolas de samba de São Paulo e nem mesmo saber se tínhamos sambistas. A Federação buscava condições de realizar então o carnaval paulistano. Porém tivemos que mostrar que tínhamos entidades que 51

Radialista e colunista do Jornal A Gazeta Esportiva, que fez parte da comissão de sambistas que reivindicou a oficialização do carnaval paulistano em 1967.


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praticavam a nobre arte popular sem qualquer recurso oriundo dos poderes públicos. Foi exatamente no dia 9 de fevereiro de 1968 que realizamos um grande desfile das escolas de samba na Praça da Sé justamente numa sextafeira. Nessa ocasião, participaram 18 entidades, quase todas sem fantasias. Foi um sucesso e na semana seguinte o então prefeito liberava uma verba no valor de 78 mil cruzeiros. Conseguimos provar que tínhamos em São Paulo Escolas de Samba (A Gazeta Esportiva, 24/08/1977).

Diante da normatização, as agremiações carnavalescas paulistanas foram privadas de suas características genuínas, originadas das relações próprias do lugar, e submetidas a uma nova realidade, nesse caso importada do Rio de Janeiro, onde o carnaval das escolas de samba já tinha uma significativa inserção na mídia e era considerado um símbolo do carnaval nacional, além de gerar lucros crescentes às indústrias do turismo e fonográfica. Para participar do carnaval oficial, os cordões foram condicionados a enquadrarse no regulamento voltado às escolas de samba e, como conseqüência, houve uma série de mudanças na estrutura do desfile, o que levou ao desaparecimento dessa manifestação típica do carnaval paulistano. Diversos cordões deixaram de existir e outros tornaram-se escolas de samba, como o Camisa Verde e Branco e o Vai-Vai, na década de 1970. O modelo do carnaval carioca foi imposto às agremiações paulistanas que sofreram diversas transformações. Como relata Moraes, W. (1978, p.70) (...) a partir do Carnaval de 1968, as Escolas de Samba paulistanas passaram a ser estruturadas de acordo com o modelo carioca. Os balizas foram relegados em favor da Comissão de Frente; o estandarte, definitivamente substituído pela bandeira acompanhada por Mestre-sala, e tornou-se obrigatória a presença das “baianas”. O enredo assumiu importância capital, passando a definir toda montagem do desfile. A expressão “ala” torna-se corrente para designar grupo de componentes representando parte do enredo ou não e a denominação de “bateria” passa a substituir a de “batuque” para o conjunto instrumental. Ficou definitivamente abolida a participação de qualquer instrumento de sopro na parte musical.


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Em continuidade ao processo de normatização em 1970, foi instituído, através do Decreto N° 9.051/70, o Calendário Oficial de Eventos para a cidade, que contemplaria os eventos com potencial econômico eminente e incluía os festejos carnavalescos. O carnaval das escolas de samba passou a ser visto como um negócio e, embora seja uma manifestação cultural popular, esteve desde o primeiro momento vinculado à Secretaria de Turismo. O artigo primeiro desse decreto deixa clara a intenção da Prefeitura. Art. 1º. - A Secretaria de Turismo e Fomento organizará, em cada ano, o “Calendário Oficial de Eventos” no qual serão incluídos aqueles que, de qualquer modo e a juízo da mesma secretaria contribuam para atingir os seguintes objetivos: a) incremento do turismo; b) conservação

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desenvolvimento das tradições folclóricas brasileiras; c) recreação popular; d) desenvolvimento das atividades econômicas, da indústria e do comércio; e) estímulo à exportação de produtos nacionais.

O direcionamento dado ao carnaval paulistano exigiu uma maior organização por parte das agremiações carnavalescas, cujos representantes fundaram, em 1973, a União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), uma associação sem fins lucrativos, cujo objetivo era organizar e trabalhar para o desenvolvimento das escolas de samba e dos blocos carnavalescos da cidade e representá-los junto ao poder público52. No primeiro momento a UESP não tinha voz ativa, e a Secretaria Municipal de Turismo e Fomento definia as normas para o carnaval sem a intervenção da entidade. Nos primeiros anos de oficialização as escolas de samba já contavam com o apoio da Prefeitura que providenciava a infra-estrutura e concedia-lhes anualmente uma verba de subvenção, mas somente em 1973 os desfiles passaram a se realizar em um local definido, 52

De acordo com a instituição “pouca gente sabe que foi o surgimento desta maravilhosa entidade que marcou o início do desenvolvimento e reconhecimento público das escolas de samba de São Paulo. A sua data de fundação é 10 de setembro de 1973. Na época, era preciso ajudar as escolas de samba e agremiações carnavalescas a regularizarem seus estatutos e profissionalizar o processo de preparação dos desfiles de carnaval” (www.uesp.com.br, acesso em 2007). Em 1975 havia três entidades representativas: a UESP, a Associação das Escolas de Samba de São Paulo e a Coligação Regional das Escolas de Samba do Município de São Paulo. Durante os preparativos para o carnaval de 1976, a Secretaria de Turismo e Fomento exigiu a fusão das três entidades; no processo de fusão optou-se pela permanência da UESP.


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embora não definitivo, a Avenida São João. Situação que durou por apenas quatro anos, pois o número de componentes e principalmente de espectadores crescia significativamente, o que exigia um local mais adequado. Em 1977 os desfiles foram transferidos para a Avenida Tiradentes, onde permaneceu até 1990. Ambas as avenidas estão localizadas na região central da cidade. Devido às inovações e ao crescimento gradual dos investimentos em infraestrutura e subvenção, as escolas, que haviam sido perseguidas e reprimidas, obtiveram conquistas significativas junto ao poder público, dentre elas a concessão de terrenos para a construção de suas sedes, as chamadas quadras, tendo como contrapartida o desenvolvimento de atividades junto à comunidade, como a própria ação cultural das agremiações carnavalescas. A primeira escola de samba paulistana a possuir uma quadra foi a Nenê de Vila Matilde através da ocupação, em 1967, de um terreno público sem a autorização da Prefeitura que, por sua vez, abriu um processo de despejo em 1970. O líder dessa agremiação, Seo Nenê, protelou a saída da escola e, ainda no início da década de 1970, construiu uma quadra de ensaios. Após anos de luta judicial, em 1978, a Prefeitura concedeu a posse da quadra à escola a título precário por noventa anos (SIMSON, 1989). A escola de samba Camisa Verde e Branco inaugurou sua quadra em 1973 e outras entidades seguiram o mesmo caminho. Na década de 1980 a Prefeitura incentivou a ocupação de terrenos junto à via Marginal Tietê e diversas escolas localizadas em bairros próximos a essa via estabeleceram ali suas quadras, tais como Unidos do Peruche, Rosas de Ouro e Gaviões da Fiel. Todavia, diversas escolas não contavam com esse benefício e realizavam suas atividades nas ruas dos bairros, nas residências dos componentes, ou em locais alugados. Eventualmente tais escolas recebiam apoio de sua entidade representativa, a UESP, que, por exemplo, em 1976 providenciava locais e condições para que todas as escolas pudessem


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realizar a escolha de seus sambas, além de promover a divulgação do samba vencedor, conforme mostra a notícia do jornal Recado do Samba (...) o calendário de atividades da UESP está em preparação, o objetivo é dar cobertura completa à escolha dos sambas-enredo. Para isso, as escolas que não têm quadra terão, por empréstimo, salões e quadras com sistema de som e letras dos sambas impressos, além de ampla divulgação. Depois da escolha, os sambas serão apresentados em “shows” na capital e no interior (UESP, Recado do Samba, n. 02, abril de 1976).

As inovações do carnaval paulistano levaram à ampliação do interesse dos meios de comunicação pelas escolas de samba e suas atividades, o que contribuiu para seu desenvolvimento e impulsionou novas mudanças, pois a crescente divulgação chama a atenção de sujeitos que a princípio não tinham relação com essa manifestação, mas que passaram a ver nela uma série de oportunidades. Surge, por exemplo, o interesse da indústria fonográfica em comercializar os sambas-enredo das escolas de São Paulo. Em 1976, foi lançado o primeiro LP com os sambas das escolas do Grupo I, embora haja registros de gravações em fitas cassete desde 1969. O LP de 1976 foi produzido pela UESP e pela gravadora Crazy, e promovido pela Revista Amiga e pelas rádios Nacional, Record, Gazeta, Capital e a Rede das Emissoras Coligadas, que contava com 16 rádios no interior de São Paulo (UESP, Recado do Samba, n.° 2, abril, 1976). No mesmo ano foi lançado um compacto duplo com os sambas dos blocos carnavalescos. A oficialização e a adequação do carnaval paulistano ao modelo carioca de desfile elevaram seu prestígio em relação ao Rio de Janeiro e, como conseqüência, houve um estreitamento das relações entre as escolas de samba e as entidades organizadoras das duas cidades. Em 1969 a escola de samba carioca Acadêmicos do Salgueiro foi convidada a realizar um desfile em São Paulo com o argumento de que as agremiações dessa cidade


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necessitavam conhecer melhor a manifestação à qual deveriam se enquadrar53. Em 1976, no momento da filiação da UESP à Confederação Brasileira de Escolas de Samba (CBES), estiveram presentes em sua sede, em São Paulo, o presidente da CBES, Rui Pereira da Silva, acompanhado de seu vice-presidente executivo, Amauri Jório, também presidente da Federação das Escolas de Samba do Estado do Rio de Janeiro e da Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro, e do editor da revista Rio, Samba e Carnaval e também chefe da Ala dos Estudantes da Portela, Maurício Matos. Nesse evento Rui Pereira da Silva e Amauri Jório fazem as seguintes afirmações: (...) viemos para nos congratularmos com os sambistas paulistanos e oferecer nosso apoio à entidade, porque a finalidade principal da CEBS é levar avante este magnífico movimento que é o das Escolas de Samba do Rio e do Brasil, com vistas a fortalecê-lo cada vez mais e impedir que tão valioso patrimônio cultural desapareça. Por outras palavras, facilitar o entrosamento para que todos, unidos, consigamos fazer com que as escolas de samba, de qualquer parte do Brasil, representem o que de melhor se tem feito até agora (Rui Pereira da Silva, In. UESP, Recado do Samba, n.° 2, abril, 1976). (...) as 44 escolas de samba que participam do desfile das Escolas de Samba da cidade do Rio de Janeiro estão dispostas a servir à UESP e colocam-se a disposição para oferecer tudo o que for preciso. Queremos também expressar a nossa alegria de ver mais uma grande entidade filiada à CBES. Sabemos que vocês irmanados conosco, darão uma contribuição maior ao Carnaval Brasileiro e a todas as escolas de Samba. Acreditamos que a nossa experiência somada com a vossa boa vontade poderá realizar muito em termos de escolas de samba (Amauri Jório, In. UESP, Recado do Samba, n.° 2, abril, 1976).

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Como afirma Simson (2007, p. 218) “em geral, porém, foi grande a dificuldade encontrada pelas entidades carnavalescas paulistanas para se transformar em escolas de samba segundo o estilo carioca, pois naquele período quase não havia transmissões televisivas do desfile do Rio de Janeiro, e o contato entre os agrupamentos sambistas das duas cidades praticamente inexistia. Daí a solicitação dos líderes do samba de São Paulo ao prefeito Faria Lima para que promovesse a vinda de uma agremiação carioca de renome, de forma que os sambistas pudessem ver de perto o tipo de manifestação carnavalesca que lhes competia apresentar na avenida. Assim o desfile de 1969, na Avenida São João, contou com a escola carioca campeã naquele ano, o Salgueiro, o que promoveu uma influência mais direta do carnaval do Rio sobe o de São Paulo”.


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Isso mostra uma crescente necessidade das escolas de samba paulistanas em se aproximar e se enquadrar cada vez mais ao modelo carioca que se caracterizava como um carnaval espetacular e um importante produto das indĂşstrias cultural e do turismo, uma vez que havia um claro interesse em transformar o carnaval paulistano em um evento atrativo e lucrativo, a exemplo do que ocorria no Rio de Janeiro.


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2.2. Novas Relações Econômicas no Desenvolvimento das Escolas de Samba

A partir da década de 1970, devido à oficialização, ao apoio do poder público e ao crescente interesse da iniciativa privada, as manifestações carnavalescas negras passaram a ter uma maior aceitação por parte da sociedade paulistana, o que levou a um aumento na participação da população mais abastada e instruída, no geral branca. Houve uma aproximação de pessoas ligadas às artes, que contribuíam com seus conhecimentos culturais e técnicos, fomentando mudanças estéticas no desfile. Os postos de comando passaram a ser ocupados também por pessoas não necessariamente ligadas ao samba, como comerciantes e pequenos empresários, interessados nas oportunidades econômicas e políticas que as agremiações ofereciam. Mas, de acordo com Simson (1989), nas escolas mais antigas, apesar da superioridade técnica, os “elementos brancos” eram subordinados às lideranças negras, e é somente na década de 1970 que despontam as primeiras escolas de samba lideradas por brancos, como a Mocidade Alegre – fundada em 1967 – e Rosas de Ouro – fundada em 197154. Essas e outras escolas surgiram no contexto do carnaval oficializado e estruturaram-se desde o início de acordo com as normas vigentes e, justamente por isso, possuíam certa vantagem em relação às agremiações fundadas no primeiro período, as quais passavam por processos de transformação e adaptação ao novo modelo. Uma exceção foi a escola de samba Nenê de Vila Matilde que, embora fundada em 1953, devido a um maior

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Segundo Simson (1989, p. 120) “(...) essas novas agremiações sambistas contando com um significativo capital inicial e com a ajuda financeira de algumas empresas comerciais, além de contatos valiosos na burocracia municipal, se estruturaram num esquema completamente novo, trazendo para o mundo do samba uma visão mercadológica que buscava objetivamente o sucesso na avenida. Para isso buscavam seguir muito de perto o bem sucedido modelo carioca, pois do sucesso do desfile carnavalesco decorria uma boa freqüência aos ensaios, realizados nos fins de semana, na quadra da escola, que logo se tornaram outra fonte considerável de renda para essas agremiações”.


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acesso ao carnaval carioca e a uma maior organização, teve uma adaptação mais rápida, sendo campeã dos três primeiros desfiles oficiais – 1968, 1969 e 1970. Tornou-se interessante atrair para as escolas de samba pessoas mais instruídas ou de classes mais abastadas, pois dessa forma ampliavam-se as possibilidades de investimento para o incremento dos desfiles. Uma crítica comum a essa realidade é a condição do negro que de liderança passa a liderado, exercendo funções essenciais, como ritmistas, passistas, entre outras, mas subjugados. Situação criticada por Rodrigues (1984) em seu livro Samba Negro Espoliação Branca, no qual analisa o carnaval carioca e afirma: (...) insisto em que houve e continua a haver ainda, um processo de branqueamento daquelas festas porque considero a chegada do elemento branco dominante às escolas de samba como mais uma tentativa de anulação do grupo negro, enquanto detentor de formas espontâneas de associação. Essa inserção, embora seja vista por muitos como um meio de integração na nossa tão decantada “democracia racial”, funciona como mais uma forma de branquear esses eventos, retirando, como já foi dito no passado, através de uma transformação brusca e imperfeita, campos de ação do grupo negro (RODRIGUES, 1984, p. 6-7).

No que se refere às entidades carnavalescas negras paulistanas, a análise não pode se restringir à discussão étnica. Por um lado é possível questionar: até que ponto, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro, a participação da população chamada branca nos folguedos carnavalescos de origem negra não é também uma conseqüência do desenvolvimento da festa e da própria sociedade, e não necessariamente uma forma de espoliação deliberada? Ao menos não por parte de todos os componentes brancos, dirigentes ou não, pois, seja como for, as escolas de samba tornam-se representativas dos bairros onde se localizam, forjando uma identidade e fortalecendo o sentimento de pertencimento e, muitas


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vezes, servindo como local de mediação das relações entre sujeitos com os mais diversos interesses55. Por outro lado, embora a discussão acerca de questões étnicas seja pertinente, talvez os aspectos econômico e social sejam, nesse caso, mais esclarecedores, pois as ações do poder público e da indústria cultural sobre essa manifestação popular, as quais a massificam, e as conseqüências do processo de inovação na produção da festa, exigem ações e conteúdos cada vez mais normatizados, tecnicizados e financeirizados56. Conseqüentemente os mais pobres e menos letrados, em sua maioria negros, são subjugados. Trata-se, portanto, de uma questão social profunda. Além disso, as possibilidades de negócios, e mesmo as relações de poder, relacionadas às escolas de samba eram crescentes, o que atraia uma série de oportunistas brancos e negros57. Após a oficialização, as escolas de samba seguiam com sua função de sociabilidade, realizando atividades como piqueniques, campeonatos de futebol entre as escolas, festas, festivais e rodas de samba entre outras atividades, mas os interesses econômicos por parte das escolas, da UESP e da Prefeitura se sobressaiam e, como conseqüência, muitas agremiações deixavam de exercer aquela função social tão comum no primeiro período, atendo-se prioritariamente à produção do desfile. E, muitas vezes, quando

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Ao analisar as escolas de samba do Rio de Janeiro Da Matta (1997, p. 134-135) chama a atenção para o fato que “a proposta das escolas de samba nunca é a de transformar-se numa instituição fechada (...) mas a de poder “seduzir” o maior número de pessoas, sobretudo as da classe dominante. Então elas ficam presas num paradoxo social e político, pois, na medida em que realmente poderiam ser instrumentos políticos, dado o seu alto poder de penetração, têm de se abrir para todos os grupos da sociedade. Dessa forma, seu sucesso e popularidade fazem com que deixem de ser realmente populares. Essas associações de baixo contém em sua ordem interna dividida os valores que acabam por fazer com que se atrelem às altas camadas da sociedade e nelas se difundam. E isso sem o risco de perder o seu centro inicial. A conciliação se torna o ponto central da dinâmica social desses grupos e da sociedade inclusiva. Por causa disso, a escola de samba (e tantas outras instituições populares) serve de mediação entre segmentos sociais com interesse social e politicamente contrários”. 56 Como chamou a atenção a professora Maria Laura Silveira durante o processo de qualificação realizado em junho de 2007. 57 Há uma série de exemplos referentes a pessoas que se aproximam das escolas de samba com a finalidade de obter vantagens e benefícios econômicos e políticos, ou de impor sua autoridade junto à comunidade, tais como os banqueiros do Jogo do Bicho que se tornam patronos de agremiações carnavalescas, muito comum no Rio de Janeiro; políticos que se aproximam, em especial em época de eleição, para utilizar a comunidade como massa de manobra; pessoas ligadas às mais diversas formas de contravenção e crime, tais como o Jogo do Bicho ou o tráfico de drogas, para camuflar suas ações, “lavar dinheiro” e manter seu poder local.


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realizavam alguma atividade, tinham como objetivo final o lucro que seria investido na produção. A oficialização que por um lado foi muito importante para a permanência e para o crescimento dessa manifestação na cidade, por outro trouxe mudanças que transformaram o cotidiano das escolas de samba, o que foi muito criticado, como é possível observar nas seguintes afirmações O número de escolas de samba em São Paulo tem crescido de forma assustadora, todos sabem. Mas apesar da Capital contar com mais de quarenta escolas de samba, o povo paulista, os integrantes das escolas, a população do bairro não tem opção de divertimento, pois apenas duas ou três agremiações mantêm suas atividades na entre safra, depois do carnaval. As escolas de samba que surgem perderam a função comunitária, que se não chegou a se definir, pelo menos se esboçou nas antigas. Mesmo as antigas vão perdendo aquela função, deixando de congregar a população de seus bairros, deixando de servir como ponto de encontro espontâneo de pessoas de uma mesma comunidade. (...) Já não se pode querer que a escola de samba volte a ter a função de congregação de um grupo de pessoas, às quais oferece segurança e identidade grupal (Notícias Populares, 06/07/1976) “Do ritual hoje – afirma Ciro [Ciro Nascimento, vice-presidente da UESP] –, restam o palco, o microfone e o partido alto, que não tem nada de improvisação. A roda de samba transformou-se num misto de baile, programa de auditório e muito pouco do ritual africano, embora as escolas tenham surgido dela”. Para ele perderam-se as raízes das escolas de samba e seu lado cultural. A opinião de alguns diretores de escolas confirmam esse ponto de vista. O presidente da Unidos do Peruche, Walter Guarílio, argumenta, por exemplo, que a roda existe e serve para criar o clima de Carnaval. Os demais preocupam-se mais em salientar a representatividade econômica de tal empreendimento, responsável, em média, por 20% dos gastos necessários para se colocar uma escola na rua. Juarez da Cruz, presidente na Mocidade Alegre, estabelece uma relação tripla: roda de samba, cultura e dinheiro: “Em termos de cultura, a roda de samba é fundamental. Se as pessoas freqüentam as quadras, com sua família, de duas a três vezes por semana aprendem a gostar da nossa música, e isso influi na formação das crianças” (Folha da Tarde, 28/09/1985).


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A massificação não fez das escolas de samba uma manifestação isenta de questionamentos e gerou problemas que até então não existiam, pois apesar das inovações e da normatização, a falta de uma estrutura adequada ao carnaval gerava transtornos na cidade. A infra-estrutura disponível para os desfiles oficiais realizados na Avenida São João – de 1973 a 1976 – não comportava o crescente número de componentes e espectadores que se concentravam na região central durante o evento. As reportagens a seguir chamam a atenção para os problemas enfrentados pelo público no carnaval de 1976, bem como dos transtornos causados aos moradores o “empurra-empurra” durante os desfiles de ontem a tarde na av. São João, próximo à praça Julio Mesquita, foi violento. Eram mulheres e crianças que, no meio da multidão, gritavam aos policiais, pedindo ajuda. A confusão ocorria principalmente nas proximidades do edifício Andraus, onde foram colocados cordões de isolamento muito próximos às calçadas, deixando apenas um pequeno corredor no passeio para os passantes. Moradores do edifício São José, na av. São João, 856, reclamavam das autoridades, afirmando que não conseguiram sair para fazer compras, pois a porta do prédio ficou totalmente congestionada. Do alto dos edifícios os moradores vaiavam, enquanto a multidão, embaixo, se comprimia assuntada, todos com medo de cair ao chão e de serem pisoteados. Também ao lado do Cine Oásis, onde existia um estacionamento, foi colocado um grande tapume sobre a calçada, deixando apenas um metro de passeio para os populares. Ali chegaram mesmo a acontecer algumas brigas entre passantes que tentavam utilizar-se daquele pequeno corredor (Folha de São Paulo, 03/03/76). (...) seria conveniente entregar-se o Carnaval a uma outra pasta: a Secretaria da Cultura. Afinal, o Carnaval paulista, pobre imitação do Carnaval carioca, perdeu as suas raízes. Portanto, nem atrai turista, nem diverte o povo. Ao contrário, afugenta um e outro (Última Hora, 04/03/1976).

Destarte, para evitar maiores problemas e uma possível desestruturação do desfile carnavalesco como um possível negócio lucrativo para a cidade, surge a necessidade de encontrar um local mais adequado para a realização da festa, o que ocorre em 1977 quando os desfiles foram transferidos para a Avenida Tiradentes, mudança que foi cuidadosamente


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preparada. Em 1976 houve desfiles de escolas de samba na Avenida Tiradentes em duas ocasiões. No dia primeiro de maio, trinta agremiações, entre escolas de samba e blocos carnavalescos, desfilaram em comemoração ao dia do trabalho; e no dia quatro de setembro foram trinta e três agremiações em comemoração ao dia da independência, que contou também com um concurso para escolher o samba-enredo sobre o tema. De acordo com os jornais da época este último desfile teve a função de testar aquela que seria a nova passarela do samba paulistano, a qual contaria com uma maior infra-estrutura para sambistas e espectadores, bem como para a imprensa e demais empresas que tivessem interesse em investir nesse evento. Esperam os sambistas que no novo local sejam resolvidos alguns dos problemas crônicos do carnaval paulistano: melhor acomodação para o público, criação de arquibancadas reservadas para quem deseja pagar e ter mais conforto e atender aos turistas que desejam ter locais reservados. Por ser a área livre de postes e fios [os carros alegóricos] poderão ultrapassar o limite de três metros de altura e os quatro de largura. Por outro lado espera-se que a iluminação seja bastante melhorada, com a colocação de transformadores e maior quantidade de lâmpadas, que irão melhorar o brilho das fantasias, além de facilitar o trabalho da televisão e dos cinegrafistas (Folha da Tarde, 06/09/1976).

Esses acontecimentos revelam a insatisfação dos sambistas e da população em relação aos desfiles carnavalescos, bem como a intenção das escolas e do poder público em transformá-los em um negócio mais viável economicamente.


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2.3. Normas, Técnicas e Políticas no Desenvolvimento dos Desfiles Oficiais

Os eventos que ocorreram após a oficialização, em 1967, provocaram mudanças estruturais no carnaval paulistano. O aumento no número de participantes e o maior investimento público e privado, por exemplo, levaram ao desenvolvimento das agremiações existentes e ao surgimento de várias outras.

Gráfico 1 - Número de Escolas Fundadas por Período (Filiadas à UESP e à LIGA em 2008) 39

18 11

1914-1967

1968-1990

1991-2007

Elaboração da Autora.

Ao analisar o número de escolas de samba fundadas por período, dentre as 68 filiadas à Liga e à UESP em 2008, é possível verificar que 58 surgiram após a oficialização do carnaval, sendo 39 no segundo período e 18 no terceiro; apenas 11 se originaram no primeiro período (Gráfico 1). Considerando que 18 agremiações participaram do primeiro desfile oficial (1968), os dados demonstram que parte dessas escolas podem não ter se adequado ao novo modelo, não sobrevivendo, portanto, às inovações. E é notável o número de agremiações fundadas nas décadas de 1970 e 1980 (Gráfico 2), aproximadamente 51%. Apenas duas escolas foram fundadas na década de 1930 e uma na década de 1940.


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Gráfico 2 - Número de Escolas Fundadas por Década (Filiadas à UESP e à LIGA em 2008) 18

17

11 8

7 4 2

1930

1

1940

1950

1960

1970

1980

1990

2000

Elaboração da Autora.

O surgimento de um grande número de escolas após a oficialização revela que, além das questões relacionadas ao crescimento populacional nos bairros periféricos desprovidos de infra-estrutura de cultura e lazer, houve um estímulo à fundação de escolas de samba devido ao reconhecimento, à permissão e também ao aspecto financeiro, pois elas passaram a ser subvencionadas pela Prefeitura e caracterizavam-se como um negócio em potencial. Havia, na década de 1970, uma preocupação por parte do poder público e da UESP em desenvolver o carnaval paulistano, mas para eles o número de escolas de samba existentes na cidade, considerado excessivo, impedia esse desenvolvimento. Questionava-se, por exemplo, a participação, nos desfiles oficiais, de escolas que não possuíssem uma estrutura adequada ao que se esperava do carnaval oficializado. Diante disso, visando incrementar os desfiles carnavalescos a UESP e a Secretaria de Turismo e Fomento criavam mecanismos para desestimular as pequenas escolas, bem como o surgimento de novas agremiações, como, por exemplo, a definição de um número mínimo de componentes. Em 1976, a grande quantidade de escolas no Grupo III, associado ao número mínimo de duzentos componentes e à falta de organização, provocou atrasos e, conseqüentemente, a


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desclassificação de diversas agremiações. “Das 23 escolas inscritas apenas 13 se classificaram e, destas, seis foram promovidas para o Grupo II” (UESP, Recado do Samba, n.° 2, abril, 1976). Situação que se repete em 1977, primeiro ano dos desfiles na Avenida Tiradentes. Mas como afirma Maria Aparecida Urbano58, as escolas também encontravam formas de burlar as imposições, em suas palavras: se fazia até truque pra aumentar [o número de componentes]. Por exemplo, quem estava lá no começo mudava a camiseta e ia lá para trás e era contado. Tinha uma série de coisas assim, engenhocas para que a escola saísse.

Para o carnaval de 1978, na administração do Prefeito Olavo Setúbal, surge por parte da Empresa Paulista de Turismo S/A (Paulistur) – empresa de economia mista que, em 1977, substituiu a extinta Secretaria Municipal de Turismo e Fomento – a proposta de incentivar a fusão entre pequenas e grandes escolas com o objetivo de reduzir o número de agremiações carnavalescas e potencializar o uso da verba investida, sem necessariamente aumentá-la. Conforme consta em documento da UESP, a Paulistur pretende dar mais apoio para as escolas que vêm se destacando nos desfiles, porque elas terão mais responsabilidade no próximo carnaval. As pequenas escolas de samba serão absorvidas pelas maiores, tendo em vista a localização nos bairros e a simpatia dos componentes pelas cores das agremiações que exercem maiores influências em cada região da capital. A primeira medida prática será a extinção do Grupo IV, que foi criado no carnaval passado, mas não correspondeu às expectativas, pois as escolas de samba se apresentaram mal nos desfiles (UESP Informa, 12/09/1977).

É claro o interesse em compactar o carnaval paulistano e desenvolvê-lo de modo a aproximá-lo cada vez mais do modelo carioca, cuja influência crescia devido à maior organização e estruturação das escolas de samba e do carnaval daquela cidade, o qual, difundido pela indústria cultural brasileira, se impunha ao território como marco da cultura e

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Entrevistada em 17/12/2007.


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da identidade nacionais59. O foco no desfile e na competição, em detrimento do samba e da festa propriamente dita, era motivo de críticas por parte de diversos sambistas e pessoas ligadas ao samba: há na cartolagem do samba paulistano uma corrente que tem por objetivo a integração da escola de samba no ritmo da sociedade em que vivemos, reduzindo-a à competição. A ES é transformada em mercadoria vendida no mercado nascente do turismo. A essência da escola de samba se perde. Elas passam a ser agremiações esportivas, que se confrontam, derrotando-se mutuamente e só (José Muniz Junior, Jornal Notícias Populares, 26/10/76).

Nesse contexto, o carnaval de 1978 foi um marco do segundo período, pois foi naquele ano que o desfile das escolas de samba começou a se consolidar como um espetáculo da indústria cultural, pois diversas ações da Prefeitura – na figura da Paulistur – endossadas pela UESP, inseriram esse evento em um âmbito mais mercadológico. Por não ser uma unidade orçamentária da Prefeitura – como era a Secretaria de Turismo e Fomento – a Paulistur teve a possibilidade de antecipar a verba para subvenção das escolas com a finalidade de “melhorar o nível dos desfiles” (UESP Informa, 26/12/1977), pois, dessa forma, as escolas poderiam adquirir o material necessário para a produção de fantasias e alegorias com maior antecedência e, conseqüentemente, a um preço mais acessível. Naquele ano também foram cobrados ingressos para os desfiles: parte da arquibancada era gratuita – oitocentos metros de assentos – e parte paga – seiscentos metros de lugares cobertos e numerados. E a Prefeitura concedeu isenção de impostos para as agremiações, as quais deveriam solicitá-la mediante a apresentação da documentação necessária.

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Ortiz (1994) chama a atenção para o fato que “é por meio de mecanismos de reinterpretação que o Estado, através de seus intelectuais, se apropria das práticas populares para apresentá-las como expressão da cultura nacional. O candomblé, o carnaval, os reisados, etc. são, desta forma, apropriados pelo discurso do Estado, que passa a considerá-los como manifestação da brasilidade” (p. 71). Além disso, “com a consolidação de um mercado de bens culturais, também a noção de nacional se transforma” (p. 164). “A indústria cultural adquire (...) a possibilidade de equacionar uma identidade nacional, mas reinterpretando-a em termos mercadológicos; a idéia de “nação integrada” passa a representar a interligação dos consumidores potenciais espalhados pelo território nacional” (p. 165).


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A Paulistur contratou a empresa Jaraguá Produções, através de licitação, para produzir o carnaval de 1978, a qual se comprometeu a arcar com cinqüenta por cento do orçamento e ficou responsável pelo plano dos desfiles, interdição do trânsito, montagem e desmontagem das arquibancadas e palanques para a imprensa, locação de cabinas para os jurados, ornamentação, iluminação, sistema de som, entre outras coisas necessárias para a realização do evento; em contrapartida, pôde explorar os serviços de bar e publicidade nos locais de desfile (Gazeta Esportiva, 16/02/1977). Para trabalhar na área restrita, os vendedores ambulantes foram cadastrados, mediante pagamento de taxas, e usaram credenciais. O então presidente da Paulistur, Armando Simões Neto, frisando que nesta cidade o carnaval era uma festa “promovida para o povo” ao passo que no Rio de Janeiro era “montado para turista”, afirmou, contraditoriamente, que o carnaval paulistano seria “promovido em termos empresariais” e que embora não visasse lucro teria que “ter um retorno das despesas, o que não era possível nos anos anteriores em que o carnaval era promovido por uma Secretaria municipal” (Folha da Tarde, 10/01/1978). E a UESP, acreditando ser esse o melhor caminho a ser tomado, deixou clara sua posição em relação ao contrato de prestação de serviços que firmou com a Paulistur. Segundo a entidade esse contrato (...) vem libertar as escolas de samba da aflição das verbas e das subvenções, que geravam intranqüilidade, crises nas liderança e especulações políticas. No contrato as escolas de samba passam a ser tratadas com os mesmos direitos e responsabilidades das empresas comercias. O regulamento prevê penalidades, que vão desde a suspensão até a extinção das escolas de samba que não cumprirem as cláusulas do contrato. A remuneração, embora insuficiente para o gastos reais das escolas de samba, não terá mais as deduções de impostos que atingiriam a 35%, porque a UESP orientou as suas filiadas na obtenção da isenção do imposto de renda e do imposto de serviços (UESP Informa, 26/12/1977).


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Para justificar tal investimento era necessária a realização de desfiles cada vez mais ricos e grandiosos. Além da rigorosa organização, com tempo de desfile previamente definido, belas fantasias e carros alegóricos cada vez maiores, era fundamental garantir um número mínimo de componentes – oitocentos para o Grupo I, seiscentos para o Grupo II e duzentos para o Grupo III (UESP Informa, 26/12/1977) – como uma forma de filtrar as escolas de samba e assegurar a permanência apenas daquelas que se enquadrassem no modelo exigido. No carnaval de 1978 desfilaram na Avenida Tiradentes trinta e oito escolas de samba60, divididas em três grupos (Quadro 1), e oito blocos carnavalescos, são eles: O Pessoal da Zona Sul, Independente da Vila Esperança, TUSP (Torcida Uniformizada do São Paulo), Meninos do Rio Pequeno, Cacique da Vila Gomes, Jóia Rara, Sovaco de Cobra e Gaviões da Fiel (UESP Informa, 26/12/1977).

QUADRO 1. ESCOLAS PARTICIPANTES DO CARNAVAL DE 1978

Grupo I

Império Lapeano, Império do Cambuci, Unidos do Peruche, Nenê de Vila Matilde, Paulistano da Glória, Mocidade Alegre, Tom Maior, Rosas de Ouro, Pérola Negra, Vai-Vai, Barroca Zona Sul e Camisa Verde e Branco.

Grupo II

Unidos de Vila Maria, Imperador do Ipiranga, Folha Azul dos Marujos, Acadêmicos do Ipiranga, Flor de Vila Dalila, Falcão do Morro Itaquerense, Lavapés, Morro da Casa Verde, Primeira do Itaim Paulista, Príncipe Negro, Cabeções de Vila Prudente e Acadêmicos do Tatuapé.

Grupo III

Águia de Ouro, Aristocrata do Tucuruvi, Passo de Ouro, Cachoeira Império do Samba, Filhotes da X9, Colorado do Brás, Unidos da Galvão Bueno, Garotos da Chácara Santo Antônio, Fio de Ouro, Meninos Lá de Casa, Primeira de Vila Carolina, Renascença da Lapa, Prova de Fogo e Corujas de Vila Esperança.

Elaboração da Autora.

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Os desfiles se realizaram entre os dias quatro e seis de fevereiro. No sábado (04/02) desfilaram as escolas do Grupo III, no domingo (05/02) do Grupo II e na segunda (06/02) do Grupo I. Participaria do Grupo III a Escola de Samba Plenário de Santo Amaro, mas ela foi excluída por não apresentar a documentação exigida (UESP Informa, 26/12/1977).


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O Grupo IV foi excluído dos desfiles oficias e, sem apoio do poder público, suas treze escolas buscaram formas alternativas de participar do carnaval. Apoiadas pela UESP e em parceria com a associação comercial realizaram o desfile no bairro do Ipiranga. Apesar dessa situação, o trânsito de escolas entre os grupos permaneceu, ou seja, as últimas colocadas do Grupo III caíram para o Grupo IV e as primeiras colocadas do Grupo IV subiram para o Grupo III, e o mesmo ocorreu com os demais grupos61. Além desses desfiles houve festejos carnavalescos em diferentes bairros da cidade: Cangaíba, Penha, Santo Amaro, Tucuruvi e Vila Esperança, onde havia o tradicional concurso de carros alegóricos. Nesses festejos era obrigatória a participação das escolas de samba do primeiro grupo. Isso mostra que embora houvesse uma preocupação em desenvolver o carnaval das escolas de samba transformando-o em um espetáculo, ainda havia, e eram estimulados, festejos de rua com blocos, bandas e outras formas de manifestação. Nos anos seguintes a Paulistur e a UESP trabalharam no sentido de desenvolver ainda mais o carnaval paulistano realizando diversas mudanças na estrutura e na organização das escolas e dos desfiles, como, por exemplo, a contratação de diferentes empresas para as diferentes funções necessárias à produção do evento, a busca por uma maior inserção na mídia e a ampliação dos investimentos para a gravação e a difusão dos sambasenredo e a ampliação do número de espectadores na avenida. Em 1979 foram construídas arquibancadas com capacidade para aproximadamente onze mil pessoas e em 1980 para trinta mil (Notícias Populares 23/11/1979), o que revela a velocidade do crescimento do carnaval paulistano a partir de sua oficialização, embora ainda houvesse uma grande inconstância no que se refere aos investimentos e à organização da festa. Na década de 1970 o carnaval das escolas de samba já tinha uma certa inserção na mídia e contava com colunas periódicas – permanentes ou eventuais – em jornais como A 61

Há atualmente um grupo de escolas que não recebe subvenção, é o Grupo de Acesso da UESP. No carnaval de 2008 as escolas desse grupo deveriam ter no mínimo quatrocentos componentes e um carro alegórico, e as duas primeiras colocadas subiram para o Grupo III da UESP, que equivale à quinta divisão do carnaval paulistano.


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Gazeta Esportiva (Assim Tocam os Tamborins – Evaristo de Carvalho), Notícias Populares (Quadra de Ensaios – Edmundo Andrade; NP no Samba – José Muniz Junior), Última Hora (UH no Samba – Jangada) e Folha da Tarde (Roda de Samba – Edmundo Andrade; Paulo Valentim). Nessas colunas eram divulgadas diversas notícias e informações relacionadas ao carnaval e às escolas de samba, como os bastidores da produção dos desfiles e as festas, rodas de samba e outros eventos promovidos pelas agremiações em suas quadras, os quais se caracterizavam como uma importante fonte de renda para as escolas. A UESP divulgava para a imprensa as informações referentes à organização e à estrutura do carnaval através do informativo UESP Informa. Também havia programas específicos de samba em diversas rádios paulistanas que traziam informações sobre as agremiações e sobre o carnaval. Porém, devido à falta de expectativa de retorno financeiro, na televisão a inserção foi mais tardia. Apenas na década de 1980 os desfiles passaram a ser transmitidos, na íntegra, para São Paulo e outras localidades pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Em 1986, questionado sobre a possibilidade de transmitir o carnaval paulistano, Otávio Florisbal, então diretor de marketing da Rede Globo de Televisão, afirma: “o desfile de São Paulo é muito regional e apenas nos interessaria transmitir para o próprio Estado. Não teríamos como ganhar na publicidade o que iríamos gastar” (Gazeta Mercantil, ADM, 02/1986). Na década de 1980 observa-se uma maior organização dos desfiles carnavalescos e um significativo aumento na participação de empresas privadas patrocinando e divulgando o evento que passa a ser televisionado (Figura 1). Nesse momento a passarela montada na Avenida Tiradentes já oferece uma melhor estrutura, tanto para as escolas como para os demais agentes envolvidos – público espectador, órgãos de imprensa, jurados etc. – tais como arquibancadas, iluminação, sistema de som, entre outros equipamentos básicos (Fotos 8 a 12).


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Figura 1. Informe Paulistur – Carnaval 1985. A partir da análise deste informe da Paulistur para o carnaval de 1985 é possível observar a maior organização do evento com ingressos sendo vendidos em diferentes pontos da cidade, a participação de grandes empresas patrocinando, a transmissão televisiva pelo Sistema Brasileiro de Televisão e a apresentação do croqui com a estrutura montada na Avenida Tiradentes. Estrutura que pode ser também observada nos detalhes das fotos da página seguinte.


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Foto 8 Autor Desconhecido Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes São Paulo – SP – 1982 G.R.C.S.E.S. Unidos de Vila Maria

Foto 9 Autor Desconhecido Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes São Paulo – SP – 1982 G.R.C.S.E.S. Unidos de Vila Maria


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Foto 10 Autor Desconhecido Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes São Paulo – SP – 1982 G.R.C.S.E.S. Unidos de Vila Maria

Foto 11 Autor Desconhecido Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes São Paulo – SP – 1982 G.R.C.S.E.S. Unidos de Vila Maria

Foto 12 Autor Desconhecido Desfile da Unidos de Vila Maria na Avenida Tiradentes. São Paulo – SP – 1982. G.R.C.S.E.S. Unidos de Vila Maria.


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Outro momento marcante no desenvolvimento do carnaval paulistano foi durante a gestão do Prefeito Jânio Quadros, de 1986 a 1988, quando diversas questões relacionados ao poder público, que pretendia reduzir os gastos com o carnaval, e aos interesses divergentes dos diferentes grupos de escolas, levaram a uma série de mudanças na organização dos desfiles. Em 1986 a Paulistur passou a se chamar Anhembi Centro de Feiras e Congressos S/A62 e o carnaval foi responsabilidade da Secretaria de Cultura. Sem licitação e faltando menos de um mês para o evento, a empresa Habitacional e Hotelaria Respaldo Ltda foi contratada para promover os festejos, a qual ficaria responsável pela exploração da bilheteria, comercialização de produtos diversos, inclusive material promocional, e por toda a contratação publicitária, além de algumas responsabilidades como a infra-estrutura de segurança e atendimento médico. À Prefeitura caberia a montagem e desmontagem das arquibancadas e a instalação e funcionamento da aparelhagem de som e da iluminação, o que representava a maior parte dos gastos. Com a finalidade de possibilitar a transmissão dos desfiles do Grupo I por emissoras de televisão de todo o país, houve uma pressão para alterar a data de seu desfile de domingo para sábado – proposta recorrente já há alguns anos – e, dessa forma, não concorrer com os desfiles das escolas do Rio de Janeiro, pois, sendo no mesmo dia, a preferência das emissoras era pela transmissão dos desfiles cariocas. Essa exigência não agradou ao conjunto das agremiações paulistanas, pois a alteração da data pouco tempo antes do carnaval acarretaria em prejuízos devido aos seus demais compromissos. Contudo, diante da possibilidade de transmissão, a empresa contratada se comprometeu a pagar uma significativa quantia para minimizar tais prejuízos.

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Essa empresa ficaria responsável apenas pela administração do Parque Anhembi e pelos eventos ali promovidos, mas já em 1987 passou a ser responsável pela organização do carnaval.


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A indefinição estendeu-se até uma semana antes do carnaval, quando a empresa Respaldo rescindiu o contrato assinado com a Prefeitura alegando a “impossibilidade de conciliar o novo calendário com o compromisso das escolas de samba, de se apresentarem em outras cidades. Se esses contratos fossem cancelados haveria grande perda de receita, o que não poderia ser compensado pelos patrocinadores” (Diário Popular, 01/02/1986). Por fim, a Prefeitura reassumiu a organização do carnaval e não houve alteração na data dos desfiles, permanecendo o Grupo I no domingo. Por ordem do prefeito houve uma mobilização entre todas as Secretarias com a finalidade de levantar uma verba suficiente para a realização dos festejos carnavalescos (Notícias Populares, 02/02/1986). Os ingressos para a arquibancada foram postos à venda faltando apenas quatro dias para o início dos desfiles (Figuras 2 e 3). A reportagem a seguir revela a situação do público espectador diante da desorganização do carnaval naquele ano. Com relação aos ingressos, centenas de paulistanos compareceram durante a madrugada e início da manhã de sábado [02/02/1986] no Anhembi e Galeria Prestes Maia para garantir uma vaga. E, frustrados, pela quinta vez, não conseguiram comprar os bilhetes. Apenas um papel informava a transferência da data e dos locais de venda. Agora, parece que a coisa é séria e tanto na Galeria Prestes Maia, Anhembi como nas Administrações Regionais, a venda será realizada e o paulistano poderá garantir seu ingresso nos festejos de Momo na avenida Tiradentes (Notícias Populares, 03/02/1986).

Durante os desfiles de 1986 o prefeito Jânio Quadros levantou a possibilidade de construir um Sambódromo em São Paulo a exemplo do que havia sido inaugurado no Rio de Janeiro em 1984. Alguns secretários, como o de Negócios Extraordinários (Alex Freua Neto), se manifestaram favoravelmente atentando para o barateamento do carnaval, uma vez que, com a existência do Sambódromo, não seria necessário armar e desarmar arquibancadas e demais equipamentos anualmente; outros, como os de Governo (João Carlos Freitas de Camargo) e dos Transportes (Roberto Salvador Scaringela) manifestaram-se contrários


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afirmando não ser prioritário ou necessário. No entanto, durante aquele governo essa idéia não se desenvolveu.

Figura 2 Montagem das arquibancadas na Avenida Tiradentes. Notícias Populares, 12/02/1986.

Figura 3 Fila para a compra dos ingressos para os desfiles do carnaval 1986. Folha da Tarde, 31/01/86.


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Diante dos diversos problemas observados naquele carnaval, em 19 de junho de 1986, diretores de nove agremiações fundaram a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga). Foram elas: Camisa Verde Branco; Vai-Vai; Rosas de Ouro; Águia de Ouro; Mocidade Alegre; Unidos do Peruche; Imperador do Ipiranga; Acadêmicos do Tucuruvi; e X-9 Paulistana63. Essa entidade tinha o objetivo de congregar as escolas de samba do Grupo I, que passou a se chamar Grupo Especial, representando-as junto ao poder público e às entidades particulares e participar da organização dos desfiles a partir de 1987. Posteriormente passou a representar os dois primeiros grupos: Grupo Especial e Grupo I, cujo nome foi alterado para Grupo de Acesso. A UESP continuou representando as demais escolas. A Liga foi fundada com o objetivo de atender aos interesses das chamadas grandes escolas e trabalhar para o desenvolvimento do carnaval paulistano de modo a aproximá-lo do modelo espetacular e lucrativo que já se realizava no Rio de Janeiro. A não passagem do desfile do Grupo I para o sábado no último carnaval, a perda de dinheiro surgida com esta medida, uma série de outros problemas e finalmente a abertura dos envelopes contendo as notas dadas pelos jurados às escolas desfilantes na Av. Tiradentes acabou por decretar o surgimento da Liga Independente das Escolas de Samba Paulistanas (...) (Popular da Tarde, 15/02/1986).

De acordo com Marcos dos Santos64, sambista e atual coordenador do Centro de Documentação e Memória do Samba, a fundação da Liga tem relação direta com os interesses econômicos ligados às transmissões televisivas. Segundo ele, as escolas fundadoras eram favoráveis à transferência do dia de desfile do Grupo I para sábado, com a finalidade de possibilitar a negociação com a Rede Globo de Televisão, pois um contrato de transmissão

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Na Ata de Fundação constam como sócios fundadores: Carlos Alberto Tobias, Camisa Verde Branco; Eduardo Basílio, Rosas de Ouro; Sidnei Carrioulo Antônio, Águia de Ouro; Juarez da Cruz, Mocidade Alegre; José Jambo Filho, Vai-Vai; Hermínio Bergamo, Imperador do Ipiranga; Horácio Bailão Mello, Acadêmicos do Tucuruvi; Laurentino Borges Marques, X-9 Paulistana; Raimundo Pereira da Silva, Rosas de Ouro; Walter Guariglio, Unidos do Peruche; Vera Lucia da Silva Dias, Rosas de Ouro; e Fernando Sérgio Pereira Campos (www.ligasp.com.br, acesso em 02/2007). 64 Entrevistado em março de 2007.


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geraria receita e divulgaria o carnaval dessa cidade nacionalmente e, conseqüentemente, promoveria novos negócios. Porém, isso não interessava às demais escolas, pois seus desfiles não seriam transmitidos e elas tampouco seriam beneficiadas financeiramente. Diante disso exigiam que, no caso da efetivação de um contrato, o valor obtido com os direitos de transmissão fosse repassado a todas as escolas filiadas à UESP, o que, evidentemente, não estava nos planos daqueles cujos desfiles seriam transmitidos. De acordo com Marcos dos Santos, esse tema gerou um impasse e resultou na fundação da Liga. Em suas palavras, foi um tremendo impasse. Começaram a reclamar da ditadura das pequenas, e resolveram fundar a Liga para negociar direto com a Globo. Na época nós tínhamos cento e vinte entidades filiadas aqui [UESP]. A Globo prefere conversar com dez do que com cento e vinte. É mais fácil. E provocou esse racha. A gente produz carnaval até hoje, a UESP, carnaval de bairros, mas a gente não sai na mídia.

O desmembramento das escolas em duas entidades representativas deu novo impulso ao carnaval paulistano. Representando apenas os interesses das maiores escolas, a Liga pôde iniciar um processo de trabalho no sentido de incrementar os desfiles e potencializar os negócios a eles relacionados. O carnaval de 1987 contou com a participação da Liga na organização e, sob a coordenação da Anhembi Centro de Feiras e Congressos S/A, um consórcio formado por diversas empresas assumiu o patrocínio dos desfiles carnavalescos na Avenida Tiradentes, ficando a prefeitura responsável apenas pelos festejos nos bairros. As consorciadas obtiveram retorno financeiro através da venda dos espaços de propaganda e publicidade na avenida. De acordo com Epaminondas José da Cunha, então presidente da Anhembi, a intenção dessa medida foi reduzir os gastos da Prefeitura, acabar com o “paternalismo da subvenção pública”, e aumentar a sofisticação, o conforto e o profissionalismo do carnaval, além de ampliar as oportunidades de exploração turística (Diário do Grande ABC, 16/01/1987). Naquele ano a arquibancada, que ocupou setecentos metros de avenida e foi dividida em vinte


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e três módulos, possuía seis metros de altura e capacidade para vinte e cinco mil pessoas. Em cada módulo havia telefone público, sanitários e postos de alimentação. Outra novidade foi a construção de cinqüenta camarotes, cada um com capacidade para quinze pessoas. A estrutura montada na Avenida Tiradentes contou com equipes de apoio das polícias Militar e Feminina, Juizado de Menores, pronto-socorro, manutenção, e postos da CMTC, da Eletropaulo, da Telesp e da Liga Independente das Escolas de Samba (Diário do Grande ABC, 16/01/1987). As inovações do carnaval paulistano podem ser observadas também no interior das escolas de samba que contavam com diversas fontes de renda. Além da subvenção que não era suficiente para arcar com as despesas, havia: o Livro de Ouro que, em especial nas grandes escolas, já não era muito utilizado, mas ainda rendia alguma receita e doações de materiais diversos; os ensaios, para os quais eram cobrados ingressos e faturava-se também com o bar; e, eventualmente, era possível verificar formas de patrocínio. A Escola de Samba Rosas de Ouro, por exemplo, em 1986 fazia propaganda da empresa Tapetes Bandeirantes em sua quadra (Gazeta Mercantil, ADM, 02/1986). Essa receita possibilitava às escolas uma maior estrutura para a produção das fantasias e alegorias. Ao contrário do primeiro período, era muito comum a contratação de trabalhadores especializados para as diferentes funções do barracão65, como escultores, ferreiros, marceneiros, costureiras, aderecistas, entre outros, e o próprio carnavalesco que idealizava as fantasias e alegorias, a partir do enredo proposto, e organizava todo o processo produtivo, o qual muitas vezes não fazia parte da comunidade, sendo contratado para desenvolver essa função e, em alguns casos, vindo de outras cidades. Em 1986 a Escola de Samba Rosas de Ouro contratou Carlos Eduardo Colabono, professor de artes do Colégio Canadense e a Escola de Samba Camisa Verde e Branco contratou o carioca Augusto Henrique, que veio a São Paulo para essa finalidade. Já a Escola de Samba Mocidade Alegre 65

Local onde, no geral, as escolas produzem as fantasias, as alegorias e onde são montadas partes dos carros alegóricos.


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optou por entregar essa função a uma comissão de diretores (Gazeta Mercantil, ADM, 02/1986). Também era comum a terceirização de parte dessa produção através da contratação dos serviços de ateliês especializados na confecção de fantasias mais sofisticadas. Observa-se nesse período uma diversificação do material utilizado na produção, como tecidos diversos, materiais sintéticos, plástico, ráfia, acetato, isopor, lantejoulas, plumas, ferragens, madeira entre outros. Todo esse material, assim como os equipamentos de som e os instrumentos musicais, era adquirido em lojas especializadas ou diretamente do produtor. Os carros alegóricos já eram montados sobre chassis de caminhões com estrutura metálica para sustentar as alegorias feitas normalmente de madeira e isopor. Essas características revelam a existência de uma divisão social e territorial do trabalho específica da produção das escolas de samba diferente daquela observada anteriormente. Mas essas novidades não são a realidade de todas as escolas, pois diversas pequenas escolas não se enquadravam no novo contexto e mantinham as características anteriores. Verifica-se, portanto, uma sobreposição de divisões do trabalho. Com relação à organização interna, muitas escolas ainda mantinham uma base familiar e de vizinhança, mas algumas já possuíam uma estrutura institucionalizada e baseada em estatutos mais rigorosos com funções definidas como presidente, secretário, tesoureiro, diretores e conselheiros, além da participação de pessoas não necessariamente ligadas à família e ao bairro, como é o caso de funções chave tal como a de carnavalesco. Essa institucionalização é um reflexo da oficialização e da normatização do carnaval paulistano que exigiu uma maior organização e embasa sua crescente profissionalização. Esses últimos eventos que provocaram inovações estruturais no carnaval paulistano marcam o início do processo de transição para o terceiro período.


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2.4. A Regulamentação do Carnaval Paulistano no Contexto da Cidade Corporativa

A partir do pós-guerra diversas ações e regulamentações estatais possibilitaram uma crescente integração territorial e a dispersão da modernidade. Naquele contexto várias cidades consolidaram-se como metrópoles, e a cidade de São Paulo passou a desempenhar um papel hegemônico no cenário nacional. Trata-se de uma verdadeira “metrópole onipresente” (SANTOS, (1993) 2005) que concentra os vetores da modernidade e que, naquele momento, vivenciava a consolidação do meio técnico-científico-informacional, ou seja, “o momento histórico em que a construção ou reconstrução do espaço se dará com um crescente conteúdo de ciência, de técnicas e de informação” (SANTOS, (1993) 2005, p. 37). A instalação dessa infra-estrutura cria as condições necessárias para o estabelecimento dos conteúdos do período atual, que inserem São Paulo no contexto da globalização como o “mais importante elo entre a economia nacional e a economia internacional” (SOUZA, 1999, p.37). Porém, a modernização não atinge a tudo e a todos da mesma forma, pois tratase de uma modernização incompleta e seletiva que apresenta uma série de contradições e conflitos, além de gerar uma profunda desigualdade social. Cria-se uma pobreza estrutural, e não residual, que aumenta à medida que a cidade cresce e se moderniza pois verifica-se a construção de uma cidade corporativa (SANTOS, 1990) que se faz, com investimento de recursos públicos, para atender aos interesses das grandes firmas em detrimento do social. E a população pobre segue deslocando-se em direção às periferias mais distantes, o que provoca a ampliação da mancha urbana da cidade (Mapas 4 e 5).


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Mapa 4. Área Urbanizada – 1963-1974


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Mapa 5. Área Urbanizada – 1975/1985


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A São Paulo industrial torna-se uma cidade informacional com prevalência dos setores de comércio e serviços, como conseqüência do processo de desconcentração industrial que leva à criação de novas territorialidades, embora a centralidade do comando permaneça, pois o que se desconcentra é, no geral, a atividade fabril (BERNARDES 2001; SANTOS, (1993) 2005). E foi justamente a base industrial que permitiu essa transformação, pois “somente a metrópole industrial tem condições para instalar novas condições de comando, beneficiando-se dessas precondições para mudar qualitativamente” (SANTOS, (1993) 2005, p.103). Em vinte anos, de 1970 a 1990, houve uma redução significativa no número de estabelecimentos e no valor da transformação industrial da cidade de São Paulo, em relação ao total nacional, ao passo que a Região Metropolitana e o Estado de São Paulo apresentaram crescimento (Tabela 3).

TABELA 3 - PARTICIPAÇÃO DO MUNICÍPIO, DA REGIÃO METROPOLITANA E DO INTREIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO NA INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

ANOS 1970 1990

Estabelecimentos Industriais (%) RMSP São Paulo Interior 28,94 36,09 6,95 9,23 21,95 15,26

Transformação Industrial (%) RMSP São Paulo Interior 28,39 45,29 13,13 16,01 31,13 21,70

Fonte: SANTOS e SILVEIRA, 2001. Elaboração da Autora.

A cidade de São Paulo continuou apresentando crescimento populacional, porém em processo de desaceleração (Tabela 4). De 1960 a 1970, o percentual de crescimento foi de 36,18%, de 1970 a 1980 de 30,25%, de 1980 a 1991 de 11,96% e de 1991 a 2000 de 7,56%. De 1960 a 2000, a cidade cresceu 63,76%, enquanto o Estado de São Paulo cresce 64,96% e a Região Metropolitana 73,50%. Esses dados são, também, um reflexo do processo de desconcentração industrial que possibilitou o desenvolvimento de outras cidades do estado e da própria RMSP.


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TABELA 4 – MUNICÍPIO, REGIÃO METROPOLITANA E ESTADO DE SÃO PAULO, E BRASIL. CRESCIMENTO POPULAÇÃO – 1960-2000

Anos

São Paulo (Município)

3.781.446 5.924.615 8.493.226 9.646.185 10.434.252

1960 1970 1980 1991 2000

RMSP

4.739.406 8.139.730 12.588.725 15.444.941 17.878.703

São Paulo (Estado)

12.974.699 17.771.948 25.040.712 31.588.925 37.032.403

Brasil 70.119.071 93.139.037 119.002.706 146.825.475 169.799.170

Fonte: IBGE – Censos Demográficos. Elaboração da Autora.

A estrutura e a dinâmica da cidade corporativa já não comportavam uma festa carnavalesca da forma como ocorria, e a realização dos desfiles na Avenida Tiradentes, na região central da cidade, passa a ser um transtorno no já caótico trânsito paulistano. Trata-se de uma importante via de tráfego que além de ser a principal ligação da Zona Norte ao Centro, faz parte de um imenso corredor de vias expressas que compreende as avenidas Santos Dumont, a própria Tiradentes, Prestes Maia, Vinte e Três de Maio, Rubem Berta, Moreira Guimarães, Washington Luís e Interlagos, e corta a cidade de um extremo ao outro no sentido Norte – Sul. Além disso, parte do fluxo de veículos que chegam ao município pelas rodovias Presidente Dutra, Fernão Dias, Ayrton Senna66, Anhanguera/ Bandeirtantes e até mesmo a Castelo Branco, para acessar a parte central da cidade utilizam as marginais e posteriormente a Avenida Tiradentes. Vale lembrar que essa malha viária tem como finalidade potencializar a fluidez com o objetivo maior de atender à demanda e aos interesses das grandes empresas67. Percebe-se facilmente a importância dessa artéria para o fluxo de veículos na cidade e os problemas que a realização dos desfiles carnavalescos provocava, tanto nos períodos de montagem e desmontagem da estrutura – as arquibancadas e as cabines dos jurados e da imprensa (feitos de madeira numa estrutura tubular de ferro) e o isolamento da 66

Na época denominada Rodovia dos Trabalhadores. Como afirma Balbim (2003, p. 385) “dentro das estratégias de deslocamento a velocidade é um dos parâmetros fundamentais na escolha modal. A única maneira conhecida de converter a velocidade em valor financeiro, comparável entre indivíduos distintos, é através do intermediário tempo”.

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área (feito de madeirite) – o que poderia levar semanas, como nos dias de carnaval quando parte da avenida ficava interditada e havia uma grande concentração de carros alegóricos na região. Por outro lado, a passarela na Avenida Tiradentes já não comportava a crescente estrutura das escolas de samba paulistanas. Os excessivos gastos anuais com infra-estrutura reduziam o investimento em outros setores da festa, o que contribuía para manter o carnaval paulistano em um patamar inferior ao carioca no que se refere ao potencial de desenvolvimento e criação de possibilidades econômicas. Diante disso, a Prefeitura de São Paulo dá início a uma política de reestruturação do carnaval. Em 04 de janeiro de 1990, na gestão da prefeita Luiza Erundina, o carnaval paulistano foi regulamentado através da Lei Nº. 10.831 (Anexo 1), a qual responsabiliza à Prefeitura pela organização e apoio ao carnaval, pois afirma: Art. 1º. – O Carnaval paulistano bem assim as manifestações artísticopopulares que o compõem, constitui-se em evento oficial da cidade, com o apoio e sob a gestão da Prefeitura.

Dentre as manifestações carnavalescas que recebem subvenção está o desfile das escolas de samba. Esta lei, que revoga a Lei Nº. 7.100 de 29 de dezembro de 1967, responsabiliza à Prefeitura pela execução da administração do carnaval paulistano através da Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo S/A, empresa que substituiu a Anhembi Centro de Feiras e Congressos S/A. A nova lei deixa mais clara a responsabilidade da Prefeitura em relação ao carnaval paulistano e às escolas de samba. A legislação anterior, de 1967, ao afirmar que a Prefeitura pode conceder auxilio, a desobriga de tal concessão, o que não ocorre na lei de 1990. Dando continuidade à política de reconhecimento das manifestações carnavalescas, como algo importante para a cidade, em 1° de fevereiro de 1991, ainda na


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gestão da Prefeita Luiza Erundina foi inaugurado no Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo68 o Sambódromo da cidade de São Paulo, onde se realizam os desfiles desde então (Fotos 13 e 14). A inauguração foi muito criticada, pois na realidade, naquele momento, havia apenas uma passarela sem pavimentação e houve a necessidade de construir arquibancadas como ocorria na Avenida Tiradentes. As obras do Sambódromo continuaram pelos anos seguintes e, a cada carnaval, surgiam novas propostas de aperfeiçoamento de acordo com as necessidades dos sambistas e das escolas de samba. Com as obras finalizadas, o Sambódromo, utilizado desde 1991, foi novamente inaugurado em 12 de fevereiro de 1996, na gestão do Prefeito Paulo Maluf. Esses dois eventos – regulamentação (1990) e inauguração do Sambódromo (1991) – criaram condições para a realização de um terceiro, o início das transmissões dos desfiles para todo o Brasil pela Rede Globo de Televisão (1999). Juntos, os três eventos criam uma rede de relações cujos agentes determinam o rumo das escolas de samba e do carnaval paulistanos e marcam o início do terceiro período.

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Na época denominado Pólo Cultural e Esportivo. A mudança de nome para Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo data de 1994.


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Foto 13 Autor: Miguel Boyayan Sambódromo São Paulo – SP 1991 Fonte: http://www9.prefeitura.sp.gov.br/semp la/historico/img/1991/sambodromo_grande.jpg

Foto 14 Autora: Vanir Belo Sambódromo São Paulo – SP 2008 Coleção Particular


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3. Profissionalização do Carnaval e Uso da Cidade

Super Escolas de Samba S/A super alegorias Escondendo gente bamba, que covardia (Bum-Bum Paticumbum Prugurundum – Beto sem Braço e Aluízio Machado – 1982).

Não suporto mais o samba perdendo a tradição No morro começaram a dizer que o carnaval é produto exportação Mas o Vai- Vai na avenida diz no pé e dá um show de empolgação Mostrando que o samba verdadeiro é o que se faz com tamborim e surdo de marcação. (E se a moda pega – Vai-Vai – 1983).

“Mais relevante que lamentar a perda de uma suposta autenticidade, no entanto, é tentar analisar as crenças, costumes, festas, valores, e formas de entretenimento na forma em que se apresentam hoje, pois a cultura, mais que a soma de produtos, é o processo de sua constante recriação, num espaço socialmente determinado” José Guilherme Cantor Magnani (1982, p. 15).


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3.1. As Ações do Poder Público e da Iniciativa Privada no Desenvolvimento do Carnaval Paulistano

O início do terceiro período é marcado por dois eventos políticos que formaram a base para a estrutura atual do carnaval paulistano, ambos realizados na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992): a regulamentação, através da Lei Nº. 10.831 de 1990, que normatiza o carnaval paulistano revogando a Lei N° 7.100 de 1967; e a inauguração do Sambódromo no Parque Anhembi, na Zona Norte da cidade, em 1991. A regulamentação do carnaval manteve o desfile das escolas de samba como um evento oficial da cidade, o qual, juntamente com outras manifestações – concurso de Rei Momo e Rainha de Carnaval, desfiles de bandas e blocos carnavalescos, carnavais de bairros e outros como concursos, festas, bailes etc. – passou a ser considerado uma “manifestação artítisco-popular”. De acordo com o decreto N° 29.472 de 1991, que modificou o campo de atuação da Secretaria Municipal de Cultura, “considera-se atividade de natureza cultural e artística tudo o que deriva da atividade humana como resultado de sua criação cultural, sob todas as formas de expressão” e “a Secretaria Municipal de Cultura deverá apoiar e incentivar a valorização e a difusão das manifestações culturais”. Todavia, as diversas ações do poder público em relação aos desfiles das escolas de samba deixam evidente sua visão sobre essa manifestação que, embora cultural, ou artística, e popular, desde a sua oficialização foi vista como um evento de grande potencial econômico e, portanto, submetido à pasta municipal do turismo.


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Sambódromo O espetáculo anual que se pretendia realizar na cidade de São Paulo exigia uma passarela adequada com infra-estrutura moderna, que não provocasse transtornos na cidade e não gerasse gastos excessivos aos cofres públicos. Diante disso, a inauguração do Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo, o Sambódromo, em 1991, com a finalidade primeira de abrigar os desfiles das escolas de samba, veio corroborar essa exigência oficial. Durante todo o período de idealização e construção desse objeto técnico de uso específico – que possui uma pista com quinhentos e trinta metros de comprimento e capacidade para aproximadamente trinta mil pessoas – houve uma série de críticas em relação à localização, ao projeto arquitetônico doado por Oscar Niemeyer, às licitações e pelo fato dos sambistas não terem participado desse processo. As críticas ao Sambódromo permanecem e diversos autores o definem como o local de confinamento do samba na cidade construído com a finalidade de atender às necessidades do espetáculo. Analisando o processo semelhante que ocorreu no Rio de Janeiro, Queiroz (1987) refere-se à construção de um Sambódromo como a “domesticação da massa urbana”. E os recentes trabalhos produzidos na Geografia paulistana (MARCELINO, 2007; FRANGIOTTI, 2007) também apontam para esse sentido. Segundo Marcelino (2007, p. 155) (...) cabe (...) apontarmos que tais mudanças [referindo-se às transformações do samba na cidade] foram fundamentais para construir espaços virtuais voltados ao espetáculo e à fetichização tão comuns à sociedade consumista em que vivemos e vazios em valores no que diz respeito às relações primárias, tão importantes para a construção e manutenção de espaços de sociabilidade dos moradores da metrópole, como também para o sentimento de pertença dos mesmos àqueles espaços.

De todo modo, diante da situação encontrada anteriormente, diversos sambistas envolvidos com as agremiações carnavalescas, embora carregados de nostalgia e críticas,


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viam a construção do Sambódromo como uma proposta oficial que poderia ser aproveitada pelas escolas de samba paulistanas. Nas palavras de Maria Aparecida Urbano69 o samba foi jogado lá no Anhembi. Porque ali era uma várzea. Era um terreno vazio que não tinha valor nenhum. Era um terreno excluído. Marginal. E nessa Marginal foi feito aquele prédio enorme para fazer exposições, só, pra frente ali não tinha nada. Então vamos jogar toda a negrada lá. Aí o que fizeram? Fizeram uma passarela. Isso foi no governo da Erundina. Ainda bem! Porque a gente pleiteava tanta coisa. Quando foi renovado o Anhangabaú a gente pretendia que fosse ali, que tivesse um espaço grande para que as escolas no carnaval desfilassem e depois ficasse livre esse vão todo. Não, mas no centro da cidade vai atrapalhar, vamos jogar lá. Ninguém pensou que lá não tem ônibus, não tem transporte mesmo, de jeito nenhum, é difícil mesmo o acesso. Não tem um bar, não tem uma lanchonete, não tem um nada ali. Mas ainda bem que conseguimos esse espaço.

A regulamentação do carnaval e a inauguração do Sambódromo fazem parte de uma política da Prefeitura cujo objetivo, mais do que promover a manifestação cultural, é desenvolver seu potencial turístico. Essas ações não se caracterizam como políticas isoladas, pois ocorreram num momento em que surgiam diversas ações de incentivo à cultura por parte do poder público em suas diferentes esferas – municipal, estadual e federal – tais como a inauguração do Memorial da América Latina (1989) pelo Governo do Estado de São Paulo, e a aprovação das leis federais Rouanet (1991) e do Audiovisual (1993)70. Em âmbito municipal, a construção do Sambódromo fez parte de uma política de reformulação do Parque Anhembi que, juntamente com a volta da Fórmula I ao autódromo de Interlagos, potencializou as áreas de turismo e lazer em São Paulo. Nesse mesmo período foram aprovadas duas leis referentes à regulamentação do turismo na cidade, a Lei N° 29.509/91 que criou o Conselho Municipal de Turismo, e a Lei N° 11.198/92 que implantou o Plano de Turismo Municipal e criou o Fundo Municipal de Turismo. 69

Entrevistada em 17/12/2007. Analisando essas ações Oliveira, C. (2007, p. 74) afirma que “em nenhum momento tais leis serviram ao empreendimento carnavalesco, num processo de total ausência de sintonia com a justificativa de democratização do acesso cultural aos recursos financeiros”.

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A construção do Sambódromo no Parque Anhembi é, também, parte de um processo de reformulação urbana pela qual a cidade vem passando nas últimas décadas e para sua realização foi necessário rever a Lei de Zoneamento e Uso para aquela região71 (Anexo 2). A partir da análise de fotografias aéreas é possível observar as transformações pelas quais passou essa área nas últimas décadas. No período anterior à construção da Marginal Tietê, do complexo Center Norte e do Parque Anhembi (Foto 15) ainda havia na várzea do Tietê alguma cobertura vegetal, diversas lagoas e campos de futebol, e ela era utilizada como área de lazer gratuito e de acesso democrático à população da região. Após a instalação desses objetos específicos que fazem parte do meio construído urbano (Fotos 16) a área já apresentava uma densa mancha urbanizada com a quase inexistência de áreas vazias. Vale lembrar que o Parque Anhembi e o Complexo Center Norte também são áreas de lazer, mas de caráter menos democrático (Imagem 1 e Foto 17). Símbolo do carnaval paulistano, o Sambódromo é o local de desfile para algumas agremiações carnavalescas da cidade, pois desfilam ali apenas as escolas do Grupo Especial (sexta-feira e sábado), Grupo de Acesso (domingo) e Grupo I (segunda-feira), além do Grupo Especial de Blocos (terça-feira)72. As demais agremiações filiadas à UESP – Grupo II, Grupo III, Grupo de Acesso e Grupo I de Blocos – realizam seus desfiles em passarelas montadas em diferentes bairros da cidade. Em 2008 foram realizados desfiles no Autódromo de Interlagos, Zona Sul (Grupo II), na Avenida Alvinópolis na Vila Esperança, Zona Leste (Grupo III) e na Avenida Politécnica no Butantã, Zona Oeste (Grupo de Acesso e Grupo I de Blocos). Nos três lugares houve desfiles no domingo e na segunda-feira de carnaval.

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A através da publicação do Projeto de Lei N° 220/90 que serviu de base para a nova Lei N° 11.156/91 que substituiu a Lei N° 7805/75 e dispõe sobre a Zona de Uso Z8-006. 72 Informações referentes ao carnaval de 2008.


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Foto 15 Fotografia Aérea da Região do Sambódromo, 1962. Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo – Instituto Agronômico. Escala aproximada 1:25.000 – aT – Região 7 – Foto 1795. Aerofoto Naticidade Ltda – 1962. Ao centro da fotografia observa-se o Aeroporto Campo de Marte e à esquerda a área onde hoje se localizam o Parque Anhembi e o Sambódromo (em vermelho). Apesar da densidade urbana ainda é possível verificar a existência de alguma cobertura vegetal, lagoas e campos de futebol na várzea do rio Tietê – que cruza a imagem de cima a baixo – sem a presença das vias marginais.


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Foto 16 Fotografia Aérea da Região do Sambódromo, 1994. BASE S. A. – 0-550 – 1:25.000 – MAR/1994 – FX. 11 – Nº. 33. Ao centro da foto observa-se o Parque Anhembi, entre o Aeroporto Campo de Marte e o rio Tietê, e o Sambódromo (em vermelho) que na época já estava com as obras praticamente concluídas. Observam-se também as vias marginais ao rio Tietê e o grande adensamento urbano.


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Imagem 1 – Sambódromo de São Paulo Digital Google, 2008.

Foto 17 Autor: Ideilson Ferreira Sambódromo São Paulo – SP 2006. Coleção Particular


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Mais do que uma conquista das escolas de samba ou dos sambistas, o Sambódromo é uma concessão e parte de uma política de desenvolvimento do carnaval paulistano realizada pelo poder público. Ele é usado pelas escolas de samba para a realização dos desfiles oficias de algumas agremiações, que ocorrem nos dias de carnaval, para o desfile das campeãs que ocorre na sexta-feira seguinte, e para a realização dos ensaios técnicos, que ocorrem normalmente do início de janeiro até as vésperas da festa. Em termos quantitativos, o uso que as agremiações carnavalescas fazem do Sambódromo é muito pouco significativo. Isso revela que a relação das agremiações com esse objeto se restringe ao período carnavalesco. No restante do ano o Sambódromo é utilizado para outras atividades (Anexo 3) evidenciando o objetivo de sua construção, bem como o uso desse objeto na atualidade, o qual é locado para a realização de outros eventos, conforme pode ser observado no seguinte texto da São Pulo Turismo S/A (SP Turis)73. O Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, é um dos maiores espaços para grandes eventos ao ar livre da cidade de São Paulo. Também conhecido como Sambódromo, tem abrigado em média 30 grandes eventos por ano, além da maior festa popular paulistana, o Carnaval. Inaugurado em 1991, nos últimos anos uma diversificação da utilização dos seus espaços fez do Pólo um local para eventos de diferentes estilos, tanto esportivos como apresentações artísticas. O local possui 10 módulos de arquibancadas ao longo de uma pista de 530 metros de comprimento por 14m de largura, com acomodação para 26.246 mil pessoas sentadas. Distribuídos pelos diversos setores/arquibancadas estão instalados 138 camarotes, com tamanhos variados, que acomodam grupos de 10 a 50 pessoas. Todos os setores possuem infra-estrutura completa para bares. A arquibancada monumental do Pólo, com capacidade para 7.749 mil pessoas sentadas, fica situada em frente a um palco de 900m². Além das arquibancadas, a monumental possui 10 amplos camarotes em frente ao palco, com ótima visibilidade. Nos bastidores do palco, estão disponíveis três grandes camarins e amplas áreas de serviço. Local ideal para shows de médio porte, como foi o caso do Sampafestival, que abrigou mais de 10 mil 73

Empresa que substituiu a Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo S/A.


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espectadores nesse espaço. O Pólo também possui duas grandes áreas abertas, denominadas concentração e dispersão (denominações extraídas do mundo do samba), ideais para grandes shows musicais. No espaço da concentração foi construída a ARENA SKOL ANHEMBI, o primeiro espaço para megaeventos com estrutura fixa do país. A São Paulo Turismo aplica uma política de comercialização de seus espaços para ações de Marketing Promocional. O Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo é um espaço que pode ser comercializado de forma exclusiva, nos seus 93 mil m², considerando-se os espaços da Arena, Dispersão e Pista. Ou ainda é possível a utilização de espaços específicos, adequado às necessidades de construção do seu evento. (http://spcarnaval.com.br/sambodromo.php, acesso em 07/02/2008).

A estrutura do Sambódromo fomentou inovações no desfile, pois as escolas passaram a contar com um espaço físico maior e mais adequado, em relação ao encontrado na Avenida Tiradentes, o que levou a um aumento no número de componentes e no tamanho dos carros alegóricos, que chegam a medir cem metros de comprimento e doze de altura, com a finalidade de tornar o evento maior e mais atrativo para o público espectador (Tabela 5).

TABELA 5. NÚMERO DE COMPONENTES, ALEGORIAS E TEMPO DE DESFILE EXIGIDOS DAS AGREMIAÇÕES CARNAVALESCAS – 2008 Número Mínimo e Tempo Mínimo e Grupos de Número Mínimo Máximo de Máximo de desfile Agremiações de Componentes Carros Alegóricos (em minutos) Especial 2000 4–5 55 – 65 Grupo de Acesso (Liga) 1000 3–4 50 – 60 Grupo I 600 2 45 Grupo II 500 2 40 Grupo III 400 1 40 Grupo de Acesso (UESP) 400 1 40 G. Especial de Blocos 600 1 40 Grupo I de Blocos 350 1 40 Fonte: Regulamentos da Liga e da UESP. Elaboração da Autora.

Embora exista uma exigência mínima, as escolas do Grupo Especial costumam desfilar com um número de componentes bem acima do exigido, com cerca de três mil e quinhentas a quatro mil e quinhentas pessoas, mas em 2008 a Escola de Samba Unidos de


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Vila Maria levou para a avenida cinco mil pessoas, o que foi considerado um recorde na história do carnaval paulistano. Algumas agremiações, dos diferentes grupos, têm muita dificuldade para atingir o número mínimo de componentes, o que, caso ocorra, leva à perda de pontos. Boa parte das pequenas escolas enfrenta esse problema mesmo distribuindo suas fantasias gratuitamente, e algumas grandes, para evitá-lo, vendem a baixos preços ou doam fantasias que seriam vendidas. A definição de um local para a realização dos desfiles levou a uma nova forma de uso da cidade por parte das escolas de samba, pois muitas transferem seus barracões para áreas mais próximas e de melhor acesso ao Sambódromo, com a finalidade de facilitar o transporte das alegorias, em especial para as escolas localizadas em bairros mais afastados. Por outro lado, o distanciamento da produção de alegorias da sede da escola, distancia também a comunidade de parte da produção material do carnaval, que fazia parte do cotidiano do bairro. O Sambódromo é um objeto geográfico74 que teve seu valor definido ao se instalar e se realizar na cidade de São Paulo que também se modificou, uma vez que teve naquele lugar seu valor redefinido, pois como assevera Santos (1999, p. 48) “os lugares (...) redefinem as técnicas. Cada objeto ou ação que se instala se insere num tecido preexistente e seu valor real é encontrado no funcionamento concreto do conjunto. Sua presença também modifica os valores preexistentes”. Juntos, o Sambódromo – como uma novidade do período – os barracões e as quadras das escolas de samba, formam um sistema de fixos que, na atualidade, contribuem para a continuidade dos desfiles carnavalescos e, conseqüentemente, da festa, e demonstra o interesse do poder público no seu potencial econômico.

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Como ensina Santos (1999, p.59) “os objetos que interessam à Geografia não são apenas móveis, mas também imóveis, tal uma cidade, uma barragem, uma estrada de rodagem, um porto, uma floresta, uma plantação, um lago, uma montanha. Tudo isso são objetos geográficos. (...) Para os geógrafos, os objetos são tudo o que existe na superfície da terra, toda herança da história natural e todo resultado da ação humana que se objetivou”.


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Rede Globo de Televisão A oficialização do carnaval, a realização dos desfiles no Sambódromo e o investimento por parte da Prefeitura e das próprias escolas de samba, possibilitaram a realização de diversos negócios. Em 1998 a Liga Independente das Escolas de Samba firma com a Rede Globo de Televisão um contrato de concessão de imagem dos desfiles das escolas do Grupo Especial, a partir do carnaval de 1999. O contrato com vigência até 2015 concede à emissora a exclusividade das transmissões dos desfiles oficiais e dita as novas regras do carnaval paulistano75 Uma conseqüência dessas mudanças foi a ampliação dos investimentos nessa manifestação devido à maior possibilidade de lucro. E as escolas começaram a trabalhar no sentido de obter recursos através de patrocínios para os enredos, que versam sobre os mais variados temas voltados à propaganda e, em muitos casos, encomendados. Sobre isso Mercadoria76 afirma as escolas de samba procuraram de uns anos para cá fazer enredos que dêem uma margem para você trabalhar no marketing. Se você analisar de uns dez anos para cá a escola de samba quando faz um enredo está focando alguma coisa, uma cidade, um estado; são direcionados para que se possa trabalhar no marketing e obter um ganho financeiro. Então isso é profissionalização também, é por aí que a coisa vai.

Os patrocinadores das escolas de samba têm suas marcas ou produtos expostos por aproximadamente setenta minutos na emissora de maior audiência do país, ainda que de forma camuflada ou subliminar, pois o contrato de transmissão não permite que as escolas façam propaganda de nenhum tipo, pois apenas os patrocinadores da emissora podem ser veiculados na televisão. Tópico que fica explícito no regulamento da Liga:

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Os desfiles das campeãs e do Grupo de Acesso são normalmente transmitidos pela TV Cultura e, eventualmente, a Rede Bandeirantes transmite os desfiles das campeãs. Mas, desde o ano 2000 a Rede Globo não concede a outra emissora o direito de transmitir os desfiles oficiais do Grupo Especial. 76 Raimundo Pereira da Silva, diretor de harmonia da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, entrevistado em outubro de 2003.


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Art. 12°. As escolas de samba na fiscalização /concentração estarão sujeitas à aplicação de penalidade de 02 (dois) pontos em cada uma das infrações abaixo, a perda poderá aumentar dependendo da natureza da infração (...). Art. 13º - A Escola que fizer e/ou apresentar-se com qualquer tipo de “merchandising” (explícito), em enredo, alegoria, adereços, alas, destaques, samba-enredo ou ainda quaisquer outros meios, perdendo também, 50% (cinqüenta por cento) da cota referente ao próximo direito de transmissão, a que fizer jus, exceto: Em prospecto de samba de enredo; Uniforme de merendeiros [pessoas que empurram os carros alegóricos], desde que respeitada a medida máxima de 18 cm (horizontal) por 8,5 (vertical), uma veiculação na frente e outra atrás, ou ainda uma veiculação em cada manga. Nos instrumentos musicais da bateria, desde que sejam as marcas de seus respectivos fabricantes, e que a logomarca não seja superior a 20 (vinte) cm de cumprimento por 8 (oito) cm de largura. (Regulamento Específico dos Desfiles do Grupo Especial da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo para o Carnaval 2006).

Devido a essa restrição, muitas escolas optam por investir em temas ligados a instituições, cidades ou estados, pois dessa forma é possível falar mais explicitamente do homenageado. O contrato com a emissora também restringe o patrocínio do carnaval negociado pela SP Turis, cuja exposição ocorre apenas nas áreas onde não há captação de imagem, no interior dos camarotes e na parte externa do Sambódromo (Foto 18). O que a partir de 2007 também vem sendo dificultado devido à Lei Cidade Limpa (Lei N°14.223/06) que proíbe a propaganda nas ruas da cidade. Mesmo sendo o Sambódromo um lugar público e administrado por uma empresa municipal, a negociação do patrocínio para o carnaval, que a Prefeitura por seu lado busca realizar, submete-se às normas impostas por uma empresa privada de televisão que, ao firmar contrato com as escolas de samba, acaba impondo seus interesses77.

77

Ao analisar essa situação Franciotti (2007, p.87) afirma, “ganha a rede de televisão, ganham as escolas de samba, ainda que pelo informado pareça muito aquém dos ganhos da Rede Globo, mas o ônus financeiro da manutenção do espaço [Sambódromo] e da preparação do espetáculo cabe ao poder público, que não tem nenhum direito de comercialização durante o evento”.


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Foto 18 Autora: Vanir Belo, Sambódromo São Paulo – SP 1996 Coleção Particular Exposição das marcas Casas Bahia (boneco inflável) e Banco Nossa Caixa (balão de ar) em lugares do sambódromo, onde não há captação de imagem para a televisão.

Foto X

Os patrocinadores da emissora, por sua vez, têm suas marcas expostas intensamente durante todos os dias de desfile para todo o país e diversos outros países. Para a Rede Globo o carnaval de São Paulo vem se mostrando bastante lucrativo, pois embora os desfiles do Rio de Janeiro sejam mais divulgados, mais ricos e transmitidos há mais tempo, a audiência dos desfiles paulistanos – que desde o ano 2000 passaram a se realizar em dois dias (sexta e sábado) – vem aumentando significativamente. De acordo com o Instituto de Opinião Pública e Estatística (Ibope) já em 2003 o carnaval paulistano teve maior audiência que o carioca (Tabela 6). No entanto, alguns analistas afirmam que isso se dá devido ao interesse dos paulistas pelo seu próprio carnaval uma vez que a audiência é medida na Grande São Paulo. Seja como for, no momento de definir um patrocínio esses números são levados em consideração.

TABELA 6. AUDIÊNCIA DOS DESFILES DO RIO DE JANEIRO E DE SÃO PAULO DE ACORDO COM O IBOPE*

Ano SP (sex./sab.)

RJ

2003**

2004**

2008***

14,2

13,7

13,2

14,4

13

13,3

10,9

12,8

13,6

14,6

11,5

13,1

(dom./seg.) * Cada ponto do Ibope equivale a aproximadamente 48,5 mil domicílios. Fonte: ** vwww1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada ***http://audiencia tv.wodpress.com/2008/02/06. Elaboração da Autora.


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Diversas inovações ocorreram no sentido de adaptar os desfiles a um formato mais adequado à televisão. Novamente o carnaval paulistano se espelha no modelo carioca que, nesse momento, já está devidamente adaptado ao molde televisivo, o qual exige das escolas de samba agilidade, riqueza, beleza, tempo definido e rigorosamente controlado, além da adequação à programação da emissora. Os desfiles do Grupo Especial, agora divididos em dois dias, não são concorrentes diretos dos desfiles cariocas e, realizados na sexta-feira e no sábado de carnaval, se iniciam após a programação básica da Rede Globo, normalmente com atraso. Mesmo que os organizadores do evento permitam seu início, as escolas preferem aguardar o início das transmissões, pois não querem perder a oportunidade de ter seus desfiles televisionados. Diante disso, os foliões – público e componentes – aguardam no Sambódromo o término da programação para dar início ao espetáculo que, nesse caso, é também uma grande festa, pois apesar de todas as transformações, da transmissão televisiva superficial e do que alguns autores chamam de “confinamento da manifestação popular”, a festa ainda se faz presente no Sambódromo78. Uma análise mais cuidadosa dos desfiles revela uma série de pequenas e grandes alterações, tais como a aceleração no andamento dos sambas-enredo, o que está relacionado com a estipulação de um tempo máximo de desfile, que não deve ser ultrapassado sob a pena de perda de pontos, a maior exposição de corpos nus e também uma preocupação por parte das escolas em ter nos desfiles pessoas famosas, no geral da própria emissora, com a finalidade de atrair a atenção da mídia. Marcos dos Santos79 chama a atenção para algumas mudanças desde o início das transmissões da Rede Globo. Segundo ele acabou de desfigurar o carnaval. Não que eu seja purista, mas você vai assistir o desfile de uma escola de samba [na televisão] eles pegam metade da coreografia da Comissão de Frente e daí... Mulher pelada. [o que segundo ele 78

E como afirma Oliveira, K. (2002, p. 103) “o desfile estabelece uma lógica própria, onde o coletivo se impõe sobre o individual, a alegria rompe com a seriedade imposta pelas obrigações cotidianas (...) além de representar um espaço de afirmação do poder das agremiações populares”. 79 Sambista e coordenador do Centro de Documentação e Memória do Samba, entrevistado em março de 2007.


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havia muito pouco antes do início das transmissões] E também não tinha artista. Aliás, tinha. Nós éramos os artistas. A gente perdeu essa condição. Nós não somos mais, somos apenas coadjuvantes. Não sei se você sabe que esse negócio de artista a Globo impôs. E eu sou testemunha, porque na minha escola foi imposto. Muitos presidentes negam essa história. Eu vi. Mas o samba mesmo... a essência não acabou.

Marcos dos Santos afirma ainda que “o preço de um comercial de trinta segundos é o que eles pagam para a escola, o que é uma coisa vergonhosa”. Mas alguns dirigentes acreditam na importância do contrato de concessão com a Rede Globo, embora reconheçam a necessidade de redefini-lo. De acordo com Paulo Sérgio Ferreira80 existe o outro lado que não é a verba, mas se você for contar também é dinheiro. A divulgação. E se você fosse pagar? Você não iria pagar também? Mais ou menos, trinta segundos na Globo são oitenta e cinco, noventa e cinco mil reais. E mesmo antes do carnaval você vê as vinhetas, você vê a divulgação do Carnaval de São Paulo. Então eu acho que o pessoal tem que começar a olhar por esse lado. Que também custa e não é repassado para nós. Então de alguma maneira eles têm que tirar esse custo deles também. E aí entra o patrocínio deles, eles vendem as cotas deles. Que é de direito também, você entendeu? Então é isso que acopla tudo. E também se você for pôr no papel, nem a Liga nem as escolas teriam condições de fazer. E aí como ficaria o produto? Sem rentabilidade para os dois lados. Como é que você vai vender lá fora? Você passa para quarenta e sete países. Como é que você vai atrair turista se o turista não viu lá fora? Então é repensar na parceria, não é atirar no parceiro. É ver o que pode melhorar para ambas as partes.

Essas falas revelam duas visões muito comuns entre as pessoas envolvidas no carnaval paulistano. Cada um desses agentes concebe as escolas de samba e os desfiles carnavalescos de uma forma e, portanto, atribuem valores diferentes à relação com a Rede Globo, com o poder público, com o mercado e com outros agentes. No segundo caso é evidente a definição dos desfiles das escolas de samba como um produto, em pleno acordo com os conteúdos do terceiro período. 80

Presidente da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, entrevistado em 10/04/2006.


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Potencial Turístico O crescimento da cidade e do evento carnavalesco levou à construção do Sambódromo que, por sua vez, impulsiona o crescimento do carnaval e leva a uma série de novos eventos para a cidade, possibilitando o desenvolvimento de projetos turísticos relacionados ao carnaval. No estudo intitulado Geografia do Turismo na Cultura Carnavalesca, Oliveira, C. (2007) faz uma crítica ao uso inadequado do Sambódromo que, para ele, se traduz em uma estrutura turística de atrativo efêmero “exclusivamente destinado às espetaculares competições dos desfiles carnavalescos” (p. 21), destituído de simbolismo e com o qual as escolas e os sambistas não guardam uma identificação efetiva. O autor critica também a ausência de um projeto político-cultural para o Sambódromo e propõe a elaboração de uma política para transformá-lo em um local com “densidade simbólica” e “funcionalidade cultural permanente”, com a finalidade de “articular as demandas culturais e turísticas” (p. 24). Os objetivos do poder público para o carnaval paulistano desde sua oficialização em 1967, ou seja, transformá-lo em um forte atrativo turístico da cidade, e o atual interesse de algumas escolas em explorar o setor turístico como mais uma fonte de receita aproximam-se, de certa forma, da proposta de Oliveira, mas são menos pretensiosos no que se refere às questões culturais e simbólicas. Na atualidade as próprias escolas de samba passaram a ser vistas como algo de grande potencial econômico não apenas nos dias de carnaval. Diante disso, em 2004, foi criado o G5, um grupo formado por cinco escolas da Zona Norte – Unidos de Vila Maria, Unidos do Peruche, Mocidade Alegre, Rosas de Ouro e X-9 Paulistana – que, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) regional norte e a SP Turis, desenvolvem ações com a finalidade de fomentar o turismo receptivo em suas


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quadras ao longo do ano. De acordo com Camila Patrício,81 o objetivo do grupo é transformar o atrativo, no caso as escolas de samba, em um produto turístico e incluir suas quadras nos roteiros da cidade através de parcerias com hotéis e agências de turismo. As agremiações participantes desse grupo oferecem serviços como apresentações em suas quadras, ou em locais definidos pelo comprador, e recepção de turistas nos ensaios ou outros eventos típicos de uma escola de samba, tal como a escolha do samba-enredo. O G5 define-se como (...) um grupo profissional em samba e carnaval com a responsabilidade de difundir a cultura e proporcionar entretenimento aos turistas e visitantes. Com uma visão inovadora desenvolve negócios no segmento do turismo cultural utilizando a rica cultura brasileira e alegria popular para atrair turistas domésticos e estrangeiros, oferecendo-lhes interação, diversão, descontração e cultura. (...) O G5 compreende o turismo como um mecanismo de crescimento econômico ajudando no desenvolvimento local. Acredita que seu trabalho pode ajudar na preservação do patrimônio cultural, na promoção da inclusão social e na geração de riquezas. Por isso, os objetivos definidos são construir relações de sociabilidade, formas de trabalho e geração de renda, criações artísticas e práticas culturais produtoras de interação, diversão e conhecimento (G5 Samba Receptivo, folheto informativo 2006/2007).

O objetivo inicial do projeto era englobar todas as escolas de samba do Grupo Especial, mas não houve interesse da Liga e tampouco do grupo de escolas. As cinco agremiações que hoje fazem parte do grupo foram as únicas que demonstraram interesse pela proposta e a desenvolveram. Mas o G5 não está livre de conflitos internos e de interesses individuais por parte das escolas que o compõem. O foco do G5, em parceria com hotéis e agências de turismo, é atrair para as escolas de samba os turistas que vêm a São Paulo a negócios e para participar de congressos e feiras, uma vez que na atualidade essa é a cidade que recebe o maior fluxo de pessoas com

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Representante do Sebrae e Coordenadora do Projeto SP Samba, do qual o G5 faz parte. Entrevistada em 05/05/2006.


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O enredo do carnaval nos enredos da cidade. Dinâmica territorial das escolas de samba em São Paulo. by Portal Academia do Samba - Issuu