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Rapsódia Brasileira de Joãosinho Trinta: um grande leitor do Brasil!

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

RAPSÓDIA BRASILEIRA DE JOÃOSINHO TRINTA: UM GRANDE LEITOR DO BRASIL!

Milton Reis Cunha Junior

2010


RAPSÓDIA BRASILEIRA DE JOÃOSINHO TRINTA: UM GRANDE LEITOR DO BRASIL!

Milton Reis Cunha Junior

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária).

Orientador Prof. Dr. Frederico Augusto Liberalli de Góes.

Rio de Janeiro Julho de 2010


RAPSÓDIA BRASILEIRA DE JOÃOSINHO TRINTA: UM GRANDE LEITOR DO BRASIL! Milton Reis Cunha Junior Orientador: Prof. Doutor Frederico Augusto Liberalli de Góes.

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária). Aprovada por: ________________________________________________ Presidente, Prof. Dr. Frederico Augusto Liberalli de Góes - UFRJ/ Faculdade de Letras ________________________________________________ Profª. Drª Flora de Paoli Faria - UFRJ/ Faculdade de Letras ________________________________________________ Profª. Drª Laura Padilha - UFF/ Faculdade de Letras ________________________________________________ Profª. Dr. João Camilo Pena - UFRJ/ Faculdade de Letras ________________________________________________ Profª. Dr. Samuel Sampaio Abrantes - UFRJ/ Escola de Belas Artes

Suplentes: ________________________________________________ Profª. Drª Marta Alckmin - UFRJ/Faculdade de Letras _______________________________________________ Profª. Drª Ana Maria Alencar - UFRJ/Faculdade de Letras

Rio de Janeiro Julho de 2010


FICHA CATALOGRÁFICA

RAPSÓDIA BRASILEIRA DE JOÃOSINHO TRINTA: UM GRANDE LEITOR DO BRASIL!

CUNHA Jr, Milton A Rapsódia brasileira de Joãosinho Trinta: um grande leitor do Brasil! / Milton Reis Cunha Júnior. Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2010. xiii, 204f: 31 cm. Orientador: Prof. Doutor Frederico Augusto Liberalli de Góes Tese (doutorado) – UFRJ / Faculdade de Letras / Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura, 2010. Referências Bibliográficas: f. 215-217 1. Joãosinho Trinta. 2. Carnaval no Rio. 3. Enredo carnavalesco. I. Góes, Frederico Augusto Liberalli de. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura. III. A Rapsódia brasileira de Joãosinho Trinta: um grande leitor do Brasil!


... vagamos hoje, destemidos, em labirinto esperto de vertigens, seu braรงo sobre meu ombro: fantasmagorias eu tirasse para danรงar! Para ti, Bouรงas Coutinho, Adorรกvel Luiz Edmundo, Tu, a ponta do baseado de Deus!


AGRADECIMENTOS

A Fred Góes, pelo “fio da meada” e pela paciência; Às Damas qualificadas Flora de Paoli e Laura Padilha, divinas; A Samuel Abrantes, pela inspiração; A Eduardo Costa, companheiro amado; A Terezinha Petrus Kalil, pelo exemplo de que a Educação constrói; A Ailton Guimarães Jorge e Junior Guimarães, pelo incentivo; A Tetê Cavalcanti, Hélio e Helinho, família; A Eduardo Pinto, Gustavo Eifell, Fábio Fabatto, e todos os pensantes da cultura do carnaval; Às mestras Helena Parente Cunha e Marta Alckmin, pelos caminhos da modernidade tardia.


Acreditamos na força do samba. Pois ele é o verdadeiro canto do povo. As raízes estão no sangue. E a prova é este desfile, o desfile do maior espetáculo da Terra. Com o samba-enredo é elaborado todo o trabalho, ode simbolizada na elegância e na leveza dos primeiros mestres-salas. E, assim, a escola se transforma em veículo de conhecimento e é mensageira de verdades e belezas. Com ele, é possível contar a verdade científica de que o mundo começou pelo Brasil. E abre as portas da imaginação para a fantasia de que o Paraíso foi e é o Rio de Janeiro. Joãosinho Trinta


RESUMO

RAPSÓDIA BRASILEIRA DE JOÃOSINHO TRINTA: UM GRANDE LEITOR DO BRASIL!

Milton Reis Cunha Junior Orientador: Prof. Doutor Frederico Augusto Liberalli de Góes.

Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária).

Análise de dezessete narrativas do carnavalesco Joãosinho Trinta, apresentadas para julgamento no quesito enredo, no desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, selecionadas no contexto de seus trinta anos de carreira, com o objetivo de mapear a recorrência dos núcleos temáticos de sua poética. O autor é o responsável por contundente leitura cultural, social e política do Brasil do final do século XX e início do XXI, refletida na construção de seus enredos apresentados no desfile das escolas de samba.

Palavras-chave: Joãosinho Trinta, Carnaval no Rio de Janeiro, Enredo carnavalesco

Rio de Janeiro Julho de 2010


ABSTRACT

BRAZILIAN RHAPSODY OF JOAOSINHO TRINTA: A GREAT READER OF BRAZIL!

Milton Reis Cunha Junior Orientador: Prof. Doutor Frederico Augusto Liberalli de Góes.

Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária).

Analysis of seventeen narratives of the Carnival maker Joãosinho Trinta submitted to arbitration on plot question in the “escolas de samba” parade of the special group in Rio de Janeiro, selected in the context of his thirty-year-old career, aiming to highlight the recurrent themes in his poetic work. The author is responsible for reading scathing cultural, social and political life of Brazil of the late twentieth and early twenty-first century, reflected in the construction of his plots presented in the parade of “escolas de samba”.

Kew-words: Joãosinho Trinta, Carnival in Rio de Janeiro, Carnival Story

Rio de Janeiro Julho de 2010


RÉSUMÉ

RHAPSODY BRÉSILIEN DE JOÃOSINHO TRINTA: UN ACTEUR MAJEUR DANS LE BRÉSIL!

Milton Reis Cunha Junior Orientador: Prof. Doutor Frederico Augusto Liberalli de Góes.

Résumé da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária).

Analyse de dix-sept parmi tous les textes de le carnavalesque Joaosinho Trinta soumis pour évaluation dans le thème “enredo”, dans le défilé des Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, choisis parmi les matériels produits dans la carrière de trente ans de l'auteur, avec l'objectif de mettre en évidence la récurrence des thèmes centraux de sa poésie. Le carnavalesque est responsable de la lecture individuelle vie culturelle, sociale et politique du Brésil de la fin du XXe et du début du XXIe siècle, montré dans la préparation de leurs récits présentés dans le défilé des "Escolas de Samba do Rio".

Mots-clés: Joãosinho Trinta, Carnaval de Rio de Janeiro, Histoire du Carnaval

Rio de Janeiro Julho de 2010


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO...................................................................................................................13

2. MOLDURA DA OBRA ANALISADA.............................................................................19 2.1. As questões recorrentes.......................................................................................31 2.2. A organização da narrativa.................................................................................34 2.2.1. Narrativas em blocos...............................................................................34 2.2.2. Narrativas em espiral...............................................................................38

3- DA OPULÊNCIA E OTIMISMO DO PARAÍSO AO DECLÍNIO E PESSIMISMO DO INFERNO.........................................................................................................................40 3.1. Opulência e luxo no Carnaval.............................................................................40 3.1.1. O carnaval maravilhoso...........................................................................46 3.1.2. O bom brasileiro......................................................................................49 3.2. A descida ao inferno.............................................................................................51 3.2.1. A desgraça brasileira...............................................................................51 3.2.2. Os desvalidos...........................................................................................53 3.3. Reunião delirante de paraísos e infernos...........................................................56 3.3.1. Negritude.................................................................................................56 3.3.2. O desenvolvimento sustentável...............................................................60

4. AS MÁSCARAS DA NARRATIVA NO DESFILE DE ESCOLA DE SAMBA...........61 4.1 A narrativa escrita do carnavalesco como máscara anual para o desfile da escola de samba............................................................................................................65


4.2. As máscaras de Exu Mensageiro no Seu João Narrador..................................70 4.3. A máscara decadentista.......................................................................................80 4.4. A máscara do fantástico.......................................................................................89 4.5. A máscara paradoxal da Pós-Modernidade.....................................................109 4.6. Análise dos enredos como máscaras anuais do narrador...............................132

5. CONCLUSÃO...................................................................................................................211

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................215

ANEXOS................................................................................................................................218


1. INTRODUÇÃO

Acredito que além dos respeitados intelectuais, artistas populares bem contam um país. Músicos, cineastas, carnavalescos também são pensadores e impressionantes leitores da época em que viveram. Alguns, como o genial homem de escola de samba, Joãosinho Trinta, alcançam dimensão filosófica, formando com sua obra carnavalesca um contundente painel sobre o Brasil do final do século XX e início do XXI. Algumas vezes ele é um leitor profético, que lê questões que só serão entendidas ou contempladas décadas depois como, por exemplo, a internacionalização da Amazônia. Outras vezes é um leitor enlouquecido pelo espiral das contradições brasileiras, que ele estilhaça em sua obra num fluxo vertiginoso, como se sua leitura acompanhasse a velocidade de seu pensamento labiríntico. O que sobra de sua leitura é um amor incondicional pelo Brasil, pelo povo, pela celebração carnavalesca. Sua profecia de que um dia a alegria brasileira iria redimir o mundo no Terceiro Milênio nos revela que ele sempre acreditou na alegria como uma forma de reflexão e um instrumento para a compreensão e a edificação de um mundo melhor. Chamo este painel de rapsódia pois a partir do significado musical de rapsódia, relacionado com trechos extraídos com frequência de óperas e operetas, chego ao movimento orquestrado pelo grande leitor do Brasil, Joãosinho Trinta: apropriando-se da narrativa popular do desfile de escola de samba, no Rio de Janeiro, o carnavalesco compõe sua obra em justaposição, apresentando escassa unidade formal entre os temas abordados, em composições que não seguem uma estrutura fixa. As rapsódias caracterizam-se por temas integrados por fortes variações, intensidade, tonalidades, sem necessidade de seguir uma estrutura pré-definida. A sua forma consegue ser mais livre, uma vez que não há necessidade de repetir os temas, e pode-se criar novos temas


ao sabor da inspiração. Em seu estilo de narração, a emoção criativa é usada para transformar sentimentos em enredo, sempre com liberdade poética. Se a rapsódia também pode ser entendida como sendo um conjunto de composições folclóricas que o artista se apropria fazendo suas eventuais modificações, eis aí um dos mais significativos tangenciamentos da obra de Trinta: a partir de crendices populares de sua terra natal, o Maranhão, do Nordeste e de todo o Brasil, Joãosinho vai montando seus cantos épicos. É quando ele assume o papel do Rapsodo, aquele que transmite a narrativa. O rapsodo era um homem do povo, cantador que ia de cidade em cidade cantando a história de seu povo. Mais Joãosinho Trinta impossível, ele que sempre se orgulhou de ter chegado ao Rio de Janeiro no Carnaval de 1959. Um autor sempre ligado à narrativa popular, folclórica, algumas vezes muito antiga e de origem anônima. A narrativa escrita é uma das obrigatoriedades prescritas pela Liga das Escolas de Samba, para julgamento dos quesitos enredo, samba enredo, alegoria e adereços, fantasias e conjunto. Como ópera de rua – expressão cunhada pelo próprio Joãosinho Trinta, cuja obra é analisada na presente tese –, o desfile das escolas de samba apresenta um libreto que elucida o seu tema para a comissão julgadora e para a imprensa, em informações condensadas em um único documento. Tanto os jurados quanto os jornalistas só têm acesso a este documento poucas horas antes do desfile.

“Trata-se do livro Abre alas, calhamaço em dois volumes de cerca de três e meia centenas de páginas, um para cada noite de desfile, que a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro elabora e distribui para a imprensa e para seu corpo de julgadores.” · 1

1

QUESADO, 2006, p. 1

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A narrativa escrita do carnavalesco, que é “o componente basilar de toda a estrutura de sentido dos desfiles”2, revela o universo de interesse do “autor da folia”. Joãosinho Trinta, ao longo de sua brilhante carreira, produziu 30 narrativas escritas, das quais 10 são objetos de análise nesta tese. Estes “enredos” serão aqui tomados na definição de Samira Nahid de Mesquita (1986):

arranjo de uma história, (...) corpo de uma narrativa, (..) associada à natureza lúdica do homem (...) um recorte na vida cotidiana, tem função compensatória (...) obedece a regras, tem sentido simbólico, de representação. (...) Como realização, supõe agenciamentos, manipulações, mecanismos, movimentos, estratégias. 3

A metodologia aqui empregada é multidisciplinar. Portanto, são utilizadas fontes de diferentes campos do saber. Através de ferramentas fornecidas pela Ciência da Literatura, pretendo analisar os temas dos enredos e a narrativa que conduzem a exposição das intenções. Começo com a análise individual de cada narrativa escrita, fixando aí os “núcleos temáticos tratados em cada enredo”, e, para tanto, utilizo a tipologia de análise realizada por Samira N. Mesquita4, quando estuda o que denomina “Um Enredo de Oswald de Andrade: memórias sentimentais de João Miramar”. Para explicar “núcleos temáticos”, Samira postula: “A trama da linguagem se entretece por entre alguns motivos e núcleos que vão estruturar semanticamente o texto, cujo tema central o título indica. A maneira de abordar e desenvolver tais núcleos é o que singulariza cada obra.” Para tratar das questões da negritude utilizarei a classificação de L. V. Thomas, descrita por Kabengele Munanga5, mostrando como a literatura promoveu outras concepções da negritude. Tal classificação é utilizada para a catalogação deste aspecto nas narrativas escritas de Joãosinho Trinta, pois, além da sua permanência, mostra também como um

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Ibidem, p. 4 MESQUITA, 1986, p.7. 4 Ibidem, p. 63. 5 MUNANGA, 1986 p. 54-55. 3

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escritor pode passar de uma posição a outra, sem se trair, exprimindo-se simultaneamente sob vários registros:

• Negritude dolorosa: O poeta negro, no esforço de comunicação com seu povo e máximo depoimento, sofre a paixão da negrada torturada pela história. Sentese medo de perder cultura e alma no contato com o Ocidente e suas técnicas. É uma fase de angústia, de dor; • Negritude agressiva: É uma fase de revolta, de negação da razão, do deus branco, da beleza ocidental, das línguas européias. Reivindica-se a raça até nas suas carências; • Negritude serena: Atitude construtiva de reconciliação dialética. O desejo de ascender a uma cultura universal. É bom proclamar constantemente sua negritude, evidente na conduta e nos hábitos de cada africano. Um fundo sólido e tranqüilo; • Negritude vitoriosa: Reivindicação da paternidade da civilização. Uma supercompensação idealizante. Um verdadeiro messianismo.

As características apontadas por Fúlvia Moretto6 como caracterizadoras de um clima decadentista serão por mim utilizadas para analisar o passeio da narrativa de Joãosinho Trinta pelo labirinto finissecular, cujos corredores apontam para a confusão, ora vertiginosos, ora melancólicos, ora irados, ora líricos, ora cansados, ora oníricos, ora individualistas, todos extremamente “ornamentais” e possuidores da riqueza necessária. Para trabalhar o elemento fantástico, exatamente a brecha deixada pela narrativa ao inserir no enunciado a pergunta será ou não sonho? – a indagação sobre os limites entre o sonho e o real –, trabalharei com o paradigma da professora Selma Calazans Rodrigues, que postula: a narrativa fantástica deixa evidente a máquina ficcional, que a narrativa realista procura esconder através dos recursos da verossimilhança. Para estabelecer as máscaras do narrador em Joãosinho Trinta buscarei o auxílio de Augusto Ponzio em seu estudo sobre Propp e Bakhtin, que dirigiram atenção especial ao riso ritualista e à festa popular, encontrando neles a chave para explicar imagens específicas, motivos e gêneros de produção artística da cultura popular que penetram na literatura oficial7.

6 7

MORETTO, 1989, p. 23 PONZIO, 2008, p.170.

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Acredito que conhecer o paradigma estruturante da linguagem carnavalesca no Brasil poderá auxiliar os estudiosos das matrizes culturais que dialogam com o contexto cultural do Brasil moderno. Para considerar Joãosinho Trinta o Hipercarnavalesco, ou o carnavalesco da hipermodernidade, utilizarei as grandes características deste período de tempo, enumeradas por Gilles Lipovetsky8: o signo do excesso, o regime do tempo social alterado instituindo a primazia do presente efêmero, o hedonismo, o psicologismo norteando reflexões, e a reflexividade. No corpo da análise, estabeleço temas recorrentes ou “as grandes questões” presentes na narrativa escrita de Joãosinho Trinta. Quais são as maiores preocupações deste criador no decorrer de suas narrativas escritas? Como respostas encontro visões ufanistas, visões pessimistas, questões da negritude, “visões relativas à negritude”, questões decadentistas e questões fantásticas. Concluo, tentando demonstrar que a visão do carnavalesco é um dos vieses possíveis para se pensar o Brasil, suas contradições, grandezas e mazelas.

Ao trazer para o mundo exterior elementos presentes na sua imaginação, o homem consegue inserir mecanismos novos de apreensão e decodificação, permitindo não apenas atingir o real, como também vislumbrar as coisas que possam vir a tornar-se realidade. 9

No início de seu livro, “A Mulher e os Espelhos”10, Paulo Barreto, ou João do Rio, apresenta a seus leitores sua “Carta-Oferta”, que funciona como uma introdutória “declaração de intenções”, antecipando os misteriosos temas que, no corpo do livro, serão esmiuçados pelos contos. Também a narrativa escrita para o Carnaval é uma “carta-oferta”, onde o autorcarnavalesco alinhava, em texto, suas intenções que deverão depois se transformar na apresentação propriamente dita. Tais narrativas escritas procuram condensar a magia poética, 8

LIPOVETSKY, 2004 TRINDADE, 1997, p. 7. 10 RIO, 1990, p.15. 9

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típica das abordagens carnavalescas do Rio de Janeiro, que dará o “tom” ao desfile, que tratará do tema escolhido para aquele Carnaval. Joãosinho Trinta é respeitado e amado pelo povo brasileiro, por ser um artista que, através de seus carnavais, conseguiu emocionar a Nação, tocando em pontos cruciais das questões patrióticas, dentro de uma festa-desfile que antes dele não alcançava a dimensão da crítica social e do tratamento de mazelas nacionais. Tal consagração é, por vezes, criticada como “onírica” e “enlouquecida” e, por outras, como “genial”, “visionária”, “profética”. Acreditando ser a Escrita do Carnavalesco, peça de narrativa que antecede e prepara o desfile da escola de samba, obra passível de análise, me lanço ao desafio: desvendar o que Bakhtin11 denominou “idéias e ideais e os elementos do espírito necessários para que haja festa”.

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BAKHTIN apud FERNANDES, 2001, p. 39

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2. MOLDURA DA OBRA ANALISADA

Este capítulo apresenta a análise de dezessete narrativas do carnavalesco Joãosinho Trinta, selecionadas no contexto de seus trinta anos de carreira, e o mapeamento da recorrência dos núcleos temáticos de sua poética. Pode-se observar que o autor é o responsável por contundente leitura cultural, social e política do Brasil do final do século XX e início do XXI.

ENREDO: “REI DE FRANÇA NA ILHA DA ASSOMBRAÇÃO” ANO: 1974 ESCOLA: GRES ACADÊMICOS DO SALGUEIRO.

Conteúdo: Joãosinho Trinta narra que Pretas Velhas Maranhenses contam que um rei menino francês criou uma imaginativa versão sobre as terras distantes do Brasil, que provocavam por suas belezas naturais e culturais enorme alvoroço na corte francesa. Tanto Rei de França quanto Ilha da Assombração, São Luís do Maranhão, são produtos da imaginação do narrador Joãosinho Trinta, menino, moleque travesso, ouvidor de estórias, contador de tantas outras, sonhador, sapeca, imaginativo, onírico, verdadeiramente mentiroso (fingidor, no sentido etimológico de criador), assustado, empreendedor, com uma extraordinária capacidade de delirar, homenagear sua terra natal da infância distante, quando ouviu tantas narrativas maravilhosas.

ENREDO: “O SEGREDO DAS MINAS DO REI SALOMÃO” ANO: 1975 ESCOLA: GRES ACADÊMICOS DO SALGUEIRO


Conteúdo: O narrador destaca que o segredo da localização das minas do Rei Salomão era desconhecido pelos integrantes da corte do grande rei, que apenas sabiam da existência das “terras de Ofir”. Havia um só homem que sabia chegar até as minas: o Rei Hiran, da Fenícia. A narrativa associará o Rei Salomão e as amazonas através de suas capacidades de despertar a inveja e a cobiça em seus inimigos, que elas combatiam com gritos de guerra. Gritos que elas só transformavam em gritos de amor uma única vez por ano, o que pressupõe uma imagem de “histeria” desta tribo de mulheres, sobretudo pelo fato de tal histeria só se aplacar quando a guerra cede lugar ao amor e ao sexo, que elas praticam com os fenícios. O fato das amazonas considerarem aqueles homens como “presentes” da deusa para as fecundarem dá à narrativa uma visão bastante moderna na forma de encarar a procriação, pois elas “usam” aqueles doadores de sêmen em festa, e depois eles partem, só voltando no ano seguinte. E mesmo os considerando semideuses, eles são presentes de sua deusa maior, num panteão feminista, e que parece visar o matriarcado, ainda que a narrativa não nos explique o que é feito dos meninos que por ventura nascessem.

ENREDO: “A LAPA DE ADÃO E EVA” ANO: 1985 ESCOLA: GRES BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS

Conteúdo: As portas da imaginação são abertas por uma narrativa dividida em 13 pequenos capítulos, que funcionam como título resumo, do núcleo temático a ser abordado no texto que segue. Tudo isto para demonstrar que a cidade do Rio de Janeiro foi e é o paraíso. Encerrando a narrativa, o narrador convoca noções de brasilidade para seu texto: a força do samba, canto do povo, raízes sanguíneas, o carnaval carioca como o maior espetáculo da Terra. Neste momento, o narrador define e enumera a estrutura da narrativa de carnaval: harmonia,

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evolução, fantasias, bateria, alegorias, enredo e todo esse conjunto, todos esses quesitos realizam a verdadeira ópera de rua. O desfile de Escola de Samba seria veículo de conhecimento e mensageiro de verdades e beleza. O narrador, então, conclama todos da audiência para enxergarem as luzes do Terceiro Milênio através da visão do Cristo Redentor, ser energético em cujo céu voarão moderníssimos anjos: os voadores de asa-delta. E há um apelo final para que o Rio volte a ser o paraíso, que será habitado por nossas crianças. Na alegria do carnaval, sonhos se tornam a realidade.

ENREDO: “SOU NEGRO, DO EGITO À LIBERDADE” ANO: 1988 ESCOLA: GRES BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS

Conteúdo: O narrador informa que, em 1988, o negro foi libertado formalmente. Em seguida, o narrador revela seu ponto de vista: agora, cem anos depois, ele está refletindo sobre esta libertação formal, quando muito se fala de coisas tristes e sofridas que ainda envolvem a negritude brasileira; mas sua opção narrativa é proclamar liberdades maiores que engrandecem toda a humanidade, a liberdade das culturas negras. Vale ressaltar aqui a pluralidade de “culturas”, não reunindo o narrador toda a negritude em um só conceito de produção de cultura. O narrador também se declara batalhador de uma visão mais generosa sobre a Escola de Samba, para além do desfile alegre e bonito que se realiza na Marques de Sapucaí.

ENREDO: “RATOS E URUBUS, LARGUEM A MINHA FANTASIA” ANO: 1989 ESCOLA: GRES BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

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Conteúdo: Joãosinho Trinta estrutura sua narrativa em três partes, que são: uma introdução, um desenvolvimento e um resumo final da listagem dos “lixos do luxo” e dos epílogos. O narrador convida para o Baile de Máscara todos os marginalizados, o que deflagra a situação tema da narrativa: para atender ao desejo de fantasiarem-se, todos correm para catar nas latas de lixo restos para suas fantasias, encenações, interpretações. O narrador confessa que tal é a quantidade de sujeira que cerca o país que se sente sufocado. Ele narra seus nove “sufocos”, que são os nove “lixos do luxo”, e seus dois “respirar”: o primeiro, sua glorificação e parceria com os moradores das ruas; e o segundo, sua esperança messiânica de que o futuro, a Era de Aquárius, o Terceiro Milênio chegue com a redenção da humanidade.

ENREDO: “TODO MUNDO NASCEU NU” ANO: 1990 ESCOLA: GRES BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

Conteúdo: Pensar um enredo sobre “planos” leva Joãosinho Trinta a construir, escrevendo, uma narrativa usando estes planos. Mas antes dele, o próprio Deus, escrevendo certo por linhas tortas, é lembrado como o maior de todos os narradores, e o grande responsável pela ordenação dos planos que serão trabalhados pelo enredo. O narrador autoritário, dominador e domador de um feixe gigantesco de possibilidades vai arrumar o caos que é a história planetária, desde o “princípio” até o “alvorecer de um novo ciclo”. Portanto, deixando em aberto o cronológico, o enredo vive passível de múltiplas possibilidades, seu tempo é gerúndio, movimento, devir, interminável processo. Acalmando o leitor diante da imensidão de camadas tratadas, o narrador vai dividir a narrativa em dois blocos, e no meio deles um messianismo apontando para a possibilidade de transformação.

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ENREDO: “ALICE NO BRASIL DAS MARAVILHAS” ANO: 1991 ESCOLA: GRES BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

Conteúdo: O narrador atende ao pedido de três mulheres que querem ouvir uma estória “sem pé nem cabeça”: as ouvintes são Prima, Segunda e Tórtia. Joãosinho Trinta avisa às pedintes que “tudo tem muitos pés e muitas cabeças”, o que sinaliza para o simbólico, o metafórico, o jogo lúdico que começará a ser narrado: uma “espelhação conflitante”, onde a realidade brasileira será confrontada com os clássicos “Alice no País das Maravilhas” e “No país dos espelhos”, virando ambos História do Brasil, pois para o narrador, há enorme identificação entre uma coisa e outra, pulverizadas em doses espalhadas de acontecimentos, durante o sonho-pesadelo da menina Alice. Indo e vindo, comparando personagens de Lewis Caroll aos habitantes do passado ou do moderno Brasil, a narrativa vai fixando dicotomias, que sempre reforçarão a idéia do reflexo do espelho, da conflitante espelhação.

ENREDO: “HÁ UM PONTO DE LUZ NA IMENSIDÃO” ANO: 1992 ESCOLA: GRES BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

Conteúdo: A narrativa tem como objetivo emparelhar duplos, para contrastá-los e sugerir possibilidades de convivência ou aniquilamento. Começa com as duas possibilidades de transmissão que a idéia “Televisão” pode conter: transmissão de sinais de áudio e vídeo (tecnologia) e transmissão de conteúdos (ideologia). Portanto, o ponto de partida da narrativa é estabelecer que o título já circunscreve em si duas possibilidades de entendimento: a maneira científica de explicar este “ponto de luz” e a contribuição humana, educacional,

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cultural que transformaria esta transmissão em “ponto de luz”, farol e referência positiva para a humanidade. Há um modelo de técnica e arte que a narrativa junta através do “Ponto de luz”, ao mesmo tempo científico e poético/espiritual. Se a televisão nasce do milagre das descobertas da tecnologia moderna, ela também é importante janela para “iluminar a vida dos brasileiros”. Ao narrar a vertente das artes na televisão serão incorporados ao enredo vários aspectos presentes na televisão e no espetáculo de escola de samba: artes associadas que ajudam, em aglutinação, a enriquecer e diversificar as narrativas visuais da televisão e do Carnaval, como a música, a pintura, a dança, as artes populares, o teatro, a literatura.

ENREDO: “TEREZA DE BENGUELA – UMA RAINHA NEGRA NO PANTANAL” ANO: 1994 ESCOLA: GRES UNIDOS DO VIRADOURO

Conteúdo: Na parte histórica da realidade, nos é apresentada a valorização da negritude, demonstrada pela liderança fraterna, solidária e multicultural de Tereza de Benguela, Rainha Africana escravizada e trazida para o Centro-Oeste Brasileiro no século XVIII. Na parte do desejo utópico temos o narrador Joãosinho Trinta assumindo o “enlouquecer” de sua personagem principal e tentando propor, hoje, o que ela outrora havia proposto. Ao mesmo tempo em que ela agoniza entre corpos mutilados e a destruição de sua sociedade igualitária, Joãosinho Trinta passeia entre os escombros de um Brasil dizimado pelas injustiças sociais e pela desesperança.

ENREDO: “O REI E OS TRÊS ESPANTOS DE DEBRET” ANO: 1995 ESCOLA: GRES UNIDOS DO VIRADOURO

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Conteúdo: Somos informados que o Rei é D. João VI e o ano 1808 quando, chegando ao Brasil, Debret documentou em aquarelas tudo o que viu, tanto no Rio de Janeiro quanto em outros estados. Um trabalho importantíssimo de pesquisa sobre a história do Brasil-Império e da vida cotidiana no Rio de Janeiro do início do século XIX. Debret, que vindo de uma Europa civilizada, ao chegar no Rio de Janeiro, espantou-se com a beleza da natureza, florestas virgens, riquezas minerais, vegetal e animal. Já o segundo espanto é estória com “e”, segundo o narrador. A prerrogativa inventiva e criativa da profissão do narrador carnavalesco, pois carnaval “é para isto mesmo”. Após o período de descanso no céu, merecido, após deixar o Brasil no século XIX, a alma de Debret reencarna (mais que isto, a expressão do narrador é “volta a reencarnar”, portanto, a própria existência de Debret na História do Brasil já seria uma das encarnações) na Paris de hoje, bela e imponente. No último parágrafo, o narrador questiona, de forma singela, sobre o terceiro espanto, tomando a perspectiva típica de contador de estórias, que instiga os ouvinte a pensar sobre o passo seguinte. Revela que o terceiro espanto de Debret reencarnado vai se dar no carnaval, pois o turista francês, presente como platéia no maior espetáculo da Terra, está sentado nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí, encantando-se com todas.

ENREDO “ORFEU- O NEGRO DO CARNAVAL” ANO: 1998 ESCOLA: GRES UNIDOS DO VIRADOURO

Conteúdo: Joãosinho Trinta narra a história de Orfeu, compositor negro do morro carioca, que venceu o concurso de samba-enredo de sua escola de samba da favela, cujo enredo é a História do Carnaval Carioca. Além disso, a vida do compositor é similar à vida do mito grego Orpheu, tanto na paixão pela música como no amor pela bela Eurídice. Portanto, temos

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um enredo metalinguístico, que narrará um outro enredo, com ele se encontrará, se fundirá, utilizando-o como linguagem de estética, pois para cada período histórico da estética da manifestação carnavalesca, caberá uma passagem da tragédia de Orfeu, que sempre lembrará o trágico Mito de Orpheu, grego (e seu desdobramento na adaptação do mito para o contexto carioca em “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes) . Vencendo o concurso de samba enredo, Orfeu abre caminho para que a mágica se dê: quando o cortejo carnavalesco da escola de samba unificada cantar em desfile a glorificação dos compositores, Joãosinho Trinta, o titã, invoca na sua narrativa a própria glorificação: o grito de “é campeã!”.

ENREDO “ANITA GARIBALDI, A HEROÍNA DAS SETE MAGIAS” ANO: 1999 ESCOLA: GRES UNIDOS DO VIRADOURO

Conteúdo: É sobre a formação de personalidade, influências conscientes ou não, heranças culturais e convivência dos humanos com o mundo fantástico, o tema desta narrativa. Duas pinceladas de “história” são dadas no início da “estória” de Joãosinho Trinta: a data e o local do nascimento, que localiza histórica e geograficamente a heroína, e o encontro do grande amor e companheiro de luta revolucionária, Giuseppe Garibaldi. Mas o narrador nos alerta que não será uma visão histórica e sim fantasiosa. O tom glorificador surge no final da narrativa, quando Anita é comparada a outras heroínas como Joana D`Arc e Teresa de Benguela. Tomada como espelho da mulher brasileira, Anita representa a bravura das habitantes do Brasil. Imagem refletida que abre a narrativa, em sua parte final, para a questão dos vários círculos de magia que circundam a vida nacional, ontem e hoje. Se há sete magias que transformaram Anita, Ser de Prata ontem, em Anita, a brasileira guerreira de hoje, há também, no desfile de Carnaval, círculos de magia que continuam a fazer de nós, brasileiros,

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seres especiais. Portanto, temos mulheres reais, brasileiras, que refletem no seu ser, o ser de prata, com a ajuda da prata do espelho que elas próprias são.

ENREDO: “BRASIL, VISÕES DE PARAÍSOS E INFERNOS” ANO: 2000 ESCOLA: GRES UNIDOS DO VIRADOURO

Conteúdo: Joãosinho Trinta abre a narrativa contando para o leitor o histórico do que o levou a decidir pelo assunto. Informa que foi a Liesa (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) quem, naquele ano, decidiu que todas as escolas tratariam do mote “500 anos do descobrimento do Brasil”. Atribui à Escola de Samba Viradouro a decisão de narrar o item n° 2, "A Carta de Pero Vaz de Caminha e o Impacto que o Descobrimento do Brasil causou no Imaginário Europeu". Estabelecida a existência da noção de Paraíso Terrestre e Inferno, Joãosinho se lança rumo ao fortalecimento destes conceitos. É uma narrativa estruturada na divisão dos setores, enumerando-os e fazendo o leitor compreender do que eles tratarão (desta forma já visualizando os núcleos temáticos que interessam ao narrador tratar). Chave de ouro é o sinônimo da junção de uma proposta do narrador, de que haja um pouco de reflexão em meio a tanto oba-oba: a natureza nacional, sem dúvida, é paradisíaca; mas as dualidades surgem para nos infernizar na vida moderna. É aí, neste epílogo, que o narrador assume a visão binária do mundo, fazendo uma lista de oposições, como positivo-negativo, progressoatraso, honestidade, corrupção, riqueza e pobreza, fome e fartura.

ENREDO “GENTILEZA ‘X’- O PROFETA DO FOGO” ANO: 2001 ESCOLA: GRES ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

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Conteúdo: O enredo inicia anunciando “a abertura dos portais do Terceiro Milênio” e chamando a atenção por estarmos na era espacial, “tecnológica”, o que poderia ser motivo de regozijo, mas, no Brasil e no mundo, violência, guerra e corrupção pelo dinheiro estão maltratando os povos. Entra em cena o “homem do povo”, empresário e “pai de família”, José Datrino, o “particularmente” abalado pela tragédia do circo de Niterói (todos em geral foram abalados, mas há um abalado em particular). Após estas considerações que emparelham o ontem e o hoje, a Roma Pagã e o Grande Circo Americano, a Idade Média e a Idade Mídia, começa o transe místico de José Datrino que, seis dias após o incêndio, começa a ouvir vozes anunciando-lhe “sua missão especial a cumprir na face da Terra”. O sétimo dia traz à narrativa a “transformação”, desaparece José e surge o profeta renascido do fogo, ainda não chamado de Gentileza, quando ele abandona a família, veste sandália e túnica branca e vai plantar flores e distribuir vinho no local onde o circo pegara fogo, pedindo apenas aos que passavam que dissessem “por gentileza e muito agradecido”.

ENREDO: “OS PAPAGAIOS AMARELOS NAS TERRAS ENCANTADAS DO MARANHÃO” ANO: 2002 ESCOLA: GRES ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

Conteúdo: Joãosinho retoma o “Rei de França na Ilha da Assombração”, feito para a GRES Acadêmicos do Salgueiro em 1975, e agora conta a mesma estória e história, com narrativa diferente, para a Acadêmicos do Grande Rio. Ele anuncia que começará com história, mais precisamente em 1612, com o rei menino de França, Luís XIII, sob o governo de Maria de Medicis, empenhado junto com a corte francesa na fundação da França Equinocial, nas terras nortistas brasileiras, mais precisamente, o Maranhão. “Os franceses permaneceram alguns anos nas terras do Maranhão e depois foram expulsos pelos portugueses como também

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aconteceu com os holandeses” desarticula a continuidade da poética, pois os papagaios amarelos despedem-se das terras encantadas do Maranhão logo no primeiro parágrafo. O Narrador anuncia a intenção do Enredo: homenagear as culturas de sua terra natal, e regatar histórias e estórias, o H e o E do início da narrativa. Um resgate que deu e dá samba, no momento em que a UNESCO eleva a cidade de São Luís do Maranhão a Patrimônio Cultural da Humanidade. A terra dos Segredos é homenageada por esta narrativa. Segredos que podemos sinonimizar pelas encantarias que transformam histórias em grandes e encantadoras estórias.

ENREDO: “O NOSSO BRASIL QUE VALE!” ANO: 2003 ESCOLA: GRES ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

Conteúdo: O Narrador dá início ao texto, apresentando o título: “O Nosso Brasil que Vale!”. Em seguida, relata do que trata o título – “a saga da mineração brasileira”. De um Brasil que Vale, sobre a saga da mineração brasileira, o narrador salta, adjetivando como fantástica, para a Mitologia da Grécia antiga, de onde retira as informações sobre os primórdios da formação do solo do planeta, onde o brasileiro estaria incluído. Neste território do Tempo, Chronos, o Deus é visto preparando, durante bilhões de anos, o reino mineral. No descobrimento do Brasil souberam da lenda do Eldorado, cidade escondida na mata virgem e coberta de ouro, prata e pedras preciosas. Eis que surgem bandeirantes e aventureiros, buscando as riquezas. Bravos homens em Entradas e Bandeiras, povoando e desbravando a região do Vale do Rio Doce, onde encontraram as Minas Gerais. Neste ponto a narrativa apresenta a Serra dos Carajás, e desloca o foco de eldorado da primeira região, mineira, para a floresta riquíssima, cujas reservas de metais preciosos foram descobertas. São listados manganês, bauxita, caulim,

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potássio, cobre, alumínio, níquel, titânio e estanho como riquezas a serem exploradas, mas com grandes melhoramentos acompanhando esta exploração.

ENREDO: “VAMOS VESTIR A CAMISINHA, MEU AMOR!” ANO: 2004 ESCOLA: GRES ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

Conteúdo: O narrador começa informando algo poético, revestido de sedução: o aparecimento do Jardim das Delícias, quando o luminoso dia foi separado da fascinante noite. Parece que o narrador quer tecer uma teia de beleza e encantamento em volta do leitor para, depois, já tendo conseguido sua atenção, entrar num território mais árido de informação. O Jardim do Édem, as bandas do Oriente, a Índia e o Kamasutra, os Deuses Gregos, o Egito Antigo, a China, o Japão, a Idade Média e a Europa, todos num balaio de coreto balançado, buscando uma forma de preservar a espécie. Com a frase “a história da Camisinha, é, portanto, muito antiga”, resume toda a autoridade do narrador, para, em três parágrafos, dar a volta ao mundo e, em sucintas pinceladas, deixar claro a importância de narrar a história mundial do preservativo sexual denominado “camisinha”. O narrador faz uma chamada de ordem, invocando a liberdade de escolha de parceiros sexuais, bradando que gays, lésbicas e simpatizantes (portanto heteros) possam viver livremente, mas que tenham cuidado, que usem a camisinha. Concluindo, o narrador sintetiza que esta narrativa intitulada “Vamos vestir a camisinha, meu amor!” busca um resultado positivo, que seria o esclarecimento do povo brasileiro e outros povos do mundo sobre a importância do uso do preservativo, pois vestir a camisinha é a única forma de se preservar contra o vírus HIV.

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2.1. As questões recorrentes Após este levantamento de dezessete narrativas do carnavalesco Joãosinho Trinta, foi possível detectar todos os núcleos temáticos encontrados em sua poética. São eles:

•

Bom Brasileiro

•

Carnaval Maravilhoso

•

Desgraça Brasileira

•

Desgraça da Condição Humana, dos Poderosos

•

Opulência Brasileira

•

Negritude Gloriosa, Dolorosa, Serena, Vitoriosa,

•

Fantástica Transmutação

•

Fantástico (convívio com seres outros)

•

O Terceiro Milênio da Justiça Universal

•

A Justiça Universal

•

Matemáticas Decifrações

•

Do Desenvolvimento Sustentável

•

Da aldeia Global.

Pode-se observar que cada uma das dezessete narrativas de Joãosinho Trinta, analisadas na presente tese, possui mais que um núcleo temático, como se segue: •

Núcleos temáticos presentes em “Rei de França na Ilha da Assombração”: A

Opulência Brasileira; O Bom Brasileiro; A Negritude Vitoriosa; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “O Segredo das Minas do Rei Salomão”: A

Opulência Brasileira; A Fantástica Transmutação.

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•

Núcleos temáticos presentes em “A Lapa de Adão e Eva”: O Terceiro Milênio da

Justiça Universal; O Fantástico; O Carnaval Maravilhoso; a Desgraça Brasileira; o Bom Brasileiro; a Opulência Brasileira; o Terceiro Milênio da Justiça Universal. •

Núcleos temáticos presentes em “Sou Negro, do Egito à Liberdade”: A Negritude

Gloriosa, Dolorosa e Serena; O Carnaval Maravilhoso; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; O Desenvolvimento Sustentável; A Desgraça da Condição Humana. •

Núcleos temáticos presentes em “Ratos e Urubus - Larguem a Minha Fantasia”: A

Opulência Brasileira; O Bom Brasileiro; O Carnaval Maravilhoso; A Desgraça Brasileira; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “Todo Mundo Nasceu Nu”: A Opulência Brasileira; A

Desgraça Brasileira; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “Alice no Brasil das Maravilhas”: A Desgraça

Brasileira; A Justiça Universal; As Matemáticas Decifrações; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “Há um Ponto de Luz na Imensidão”: A Opulência

Brasileira; O Bom Brasileiro; O Carnaval Maravilhoso; A Desgraça Brasileira; A Negritude Dolorosa e Serena; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no

Pantanal”: O Bom Brasileiro; O Carnaval Maravilhoso; A Desgraça Brasileira; A Negritude Revoltada e Vitoriosa; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “O Rei e os três espantos de Debret”: A Opulência

Brasileira; A Desgraça Brasileira; A Fantástica Transmutação; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; O Carnaval Maravilhoso. •

Núcleos temáticos presentes em “Orfeu – O Negro do Carnaval”: O Carnaval

Maravilhoso; A Desgraça Brasileira; A Negritude Dolorosa; A Fantástica Transmutação.

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•

Núcleos temáticos presentes em “Anita Garibaldi - a Heroína das Sete Magias”: O

Bom Brasileiro; O Carnaval Maravilhoso; A Negritude Vitoriosa; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “Brasil, visões de Paraísos e Infernos”: Núcleo

Temático do Bom Brasileiro; Núcleo Temático da Desgraça Brasileira (desgraça Humana?); Núcleo temático da Negritude Gloriosa, Dolorosa e Vitoriosa; Núcleo Temático da Opulência Brasileira; Núcleo temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal; Núcleo Temático do Fantástico (Convívio com seres fantásticos). •

Núcleos temáticos presentes em “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”: A Opulência

Brasileira; O Bom Brasileiro; A Desgraça Brasileira; O Terceiro Milênio da Justiça Universal; As Matemáticas Decifrações; A Fantástica Transmutação. •

Núcleos temáticos presentes em “Papagaios Amarelos nas Terras Encantadas do

Maranhão”: Núcleo Temático do Fantástico (convívio com seres outros); Núcleo Temático do Bom Brasileiro; Núcleo Temático da Negritude Gloriosa, Dolorosa, Serena, Vitoriosa; Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso; Núcleo Temático da Fantástica Transmutação; Núcleo temático da Opulência Brasileira. •

Núcleos temáticos presentes em “O Nosso Brasil que Vale”: Núcleo temático do

Progresso Sustentável (este núcleo surge nas narrativas de Joãosinho Trinta a partir deste Enredo); Núcleo Temático da Transmutação; Núcleo Temático do Bom Brasileiro; Núcleo Temático da Opulência Brasileira; Núcleo Temático do Inferno Brasileiro; Núcleo Temático da Justiça Universal. •

Núcleos temáticos presentes em “Vamos Vestir A Camisinha, Meu Amor”: A

Fantástica Transmutação; A Aldeia Global.

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2.2. A organização da narrativa

2.2.1. Narrativas em blocos Em “Rei de França na Ilha da Assombração”, na primeira metade da narrativa, temos a seguinte estrutura: 1. De início, o narrador nos situa onde se passa a estória; 2. Em seguida são introduzidas as contadoras de estórias, que narrarão belezas deste onde; 3. Depois, tais belezas do onde encantam a nobreza da distante França; 4. A imaginação do rei menino de França fantasia sobre os dois primeiros momentos e assume o foco narrativo, pois a frase “esta fantasia é o enredo do Salgueiro!” colocará tal versão imaginada, com todas as transformações por ela promovidas, como o “mentor” da narrativa delirante (mas este domínio, este ponto de vista, por várias vezes escapará das mãos do menino e será ou das pretas velhas ou do próprio Joãosinho Trinta); 5. Surgem assombrações maranhenses que pertencem à narrativa das pretas velhas e não participam do repertório de informações do rei menino, como se tais informações invadissem a narrativa à revelia do domínio do foco da criança que imagina.

Em “O Segredo das Minas do Rei Salomão”, a frase de ordem – “o segredo será revelado nesta avenida colorida” – é a divisora dos dois blocos narrativos: o primeiro sobre as riquezas das minas e o entorno do poder por elas gerado (história que virou lenda), e o segundo, sobre a localização delas (uma lenda que quer virar história se for aceita sua tese e evidência). São três blocos narrativos que vemos de forma distinta em “Sou negro, do Egito à Liberdade”: num primeiro bloco, a parte histórica relacionada ao historiador Diop, e suas afirmações de que o Egito foi uma grande civilização negra; em um segundo bloco, 34


conscientizado que a negritude tem valor, há um bloco místico de resgate dos Deuses nagôs, os Orixás, e as relações dos ensinamentos deles com a atualidade, para o bem e para o mal; e por fim, um terceiro bloco, que permeia os outros dois, denunciando as questões racistas que tanto prejudicam o povo negro. No enredo “Todo Mundo Nasceu Nu”, Joãosinho Trinta trabalha exaustivamente a idéia de plano narrativo, numa dissecação em três estágios (planos): o primeiro, caótico e indomável; o segundo, apaziguado pela seleção natural das espécies; e, flutuando entre eles, uma camada metafísica redentora e que busca o equilíbrio do planeta. Sobrepondo camadas, num turbilhão de idéias, ele permite um enorme jogo de significados, o que sempre nos remeterá para o início do enredo, “no princípio era o caos”. No surto onírico que é “Alice no País das Maravilhas”, Alice passeia no primeiro bloco por um país ironicamente chamado de Brasil das Maravilhas, mas que conclusivamente será denominado de um “imenso cassino” onde, mais grave que os jogos institucionalizados (quinas, senas, raspadinhas) ou não (cartas, roletas, jogo do bicho) são os jogos das elites poderosas com a “honra dos outros, a vida dos menores abandonados, o jogo com a verdade e a mentira e com o certo e o errado”. Uma nação onde está valendo tudo, e onde as crianças abandonadas são a principal preocupação da narrativa, já que citadas quatro vezes. A conclusão do relato apresenta uma inversão inesperada: no segundo e curtíssimo bloco, Alice desperta e muda a posição de sonho e vigília, anunciando ter sido tudo um sonho. O sonho passa a ser o "real"; o enredo, e a vigília, o "irreal", o sonho. Essas duas narrativas são simétricas, uma engendrando os símbolos da outra. A inversão final, com o afastamento e o conseqüente estranhamento da visão dos acontecimentos reais, cria o bloco do acordar. Neste redemoinho narrativo, no salve-se quem puder, onde coerência é a postura perante uma realidade avassaladoramente destrutiva (provocadora de tonturas), o rodopiar final clama por uma solução mágica da chegada de um

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novo tempo, que para o narrador é pedra-cantada pela análise numerológica: o infinito, o Terceiro Milênio, um novo tempo de sabedoria e equilíbrio. Em “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal”, podemos estabelecer dois planos distintos de narrativa: o da realidade, narrada pelo Alaúde, e a do Desejo Utópico, narrada por Joãosinho Trinta. Assim como podemos estabelecer duas formas distintas de reluzir as luzes propostas pelo enredo: a luz espiritual de Tereza e dos líderes précolombianos, metafísica e resplandecente no meio dos ideais do desejo utópico de libertação; e a luz do ouro, histórica, representando a ostentação, a luxúria, a ganância e a insensibilidade dos exploradores, resplandecente no barroco bal-masqué do palácio, comemorando o aniversário da rainha de Portugal:

Construtores, operários, material, móveis, espelhos, cortinas, riquíssimos ornamentos, lustres, caríssimas indumentárias e finas iguarias, tudo era trazido da Europa (...) e para sustentar todos estes gastos, era necessário mais ouro (...) e recapturar os ex-escravos negros.

A narrativa “O Rei e os três espantos de Debret” é dividida em dois blocos: uma histórica, direta e rápida, introdutória, e a outra, as versões do narrador sobre os três espantos de Debret. O que os divide é a indagação sobre “que enredo é este?” e “quais são os três espantos?”. No enredo “Orfeu – O Negro do Carnaval”, fundindo o mito grego de Orpheu com a vida de um compositor chamado Orfeu, que ganhou o concurso de samba-enredo da escola de seu morro, cujo enredo é a “História do Carnaval Carioca”, Joãosinho Trinta narrará em duas perspectivas: em uma, o trágico amor entre o compositor e a cabrocha Eurídice durante os preparativos e o desfile de sua escola de samba no Carnaval, e, em outra, o desfile da escola de samba do morro que apresenta as fases históricas do Carnaval no mundo (passando por Grécia, Roma, Veneza, Portugal e Rio de Janeiro). Como se o autor nos dissesse que é pouco

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apenas transpor o mito para a realidade brasileira, que ele não busca a simplificação e sim a opulência, o derramamento de detalhes e perspectivas. Não basta relacionar o compositor brasileiro com o deus grego, é preciso encontrar pano de fundo dentro das formas estéticas de como o Carnaval foi vivenciado pelo mundo nestes milênios de história, para correlacionar cada passo das tragédias às perspectivas de um tempo de Carnaval. Sem perder a visão macro da narrativa, que “amarra” tudo com mão de mestre, a microscópica riqueza de detalhes presentes em cada “passo” dos dois desfiles já daria “pano para muitas mangas”. Os blocos de “Brasil, visões de Paraísos e infernos” sempre juntarão o lado bom e ruim de cada bloco apresentado. Sempre haverá um tormento ou descompasso, para chicotear o que começa bem. “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo” é um enredo em três blocos, servindo o primeiro e o último como arremates para a história central, que conta a transformação do homem em “ser especial, profético”. Na introdução, Joãosinho Trinta posiciona o leitor no Terceiro Milênio e mostra as contradições desta contemporaneidade. Na conclusão, demonstra como a obra deste artista refletiu-se em diversas intervenções de personagens do Brasil artístico atual, inclusive o próprio Joãosinho Trinta. Igualmente, “Vamos vestir a camisinha, meu amor!” é uma narrativa que se dá em dois blocos distintos e separados, ao meio, pelas frases: “a história da camisinha é portanto muito antiga. Nos tempos atuais....”. Temos no começo da narrativa o bloco tempos antigos, onde o narrador apresenta breve estória dos relacionamentos sexuais humanos, suas implicações religiosas e suas lendas e mistérios numa volta ao mundo; e o segundo bloco, os tempos atuais e a tentativa do narrador de se engajar nas plataformas do Ministério da Saúde para o combate ao Vírus HIV.

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2.2.2. Narrativas em espiral A espiral de aspectos de um assunto é um dos recursos narrativos muito utilizados por Joãosinho Trinta em seus enredos. Os aspectos do Rio de Janeiro listados na Lapa de Adão e Eva: o Rio como paraíso bíblico, a Lapa como o lugar do pecado, a Praça Tiradentes como local de orgias e prazeres, e por fim a constatação de que o Rio é a Torre de Babel, bem demonstram o gosto do narrador por listas que se entrelaçam, dando um sentido final ao enunciado. Em “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia!”, temos a lista de “lixos dos luxos” que vão convidando ao baile de máscaras os diversos grupos relacionados à injustiça do luxo enumerado. Os “lixos dos luxos” entram em cena enumerados em nove “lixos”, encenados por suas vítimas consideradas pela sociedade como “lixos humanos”, e duas exaltações de epílogo, a saber: lixo do luxo das cortes; lixo das igrejas; lixo da loucura dos dirigentes; lixo do sexo e da boemia; lixo da comunicação; lixo da política brasileira; lixo da infância abandonada; e lixo da alimentação. O epílogo reverencia as energias das “entidades” espirituais da rua e a água purificadora do Terceiro Milênio justo, que jorrará em chafarizes de praças públicas espalhadas pela cidade. Em “Há um ponto de luz na imensidão”, temos a listagem dos aspectos da televisão brasileira. Listando dez focos do “faiscante” mundo da televisão (novelas, noticiário, humor, show, programação infantil, esportes, artes, ciências, culturas e a televisão no Carnaval), a narrativa enfoca o universo que a televisão traz para dentro da casa das pessoas. Em “Anita Garibaldi, a Heroína das Sete Magias” temos a listagem de magias que vão determinar aspectos da personalidade da protagonista. E esta é a hipótese de Joãosinho Trinta: a alma de Anita, Ser de Prata, mágica como a de todo grande ser humano, é formada por diversas influências, estilhaçadas em sete círculos, mais ou menos organizados, não dispostos

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historicamente, que em processo tortuoso, organizar-se-ão e estruturarão a possível harmonia do espírito de uma mulher especial. Nesta ilha fantasiosa, que ao longo dos séculos recebeu os mais diferentes visitantes, tudo pode acontecer, encontros e conflitos das mais diferentes etnias misturando crenças e costumes, como tudo pode acontecer na formação do sistema de validade de um homem, também cercado por oceanos revoltos que trazem e levam informações. Em “Os Papagaios Amarelos nas Terras encantadas do Maranhão”, os aspectos se sucedem sempre entre a história com H e a estória com E, passeando pelas diversas facetas encantadoras do Maranhão. Cultura, lendas e mistérios, História da Colonização, atrativos como festas e folguedos. Em “O nosso Brasil que Vale”, Joãosinho Trinta narra aspectos relacionados com a mineração brasileira, desde sua história até a atualidade, quando qualquer menção sobre mineração passará pela empresa Vale do Rio Doce.

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3. DA OPULÊNCIA E OTIMISMO DO PARAÍSO AO DECLÍNIO E PESSIMISMO DO INFERNO

3.1. Opulência e luxo no Carnaval Foi em um momento delicado da história do País, durante o regime militar, que a estrela de Joãosinho Trinta começou a despontar na constelação do samba como o grande diretor da “ópera popular” do Carnaval. Estamos falando de um artista cujo discurso impactante das suas narrativas teve reflexos irreversíveis para o espetáculo.

“Talvez em resposta compensatória à realidade que se vem instalando no país, o Brasil do samba-enredo se transforma em terra-sem-mal, lugar de todas as lendas, onde, nos esplêndidos cenários que Joãosinho Trinta está começando a armar, convivem deuses e reis de longínquos impérios”.12

As duas primeiras narrativas escritas de Joãosinho Trinta apontam para uma questão única e que estaria no centro das atenções 25 anos depois: a cobiça internacional sobre as riquezas naturais e culturais do Brasil. Nosso país é sempre descrito como um paraíso tropical, abundante de tesouros tanto materiais quanto de patrimônios imateriais. Estes estão sempre relacionados com o primeiro habitante da terra, o índio. A França voltada para as terras do Maranhão e a corte do Rei Salomão tentando descobrir onde eram as “terras de Ofir” (que ficavam na terra das Amazonas brasileiras). São dois reis que edificaram glórias explorando nossos territórios. O narrador vai, em seus enredos de estréia na Acadêmicos do Salgueiro, celebrar, de forma fantasiosa, o foco de atenção mundial sobre o Brasil. Vale a pena notar que nesta valorização de brasilidade, serão os índios, tanto maranhenses quanto amazonenses, que

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AUGRAS, 1998, p. 23


fundamentalmente a representarão e seduzirão os não autóctones. A ponto de, no “Rei de França na Ilha da Assombração”, a corte francesa, na imaginação do rei menino, virar uma “gente emplumada”, já que suas jóias francesas se transformam em “bela arte plumária”. A ponto de sugerir, em “O Segredo das Minas do Rei Salomão”, que quem detiver as riquezas da Amazônia, que fizeram de Salomão o maior rei de todos os tempos, deterá o poder de edificar igualmente o maior de todos os reinos, pois o verde amazonas é o “grande presente” para o futuro, desde que haja o “espírito de sabedoria” do qual Salomão foi paradigma. “O Segredo das Minas do Rei Salomão” é uma narrativa que chama a atenção para a exploração das riquezas da Amazônia cobiçadas por povos estrangeiros. Estes não só se extasiam com tanta fartura, mas aqui vêm para buscar riquezas. Uma discussão atual, já que a “internacionalização” da Amazônia está na pauta do dia, mais de trinta anos depois: biopirataria, extrativismo ilegal de madeiras raras e ameaçadas de extinção, contrabando. E, ironicamente, o fato do Japão querer patentear o nome “cupuaçu” parece atualizar a questão histórica de que, mesmo sendo das Amazonas, as minas famosas entraram para a posteridade como sendo do estrangeiro Rei Salomão. Ainda que de forma fantasiosa, esta narrativa vai antecipar a Amazônia como alvo dos olhares internacionais. Os dois primeiros enredos de Joãosinho Trinta, em carreira solo, - “Rei de França na Ilha da Assombração” e “O Segredo das Minas do Rei Salomão” - estão contagiados pelo ufanismo verde-amarelo, que considera o Brasil o paraíso cobiçado por potências estrangeiras, que estaria diretamente ligado a elas, na construção de seus apogeus. Em “Rei de França na Ilha da Assombração”, somos um paraíso rodeado por matas exuberantes com belos vegetais e lindos animais. Uma terra repleta de tradições culturais e cobiçada pelos outros povos. Os invasores franceses se deixam seduzir pelo Maranhão, e, através do sonho do rei menino, a corte francesa transforma-se em corte indígena, na Ilha de São Luís. Jóias transformam-se em cocares, palmeiras em candelabros de cristal. Como se o

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narrador quisesse nos dizer: “Escutem, é apenas uma questão de ponto de vista! Vamos nos valorizar, nossa arte plumária é arte preciosa, nossa vegetação é espetáculo deslumbrante”. E sendo este terreno a “terra dos poetas”, o Maranhão, poetas conhecidos, sonhadores que são, e tendo o narrador nascido lá, portanto ele próprio poeta, abordará de maneira lírica o enredo, por entre palmeiras e cantos de sabiá. Estamos todos sendo levados, por este contexto, para as praias maranhenses. Sentimos a leve brisa que sopra e olhamos, com o narrador e seus personagens, reais ou não, o horizonte para além das ondas, e conseguimos imaginar como o rei de França imaginou, como se sentiu ao olhar o mar e pensar sobre as distantes terras para onde iam seus súditos. É possível nos colocarmos no lugar dele. Nesta ambientação que evoca o litoral, surgem pretas velhas que contam estórias de antigamente, que vão dar o tom de ancestralidade brasileira à narrativa, já impregnada de outras ancestralidades. Entretanto, as pretas velhas revestirão de crendice popular a narrativa que é crença pessoal e construção do narrador: dentro da narrativa de Joãosinho sobre o “Rei de França na Ilha da Assombração” se justaporão as estórias das rezadeiras sobre o Maranhão. Selvagens habitantes da terra do ouro e da prata – nós, habitantes de um paraíso cheio de tesouros cobiçados, repleto de matas virgens, flores, frutos, animais e pássaros deslumbrantes –, cor e luz ao lado do brilho dos metais, numa terra coloridíssima como só os paraísos podem ser. Há, como podemos perceber, uma atmosfera inebriante de opulência, beleza, superlotação de informações: muitas lendas, muita exuberância natural, e muitos visitantes que irão levar tais relatos para o outro lado do mundo e informar aos soberanos. Em “O Segredo das Minas do Rei Salomão” o Brasil é um paraíso de tesouros escondidos, de grande profundidade cultural, com habitantes valorosos e natureza riquíssima. São os hebreus da Corte do Rei Salomão, e todos os reinos do antigo testamento que buscam

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desvendar o segredo que só os fenícios sabiam: as “Terras de Ofir”, riquíssimas, se localizavam na Floresta das Amazonas, na Amazônia brasileira. O título alerta que pretende desvendar um segredo, mais importante que as próprias minas e o próprio Rei Salomão. Descobriremos logo no início que ele não possui as minas nem detém o segredo de sua localização. Tal guardador do segredo e possuidor do caminho para as minas é o invejado Rei Hiran, da Fenícia, que utiliza tal informação preciosa para trocar por terras, as riquezas daí advindas, com o Rei Salomão. O enredo tratará deste segredo bem guardado durante mais de mil anos, pois as minas pertencem à tribo das Amazonas, as bravas índias brasileiras. Neste ponto, Joãosinho Trinta unirá duas das maiores lendas da crendice mundial: uma que trata das minas do Rei Salomão e outra que conta, em várias culturas, as aventuras de uma tribo composta só por mulheres. O Rei Salomão era um rei completo, nos conta o narrador, pois possuía qualidades pessoais, íntimas, psicológicas, e qualidades de liderança, de administração, além de ser grande negociador, sempre em nome da justiça. O templo e o palácio construídos por Salomão eram de material raro, vindo de regiões desconhecidas: ouro puro e pedras preciosas (relacionados às minas) e madeiras exóticas (relacionadas às florestas). Ao invocar o rei da Fenícia, Joãosinho Trinta parte da hipótese (muito contestada) de alguns historiadores que afirmam que os fenícios estiveram na América do Sul antes de Cristo. Símbolos e códigos pintados na pedra de alguns sítios arqueológicos brasileiros seriam testemunhas de que os fenícios aqui estiveram. A Amazônia seria a “terra de Ofir”. Belas princesas eram usadas por reis para tentar descobrir tal segredo, pois ao tornarem-se esposas de Salomão, elas poderiam ouvir declarações do rei. Portanto, os outros reis supunham que Salomão sabia da localização das terras de Ofir, o que o enredo já esclarece não ser verdadeiro. Com tantas mulheres dadas de

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presente, o rei somava 700 esposas, cheias de encantos e sortilégios, igualmente um tesouro por ele bem guardado. Um tesouro há um passo da traição. A grande e inigualável Rainha de Sabá também visita o rei, buscando desvendar o segredo. Tal cortejo em visita introduz no enredo uma imagem de extremo poder visual, altamente carnavalizada, exuberante em dourados e riquezas, incensos, jarras de ouro, e dez mil negrinhos. Nada disso “amolece” o coração de Salomão. O segredo foi guardado desde então, e agora, mais de um milênio e meio depois, será revelado. Entre cantos e danças de Carnaval, durante o desfile da escola de samba, será revelado de onde vinham tantas riquezas. Revelação esta que, apesar de fantasiosa, fantástica, buscará embasamento concreto nas já citadas pinturas rupestres brasileiras e nas teses de estudiosos e pesquisadores. Se a magia do Carnaval é portadora da boa nova, ela, em sua estética, é ponte entre a opulência oriental da primeira parte e a opulência carnavalesca da segunda. Dois mundos, dois reinos parecidos: a corte do Rei Salomão e a do Carnaval. Tábuas da lei lá, incontestáveis, pedras pintadas aqui, idem. E o que isto prova? Que era na terra das Amazonas, América do Sul, Brasil, que se localizavam as terras visitadas pelos fenícios: flores, pássaros, minérios soberbos são listados para descrever a riqueza do paraíso e estabelecer a localização das “terras de Ofir”. O ciclo de procriação é festejado pelas amazonas de forma muito especial: elas se enfeitam com flores e pedras preciosas para receber os “enviados”, que traziam presentes para aquelas mulheres, além do sexo. Entre os presentes, a rara pedra verde do oriente, o jade, que era levada por elas até o lago Iaciuauará, que significa “o espelho da lua”. Neste lugar encantado, após invocarem a figura da deusa Iara, começava o ritual de consagração das pedras verdes que se transformam no talismã lendário amazônico, o Muiraquitã. Tudo isto, em noite de clarão de lua cheia. Portanto, na conhecida noite da magia, do encantamento, do

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misticismo, do sexo e do prazer, que irá provocar a transformação da gravidez e da maternidade na vida destas mulheres. Se elas já tinham alcançado seus êxtases durante as núpcias, os deles ainda estariam por vir, maior que o sexual, quando se deparavam com as minas de ouro e pedra preciosas das Amazonas. Um espetáculo delas, para eles. Os navegadores enchiam as embarcações com tais tesouros para levar ao rei, mas quando a sétima lua cheia novamente iluminasse a Amazônia brasileira, ou “terras de Ofir”, todo o esplendor das Minas do Rei Salomão faiscariam sob o testemunho das Amazonas e dos visitantes Fenícios, no ano seguinte. O enredo “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia” mostra um país em forma de coração, pronto para oferecer o que de melhor ele tem para seus habitantes, ainda que tal promessa não se concretize, este potencial está esperando sua correta utilização. “Todo Mundo Nasceu Nu” enumera as riquezas do país exaltadas de maneira ufanista, cujos planos são materiais e imateriais. Dentre os materiais, temos a citação de “roupa sobre corpo nu”, “petróleo sob crosta terrestre”, “água sobre o planeta”, “entranhas que sentem dentro de um corpo”, “camada de ozônio sobre a terra” e outras. Um país de santuários ecológicos, costumes, lendas, “a força e a poesia da natureza” é citado em “Há um Ponto de Luz na Imensidão”. O enredo reconhece que a televisão por ele almejada é a que o povo necessita, rumo ao “estágio da grande civilização e não só como potência econômica”: a televisão que possibilite o conhecimento das artes refinadas, que ao lado do poderio financeiro formam as “duas colunas” características das grandes nações. Na parte das telenovelas, a primeira a ser enfocada como programação, pois até então o ponto de luz era o que interessava, o enredo utiliza a “Escrava Isaura” para tratar de questões como a internacionalização de nossa TV, já que até na China esta novela fez sucesso. Para o enredo, assim como a televisão, os seres humanos são “relicários de luz”. A novela

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“Que Rei sou eu?”, considerada pelo enredo “uma crítica válida e atual sobre a situação social do Brasil”, dá margem para o tratamento do embate entre “povo na taberna” e elite corrupta no salão do trono, capaz de “safadezas” (neste caso, a TV como veículo de denúncia). Já “Pantanal” traz à tona a riqueza cultural e a beleza ecológica do santuário do centro-oeste, e a possibilidade de juntarmos Carnaval e seus enredos com projetos sociais para ajudar as crianças brasileiras. E o “Sheik de Agadir” é novela tomada como divulgadora da riqueza islâmica através de uma trama bem urdida e impecável em teor folhetinesco, exemplo de reunião das duas melhores qualidades da linguagem televisiva: diversão e educação. Há uma predestinação magnífica para o Brasil, em “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”: ser a grande civilização do planeta. Isto é exigido na narrativa, sem deixar outra possibilidade.

3.1.1. O carnaval maravilhoso O Carnaval carioca é apresentado como “festa da redenção, maior espetáculo da Terra em grandeza, criatividade e vibração” em “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”. O desfile da escola de samba é o grande baile, cujos convidados passarão por processo catártico. A festa como testemunha da grandeza de nosso povo e tradutora do “maravilhoso” aparece em “Há Um Ponto de Luz na Imensidão”. O enredo lista aspectos positivos da transmissão televisiva: internacionalização de nossa cultura, veículo de denúncia e críticas ao caos social (ainda que humorada) e revelação ao brasileiro das belezas e riquezas do Brasil. A finalidade é criticar a pobreza cultural, a mediocridade e o excesso de violência, apontados como resultados negativos. Ao lado do resultado positivo, o avanço tecnológico que possibilitou o desenvolvimento da TV, temos o mau uso dela e a tentativa do enredo de fazer despertar nos dirigentes da televisão a atenção para possíveis resultados positivos: o momento em que o 46


homem não só assistiria, como também “participaria” de uma programação que o fizesse pensar, conversar, ler. As artes na televisão serão reunidas no momento seguinte de listagem dos aspectos televisivos e isto engloba música, teatro, pintura, literatura, cinema, dança e artes populares (aliás, o que une a linguagem da televisão à linguagem da escola-de-samba, em que uma transmite o que a outra reúne ao vivo, em desfile). O aspecto “Artes na Televisão” possibilita que a ópera de rua cite a ópera clássica, quando o enredo trata de “O Guarani” na televisão e traz ao desfile cenários e personagens de Carlos Gomes. A ópera de rua narra a ópera clássica, quando um libreto cita o outro. “Tereza de Benguela - Uma Rainha Negra no Pantanal” posiciona o desfile de escola de samba numa esfera mágica, num estágio maior de visão da realidade brasileira. Já estaremos no plano da “Luz de Tereza”, e o narrador será Joãosinho Trinta, em análises, proposições de semelhanças e diferenças, aspectos da história que possam servir ao Brasil de hoje, pois como ele mesmo escreve, “é minha participação no ofício que escolhi”. E João pede que a grandeza da alma de Tereza encarne no corpo de uma mulher brasileira da atualidade, “pois mesmo na brincadeira do Carnaval é preciso fazer alguma coisa para dissipar o caos do Brasil atual”. O abandono do detalhe, pela supremacia do interesse da visão global, o todo justificando falhas das partes, é um gesto característico da linguagem carnavalizada, buscada incessantemente pelo desfile de “Orfeu - O Negro do Carnaval”. O talento das alas de compositores das escolas de samba cariocas só encontra paralelo possível com a trajetória do próprio deus da música. Nossos compositores são herdeiros diretos do poder maior de um deus: fazer a multidão gritar “é campeã!” no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Um momento repleto

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de significação e grandeza míticas, os segundos que valem a eternidade, nesga de tempo que encerra em si o mistério do planeta. Cacique de Ramos e Apollo, Bafo da Onça e Prosérpina. Nada demais, tudo muito natural e possível numa festa (o Carnaval) que, em sua própria perspectiva histórica, de 2000 anos antes de Cristo até hoje, junta realidades diferentes, liga espaços distintos e estabelece a comunicação entre personagens inimagináveis. Uma celebração, em que já se louvou a colheita e o Deus Baco nas planícies Helênicas, encontrou nesta gente morena ao sul do Equador sua mais perfeita tradução e “no ambiente da cidade do Rio de Janeiro, nos dias atuais” sua transposição perfeita. Além disso, Joãosinho Trinta nos recorda que as ligações do Carnaval carioca com temas mitológicos internacionais sempre foram celebradas e nos serviram de fontes inspiradoras “até que o estatuto da Riotur, com diretrizes do Estado Novo, obrigou todos os temas do Carnaval a serem de cunho nacionalista”. Sobre este dado, Joãosinho Trinta se refere como “a visão carnavalesca e carioca: a linguagem de um desfile de escola de samba diferencia-se da linguagem do teatro e do cinema”. Ele afirma ainda que, “no desfile da avenida desaparecem os detalhes enquanto no teatro e no cinema os detalhes podem ser realçados. Por isso o seguinte roteiro (...)”. Uma “alegoria de enaltecimento” é o que “Anita Garibaldi - A Heroína das Sete Magias” propõe para o Carnaval maravilhoso. Joãosinho Trinta declara que não se baseia nos fatos históricos, dramáticos da vida da heroína. Não interessa a Joãosinho Trinta tratar do que os livros didáticos de história já trataram. Interessa a ele, como narrador, propor um novo olhar, mágico, misterioso, rebuscado, ornamental, para a vida realmente atribulada de uma brasileira do século XIX: este é seu ângulo de visão, seu “pulo do gato”, seu recorte, seu viés de artista inquieto. O dado histórico do encontro do amor já é utilizado pelo narrador, para sinalizar que a paixão desperta e alimenta ideais revolucionários, que a heroína já o trazia em

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si, de suas terras. Um amor intranqüilo, um amor de contos-de-fada, um amor tumultuado, um amor perfeito para abrir círculos mágicos.

3.1.2. O bom brasileiro Nossos índios vivendo felizes, sem problemas, nas matas do Maranhão. Um modelo de felicidade e realização, presente no enredo “Rei de França na Ilha da Assombração”. São pretas velhas nos contando sobre o descobrimento do Brasil, pelo homem branco europeu: o que ele descobriu é que existíamos, nós, belos e emplumados, nós, índios brasileiros. Em “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”, nossa população de rua é apresentada como de alma pura, os mendigos sendo comparados aos budas da compaixão: uma clara idealização do nosso homem simples, pobre, abandonado. “Há um Ponto de Luz na Imensidão” enfoca novamente a população que perambula pelas ruas de nosso país, sendo apresentada como pessoas capazes da vibração mais pura e autêntica do povo - um povo sofrido, mas que mantém forças internas para brincar o Carnaval. Na parte de humor e show, o enredo “Há um Ponto de Luz na Imensidão” juntará três ícones do humorismo televisivo (de canais diversos e concorrentes): o mais antigo, “A Praça é Nossa”, “Os Trapalhões” e a “Escolinha do Professor Raimundo”. E quando fala das descobertas mostradas pela televisão, o enredo ressalta que o respeito ao ser humano “homem e mulher na pureza de corpos, feitos à imagem e semelhança de Deus” - é a maior de todas as descobertas. É observado também o espetacular alcance da televisão, em todos os cantos do planeta. Para encerrar o enredo, Joãosinho Trinta enfoca como a televisão vê o Carnaval garra e vibração criativa da alma popular brasileira -, homenageia Chacrinha e afirma: “televisão - é o teu futuro que me seduz”. 49


“Na mistura das raças, a rainha traçava o perfil do verdadeiro brasileiro”, escreveu Joãosinho, no enredo “Tereza de Benguela - Uma Rainha Negra no Pantanal”. A raça síntese do povo brasileiro seria através da miscigenação, a mesma proposta pelo Parlamento do Quilombo do Quariterê. “Este setor é encerrado com a alegoria ‘Das Raças’ e representa as etnias do branco, do índio e do negro. O grande sonho de Tereza foi a união das raças para criar, mais tarde, a raça síntese através da miscigenação”. Portanto, “Tereza de Benguela - Uma Rainha Negra no Pantanal” é, de todos os enredos, o mais claro na proposição de que o “verdadeiro brasileiro” é o miscigenado. “Anita Garibaldi - a Heroína das Sete Magias” também propõe a miscigenação de todas as raças, aqui aparecendo como “círculos de magia”, que circundam a heroína brasileira e que legam a ela qualidades e atitudes que a formam, resultado de um feixe de influências.

O italiano José Garibaldi despertou nela uma grande paixão e ao mesmo tempo alimentou os ideais revolucionários que trazia de suas terras. Participaram no Brasil de batalhas e também na fundação da “República Juliana”. Perseguidos pelas forças Imperialistas, partiram para a Itália e lá continuaram participando de movimentos revolucionários. Tornaram-se heróis nacionais ao conseguirem a unificação da Itália.13

O amor e a luta, antagônicos em algumas visões, na vida de Anita se harmonizaram de forma decisiva e determinaram seu destino, pois foi lutando, arma em punho, que ela desfrutou do amor de Giuseppe. Enfrentar as batalhas para viver um grande amor é o exemplo do círculo que não se fecha na vida da heroína e que se desdobrará em Sete Círculos de Magia, na narrativa de Joãosinho Trinta. Existem bons e maus brasileiros. Esta divisão classificatória, moral, fica clara em “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo” Aos “humildes” (bons), elogiosas palavras de conforto; aos “maus”, duras críticas.

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Trecho do histórico de “Anita Garibaldi – A Heroína das Sete Magias”, de Joãosinho Trinta (anexo 9)

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3.2. A descida ao inferno Um país desequilibrado, um país virado de cabeça para baixo, um país em forma de bunda, repleta de excrementos que precisam urgentemente de lavagem é o que nos revela “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”. Um gigante levando porrada constantemente, onde falta amor, honestidade e respeito à vida. Armamentos, politicagem, igrejas e muitos outros aspectos negativos.

3.2.1. A desgraça brasileira O narrador Joãosinho Trinta propõe que tomemos o Brasil como uma grande lata de lixo transbordante, cujos restos que superlotam o recipiente sejam denunciadores das injustiças cometidas pelas classes dominantes contra os excluídos. Para revirar tamanha quantidade de sujeira, ao lado dos dominados, teremos que disputar espaço com ratos e urubus, que vivem das sobras deste mesmo lixo. Nós, buscando compreender as mazelas do país através do enredo de Carnaval, cuja narrativa do autor nos guiará; e eles, os desvalidos, buscando se fantasiar com as sobras, para atender ao convite que o narrador lhes fez, para participar do grande baile de máscaras com o qual ele abrirá, pela primeira vez, o espaço do desfile, para os considerados feios, sujos e malvados. Lado a lado, leitor e marginalizados convidados do autor, se debaterão entre resquícios de uma realidade injusta, destruidora, “esmigalhante”, que os sujarão em máculas que deverão ser lavadas ao final, no chafariz da purificação das praças públicas. Também, lado a lado, serão enumeradas em lista as autoridades, o poder, a força de segmentos da vida brasileira que ajudam a estabelecer o “círculo do massacre” aos miseráveis. E, lado a lado, serão colocadas entidades cristãs, do candomblé, umbandistas e da macumba. Tudo para mostrar que os miseráveis são parte inclusa, próxima, cotidiana de nossa realidade.

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O título da narrativa é a frase gritada pelos excluídos, enquanto reviram as lixeiras, em busca de restos de materiais dos mais diversos setores humanos, para que possam vesti-los, atendendo ao convite do narrador, que os receberá em grande baile de máscaras na Marquês de Sapucaí. Na disputa com ratos e urubus pelas sobras, brigando por pedaços, eles ordenam que os animais larguem suas fantasias. Tais excluídos, tratados como o “povo de rua” (expressão muito presente no candomblé e no espiritismo), englobam toda sorte de indivíduo marginalizado: abandonados, escorraçados, esquecidos, mendigos, famintos, desocupados, loucos, pivetes, meretrizes, travestis,

desempregados,

desequilibrados,

espancados,

humilhados,

emporcalhados,

malandros, ludibriados, esquecidos, pedintes, esfomeados, bêbados. A exploração espiritual descortina o lixo de todas as doutrinas religiosas, cujos explorados pelas promessas de salvação de almas juntarão restos de vestimentas e apetrechos religiosos do lixo para encenar uma procissão de explorados. Loucos de sanatórios e miseráveis interpretarão a loucura dos dirigentes do mundo que produzem as guerras, através dos quatro cavaleiros do apocalipse: carestia, guerra, peste e justiçamento. Profetas entram em cena para citar frase bíblica. Prostitutas narram bacanais atemporais, das saunas romanas às bacantes e cortesãs, rua Alice e Lapa carioca.. A entidade espírita Zé Pilintra as ajuda a narrar o lixo das perversões sexuais e da exploração dos prazeres da carne. O lixo da comunicação de massa e da mídia fornece papéis de notícias que, depois de virarem lixo, são catados por apanhadores de papel que se fantasiam destas páginas para o baile. Decretos, leis , pacotes e falcatruas da política nacional são triturados por ratos que jogam os picadinhos sobre o Brasil dos excluídos que assiste ao “oba-oba” do planalto central brasileiro. Pivetes tomados como pequenos exus recolhem restos de brinquedos, violentos ou não, para participarem da festa, esfomeados que são, tributários do direito de alimentação.

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Sobras de comidas dos banquetes da classe dominante foram recolhidas pelos mendigos para uma comilança ao final do baile de máscaras. E estas sobras atraem literalmente, para o final da narrativa, a presença de ratos e urubus, que pousam sobre a Sapucaí atrás das sobras. “Todo Mundo Nasceu Nu” revela um Brasil incongruente, tentando desvencilhar-se de seus entraves (desonestidade e desrespeito humano). Além disso, a inflação , as falcatruas, a miséria, a violência, a prostituição. Esmagamento de cultura, tradições e identidades. Temos também a questão do tempo nos remetendo à noção do abandono, quando camadas de poeira cobrem o “parado”, o corpo sem movimento, o que é o contrário da idéia de Carnaval, cujo movimento frenético fará com que a poeira levante e possamos ver as coisas mais claramente.

3.2.2. Os desvalidos Os planos imateriais se desdobram em várias vertentes pessimistas. Na vertente social, Joãosinho Trinta fala “dos marginais e do poder oficial” (na camada do poder oficial ele critica os desmandos e as lideranças também lembrados na metáfora “grandes animais de pequenos cérebros”, enquanto que na camada dos marginais, ou “corretores zoológicos”, o autor se posiciona a favor das relações do jogo do bicho com as escolas de samba, que produzem “a única coisa que resta de imagem positiva deste país”). Na política, fala de “um povo que necessita de liderança” (e aí abrimos a questão do terapeuta como líder do processo de catarse rumo à resolução do problema, seu desvendamento de camada oculta). Egoísmo, desamor, corrupção, sem-vergonhices, negociatas, “politiqueiros que estão construindo a triste história deste país”. Este é o Brasil de “Alice no Brasil das Maravilhas”. A questão da infância brasileira abandonada encontra nesta narrativa o auge de sua exposição, revelando-se crucial preocupação para Joãosinho Trinta. Alice, a menina, está dormindo num imenso jardim com a forma do Brasil, e está tendo um sonho-pesadelo, entorpecida como a consciência do povo brasileiro (inerte, apática, 53


indecisa, desconcertada, ignorante de si mesma, agigantada, comprimida), em baixo de uma frondosa árvore cujas folhas são retratos de brasileiros que destruíram ou construíram estes 500 anos de Brasil. Desesperada com seu gigantismo, Alice passa pelo tortuoso e sofrido caminho da aprendizagem, da evolução e do reconhecimento de valores. Um lago é formado por sua enorme quantidade de lágrimas. E Alice encolhe novamente e quase se afoga com outros bichinhos esquisitos. Para secar suas roupas encharcadas, Alice propõe uma “corrida de comitês”, e quem faz comitês no Brasil atual são os politiqueiros, protagonistas que escrevem a longa e triste história do Brasil. O coelhinho apressado volta, fugindo da execução ordenada pela duquesa. Ele é o brasileiro médio, servente do poder, pobre coitado, assalariado mínimo e morador de favela. Confundindo Alice com outra servente do poder, ele ordena que ela apanhe novos leque e luva para substituir os que ele perdera. Ela então vai até o barraco e pega estes símbolos do poder da riqueza, quando então é mordida pela mosca azul da prepotência, responsável pela miséria dos morros e das baixadas, e volta a crescer provocando violência interminável. De frente para estes quilombos atuais, as favelas, ergue-se o opulento palácio da duquesa, onde, na cozinha, crianças-porquinhos são assadas com sal e pimenta. Do alto do telhado do barraco, o Gato Caçoador observa tudo com irônico sorriso. Ele é portador da mesma ironia de Joãosinho Trinta. O palácio é o luxo e o barraco, o lixo, contradições no pesadelo de Alice na “maravilha” ou no “inferno”. Reina no Brasil das Maravilhas uma falta de moralidade que será creditada aos omissos das elites que mandam no país e sofrem na própria carne os reveses deste descaso: violência, assalto, estupro e seqüestros. É quando Alice presencia o “Chá dos Omissos” (também praticado pela elite vitoriana), em que líderes brasileiros são loucos que tragam criancinhas como “frágeis biscoitos num chá”. Estes poderosos possuem relógios sem

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ponteiros: a hora não existe, o tempo voa para eles, numa comemoração interminável, que roda em volta da mesa. Tais relógios são usados como colheres nas xícaras de chá ou como lugar onde se passa a manteiga (seriam comestíveis?). O resultado deste chá dos omissos: 40 milhões de crianças abandonadas, prostituídas e viciadas em drogas. A calamidade nacional. No país-cassino, percebemos um jogo desigual e sórdido entre os “com relógios sem ponteiro”, o grupo do Rigor, e o grupo do Amor, cujos “relógios têm ponteiros que apontam para a chegada do ano 2000”. “Há um Ponto de Luz na Imensidão” aponta para a violência urbana, obrigando a população a um confinamento caseiro; a uma falta de realizações, pois “neste país tudo ainda está por ser feito”; corrupção, maldades e egoísmo da atualidade. “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal” aborda o abandono da cultura riquíssima, o desprezo pelas terras férteis, a falta de política agrícola, o êxodo rural em direção às grandes cidades, com famílias inteiras em bolsões urbanos de miséria, o submundo de violências, as crianças abandonadas, a imprensa sensacionalista, as forças poderosas das altas elites do país. Ele escreve: “fica difícil para minha consciência fazer o Carnaval, a maior festa do mundo, sabendo que tem gente morrendo de fome e crianças sendo mortas, no mesmo momento”. Aqui o narrador Joãosinho Trinta insere seus comentários de análise para “ligar” este parlamento ao Brasil atual: “o trabalho perfeito desta mulher serve para o Brasil atual. Ela é um exemplo de modernidade”. Surgem então suas considerações sobre as “Desgraças do Brasil”: “forças malignas” como o abandono da cultura, desprezo por terras fartas, falta de política agrícola, imprensa sensacionalista, progresso industrial caótico, desperdício de dinheiro público em aquisição de material obsoleto, crescimento da dívida externa causando sacrifício do povo, bolsões urbanos de miséria, altas elites envolvidas com tóxicos, crianças abandonadas, prostituídas e sacrificadas.

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A bala perdida, que mata Eurídice neste enredo, é tema recorrente na obra de Joãosinho Trinta. Por várias vezes ele alerta para este aspecto terrível da realidade carioca e brasileira. Um Brasil infernal é o que aparece em “Orfeu – O Negro do Carnaval”. Víboras lá, balas perdidas cá; abismo lá, morro cá; inveja lá e cá. Um mundo que avançou rumo ao Terceiro Milênio, e que apesar de todo o avanço tecnológico está envolto por pesada atmosfera de ruindade, é o que nos mostra “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”. A violência generalizada, tanto individual, buscando mais e mais dinheiro, como a do poder estabelecido, causando corrupção e guerra, aniquilam os povos.

3.3. Reunião delirante de paraísos e infernos Segundo Umberto Eco14, toda obra coloca em crise seu código, ao mesmo tempo em que a potencializa. Em sua conceituação do que classifica como mensagem estética, ele traz à tona a idéia de que o enredo dramático "deve fazer acontecer algo que nos surpreenda, algo que vá além das nossas expectativas e seja, portanto, pàra tèn dóxan (contrário à opinião comum)".

3.3.1. Negritude Após os anos de Fernando Pamplona e Marie Louise Nery, na década de 60, à frente da Acadêmicos do Salgueiro, as questões da negritude e da África passaram a aparecer com frequência nos enredos de escola de samba do Rio de Janeiro. Joãosinho Trinta foi aluno e depois assistente deste grupo acima mencionado e manteve em seus trabalhos solos a preocupação com a exaltação das qualidades da negritude em carnavais memoráveis que realizou.

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ECO, 1989, p. 42

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A negritude é vitoriosa nas pretas velhas rezadeiras de “Rei de França na Ilha da Assombração”, pois são as guardadoras dos segredos de antigamente e narradoras da história, portanto, prevalecendo seus místicos pontos de vista. É uma grande homenagem à transmissão da memória através da tradição oral, que, como lembrava o sábio africano Amadou Hampaté Bã: negritude em carnavais memoráveis que realizou. Entre os temas recorrentes em sua obra, como a questão do “inferno do caos social brasileiro” ou a constante menção de um “Terceiro Milênio de justiça”, podemos certamente destacar o elogio ao negro como tema central de vários de seus enredos, dos quais cito, de imediato, “A Criação do Mundo na Tradição Nagô”, “Sou Negro, Do Egito à Liberdade”, “A Grande Constelação das Estrelas Negras” e os dois aqui analisados “Tereza de Benguela Uma Rainha Negra no Pantanal” e “Orfeu, O Negro no Carnaval”.

(...) não se limita aos contos e às lendas, nem mesmo aos relatos míticos ou históricos" e os griots não são os únicos guardiões e transmissores qualificados da memória. A memória é transmitida pela vivência, englobando todos os aspectos da experiência humana (religião, conhecimento, ciência da natureza, iniciação de ofício, divertimento e recreação), na grande escola da vida”.15

“Há um Ponto de Luz na Imensidão” apresenta uma negritude dolorosa e serena, de forma simultânea, pois as baianas da narrativa simbolizam a sabedoria e o sofrimento dos pretos velhos. Exaltando a visão holística e intuitiva de “Tereza de Benguela - Uma Rainha Negra no Pantanal”, Joãosinho Trinta e seu alaúde narram a saga exemplar para o Brasil moderno, da líder negra no pantanal mato-grossense, tratando da negritude revoltada, agressiva, serena e vitoriosa, no mesmo enredo. Fazendo a ponte com a atualidade, a Vila-Bela de Santíssima Trindade e a Cuiabá de 1741 representam os desafios da luta, negra em particular, e humana no geral, pela liberdade. Joãosinho Trinta escreve: “Sobre todos os componentes da escola, nossos negros que formam a Comissão de Frente representam a cultura negra no pantanal”. 15

BÃ,1979, p. 79

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Durante a mudança da capital, de Vila Bela para a atual Cuiabá, Tereza lidera a revolta e a fuga contra os maus-tratos, os rigores da mineração; e, ao norte de Cuiabá, funda o famoso “Quilombo de Quariterê”, onde governa com a ajuda de um parlamento multirracial, representante de índios Kadiwes, Bororos e descendentes dos pré-colombianos Incas e Astecas, dos mestiços “Caburés”, e dos brancos revoltados. Somando sabedoria africana milenar com índios e brancos, o Quariterê alcança alegria plena com o desenvolvimento da agricultura e das artes, com corpos alimentados e almas idem. O alaúde volta a se posicionar como narrador e conta o desfecho da saga de Tereza de Benguela: a Coroa Portuguesa, necessitando de escravos e de mais ouro, em meio a construção de um palácio e de um grande baile de máscaras, ordena a invasão e destruição do quilombo. As armas dos brancos dizimam o quilombo, e entre a matança surge uma Tereza enlouquecida e horrorizada, que acaba assassinada. A saga da rainha negra Tereza de Benguela serve para que o autor João Trinta traga à tona um aspecto bem pouco celebrado dentre as virtudes da negritude: a liderança política. A bela imagem utilizada por João, de um parlamento multirracial, é surpreendente, pois toca em questão crucial dentro da celebração da negritude: a convivência das diferenças num mesmo mundo. Permitindo que sua bancada de conselheiros contivesse representante de todas as etnias, inclusive a dos brancos, exploradores, cruéis e colonizadores, a líder dá excelente exemplo para os líderes que a sucederiam, de que violência não deve, necessariamente, conduzir à violência, de que é possível governar levando em conta a opinião das minorias. Paz, harmonia, tolerância e respeito são qualidades realçadas na trajetória da líder do quilombo do Quariterê, trajetória esta que vai ser pontuada pelas quatro tipos de negritude citados por Thomas: ao revoltar-se e liderar a fuga dos escravos, da feitoria para o quilombo, Tereza está vivendo a negritude revoltada e agressiva, que será superada nos bons dias de

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felicidade do parlamento, típico da negritude serena, cuja atitude dialética e o desejo da cultura universal cabe como luva nesta categoria. A dor e a angústia sentidas por Joãosinho Trinta ao descrever o massacre do quilombo é de negritude dolorosa, quando ele sofre a paixão dos negros torturados pela história; e ao eleger a rainha como exemplo idealizado para a atualidade temos a postura da negritude vitoriosa que reivindica para a raça a supercompensação idealizante. Em “Orfeu – O Negro do Carnaval” o elogio à negritude dirige-se a dois pontos. Primeiro, o negro como herói, vitorioso, portador de todas as qualidades de um deus grego. Joãosinho Trinta está, portanto, fazendo a ponte entre o clássico helenismo e a modernidade brasileira. Coragem, perseverança, bravura, romantismo, paixão desenfreada, são atributos do Orfeu da favela carioca. Segundo, a exaltação da veia artística da negritude, o negro, possuidor de todos os talentos do deus da música, e a formação de uma linhagem especial da música popular brasileira, composta desde os primeiros sambistas até os atuais compositores de escola de samba, sempre sublinhando a questão do preconceito, da injustiça pelo não reconhecimento da genialidade destes artistas, que, apesar de iletrados, são capazes de produzir músicas que ficam para sempre no coração do brasileiro. O tom dominante de “Orfeu” é de negritude vitoriosa, inclusive estando nas mãos do herói o poder maior de fazer a multidão gritar: é campeã! Para sobreviver, a negritude de Orfeu reveste-se de qualidades hercúleas. Mas, a negritude dolorosa será citada através dos compositores negros de samba da música popular brasileira, injustiçados historicamente, que serão valorizados em todo o esplendor pelo enredo, e apontados como portadores de talento divinal. Mas a caminhada deste compositor popular é sofrida, tortuosa e similar ao desenrolar de um mito trágico, cuja vida, cheia de percalços, é igual à luta pela sobrevivência de um artista no adverso mundo da favela carioca.

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A negritude vitoriosa surge em esplendor num dos círculos de magia de “Anita Garibaldi - A Heroína das Sete Magias”: no da herança cultural negra, que é um elogio à raça vinda da África, em que uma das deusas-orixás, Yansã, é comparada à heroína Anita em clara exaltação aos cultos afros.

3.3.2. O desenvolvimento sustentável Uma das necessidades do mundo pós-moderno, a boa relação da humanidade com os recursos naturais é uma das promessas otimistas para a qual acena a poética de Joãosinho Trinta. Uma questão do paraíso que parece ser anunciada pelas relações entre a narrativa do carnavalesco e o patrocínio acenado pelas empresas responsáveis socialmente, que desejam usar a vitrine.

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4. AS MÁSCARAS DA NARRATIVA NO DESFILE DE ESCOLA DE SAMBA

"cedo ou tarde, o que foi ouvido e compreendido de modo ativo, encontrará um eco no discurso ou no comportamento subseqüente do ouvinte" (Bakhtin)

Uma das principais exigências de uma tese de doutoramento é que o estudo empreendido tenha como marca a originalidade, seja pela temática, seja pela abordagem. Sabedor deste requisito, procurei aproveitar a oportunidade para esmiuçar a narrativa escrita das escolas de samba, tendo como foco as agremiações do Rio de Janeiro, com o intuito de desvendar a especificidade de sua poética que conta uma estória, e a estrutura da qual lanço mão para realizar tão magistral tarefa. O discurso escrito do carnavalesco para cada agremiação anualmente, pólo magnético para onde convergem tanto o processo de confecção e montagem do desfile, quanto as sucessivas etapas do tema a ser abordado, deverá ser traduzido na forma de desfile. A interação é, antes, uma operação polifônica que retoma vozes anteriores da Escola de Samba, e antecipa vozes posteriores da cadeia de interações verbais e escritas. A perspectiva das tensões interarticulares da comunicação neste universo, a elaboração, entrelaçamento e análise dos discursos que constroem a grande narrativa final do desfile de uma agremiação, constitui-se em uma empreitada extremamente árdua, já que, durante um período aproximado de doze meses (às vezes um pouco menos), discursos complementares, dotados de magnitude e que se desdobram em muitos detalhes, apresentarão uma visão dialógica e polifônica desta linguagem. Mesmo os discursos aparentemente não-dialógicos, como Sinopse de Enredo (um “texto inaugural” publicado internamente pela Escola, no primeiro semestre de cada ano), constituir-se-ão como parte de uma cadeia, que responderão a discursos anteriores (sugestões


e interesses da Diretoria, proposta de patrocinadores, entre outras) e anteciparão discursos posteriores de variadas formas (a música que será escolhida como o Samba Enredo que a Escola cantará no Desfile Oficial, por exemplo). Como se pode observar a teia narrativa das escolas de samba, que redunda na forma final do desfile, é um caso exemplar de intersemiose que se realiza por meio da interação de diferentes discursos ou sistemas que se complementam. A narrativa escrita do carnavalesco, intitulada sinopse do enredo será complementada e ultrapassada na hora do desfile, porque o texto grafado, uma seqüência de parágrafos, irá se desdobrar em diversos apelos comunicacionais, isto é, no desfile vivo, na hora. Além deste discurso de narrativa visual-estética, proposta pelo carnavalesco em roupas e alegorias, existe a coreografia, a dança dos componentes, coreografados ou não (a linguagem corpórea), o discurso musical é mais uma narrativa que vem se acoplar a este enorme discurso, oferecendo um número ainda maior de possibilidades de leitura e análise. Então, uma narrativa inicial escrita no início do ano se transformará no discurso musical, em que a narrativa primeira se transformará numa narrativa segunda, de outro autor, de outro artista, e por fim, na junção das duas . Quais as adaptações que terão que ser feitas no texto, para a perfeita sincronia entre o que é descrito no texto da sinopse e as alegorias, os setores e as fantasias? Que mistérios carrega este texto que precisa se desdobrar numa infinitude de outras narrativas? Precisaria esse texto cobrir tudo o que vai passar, ou ele necessita apenas ser uma porta de entrada que introduza o leitor ao universo tematizado? O interessante do desfile, etapa final e conclusiva, a própria tradução do carnaval, vivo na avenida, é a possibilidade de se perceber que existem três discursos narrativos, anteriores ao último. São quatro discursos narrativos, na verdade. O desfile, como foi observado, é o último. É o quarto. É a narrativa viva, onde todos os outros se entrelaçam. A primeira narrativa, embrionária, como já observado, é a sinopse, que é a escritura do carnavalesco. A

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segunda narrativa é quando, este texto, vai se transformar em música, letra, harmonia, melodia. E, finalmente, há ainda um discurso narrativo pouquíssimo estudado. Desconheço qualquer trabalho que o tenha como foco de atenção. Trata-se da chamada ordem do desfile, organograma do desfile. Âmago e “néctar” do desfile. Há um mapa de seqüência, a ser analisado, que permite visualizar como cada escola, cada carnavalesco estrutura o desenvolvimento ou evolução, onde os setores serão destrinchados em títulos de ala, numeração e título de carro. Então, essa é a terceira e última narrativa que é a narrativa que será lida na concentração pela direção de harmonia, para a armação do desfile na concentração. A possibilidade de se estudar a terceira narrativa, a que é entregue aos diretores de harmonia na hora em que eles precisam armar a escola, configura-se em uma perspectiva de análise extraordinária. Uma narrativa que deve ser sintetizada em títulos e que tem exata 1 hora para se estruturar em vida, ganhar corpo. Trata-se da tensão do projeto, que tem que se corporificar. Não revelado no texto o segredo visual. Ele “canta a pedra”, da importância do tema. O júri sabe que vai vir algo sobre este tema, mas quando o discurso torna-se vivo, colorido em alegoria, vem então a chamada surpresa que o texto não pode revelar. Quanto desta tensão é exercitada pelos autores de texto? Creio que sua totalidade. O texto informa os temas a serem abordados, o recorte e o tom que se vai empreender: se épico, dramático ou lírico, se “enaltecedor”, se satírico, se crítico, se histórico, se é em seqüência, no entanto, a versão visual, que irá tomar na hora do desfile, não é revelada, não será revelada no texto. Então, há muita desta tensão, citada, na escritura do texto e na confecção do quarto discurso, que é a corporificação na avenida. O mais misterioso e mais sedutor é que, a presença de uma alegoria em um barracão não permite que se anteveja a seqüência do discurso vivo, que é o quarto discurso. Porque, quando a alegoria andar, com seus componentes vestindo suas roupas, cantando o samba, pulando e dançando; quando as

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luzes acenderem, ou não; se quebrar a barra de direção e o carro não entrar na avenida, ao contrário, se chover, se houver fogo, ou qualquer tipo de acidente, tudo se reconfigurará se o inesperado fizer uma surpresa. Isto é, o mistério deste quarto e último discurso narrativo é o insondável. O que acontecerá nesta hora do nascimento? Nesta uma hora e vinte minutos de exposição a vida é incontrolável, impossível de se prever a gama de variáveis. Se tudo der certo, aplausos, a glória. A diversidade de produções de discursos, na interação social do processo preparatório para o desfile de uma escola de samba, não constitui um todo caótico, porque cada esfera de utilização do discurso, de acordo com suas funções e condições específicas, elabora gêneros, ou seja, "tipos de enunciados relativamente estáveis" do ponto de vista temático, composicional e estilístico, que refletem o grupo social em que são gerados. Se decuparmos o desfile final de uma escola de samba em segmentos narrativos, quantos discursos somados teremos dentro da narrativa maior? Todos os elementos componentes de uma ópera erudita estão presentes na estrutura da escola de samba: começando pelo enredo que é o libreto, passando pela música, dança, canto, cenografia, figurinos, orquestra e interpretação. Na linguagem das escolas, estes elementos são chamados de enredo, samba enredo, samba no pé e evolução, harmonia, carros alegóricos, fantasia e bateria. Fairclough16 explica que o discurso tem uma considerável importância nessa reestruturação do capitalismo e em sua reorganização em nova escala, uma vez que a economia baseada em informação e conhecimento implica em uma economia baseada no discurso: o conhecimento é produzido, circula e é consumido em forma de discursos. Foucault17 destaca a face constitutiva do discurso. Concebe a linguagem como uma prática que constitui o social, os objetos e os sujeitos sociais. Portanto, analisar os diversos 16 17

FAIRCLOUGH, 2003, p. 188 FOUCAULT, 2003, p. 10

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discursos de uma escola de samba, corresponde a especificar sociológica e historicamente formações discursivas interdependentes, os sistemas de regras que possibilitam a ocorrência de certos enunciados em determinados tempos, lugares e instituições.

4.1. A narrativa escrita do carnavalesco como máscara anual para o desfile da escola de samba O texto carnavalesco configura-se como elemento aglutinador, espécie de “espinhadorsal” para todo o processo de confecção e montagem do desfile da escola de samba, e mais que isso, seqüência do conteúdo intelectual que o carnavalesco deverá abordar.

“O enredo é, de um ponto de vista teórico-conceitual, a proposição de realidade ficcional, descritiva ou até mesmo dissertativa que constitui o fio condutor de sentido de um desfile de escola de samba. É a concepção de base que estrutura toda a realização semiológica do espetáculo que corre por 80 minutos na Avenida” 18

Além do texto, o carnavalesco tentará coadunar, ao perfil de cada escola de samba onde está trabalhando, o assunto, ou tema, ou enredo, que abordará no desfile. É o que esclarece João Melo de Souza:

“Em uma escola de samba, o carnavalesco constitui-se numa espécie de mago que procura promover sua linha de trabalho, sem violentar as características construídas pela agremiação ao longo da sua trajetória no carnaval. Responsável pela concepção, execução e desenvolvimento do enredo - ponto de partida do carnaval - o artista precisa transitar entre os diversos setores da escola para fazer um levantamento das aspirações, qualidades e limitações dos componentes.”. 19

As etapas do processo carnavalesco, independente do enredo, são: um texto escrito preliminarmente, que inaugura o processo; este texto transforma-se em desenho de fantasia e depois traje confeccionado; vira projeto arquitetônico de alegoria e depois carros alegóricos; vira música através de samba enredo e, por fim, após a sucessão de ensaios, vira desfile 18 19

BÃ,1979, p. 3 SOUSA, 2000, p. 45

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operístico20, que pode virar gravação áudio-visual, certamente, se transformando numa última etapa, emocional; em lembranças de quem dele participou e também como registro histórico do carnaval carioca. Não esquecendo que é distribuída para o júri, para a imprensa especializada, e para parte da platéia, uma espécie de “libreto”, em que, além do texto do enredo, é apresentada toda a sucessão de grupos, alas, alegorias e setores, descritos para orientar a observação do desenvolvimento do desfile. A maioria das pessoas não tem consciência de que há uma narrativa escrita que deflagra todo o processo carnavalesco, que levará um ano para se transformar no desfile propriamente dito. Esta narrativa inspirará compositores, aderecistas, técnicos e tantas outras instâncias envolvidas no processo, que a utilizarão para erguer como discurso de escola de samba. O discurso inicial escrito pelo carnavalesco sofrerá inclusive mudanças, adendos ou subtrações, exigidas pelo processo, até que venha a ser publicado pela Liga das Escolas de Samba para análise dos jurados. São estes textos publicados em versão final que analiso. Pesa sobre esta narrativa escrita, denominada enredo, a função de, em poucas palavras, descortinar uma gigantesca estória que usará cinco mil figurinos e oito colossais cenários para seu pleno entendimento e consumação de sua originária vocação. Que originária vocação é esta? Ser um texto que nasce sob a égide da necessidade e possibilidade de ser transformado em imagem carnavalizada. Palavras que só encontrarão seu destino se escaparem da narrativa escrita e forem compreendidas em narrativa visual operística, que reunirá, além da palavra cantada no samba-enredo, inspirada no texto inicial, roupas fantasiosas, cenários, instrumentos musicais e movimentos coreográficos.

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Termo utilizado pelo próprio Joãosinho Trinta na introdução do enredo “Ratos e Urubus, Larguem a minha fantasia”, onde ele explica: “Por ser um espetáculo completo, o desfile pode ser nomeado como nossa verdadeira ÓPERA DE RUA. Todos os componentes de uma Ópera erudita estão presentes na estrutura da Escola de Samba. Começando pelo enredo que é o libreto, passando pela música, dança, canto, cenografia, figurinos, orquestra e interpretação. Na linguagem das Escolas, estes elementos são chamados de samba enredo, samba no pé e evolução, harmonia, carros alegóricos, fantasia e bateria”.

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Uma narrativa, escrita para fazer as descrições se transformarem em ação, é reveladora por si só, ou necessariamente temos que esperar a montagem para que ela se justifique? Se considerados como obras fechadas (acabadas), o que estes textos revelarão? Minha hipótese é que revelam o universo que circunda o artista, seus “encantamentos”. Mais uma das apropriações antropofágicas das escolas de samba. O enredo que seria uma apropriação advinda dos ranchos a partir de uma proposta de Coelho Neto, já estava presente, por sua vez, desde o século XVI, nas entradas ou triunfos reais. Os livretos – distribuídos entre a multidão presente ou divulgados posteriormente – serviam, como se faz hoje em dia nos desfiles das escolas de samba, para que os participantes tivessem a oportunidade de compreender melhor o que se passava diante de seus olhos.21 Se tomarmos os griots22 como referência de comparação com o carnavalesco contemporâneo, podemos observar que há traços comuns: a narrativa deste será cantada na avenida repetidas vezes, sendo, portanto, significativa a transmissão oral, tal qual acontece na tradição africana. Qual é o conteúdo das narrativas do carnavalesco-contador de estórias para entreter, distrair, encantar, ao longo de sua carreira? Elas vão mudando com o tempo? Estas são as questões que procuramos desvelar na presente pesquisa. Minha sugestão é, portanto, que nos debrucemos sobre as narrativas escritas pelos diferentes carnavalescos para encontrar temas recorrentes, as principais preocupações, a existência ou não de um caráter literário, uma vez que, mapeando-se os perfis de autores de carnaval, por meio desses textos que aqui estamos denominando de “Cartas Ofertas”, entregues ao júri para atribuir a nota de enredo, estaremos dando um passo a mais para a respeitabilidade desta fundamental exibição de grandeza do Brasil que é o desfile do Carnaval. É preciso aprofundar o desfile, tocando nas intenções das narrativas primeiras. 21

DAHER, 2009 Segundo BÃ, Hampaté, “numa sociedade em que os conhecimentos eram tradicionalmente transmitidos pela palavra, de forma oral, o griot tinha uma posição de destaque, pois lhe cabia transmitir a tradição histórica: era o cronista, o genealogista, o arauto, aquele que dominava a palavra, sendo, por vezes, excelente poeta” (BÃ, 1982, capítulo 8) 22

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Nestes textos o desfile de Escola de Samba ultrapassa o efêmero, sua magnitude de diversão e celebração e alcança o patamar de vitrine, onde o Brasil expõe as suas entranhas para si mesmo e para o mundo. Se tomarmos o desfile das escolas de samba como um discurso narrativo, já que podemos considerar a imagem como narrativa, quantas narrativas teremos dentro desta narrativa maior, se decuparmos o desfile em imagens e segmentos? Ora, se a semiologia nos permite ler a narrativa de uma roupa de destaque, individualmente, e se considerarmos que em uma escola, são 5000 roupas a desfilar, algumas agrupadas em alas (portanto, várias roupas juntas, iguais, formando um só discurso narrativo), consideremos a opulência da narrativa da escola de samba. Além das fantasias, em si um universo riquíssimo, temos as imagens de alegorias, que poderão ser decupadas separadamente por seus componentes, em esculturas, pinturas, formas, volumes. Fora este discurso de narrativa estética, proposta pelo carnavalesco em roupas e alegorias, pode-se somar a dança dos passistas que estabelece um outro nível de discurso por meio da linguagem corpórea. Esta, por sua vez, também pode ser estudada e narrada. É possível ainda estabelecer-se um outro plano de diálogo ou comparação narrativa se confrontarmos este discurso ao musical. Isto é mais uma narrativa que vem se acoplar a todas já mencionadas. Pode-se observar, portanto que trata-se de um discurso interminável, que possibilita uma gama interminável de análises. A que mais me seduz , no momento, é a mais desapercebida dentro deste imenso universo de confluências discursivas: é a narrativa primeira, concebida doze meses antes do desfile que a viverá, que a concretizará. É a narrativa escrita pelo carnavalesco, intitulada Sinopse do Enredo. Ela será ultrapassada na hora do desfile, porque o texto gramatical, uma seqüência de parágrafos, irá se desdobrar nesta infinitude de comunicados, que é o desfile vivo, na hora de sua realização. Meu foco de interesse é este embrião, onde o carnavalesco se confessa. Esta confissão é compreendida no

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sentido proposto por Paulo Barreto, o João do Rio, no preâmbulo aos seus livros, intitulado “Carta Oferta”. Nesta “Carta Oferta” de duas ou três páginas precedentes aos livros, João do Rio expõe suas intenções do que virá exposto, faz uma espécie de confissão preliminar de todos os mistérios que oferece em sua ficção. Se tomarmos a sinopse do enredo, como uma “Carta Oferta” do carnavalesco para o júri, para a imprensa e para o grande público, que a maioria esmagadora não lerá ou não terá acesso a este confessionário, quais mistérios a escritura primeira do enredo poderá revelar? Quantas mudanças ocorrerão nos doze meses antecedentes para adaptar esta narrativa escrita primeira para que ela se transforme em desfile vivo na avenida, onde “alhos terão a ver com bugalhos”. Então, uma narrativa confessional inicial escrita em março, abril, maio, que se transformará no discurso musical, em que a narrativa primeira se transformará numa narrativa segunda, como já foi dito anteriormente, e por fim, na junção dessas duas. Que adaptações terão que ser feitas no texto, para que, por volta de dezembro, janeiro esteja em condições para ser entregue ao júri que contemplará os concorrentes com notas que variam de 7 a 10? Essa narrativa, precisa encontrar eco total na infinidade de discursos visuais que vão passar pela frente deste júri , que fica tentando encontrar associações entre os parágrafos e as alegorias, os setores e as fantasias. Vale novamente a pergunta feita anteriormente: que mistérios carrega este texto que precisa se desdobrar numa infinitude de outras narrativas? Precisaria esse texto cobrir tudo o que vai passar, ou poderia ser apenas uma porta de entrada para introduzir o júri à grandeza do desfile? Teriam todos os jurados, do quesito enredo, uma visão próxima às intenções propostas pelo carnavalesco em seu texto? Se o texto de apresentação for em forma poética será julgado com os mesmos critérios que o texto apresentado em prosa? É preciso elogiar o trabalho dos departamentos culturais das escolas de samba, que guardam com carinho esses primeiros escritos, das formas mais inusitadas de como foram

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escritos. Alguns têm que ser recuperados e depurados através de pesquisa em notícias publicadas na imprensa, para se alcançar as intenções do carnavalesco. Mas essa é uma grande vertente do estudo do samba carioca, a escritura da sinopse das escolas de samba.

4.2. As máscaras de Exu Mensageiro no Seu João Narrador

“ATENÇÃO: Mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, esfomeados e povo de rua. Tirem dos Lixos os restos de Luxos! Façam suas fantasias! Venham participar de um GRANDE BAILE DE MÁSCARAS! A MARQUÊS DE SAPUCAÍ É VOSSA! Este convite ouriça todo o povo de rua. Restos de carnavais, de brilhos, cores e formas começam a ser procurados nas lixeiras. Todos querem se aprontar para a festa. Na procura desses materiais eles gritam: Ratos e Urubus, larguem minha fantasia! De repente, aquela massa disforme de tantos corpos e andranjos se transforma, na realidade de uma imaginação”. 23

Quando a Escola entra na Avenida, um Orixá se manifesta em nós, os carnavalescos, os responsáveis pelo desfile. Um Orixá que gosta de cantar e dançar, celebrando a vida e contando estórias. Um Joãosinho Trinta se manifesta em nós! Diante da multiplicidade de pontos de vista pelos quais se pode abordar uma narrativa24, retirando-se dos polifônicos núcleos temáticos e arrumando as questões presentes na poética do enredo escrito de Joãosinho Trinta, são as máscaras utilizadas pelo narrador as que mais chamam a atenção. Neste sistema de significação, organizado ao longo de três décadas, os níveis de descrição independentes de cada enredo escrito se integram ao grande conjunto num nível superior, em significação integrada: Joãosinho é EXÚ - o mensageiro aquele que faz a ligação entre o infinito e o finito, aquele que veio para confundir e não para explicar. Sem a dinâmica da alimentação, neste universo, não há manifestação de vida. Então, 23

Anexo 5 – Enredo “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia” BARTHES (2008, p. 20) enumera alguns pontos de vista: histórico, psicológico, sociológico, etnológico, estético etc.

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a primeira grande máscara é a da alimentação da imaginação, através das estórias e histórias. Contando, este Exu movimenta a gira e faz o mundo tremer. História e discurso se interpenetram, nas narrativas atravessadas de significação: função, ação e narração obedecem à lógica particularizada do contador de memórias e pensador da modernidade brasileira. Uma lógica explodida, descontinuada, usada de maneira interessada para que o todo faça sentido, sem que a somatória das partes indique qualquer caminho. Qual a eficácia das máscaras que Joãosinho Trinta lança mão como narrador? Joãosinho Trinta é um narrador despótico, que afirma: aqui começa, aqui termina, surge isto, surge aquilo, sem maiores explicações, e vai enlouquecendo o leitor, como se dissesse: “aguarde até o desfile, só na hora em que a narrativa estiver viva, na avenida, o mistério se desvendará”. Não sendo uma narrativa predestinada a viver escrita, o enredo só encontrará seu destino nirvânico visualmente, com canto e dança, e o narrador do texto escrito, resumidamente, encadeia frase e sugere, como em um rascunho, o visual a ser admirado mais adiante. É desta maneira que sua narrativa produz uma visão outra do mundo. Para o bem e para o mal, mazelas e grandezas são apresentadas, sempre com uma visão esperançosa de futuro. Este narrador, referência do carnaval brasileiro, define Linguagem Carnavalesca, (o que me parece ser a revelação de todo um conceito de obra reunida) da seguinte forma, no enredo “Os papagaios amarelos nas terras encantadas do Maranhão”25: “A linguagem carnavalesca é aquela que mescla perfeitamente as distintas história e estória”. A máscara da história e a máscara de estória, incluído aí o narrador de ambas. A partir desta definição, podemos pensar as considerações de Mariza Peirano sobre rituais e desfiles, quando a autora alerta:

25

Anexo 15 - Enredo “Os papagaios amarelos nas terras encantadas do maranhão”.

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“diferente do dia da pátria (que está ligado às Forças Armadas e às autoridades), diferente também da Semana Santa (e das festas religiosas vinculadas à Igreja Católica), o carnaval é uma festa popular, informal, que cria uma idéia de comunidade”. 26

Dentro desta idéia de comunidade nova, temporária, que se reconfigurará logo depois, quando a festa acabar, Peirano convoca Roberto da Matta para falar do esforço de transcendência, esforço de separação ou reforço de dois mundos. O binário da história e estória invocada por Joãosinho Trinta. A individualização violenta que desfaz o cotidiano em nova realidade, privada ou pública, ou entre os dois espaços. A mescla invocada pelo narrador Joãosinho Trinta é a característica primordial, própria desta festa, que ocorre em múltiplos planos e lança mão de diversos meios. Se o dia-adia valoriza a história, a narrativa carnavalesca abre a porta do onírico, do inventado, cujos elementos são ricos de significados e passíveis de investigação simbólica. São todos faces da mesma moeda, a vida social.

“Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com nossa terra, com nossa gente, com nosso Brasil”. 27

Sobre um fato vivido, documentado, a versão de um contador, recheada de fantasia e sonho, tudo isto para determinar o que define a sociedade brasileira, dentro de sua poética. O que estará por trás (ou à frente) da identidade brasileira? O que torna o brasil Brasil, dentro da perspectiva deste narrador? Quais são nossas máscaras e disfarces recorrentes? Quais são nossos heróis e anti-heróis, na perspectiva de Joãosinho Trinta? Acredito que ele, como narrador, assume os dois papéis, as duas máscaras, e sempre confrontando os dois opostos, tenta nos dizer que somos de tudo isto um pouco.

26 27

PEIRANO, 2003, p. 42. Anexo5 - Enredo “Ratos e Urubus, Larguem a minha fantasia”.

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Se Da Matta28 identifica a oposição entre exibição e modéstia; a mulher como virgem e prostituta; a hierarquia e a igualdade, podemos dizer a oposição que serve a quem está em cima ou em baixo, a quem está em casa ou na rua”, alargamos estas considerações e dizemos que identificamos a oposição entre estória e história. Ora, se é no carnaval que a sociedade pode ter uma visão diferente de si mesma, esta estória sobre a história revelará potencialidades, alternativas e utopias para esta sociedade. Walter Benjamin informa haver uma distância apropriada e um ângulo favorável para apreciarmos um grande narrador. É quando traços grandes e, ao mesmo tempo simples, sobressaem nesta apreciação sobre um bom contador de estórias29. Procurei esta distância olhando de longe o conjunto dos trinta enredos escritos de Joãosinho Trinta, de 1974 a 2004, selecionando quinze destas narrativas, salpicadas ao longo da produtiva carreira do reconhecido carnavalesco no carnaval do Rio de Janeiro. Sua capacidade de intercambiar experiências pessoais e sua visão de mundo muito peculiar nos permite desfrutar das qualidades do grande narrador. É interessante notar que as narrativas de Joãosinho Trinta vão criticar os mesmos aspectos que Walter Benjamin cita como destruidores da existência de grandes narradores: as transformações do mundo ético e a indiferença perante as experiências individuais. O narrador como alguém que vem de longe (o marinheiro viajante), ou alguém que conhece histórias e tradições de seu povo (o camponês sedentário) são dois aspectos da personalidade narrativa de João. Em certas narrativas, ele é o maranhense que veio para o Rio de Janeiro, e aqui conta estórias de sua terra natal, bem como ele, inserido na vida carioca, transforma-se num observador atento da vida que escolheu para viver, seu estado, seu país. Há ainda uma terceira vertente em sua persona narrativa, ausente nas qualidades do narrador, na

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Apud PEIRANO, 2003, p. 43. BENJAMIN, 1985, p.197

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observação de Benjamin: a capacidade de inventar casos, de arrancar do imaginário, do inconsciente, do terreno dos sonhos, a matéria prima para edificar narrações. Em Joãosinho Trinta vamos encontrar tanto o saber do migrante como o saber do passado, adquirido em observação atenta e pesquisa sobre a vida do passado. Como narrador, o senso prático é uma das características de Joãosinho Trinta, pois sua obra serve para valorizar o brasileiro e fazer nossos cidadãos pensarem no presente de nossa nação como resultado de nosso processo histórico de formação. É uma obra de dimensão utilitária. Ensinamento moral, normas de conduta, estão presentes na obra conselheira que Joãosinho produziu para o carnaval carioca. Por isso este é um sábio narrador: não tem receio de tomar um ponto de vista sobre a realidade, e defende bravamente a existência orgulhosa e pacífica. O lado épico da verdade não é evitado por Joãosinho Trinta, ao contrário, é perseguido por ele. Retirando de sua própria experiência as narrativas, promove no leitor-ouvinteassistente a incorporação de tais experiências. Não experiências plausíveis em sua totalidade, muitas vezes no terreno do miraculoso, riquíssimo em aspectos surpreendentes. Algumas, sem explicações verossímeis, são exemplos perfeitos do extraordinário em muitas obras, deixando algumas vezes ao receptor a tarefa de ampliar o que está na narrativa. A poética de Joãosinho Trinta busca incessantemente o eco. “O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da Experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta”30. Se este sussurro da folhagem é a rasura, o abismo, o fantasma, esta é a sombra que está sempre a espantar o tédio da narrativa de Joãosinho Trinta. Nela há espaços descontínuos, os ovos chocados abrem-se antes, ou depois, da hora, sempre sobrevivendo ao tempo desafiado. O narrador exige o dom de imaginar do receptor.

30

BENJAMIN, 1985, p.204

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Mergulhando suas estórias na própria vida, Joãosinho renasce através delas para não ser mais o que era. A cada narrativa, um novo narrador emerge. A “superposição de camadas finas e translúcidas, que representa a melhor imagem do processo pelo qual a narrativa perfeita vem à luz do dia, como coroamento das várias camadas constituídas pelas narrações sucessivas”31 é construída pela narrativa de “Todo Mundo nasceu nu”, um enredo que vai se construído em camadas arrumadas umas sobre as outras, como a crosta terrestre ao longo das eras. O narrador para festas e eventos culturais vai estreitar a relação literatura e folclore da qual nos fala Augusto Ponzio em seu livro A revolução Bakthiniana32. A psicologia étnica na narrativa polifônica de Joãosinho Trinta está disseminada ao longo de suas estruturas de enredo escrito, agrupadas, nos fornece veemente quadro sobre os males e benesses que afligem o Brasil do final do século XX. O narrador propõe o riso (canto, dança, celebração) sobre este quadro, pois o riso tem força vivificante; a capacidade, ele próprio, de provocar a vida. Se, na civilização agrícola, pretendia-se utilizar a força do riso para que influísse magicamente sobre o mundo vegetal33, Joãosinho Trinta pretende usar a força do riso da escola de samba para que ela influa sobre os destinos políticos, sociais e culturais do Brasil que lhe são contemporâneos. Neste sentido, encontramos em sua narrativa a mesma oposição proposta nas análises de Bakhtin que distingue a Igreja e o estado feudal como representantes da Ideologia Oficial, e a visão alternativa do mundo como a ideologia deliberadamente não oficial da cultura cômica medieval. Joãosinho constrói o segundo mundo de sua narrativa, edificado ao lado do oficial. Seria o Brasil o cortejo de dez mil negrinhos da Rainha de Sabá, aparição alegórica nas Minas do Rei Salomão?

31

Ibidem, p. 206 PONZIO, 2008, p. 169 33 Ibidem, p. 174 32

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Seria o Brasil composto pelos súditos civilizados e mascarados do Rei Menino francês, brancos transformados em índios brasileiros belos e emplumados, como em Rei de França na Ilha da Assombração? E se formos o grupo numeroso de albinos residentes nas areias das dunas da praia dos Lençóis, descendentes do Rei Dom Sebastião e chamados de “Filhos da Lua”, que são os únicos que presenciam a belíssima aparição que emerge do fundo do mar , o castelo de cristal que desaparece ao primeiro sinal da alvorada? O riso ritualístico, para Joãosinho Trinta, através do desfile de Escola de Samba, é a alegria do brasileiro que ele afirma, irá servir de exemplo e redimir a humanidade no começo do Terceiro Milênio. Esta esfera por onde o narrador passeia, quando emparelha morte e riso, falando do renascimento e do ressurgir da vida, dá a Joãosinho Trinta o mecanismo de comparar a vida real, os acontecimentos do Brasil e do mundo, com seus núcleos temáticos prediletos. A morte serve para que as máscaras de Joãosinho sejam sempre outras, velhas e novas, renascidas e renovadas. Esta multiplicidade de vozes que fala através das narrativas de João, e ainda as camadas de possibilidades de interpretação que o texto guarda, sempre expressam a ambivalência dos filhos do riso carnavalesco, que, segundo Bakhtin, são o avesso, a abdicação da ordem hierárquica, a mistura e a profanação. São máscaras do narrador, em dança sobre a face, servindo à festa e à crítica, ambas tão caras ao narrador e sua visão de mundo. Exu/João é a máscara do mundo do Avesso, da vida ao contrário, onde a morte não será mais senhora absoluta, sem retorno, como quando o personagem Orfeu desce ao mundo dos mortos e sai de lá vivo. Exu/João é a máscara da desierarquização, pregadora do livre contato familiar entre os homens. Sua poética para a negritude prefere proclamar o que ele denomina de ”liberdades maiores, liberdades verdadeiras” que engrandecem a humanidade: as das culturas negras. E

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exalta os pilares que fundamentam as tradições dessas culturas milenares e que se expressam na harmonia com a natureza. A roda da vida na roda da saia das poderosas mães pretas, as baianas de Escola de Samba. Pretas velhas, guardadoras do mistério da existência, contam estórias de antigamente, e se benzem, falando das assombrações que existem naqueles lugares. As mais lindas princesas, com seus encantos e sortilégios, dos reinos da Etiópia, Egito, Babilônia, Assíria, Pérsia, Índia e Sião. Joãosinho é categórico ao tratar como ideologia racista a ideologia que afirma que os negros são incapazes não só de terem criado, como de terem contribuído, para o desenvolvimento de civilizações passadas ou atuais. Com isso, continua o narrador, a humanidade do negro foi totalmente negada e, consequentemente, jogada na natureza, na sua animalidade. Um narrador que reafirma sempre sua crença na força do samba, segundo ele, o verdadeiro canto do povo. São raízes que estão no sangue. Prova de tudo isto é o desfile do maior espetáculo da Terra. Exu/João é a máscara da mistura de valores, pensamentos, fenômenos e relações como sagrado e profano, sublime e ínfimo, sábio e tolo. Entre cantos e danças de alegria, na avenida colorida, o narrador vai revelando suas máscaras, e as do Brasil. Narrativas apresentadas como momentos de grandes verdades, quando, na brincadeira do samba, “muitas coisas sérias podem ser explicitadas”. Uma poética preocupada com a sua contribuição para a construção da identidade do povo brasileiro. A máscara dos encantados de Joãosinho Trinta:

Em noite de lua cheia, na linda Praia dos Lençóis, de repente, as águas ficam agitadas e surge, na alva areia, um cortejo de assombrações. São estranhas criaturas vindas do mar que cobrem com um pálio de algas prateadas. Um touro negro coroado. Quando as águas se acalmam, aqueles estranhos seres viram gente de outros tempos. E o Touro Negro se transforma no belo Príncipe Dom Sebastião de Portugal, desaparecido, por artes mágicas, na famosa batalha de Alcacequibir. Quem acalma as águas é a Princesa Ina – amante do príncipe e que mora num palácio submerso. A Assombração da Fidalga Nhã Jança surge, não se sabe de onde, uma enorme carruagem arrastando escravos, correntes e muita riqueza. Pelas coisas que fez em vida, sua alma foi obrigada a correr, todas as noites pelos lugares onde viveu,

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dentro daquela carruagem. Enquanto suas riquezas e jóias iam se transformando em azulejos e pingos d’água como as lágrimas, a carruagem se transforma numa Serpente Prateada. A Iara – A Rainha das Águas – enviava os navegadores fenícios. Que as Amazonas acreditavam que fossem Semideuses, para gerar suas filhas. O Muiraquitã – o amuleto de sorte das amazonas, seria uma figura de Jade , a pedra verde do oriente. De posse dele elas iam até o Lago Iaciuaruará – O Espelho da Lua. Lá invocavam sua Deusa e faziam o Ritual de Consagração das Pedras Verdes. Osíris Min, Toth, Hátor, Ápis e outros; Setkmt , Ísis, o símbolo oriental, egípcio e nagô da serpente mordendo a cauda, Oxalá, Oxossi e Anubis.

Através da linguagem carnavalesca, a narrativa sempre revela o desejo de contribuir para a realização de um Brasil maior, que acredita na força da arte e na sensibi1idade do povo, que alcança sempre muito mais do que se pode imaginar, segundo Joãosinho Trinta. O Carnaval como fantasia, quando podemos imaginar o que quisermos, colocando lugares nos lugares de outros lugares. E para dar a rasteira nos descrentes, a máscara da comprovação é usada pelo autor para justificar que algumas vezes esta fantasia repousa numa verdade científica, que é fantástica, e que tão poucas pessoas conhecem: a máscara dos sonhos impossíveis, o recurso da construção do país, moldado na sabedoria do Carnaval, quando um povo que realiza a maior festa do mundo terá capacidade também para erguer uma nação deslumbrante. Em sua poética para o tempo e a memória, o narrador afirma que passamos por um momento dificílimo: o equilíbrio do passado com o presente e o avanço do futuro. A superação e a transformação. Mas, é o nosso destino, pois existe em cada ser humano a sua memória filo-genética, ou seja, a memória de seu passado ou a memória da natureza. Um narrador que assume a existência da sua linguagem carnavalesca, em que há preferências para tratar de temas nos quais ele acredita. É assim que sua escola de samba se transforma em veículo de conhecimento, e é mensageira de verdades e belezas. Com ela, é possível contar a verdade científica e, ao mesmo tempo, abrir as portas da imaginação para a fantasia de que verdade e mentira são irmãs gaiatas, mascaradas e prontas para a festa. Exu/João é a máscara da profanação, cometedora de pequenos sacrilégios carnavalescos, obscenidades e sátiras carnavalescas. O Cristo Redentor é um dos mendigos na 78


narrativa “Ratos e urubus larguem a minha fantasia”; na Lapa, Adão e Eva comem a banana, fruto do pecado brasileiro, e a serpente é o quase travesti Madame Satã no enredo “A Lapa de Adão e Eva”. A relação realidade X narrativa de Joãosinho é, algumas vezes, mediada por elementos folclóricos que permeiam o seu texto, mas, algumas vezes, é o próprio narrador quem usará a máscara de fabuloso e engendrará um mundo outro, recheado de referências e objetivos próprios. A Ilha de São Luiz do Maranhão é resultado de fantasiosa descrição: os azulejos foram cobrindo as casas e os pingos d’água cercaram aqueles lugares que se transformaram numa ilha. As selvas brasileiras, nas margens do Rio das Amazonas, são terras cheias de riquezas, flores, pássaros e animais, sendo as lendárias Terras de Ofir, onde existiam as Minas do Rei Salomão. O Rio de Janeiro recebe um canto de louvor, reflexão e alegria, sendo considerado na narrativa de Joãosinho Trinta o Paraíso sobre a terra. O Egito revelado como um país negro, pois a história o embranqueceu. Furioso, o narrador proclama a libertação do Egito Negro, trazendo esta denúncia para a linguagem do carnaval. O Planeta terra dotado de corpo e mente, mente esta que é resultado da grande marcha das civilizações, em movimento que começou no oriente e veio para o ocidente, terminando sua trajetória na América do Sul. Também em Joãosinho Trinta podemos encontrar a associação das lutas de classes no estado Moderno como o determinante para o sério e o cômico. O sério estaria ligado às classes dominantes que visam exclusivamente o passado, pretendendo desta forma consagrar a ordem social estabelecida, com estabilidade, imutabilidade das leis que regulam o mundo, a hierarquia, a ordem. Na festa do riso há o sentido da transformação, da relatividade, da transformação, do provisório, da igualdade, da liberdade, do refratário, da história, com o triunfo da liberação provisória da verdade dominante, abolição da hierarquia, regra, tabu. Triunfo da temporalidade, do devir, das renovações. Subverter a ordem constituída, respeitando tudo o que se apresenta como definitivo, já realizado, eterno e absoluto. Daí, ser

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desprovido do elemento alienante, pois funde o ideal utópico com o real, ainda que provisoriamente, no presente, não ficando a cultuar somente o passado.

4.3. A máscara decadentista Os enredos de Joãosinho Trinta são, muitas vezes, as “fantasmagorias saturninas empreendedoras da pós-modernidade”, das quais nos fala Luís Edmundo Bouças Coutinho34, já que tais narrativas carnavalizadas e carnavalizantes, em muitos pontos, incorporam características que indicam tal postura:

(...) o inventário teórico-crítico acerca das modalidades de representações desencadeadas pela arte, diante do deslocamento das idéias que enredaram as últimas décadas dos séculos XIX e XX, acentuando propostas de leitura que divisam correspondências estéticas entre as matizes labirínticas do decadentismo (e as manifestações de hoje)

Vivendo os últimos anos do século XX, a narrativa de Joãosinho Trinta passeia pelo labirinto finissecular, cujos corredores apontam para a confusão, ora vertiginosos, ora melancólicos, ora irados, ora líricos, ora cansados, ora oníricos, ora individualistas, todos extremamente “ornamentais” e possuidores da riqueza necessária, características estas apontadas por Fúlvia Moretto.35 Neste “eu isolado”, que propõe narrativas com nuances “decadentistas”, os enredos de Joãosinho Trinta ultrapassam o real de forma metafísica, poética. Coragem do narrador que, neste caminho de intuição solitária, debate-se em perguntas que o atormentam, o angustiam e o sufocam, pois ele é a própria ilha, cercado por infinitos círculos de magia que vagam em sua consciente solidão. Através da escritura de seus enredos, ele vai operar a retomada da “prática

34 35

COUTINHO, 2004, p.10 MORETTO, 1989, p. 23

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finissecular, quando as artes entram em espiral estético, num labirinto decadentista, onde os artistas vivem o mascaramento”.36 Se há realmente uma “síndrome de fim-de-século” que tem se abatido sobre artistas e criadores em vários períodos históricos, é justo imaginar a síndrome do “fim-de-milênio” agravando ainda mais a vertigem dos narradores. A troca de numeração, de um para dois, no início do novo milênio inspira Joãosinho Trinta a debater-se no labirinto finissecular rumo à fantasia. A violência da realidade é citada, criticada, autoconsciente da frieza, e em seguida é abandonada para que se enfoque a possibilidade poética, o frescor libertário, divino e mágico do imaginário. Potencialidades líricas pessoais do carnavalesco, criador de um novo tipo de narrativa de enredo na história do Carnaval carioca, que chamo de “enredo imaginativo criador”. Uma nova forma de tratar a enunciação, lírica, poética, pessoal, não amarrada ao viés do real; como em “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia” quando as entidades de rua, de vermelho e preto, no final da narrativa, banham-se em chafarizes milagrosos pela cidade. Entre eles, as crianças anunciam proximidade do “branco chafariz do aquário” (clara alusão à era de aquárius), cujas águas azuis purificarão suas almas no “canto do Terceiro Milênio”, como a água dos garis que lavam a passarela do samba para esta narrativa passar. Em “Todo Mundo Nasceu Nu” há o alvorecer de novos tempos como portador de justiça e sabedoria. Dicotômica, a narrativa escrita de Joãosinho Trinta pinça realidade histórica, para misturá-la com aspectos poético-irracionais, reivindicando um novo tipo de enredo de carnaval. A decadência brasileira que Joãosinho Trinta narra neste enredo aponta claramente para a consciência de um mundo que se decompõe, e ainda que as elites vivam em artificial “belle époque”, o narrador alerta para o extinguir da paciência da população. O frio

36

Ibidem, p. 34

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vento da morte que soprou para o mundo dos dinossauros, ainda nesta narrativa, poderá soprar sobre o nosso mundo se não voltarmos para um mundo renovado, de algo diferente. Na resolução messiânica do fogo da justiça, ao final de “Todo Mundo Nasceu Nu”, (ou na encarnação mítica de Yansã em “Anita Garibaldi, a Heroína das Sete Magias”), há um idealismo que em suas proposições abstratas tenta alcançar o espírito dos leitores através da emoção, já que, no plano racional, ambas as proposições seriam discutíveis. A enunciação do eu-pessoal não se deixa eclipsar pelo “realismo”. O caráter “terapêutico” do enredo beira o messianismo salvacionista, que se circunscreve num plano (camada) metafísico, quando Joãosinho Trinta, na cartada decisiva e elucidadora do terapeuta, ordena que, “do contraste destas imagens fica a lição (...)”. Lição esta onde ele misturará a Bíblia, o espaço sideral e a pureza das crianças, tudo isto ardendo no fogo da justiça, por si só uma camada “energética”, onde vontades se realizam e a pureza (da nudez inicial do homem ou da alma dos infantes) triunfa. Dentre os planos imateriais apresentadas por Joãosinho Trinta, temos a psicobiológica, com “novas dimensões do milagre da vida” (o que está muito relacionado ao messianismo salvacionista proposto no final do enredo, pois estas novas dimensões podem ser tomadas como mensagens bíblicas). Joãosinho Trinta luta contra o tempo, em prol da perenidade de sua escritura carnavalesca, num ideário da arte pela arte, quando faz crer que “fantásticas transmutações” fazem parte da “vida real” do “extra texto”. “Alice no Brasil das Maravilhas” anuncia que chegará, com o ano 2000, o acordar de um sonho/pesadelo, onde a balança da justiça se manifestará para os bons. Ao despertar, todos nós, brasileiros, veremos o alvorecer de um novo tempo, quando os estados vibratórios transformar-se-ão e chegará a hora e a vez de nosso país. Livre das estruturas concretas de realidade e história, que engessam os enredos “acadêmicos”, o carnavalesco faz de sua obra um universo particularíssimo onde ele se move

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com destreza entre assuntos e símbolos que tanto lhe são caros, acabando por estabelecer temas recorrentes, que salpicam sua obra de originalidade. No plano onírico, Alice encontra um coelho apressado, atrasado, que representa o cidadão brasileiro pobre, que corre atrás do tempo, se seu relógio tiver ponteiros que indiquem a proximidade do Terceiro Milênio, o ano 2000, quando chegará a vez da “civilização brasileira”. Já que vale tudo nesta nação, Alice resolverá o impasse deste jogo, tomando duas posições: uma do lado do rigor e outra do lado do amor. Do lado do rigor, formado por rainha, elites, nobres, duquesa, que adoram jogar com o destino alheio, mas também são atingidos pela conseqüência do desequilíbrio social, Alice tomará a mesma atitude que a vingativa rainha – empunha a espada da justiça e ordena a decapitação de todos eles. Do lado do amor, Alice equilibra, com o coelho apressado, os dois lados da balança de todos os brasileiros. Acordando de seu pesadelo, investida pelo poder da justiça, ela e a balança revelam o ano 2000, a Era de Aquárius, o alvorecer do Terceiro Milênio. Uma estrutura narrativa onírica, que desvenda a teia de uma realidade em crise, onde são citados poderosos esquemas de corrupção, o trágico conflito entre cidadão e as forças do poder. São apenas miragens do espelho, que o poeta, Joãosinho Trinta, sonhou. Através de suas narrativas escritas, Joãosinho Trinta exercita a liberdade virtuosa individual do contador de estórias, onde o “eu” idealista propõe novas facetas para antigas questões. No citado “Alice no Brasil das Maravilhas”, números são símbolos de mensagens que, se decifradas, revelarão felicidade para o mundo. Há mistérios ainda por desvendar em antigas codificações numéricas. É preciso atentar para os números que eles guardam segredos. Três mulheres pedem que lhes seja contada uma estória sem pé nem cabeça. O contador diz que narrará uma versão brasileira da conflitante espelhação onde tudo tem muitos pés e muitas

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cabeças, entre “Alice no País das Maravilhas” e “No país dos espelhos”, de Lewis Carrol, e a História do Brasil - ambas apresentando muitos pontos em comum. Uma paródia. Alice cai num abismo e chega ao fundo do poço, dotado de imensos portais que dão para o caos ou o oblívio, que seriam o egoísmo, o desamor e a corrupção. Mas há uma pequena saída, antagônica às outras, que a leva a um jardim, que representa a consciência da preservação ecológica, uma das boas saídas para a humanidade contemporânea já que a pequenez da porta, em número, 0.30 centímetros, é, segundo a teoria pitagórica, indicativa do sagrado e do infinito. Tais simbologias seriam as atuais versões das decifrações dos enigmas antigos das esfinges, que já foram base de edificação de outras civilizações (agora é a vez do Brasil se calcar nestes números reveladores...). Seriam eles “Constantes Universais”, estudados por dotados matemáticos ingleses, como, por exemplo, evitar úlceras mastigando corretamente e o licor como bebida a ser consumida por todos. Será o tempo da vida-consciência, onde todos os nomes de Deus poderão conviver em paz, um estado vibratório da quintessência da organização atômica de Pitágoras, o número 137, a Lei, refletida, espelhada, rebatida. Temos aí as matemáticas decifrações, que indicam a presença da elaboração poética num tipo de produção que pretende ser exata, científica, naturalista, o que, segundo Luís Edmundo Bouças Coutinho37, vem “corroborar no debate sobre a ‘crise finissecular’ que postula caráter fictício e inexato para categorias tradicionais, implicadas com a exatidão”. Para estabelecer o título do enredo “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”, Joãosinho Trinta recorre à numerologia, mais uma vez demonstrando sua crença nas “ciências ocultas” dos números. A virada do milênio é a portadora de justiça para as crianças abandonadas nas ruas, que se transformariam em vitoriosos atletas, em “Há Um Ponto de Luz na Imensidão”.

37

COUTINHO, 2004, p.10

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Usando sua narrativa para libertar os leitores da realidade dura, Joãosinho Trinta propõe a liberdade através destes seus enredos de Carnaval, transpondo o pessimismo e solucionando este salto de forma estética, alcançando o prazer puro. A fatiga diante da realidade crua e nua e seu escape rumo a círculos mágicos e camadas de energia demonstram a tentativa de propor soluções para um Brasil e um mundo em crise, desestruturado, nos estertores do cansaço e do desânimo. Mas, é também verdade que há otimismo na esperançosa possibilidade de reerguimento creditado aos novos tempos, ao Terceiro Milênio, o que faz suas proposições derramarem-se pelo futuro. As narrativas de Joãosinho Trinta almejam um “amanhã” de justiça, às portas do século (e milênio) que começa. Algo está morrendo e ele testemunha o mal-estar de seus semelhantes, alerta para possibilidades e sugere soluções que invocam uma “consciência” humana e justa. Em “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal”, Joãosinho Trinta recusa a narrativa linear com suas obrigações realistas, plausíveis, cheias de convenções e obrigatoriedades. Ele agita seu universo mítico e dele retira magia, esplendor, revoluções “em forma de oração”, numa prece que invoca a força de Tereza para pairar sobre nós e “salvar o Brasil e fazer no ano 2000 nossas crianças receberem com alegria o alvorecer do Terceiro Milênio”. Este alvorecer, ligado à idéia de luz, sol dourado de Quimera, vai clarear a escola de samba que “brilhará em uma nova era”.

(...) corpos alimentados poderão alimentar, agora, suas almas e espíritos com a dança, a música e todas as expressões de artes populares, sacras e profanas, (...) os mesmos alicerces que ergueram todas as civilizações, ou seja, as culturas. Cultura da alimentação e das artes. 38

Hora do narrador Joãosinho Trinta entrar novamente em cena: no exato momento em que Tereza é morta, as maldições pré-colombianas de Ataualpa (Inca) e Montezuma (Azteca) 38

Texto de Joãosinho Trinta, no livro Abre Alas, publicado pela Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), 1994, p. 125

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se unem ao exemplo da líder negra e à força de todos os deuses para conceder uma graça aos injustiçados, contra os brancos exploradores e opressores. A deusa-maior, a Justiça Universal é invocada. Nas obras de Joãosinho Trinta, lendas e magias alimentam seu sonho de narrador antinaturalista. Sobram misticismo e mistério, em narrativas que vagam em um mundo onírico, em um caminho de idealismo, em ambientes circundados pela imaginação, intuição, poesia. Um mundo de sensações líricas que vê nas dobras do tempo a possibilidade de mudança e libertação, o que é uma nova direção em termos de enredos de Carnaval. As máscaras presentes no enredo “Orfeu – O Negro do Carnaval”, trará à cena este recurso caracterizador da crise finissecular, já que provocadora de nuances de velamento, desvelamento, ficção, realidade, consciência e inconsciência. Na estrutura da metalinguagem do enredo, quando um desfile de Carnaval está embutido dentro da narrativa principal do enredo, quando temos, portanto, dois pontos de vista dentro da escritura, eis aí a “tarefa de encenar o viver poeticamente, assumindo a vida como obra de arte”.39 A “enunciação do tudo” que é círculo de magia ao redor de uma realidade, em “Anita Garibaldi – A Heroína das Sete Magias”, (mas que pode assumir outras formas, como o bloco mediano que flutua entre dois blocos de realidade em “Todo mundo nasceu nu”), prova a unidade do universo como ser pulsante, mutável, vivo. As manifestações da vida demonstram a intimidade entre o mundo visível e o mágico. Tanto que nestas duas narrativas aqui citadas, o narrador transita entre realidade e fantasia de forma confortável. São enunciações do recôndito “eu” do narrador, místico e crente, não entravado pelo “cientificismo”, que escolhe esta postura do eu-racional no mesmo patamar que o eu-irracional, vivendo num mundo que morre lentamente, já que o homem não é um bloco único dentro de si.

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COUTINHO, 2004, p. 11.

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A inquieta sensibilidade do narrador faz desabrochar enredos sobre a crise da contemporaneidade, passando do pessimismo, os infernos, ao otimismo, os paraísos, num percurso narrativo onde a visão poética predominante é a do realismo fantástico, cujo imaginário é baseado em sonhos, lendas, magia. Há um interesse do narrador pelo mundo externo através de seu “mito do caos social e do inferno brasileiro” em “Todo mundo nasceu nu” e um interesse pelo universo humano interno em “Anita Garibaldi - a Heroína das Sete Magias”, em narrativas que contrapõem realidade e inconsciente, onde a imaginação é um recurso poderoso para modificar a realidade material, que é produto da ação da natureza e do homem. Cultivando o sonho, o narrador permite que cada leitor possa criar seu próprio paraíso interior, seus círculos de magia e sonho. No mosaico decadentista de Joãosinho Trinta, a estética fragmentada dos sete círculos de magia deste enredo, de característica híbrida, já que trata da formação da personalidade da heroína, nos fala da construção e da desconstrução. A esperança depositada no “Terceiro Milênio” é total em “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”, pois aí se manifestarão qualidades quase divinas da humanidade, que são enumeradas em lista: paz, amor, fraternidade, alegria, não só para o Brasil, e sim uma crença que cobrirá todo o planeta. Num mundo de Idade Mídia, desenhado neste enredo, vemos o rebatimento do mundo esgotado pela exploração, o universo da Idade Média, onde José Datrina, transformado em Gentileza, se debaterá em eterno tormento, tornando esta narrativa uma alegoria do cansaço do homem moderno defronte das rasuras de seu tempo. Sobre o narrador de alegorias, Rouanet, ao lançar suas idéias sobre o ofício do alegorista, afirma que este descontextualiza o objeto:

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(...) arranca o objeto do seu contexto, mata-o. E o obriga a significar (...) Nas mãos do alegorista, a coisa se converte em algo de diferente, transformando-se em chave para um saber oculto. Para construir a alegoria, o mundo tem que ser esquartejado. 40

Tal esquartejamento está presente tanto no universo transtornado e transtornante de “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”, que mobiliza tempo e história, sempre nos fazendo pensar nas relações particularizado/generalizado, quanto no labirinto engendrado por Joãosinho Trinta sobre Orfeu grego e Orfeu compositor em “Orfeu - O Negro do Carnaval”, quando as múltiplas representações que a história do Carnaval carioca encena sobre o drama do mito grego fornecem pistas de sua forma particular de perceber o “mundo real”. Desta forma, a dimensão do imaginário conduz à criação de representações "carregadas de afetividade e de emoções criadoras poéticas” 41, permitindo a transformação ou reconstrução do real, indo ao encontro do próprio princípio catártico do Carnaval, onde se abre um espaço para a fruição criativa do sonho, da magia de subverter o cotidiano, a realidade.

40 41

ROUANET apud CAVALCANTI, 1994, p. 156. Ibidem, p. 48

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4.4. A máscara do fantástico Os enredos assinados por Joãosinho Trinta seguem um fio condutor em que podemos perceber um forte apelo ao uso de elementos ligados à imaginação, na busca de uma compreensão de uma realidade social dentro das características e limitações dos códigos impostos pelo modo de apresentação das escolas de samba. Embora a base se encontre no real, a imaginação proporciona uma liberação do referente percebido numa realidade exterior, “à medida que ultrapassa um processo mental que vai além da representação intelectual ou cognitiva”42. O enredo tratado no desfile não se realiza a partir de um código neutro, como a língua. A “carnavalização” é alcançada por meio de uma linguagem específica, organizada no corpo da narrativa escrita. Para Clécio Quesado43, “carnavalizar implica sobremaneira criar imaginária e esteticamente.” Substituindo, na estrutura das narrativas de enredos, a realidade pelo fantásticomaravilhoso, Joãosinho Trinta resgata uma importante faceta da manifestação carnavalesca: o delírio. Sobre este “tônica” do imaginário, Clécio Quesado nos informa:

“Vale ressaltar que para isso contribuiu decisivamente a entrada de Joãosinho Trinta no Salgueiro com o carnaval de 1974 sob o título de “O Rei de França na Ilha da Assombração”, um tema que trouxe o imaginário como uma nova contribuição para o carnaval e que implantou de uma vez a tônica dessa tendência para os enredos das escolas de samba” 44

Narrativas delirantes combatem a crueza das visões “enclausuradas” pela ciência, história e mundo real. Instituindo a imaginação, liberta-se o lirismo pessoal, o espírito de revolta, o espírito de luta e transformação, o espírito de regozijo. Desconfiando do “mundo real”, o narrador busca nova forma do artista contar estórias, em que o “desestruturado” é

42

TRINDADE, 1997, p. 25 QUESADO, 2006, p. 2 44 Idem 43

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possível, o fantástico não é demoníaco, é parte integrante da “psique” humana, e a ponte entre modernidade e os tempos arquetípicos fascina o narrador a ponto de fazê-lo tomar a postura de uma “consciência superior” cujo estado intuitivo propõe mais poesia ao mundo real, onde é proposta a evasão histórica rumo à arte esplendorosa, portadora de salvação para um mundo pontilhado pela miserabilidade humana. Na perspectiva de Bakhtin45, “o texto se carnavaliza quando exibe o mundo às avessas, o caos, a liberação dos códigos e modelos vigentes”. Ora, se o Carnaval é a festa em que a desordem é permitida, este é o contexto perfeito para a narrativa carnavalizante de Joãosinho Trinta expor as contradições, os equívocos, os erros, as falsas aparências (as máscaras), desmistificando e desmitificando as elites de todas as épocas da história brasileira, com uma linguagem que “vira pelo avesso” a homenagem do desfile das escolas de samba. Com a narrativa fantástica introduzida no carnaval por Joãosinho Trinta, o desfile é libertado definitivamente das regras clássicas, especialmente da noção de verossimilhança. Para sua narrativa, não há necessidade de justificar as suas fantasias, pois para ele tudo se dá dentro de um universo fantástico, sem explicações. Tal desacordo com o senso-comum, a utilização de causalidade que não pode ser submetida à prova da verdade e o distanciamento em relação à explicação racional aproximam os enredos de Joãosinho Trinta da chamada “literatura fantástica”, já que o termo fantástico (do latim phantasticu, por sua vez do grego phantastikós, os dois oriundos de phantasiá) refere-se ao que é criado pela imaginação, o que não existe na realidade, o imaginário, o fabuloso. Aplica-se, portanto, melhor a um fenômeno de caráter artístico, que ultrapassa os limites de uma poética previsível. Alcança os planos do bizarro e do extraordinário. Trata-se de uma narrativa em que o fato se explica por uma causalidade totalmente arbitrária, do ponto de vista da verdade da ciência, por exemplo, da física, que postula leis

45

BAKHTIN apud MESQUITA, 1986, p. 49.

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racionais permitindo que o consideremos “um narrador do fantástico”. Pois ele se utiliza dos mecanismos que unem episódios dos textos fantásticos, a saber: a existência do duplo, ou seja, em um relato dois personagens são o mesmo; ou um se desdobra em dois, ao olhar-se no espelho; ou a viagem no tempo - saltar, por exemplo, sem pausa para o futuro, o pacto diabólico e o inanimado-animado. Esses procedimentos não se explicam senão pela aceitação de uma pesquisa das dimensões da realidade que é homóloga e (não-igual) na sua estrutura, ao funcionamento da magia simpática. A causalidade mágica não é senão um nome para um tipo de convenção literária que se opõe às convenções "realistas". Essa preferência pela narrativa fantástica se deve ao fato de ela deixar evidente, expor mesmo, a máquina ficcional, que a narrativa realista procura esconder através dos recursos da verossimilhança. .46 “Rei de França na Ilha da Assombração” é um dos enredos que fazem a transposição do real para o irreal, através do sonho. Não apenas o sonho é a motivação fantástica que estrutura o enunciado narrativo, mas também o fato insólito de alguém despertar e conviver com personagens que só "existiram" no sonho. Nesse detalhe está o fantástico inteiro, pois aí o inverossímil se instala. O sonho tem sido usado freqüentemente como explicação para experiências inverossímeis, mas o que determina o elemento fantástico stricto sensu é exatamente a brecha deixada pela narrativa ao inserir no enunciado a pergunta: será ou não sonho? Ou seja, uma indagação sobre os limites entre o sonho e o real.47 Se o Rei de França é um dado histórico comprovável, ele se moverá em imaginação por uma ilha encantada, mágica, suntuosa em tradições folclóricas, da qual ele só ouve falar, e tudo o que ele sonha é depuração de informações peneiradas por seus sonhos infantis. O rei

46 47

RODRIGUES, 1988, p. 61 Ibidem, p. 22

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menino estará num terreno de múltiplas possibilidades, onde palpável e imaginário conviverão em harmônica atmosfera de normalidade. É um enredo sobre a capacidade do homem sonhar acordado, imaginando como seria. Sonho fantasioso, que tanto pode ser uma visão alegórica da realidade como pode ser a recriação da realidade, embutindo neste novo mundo seres fantásticos, inimagináveis. Quem sonha? É o rei menino? É o narrador João Trinta? Ou somos nós, leitores, que ao lermos a narrativa imediatamente começamos a “ver coisas”? O enredo nos leva a sonhar, antes mesmo que saibamos que o personagem principal está sonhando acordado, imaginando e criando uma fantasia sobre acontecimentos que lhe são apenas relatados. Quanto às velhas rezadeiras, elas nos trazem recordações de “avós” que contam extraordinárias narrativas para seus netinhos. Tudo parece estar dentro das regras da verossimilhança, pois no sonho temos a liberdade de franquear tempo e espaço e realizar as fantasias menos cotidianas. Mas, ao se levantar da cama, a experiência inverossímil é assumida por um personagem-narrador, um eu poético — que conta uma história dentro da história. Para cada explicação verossímil a narrativa oferece a quebra da verossimilhança com um elemento fantástico que lhe é mais forte e as sucessivas explicações racionais não dão conta do mistério, permanecendo a dúvida. Desde o título, este enredo juntará realidade e imaginação e operará o salto da narrativa para o inverossímil, mantendo, portanto, um alto nível de ambiguidade e de ficcionalidade no texto narrativo. Por sua ambigüidade, o texto deixa ambos, protagonista e leitor implícito, em suspenso, pois o enunciado só prove o leitor das informações obtidas pelo personagem que vive a história. As pretas velhas, depois de narrarem o descobrimento, continuam a contar que a Rainha Maria de Médici preparava uma esquadra francesa para invadir o tal paraíso, que se tornaria um novo Reino de França, pois toda a nobreza de lá estaria maravilhada com o que

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diziam. E Joãosinho Trinta nos conta que as contadoras de estória do Maranhão nos contam que os contadores de estórias da França narravam para o rei menino, sentado no trono, no Salão dos Espelhos, tais acontecimentos. O rei menino, Luís XIII, de 8 anos, assiste ao alvoroço dos preparativos da invasão e cria uma fantasia a respeito daquelas terras distantes. Nesta fantasia, o menino começa a transformar coisas, o que é apenas a ponta final de um processo de transformações que já vinham sendo apresentadas por Joãosinho Trinta: o Maranhão havia sido transformado num paraíso, as pretas velhas em exímias contadoras de estórias, já havia toda uma atmosfera transformada em magia que vinha desfiando um rosário encantado desde o início do enredo. Gente virando bicho e planta, rei e sua corte virando assombração, jóias francesas virando arte plumária indígena. Uma festa de transformações! Neste viés de transformação, os colonizados, historicamente explorados, são a nova versão da nobreza de França, e no lugar de coroas e jóias, plumas. Quem não é humano nesta nova corte de França transforma-se em flora e fauna exuberante, deslumbrante. E neste reino fantástico, a rainha vira deusa, numa escolha do Senhor absoluto deste reino da imaginação: o rei menino (o próprio Joãosinho Trinta). Este menino não sabe, pois não foi alertado pelos informantes da corte, das estórias de assombração das terras que ele imaginava. As águas oceânicas substituirão a terra firme como palco dos acontecimentos: estranhas criaturas marinhas cobrem de vegetação aquática um touro negro coroado que está na areia da praia dos lençóis. As águas acalmadas presenciam a transformação do touro negro no príncipe D. Sebastião de Portugal e as estranhas criaturas transformam-se na corte do rei desaparecido na batalha de Alcacequibir. Mais uma linhagem real que existiu historicamente se insere no reino mágico do Maranhão, sendo que desta feita o herdeiro real virou assombração.

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Mais um dado histórico, mais uma corte de príncipe, só que esta totalmente transmutada. Como se a narrativa quisesse nos dizer que até as cortes históricas podem ser versões fantasiadas da própria história. Um rei e sua corte que viraram assombrações do outro lado do oceano, este mesmo que liga agora a imaginação do rei menino a do narrador. Quem acalma as águas e promove a transformação desta corte é a amante do rei D. Sebastião que também é criatura que mora no mar, que é a ponte entre o reino mágico e os reinos históricos (e talvez mágicos) de Portugal e de França. Credo-cruz é a expressão religiosa católica exclamada pelas pretas velhas rezadeiras quando sinos católicos batem meia-noite, horário que faz surgir, de não se sabe onde, mais assombrações (neste reino, não saber de onde surgem as coisas não faz a menor diferença). E surgem escravos, correntes e riquezas arrastados por uma carruagem que pertence à assombração da pérfida fidalga Nhá Jança, que paga seus pecados percorrendo todas as noites os lugares onde viveu. Ela, na trama, assume as características do sobrenatural diabo, e, segundo Irene Bessière48, o que caracteriza o fantástico é uma dupla ruptura: a da ordem do cotidiano e a do sobrenatural. A natureza e a sobrenatureza são postas em questão. O contrato diabólico e sua denúncia tornariam simultâneas duas posições intelectuais contrárias: a do reconhecimento do sobrenatural comandando a natureza e a do reconhecimento das leis naturais que excluem as do sobrenatural. A simultaneidade caracteriza o fantástico, que, no entanto, se conserva autônomo com relação à razão e ao sobrenatural. O imaginário transposto para a literatura chama a atenção para os elementos inquietantes e inexplicáveis ao nível de uma lógica racional. É importante observar que, na literatura fantástica, o sobrenatural é de natureza humana, nunca teológica. O Diabo, que passa a ser terna constante da literatura, é laicizado, a contaminação da realidade pelo sonho engendra novas histórias.

48

BESSIÈRE apud RODRIGUES, 1988, p. 39

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Uma aristocrata que pena por ter maltratado seus subalternos, e cujas jóias se transformam em azulejos; sua carruagem, em serpente prateada; e suas lágrimas, em pingos d’água que contornam a cidade que se transforma na ilha de S. Luís do Maranhão, que sonha com o Rei Menino que sonhou com a cidade séculos atrás. Ambos não se conheceram jamais – o Rei Menino nunca veio a São Luís do Maranhão, mas não é preciso conhecer para sonhar. O homem só precisa do fio da meada para desenrolar o novelo. Relatos miudinhos abrirão janelas da imaginação. Se podemos transpor fronteiras de tempo e espaço através do sonho, também é possível fazê-lo pelo puro jogo da imaginação, que permite essas transgressões.49 Como em “O Segredo das Minas do Rei Salomão”, cujas transgressões serão como sinônimo de atividade vital, processo de vivência e até mesmo o mistério do existir. Gritos de ataque que viram gritos de bem-receber; pedra verde oriental que se transforma, após ritual, em talismã encantado da Amazônia; visita ocasional que muda a rotina da vida das amazonas por deixálas grávidas - tudo isto configura um mundo que deve e precisa mudar, para melhorar. Assim como o Rei Salomão, as guerreiras amazonas possuíam inimigos, o que universaliza a cobiça humana, aspecto presente ao mesmo tempo em dois espaços. Ele traído por mulheres que tentavam enganá-lo, elas enfrentando a fúria de feiticeiros das tribos inimigas. Mas ele e elas lutavam e venciam sempre. Curiosa a possibilidade de comparar a condição inversa dos dois reinos: um homem com 700 mulheres e a tribo de 700 mulheres sem nenhum homem. O discurso narrativo transita do verossímil ao inverossímil sem interrupção, sem questionamento. Uma vez a cada ano (portanto uma oportunidade rara), os gritos de guerra das amazonas transformavam-se em gritos de alegria. A dor de lutar para defender suas

49

RODRIGUES, 1988, p. 28

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identidades, terras, riquezas, cultura, cederá lugar aos prazeres e delícias do namoro. Um dos mitos que pertencem à cultura mágica, segundo Nelly Novaes Coelho:

Mitos iniciáticos são cerimônias sagradas, adotadas por povos primitivos, durante os quais certos mitos são revividos ou representados por determinadas pessoas, em determinadas ocasiões de iniciação, a fim de se tornarem aptas para o que almejam.50

É revelador o fato das amazonas não aceitarem o amor de seus “próximos”, deixandose seduzir por visitantes ocasionais com duas “condições agradáveis”: não estariam ali, sempre, à disposição para encontros mais freqüentes; e eram considerados semideuses enviados pela Iara, rainha das águas amazônicas, para gerar os filhos delas. O texto oferece um diálogo entre razão e desrazão, mostra o homem circunscrito à sua própria racionalidade, admitindo o mistério, entretanto, e com ele se debatendo. Essa hesitação que está no discurso narrativo contamina o leitor, que permanecerá, entretanto, com a sensação do fantástico predominante sobre as explicações objetivas. A literatura, nesse caso, se nutre desse frágil equilíbrio que balança em favor do inverossímil e acentua-lhe a ambigüidade. No verdadeiro fantástico, guarda-se sempre a possibilidade exterior formal de uma explicação simples dos fenômenos, mas ao mesmo tempo essa explicação é completamente privada de probabilidade interna. Todos os detalhes particulares devem ter um caráter cotidiano, mas considerados em seu conjunto eles devem indicar outro tipo de causalidade.51 João tece uma teia com “comprovações históricas” muito particular, sua causalidade é estruturada em “coerência interna”. Ele narra a aventura fantástica que concluiu a partir de dados por ele coletados como narrador. Ele procede a diversas tentativas de explicação da mesma e procura integrá-la ao universo cultural de sua época, ao sistema de referências de que dispõe, mas não há comprovação no extra-texto: os atores se encontram integrados num

50 51

COELHO, 2003, p.135 Ibidem, p. 27

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universo de ficção total onde o verossímil se assimila ao inverossímil numa completa coerência narrativa, criando o que se poderia chamar de uma verossimilhança interna. Um baile de máscaras fará “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia” submergir no universo fantástico, pois provoca em seus miseráveis participantes a atração dos opostos, num “transe”, onde tais excluídos desejam interpretar seus algozes, “senhores ou reis de alguma coisa”. Na “realidade da imaginação” do narrador, os marginalizados interpretam o primeiro lixo, fazendo a ponte entre a corte real medieval, o período das trevas histórico, e o período proposto pelo narrador, o hoje, as trevas atuais brasileiras, muito mais dramáticas, a ponto de provocar o “extrapolar da imaginação” dos miseráveis convidados para o baile: é uma espécie de enlouquecimento coletivo. Morros, baixadas e alagados brasileiros são piores que os feudos medievais e ambos, narrador e convidados, estarão entorpecidos, o primeiro fazendo real seu imaginário, os demais, em transe pela dor da existência oprimida e pela possibilidade de interpretar o outro na passarela do samba. Igualmente esfomeados, adultos catam o lixo da xepa, ou restos da feira-livre, e se fantasiam com estas sobras para o grande baile. Uma das leguminosas encontradas, a abóbora, traz para o enredo a estória de Cinderela, em que as baianas da escola de samba são as convidadas de honra da festa no palácio real, vestidas de chitão. Esta atmosfera do fantástico está presente em “Todo Mundo Nasceu Nu” já que máquinas modernas seriam reencarnações dos dinossauros terríveis. Além disso, temos a questão da transmutação dos elementos primordiais em petróleo. Este jogo de vertentes pode apontar para vários ângulos interpretativos (o que parece ser a intenção do autor, que provocaria vários planos de significação para seu texto). Mas opto por uma visão psicanalítica onde, no jogo de três, o Ego tenta conter a desordem causada pelo choque entre o inconsciente e o consciente.

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O caos, como o Carnaval, amontoa camadas que se utilizarão, umas das outras, para revelar ou esconder intenções. O caos carnavalesco, neste enredo, pode ser histórico, social, humano. O narrador faz seus personagens agirem autonomamente. Ele é uma espécie de "deus" que distribui os papéis, sem interferir como personagem na matéria narrada. Além de dissecar a própria possibilidade de narração através de “amontoados”, Joãosinho Trinta parte para a demonstração da convivência, na maioria das vezes antagônica, de camadas que disfarçam, escamoteiam, escondem as camadas internas; o que já está presente no título do enredo, que sugere um corpo não vestido nos primórdios (do tempo e dos espíritos), que será (en)coberto por camadas de tecidos rumo ao esquecimento do equilíbrio inicial, numa visão romântica do selvagem primitivo, como se a nudez obrigatoriamente fosse pura e despojada. A força dos “sedimentos” que criam camadas tentará ser anulada pela terapêutica do Carnaval que mostrará a nudez como saudável. O nu como revelação da verdade inicial, num ritual que elimina a noção de tempo: No famoso trabalho sobre o estranho, Unheimlich (1919), Freud nos faz ver que a idéia do duplo tem a ver com um retorno a determinadas fases na evolução do sentimento de autoconsideração (sic), em que o Ego não se distingue do externo e de outras pessoas. Em “A etapa do espelho” (1949), Jacques Lacan retorna Freud, mostrando que o ser humano passa por várias etapas desde o nascimento. Numa delas, diante de um espelho, a criança reage como se a sua imagem fosse uma realidade, e procura o outro atrás do espelho. Em uma outra etapa (gestalt), a criança identifica-se com a sua própria imagem, que reproduz a forma total do seu corpo. Mas é uma relação dual, narcísica, como diria Freud, porque a criança identifica-se com seu duplo, com a sua imagem no espelho, havendo certa confusão entre a imagem e o outro. Essa etapa será posteriormente substituída pela da aceitação dos

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limites do ser humano através das leis da cultura (em especial, a da proibição do incesto) e da constituição do sujeito separado do outro. Diz Joãosinho: “este é o lado obscuro que o enredo da Beija Flor põe a nu”. Portanto temos aí o “lado obscuro”, psicanalítico, soterrado, que o terapeuta, o desfile de escola de samba, trará à tona. O Carnaval é o processo que revolveria as entranhas sociais através da exposição das contradições sociais, criticando-as. E temos um plano intitulado “a capacidade do brasileiro de realizar o Carnaval” que se sobrepõe ao plano intitulado “dificuldade brasileira”. Esta transformação metafísica é indicada em jogo de possibilidade pela transformação de vários planos no decorrer do enredo: desmatamento de florestas (o contrário de por roupa em corpo nu, neste caso deixar nu o solo); construção de cidades (camada de concreto onde não existia); buracos abrindo a camada de ozônio, antes compacta; degelo nos pólos, trazendo camadas de água para os continentes; e reciclagem, a própria transformação. Dentre os planos imateriais temos as temporais, importantíssimas, “no princípio...”, “se passaram milhões de anos...”, “período bárbaro”, “último século deste milênio...”, pois este passar de tempo que superpõe camadas históricas será utilizado como exemplo de transmutação de matéria (fósseis que viram petróleo e serão, portanto, reutilizados para alimentar os dinossauros modernos, as máquinas), o que comprova o dinâmico e a prática do “misturar” camadas. Se coisas se transformam com o passar do tempo é possível, também, que o homem se transforme, seu espírito melhore. “Alice no Brasil das Maravilhas”, por ser uma paródia da famosa obra de Lewis Carrol, “Alice no País das Maravilhas”, considerada por Selma Calazans Rodrigues52 como obra pertencente ao Fantástico Maravilhoso, trará este universo para os enredos de Carnaval. Em Unheimlich (p. 310-1), Freud distingue o fantástico do maravilhoso. Em primeiro lugar,

52

RODRIGUES, 1988, p. 47

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ele nos faz ver que o maravilhoso é um mundo do faz-de-conta: "era uma vez", e eis-nos mergulhados em um mundo irreal. É a ficção mais radical. Fazendo uso de uma terminologia mais literária, pode-se dizer que, no conto de fadas, temos transposto para artifício ficcional um sistema animista de crenças, ou seja, as coisas têm alma, as plantas falam, bichos como coelhos participam da vida de uma menina ou unicórnios fazem acordos. Não há questionamentos sobre verossimilhança nesse tipo de universo ficcional. Um segundo nível de maravilhoso não tão radical permite que os seres humanos comuns convivam num cotidiano aparentemente verossímil com seres sobrenaturais, como fantasmas ou almas. 53 O corpo de “Alice no Brasil das Maravilhas” aumenta e diminui várias vezes durante a narrativa, o que demonstra caráter mutável. Além disso, a metamorfose lagarta, crisálida, borboleta é exemplo de evolução e transformação para melhorar. E no mundo das maravilhas, criancinhas viram biscoitos e porcos, ambos devoráveis. E a narrativa alerta para a necessidade de sairmos, todos, do estado de “pré-ocupação” para o estado de “ocupação”, o que nos fará viver melhor. Novamente temos, além do sonho, o motivo do deslocamento espaço-temporal, a mudança para o mundo onírico no enunciado narrativo se faz sem nenhum disfarce. Mal fecha os olhos, e a menina passa para o "tempo onírico". Alice toma uma dose demasiada de licor e encolhe, ficando subdesenvolvida, como o terceiro mundo. Pena que os licores não encolhem as sem-vergonhices, negociatas e mazelas que afligem os pobres terceiro-mundistas. Um pedaço de pudim provoca em Alice o efeito contrário do licor, e ela se desenvolve rapidamente. Sua cabeça se afasta de suas raízes estruturais, num crescimento físico e não mental nem espiritual, exatamente como o Brasil que tornou-se a oitava potência mundial.

53

FREUD apud RODRIGUES,1988, p.55.

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Ao livrar-se de luvas e leque, Alice volta a diminuir e, caminhando pelo jardim, a procura de uma saída, encontra uma drogada lagarta, em viagem narcótica de cogumelo. Uma viagem parecida com a de 1500, quando as praias brasileiras do descobrimento, ou jardins de Alice, foram confundidas com as Índias Orientais, mas na atualidade tais “viagens” são feitas com drogas alucinógenas como a cola cheirada pelas crianças abandonadas das ruas do Brasil. O personagem Senhor Lagarta, que começara “do mal”, vira “do bem”, pois a grande lição será dada por este caos do país das drogas em todos os sentidos, pois é daí, deste inferno dos drogados, que sairá a solução: a percepção da “transformação dos estados vibratórios”, pela drogada lagarta e por toda a consciência brasileira, que têm que se libertar da vestimenta de crisálida e deixar-se transformar em bela borboleta, símbolo do próximo sistema de evolução do homem – quando ele terá visão abstrata das leis do universo, e conhecimento de si mesmo. Tal miragem de espelho revelará à consciência brasileira que ela perdeu a sua identidade. É preciso recuperá-la, esforçar-se na transformação, sair do estado inerte da “préocupação” para o estado ativo da “ocupação”. A lagarta é rei, dominador. A borboleta é peão, dominado. E se não houver mudanças, todos serão confundidos com serpentes, devoradoras de ovos. Possibilidade de transformar raquíticas crianças desamparadas em potências esportivas competidoras é “mutação fantástica” recorrente em “Há um ponto de Luz na Imensidão”. Refletindo sobre a transmissão do ponto (sinal) de luz (vídeo, e conseqüentemente, som), Joãosinho Trinta vai enveredar pela análise de outras transmissões, como a cultural, a artística, a educativa. Desta forma ele faz com que a Luz do título inicial possa ser física ou metafísica, revelando que o ponto de luz na imensidão pode ser, ao mesmo tempo, a televisão e as possibilidades que ela abre para o ser humano quando vertida para o “bem”.

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Há explicação científica/tecnológica para a propagação do sinal e há explicações metafísicas/espirituais para a luz interna dos humanos dotados de energia, “alegria vinda de almas poderosas, movimentos de corpos e impulsos da mãe natureza”. O enredo lista setores da programação da TV brasileira, tentando qualificá-los em aspectos positivos ou negativos. Desta forma esta narrativa se alinha no segmento que acredita que:

A magia do espírito foi substituída pelas mágicas da “civilização cibernética”, extremamente paradoxal, já que por um lado, revela o poder espantoso da inteligência humana, que levou o homem a ultrapassar todos os limites até há pouco existentes, e que, por outro, se alimenta de uma perversa fonte: a degradação dos grandes mitos e arquétipos (nobreza de caráter, idealismo, amor, fidelidade aos ideais, solidariedade, grandeza interior. .54

Na parte dos noticiários de televisão o enredo alcança a crucial idéia de formação da aldeia global. A rede de informações e a possibilidade de registrar e transmitir grandes momentos da humanidade (como a Guerra do Vietnã, a descida do homem na Lua e o movimento das “Diretas Já!” no Brasil) são exaltados e apontadas como “força da TV” usada para o lado positivo. Mas o enredo alerta para o uso negativo desta força. Mais uma vez um narrador que partilha a crença na degradação do homem:

(...) minimização ou degradação do humano, provocada pelo novo mito ou valor absoluto dominante: a lei do mercado (....) Daí a informação jornalística tornada espetáculo, sensacionalismo, no noticiário dos crimes, transformando criminosos em heróis fantásticos. 55

Ao tocar na questão da programação infantil, o enredo afirma serem as crianças a mais importante platéia brasileira e questiona a responsabilidade que os artistas apresentadores têm para com seus pequenos admiradores. E volta a citar o objetivo crítico do enredo: despertar,

54 55

COELHO, 2003, p. 94-95. Ibidem, p. 95.

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após o desfile, o debate e a consciência da importância da educação da qual a televisão pode ser porta-voz. O assunto “criança” não deixará o enredo na parte seguinte, o esporte olímpico na TV. O empolgante “mente sã em corpo são” faz o enredo sugerir que as crianças abandonadas pelas ruas poderiam se tornar vitoriosos atletas do Terceiro Milênio. O avanço da tecnologia é abordado nas transmissões dos programas de “Ciências e Culturas”, que deveriam ser em maior número, pois ajuda os telespectadores a saltos rumo à sensibilidade e ao conhecimento. Em “Tereza de Benguela - Uma Rainha Negra no Pantanal”, a possibilidade de várias pessoas se apropriarem de um discurso de libertação e lutarem por sua consecução vai colocar a questão do duplo em cena. Quando o enredo pinça o alaúde e demonstra que ele reaparece em vários contextos, tocado de diferentes maneiras e por diferente tocadores, desde seres mágicos até o pantaneiro comum, ele está o utilizando para falar de possibilidades de transmutação, inclusive de nome, de uma expressão social e humana. E a questão da transformação do espírito em luz, que pairará sobre o enredo, uma luz que não apagará, também tange a questão da transmutação da energia em vários estágios e estados. Joãosinho Trinta resume este enredo na seguinte frase: “Invocar a figura de Tereza de Benguela é contribuir, um pouco, para a mudança da mentalidade brasileira”. E o considera “uma mensagem de amor, alegria, beleza e emoção”. Ao mesmo tempo, no roteiro do desfile, nos alerta que a concepção e elaboração do enredo teve os seguintes aspectos:

(...) sob o enfoque da loucura que aconteceu com esta mulher, (...) num plano de alucinação onde a realidade desaparece, os limites perdem suas dimensões, permitindo o mais amplo imaginário, (...) uma visão onírica desejada.

Esta “louca viagem” de sete páginas, que deverá durar 80 minutos (tempo máximo do desfile da escola de samba), começará na Pérsia de 8000 anos antes de Cristo, passará pela 103


Mongólia e Europa Medieval, desembarcará no pantanal mato-grossense de 1741 e servirá como exemplo para um Brasil de favelas e tráfico de drogas da atualidade. É o tempo cronológico resumido, permitindo saltos que liguem eventos distantes, tendo o alaúde ou viola do cocho como narrador, ser vivente, ser dotado de anima. Compreendendo por inanimado aquilo que não é dotado de alma (anima, em latim), de movimento próprio proveniente da vontade, e, ao contrário, o animado, o que tem alma, vontade e movimento próprios, podemos enfrentar alguns motivos fantásticos, como o das estátuas animadas ou outros que lhes são homólogos.56 Este alaúde é o nosso narrador dos fatos “históricos”, até o enlouquecimento e a morte da personagem principal. O alaúde, historicamente concreto, nos contará de civilizações adiantadas e famosas onde foi dedilhado, como Pérsia (onde era tocado por águias com caracteres humanos), Mongólia (onde era tocado pelos deuses) e a Europa Medieval (onde era tocado por trovadores), e nos mostrará também, com seus lamentos e acordes, como espanhóis e portugueses o trouxeram para a região de Mato Grosso, região vizinha do antigo império Inca, onde se transformou na viola de cocho, e é tocada pelos caboclos pantaneiros. Aí, ele verá desembarcar a mulher de estirpe nobre africana, nascida em Benguela, Angola, Tereza. Escravizada, maltratada e humilhada, mas coroada princesa pelos outros escravos. Estamos na primeira capital de Mato Grosso, Vila Bela de Santíssima Trindade, em 1741, em pleno ciclo do ouro explorado pela Coroa Portuguesa, luxuriante e corrupta. Todorov

57

: nos chama a atenção para o fato de que o narrador "representado" convém ao

fantástico, pois facilita a necessária identificação com as personagens que vivem a história. Em “Tereza de Benguela”, o instrumento musical que troca de nome é uma voz que se dirige ao leitor em segunda pessoa e diz o que vai acontecer no passado e no futuro.

56 57

COELHO, 2003, p. 20 TODOROV, 1975, p. 90.

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Nas narrativas fantásticas, variam as formas de representação do duplo

58

: temos

personagens que, além de semelhantes fisicamente (ou iguais), têm sua relação acentuada por processos mentais que saltam de um para outro (telepatia), de modo que um possui conhecimento, sentimentos e experiência em comum com o outro. É o que podemos encontrar em “Tereza”, onde ele mesmo, Joãosinho Trinta, no plano de seu desejo utópico, encarna Ataualpa, Montezuma, Tereza e os membros do parlamento, e todos os que sonham com uma sociedade sem caos social, para combater a exploração, a miséria e a injustiça. Neste enredo ele invoca que a alma e o espírito de Tereza reencarne em uma brasileira comum da atualidade para iluminar este ser feminino “que sente as dores do parto e tem a sensibilidade da mãe natureza”; ou o sujeito identifica-se de tal modo com outra pessoa que fica em dúvida sobre quem é o seu eu, sendo este o caso de Orfeu, o compositor carioca, que “herda” tanto o talento quanto as circunstâncias da vida do mito grego, inclusive sua amada. É reencarnação por transposição artística, alerta Joãosinho Trinta no histórico do enredo; ou há o retorno ou repetição das mesmas características, das mesmas vicissitudes e dos mesmos nomes através de diversas gerações. Orpheu, deus grego, vira Orfeu, sambista carioca negro do morro, no fantástico ambiente do enredo “Orfeu – O Negro no Carnaval”. A tragédia grega é transposta, em plenitude, para os morros do Rio de Janeiro. O clássico reencarna no popular com toda a sua grandiosidade. Todo o desvario da mitologia grega caberá no desvario da história do Carnaval carioca, ambos representativos da extrema beleza, exuberância e capacidade de reunir universos imaginários significativos.

A “viagem” de um arquétipo mitológico, no tempo e no espaço, que são “as grandes figuras-matrizes, modelos exemplares de virtudes ou falhas humanas: homens e mulheres excepcionais que conviveram com Deuses que tiveram seus destinos marcados por eles e vivem na eternidade da Mitologia Clássica.” 59 58 59

RODRIGUES, 1988, p. 36 COELHO, 2003, p. 130

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A questão da multiplicidade de “eus” será abordada em “Anita Garibaldi - a Heroína das Sete Magias”, começando com a questão do espelho nos trazendo a possibilidade do “rebatimento” da personalidade de Anita em todas as mulheres brasileiras. Além disso, temos influências culturais herdadas que transformam a heroína em mulher “justa e equilibrada”, após percorrer sete possibilidades de existência, sete versões de personalidade, sendo em vez de uma ou duas, sete “devir” da mesma mulher. Segundo Freud, o duplo pertence a uma fase de indiscriminação entre o eu e o outro, o eu e o mundo. A mesma indiscriminação retorna em certas patologias mentais, além de ser explorada no domínio da ficção e da arte em geral, por ser rica em sugestões e crítica do que somos, do que poderíamos ser, das fantasias de poder ser outro. Freud mostra que o duplo, sendo uma criação que data de um estádio mental muito primitivo (da humanidade historicamente e do homem na sua história individual), converteu o aspecto amistoso que tinha num objeto de terror, assim como alguns deuses, após o colapso da religião, se transformaram em demônios.60 Heroína, apaixonada, revolucionária, perseguida, sofrida, dramática, brava, bela, sábia, justa, equilibrada, audaz, intrépida, aventureira, vibrátil, forte, guerreira, idealista, libertária, gloriosa. Assim Joãosinho Trinta qualifica a Heroína das Sete Magias, que transcende ao mito histórico de Anita Garibaldi e tenta mapear a formação da personalidade desta guerreira que lutou por seus ideais no Brasil e na Itália. Partindo de uns poucos dados históricos, “Anita Garibaldi, a Heroína das Sete Magias” não tem compromisso com a realidade dos fatos, mas sim com a construção das heranças fantasiosas que cercam a vida brasileira, ontem e hoje. O tom é de lenda, em que o autor irá manipular informações reais ou não, mas todas culturais, para montar um quebra-cabeça, onde

60

Ibidem, p. 46

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cada círculo de magia que contorna a realidade de Anita será associado a um aspecto psicológico ou a uma qualidade da personalidade dela. Personalidade esta que poderá ser comparada a uma ilha, no caso do enredo, à Ilha da Magia, Santa Catarina, onde ela nasceu, cercada pelas águas influenciadoras do oceano que levam e trazem às suas “costas” influências múltiplas, diversos povos e culturas, que serão misturados aos dados autóctones, em processo de caldeirão alquímico. A ciência, como porta introdutória para o mundo do maravilhoso, que, segundo Nelly Novaes Coelho61, seria denominada “ótica da complexidade”. Descrevendo a “teia do conhecimento na modernidade”, Edgar Morin nos fala deste “caldeirão” como trama complexa e atual:

São inseparáveis, pois existem em um tecido interdependente, interativo e interretroativo entre as partes e o todo; o todo e as partes. Daí que os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos põem em confronto, inevitavelmente e com mais e mais freqüência, com os desafios da complexidade.62

Se já existia nas terras da Ilha da Magia a tribo dos Carijós, a heroína já possui um corpo e uma mente, onde se travarão batalhas e tempestades rumo à libertação. Se antes do descobrimento, piratas e corsários já estiveram na ilha, sem que a história oficial desse a eles crédito algum, antes de tomar consciência de certas influências, também é possível que processos se desencadeiem na formação de um “arquétipo” heróico. Como afirma Jung:

Arquétipos correspondem a modelos de pensamento e ação, preexistentes na alma humana (“inconsciente coletivo”). Manifestam-se como estruturas psíquicas quase universais, espécie de consciência coletiva, e se exprimem por uma linguagem simbólica de grande poder energético que une o universal ao individual. 63

Propondo visão não didática e sim ficcional dentro de limites culturais, Joãosinho Trinta, assim como sua heroína, cerca-se, como autor, de um universo onde o impossível é 61

COELHO, 2003, p. 16. MORIN, 2000, p. 15. 63 JUNG, 1962, p. 78. 62

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plausível. Durante uma vida podemos ir entrando em contacto com várias realidades que nos influenciarão ou não, mas que as “ondas” de nossas praias são múltiplas, isto é verdade. Pois as “ondas” deste enredo não se fecham nos sete círculos de magia aqui propostos. Eles abrem janelas para suposições e novas propostas. Os círculos estão lado a lado mas não fecham um círculo: há corredores em aberto para a fantasia e o pensamento. As vozes do infinito que o personagem José Higino ouve em “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo”, nos coloca em contato com o inexplicável, com o supra-real, que é narrado de forma naturalizada. Igualmente “carmas” de vidas passadas são afirmados, sem deixar espaço para a contestação. É o que Nelly Novaes Coelho chama de “Cultura Mágica”.

Cultura Mágica, onde tudo acontece e se repete ciclicamente, independentemente de causas racionais ou lógicas, por vezes como se tudo já estivesse predeterminado, e, por outras, como se forças mágicas decidissem ao acaso. 64

Aceitar tais procedimentos é a única maneira de partilhar a “verossimilhança” que isto causará na trama: José terá uma nova vida, uma nova personalidade, revelada – ele será o profeta do fogo, o profeta Gentileza, com alguma inspiração na “transformação” pela qual passou S. Francisco de Assis. Paralelos entre o mundo da religião e o cotidiano são traçados, demonstrando que o mistério está ao nosso lado. Trazendo o maravilhoso para o enredo de Carnaval, João sintoniza esta manifestação popular brasileira com o que Nelly Novaes Coelho65 aponta ser a contemporaneidade: “não há como negar que estamos vivendo um momento propício à volta do maravilhoso”. Joãosinho Trinta faz enredo de Carnaval para um mundo que vive um tempo à beira do abismo, da passagem, quando ciência versus visão mágica do mundo não dão mais conta do explodido continuum da vida moderna. As artes que já exploravam as questões do “mistério do mundo energético”, pelas suas mãos, invadiram o mundo das narrativas de escola 64 65

COELHO, 2003, p.132. Ibidem, p.15.

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de samba. Sua inquietude existencial o revelou fascinado pela redescoberta do mundo, e fez dele passageiro ativo da grande aventura no labirinto. Sua obra imaginativa são portas que se abrem para verdades humanas. Participante da formação de um novo mundo, ele requisitou para si uma participação ativa, através de seus carnavais, alegorias de seu tempo, já que narrativas com significado completo em dois níveis: no do argumento narrado e em seu significado figurado, simbólico. Labiríntico, não traçou linha estendida: perdeu-se na enigmática teia, só reservada aos visionários homens que vivem a crise da vertigem. Joãosinho Trinta deu adeus à consolidada e segura, mas ultrapassada, porta do labirinto, e encontrou o que almejava: inúmeros Minotauros. Fez, da maioria deles, amigos íntimos.

4.5. A máscara paradoxal da Pós-Modernidade A Utopia proposta por Joãosinho Trinta é a melhor das máscaras. A terra do ouro e da prata, onde, entre esguias palmeiras, gente selvagem vivia feliz nas matas virgens, entre flores, frutos, animais e pássaros deslumbrantes. Povo das índias amazonas, valentes guerreiras, guardiãs do tesouro selvagem. Elas lutavam e venciam sempre. Nas selvas brasileiras, nas margens do Rio das Amazonas, estavam as Minas do Rei Salomão. Aquelas terras cheias de riquezas, flores, pássaros e animais eram as lendárias Terras de Ofir. A máscara como brincadeira de criança, como folguedo popular. Sua poética é o grande salão dos espelhos da imaginação e da fantasia, onde, sentado no trono, o rei menino assistia o alvoroço daqueles preparativos, ouvindo as coisas fantásticas que todos falavam, fazendo-o sonhar com o Maranhão. E sua imaginação de criança começou a criar sua versão para aquela realidade. Saindo da sua imaginação, a Rainha, sua mãe, virou a Deusa deste Reino fantástico. Seus personagens contam estórias de antigamente, e se benzendo, falam das assombrações que existem em lugares do Brasil. 109


Ao se aproximar o Terceiro Milênio, o narrador anuncia que este será o momento do Brasil. Ele reconhece que é histórica a conturbação que sempre acontece no final dos séculos, e admite que está acontecendo novamente, deixando a pista para o leitor/espectador de que ele é um dos viventes desta vertigem Há alegria em participar deste redemoinho, na narrativa destemida de Joãosinho Trinta. João proclama a necessidade de um equilíbrio e uma preparação para o desafio no novo tempo, ao mesmo tempo em que celebra o girar do carrossel. Um narrador que lança luzes para que os céus iluminem os Portais do Terceiro Milênio, onde voam tranqüilos os modernos anjos. A obra de Joãosinho Trinta é um turbilhão que se liga ao tronco comum dos valores humanistas democráticos, apresentando aspectos de metamodernidade, metatradicionalidade, desregulamentadora, globalizada. Com especial atenção aos direitos humanos. Uma narrativa esquizofrênica que ele vive de maneira intensa: comparando a guerra do tempo proposta por Lipovetsky, concluo que a partir de 1974, a narrativa escrita deste carnavalesco vai refletir as principais características deste período de tempo, inclusive o paradoxo da hipermodernidade, bem exemplificado na dualidade dos núcleos temáticos da Desgraça Brasileira X Opulência Brasileira, e no Neopresentismo e Neofuturismo propostos pelo carnavalesco. O retraimento do horizonte temporal de nossas sociedades e a compulsão presentista versus futurista constituem um dos sistemas hipermodernos presente nos núcleos temáticos recorrentes da poética de Joãosinho Trinta. Se por um lado sua temática dos "estragos do progresso" tem repercussão significativa em muitas narrativas, todas essas críticas não impedem o ímpeto daquilo que poderíamos muito bem denominar um otimismo pessoal.

“a sociedade ultramoderna se apresenta como uma cultura desunificada e paradoxal, um acasalamento de contrários que só faz intensificar dois importantes princípios, ambos constitutivos da modernidade técnica e democrática: a conquista da eficiência e o ideal da felicidade terrena” 66

66

Ibidem, p. 81

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De que maneira as propostas de Gilles Lipovetsky sobre esta contemporaneidade dialogam com a poética do enredo escrito de Joãosinho Trinta? A reflexividade hipermoderna focada no prazer, a destradicionalização, a desinstitucionalização, a capacidade de integração e não de desagregação, o clima de epílogo, as tensões temporais em lógica da urgência, a identidade cultural, o ressurgimento étnico, o frenesi histórico-patrimonial e comemorativo, são aspectos da hipermodernidade presentes na poética do Enredo escrito de Joãosinho Trinta. O desfile de escola de samba é o estilo "frívolo" e efêmero que se restringe apenas ao instante da comemoração: happenings, espetáculos, desfiles criativos (o antigo estilo das comemorações seria solene e "sedentário", visando registrar permanentemente a memória nos próprios locais do passado). As obras do passado não mais são contempladas em recolhimento e silêncio, e sim "devoradas" em alguns segundos, relidas e apresentadas em linguagem carnavalizada, funcionando como objeto de animação de massa, espetáculo atraente, maneira de diversificar o lazer e "matar" o tempo. A volta do passado à popularidade do desfile da Escola de Samba, ilustra o advento do consumo cultural universal, e de um tipo de consumidor que busca menos a qualidade dos estímulos permanentes, e mais as atividades recreativas e as emoções instantâneas. Lazer cultural - Estamos vivendo uma etapa da modernidade consumista que vê triunfar a democratização maciça do lazer cultural, a transformação da memória em entretenimento-espetáculo-desfile. A poética de Joãosinho Trinta é pós-moderna porque, entre outros elementos caracterizadores , também se volta para o antigo, mas é Hipermoderna porque nela vê-se o consumo comercial da relação com o tempo, e a lógica mercantil invadindo o território da memória.

Uma

obra

estilhaçada

e

contraditória,

rasurada

sempre

por

normas

multidimensionais: ela flerta com o caos organizador. Isto pode ser exemplificado pelo enredo “Brasil, Visões de Paraísos e Infernos” quando, ao relatar sucessivas visões de vivências

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prazerosas e seus respectivos períodos de degradação, injustiça e violência, há a desarrumação da ordem, pois o ruim aniquila e arruína o bom. Neste contexto, Joãosinho tenta arrumar o quadro propondo a organização do presente como ordem esperançosa, quando o mulato seria a própria síntese do bem para o caótico quadro de vivências entre as três raças que, misturadas em conflito e prazer, produziram o homem brasileiro. Este homem seria o caos paradoxal, que no seu corpo e memória afetiva, irá costurar seus farrapos emocionais e construir as vias de um futuro amarrado e entendido. Sob o signo do excesso - A narrativa de Joãosinho Trinta é a poética que se exibe sob o signo do excesso, (como na narrativa da assombração Nhá Jança, no enredo “Os Papagaios Amarelos nas terras encantadas do Maranhão”, que em vida real foi Dona Anna Jansen, cuja existência a história atrela à presença dos Holandeses nestas terras encantadas, e que foi grande personalidade da vida social, cultural e política de São Luís, e grande traficante de escravos. Perversa mulher, que praticava sacrifícios no povo negro, encontra na morte sua clausura, de ter que vagar pelas madrugadas com sua carruagem, puxadas pelas incendiárias mulas sem cabeça, portando suas jóias e fortuna. Portanto, como se não bastasse as labaredas nos pescoços das mulas faiscantes, ainda temos o faiscar de diamantes e moedas no coche da poderosa assombração. Uma imagem opulenta que, luminosa pela presença do fogo, vai ainda mais longe no reflexo de pedras preciosas. Luxo e esplendor derramados pelas ruas encantadas da imaginação do narrador), e se reconhece nos extremos da modernização como as super atividades, a aceleração do ritmo de pensamento, a observação da vertiginosa circulação no planeta. Tudo isto dentro de um quadro cultural onde o impulso de modernização da cultura produz uma enorme gama dos objetos e signos considerados dignos de ser parte da memória patrimonial (ainda no enredo “Os papagaios Amarelos nas praias encantadas do Maranhão”, temos a prosaica escolha do pato como signo cultural, quando o narrador, pulando do humano

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para as aves, relata o personagem do pato pelado, espetado em cruzes durante os festejos da Padroeira de Rosário. Enfeitados com flores e fitas, eles são a prova da generosidade do povo, que doa alimentos para serem cozinhados e distribuídos gratuitamente para a população pobre. De tão fraterno, parece encantado. Mas a imagem de patos pelados espetados em cruzes é estranha, asquerosa e levemente surrealista). São os paradoxos da modernidade, encantada e estranha, numa vertigem comemorativa que valoriza o antigo, e alarga o território da memória, o patrimônio histórico. O domínio dos enredos de Joãosinho Trinta é assumidamente elástico, extravagante, sem fronteiras. Especialmente ex-cêntrico, por apresentar pontos de vista outros, marginais, que estão fora do centro, como bem indica o vocábulo, tentando fazer o leitor/espectador refletir sobre uma outra visão de mundo. Esta ex-centricidade é pautada por Linda Hutcheon, que afirma:

Ser ex-cêntrico, ficar na fronteira ou na margem. Ficar dentro e, apesar disto, fora, é ter uma perspectiva diferente (...). Essa mesma mudança de perspectiva, essa mesma preocupação pelo respeito a diferença, podem-se encontrar no, e dentro, do atual discurso teórico pós-moderno.67

O enredo sobre Camisinha trata das duas tendências contraditórias que delineiam-se na pós-modernidade: de um lado, os indivíduos, mais do que nunca, cuidam do corpo, são fanáticos por higiene e saúde, obedecem às determinações médicas e sanitárias; de outro lado, proliferam as patologias individuais, o consumo anômico, a anarquia comportamental; e nesta poética encontramos a convocação das imagens do corpo num hiper-realismo que pode ser considerado pornográfico, referenciado culturalmente nas imagens do Kama Sutra Indiano; a televisão e seus espetáculos que encenam a transparência total, cantada no poética do Enredo “Há um ponto de luz na imensidão”; a galáxia Internet e seu dilúvio de fluxos numéricos (milhões de sites, bilhões de páginas, trilhões de caracteres) aproximando-se das matemáticas 67

HUTCHEON, 1991, p. 96

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decifrações de Joãosinho, tão presentes como núcleo temático destacado em muitas poéticas de enredo; e ainda as aglomerações urbanas e suas megalópoles superpovoadas, asfixiadas, tentaculares, sinônimo do progresso numa das camadas psicanalíticas da poética do Enredo “Todo mundo nasceu nu”. Mas esta busca do excesso não abandona uma nova legitimidade de massa que os enredos analisados procuram dar: a procura qualitativa do bem viver e bem estar no mundo, do sentimento; ao contrário, o que se percebe na poética de Joãosinho Trinta é que, se por um lado, ela alerta para a ganância, os exageros do mundo hipermoderno são também celebrados por ele , que exige a melhoria da qualidade de vida, a valorização dos sentimentos, uma outra lógica do excesso, que é um excesso de humanismo. A integração hipermoderna - Joãosinho Trinta em seus enredos não pratica a destruição do passado, e sim, propõe sua reintegração, sua reformulação no quadro das lógicas modernas da individualidade. Sua hipermodernidade não é estruturada por um presente absoluto; e sim por um presente paradoxal, um presente que não pára de exumar e "redescobrir" o passado. A injustiça de vários passados, na narrativa “Brasil, visões de Paraísos e Infernos” não funciona mais como modelo prestigioso a imitar. Ele aparece como um adorno carnavalizado, motivo para que se chegue até a mensagem que importa, a justiça do presente que deve ser buscada a qualquer preço. Este é um dos traços característicos da vida hipermoderna: a celebração daquilo que não desejamos tomar como exemplo. O passado é sempre celebrado como adorno para as narrativas de Joãosinho Trinta que terão que chegar até os dias atuais para rever e reconsiderar as injustiças do passado.. É uma ponte, uma passagem, utilizada para dar forma ao todo, mas que não deve ser seguido, um grande exemplo de tempos injustos. Segundo Gilles Lipovetski, se a modernidade era negadora, a pós-modernidade, reconciliada com seus princípios de base (a democracia, os direitos humanos, o mercado), não pára de reciclar em sua ordem os

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elementos que outrora eram algo a erradicar. Por exemplo a proposição final de Joãosinho Trinta, na narrativa de 2000 para a Unidos do Viradouro (quando o Carnaval Carioca celebrava os quinhentos anos do descobrimento do Brasil) é uma proposta hipermoderna integradora, sendo o próprio mulato a aglutinação das qualidades do passado. Sem negar o percurso, é proposta a reconciliação no quadro de lógicas modernas da sociedade. O narrador pede para celebrar, e ao mesmo tempo refletir, sem negar o passado terrível, e encontrar caminhos para o futuro, fazendo etnias que se degladiaram em inferno e céu, encontrar a harmonia. Não mais a repetição dos modelos do passado (como nas sociedades tradicionais), e sim a novidade como regra e como organização do presente. A memória como um recurso e uma necessidade de ordem presentista, para consumar os desejos identitários, e as exigências de melhoria do bem estar. A não depreciação do passado, mas uma exploração-mobilização sem exclusão de todos os eixos da temporalidade sócio-histórica, com reciclagem e retradução de memória com fins econômicos, emocionais e identitários. O passado não mais é socialmente instituidor nem estruturante; está renovado, reciclado, mas ao gosto de nossa época, explorado com fins comerciais. Hedonismo e psicologismo - No surto de individualização que a obra escrita de Joãosinho Trinta propõe, há a consagração do hedonismo e do psicologismo. Joãosinho Trinta propõe a satisfação imediata das necessidades, estimula a urgência dos prazeres, enaltece o florescimento pessoal, e coloca no pedestal o paraíso do bem-estar, do conforto e do lazer. Algumas vezes comprimido o tempo, "eficiente", abstrato; sem jamais perder o foco no qualitativo, nas volúpias corporais, na sensualização do momento. O Enredo “Vamos Vestir a Camisinha Meu Amor” é a celebração da felicidade consumista e erótica, da tirania do prazer, ao mesmo tempo paradoxal pois prega a atenção e o critério do uso da camisinha como preservação da vida. A exigência de permanência, o reinado do efêmero, a cultura da imediatez (tão causadores de ansiedades na hipermodernidade), na poética de Joãosinho só

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estão relacionadas ao prazer, à comemoração, à satisfação pessoal e catarse pelo carnaval da dura realidade. Debatendo-se no paradoxo pós moderno, sem esperar, para ele resta divertir-se, não renunciar a nada: nele sobrevive a promessa de um futuro eufórico, proposições políticas para um futuro radiante. A poética de Joãosinho Trinta vive a era da urgência, proponente da sensualização e estetização em massa dos prazeres. A sociedade Hipermoderna rebate esplendidamente na descontínua poética do enredo “Vamos Vestir a Camisinha, meu amor!”, que, em dobras e curvas, apresenta as exigências do tempo em que vivemos: a estetização dos gozos, a felicidade dos sentidos, a busca da qualidade no aqui e agora. A poética de Joãosinho Trinta é o acasalamento dos contrários que são a conquista da eficiência e o ideal da felicidade terrena. Um sexo praticado buscando a plenitude dos relacionamentos humanos, mas controlado, dirigido, enquadrado pelos rigores da preservação. Se existem distúrbios e desequilíbrios subjetivos, ainda assim o enredo celebra o absolutismo do presente imediato, glorificando a espontaneidade dos desejos, a cultura do "tudo já", do imediatismo que sacraliza o gozo sem proibições.

“As sociedades da modernidade tardia (...) são caracterizadas pela diferença: elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes posições do sujeito para os indivíduos”.68

A Desconstrução dos Saberes, Instituições, Tradições - A poética de Joãosinho Trinta se refere à autocrítica dos saberes e das instituições modernas, e à desconstrução das tradições. Há nele forte reabilitação de coordenadas tradicionais étnico-religiosas, de patrimônios simbólicos de longuíssima duração e de origem diversa. Há convocação e reutilização, para a construção de identidades e a realização pessoal dos indivíduos, de lembranças, universos de sentido, imaginários coletivos que fazem referência ao passado, o

68

HALL, 2002, p.16.

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eterno rearranjar das tradições conforme o princípio da soberania individual. Ela invade os reservatórios de sentido, as tradições do Ocidente e do Oriente, todos os saberes e todas as crenças (as mais irracionais e as menos ortodoxas – astrologia, reencarnação, paraciências etc.). Joãosinho Trinta é a memória revisitada, a remobilização das crenças tradicionais, a hibridização individualista do passado e do presente, o reemprego das tradições sem imposição institucional. Os efeitos maléficos da indústria cultural, que mantém estreitas relações com as narrativas-espetáculo patrocinadas por Companhias (em João, Mineradora, por exemplo) Projetos Sociais (Uso da Camisinha) e Cidades e Estados (São Luís e Maranhão) expõem o sacrifício hipermoderno dos encargos em nome dos efeitos financeiros, do desenvolvimento turístico ou da imagem midiática das cidades e regiões. "Jazidas" a explorar e promover, as antigas narrativas são seqüestradas, reformadas, transformadas em mensagens utilitárias a serem divulgadas. Na narrativa do “Nosso Brasil que Vale”, ante as ameaças da poluição atmosférica, da mudança climática, da erosão da biodiversidade, da contaminação dos solos, afirmam-se as idéias de "desenvolvimento sustentável" e de ecologia industrial, com o encargo de transmitir um ambiente viável às gerações que nos sucederem. Neste aspecto, o da indústria cultural, o enredo sobre o Brasil que Vale é a narrativa mais hipermoderna de Joãosinho Trinta (ao lado de “Vamos vestir a Camisinha, meu amor!”), pois apresenta o modelo de mercado e seus critérios operacionais, presentes na proposta da companhia de Mineração Brasileira, responsabilizada pela conservação do patrimônio histórico e natural brasileiro. Uma poética do capitalismo cultural e da mercantilização da cultura, onde a valorização do passado é um dos aspectos desta pós-modernidade. A ênfase sobre o impacto econômico da preservação do patrimônio é apresentada na parte final da narrativa, quando o narrador enfileira todas as benesses que as ações sociais e ambientais da Companhia tem proporcionado ao povo Brasileiro.

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A voz para todos: vencidos e vencedores (pela alegria) - A destradicionalização e a desinstitucionalização, encontradas na obra de Joãosinho Trinta, indissociáveis da pósmodernidade, permitem que ele toque em feridas como a enorme transformação das sociedades (ou classes) abastadas no contemporâneo, em narrativas que extrapolam o mundo dos "vencedores", e transcendem as diferenças de classes ou de grupos. Para ele, o sentimento de igualdade de valor de todas as opiniões e de todas as culturas é uma constante em sua obra.

“Ao ler os jornais, revistas e ver a televisão este Homem fica chocado, ao saber das notícias do Brasil que só falam de matanças de índios, crianças, devastações de florestas e outras calamidades”. 69

Sendo o reinado do presente mais o da diversificação dos modelos, da erosão do poder organizador das normas coletivas, da despadronização dos prazeres, a poética de Joãosinho Trinta confirma a tradição como produto de consumo nostálgico ou folclórico, de valor apenas estético, emocional e lúdico, dando o carnavalesco uma mera olhadela para o passado, um objeto-moda que não mais convoca à fidelidade. Quanto mais o hipercarnavalesco evoca e encena a memória histórica, menos ela estrutura os elementos do cotidiano que farão parte de suas narrativas, no que tange à atualidade. Nele, o passado seduz, mas o presente e suas normas cambiantes é que nos governam. Sua poética sempre exigirá do leitor, no aqui-agora a reflexão para uma nova postura. Quando elaboramos o enredo, as fantasias, os carros alegóricos, o desfile, enfim, estamos pensando, sempre, neste impacto.

Tocar nas cordas, muitas vezes adormecidas, deste instrumento fantástico que é a criatura humana. Avaliamos também, a contribuição que podemos dar para o assentamento de uma consciência nacional. 70

69 70

Anexo 10 – Enredo “O Rei e os três espantos de Debret” Anexo 4 – Enredo “Sou negro, do Egito à liberdade!”

118


Sobre a destradicionalização e desinstitucionalização, da qual nos fala Lipovetsky71, podemos encontrar exemplo destas características em vários enredos de Joãosinho Trinta, como, por exemplo, em Tereza de Benguela, uma Rainha Negra no Pantanal (narrativa que atribui à uma mulher negra uma qualidade pouco tradicional, a de liderança política), ou a severa crítica à tradição Católica e sua postura paternalista, na narrativa “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”. Uma voz hiperindividualista e diferente - O que me parece mais relevante, é que Joãosinho cria e recria um universo que lhe é próprio. Os temas propostos funcionam como ponto de partida para ele falar dele mesmo, dos seus mitos, sonhos e visões, seus deuses e monstros, com sua voz hiperindividualista e diferente. Ao valorizar a sua própria voz, sua própria percepção, o narrador João dá a senha da subjetivação largamente presente em sua poética. O ponto de vista do narrador, no conjunto da obra é de um hiperindividualismo distanciado, regulador de si mesmo, ora prudente e calculista, ora desregrado, desequilibrado e caótico. No universo funcional da hipermodernidade, acumulam-se os comportamentos disfuncionais. Joãosinho denuncia a internalização do modelo do homo-economicus que persegue a maximização de seus ganhos na maioria das esferas da vida (escola, sexualidade, procriação, religião, política, sindicalismo), e ajuda com sua narrativa a promover a desestruturação de antigas formas de regulação social dos comportamentos. E se ocupa também de uma enormidade de patologias, distúrbios e excessos comportamentais, como em “Gentileza X, o Profeta do Fogo”. Foi a civilização presentista que possibilitou as "políticas do reconhecimento" como instrumento de amor-próprio; as novas responsabilidades com relação ao passado; as novas querelas da memória. Neste complexo universo contemporâneo das identidades, uma questão importante recorrente na poética de Joãosinho Trinta é a do Hiperindividualismo. Neste

71

LIPOVETSKY, 2004, p. 86

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labirinto de contradições, ser hiperindividual pode significar lutar pelo reconhecimento de todas as diferenças, a dignidade de todos os grupos, como faz o narrador Joãosinho Trinta.

“A contradição é típica da Teoria pós-modernista (....) Os adjetivos podem variar: híbrido, heterogêneo, descontínuo, anti-totalizante, incerto. E também as metáforas: a imagem do labirinto, que não tem centro nem periferia (....); o rizoma aberto. .72

O hipercarnavalesco (caracterizado por uma narrativa em voz hiperindividualista) torna a identidade cultural, antes institucionalizada, agora aberta e reflexiva, pois, focando a vida nas felicidades individuais, Joãosinho Trinta desencadeia, paradoxalmente, a vontade de reconhecimento da especificidade conferida pelas raízes coletivas (como da negritude e do povo indígena) que se faz acompanhar de suas reivindicações de igual respeito às diferentes culturas, de uma multiplicação das exigências de reconhecimento público. Um desejo de hiper-reconhecimento que, recusando todas as formas de desdém, de depreciação, de inferiorização dos gays, lésbicas e travestis, na narrativa “Vamos Vestir a camisinha, meu amor!”, ou do povo de rua, no enredo “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”, exige o reconhecimento do outro como igual na diferença. Em sua poética, não basta sermos reconhecidos pelo que fazemos na condição de cidadãos livres e iguais perante os outros; trata-se de sermos reconhecidos pelo que somos em nossa diferença comunitária e histórica, pelo que nos distingue dos outros grupos no mundo, e entre nós mesmos como nação. Poética dos oprimidos - Nesta poética dos oprimidos, a negritude triunfa e Joãosinho Trinta investe emocionalmente naquilo que é mais próximo aos brasileiros: os vínculos fundados sobre a semelhança e a origem em comum. Fica clara a multiplicação das exigências de ressarcimento por agravos coletivos na colonização, as expectativas de reconhecimento público, as reivindicações cada vez mais freqüentes de um status de vítima para os descendentes de negros. Na sua poética encontramos as reivindicações de reconhecimento que

72

HUTCHEON, 1991, p 87

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são indissociáveis do ideal democrático moderno de dignidade humana. Joãosinho em “Vamos vestir a Camisinha meu amor” amplia o ideal do igual respeito, no reinado do presente: propõe tanto a satisfação imediata das necessidades, como a exigência moral de reconhecimento às identidades fundadas no masculino e feminino, na inclinação sexual, na memória histórica. Se o passado ressurge, as inquietações com o futuro substituem a mística do progresso. A Era da Felicidade - Proposta por Joãosinho Trinta, no núcleo temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal, a Era da Felicidade afasta tudo o que inculca uma imagem depreciativa do eu, todas as negativas de reconhecimento, que é atacada como ilegítima. A cultura do bem-estar individualista que, ao dar importância nova à necessidade de amorpróprio e de estima pelos outros, tornou inaceitáveis os sofrimentos engendrados pelas imagens coletivas desdenhosas que os grupos dominantes impõem; aparecendo como forma de opressão e de violência simbólica incompatível com o ideal de auto-realização plena. O descontentamento com as paixões políticas e as militâncias faz com que Joãosinho Trinta foque na cultura do bem-estar: o desejo de salvaguardar as antigas idéias de paraíso, como se fossem resistências à desumanidade dos infernos e a perda da fé no futuro revolucionário. É o que ele faz como narrador, exaltando a visão holística e intuitiva de Tereza de Benguela, na narrativa “Uma Rainha Negra no Pantanal”, Joãosinho Trinta (e seu alaúde) engendram a saga exemplar para o Brasil moderno da líder negra no pantanal matogrossense. Ela representa os desafios da luta, negra em particular, e humana no geral, pela liberdade. A poética de Joãosinho Trinta preocupa-se de dotar de raízes e memória o leitor, mostrando a necessidade de continuidade entre passado e presente. O presentismo é duramente golpeado por Joãosinho, que pede a transformação de suas práticas, dos modos de vida e de desenvolvimento. O neofuturismo poético de Joãosinho Trinta é anunciado no núcleo temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal, quando a

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consciência e as limitações de longo prazo produzem efeito, buscando uma nova orientação para o futuro: sob os auspícios da reconciliação com as normas do presente, um futurismo de esperança onde os espíritos não se sacrificarão. Trata-se de uma intenção decididamente desalienante, ainda que seja na forma de uma utopia que não tende ao nível de simples imaginação, de modo que encontra, ainda que de forma provisória, modos de realizar-se efetivamente. O ideal utópico e o real fundem-se provisoriamente na visão carnavalesca de mundo73. Espiritualidade - A questão da identidade e espiritualidade é onipresente como núcleo temático na obra de Joãosinho Trinta. Nela, as Igrejas não conservam mais forte ascendência sobre as consciências; o retorno prestigioso do passado se concretiza no despertar das espiritualidades e das novas solicitações identitárias; revivescências religiosas, reivindicações

nacionais

e

regionais,

ressurgimento

étnico.

Exemplificando

este

fortalecimento de referenciais que remetem ao passado, temos a narrativa. A aldeia global experimentada pelo narrador está inserida num universo de fragmentação cultural e religiosa, que o faz mobilizar os mitos e relatos fundadores de sua nação brasileira, revisitando patrimônios simbólicos e valores históricos e tradicionais. É neste quadro que o Hipercarnavalesco propõe o enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares, fazendo com que várias de seus personagens apropriem-se de um discurso de libertação, todos sonhando com uma sociedade sem caos social, para combater a exploração, a miséria e a injustiça, fora do discurso religioso. A mais contundente crítica reside na trama poética de “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”, quando o narrador abre uma categoria para o “Lixo das Igrejas”, citando todos os credos, pois, com a primazia do eixo do presente, crescem as religiões "desregulamentadas" e as identidades pós-tradicionais:

73

PONZIO, 2008, p. 177

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“Católicas, Protestantes, Umbandistas, Igrejas Eletrônicas, enfim, todo tipo de exploração espiritual. Falamos dos aspectos negativos. Os pedintes vão se fantasiar com os restos do luxo de todas elas, mitras, rendas, ricos bordados enfim; toda a riqueza adquirida com a fé e a promessa da salvação das almas”.74

O narrador coloca a tradição à disposição dos indivíduos, "mexida", mobilizada como via de auto-realização e de integração comunitária. Joãosinho Trinta reivindica menor ascendência da religião sobre a vida social; de outro, ele, com seu próprio movimento, recria exigências de moral e consciência coletiva. Rearranjando as tradições de sentido sagrado, propondo reflexão individualizada, a poética de Joãosinho Trinta sugere a emocionalização das crenças e práticas. Não é a irreligião; ela recompõe o religioso no mundo da autonomia terrena, um religioso desinstitucionalizado, subjetivado, afetivo. É um meio de construir-se e dizer o que se é, maneira de afirmar-se e fazer-se reconhecer. A filiação comunitária vem acompanhada de autodefinição e autoquestionamento. É a cultura liberal do indivíduo legislador de sua própria vida, com "religiões à la carte" aparecendo em cada esquina, que utilizam a tradição religiosa como meio de auto-realização subjetiva dos adeptos.

Identidade cambiante

“...não deixamos de estabelecer a sua continuidade, na dinâmica das reinterpretações culturais de outras civilizações africanas cujos representantes foram trazidos para o nosso país. Resgatar simbolicamente essa continuidade histórica, constitui a nossa contribuição para a construção da identidade do povo brasileiro”.75

Uma hipermodernidade do tipo multi-referencial é o que vemos na poética e Joãosinho Trinta: tradição e modernidade, agora de natureza reflexiva e autocrítica, apresentam-se de

74 75

Anexo 5 – Enredo “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia” Anexo 4 – Enredo “Sou Negro, do Egito à liberdade!”

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forma integrada, como a reencarnação de Debret, que vê diplomados em medicina e direito no final do século XX ,exercendo atividade de camelô, e lembra-se do Brasil império, quando estes diplomas faziam o indivíduo vestir fardas de nobreza. Quanto mais o sujeito é socialmente cambiante, desinstitucionalizado, volátil, hiperconsumista, mais surgem manifestações de esgotamentos e "panes" subjetivas. Como José Datrino, o “homem do povo”, empresário e “pai de família”, abalado pela tragédia do circo de Niterói, no enredo “Gentileza X, o Profeta do Fogo”. Quanto mais ele quer viver intensa e livremente, mais se acumulam os sinais do peso de viver. Ele vive os tormentos de nossa época, que está repetindo os problemas do período das trevas – ganância do dinheiro e poder, disputados por “forças antagônicas”. Renascido profeta depois do trauma, Gentileza é a fênix emocional hipermoderna, da qual nos fala Lipovetsky. Na medida em que esse cosmo hipermoderno gera insegurança, confusão referencial, extinção de utopias seculares, ruptura individualista do vínculo social; neste universo incerto, caótico, atomizado da hipermodernidade, cresce também a necessidade de unidade e de sentido, de segurança, de identidade comunitária – é a nova chance das religiões. Ainda na poética de “Anita Garibaldi”, a confusão referencial que desemboca na necessidade religiosa é vista na possibilidade de Anita ser Yansã, comparada à heroína em clara exaltação aos cultos afros, num jogo de reflexos místicos quando a personalidade de Anita projeta-se em todas as mulheres brasileiras “justas e equilibradas”. A identidade religiosa e cultural nas sociedades tradicionais era vivida como coisa natural, recebida e intangível, excluindo as escolhas individuais. Nas narrativas escritas de Joãosinho Trinta, a filiação identitária de brasilidade, é tudo menos instantânea ou dada em definitivo; ela é, isto sim, um problema, uma reivindicação, um objeto de apropriação dos indivíduos. Grande exemplo disto é a personagem principal da narrativa “Anita Garibaldi, Heroína das sete magias” fruto da miscigenação dos “círculos de magia” brasileiros,

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apresentados como sendo as contribuições de todos os povos que estiveram presentes na formação do Brasil, e que circundam a heroína e legam a ela qualidades e atitudes que a formam, resultado de um feixe de influências. A identidade própria é questionada, examinada; hoje, é preciso tomar posse daquilo que outrora se tinha naturalmente. A cultura hipermoderna se caracteriza pelo enfraquecimento do poder regulador das instituições coletivas, com o indivíduo se mostrando cada vez mais aberto e cambiante, fluido e socialmente independente.

“O sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias e não resolvidas” 76

A volatilidade de José Datrino, na narrativa “Gentileza X, o Profeta do Fogo”, significa muito mais uma desestabilização do eu, do que a afirmação triunfante de um indivíduo que é senhor de si mesmo. A ruptura dos antigos sistemas de defesa e enquadramento, dentro da personalidade deste personagem emblemático para a pósmodernidade, na poética de Joãosinho Trinta, bem exemplifica o declínio do poder organizador que outrora o coletivo tinha sobre o individual. Gentileza torna-se síntese desta poderosa dinâmica de individualização e de pluralização de nossas sociedades. As tensões temporais: ordem e desordem na temporalidade acelerada - A poética de Joãosinho Trinta reabre a questão do tempo social: o culto ao presente mantém que vínculos com os outros eixos temporais? A hipermodernidade multiplicou as temporalidades divergentes: horário flexível, tempo livre, tempo dos jovens, tempo da terceira e da quarta idade. Ao interferir nas escalas de tempo, a poética veloz e onírica de Joãosinho Trinta antecipa o presentismo reinante, a partir das décadas de 80 e (sobretudo) 90 do século

76

HALL, 2002, p.12

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passado, que vai intensificar nossa vontade de libertar-nos das limitações do espaço-tempo. Na sua obra, podemos constatar as tensões paradoxais que animam o regime do tempo na hipermodernidade: à medida que o presente amplia seu domínio, as relações com as coordenadas de passado e futuro adquirem nova relevância. O narrador propõe um grau dez da temporalidade: o presentismo não pára de abrir-se a outras coisas além de si mesmo, considerando imprescindível a consideração do antes e do depois. A dinâmica global transformou profundamente a relação dos indivíduos no tempo social, para além das classes ou dos grupos específicos. A sujeição ao tempo acelerado, com horizontes mais curtos, praticada por João (suas narrativas de enorme voltagem da lógica da brevidade), é sua busca pelo poder maior de organização individual da vida. Comprimindo o espaço-tempo, mudando sempre de direção, numa temporalidade dominada pelo precário e pelo efêmero, tudo serve de motivo para que o narrador prime pelo aqui-agora. Foi desta ou daquela maneira, o fato é que estamos diante das escolhas que definem nosso atual mundo. Parece que há uma urgência, quando o narrador não pode perder tempo com maiores explicações. A memória contrai o tempo numa lógica de urgência. Numa só breve narrativa de enredo, a ordem e a desordem das normatizações, a moderação e a imoderação (quando o narrador cita bibliografia para provar sua tese e, ao mesmo tempo, desarruma a lógica dentro de um universo quase sempre onírico). No Enredo “Ratos e Urubus, Larguem a minha fantasia” Joãosinho Trinta toca na questão da sensação de que o tempo se rarefaz: uns nunca dispõem de tempo suficiente, o indivíduo empreendedor, hiperativo, desfrutando a velocidade e a intensidade do tempo, exemplificados no enredo como pessoas luxo (deixando nas entrelinhas que são um lixo) e outros, os indivíduos esmagados "à revelia" pela ociosidade (desempregados, jovens de rua) o

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têm de sobra. Sobre essa duplicidade das maneiras de viver o tempo, há pouca dúvida: assistese mesmo à intensificação de novas formas de desigualdade social em face dele. O

tempo

destradicionalizado,

entregue

à

escolha

dos

indivíduos

e

esta

individualização levando à multiplicação dos temas e conflitos ligados ao tempo. Ainda nesta narrativa, “Ratos e Urubus” há uma dessincronização das atividades: surgiu uma autonomização crescente dos ritmos e das trajetórias individuais, no que se refere às limitações temporais coletivas, possibilitada ao criar o hipermercado dos modos de vida, o universo do consumo, do lazer e agora das novas tecnologias. O reinado do presente social (vetor de individualização das aspirações e comportamentos, de construções mais personalizadas dos usos do tempo) se faz acompanhar de ritmos em defasagem. A bipolarização do individualismo (por excesso ou por escassez) se afirma tendo como fundo essa pluralização e essa individualização generalizadas das maneiras de gerir o tempo. Um novo regime de tempo social - O passado é constantemente revisitado nas narrativas de Joãosinho Trinta, promovendo a reflexividade: longe de encerrar-se num presente trancado em si mesmo, é adepta do frenesi histórico-patrimonial e comemorativo, e da investida das identidades nacionais e regionais, étnicas e religiosas. Focada no presente e acompanha de uma onda de valorização da memória. A sociedade hipermoderna é contemporânea do tudo-patrimônio-histórico e do todocomemorativo. Neste predomínio do aqui-agora, entra a questão basilar presente na pergunta de Lipovetsky: qual o regime do tempo social que governa nossa hipermodernidade? 77 Ao apontar a temporalidade presentista (significando que o centro de gravidade temporal de nossas sociedades se deslocou do futuro para o presente), Lipovetsky nos ajuda a pensar o tempo na poética de Joãosinho Trinta. Com o esgotamento das doutrinas de

77

LIPOVETSKY, 2004, p.75

127


emancipação, o hipercarnavalesco irá sugerir o núcleo temático “Terceiro Milênio da Justiça Universal”, que, em sua poética, resolve de forma messiânica o porvir, tornando-se a finalização preferida em muitas narrativas. Neste esquema de raciocínio, se a justiça do futuro é certa, podemos viver o presente em plenitude com todo o excesso de bens, de imagens, de solicitações hedonistas. Se o eixo do presente é dominante na poética de Joãosinho Trinta, ele não é absoluto: a cultura de prevenção e a "ética do futuro" dão nova vida aos imperativos da posteridade (menos ou mais distante). É por isso que muitos de seus enredos vão terminar com a esperança num futuro justo e universal, onde é necessário que se respeite e se proporcione o bem viver. Suas preocupações referentes ao futuro planetário estão bem vivas, habitam e alertam permanentemente a consciência do presente, alimentando as controvérsias públicas, solicitando medidas de proteção para o patrimônio natural. Aspecto claríssimo na poética do enredo “Nosso Brasil que Vale”, onde o eco-desenvolvimento já começa a alterar certas práticas da vida pós-moderna. Muitos dos enredos de Joãosinho Trinta nos mostram esta passagem da sociedade que se organizava de maneira rigorístico-disciplinar para a sociedade-moda, que nos faz viver este novo tempo social, completamente reestruturada pelas técnicas do efêmero, da renovação e da sedução permanentes (hiperescolha, novidade, humor, entretenimento, desvelo, erotismo, lazer). O paradoxo do neopresentismo versus o neofuturismo - A poética de Joãosinho Trinta é uma poética das tensões: o narrador tenta organizar o caos de sua criação narrativa, tenta disfarçar as impossibilidades cronológicas que se apresentam constantemente em sua narrativa. Como narrador, “morde e assopra”: ordena com doçura, manda com delicadeza, fazendo do leitor um submisso, em quem ele tenta plantar a semente da rebelião. Esta organização caótica privilegia o futuro, sem a sensação de passar ao largo da "verdadeira"

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vida. E, carnavalizando os conflitos de tempo pessoal que se generalizam e se acirram, Joãosinho denuncia e atenua a aceleração dos ritmos de vida e a conflitualização objetiva da relação com o tempo. A sensação de fuga para adiante, apontada por Lipovetsky com característica do sentimento hipermoderno, encontra no núcleo temático do Terceiro Milênio da Justiça seu mais veemente exemplo. Uma imensa "inversão do tempo" que instituiu a supremacia do futuro sobre o passado. O cotidiano carrega o sentido da história, visando o passado, a estabilidade, a imutabilidade das leis que regulam o mundo, a hierarquia, a ordem, o sério, pretendendo conservar e consagrar a ordem social estabelecida. No carnaval, segundo Augusto Ponzio78, expressa-se uma ideologia inovadora, transformadora, que visa o futuro. Contrariamente à festa oficial, o carnaval é o triunfo de uma espécie de liberação provisória da verdade dominante e da abolição provisória de toda a hierarquia, de toda regra e tabu. Uma autêntica festa da temporalidade, do devir, das renovações, posicionada diante de um acontecimento ainda não realizado. A festa popular se serve de uma forma de comunicação que adequa-se a sua visão de mundo, ao seu sentido da relatividade, do devir, da transformação, do provisório, da igualdade, da liberdade, do refratário, com respeito a tudo o que se apresenta como definitivo, já realizado, eterno e absoluto. Lembrando que o tempo cotidiano se conta pelo movimento de rotação da terra (24h, um dia), o tempo carnavalesco pelo movimento de translação (um período que é variável). Ninguém chega atrasado no carnaval, por exemplo. E o carnaval se manifesta tanto interna como externamente. Se você não tiver no espírito da festa, pode tudo em torno brilhar mas dentro há luto, não há festa. Além disso, o carnaval é um rito de passagem que ocorre a cada ano com dados novos, nunca um carnaval é igual ao outro.

78

PONZIO, 2008, p. 170

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O carnaval não tem um sentido unívoco e totalizante, isto é, não tem o mesmo significado cultural e político para todos os foliões que, em última instância, são os sujeitos da festa. Além disso, vale ressaltar que no Brasil há diferentes formas de expressão carnavalescas e com origens históricas diversificadas. A esse propósito, observa Maria Laura Cavalcanti79:

“O carnaval é parte de uma civilização e seu tempo tem uma dimensão estrutural, pois com ele experiências e atos socialmente definidos retornam a cada ano. Celebra-se a carne, o corpo, a finitude, com mascaradas, fantasias e inversões, com a crítica e a sátira festivas à ordem social cotidiana que, temporariamente suspensa, retornará logo a seguir. A dimensão estrutural do tempo carnavalesco convive, entretanto, com outras dimensões temporais. Entre elas, são também cruciais a diacronia e o tempo histórico, pois o carnaval possui a sua própria história, existe em contextos sociológicos distintos e abrange diferentes formas festivas, todas com sua história particular”.

Essa temporalidade dominante faz prolongar de forma laicizada crenças e esquemas mentais herdados do espírito religioso, avanço inevitável rumo à felicidade e à paz, uma utopia do homem novo, humanidade redentora, a sociedade sem divisão.Assim, os ideais hedonistas travam intensa batalha com a ideologia da longevidade, pois a relação com o presente integra cada vez mais a dimensão do porvir.

É o fecho de um ciclo de evolução,o símbolo oriental, Egípcio e nagô da serpente mordendo a cauda. Claro que este é um momento dificílimo. O equilíbrio do passado com o presente e o avanço do futuro. A superação e a transformação. .80

Sem se despedir do futuro, Joãosinho indica o foco no instante do prazer e da alegria do desfile carnavalesco, este desejo fundamental do hipermoderno que é renovar sua vivência do tempo, revivificá-la por meio das novidades que se oferecem como simulacros de aventura. Mas como o futuro está no centro das inquietações e debates contemporâneos (um futuro que se tornou incerto e precário pois a mitologia do progresso contínuo e necessário, a promessa

79 80

CAVALCANTI, 1999, p.77-78 Anexo 4 – Enredo “Sou Negro, do Egito à Liberdade”.

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de um mundo melhor ou a ameaça de catástrofes em cadeia caducou, tornando-se incerta e ambivalente a relação com o progresso), cada vez mais como algo a prever e reorganizar, a narrativa de Joãosinho Trinta dele se ocupa no plano do mágico, do místico, do messiânico, do encantado, pois quanto menos o futuro é previsível, mais ele precisa ser mutável, flexível, reativo, permanentemente pronto a mudar, supermoderno, mais moderno que os modernos dos tempos heróicos. Por vivermos um presente dividido, apreensivo, assombrado pelos vírus e pelos estragos da passagem do tempo, e minado pela obsessão com o que está por vir, entramos em contacto com uma idéia pós-religiosa do progresso em sua poética: Joãosinho Trinta resolve esta "crise do futuro" da hipermodernidade (quando a absolutização do porvir histórico foi sucedida pela inquietação, pela pane das representações do futuro, pelo eclipse da idéia de progresso) tornando-a algo espiritual e de consciência, de certa forma um porvir indeterminado e problemático. Para isto o narrador se utiliza do Núcleo Temático Do Terceiro Milênio, recorrência em sua poética, geralmente pontuando a finalização da escrita, que é o contrapeso proposto por ele para fazer frente ao escapismo- futuro imaginável e transformado em algo caótico e incerto. A comodidade das conclusões apocalípticas para o mal é revertida em apocalipse do bem na poética da narrativa escrita do carnavalesco. Seria a crença num Terceiro Milênio da justiça universal uma compensação, uma maneira de consolar-se das desventuras da existência, de preencher a vacuidade do presente e do futuro. Seria este futuro um simulacro de imortalidade, sem visão teleológica, o futuro puro, a construir-se sem garantias, sem caminhos traçados de antemão, sem nenhuma lei implacável? E se a febre da brevidade é apenas uma das facetas da civilização futurista, como a efêmera narrativa do desfile se relaciona com a idéia do por vir? Na poética de Joãosinho Trinta há um desejo de perpétua renovação do eu e do presente numa recusa ao tempo exaurido e repetitivo, um combate contra esse envelhecimento

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das sensações que acompanha a rotina diária. Uma recusa de fossilizar-se, de repetir, de não mais sentir. O reinado da urgência - Vivemos uma época de guerras singularizadas do tempo, que se relacionam ao viver subjetivo: a ideologização e pela generalização do reinado da urgência.. Na sociedade hipermoderna se exerce e se generaliza uma pressão temporal crescente, onde o tempo é cada vez mais vivido como preocupação. Este estado de guerra contra o tempo, na poética de Joãosinho Trinta, faz do leitor o sujeito deste processo de Tempo acelerado e tempo redescoberto: De um lado, suas narrativas sofrem cada vez mais as limitações do tempo desabalado, de outro, avançam numa independência individual, nas subjetivações das orientações, nas introspecções (a organização da existência e dos usos do tempo exige arbitragens e retificações, previsões e informações). Nas sociedades individualistas, libertas da tradição, a auto-reflexividade deriva da crescente conscientização dos indivíduos: os indivíduos estão cada vez menos encerrados só no presente. A dinâmica de individualização e os meios de informação funcionam como instrumentos de distanciamento, de introspecção, de retorno ao eu. Uma das consequências mais perceptíveis do poder do regime presentista é o clima de pressão que ele faz pesar sobre a vida das organizações e das pessoas. Esta nova relação com o tempo é exemplificada pelas paixões consumistas, denúncia presente na narrativa “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”.

4.6. Análise dos enredos como máscaras anuais do narrador Após o levantamento das questões recorrentes nos enredos e a apresentação das máscaras presentes na narrativa do desfile de Escolas de Samba, é possível fazer agora a análise detalhada, proposta por esta tese, da narrativa de cada um dos enredos de Joãosinho Trinta que fazem parte do objeto desta pesquisa, com seus respectivos núcleos temáticos. 132


ENREDO “REI DE FRANÇA NA ILHA DA ASSOMBRAÇÃO” ACADÊMICOS DO SALGUEIRO – 1974

Análise da narrativa Joãosinho Trinta narra que Pretas Velhas Maranhenses contam que um rei menino criou uma imaginativa versão sobre as terras distantes do Brasil, que provocavam por suas belezas naturais e culturais enorme alvoroço na corte francesa. É um narrador muito próximo da figura do griot clássico, que se utiliza de outros griots, as pretas velhas benzedeiras, que contam a estória da versão fantasiosa de uma criança francesa sobre as terras do Maranhão. Como nos lembra Carmem Lúcia Tindó Secco, sobre o griot africano:

“é ele quem sabe recorrer ao mito dos gêmeos para fazer chover, invocar a kianda, consultar curandeiros, entre outras práticas da tradição. Representa, assim, a voz da terra, o animismo africano que os novos movimentos proféticos imitavam, em certos aspectos, prometendo curas milagrosas” 81.

Mas até chegar a este ponto, o narrador nos envolve numa série de informações poéticas e místicas que vão tecendo sua teia de encantamento em volta do leitor. No meio da narrativa, Joãosinho Trinta informa: “esta fantasia do menino é o enredo do Salgueiro!”. Entretanto o enredo é a fantasia de João sobre a capacidade humana de sonhar. Misturar sonho e realidade é a tônica do enredo, narrado em “tom” de entretenimento próprio das avós distraindo com estórias fantásticas seus netinhos. E nestas narrativas o ritmo vertiginoso se sucede em avalanche que busca cada vez mais arregalar os olhos dos ouvintes e fazer seus corações dispararem em sobressalto, escutando atentamente o momento seguinte da narrativa.

81

SECCO, 2001, p. 22-23

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Como estamos no terreno de imperiosa fantasia, a imaginação de três vertentes narrativas se entrecruzarão: a de Joãosinho Trinta, a das pretas velhas e a do rei menino, por exemplo, no fato de que ninguém disse a ele da existência das assombrações maranhenses, mas parece ficar subentendido que elas surgem até na imaginação de quem nunca ouviu falar delas. Ninguém contou isto, mas faz parte deste reino criado por Joãosinho Trinta sobre o que o menino rei fantasia. Ao ultrapassar este quinto momento percebe-se que é como se não importasse qual ponto de vista está sendo narrado, pois a narrativa se move em três ângulos, e estes invadem e se justapõem aos domínios e seqüências uns dos outros. Tanto Rei de França quanto Ilha da Assombração são produtos da imaginação do narrador Joãosinho Trinta, menino, moleque travesso, ouvidor de estórias, contador de tantas outras, sonhador, sapeca, imaginativo, onírico, verdadeiramente mentiroso (fingidor, no sentido etimológico de criador), assustado, empreendedor, com uma extraordinária capacidade de delirar, homenagear sua terra natal da infância distante, quando ouviu tantas narrativas maravilhosas.

Núcleos temáticos presentes em “Rei de França na Ilha da Assombração” 1. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Um paraíso rodeado por matas exuberantes com belos vegetais e lindos animais. Uma terra repleta de tradições culturais e cobiçada pelos outros povos. 2. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - Nossos índios vivendo felizes, sem problemas, nas matas do Maranhão. Um modelo de felicidade e realização. No melhor modelo do “bom selvagem” rousseauniano. 3. Núcleo Temático da Negritude Vitoriosa - Pretas velhas rezadeiras são as guardadoras dos segredos de antigamente e narradoras. Prevalece, portanto, seus místicos pontos de vista.

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4. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Gente virando bicho e planta, rei e sua corte virando assombração, jóias francesas virando arte plumária indígena. Uma festa de transformações!

ENREDO “O SEGREDO DAS MINAS DO REI SALOMÃO” ACADÊMICOS DO SALGUEIRO – 1975

Análise da narrativa A narrativa inicia-se listando os três aspectos que fizeram do Rei Salomão o mais poderoso rei de todos os tempos: a sabedoria (tesouro de caráter imaterial, psicológico), as riquezas (tesouros de caráter material, como madeira, pedras preciosas etc.) e o poder daí decorrente. Tais tesouros fantásticos o fizeram um líder ideal. Portanto o “ideal” humano seria equilibrar as posses “mentais” com as posses “materiais”. O narrador destaca que o segredo da localização das minas era desconhecido pelos integrantes da corte do grande rei, que apenas sabiam da existência das “terras de Ofir”. Havia um só homem que sabia chegar até as minas: o Rei Hiran, da Fenícia. O narrador tratará da inveja dos outros reis perante o detentor do segredo e as tentativas de espionagem e artimanhas para desvendar o mistério. Uma das técnicas utilizadas era o envio das mais lindas princesas para tornarem-se companheiras de Salomão. Aqui há uma paródia de opulência, pois, além de riquezas materiais e riquezas psicológicas, o Rei Salomão também tem uma quantidade invejável de mulheres em seu harém. Etiópia, Egito, Babilônia, Pérsia, Índia e Sião, todos os grandes reinos da antiguidade, tentavam descobrir o que, em última análise, seria a Amazônia brasileira.

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A narrativa, que tanto se ocupa da opulência do Oriente, agora introduz uma imagem de impactante riqueza, extremamente carnavalizada, uma alegoria em si dos costumes, tradições e desvarios, tanto daquela região do planeta quanto da imaginação e capacidade delirante do narrador: dez mil negrinhos de olhos verdes são um dos presentes da Rainha de Sabá para o Rei. Esta é uma típica imagem de narrativa que serve muito apropriadamente para ser transformada em desfile de escola de samba, onde a narrativa escrita está a serviço da possibilidade de transformar-se em narrativa visual. A conclusão da primeira parte da narrativa se dá quando o narrador declara que nada nem ninguém conseguiu desvendar o segredo do sábio Rei Salomão. Nada nem ninguém até que o narrador pusesse escrevê-la. Na segunda parte, será desvendado algo impensável, quase impossível, já que, se o único sabedor do mistério, que era o Rei Hiran da Fenícia, que não o revelou para ninguém, e nem mesmo Salomão sabia. É quando nos é explicado que são as pinturas rupestres do Brasil a prova definitiva da presença dos Fenícios na Amazônia, donde o narrador nos “sugere” aceitar como verdadeira a tese de que eram daqui que saíam as riquezas das Minas Misteriosas do Rei Salomão. Se o título do enredo fala de minas, obviamente que a noção de “pedra” vai ser uma constante na narrativa, e podemos vê-la tanto nas designações como “pedras preciosas” quanto na “lendária” pedra, o Muiraquitã, passando pelas inscrições na “pedra” que testemunham a presença fenícia na pré-história brasileira (vale lembrar que as tábuas das leis, do antigo testamento, eram pedras através das quais o Criador comunicou aos homens seus mandamentos - a pedra investida de poder divino). A expressão “pedras preciosas” já tinha sido usada na primeira parte da narrativa para caracterizar as riquezas das posses do Rei Salomão, quando da descrição da construção do templo. Na segunda parte, tais pedras são usadas como enfeites que as amazonas usam sobre seus corpos, ao lado de flores, para receber os visitantes.

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A narrativa irá se embasar nas inscrições rupestres pré-históricas brasileiras, ou itacoatiaras (pedras pintadas), para afirmar que estas são provas da presença dos fenícios no Brasil. E para isso, o narrador nos leva, no início do segundo bloco narrativo, a dar um salto temporal, e a estar no “hoje, aqui e agora” (1975). Iniciando esta segunda parte da narrativa, o narrador declara que “ninguém vai negar o que ele afirma”, utilizando-se desta frase de efeito, de forte poder de coerção. Uma palavra de ordem, de convencimento para os leitores. “Em letras antigas está escrito...”, a palavra “antiga” é usada para juntar os dois blocos e trazer o Oriente para as margens do rio das amazonas, as bravas guerreiras que recebiam os fenícios e que tinham entre suas funções as defesas de suas ricas terras, a “terra de Ofir”. A narrativa associará o Rei Salomão e as amazonas através de suas capacidades de despertar a inveja e a cobiça em seus inimigos, que elas combatiam com gritos de guerra. Gritos que elas só transformavam em gritos de amor uma única vez por ano, o que pressupõe uma imagem de “histeria” desta tribo de mulheres, sobretudo pelo fato de tal histeria só se aplacar quando a guerra cede lugar ao amor e ao sexo, que elas praticam com os fenícios. Como se comunicavam, não nos é informado, nem como se deu o primeiro encontro. Mas nos é dito que elas os consideram semideuses. Talvez pelo fato de falarem outra língua, se vestirem de maneira diferente, navegarem em embarcações estranhas (todas hipóteses). Mas nada disto é explicado pela narrativa. Entretanto, é bastante plausível a atribuição à Iara, deusa das águas, do envio de navegadores, afinal, os igarapés, rios e paranás são os caminhos mais utilizados pelos ribeirinhos. O fato das amazonas considerarem aqueles homens como “presentes” da deusa para as fecundarem dá à narrativa uma visão bastante moderna na forma de encarar a procriação, pois elas “usam” aqueles doadores de sêmen em festa, e depois eles partem, só voltando no ano seguinte. E mesmo os considerando semideuses, eles são presentes de sua deusa maior, num

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panteão feminista, e que parece visar o matriarcado, ainda que a narrativa não nos explique o que é feito dos meninos que por ventura nascessem. Mais uma importante “transformação” se dará neste universo das amazonas: a pedra verde Jade, que elas ganham dos fenícios, em processo ritualístico, se transformará encantadamente no Muiraquitã, motivo de tantas lendas amazônicas, por ninguém saber de que pedra é feito. Aqui vale ressaltar a noção da cor “verde” como a cor eleita pela narrativa, a cor da floresta, a cor da pedra, a cor dos olhos dos dez mil negrinhos da Rainha de Sabá. O verde amazônico, vegetal, como riqueza, disputando em importância com o ouro mineral, tão citado pelo enredo. O verde é presente de sedução, tanto na Rainha de Sabá, cuja intenção era seduzir Salomão, quanto dos Fenícios para seduzir as guerreiras. Além disso, é a lua cheia que possibilitará o ritual, ela mesma, prova das mutações possíveis do universo e dos acontecimentos mágicos que tais nuances proporcionam. Após a noite anual de sexo, descrita como orgiástica, a narrativa nos colocará, enfim, defronte das minas de ouro e pedras preciosas que dão título ao enredo: após serem fecundadas, as amazonas revelam aos fenícios as minas do Rei Salomão, o que define o ponto de vista da primeira parte da narrativa, que é o ponto de vista dos orientais, pois se supõem que as amazonas não as chamassem assim. Ao adotar um segundo ponto de vista, que é o do revelador do segredo, este narrador não assume a expressão “O Segredo das Minas das Amazonas”, mas revela que estas seriam as famosíssimas minas que entraram para a história universal como as minas do Rei Salomão. Trata-se da apropriação pelo estrangeiro de minas amazônicas, inclusive imortalizando-as com a designação mundial, famosa. É importante notar que a questão da sexualidade exercitada em várias possibilidades é tratada tanto na primeira como na segunda parte do enredo. Na primeira, temos um rei com 700 esposas que se utilizam inclusive do sexo para tentar trapacear. E na segunda, são as

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mulheres que utilizarão inversamente o ato sexual, como “forma de pagamento” a elas em troca de riquezas. As primeiras dão sexo e tentam descobrir segredos. As segundas só mostram os segredos se receberem, ou forem pagas, com sexo. O ato sexual como moeda de troca, relacionada a interesses outros, que não o prazer. E os heróis, lá o Rei Salomão e cá as índias da Amazônia, lidando de forma parcimoniosa com a sedução, não se deixando iludir, controlando os resultados do ato sexual e mantendo seus segredos. A narrativa se encerra com a despedida dos visitantes, que prometem voltar, quando o ciclo da lua se completar mais uma vez, dentro de um ano. São as narrativas históricas subordinadas e regidas pelas narrativas naturais.

Núcleos temáticos presentes em “O Segredo das Minas do Rei Salomão” 1. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Um paraíso de tesouros escondidos, de grande profundidade cultural, com habitantes valorosos e natureza riquíssima. 2. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Esta possibilidade de transformação de uma coisa em outra é recorrente na obra de Joãosinho Trinta, como sinônimo de atividade vital, processo de vivência e até mesmo o mistério do existir ( o saber da transmutação é próprio dos alquimistas). Gritos de ataque que viram gritos de bem-receber; pedra verde oriental que se transforma, após ritual, em talismã encantado da Amazônia; visita ocasional que muda a rotina da vida das amazonas por deixá-las grávidas, tudo isto configura um mundo que deve e precisa mudar, para melhorar.

ENREDO “A LAPA DE ADÃO E EVA” GRES BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS – 1985

Análise da Narrativa

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As portas da imaginação são abertas por uma narrativa dividida em 13 pequenos capítulos, que funcionam como título resumo, do núcleo temático a ser abordado no texto que segue. Tudo isto para demonstrar que a cidade do Rio de Janeiro foi e é o paraíso. O primeiro título, ao começar com o “podemos fazer”, nos dá o tom de que tudo é uma invenção (ficção), uma fabulação do narrador sobre o assunto abordado. E o que pode ser feito é tornar o Rio de Janeiro novamente o paraíso. Em seguida, o narrador afirma que este enredo é um canto de louvor ofertado à cidade, repleto de reflexão e alegria. Estas duas palavras serão a chave para o entendimento da abordagem, ora crítica, ora festiva /afetiva. Começa com a elucubração sobre a proximidade do Terceiro Milênio, uma recorrência na obra poética do autor e carnavalesco, que conta que só faltam 15 anos para a grande virada do ano 2.000. Ele alerta para a historicidade das turbulências que sempre rondam estes períodos históricos, coisa que estaria acontecendo de novo, naqueles dias, o que exigia preparação e equilíbrio para o desafiante novo tempo que se descortinaria. O narrador confessa que deseja que sua narrativa vá além da vibração do carnaval, que ela toque na mente e no coração de todos os que amam o Rio de Janeiro, sendo necessário, para tanto, que brasileiros, responsáveis pelo destino do Brasil, aceitem o que o narrador afirma ser uma verdade científica (o narrador, desde suas primeiras narrativas para carnaval sempre recorre a esta expressão, “verdade científica”, para surpreender a comunidade brasileira), a de que o Rio de Janeiro é o próprio berço da terra, revelação esta surpreendente e que enche o narrador e o leitor de orgulho, fazendo aumentar a dose de amor de todos pelo Rio de Janeiro, cidade de todos. Ser carioca é um estado de espírito, esta é a expressão que finaliza o parágrafo, abrindo espaço para o delírio do narrador, que, em seguida, anuncia que o Jardim do Édem, na fantasia do Carnaval, foi aqui, na cidade do Rio de Janeiro. E já que a cidade foi, com o auxílio do povo e do governo, o Rio de Janeiro poderá voltar a ser o tal paraíso. E o narrador

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utiliza o exemplo da própria realização do carnaval, para declarar a capacidade do carioca de “erguer uma nação”, assim como este povo realiza a maior festa popular do mundo. E tudo começa com o impulso e a vibração (o narrador deixa nas entrelinhas que é seu texto, ou sua declaração de intenções, quem dará este ponto de partida). Para finalizar este capítulo introdutório o narrador recorre à auto-citação da própria força de sua escola de samba, a Beija Flor, que dá o exemplo de como fazer e refazer uma história de sucesso e empreendimento de excelência, pois afinal, este pássaro é o mensageiro dos Deuses nas lendas Indígenas. No segundo capitulo, o narrador passa da possibilidade narrada nas primeiras linhas, para o estágio da afirmação agora revelada: “se o mundo começou pelo rio de janeiro, então o paraíso era aqui”. Tudo foi a partir de uma conversa que ele teve com o presidente da empresa do bondinho do Pão de Açúcar, quando este lhe revelou que estavam ali pisando o berço da terra, pois tanto as pedras do Pão de açúcar, da Gávea e do Corcovado, que formam um triângulo, são da era primária. Fascinado, o narrador admite sua fantasia de, a partir desta afirmação, concluir que, se a terra começou pelo Rio, aqui é o paraíso. Mas uma fantasia baseada numa “verdade científica”, pouco divulgada. Mas o que moveu o narrador a fazer uma pesquisa e encontrar um livro do Conselho Nacional de Geografia, de 1948, de autoria de Alberto Ribeiro Lamego, intitulado “O homem e a Guanabara” que na pagina 28 revela a teoria que será defendida pelo narrador: se não encontrarem formações rochosas da mesma idade ou mais antigas que as pedras do Distrito Federal e as da serra do Mar, então pisamos o próprio berço da terra. Como o narrador afirmou anteriormente que se permite fantasiar sobre este tema, o terceiro parágrafo traz a aparição da fruta do pecado deste novo paraíso. Sai a maçã do Édem e entre a banana. Banana que traz Carmem Miranda e o Cassino da Urca, que as usava em cacho na cabeça, de maneira tropicalista e com elas partiu para Hollywood. É importante notar que não há limites para o narrador, ele pula do Édem no Rio de Janeiro para os anos 30

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na Zona Sul da Cidade, sem dar grandes explicações ou se preocupar com plausibilidade. Para ele basta informar que nossas rochas são antiguíssimas para concluir que o paraíso poderia ser aqui, e em seguida anunciar a fruta banana como a nova fruta do pecado e na sequência invocar a artista que fez dela seu negócio. Simples e direto assim, sem maiores delongas. O quarto parágrafo mostra a efeméride do pecado original, quando uma Eva brasileira, habitando os arcos da Lapa envolvidos em ambiance demoníaca, e tendo como serpente Madame Satã. Adão é representado por três homens, três arquétipos do homem brasileiro, carioca: o erotismo, a força e a malandragem. Eva é expulsa do paraíso, e o Jardim se transforma para sempre. Esta transformação vai misturar travestis com estrelas de cinema, Teatro de Revista, o filme Sodoma e Gomorra, vedetes brasileiras dos anos 30 e 40, num clima de orgia É interessante pensar que dois eventos bíblicos inspiram o carnavalesco João a uma narrativa sobre a fundação do Rio de Janeiro, uma cidade cujo mito sagrado/profano de fundação parece nortear a poética deste enredo. Tudo isto será confirmado no parágrafo seguinte, quando Joãosinho defenderá a tese de que dois príncipes Fenícios estiveram na Pedra da Gávea há milênios. Inclusive o nome de nosso país, Brasil, seria uma derivação do nome do pai dos príncipes, o Rei Badezir. O mais surpreendente é que a missão dos príncipes seria iniciar aqui uma civilização que daria continuidade ao trabalho das ordens secretas orientais que, em Portugal, se uniram às ordens de Cristo e Aviz. O narrador lança mão do verbo “falam” e atribui a narrativa a terceiros, indeterminados. São estes que atribuem a forças negativas o naufrágio e consequente morte do casal de príncipes. E dando um pulo para a narrativa de desfile, o carnavalesco invoca em seu texto que como o assunto é sobre Fenícios, nada mais natural que, em vez de tratar da História dos Fenícios, ele trará à avenida a Grande Sociedade “Os fenianos”82, que trará a alegoria que juntará Pedra da Gávea com barcos fenícios. 82

Esta forma de carnaval é importada de França como expressão “civilizada” de carnaval em oposição ao entrudo de rua. As escolas de samba absorveram, das Grandes Sociedades, os carros alegóricos.

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Mais instituições festejadas do carnaval carioca são invocadas para representar os índios neste paraíso: as tribos do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça vão trazer a antropofagia quando um grupo devorará o outro83. Em seguida, outro mito Bíblico se reveza com as agremiações da história do carnaval carioca para auxiliar o narrador a encontrar soluções para o caldeirão narrativo: a atualidade (década de oitenta) do Rio de Janeiro traz a Torra de Babel, e isto vem recheado com o bom humor carioca, como se o enredo narrado não fosse, ele próprio, uma visão carioquíssima da cidade em referência. Prova maior é o momento seguinte da narrativa que debocha da política e dos políticos brasileiros, que parecem brincar com o país e o povo. Mas é o próprio carnaval, agora, todo ele, manifestação total de brasilidade, que surge como coisa séria ou antítese do fazer político no país. Duas questões importantes da cidade naquele período entram em cena na próxima sequência, honrando a tradição da poética do narrador, sempre antenada com as questões político-sociais do Rio e do Brasil: os camelôs (como representantes da economia informal) e os artistas de circo, impossibilitados de se apresentarem na cidade por falta de espaço público para montar as lonas. O narrador aposta na lágrima que rolará no rosto da platéia ao se lembrarem de suas infâncias. A questão homossexual é tratada sem contornos políticos no momento seguinte da narrativa: apenas a celebração das caricatas e estrelas do mundo gay, símbolos de incríveis transformações ao bom gosto e à pureza. O problema seguinte é a desvalorização do diploma, pois à época o grande jogador de futebol Sócrates triunfou nos esportes, ainda que tenha se diplomado na universidade de medicina. Esta questão provoca no narrador a afirmativa de que, no carnaval ele brinca com a verdade, porque no resto do ano elas machucam demais. 83

Vale salientar que esta forma de agremiação “bloco de embalo”, hoje em decadência, possui samba muito característico, dançante, contagiante, e que difere do samba enredo, por exemplo.

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O parágrafo final da narrativa se dedicará à questão do embranquecimento do samba, pois o break estava então caindo nas graças da população de baixa renda do Rio de Janeiro (incluído aí o verbo “michel-jequiar”, em alusão à ascensão de Michael Jackson). Mas é só uma constatação da narrativa, pois não há condenação nem de uma nem outra etnia, pois todos são brasileiros e tudo isto é contrabalançado pela presença sagrada da ala de baianas, envolvendo a narrativa pela “roda da vida”. Encerrando a narrativa, o narrador convoca noções de brasilidade para seu texto: a força do samba, canto do povo, raízes sanguíneas, o carnaval carioca como o maior espetáculo da Terra. Neste momento o narrador define e enumera a estrutura da narrativa de carnaval: harmonia, evolução, fantasias, bateria, alegorias, enredo e todo esse conjunto, todos esses quesitos realizam a verdadeira ópera de rua. O desfile de Escola de Samba seria veículo de conhecimento e mensageiro de verdades e beleza. O narrador, então, conclama todos da audiência para enxergarem as luzes do Terceiro Milênio através da visão do Cristo Redentor, ser energético em cujo céu voarão moderníssimos anjos: os voadores de asa delta. E há um apelo final para que o Rio volte a ser o paraíso, que será habitado por nossas crianças. Na alegria do carnaval, sonhos se tornam a realidade84.

Núcleos Temáticos presentes em “A Lapa de Adão e Eva” 1. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - A proximidade do fim de milênio, virada de século, trará um período de revelações. Mas, como mostra a própria história, é um período de reflexões e muito conturbado, exigindo concentração e equilíbrio. 2. Núcleo Temático do Fantástico - Seres demoníacos habitam a Lapa Carioca.

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Há grande parentesco entre esta abordagem da fundação do Rio de Janeiro, quando são convocados os momentos marcantes da manifestação carnavalesca no Rio (grandes Sociedades, tribos Indígenas, etc.) e o enredo “Orfeu, o negro do carnaval”, quando a narrativa também traçará paralelo entre a fantástica história de Porfeu da mitologia grega e as manifestações do carnaval do Rio.

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3. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - Para representar a Fenícia e sua história, nada melhor que trazer a narrativa a Grande Sociedade dos Fenianos (!). Não há compromisso com o real, ficando a invocação de aspectos da história do carnaval como soluções possíveis para representar os assuntos tratados pelo narrador. Tão maravilhoso que é a grande coisa séria brasileira, apontada pelo narrador. E mais que isso, o maior espetáculo da Terra. 4. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - os políticos brasileiros como grande exemplo da bandalheira nacional; 5. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - a ala de baianas é a grande manifestação do humanismo brasileiro, nesta narrativa. Elas carregam a roda da vida, são as queridas mães pretas de todos os brasileiros; 6. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - aqui destacamos a expressão raízes sanguíneas como sinonimização do esplendor de nosso país e nosso povo; 7. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - portais serão iluminados pelas luzes que emanam do Cristo Redentor.

ENREDO "SOU NEGRO! DO EGITO A LIBERDADE" GRES BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS- 1988

Análise da Narrativa O narrador informa que, em 1988, o negro foi libertado formalmente. Uma abertura bombástica, pois as palavras “libertação e formalmente” vão funcionar como paradigmas para toda a grande reflexão desta narrativa. Em seguida, o narrador revela seu ponto de vista: agora, cem anos depois, ele está refletindo sobre esta libertação formal, quando muito se fala de coisas tristes e sofridas que ainda envolvem a negritude brasileira; mas sua opção narrativa é proclamar liberdades maiores que engrandecem toda a humanidade, a liberdade das culturas

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negras. Vale ressaltar aqui a pluralidade de “culturas”, não reunindo o narrador toda a negritude em um só conceito de produção de cultura. Pela segunda vez, o narrador usa a agremiação Beija Flor de Nilópolis como a entidade narradora, a que prefere, a que exalta os pilares fundamentais destas culturas milenares, todos eles influenciados pelo conceito de harmonia com a natureza: artes, ciências, religiões, luta, bravura, amor, sensualidade, sabedoria, culinária, englobando todos os planos de manifestação do ser. No final do primeiro parágrafo, o narrador reafirma sua opção pela alegria e beleza, com muita emoção e, sobretudo, muito axé. No início do segundo parágrafo, é anunciado o título do enredo, e é questionado porque ele cita o Egito (a antiga técnica narrativa de questionar o ouvinte/leitor para em seguida, elucidar a questão). A narrativa se propõe a libertar o Egito Negro, que não está livre nas páginas da história, pelo embranquecimento desta civilização. A Egiptologia ideologizada do século XIX é denunciada pela narrativa como interessada em ocultar o caráter africano dos egípcios, servindo ao ideal colonizador, com o narrador afirmando que isto justificou o massacre e a dominação dos povos africanos (não explicando a razão). No século XX foi a Hollywood americana que encarregou-se de aprofundar este ocultamento, desvinculando o Egito do continente africano. No terceiro parágrafo, Joãosinho Trinta presta tributo ao trabalho do grande cientista negro Cheik Anta Diop e todos os pesquisadores interessados em uma verdade histórica já celebrada pelos sábios da antiguidade greco-romana (Joãosinho cita 9 deles) e pela Bíblia: os egípcios eram negros. Esta revelação está grafada com sublinhado na narrativa, dando a ela caráter de primazia. Mais que isso, o narrador recorre às pesquisas de Diopp para informar que o termo “egípcios”, utilizado por eles para se auto-designar, kmt, significa, literalmente, os negros. Não só designava mortais, bem como era um epíteto divino, utilizado para designar

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Deuses benfeitores, enquanto o termo vermelho, desret, designava os espíritos maléficos, vermelhos. O Grande Negro era denominação de Osiris, enquanto somente “negro” eram outros deuses como Toth e Ápis. Isis, a mulher negra, era identificada como Sekmt. O narrador declara que não está identificando o conceito de raça com o conceito de cultura, mas está justamente fazendo o contrário dos que não identificaram o Egito com a negritude, produzindo, enfim, sua contundente acusação que parece permear toda a criação da narrativa: a ideologia racista associou o negro com o animal na natureza, negando sua humanidade e declarando-o incapaz de contribuir ou criar civilizações passadas ou atuais. E, continuando neste momento de profunda sinceridade e coragem, a narrativa declara que o enredo da Beija Flor é acompanhado de “grandes verdades”, pois “na brincadeira do samba, muitas coisas podem ser explicitadas...”. O narrador estabelece então a conexão que será o fio condutor do raciocínio que unirá pontos distantes na narrativa: do Egito aos outros grupos que reinterpretaram a cultura africana, e daí aos escravos que vieram para o Brasil. É o resgate simbólico de uma continuidade histórica, que será a contribuição da narrativa para a construção da identidade do povo brasileiro. O narrador afirma que o Terceiro Milênio será o momento do Brasil, e já que esta narrativa se dá 12 anos antes do ano 2.000, muitas águas irão rolar: o Brasil no mapa geográfico tem o desenho de um coração (órgão que irriga o corpo com energia pura), mas se ficar de cabeça para baixo, desequilibrado, o mapa/coração terá o contorno de uma bunda, e o narrador então exclama admiradíssimo sobre uma bunda do tamanho do Brasil, e conclui que só as águas da bacia do Amazonas e do Prata conseguirão lavar tanta sujeira. Para não chegar a este ponto, a narrativa declara sua confiança na realidade histórica, no vínculo mental com o qual a marcha das civilizações dotou o corpo físico da terra. Esta marcha se deu do oriente para o ocidente, do norte para o sul, sendo, portanto, a América do Sul, o ponto final desta

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marcha. Como a serpente mordendo a cauda, o fecho do ciclo da evolução, símbolo este presente no Oriente, no Egito e na cultura nagô. Mas este fecho está num momento muito difícil, de superação e transformação, para a humanidade, pois vivemos o equilíbrio entre passado com o presente e o avanço do futuro. Enigmático, o narrador afirma que o sofrimento prepara caminhos, é o destino de nosso povo se conscientizar deste quadro através de várias maneiras. E Joãosinho Trinta volta a afirmar que se aproveitará de um momento de alegria para ajudar neste processo de conscientização. Utiliza-se da linguagem carnavalesca para realizar um Brasil maior. Um Brasil que é envolvido pelo misticismo e pelas tradições africanas. É este o ângulo de visão, portanto, que será assumido a partir de agora pelo narrador, proclamando uma liberdade do povo negro e do povo brasileiro através dos deuses africanos, pois esta unidade de pensamento africano pertence à genética do sangue brasileiro. Enumerando as qualidades da herança africana, a narrativa informa que Deuses e Orixás representam as forças da natureza, que encontram no biótipo humano, animal e, em outros planos, seus reflexos. Para que eles se manifestem é exigido que a oferenda de alimentação seja o primeiro ritual. E o primeiro Orixá a ser invocado na narrativa é Exu, a ligação entre o infinito e o finito. É o mensageiro que nos dá a primeira grande lição dos Orixás: a vida só se manifestará pela dinâmica da alimentação. Os ensinamentos dos deuses africanos continuarão em Oxalá, pai de todos, que come inhame, grande depurador do sangue, que se alimenta de comidas brancas, a sua cor, a luz, a energia pura. Lições de Oxalá: a pureza começa no aspecto físico, no sangue, e vem de algo baratíssimo, o inhame, o que contradiz a questão monetária. Aproveitando-se deste lado, o narrador acusa a modernidade de não ter sabido traduzir a verdade dos conhecimentos milenares das civilizações. Massacre efetuado pelo colonizador europeu, por exemplo, que impossibilitou o desenvolvimento africano, que não permitiu a passagem do conhecimento egípcio para a África continental.

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Uma modernidade que criou mecanismos complicados para não enxergar a simplicidade de tais verdades. E então, o narrador cita o exemplo do governo brasileiro que preferiu gastar milhões de dólares importando trigo, em detrimento dos farináceos brasileiros. Investimento este que poderia ter sido utilizado num programa de conscientização da população para consumir as farinhas brasileiras, no que o narrador denomina de uma cultura alimentar puramente nacional, de acordo com produtos e clima brasileiros. Até na comida somos colonizados, pois comemos até o pão francês. E poderíamos ter a alta sofisticação da cozinha internacional, pois Oxalá se alimenta de lesmas e caracóis, todos da mesma família do escargot francês, enquanto nós, brasileiros, desprezamos o igbim, num país que passa fome e é riquíssimo em frutos do mar, rios e cachoeiras. Oxalá e os franceses sabem que não é para ter nojo, tudo é uma questão de molho, aí está o segredo! Em seguida o narrador determina: por aí vai a intenção de nosso enredo! Interessante afirmativa, informal, tentando aconselhar o leitor a amarrar de forma não convencional tanta informação. Como se dissesse “relaxa”, para que desta forma encontrássemos o fio do raciocínio tão estilhaçado. Mais três Orixás serão invocados pela narrativa para exaltar os pilares da harmonia africana com a natureza: Ossanhe, do reino vegetal, das ervas; Obaluayê, o sol-energia que precisa de cobertura de palha e anteparos ou máscaras para não ferir o ser humano; e Oxossi, que representa o desenvolvimento sustentável pelo domínio da fauna. Este Deus africano, Oxossi, é identificado por sua atividade, a caça, com Anúbis, no Egito. E aqui o narrador faz um outro corte para ponderar que tem consciência de que, na brincadeira do carnaval, fica impossível passar tantas nuances intelectuais da sabedoria negra. Mas ele, o narrador, acredita na força da arte e na sensibilidade popular, que alcança mais do que podemos imaginar. Passa então a invocar a memória filo-genética, uma memória do passado, da natureza, da coletividade. E diz que alegorias, fantasias, enredo, enfim, o desfile,

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sempre são elaborados com o narrador pensando neste impacto85. Impacto traduzido pela imagem de tocar nas cordas adormecidas do instrumento fantástico que é o ser humano. E o narrador também considera que avalia a contribuição que ele pode dar, como narrador, para o assentamento da consciência nacional. As escolas seriam núcleos de artes populares e de desenvolvimento de culturas sociais, como o trabalho que a Beija Flor já estaria realizando em Nilópolis (e para isso o narrador utiliza “nós estamos realizando”), com uma creche para 300 crianças, que seria um educandário com iniciação artística e profissional, além da quadra de ensaios, gigantesca, onde cabem 20.000 pessoas, construída sem a ajuda do governo na Baixada Fluminense. Um palco aberto que recebe os programadores culturais de todas as vertentes, que acolheu inclusive a apresentação da orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, numa programação O narrador também se declara batalhador de uma visão mais generosa sobre a Escola de Samba, para além do desfile alegre e bonito que se realiza na Marques de Sapucaí. de arte negra, tendo em seguida uma noite de samba. E como foi sucesso total, o narrador afirma: o povo sabe o que é bom! E sua ousadia como narrador, diz ele, é oriunda das experiências na Beija Flor, em Nilópolis. Fugindo de temas fáceis ou repetitivos, o narrador busca assuntos que abram leques de estudo, debates e polêmicas, ainda que possam ser mal-entendidos, momentaneamente. Mas como a arte tem força (mais uma vez esta expressão) e esta especialmente, que se manifesta na batida telúrica da bateria de 300 ritmistas, na evolução de alas fantasiadas possuidoras de finalidades, na criatividade dos passistas, com grupos que trazem para o samba o gestual de suas raízes, em coreografias de carros alegóricos, enfim, na vibração da escola de samba que compõe a grande ópera de rua brasileira, popular, envolvente, vibrante, e, mais que tudo, carregada de Axé, que significa força, energia, luz. Axé para quem narra e para quem tem a responsabilidade de julgar esta narrativa. 85

Esta declaração me parece fundamental, uma vez que João tem plena consciência de que a cada ano é necessário apresentar novidades, por em questão a tradição (formas, estruturas, volumes), como se o público esperasse, parafraseando Johnny Alf, que o “inesperado lhe faça uma surpresa”.

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Núcleos Temáticos Presentes na Narrativa “Sou Negro, do Egito à Liberdade”: 1. Núcleo Temático da Negritude Gloriosa, Dolorosa e Serena - Na negritude gloriosa temos a exaltação de toda a herança cultural negra, desde a África e o Egito Antigo; na negritude dolorosa temos a constatação de que muitas das reflexões sobre o povo negro exaltam a dor e o sofrimento; e na negritude vitoriosa, o narrador decide exaltar com nobreza, alegria e elogio a trajetória do povo negro. 2. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - Cantando e dançando, nos momentos alegres, é possível se utilizar desta linguagem carnavalesca para produzir um Brasil maior. 3. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - O Terceiro Milênio será o grande momento do Brasil como civilização que encerra um ciclo milenar de expectativas. 4. Núcleo Temático do Desenvolvimento Sustentável - Oxóssi e Anúbis nos ensinam que é possível controlar as relações com a fauna de forma a nunca nos faltar o sustento. 5. Núcleo Temático da Desgraça da Condição Humana - Os colonizadores brancos que aprisionaram e esmagaram as tradições negras africanas, e a ciência historiográfica ideologizada, que embranqueceu a civilização egípcia, são os grandes sinônimos da desgraça humana nesta narrativa.

ENREDO “RATOS E URUBUS, LARGUEM A MINHA FANTASIA!” BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS – 1989

Análise da narrativa Joãosinho Trinta estrutura sua narrativa em três partes, que são: uma introdução, um desenvolvimento e um resumo final da listagem dos “lixos do luxo” e dos epílogos.

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Na introdução, o narrador não trata do assunto do enredo, e sim faz considerações sobre as técnicas de exibição do grande espetáculo que é o desfile de escola de samba, estabelecendo aí um paralelo entre a ópera erudita e esta ópera de rua que ele propõe. Deste paralelo, todos os aspectos de uma encontram-se plenamente desenvolvidos na outra, menos um: a interpretação. O narrador deseja a reciclagem da exposição de sua narrativa durante o desfile, abandonando o luxo e o visual que o imortalizaram e sua escola, já que vai narrar o lixo; e deseja também a incorporação da técnica de interpretação que ele não percebe na ópera de rua. A segunda parte do texto é o desenvolvimento da narrativa que ele quer contar no desfile, um protesto que tomará corpo como o enredo em si. Neste ponto, Joãosinho Trinta compara a geografia brasileira a um coração, que está desequilibrado, vira de cabeça para baixo e toma a forma de uma bunda, cujos excrementos precisam ser lavados. Tais excrementos introduzem na narrativa a idéia de lixo, sujeira, dejeto, que será a tônica do narrador. A partir daí, é expresso o compromisso do narrador com as alfinetadas no povo brasileiro. Ele deseja despertar o gigante que é o povo brasileiro, e pede que a população grite: ratos e urubus, larguem a minha fantasia! O pedido coloca o narrador verbalizando o mesmo “mantra” dos mendigos da narrativa. Portanto, o narrador convida para o Baile de Máscara todos os marginalizados, o que deflagra a situação tema da narrativa: para atender ao desejo de fantasiarem-se, todos correm para catar nas latas de lixo restos para suas fantasias, encenações, interpretações. O narrador confessa que tal é a quantidade de sujeira que cerca o país que se sente sufocado. Ele narra seus nove “sufocos”, que são os nove “lixos do luxo”, e seus dois “respirar”: o primeiro, sua glorificação e parceria com os moradores das ruas; e o segundo,

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sua esperança messiânica de que o futuro, a era de aquárius, o Terceiro Milênio chegue com a redenção da humanidade. Por enquanto, “na grande brincadeira-séria” que é o Carnaval, ele pede que os brincantes empenhem-se em interpretar esta gente que ele tanto ama e respeita, os excluídos. Proposta cabível na festa de inversões que o período momesco é, um transe que caracteriza o Carnaval como festa de contestação, de questionamento de papéis sociais, exposição das contradições. Radicalizando todas estas propostas na figura do mendigo que vira rei, tomam forma as possibilidades da ópera carnavalesca.

Núcleos Temáticos presentes em “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia” 1. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Um país em forma de coração, pronto para oferecer o que de melhor ele tem para seus habitantes. 2. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - De alma pura, os mendigos são comparados aos Budas da compaixão. 3. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - Festa da redenção, maior espetáculo da Terra em grandeza, criatividade e vibração. 4. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - Um país desequilibrado, um país virado de cabeça para baixo, um país em forma de bunda, repleta de excrementos que precisam urgentemente de lavagem. Um gigante levando porrada constantemente, onde falta amor, honestidade e respeito à vida. Armamentos, politicagem, igrejas e muitos outros aspectos negativos. 5. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - As entidades espirituais de rua, de vermelho e preto, no final da narrativa, banham-se em chafarizes milagrosos pela cidade. Entre eles, as crianças anunciam proximidade do “branco chafariz do aquário” (clara

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alusão à era de aquárius), cujas águas azuis purificarão suas almas no “canto do Terceiro Milênio”, como a água dos garis que lavam a passarela do samba para esta narrativa passar. 6. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Como o baile provoca neles a atração dos opostos, num “transe”, tais excluídos desejam interpretar seus algozes, “senhores ou reis de alguma coisa”.

ENREDO “TODO MUNDO NASCEU NU” BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS – 1990

Análise da narrativa Pensar um enredo sobre “planos” leva Joãosinho Trinta a construir, escrevendo, uma narrativa usando estes planos. Mas antes dele, o próprio Deus, escrevendo certo por linhas tortas, é lembrado como o maior de todos os narradores, e o grande responsável pela ordenação dos planos que serão trabalhados pelo enredo. É a escritura regida pelo escritor, que ciente da intenção final, pode recorrer a “linhas tortas” para alcançar seu sábio “escrever certo”, ou seja, as camadas desarrumadas são linhas tortas, mas corretíssimas para um final que escreve certo. O caos narrativo não assusta o narrador, que o submete em nome do resultado final e total. Sobre o caos dos planos citados, sugeridas, invocadas, surge a ordem maior do narrador Joãosinho Trinta, que, em um resumo impiedoso para tantas idéias, declara: “portanto, fica claro o enredo”. O narrador autoritário, dominador e domador de um feixe gigantesco de possibilidades vai arrumar o caos que é a história planetária, desde o “princípio” até o “alvorecer de um novo ciclo”. Portanto, deixando em aberto o cronológico, o enredo vive passível de múltiplas possibilidades, seu tempo é gerúndio, movimento, devir, interminável processo. Acalmando o

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leitor diante da imensidão de camadas tratadas, o narrador vai dividir a narrativa em dois blocos, e no meio deles um messianismo apontando para a possibilidade de transformação. Num foco narrativo temos a pré-história e a história do mundo, “caos e os monstros primordiais”, o passado e o presente se alimentando um do outro, utilizando a grandeza dos dinossauros e a grandeza das máquinas modernas para simbolizar massacre, e o petróleo, surgido nos primórdios, como exemplo de transmutação da matéria. No outro foco narrativo, temos a seleção natural das espécies, os bichos que sobreviveram e viraram “jogo do bicho”, que apóia o desfile de Carnaval, e são exemplos da sábia natureza. Entre um bloco e outro do enredo, flutua o sentimento oceânico do narrador que, investido de um messianismo filosófico “das energias” oferecido “a todos os homens de boa vontade”, usará “o samba como oração”, para concretizar sua vocação: anunciar a proximidade do “fogo da justiça” ou a forte luz da energia das crianças, símbolos dos “lírios dos campos” bíblicos, que nem o “Rei Salomão vestiu”. Resultando do choque das camadas antagônicas e contrastantes, tal messianismo pode ser comparado com o papel desempenhado no modelo freudiano pelo Ego, que equilibra a luta entre o Id e o Superego. Os instintos do Id, a pulsão sexual, podem ser comparados com o bloco narrativo dos monstros saídos do caos e a nudez inicial. Ao Superego podemos fixar o bloco da “imagem positiva” que resta do Brasil, o Carnaval. E ao chamar a atenção para a importância do “fogo da justiça e do retorno à simplicidade”, o narrador Joãosinho Trinta assume o papel de Ego para alcançar sua intenção final, preservar a vida no planeta.

Núcleos Temáticos presentes em “Todo Mundo Nasceu Nu” 1. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - As riquezas do país exaltadas de maneira ufanista.

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2. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - O Brasil, de vida incongruente, tentando desvencilhar-se de seus entraves (desonestidade e desrespeito humano). Além disso, a inflação, as falcatruas, miséria, violência, prostituições. Esmagamento de cultura, tradições e identidades. 3. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - O alvorecer de novos tempos como portador de justiça e sabedoria. 4. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - As máquinas modernas seriam reencarnações dos dinossauros terríveis. Além disso, temos a questão da transmutação dos elementos primordiais em petróleo.

ENREDO “ALICE NO BRASIL DAS MARAVILHAS” BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS – 1991

Análise da narrativa O narrador atende ao pedido de três mulheres que querem ouvir uma estória “sem pé nem cabeça”: as ouvintes são Prima, Segunda e Tórtia. Estas mulheres evocam em seus nomes a seqüência numérica, esta de grande valor na explicação da coerência do desfecho da narrativa, em que várias vezes são citadas quantidades, estatísticas, enfim, noções numéricas para fazer avançar a narrativa, como por exemplo “se os números do relógio”, “indicarem o Terceiro Milênio”, “portinha de apenas 0,30 centímetros, “o sagrado número 3 de Pitágoras”, “dois horizontais zeros”, “vertical 8 do infinito”, “terceiro mundo”, “oitava potência do mundo”, “dois e dois são quatro”, “quinta essência”, “número sagrado de Pitágoras, 137”, “40 milhões de crianças”. Antes do começar a narrar a estória propriamente dita, Joãosinho Trinta avisa às pedintes que “tudo tem muitos pés e muitas cabeças”, o que sinaliza para o simbólico, o

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metafórico, o jogo lúdico que começará a ser narrado: uma “espelhação conflitante”, onde a realidade brasileira será confrontada com os clássicos “Alice no País das Maravilhas” e “No país dos espelhos”, virando ambos História do Brasil, pois para o narrador, há enorme identificação entre uma coisa e outra, pulverizadas em doses espalhadas de acontecimentos, durante o sonho-pesadelo da menina Alice. Indo e vindo, comparando personagens de Lewis Caroll aos habitantes do passado ou do moderno Brasil, a narrativa vai fixando dicotomias, que sempre reforçarão a idéia do reflexo do espelho, da conflitante espelhação, das miragens no espelho, do reflexo de nós mesmos, o que ajuda a possibilitar ao leitor a noção de jogo, de mundo da imaginação, de acordado/sonhando, de real e alegórico, um terreno de nação contraditória, cheia de mazelas e grandezas, muitas vezes recorrendo à matemática explicativa (teorias pitagóricas, leis universais, decifrações antigas) para compor, justificar e embasar teoricamente as possibilidades de mudanças e soluções para o conflito principal: uma sociedade dividida entre os que possuem relógios com ponteiros e os que possuem relógios sem ponteiros. Os que possuem relógios com ponteiros são os subalternos, explorados, mas com conhecimento de si mesmos, em processo de aprendizagem, evolução, com reconhecimento de valores e percepção das constantes universais, com visão abstrata das leis do mundo, os que acompanham o desenvolvimento humanístico da mente e do espírito, os que aceitam o próximo sistema de evolução. E os que possuem relógios sem ponteiros são os loucos dominantes ou administradores da riqueza do Brasil, picados pela mosca azul da prepotência. Esta sociedade dicotômica está diante de novas esfinges, na verdade modernas versões de antigos dilemas humanos, que promoveram pesquisas e edificaram civilizações, e que levarão nossa narrativa à solução, ainda que mística, mágica e fantasiosa. A narração, como os relógios, pode ter ponteiros ou não, apelando para avanços às vezes cabíveis e bem explicados e outras vezes para “pulos” e soluções narrativas de difícil

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esclarecimento, que terão que ser aceitas pelo leitor para que ele continue no “jogo”. No meio da narração, Joãosinho Trinta nos revela a posição do Gato Caçoador, olhando o luxo e o lixo do Brasil, cujo irônico sorriso parece ser a postura do narrador, que usa de sutil ironia para explicar, expor ou comentar as situações que ligam o Brasil de hoje ao país das maravilhas de Alice, ela própria às vezes encarnando o Brasil e em outras “passeando por um jardim em forma geográfica de um imenso país”, perambulando por lagos encantados num quase afogamento, favelas, palácios, sempre “trombando” com personagens do cotidiano brasileiro. Se Alice vê, passeia e vive com o Brasil, e ao mesmo tempo é o Brasil, o narrador abre esta “janela” para o leitor: você é o Brasil e vive nele e com ele. A narrativa parece nos lembrar que nós somos a nossa pátria e a pátria é a reunião de seus habitantes. Como Alice, o leitor está tonto, entorpecido pelas contradições deste país mágico e enlouquecido. Há uma lógica onírica que permeia toda a narrativa: pula-se de um lugar a outro, hora somos grandes, ora muito pequenos. Fatos acontecem sem o menor aviso prévio, e tudo é como é, porque a narrativa vai avançando e não temos tempo nem buscamos explicações, apenas vivemos os acontecimentos e tentamos nos safar dos perigos e viver o bem-bom. Os contrastes encolhem ou alargam a personagem, mas nunca lhe parecem indiferentes. Alice e o leitor vagam por um labirinto desconcertante, dentro de uma narrativa que não busca lógica linear, mas que propõe aspectos soltos e conflitantes de uma realidade complexa e confusa, talvez só abordável pelo estilhaçar de suas idiossincrasias. Mas o narrador é autoritário e, com “mão-de-ferro”, impõe: “a versão é muito clara!” (pois estamos no terreno do “era uma vez”, num mundo onde as coisas nem sempre são o que parecem, num jogo de xadrez, num mundo encantado). Isto, no momento em que a narrativa faz Alice despencar no abismo e a faz chegar ao fundo do poço, já que o caos brasileiro é antagônico ao quadro inicial de um lindo jardim de flores e da frondosa árvore. Entre um quadro e outro, o coelho apressado, o cidadão brasileiro, atarantado, e precisando perceber

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que o Terceiro Milênio já está chegando e é preciso sair deste fundo de poço. Só um habitante, possuidor de relógio com ponteiros, pode perceber a “inexorável marcha das civilizações”, e que a hora do Brasil está se aproximando. Fazendo do brasileiro mediano um coelho apressado, estapafúrdio, correndo atrás do tempo, e fazendo Alice-leitor conviver com ele e despencarem juntos num mundo contraditório, onde o coelho vai errar e errar, o narrador permite que o leitor mantenha-se dentro e simultaneamente afastado da situação, o que pode revesti-lo de capacidade crítica. Colocar-se ou não no lugar do coelho. Resta a pergunta, que martela na consciência de cada leitor: seu relógio tem ponteiros, ou não? A solução será o leitor assumir sua porção “lagarta/crisálida”. Esta é a personagem através da qual poderemos ir para o mal - os tóxicos entorpecentes, que provocam a inércia -, ou para o bem, e encontrar a saída: a transformação dos estados vibratórios. Parado, ninguém pode ficar. Joãosinho Trinta aponta inimigos, escolhe antagonistas vilões, e, através deles, que podem ser rainhas, politiqueiros, duquesas, enumera responsabilidades pelo desencontro na nação brasileira.

Núcleos Temáticos presentes em “Alice no Brasil das Maravilhas” 1. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - Egoísmo, desamor, corrupção, sem-vergonhices, negociatas, “politiqueiros que estão construindo a triste história deste país”. A questão da infância brasileira abandonada encontra nesta narrativa o auge de sua exposição, revelando-se crucial preocupação para Joãosinho Trinta. 2. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - Chegará com o ano 2000 o acordar de um sonho/pesadelo, onde a balança da justiça se manifestará para os bons. Ao despertar, todos nós, brasileiros, veremos o alvorecer de um novo tempo, quando os estados vibratórios transformar-se-ão e chegará a hora e a vez de nosso país.

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3. Núcleo Temático das Matemáticas Decifrações - Números são símbolos de mensagens que, se decifradas, revelarão felicidade para o mundo. Há mistérios ainda por desvendar em antigas codificações numéricas. É preciso atentar para os números porque eles guardam segredos. 4. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - O corpo de Alice aumenta e diminui várias vezes durante a narrativa, o que demonstra caráter mutável. Além disso, a metamorfose lagarta, crisálida, borboleta é exemplo de evolução e transformação para melhorar. E no mundo das maravilhas, criancinhas viram biscoitos e porcos, ambos devoráveis. E a narrativa alerta para a necessidade de sairmos, todos, do estado de “pré-ocupação” para o estado de “ocupação”, o que nos fará viver melhor.

ENREDO “HÁ UM PONTO DE LUZ NA IMENSIDÃO” BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS – 1992

Análise da narrativa A narrativa tem como objetivo emparelhar duplos, para contrastá-los e sugerir possibilidades de convivência ou aniquilamento. Começa com as duas possibilidades de transmissão que a idéia “Televisão” pode conter: transmissão de sinais de áudio e vídeo (tecnologia) e transmissão de conteúdos (ideologia). O jogo de duplos irá “desfiando um rosário de possibilidades”: passivo versus ativo (quando a narrativa usa a expressão “sentados em frente ao aparelho” para criticar a passividade dos telespectadores), passado versus futuro (velhas senhoras baianas e jovens alas de comunidade, ou a certeza de que retratar o passado em programação novelística, hoje, é possibilidade do encontro de dois mundos.), preto e branco versus cor, diversão versus educação, agradável versus útil, nacional versus internacional (já que a televisão leva para

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outros cantos do mundo nossa “Escrava Isaura” – história, cultura e dramaturgias brasileiras), positivo versus negativo, regional versus aldeia global, popular versus erudito, ópera clássica versus ópera de rua, Carnaval versus realidade (a citação da novela “Pantanal” que desembocará em reflexão sobre as crianças pantaneiras), elite versus povo, homem versus animal. Até chegar à última e sintetizadora dupla, só alcançável através do desfile do enredo, quando ele se torna vivo, em progresso, e neste momento transmitido pela televisão: nos céus do globo terrestre as ondas de televisão registrarão a escola de samba afirmando que “há um ponto de luz na imensidão” – o ponto tecnológico e o ponto ideológico se encontrarão num só momento, transmissor e transmitido se auto-explicando e se auto-completando. Mas se na televisão poderemos ter um espectador passivo, pois recebe editado o material, com cortes direcionados, restringindo as possibilidades do assistir, no Sambódromo a platéia, ao vivo, “recorta o desfile cada um a seu modo, escolhendo takes compondo seqüências próprias, fazendo zoom pessoal". Portanto, o ponto de partida da narrativa é estabelecer que o título já circunscreve em si duas possibilidades de entendimento: a maneira científica de explicar este “ponto de luz” e a contribuição humana, educacional, cultural que transformaria esta transmissão em “ponto de luz”, farol e referência positiva para a humanidade. Há um modelo de técnica e arte que a narrativa junta através do “Ponto de luz”, ao mesmo tempo científico e poético/espiritual. Se a televisão nasce do milagre das descobertas da tecnologia moderna, ela também é importante janela para “iluminar a vida dos brasileiros”. Na parte de novelas, a narrativa cita “A Escrava Isaura” para trazer ao desfile a questão da negritude no Brasil Império, mas tal aspecto é imediatamente conectado com o futuro, pois, como afirma Joãosinho Trinta, “tanto nas crianças como naquelas mulheres idosas, o que nos deslumbra é a energia”. A novela “Que rei sou eu?” serve de gancho para o

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narrador citar os absurdos sociais do Brasil atual, já que é uma paródia entre o Brasil e uma fictícia corte devassa. Surgem então, na narrativa, questões como a corrupção, egoísmo e maldades dos dias atuais, golpes financeiros e sufoco do povo com tantos impostos. Em seguida, a novela citada é “Pantanal”, quando é exaltada a questão de como a televisão pode retratar a beleza cultural e ecológica de uma região do Brasil, mas um corte do narrador abandona a linha mestra de enumerações de aspectos da televisão e conta que esta parte do enredo o fez entrar em contacto com um projeto social em Corumbá, Mato Grosso, que culminou com a interação escola de samba / crianças pantaneiras, demonstrando claramente a submissão da “ficção narrativa” do enredo de Carnaval a uma narração da “aplicação e possibilidades sociais deste enredo” (o que reforça a questão inicial de que tanto a televisão quanto o Carnaval estariam submetidos à necessidade do alcance social de seus projetos, o fazer pensar, motivando os telespectadores). A narrativa recorre ao folhetim “Sheik de Agadir” para concluir sobre a importância dos dramas populares para a televisão: educar, divertindo. A trama dramática costurando informações valiosas: esta é a vocação perfeita da televisão. A narrativa avança para a notícia na televisão, dizendo ser esta a “grande conquista do homem moderno” e exalta as transmissões ao vivo. Ao narrar a qualidade do humor e do show na televisão, mais uma vez Joãosinho Trinta deixa a narrativa ficcional, estruturada, para, em um parêntese, destacar a “função” de Renato Aragão como representante das crianças brasileiras. A narrativa lança foco de luz na desprestigiada questão pedagógica que não tem sido orientada na programação infantil, e cita a “missão” que está depositada neste segmento. E cobra que, depois da grande festa que é o desfile de Carnaval, todos devem criticar e debater a programação infantil.

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Citando as transmissões esportivas, o narrador exalta as olimpíadas na televisão. E a possibilidade da competição olímpica acontecer no Brasil faz com que a narrativa mais uma vez toque na “preparação de nossas crianças”. Ao narrar a vertente das artes na televisão serão incorporados ao enredo vários aspectos presentes na televisão e no espetáculo de escola de samba: artes associadas que ajudam, em aglutinação, a enriquecer e diversificar as narrativas visuais da televisão e do Carnaval, como a música, a pintura, a dança, as artes populares, o teatro, a literatura. Neste momento da narrativa, surge o grande clamor do enredo: que haja mudanças na televisão brasileira para que ela possa alimentar as almas. A narrativa alerta para que, na brincadeira do Carnaval, esta narração contribua para “urgentes mudanças” que possibilitem a visibilidade de tantos artistas brasileiros (e não devemos esquecer que o narrador já se ocupou de falar da possibilidade que este enredo deu às crianças artesãs do Pantanal, que puderam expor seus trabalhos). A narrativa introduz na ópera de rua a ópera clássica “O Guarani” citando o cenário de castelo e alas de índios. O libreto da escola de samba cita o “contexto do libreto da referida ópera”. A narrativa juntará ciência e cultura com citação do Antigo Testamento na parte seguinte, pois o homem bíblico “feito à imagem e semelhança de Deus é a grande exibição das descobertas humanas”. Para encerrar a narração sobre a televisão, o enredo se volta para a narrativa feita por ela quando transmite o Carnaval. A narrativa afasta-se então de seu ponto de vista ficcional e torna-se “confessional”, quando o narrador passa a analisar o seu próprio desfile (e não mais qualquer desfile na televisão). Ele diz: “para fazer um espetáculo como este é preciso muita dedicação, estudo, trabalho e, sobretudo, amor”. Afastando-se ainda mais, a narrativa profetiza que ela mesma não se encerra ali, ela só se encerrará quando a própria televisão mostrá-la, no dia do desfile, pois aí a narração “estará

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nas mãos do povão que seguirá a Beija-Flor (última a desfilar), num arrastão que será imagem e narrativa de televisão, que será deixada nos céus, nas ondas no ar”.

Núcleos Temáticos presentes em “Há um Ponto de Luz na Imensidão” 1. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Um país de santuários ecológicos, costumes, lendas, “a força e a poesia da natureza”. 2. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - Capaz da vibração mais pura e autêntica do povo de rua, sofrido, mas que mantém forças internas para brincar o Carnaval. 3. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - A festa como testemunha da grandeza de nosso povo e tradutora do “maravilhoso”. 4. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - a violência urbana obrigando a população a um confinamento caseiro; a falta de realizações pois “neste país tudo ainda está por ser feito”; corrupção, maldades e egoísmo da atualidade. 5. Núcleo Temático da Negritude Dolorosa e Serena - As baianas da narrativa simbolizam o sofrimento e a sabedoria dos pretos-velhos. 6. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - A virada do Milênio como portador de justiça para as crianças abandonadas nas ruas, que se transformariam em vitoriosos atletas. 7. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Possibilidade de transformar raquíticas crianças desamparadas em potências esportivas competidoras.

ENREDO “TEREZA DE BENGUELA – UMA RAINHA NEGRA NO PANTANAL” UNIDOS DO VIRADOURO – 1994

Análise da narrativa

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Na parte histórica da realidade, nos é apresentada a valorização da negritude, demonstrada pela liderança fraterna, solidária e multicultural de Tereza. Na parte do desejo utópico temos o narrador Joãosinho Trinta assumindo o “enlouquecer” de sua personagem principal e tentando propor, hoje, o que ela outrora havia proposto. Ao mesmo tempo em que ela agoniza entre corpos mutilados e a destruição de sua sociedade igualitária, Joãosinho Trinta passeia entre os escombros de um Brasil dizimado pelas injustiças sociais e pela desesperança. Alternando os planos de realidade e desejo ele nos convida a acompanhá-lo em sua reflexão filosófica dos paraísos e infernos brasileiros. Associando a ganância das cortes européias, Portugal e Espanha, no período de Tereza, às altas elites de seu tempo, ele nos mostra que nada mudou; mas invoca a reencarnação da alma e do espírito de Tereza para iluminar o mito do Terceiro Milênio, simbolizado pela alegria infantil. E esta reencarnação se dará numa mulher brasileira, desconhecida e sacrificada pela miséria do país, portanto, o povo como transformador da realidade, após um momento mágico de reencarnação. Desejo e realidade convivem harmonicamente, pois Joãosinho Trinta aprendeu com a maldição do rei Ataualpa, que invocou a “Grande Deusa Coca” para destruir os exploradores com sua sabedoria. Há sapiência no delírio, há força no desejo utópico, há mudanças possíveis nos sonhos impossíveis. Há cultura em tudo o que o homem desenvolve e aproveita. E a lição maior: “merda não é cultura, mas estrume é”. Dos porões da necessidade e da dor, “no cativeiro de sofrimento e agonia” surge a fagulha iluminadora, “a rebeldia, acendeu a chama de liberdade, (...) o sonho de felicidade (...) a esperança (...) o negro abraçou”. No jogo narrativo do “esteja onde estiveres” Joãosinho Trinta posiciona seu companheiro alaúde “nos confins do Pantanal de Mato Grosso”, e seu desejo utópico “no infinito, junto a Deus”.

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Núcleos Temáticos presentes em “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal” 1. Núcleo Temático do “Bom Brasileiro” - “Na mistura das raças, a Rainha traçava o perfil do verdadeiro Brasileiro”. A raça síntese do povo brasileiro seria através da miscigenação, a mesma proposta pelo Parlamento do Quilombo do Quariterê. 2. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - E João pede que a grandeza da alma de Tereza encarne no corpo de uma mulher brasileira da atualidade, “pois mesmo na brincadeira do Carnaval é preciso fazer alguma coisa para dissipar o caos do Brasil atual”. 3. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - (abandono da cultura riquíssima, desprezo de terras férteis, falta de política agrícola, êxodo rural em direção às grandes cidades, famílias inteiras em bolsões urbanos de miséria, submundo de violências, crianças abandonadas, imprensa sensacionalista, forças poderosas das altas elites do país). Ele escreve: “fica difícil para minha consciência fazer o Carnaval, a maior festa do mundo, sabendo que tem gente morrendo de fome e crianças sendo mortas, no mesmo momento”. 4. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - É desejado pelo sambaenredo, “em forma de oração”, numa prece que invoca a força de Tereza para pairar sobre nós e “salvar o Brasil e fazer no ano 2000 nossas crianças receberem com alegria o alvorecer do Terceiro Milênio”. Este alvorecer, ligado à idéia de Luz, Sol Dourado de Quimera, vai clarear a escola de samba que “brilhará em uma nova era”, uma era onde “corpos alimentados poderão alimentar, agora, suas almas e espíritos com a dança, a música e todas as expressões de artes populares, sacras e profanas”, (...) “os mesmos alicerces que ergueram todas as civilizações, ou seja, as culturas. Cultura da alimentação e das artes”. 5. Núcleo Temático da Negritude Revoltada e Vitoriosa - Exaltando a visão holística e intuitiva de Tereza de Benguela, Joãosinho Trinta e seu alaúde narram a saga exemplar para o Brasil moderno da líder negra no pantanal mato-grossense. Fazendo a ponte com a atualidade,

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a Vila-Bela de Santíssima Trindade e a Cuiabá de 1741 representam os desafios da luta, negra em particular, e humana no geral, pela liberdade. Joãosinho Trinta escreve: “Sobre todos os componentes da Escola, nossos negros que formam a Comissão de Frente representam a cultura negra no pantanal”. 6. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Possibilidade de várias pessoas apropriarem-se de um discurso de libertação e lutarem por sua consecução. Ele mesmo, Joãosinho Trinta, no plano de seu desejo utópico, encarna Ataualpa, Montezuma, Tereza e os membros do parlamento, e todos os que sonham com uma sociedade sem caos social, para combater a exploração, a miséria e a injustiça.

ENREDO “O REI E OS TRÊS ESPANTOS DE DEBRET" UNIDOS DO VIRADOURO – 1995

Análise da narrativa O título da narrativa é enigmático: temos um rei e, sabedores sobre o Pintor Debret, somos informados de que ele sentiu três espantos. Um título em aberto, onde tudo poderá acontecer. Mas as primeiras linhas elucidam de imediato vários enigmas do título, em informação direta e curta, aliviando o leitor de mais mistérios. Somos informados que o Rei é D. João VI e o ano 1808 quando, partindo de Portugal para se livrar das ameaças de Napoleão, toda a corte portuguesa fugiu para o Rio de Janeiro, fundando o Reino de Portugal, Algarve e Brasil, sendo o Rio de Janeiro a única capital de uma metrópole européia em terras ultramarinas. Em seguida o narrador pula para o ano de 1816 (indicando que só fragmentos de informação serão dados, para que o narrador chegue rapidamente ao que lhe interessa narrar), momento em que o Rei providencia um grupo de artistas franceses para implantar as artes eruditas nas terras do

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Brasil. Este grupo ficou conhecido como a Missão Francesa. O destaque entre os integrantes era o professor de pintura histórica Jean Baptiste Debret. Este, tinha duas finalidades, ensinar a arte da pintura e fundar a Escola de Belas Artes (todas estas informações são secas e destituídas da opinião do narrador, algo inusitado nas narrativas de João Trinta, pois nas outras, sempre os dados históricos são acompanhados de versões muito pessoais, até interpretações, o que orienta o leitor sobre qual postura o narrador está tomando em relação ao assunto ou tema narrado. Não é este, até agora, o caso, aqui!). Ainda do primeiro parágrafo, o narrador informa que, chegando ao Brasil, Debret documentou em aquarelas tudo o que viu, tanto no Rio de Janeiro quanto em outros estados. Retratou, sobretudo, os costumes dos grupos humanos que habitavam esta região: índios, negros e brancos (além da natureza, flores e frutos). Um trabalho importantíssimo de pesquisa sobre a história do Brasil-Império e da vida cotidiana no Rio de Janeiro do início do século XIX. Iniciando o segundo parágrafo, o narrador conta que Debret, após longo tempo de trabalho no Brasil, volta à Paris e aí publica seus três volumes da obra “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil ou temporada de um artista francês ao Brasil de 1816 a 1831”. Uma obra de visão romântica, já que o narrador nos informa que Debret era um pintor envolvido com este estilo. Eis que, após esta introdução histórica, direto ao ponto, vem a ruptura através da informação do narrador, que dividirá a narrativa em dois blocos: esta mistura de sentimentos (percepções e pontuações sentimentais) com realidade histórica, existente em Debret, é o que permite ao narrador a ampla liberdade de criar esta narrativa. São introduzidas novidades, iniciadas com a indagação de “que enredo é este?”, desafiador e irônico. Desdenhando do senso comum que sabe quem é o Rei e conhece vida e obra de Debret, possivelmente informações menores, sem o charme da imaginação, por pertencerem aos compêndios de cultura, o narrador coloca em cheque os três espantos, perguntando para o

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leitor sobre eles, como se nos desafiasse para que respondêssemos antes da narrativa. Sabem quais são os três espantos? E sem esperar ou dar tempo ou brecha, o narrador autoritário determina: “vamos por ordem”. E a ordem vem revelando que o primeiro espanto está nos cadernos de anotações do próprio Debret, que vindo de uma Europa civilizada, ao chegar no Rio de Janeiro, espantou-se com a beleza da natureza, florestas virgens, riquezas minerais, vegetal e animal. Nunca tinha visto nada parecido, nem com o radioso sol tropical. É interessante notar que quando o narrador se refere ao espanto do “vindo de mundo civilizado”, ele abre uma brecha de enganação para o leitor, que pode inferir que o civilizado se espantou com a selvageria do lugar. Ledo engano. Ele se espanta com a exuberância da natureza. E admira-se com a mistura das raças, negro branco e índio. Um espanto histórico e pitoresco , portanto, o primeiro narrado, que Joãosinho Trinta denomina de história com “H”. Já o segundo espanto é estória com “e”, segundo o narrador. A prerrogativa inventiva e criativa da profissão do narrador carnavalesco, pois carnaval “é para isto mesmo”. Após o período de descanso no céu, merecido, após deixar o Brasil no século XIX, a alma de Debret reencarna (mais que isto, a expressão do narrador é “volta a reencarnar”, portanto, a própria existência de Debret na História do Brasil já seria uma das encarnações) na Paris de hoje, bela e imponente. Este homem que renasceu com o espírito de Debret vai sofrer o segundo grande espanto ao saber das notícias do Brasil: lendo em jornais e revistas e vendo na televisão, esta reencarnação de Debret fica chocada com a matança de índios, crianças e com a devastação de florestas e outras calamidades. O narrador reintera que somente coisas ruins são noticiadas, nada há de bom. Entretanto, é este cidadão comum da atualidade, reencarnação que se lembra da vida anterior passada no Brasil, o que o impulsiona a vir checar com os próprios olhos o que está realmente acontecendo. Ao chegar ao Rio, vê que muitas coisas mudaram, sendo que algumas notícias

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eram realmente verdadeiras, mas o narrador (e aí não sabemos se a reencarnação também está pensando isto) declara que o Brasil é muito mais que calamidades, uma grande potência com desigualdades na sua evolução. Ao dizer que Debret reencarnado respira aliviado, o narrador informa que tanto ele quanto a reencarnação pensam em conjunto. E conta das vertigens que o novo Debret sente, atordoado, com os mesmos vendedores que existiram no século XIX (agora chamados de camelôs) que em vez de venderem flores naturais, perus e cerâmicas, agora vendem eletrodomésticos, radinhos de pilha, relógios, e flores de plástico. Destaco a oposição flores naturais, flores de plástico para refletir sobre a oposição vendedores de antigamente, mundo moderno, natural e artificial, Debret e sua reencarnação, século XIX e século XX. As “mudanças incríveis” de uma sociedade, capaz de causar tonteiras e vertigem no observador. Após os vendedores, o narrador entra na questão da nova moeda brasileira, o Real, que vai aturdir ainda mais o já tonto Debret reencarnado, que se lembra novamente do Brasil Império. Não aprofundando a questão das moedas, o narrador volta aos camelôs, agora vistos em roupagem de nobreza, pois muitos são advogados e médicos, agora exercendo a função de camelô. Em seguida, o narrador diz que esta reencarnação de Debret é envolvida pela grande euforia das mudanças radicais pelas quais o Brasil está passando, com o povo reagindo contra as mazelas do país. Vibra com as conquistas internacionais no campo do esporte, e destaca a garra da juventude que transformará a nação. Tudo isto considerado prenúncio de uma nova civilização no alvorecer do Terceiro Milênio. O narrador evoca a voz de 160 milhões de brasileiros que, no ano anterior, gritaram em uníssono a vitória do Brasil na copa mundial de futebol. É este eco de “Brasil, Brasil, é campeão, é campeão!” Que arrepia e emociona Debret. Em seguida, a afirmação de que a imagem do Brasil está resgatada, deixa em aberto se resgatada para o narrador ou para a reencarnação de Debret, ou para dos dois.

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No último parágrafo, o narrador questiona, de forma singela, sobre o terceiro espanto, tomando a perspectiva típica de contador de estórias, que instiga os ouvinte a pensar sobre o passo seguinte. Revela que o terceiro espanto de Debret reencarnado vai se dar no carnaval, pois o turista francês, presente como platéia no maior espetáculo da Terra, está sentado nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí, encantando-se com todas. Mas no desfile da última, fechando com chave de ouro, o coração do turista bate mais forte pois percebe pelos figurinos, alegorias e pelo samba-enredo que o desfile trata dele mesmo, ou de sua vida anterior, e extraordinária presença no Brasil. As lágrimas rolam pelo rosto da reencarnação, quando lhe traduzem a letra do samba, cujo refrão diz: “vai raiar o dia/o meu terceiro espanto aconteceu/eu sou Debret, minha arte é fantasia/explode Viradouro, o carnaval sou eu!”.

Núcleos Temáticos presentes em “O Rei E Os Três Espantos de Debret” 1. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Debret encanta-se com a exuberância da mata tropical, das riquezas minerais, vegetais e animais. O sol tropical é incomparável. 2. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - A segunda reencarnação de Debret, como um francês da atualidade, lê e vê notícias sobre o extermínio de índios e crianças, devastação das florestas. Médicos e advogados exercendo funções que tradicionalmente eram desempenhadas por não-letrados, como camelôs. 3. Núcleo da Fantástica Transmutação - Reencarnações de vida, que se lembram das experiências passadas em outras vidas. 4. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - Povo reagindo contra as mazelas do país, vitórias em esportes internacionais, e atitudes da juventude, todos considerados prenúncio da nova civilização do Terceiro Milênio que o Brasil se transformará. 5. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - Debret encanta-se com o maior espetáculo da Terra, achando todas as escolas concorrentes lindas.

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ENREDO “ORFEU - O NEGRO DO CARNAVAL” UNIDOS DO VIRADOURO – 1998

Análise da narrativa Joãosinho Trinta narra a história de Orfeu, compositor negro do morro carioca, que venceu o concurso de samba-enredo de sua escola de samba da favela, cujo enredo é a História do Carnaval Carioca. Além disso, a vida do compositor é similar à vida do mito grego Orpheu, tanto na paixão pela música como no amor pela bela Eurídice. Portanto, temos um enredo metalinguístico, que narrará um outro enredo, com ele se encontrará, se fundirá, utilizando-o como linguagem de estética, pois para cada período histórico da estética da manifestação carnavalesca, caberá uma passagem da tragédia de Orfeu, que sempre lembrará o trágico Mito de Orpheu, grego (e seu desdobramento na adaptação do mito para o contexto carioca em “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes). Nesta “narração de uma outra narrativa”, a vida de Orfeu, com seus dramas, amores e preparativos para o desfile de sua escola de samba, é a ação principal, que “encaixará” nos momentos marcantes de sua tragédia as fases estéticas da segunda narrativa, os “tipos de manifestação carnavalesca”. A abordagem visual da segunda narrativa (saturnal, baile, corso, blocos etc.) dará suporte plástico aos acontecimentos da vida no morro de Orfeu. Joãosinho Trinta “embute” o desfile da escola de samba de Orfeu dentro do seu desfile sobre o próprio Orfeu. Para apresentar o universo da favela carioca em noite de desfile de sua escola de samba, em que é contextualizado o início da tragédia de seu compositor mais talentoso, apresenta-se a origem grega e romana do Carnaval. A musa Clio e o Deus Apolo dividem espaço com favelados cariocas nesta narrativa que funde antiguidade clássica com o contemporâneo do Rio de Janeiro. O clima dos bacanais precursores da festa de Momo é

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associado ao clima de pré-desfile na favela carioca. A colheita do vinho e sua alegria, a proximidade da apresentação da escola da comunidade: torpor, loucura e alegrias incontroláveis nos habitantes relacionados às duas atividades. No segundo momento, a perspectiva principal promove a projeção do talento musical do deus grego Orpheu sobre o Orfeu compositor de escola de samba, enquanto a secundária nos fala de “uma mudança que se opera no espírito carnavalesco”, sem fornecer maiores detalhes sobre este período. Podemos supor que se trata da fase compreendida entre a antiguidade clássica que precedeu este momento da narrativa e a próxima que virá (na perspectiva histórica, os ranchos carnavalescos e os bailes de Veneza). Para introduzir a personagem de Eurídice, Joãosinho Trinta dá a este amor o privilégio de ser tema do rancho carnavalesco da segunda perspectiva. Faunos, ninfas e zéfiros transitam ao lado da mulata, objeto do amor trágico do compositor. Uma bala perdida vai matar Eurídice no dia do desfile da escola de samba, num baile realizado no morro (o fôlego do “transe” carnavalesco no cenário de Joãosinho não tem limite). Esta bala representa a víbora grega que matou a bela. Como na segunda perspectiva, chega o momento de contar os períodos dos bailes de salão do Carnaval carioca. Joãosinho Trinta invoca os bailes luxuosíssimos de máscaras de Veneza para que este disfarce invada a primeira narrativa e simbolize a possibilidade de transmutação de símbolos no período carnavalesco: os participantes dos bailes da segunda narrativa usarão máscaras que serão utilizadas pela primeira narrativa para fazer avançar a história. Resumindo: um baile na favela carioca, representado por um baile de máscaras em Veneza, cujas máscaras de víboras simbolizam a cobra grega que picou Eurídice na mitologia e também simbolizam as balas perdidas do Rio de Janeiro atual, que a acertará em pleno baile, o da favela, citado inicialmente (vale lembrar o abandono do “detalhe” e a instrução para que nos fixemos no “todo”, onde estes acontecimentos fazem sentido). No geral, os mascarados

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podem ser de Veneza e do baile do morro, e são serpentes (gregas) que simbolizam balas perdidas (cariocas). O importante é que Eurídice morre, o que fará com que as narrativas avancem rumo aos infernos subterrâneos. A grandiosidade do inferno pertencerá igualmente às duas narrativas: na principal, Orfeu, o compositor, com a permissão de Plutão e Proserpina, descerá às profundezas para resgatar Eurídice, assunto perfeito para a suntuosidade das grandes sociedades, necessitadas de assuntos grandiloquentes. A profunda tristeza de Orfeu, oriunda do descumprimento da ordem de não olhar para trás sob hipótese alguma, o que acarretaria o desaparecimento de Eurídice, divide espaço com a manifestação carnavalesca dos blocos, oriundos da vontade popular de um carnaval desorganizado, sem compromissos oficiais, sem “ordens superiores”. Se na primeira narrativa o desfecho é terrível, na segunda, é uma beleza de citações: Bafo da Onça, Cacique de Ramos e Bate-Bolas (Clovis), glórias de nossa carioquice, e que falam do isolamento de nosso herói. Como se os blocos fossem antídoto único para um amor que morre em mágoas, afirmação que encontraria eco em muitos foliões destes mesmos blocos citados acima. E ao surgirem as bacantes ofendidas, invejosas tanto da Grécia como de nosso subúrbio, que despedaçam o corpo de Orfeu ao jogá-lo do precipício (aqui surge uma semelhança topográfica digna de nota), completa-se a idéia de semelhanças pois há muitas folionas desacompanhadas nos blocos cariocas. Os corsos, dos anos 20 e 30 do século passado, da segunda perspectiva, servem para a louvação do herói despedaçado na primeira. Aqui, é a idéia de movimento que vai dar a associação: os corsos se dão sobre luxuosos veículos em deslocamento cujos brincantes fantasiados representam temas. Joãosinho Trinta vai deslocar a louvação do mito grego, cujas cabeça e lira foram levadas pelo rio até as praias da Ilha de Lesbos, fazendo com que, agora, a

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cabeça e o violão de Orfeu sejam levados para os braços de bambas como Donga, Pixinguinha, Sinhô, Cartola e todos os magníficos “Deuses da Música Popular Brasileira”. Feito o deslocamento do mito grego do Deus da Música para os músicos sambistas, é hora da apoteose final: encerrar as duas narrativas louvando os compositores de escola de samba e o próprio desfile, revelando-nos que o Sambódromo é tão magnificente quanto a mitologia grega, pois arte divina e imortalidade se circunscrevem nestes territórios, onde João homenageia o talento musical dos que transformam em melodia suas narrativas literomusicais. Mais uma vez, o Carnaval está relacionado a modernos “griots da folia”, valendo citar Ney Lopes86., que nos informa: “na tradição africana, a memória e sua transmissão ocupam um papel fundamental”. E, sobre o griot, ele escreve:

“Termo do vocabulário franco-africano, criado na época colonial, para designar o narrador, cantor, cronista e genealogista que, pela tradição oral, transmite a história de personagens e famílias importantes às quais, em geral, está a serviço. Presente, sobretudo, na África ocidental, notadamente onde se desenvolveram os faustosos impérios medievais africanos”.

Vencendo o concurso de samba enredo da segunda perspectiva, Orfeu, na primeira, herdeiro do poder do Deus Grego, abre caminho para que a mágica se dê em ambas: quando o cortejo carnavalesco da escola de samba unificada cantar em desfile a glorificação dos compositores, João, o titã, invoca na sua narrativa a própria glorificação: o grito de “é campeã!”.

Núcleos Temáticos presentes em “Orfeu – o Negro do Carnaval” 1. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - O abandono do detalhe pela supremacia do interesse da visão global. O todo justificando falhas das partes. O talento das alas de compositores das escolas de samba cariocas só encontra paralelo possível com a trajetória do

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ENCICLOPÉDIA Brasileira da Diáspora Africana, 2004, p. 70

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próprio Deus da Música, já que são herdeiros diretos do poder maior de um Deus: fazer a multidão gritar “é campeã!” no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Um momento repleto de significação e grandeza míticas, os segundos que valem a eternidade, nesga de tempo que encerra em si o mistério do planeta. 2. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - A bala perdida, que mata Eurídice neste enredo, é tema recorrente na obra de Joãosinho Trinta. Por várias vezes ele alerta para este aspecto terrível da realidade carioca e brasileira. Víboras lá, balas perdidas cá; abismo lá, morro cá; inveja lá e cá. 3. Núcleo Temático da Negritude Dolorosa - Os compositores negros de samba da música popular brasileira, injustiçados historicamente, são valorizados em todo o esplendor, e apontados como portadores de talento divinal. 4. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Orfeu, o compositor carioca, “herda” tanto o talento quanto as circunstâncias da vida do Mito Grego, inclusive sua amada. É a reencarnação por transposição artística, alerta João, no histórico do enredo.

ENREDO “ANITA GARIBALDI - A HEROÍNA DAS SETE MAGIAS” UNIDOS DO VIRADOURO – 1999

Análise da narrativa É sobre a formação de personalidade, influências conscientes ou não, heranças culturais e convivência dos humanos com o mundo fantástico, o tema desta narrativa. O ponto crucial é tentar explicar e demonstrar que a terra onde nascemos nos lega aspectos fundamentais de nossa formação psicológica. Duas pinceladas de “história” são dadas no início da “estória” de Joãosinho Trinta: a data e o local do nascimento, que localiza histórica e geograficamente a heroína, e o encontro

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do grande amor e companheiro de luta revolucionária, Giuseppe Garibaldi. Mas o narrador nos alerta não para a visão histórica e dramática da vida desta mulher, e sim para o desenvolvimento de uma narrativa que privilegiará aspectos fantasiosos. O uso da imagem de batalhas, lutas e perseguições no início da narrativa é tomado também como simbólico para a questão da confusão e tormenta da formação da personalidade da heroína, que ajuda a fundar a República Juliana, no Brasil, e a unificar a Itália, em dois processos representativos da fundação de um “eu” unificado. Cada ser humano é uma república unificada. Em seguida, a narrativa une a idéia de ilha com a de personalidade, elegendo o marco inicial de narração o fato de a heroína ter nascido na Ilha de Santa Catarina, sendo esta ilha conhecida como a Ilha da Magia. É este tom mágico que será utilizado pelo narrador. O nome da ilha, proveniente de uma lenda açoriana, empresta, de início, o tom de fábula com o qual o narrador jogará, ao seu bel-prazer, as informações histórico-culturais, nos avisando, de antemão, que tudo isso será herdado por Anita Garibaldi. A lenda açoriana começa com uma sugestiva noite de lua cheia, que abre o mundo para os mistérios e as possibilidades da fantasia. É sob este tom prateado que se dará a seqüência de heranças da heroína, que inclusive será citada como um “ser de prata”. Mulheres (bruxas e feiticeiras) realizavam grandes rituais nestas noites de lua cheia, até que um dia lhes faltou uma poção mágica. Clara alusão ao “faltar algo” na vida de uma pessoa, sentimento de incompletude há séculos reclamado pelas mulheres, inclusive que não participam das guerras armadas nas quais Anita terá papel destacado de liderança. Falta algo à vida das sempre relegadas a um segundo plano, e a falta de poção mágica impulsionará bruxas e feiticeiras (elas que foram queimadas pelo poder oficial na Inquisição) ao vôo rumo às Índias Orientais, vôo este representativo da trilha de Anita rumo às suas revoluções internas e externas.

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Asas de borboleta, bela imagem, surgem na narrativa para o deslocamento da lenda açoriana para o enredo de Joãosinho Trinta. Se mulheres viravam borboletas naquela tradição oral, nosso narrador determina a existência de sete círculos mágicos cercando a vida de Anita Garibaldi. Se na lenda pode, aqui também pode. Se a crendice popular é criativa, também o é a crendice do Carnaval e nosso narrador assume o papel de bruxo-mor para criar sua própria poção mágica: o desfile da Unidos do Viradouro. Portanto, a vida de Anita Garibaldi é cercada (a ilha) por sete círculos que a determinarão e a formarão. No primeiro círculo, o Ser de Prata está na Ilha da Magia, lugar onde nasceu e que legará a ela estas possibilidades de ser formada por aspectos místicos, mas não só deles. É interessante notar que, no segundo círculo mágico, as mulheres rumam ao Oriente para buscar o que lhes faltava. Lugar simbólico do mistério, do torpor, de danças sensuais e lenços fluidos e transparentes, completado pela ambientação medieval, alquímica, que ajuda a dar um tom transcendental à narrativa. Beleza e sabedoria do Oriente socorrendo o segundo círculo para manter o fantasioso. O terceiro círculo de magia que cerca Anita é composto dos sortilégios e conhecimentos da natureza da tribo dos índios Carijós. Ao lado de véus e incensos orientais e ao lado das cúpulas e masmorras medievais instalam-se na narrativa os cocares de penas tropicais, em um exemplo de alquimia mágica narrativa. Rajás e pajés, matas virgens e o Tibet, os Carijós e o Taj-Mahal. Mistura iconográfica, de valores, de regiões do mundo. Na fantasia carnavalesca, tudo pode. A justiça e o equilíbrio indígenas, que harmonizam e preservam todos os elementos da natureza, serão herdados pela heroína, que terá, ela mesma, que harmonizar tantos aspectos de personalidade. Piratas e corsários invadirão a narrativa no quarto círculo do “entorno” da ilha e de Anita, e aportam antes da descoberta do Brasil (assim como alguns círculos pré-existem ao nascimento da heroína e a influenciam antes dela dar-se conta ou tomar consciência de que

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sua personalidade está sendo formada). Audácia, intrepidez e aventura apossam-se deste espírito feminino, acoplando vibrações captadas pela alma vibrátil da jovem catarinense. Monstros marinhos, canhões e tempestades entram em cena neste aspecto da formação da personalidade de Anita: o ser humano é uma revolução, uma tempestuosa realização de unidade, uma batalha. A vida como epopéia de lutas e sofrimentos. Vibrações negras de força milenar da cultura africana formarão o quinto círculo de magia, que junta sagrado e profano e tenta equilibrá-los, “cercando” desta realidade Anita, que é comparada às filhas de Yansã (talvez a incorporação do próprio Orixá), senhora dos ventos e dos relâmpagos (novamente as tempestades). O sexto círculo mágico é formado de vários sub-círculos, heranças de diversas etnias brancas cujas tradições formaram a Ilha da Magia e alimentaram a alma de Anita: alemães, austríacos, judeus, italianos, árabes, portugueses e franceses, com seus belos exemplos de adaptação e trabalho. No sétimo círculo de magia surgem dois símbolos do mágico poder da vida: um barco em terra firme e a loba romana que amamenta os fundadores da Itália! O barco como um elemento fora de seu habitat natural, o mar. Os revolucionários, liderados por Giuseppe e Anita, atravessam a ilha com a embarcação em cima de um grande carroção em desconcertante façanha. Momentos em que uma pessoa se sente “fora do lugar”, não adaptada, como no caso de Anita, que busca na Itália um novo habitat, onde seria possível a consecução de seus sonhos de amor, família e revolução. A loba é encarnada, nesta narrativa, por nossa heroína. Suas tetas amamentaram os gêmeos Rômulo e Remo, fundadores de uma cultura, depois unificada por Anita. As tetas de Anita, tanto quanto as da loba, amamentam compatriotas de sonhos e vitalidade. Impulsionam seus irmãos à fantasia de viver. O barco e a loba são ideais de libertação e justiça.

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No final da narrativa, Joãosinho Trinta usa a palavra "enraizado" que, ao lado da palavra ilha, vai também representar a noção de personalidade: o tronco, preso à terra mãe por raízes cada vez mais fortes e espalhadas, unindo-o ao começo de tudo, ao passado; galhos e frutos que expandem a árvore ao vento e germinarão com sementes o solo para que novas vidas apareçam. O tom glorificador surge no final da narrativa, quando Anita é comparada a outras heroínas como Joana D`Arc e Teresa de Benguela. Tomada como espelho da mulher brasileira, Anita representa a bravura das habitantes do Brasil. Imagem refletida que abre a narrativa, em sua parte final, para a questão dos vários círculos de magia que circundam a vida nacional, ontem e hoje. Se há sete magias que transformaram Anita, Ser de Prata ontem, em Anita, a brasileira guerreira de hoje, há também, no desfile de Carnaval, círculos de magia que continuam a fazer de nós, brasileiros, seres especiais. Portanto temos mulheres reais, brasileiras, que refletem no seu ser, o ser de prata, com a ajuda da prata do espelho que elas próprias são. Um final de narrativa “prateado”, que junta Ser de Prata, Anita Garibaldi, Espelho Prateado e a brava mulher brasileira de hoje.

Núcleos Temáticos presentes em “Anita Garibaldi, a Heroína das Sete Magias” 1. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - A miscigenação de todas as raças, aqui aparecendo como “círculos de magia”, que circundam a heroína brasileira e legam a ela qualidades e atitudes que a formam, resultado de um feixe de influências. 2. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - Joãosinho Trinta declara que não se baseia nos fatos históricos, dramáticos da vida da heroína. Procura criar uma “alegoria de enaltecimento”.

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3. Núcleo Temático da Negritude Vitoriosa - Um dos círculos mágicos, o da herança cultural negra, é um elogio à raça vinda da África, e uma das Deusas-Orixás, Yansã, é comparada à heroína em clara exaltação aos cultos afros. 4. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - Além da questão do espelho nos trazer a possibilidade do “rebatimento” da personalidade de Anita em todas as mulheres brasileiras, temos influências culturais herdadas que transformam a heroína em mulher “justa e equilibrada”.

ENREDO “BRASIL, VISÕES DE PARAÍSOS E INFERNOS” UNIDOS DO VIRADOURO – 2000

Análise da narrativa Joãosinho

Trinta

não

começa,

narrando

o

corpo

ficcional

do

enredo,

surpreendentemente, inicia com um preâmbulo. Ele utiliza o recurso do flashback, como se recuasse no tempo, propondo ao leitor que se junte a ele, para olhar de fora a narrativa ficcional do seu enredo escrito. Joãosinho Trinta abre a narrativa contando para o leitor o histórico do que o levou a decidir pelo assunto. Como não utiliza qualquer recurso gráfico ou convenção para destacar o preâmbulo , o “de fora”, já está incorporado no que vai narrar. Informa que foi a Liesa (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) quem, naquele ano, decidiu que todas as escolas tratariam do mote “500 anos do descobrimento do Brasil”, como se dividisse com o leitor a angústia da escolha, igualmente celebrando a felicidade de encontrar entre as vinte e uma opções ofertadas, a que lhe faria feliz. O que Joãosinho propõe funciona como um banho de realidade antes da ficção, mantendo o leitor em sintonia com o real, segundo ele, a esfera que o obriga a narrar. Atribui

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à Escola de Samba Viradouro a decisão de narrar o item n° 2, "A Carta de Pero Vaz de Caminha e o Impacto que o Descobrimento do Brasil causou no Imaginário Europeu" . Vale destacar o fato da não utilização da primeira pessoa do singular por parte do narrador, “eu decidi contar”, pois sendo o desfile de Escola de Samba uma narrativa comunitária, o carnavalesco deverá ser magnânimo e falar em nome da escola, da coletividade. Entretanto, podemos pensar que há um tom “a Viradouro sou eu, eu narro, eu decido, o que é a mesma coisa que a Viradouro decide”. Mantendo-se ainda de fora do discurso ficcional, Joãosinho relata que sobre o tema sugerido e escolhido, ele encontrou dois livros que serão a base de sua narrativa: "Visão do Paraíso" (Sérgio Buarque de Holanda) e " A Invenção da Amazônia" (Neide Gondin). É interessante notar a necessidade que o narrador tem de expor sua bibliografia, como se quisesse dizer: “vejam, tudo o que sonho parte de amarras históricas, respeitáveis. Não estou inventando nada”, talvez resultado de tantas acusações de ser delirante, de ser adepto de invencionices. O fato é que duas importantes informações abrem a narrativa, uma a obrigação da escolhe de temas sugeridos e depois a indicação dos livros no qual se baseou. Passada a realidade, e fazendo com que o leitor inicie a trajetória ficcional, João anuncia o título do enredo que elaborou (mas ainda usa “elaboramos”, uma voz conjunta, ou plural majestático) para a narrativa da escola de samba: “Brasil, visão de Paraísos e Infernos”. João Trinta começa, citando a página 11 do prefácio do livro de Holanda, que vai deixar claro para o leitor que a idéia de Paraíso era concreta para a inteligência Medieval (pois os teólogos eram partidários desta visão- e sabendo-se que a Igreja era o centro do mundo intelectual da época, seria construção reinante este pensamento). Portanto, ele abre, fazendo o leitor pensar na existência concreta do paraíso: este é o recorte, esta é a máxima da poética. Ainda na citação, este mundo verdadeiro pode estar longínquo, mas existe, não é só mera elucubração.

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Em seguida, cita a página 16 do livro de Gondim (note-se que são páginas iniciais das narrativas de autores escolhidos, dando a impressão de que só interessa ao narrador se apropriar de conceitos iniciais utilizados pelos dois para desenvolverem suas teses, e a partir daí, o próprio Joãosinho proporá que tais ferramentas servirão para abrir uma terceira verdade, uma terceira tese), cujo ensinamento maior é o esclarecimento sobre como o homem medieval era crente em paraísos orientais fabulosos, e igualmente acreditava em infernos tórridos, sendo estes localizados em território desconhecido (estas conclusões teriam sido retiradas de outros livros e experiências, citadas: Marco Pólo, nas "Maravilhas do Mundo" de Jeahn de Mondeville , no "Imago Mundi" do Cardeal francês Pierre D' Ailly , e nas "Etimologiae" de "Santo Isidoro de Sevilha", mais livros que dão ar de verdade à fantasia proposta). Estabelecida a existência da noção de Paraíso Terrestre e Inferno, Joãosinho se lança rumo ao fortalecimento destes conceitos e afirma que a obra do pintor Jeronimus Bosch, o tríptico que apresenta o Jardim das Delícias (denominação para paraíso), o Purgatório e o Inferno, foi contribuição decisiva e junta esta afirmação à frase seguinte que vai introduzir o plano seqüencial da narrativa, dando a entender que estas três regiões pintadas pelo mestre holandês estarão de forma decisiva na sua proposição poética. É uma narrativa estruturada na divisão dos setores, enumerando-os e fazendo o leitor compreender do que eles tratarão (desta forma já visualizando os núcleos temáticos que interessam ao narrador tratar). O Paraíso Medieval ou Jardim das Delicias será o primeiro, e João cita o convívio harmonioso de animais, homens , mulheres e anjos, entre flores, paz, beleza e tranqüilidade, em alegria perene como qualificativos desta poética. Aí já temos humanos e seres imaginários convivendo de forma natural, traço típico da carnavalização segundo Mikhail Bakhtin87, num

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BAKHTIN, 1993.

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cenário opulento de belíssimo décor e fina sintonia de calma. A primeira porta é luxuriante e reforçadora de que, no princípio, era bom. Quebranto tamanha candura, o anúncio de que já a segunda parte é infernal, o narrador opta pela quebra abrupta de clima, para confrontar dois conceitos antagônicos, onde convivem pecados e culpas humanas, torturas e sofrimentos dantescos. Neste segundo setor nos é anunciado que animais, anjos, plantas, estes não sofrem, quem está no centro da desgraça é o humano, com todos, absolutamente todos, condenados à danação. Ninguém escapa: dos ricos aos pobres, do sagrado ao pagão, vamos ter neste “balaio de gatos” pecaminoso a presença de desprezados como prostitutas e valorizados como autoridades religiosas, todos torturados por Monstros , Demônios e Assombrações. Note-se que tanto paraíso (anjos) como profundezas infernais (os citados acima) são campos parecidos da convivência de homens com seres fabulosos, para o bem e para o mal. Exposta a dualidade, o binário, os dois mundos (na sequência dos setores um e dois do enredo, Joãosinho não se refere ao purgatório, o que amenizaria a contraposição, um meio termo brando de possibilidade de redenção, o que parece não ser do interesse do narrador). No terceiro setor, irá narrar o sonho dos navegadores portugueses de encontrar as Índias Orientais, um paraíso dotado de jóias, especiarias e mulheres exóticas (note-se que é um sonho realizado na Idade Moderna, séculos depois, quando as características imateriais do paraíso medieval como a paz de espírito, ou mesmo as materiais, como as belas flora e fauna, já se converteu em benesses materiais pessoais, como comida e sexo) e a chegada deles às terras brasileiras, quando o escrivão, por meio de sua famosa carta, vai narrar o encontro de visitados e visitantes naquele “paraíso”. Em seguida, Joãosinho afirma que os navegadores pensaram que anjos eram papagaios, pois falavam. Não sabemos se, segundo João, isto deveria ser considerado parte da carta, mas como em seguida a narrativa salta para o conteúdo das afirmações de Francisco Orellana, em outro tempo e outro espaço, podemos considerar

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que são três níveis de afirmativas relativas às impressões dos estrangeiros sobre o Brasil: o encontro narrado por Pero Vaz, a confusão entre anjos e papagaios, afirmativa fantasiosa do próprio narrador, e, por fim, a visão relatada por Orellana do encontro com as índias guerreiras Amazonas, as guardiãs deste paraíso. Juntando estas três afirmativas, duas referenciadas por uma outra voz histórica, e uma construção própria, João chega a conclusão de que o paraíso sonhado pelos medievais fora enfim encontrado, e a Carta, aí ganhando um peso maior que os outros relatos, seria a causadora do maior impacto sobre o imaginário Europeu, fazendo-os acreditar que enfim, eles tinham descoberto, encontrado, o paraíso tão descrito, sonhado, almejado pelos povos do Velho Mundo, desde a Idade Média. Concluindo ou acreditando que aqui eram as terras do Eldorado, o narrador parte para o quarto setor, que vai por em foco o ponto de vista do índio que habitava o paraíso, refazendo, portanto, o binário em contraposição, que ,a princípio, era paraíso/inferno e agora passa a ser a visão européia/a visão indígena deste mesmo pedaço de terra. Para descrever o paraíso segundo o prisma indígena, o narrador lança mão da mesma construção inicial que descreveria o paraíso Medieval, e enumera as qualidades deste paraíso tropical: natureza extraordinária, flora e fauna magníficas, e habitada por humanos que, tão puros e tão formosos, abrem espaço para que o leitor pense que são anjos humanizados. Tudo corresponde aos relatos dos medievais, é a própria materialização do descrito. Entretanto, seria esta visão a do índio ou a do próprio João? Quem vê assim é o indígena, ou João conclui este quadro vendo o indígena dentro dele, descrevendo a vida harmoniosa (e imaginada) das tribos? Águas, sol e clima formam um trinômio perfeito para a visão do equilíbrio, o elogio da inteligência indígena que saberia viver e conviver no paraíso sonhado, a paz de culturas milenares, sem a presença do branco europeu. Mas como as caravelas fizeram desembarcar nestas praias o colonizador, a narrativa parte para o quinto setor, a vida indígena transformada em inferno pelos europeus,

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portugueses citados como algozes gananciosos, que obstinados pelas benesses matérias tentam escravizar o indígena brasileiro, que foge. A desgraça dos índios será complementada pela presença do medo e culpa católicos, colocando no mesmo patamar de tormento ambas as ações. Para juntar o inferno indígena com a danação do inferno medieval, e toda a imagética à ele associado, João Trinta recorre ao fogo das queimadas que os colonizadores começaram a empreender para suscitar no leitor a visão de índios correndo em meio ao fogaréu. Com o índio sofrendo as misérias de um inferno, pós vida em paraíso, no sexto setor João partirá para um outro grupo étnico, os negros, já indicando que são seqüenciais de dualidade, onde bem e mal já foram apresentados para o imaginário medieval, no começo da narrativa; depois passaram para o descobrimento de uma terra, que será céu e inferno para seus habitantes indígenas, e agora, sem a presença do branco, veremos o paraíso africano dos negros, sem a presença do branco. Vale aqui ressaltar que, se no começo o branco estava pleno de razão ao ter consciência da existência de paraíso verdadeiro, parece que o enredo evidencia que com a passagem da Idade Média para a Contemporânea, o espírito branco se prostituiu (talvez a mercantilização) e, esquecendo-se de suas crenças de harmonia, passou a não só chegar em terras paradisíacas, mas a transformá-las em infernos. No sexto setor, Joãosinho narra o paraíso negro repleto de qualidades, indicando que não tratará do mais famosos deles, o Egípcio, e sim falará do resto do continente, outros reinos e nações milenares cujas visões do mundo, sábias e cultas, produzem finas manifestações artísticas. Paz, prosperidade e alegria, novamente características do paraíso. A narrativa, no sétimo setor, para comentar o inferno do negro, volta no tempo, e busca ,nos fins da era medieval, o começo das grandes navegações, já citadas pela narrativa, e sem preocupação com a redundância, vai mapear historicamente o que levou o homem branco a, primeiro, alcançar o paraíso do negro e depois o do indígena. Mas, se o primeiro paraíso a surgir na narrativa com os homens brancos se lançando ao mar, foi o indígena, o que isso

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demonstra? Que a narrativa privilegia o paraíso indígena, o Eldorado Brasileiro, como o legítimo paraíso sonhado pelo branco, talvez pela presença aqui das três raças, coisa que no paraíso negro africano não há, pois é um paraíso dotado de uma só cor de pele. Retornando no tempo, a narrativa que já estava pelo menos no século XVI, volta ao mundo medieval e conta que, no início da conquista da África, os negros são enviados como escravos, para as terras do paraíso tropical. Este paraíso é afirmado como Inferno para a população negra, pois, longe de seus familiares, tristes, não conseguem estar bem naquele lugar paradisíaco. Parece que João quer nos dizer que paraíso e inferno são versões, são visões de uma mesma realidade. O que para uns é paraíso, para outros pode ser inferno. De qualquer forma, há a clara condenação do homem branco como causador das transformações destes paraísos. Mais uma vez, saltando no tempo, agora rumo ao contemporâneo, o narrador, ainda neste setor, dimensiona este inferno negro com longevo, pois a cultura negra está oprimida pelo poder e pela Igreja. Séculos de inferno, os africanos animalizados e demonizados pelos poderosos, são tratados pela narrativa com nobreza de ancestrais divinizados. Observe-se como João se utiliza com maestria do tempo carnavalesco que é diferente do tempo cronológico do cotidiano. Segundo Maria Laura Cavalcanti, o tempo carnavalesco é o tempo de suspensão contado pelo movimento de translação da Terra (período), diferente do tempo cotidiano que é contado pelo tempo de rotação (dia)88. O oitavo e último setor89 homenageará o paraíso da grande civilização brasileira, formada pelas três raças, que, em separado, viveram seus paraísos e infernos, mas agora unidas , exaltam o Brasil junto com o narrador. Se, nestes 500 anos de Brasil, podemos qualificar paraísos e infernos na vida destas três contribuições para a formação de nosso povo,

88

CAVALCANTI, 1999. A escola foi a última a se apresentar no desfile de Comemoração dos 500 anos do descobrimento, portanto, afirma o narrador, esta é a última visão carnavalizada, na avenida, desta comemoração. 89

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e se ainda hoje estamos nos debatendo entre a dualidade, é preciso fechar com chave de ouro as comemorações. Chave de ouro é o sinônimo da junção de uma proposta do narrador, de que haja um pouco de reflexão em meio a tanto oba-oba: a natureza nacional, sem dúvida, é paradisíaca; mas as dualidades surgem para nos infernizar na vida moderna. É aí, neste epílogo, que o narrador assume a visão binária do mundo, fazendo uma lista de oposições, como positivonegativo, progresso-atraso, honestidade, corrupção, riqueza e pobreza, fome e fartura. Há uma afirmação sobre a “Lei de Popularidade de Bem Estar” que não é muito clara sobre do que se trata, e há também o enfileiramento de mulatos ao lado de índios, negros e brancos, que seria a versão miscigenada atual das três contribuições. De qualquer forma, elejo aqui “chave de ouro”, mulato e bem estar popular como o trinômio importante da mensagem do narrador na conclusão. É isto que o fará chamar uma recorrência em suas narrativas: a esperança de que a chegada do Terceiro Milênio traga a “hora e a vez do Brasil”. Um epílogo coberto de esperança, quando Joãosinho recorre ao refrão final de sua escola de samba, a Viradouro, para emocionar o leitor/ espectador/ouvinte: "O dia vai raiar, amor, amor/ Com a Viradouro eu vou, eu vou, eu vou/ Meu canto de amor se espalha no ar/ Quinhentos anos vamos festejar".

Núcleos Temáticos presentes em “Brasil, Visões de Paraísos e Infernos” 1. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - o enfileiramento de mulatos ao lado de índios, negros e brancos, que seria a versão miscigenada atual das três contribuições. Paraíso da grande civilização brasileira, formada pelas três raças, que em separado viveram seus paraísos e infernos, mas, agora unidas, exaltam o Brasil junto com o narrador.

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2. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira (metonímia da desgraça ou infortúnio humano) “Ninguém escapa do fogo infernal. A nobreza e altos membros da Igreja, poderosos, vilões, prostitutas, homens e mulheres, ninguém escapa das torturas terríveis de monstros , demônios e assombrações que dominam os infernos profundos”. 3. Núcleo Temático da Negritude Gloriosa, Dolorosa e Vitoriosa - O continente africano vivia no apogeu de grandes reinados e nações, sem incluir aí, a grandiosidade da civilização egípcia. Senhora de culturas milenares a mãe África era opulenta de sabedoria , riquezas e dona também de uma arte refinada . Vivia, portanto, o continente negro o seu Paraíso cheio de paz , prosperidade e alegria . Maltratado como um animal, o africano sofre, vendo suas culturas serem perseguidas e abafadas pelo poder e pela Igreja . Monstros de maldades e ambições comandam este inferno em que foram jogados por muitos séculos, os filhos do grande continente africano, nossos ancestrais. 4. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Vivemos numa natureza de Paraíso, mais vivenciamos outras vezes imagens de verdadeiro Inferno. Terra à vista . Portugal tinha realizado o descobrimento do Brasil . Pero Vaz de Caminha escreve sua famosa carta ao Rei Dom Manuel e este é um comentário que se articulou - Extraordinária natureza repleta de flores, frutas, fauna e animais e habitada por uma gente pura e formosa. Abundância de águas, sol tropical e clima ameno. Era realmente o paraíso do índio que vivia em paz com suas culturas milenares. O Paraíso imaginado durante a Idade Média ficava no Brasil . Aqui , eram as terras do Eldorado. 5. Núcleo Temático do Terceiro Milênio e da Justiça Universal - E esta justiça é a ascensão do Brasil. 6. Núcleo Temático do Fantástico - presentes neste florido paraíso onde animais, homens , mulheres e anjos convivem na maior harmonia em estado de alegria perene.

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ENREDO “GENTILEZA ‘X’ – O PROFETA DO FOGO” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO – 2001

Análise da narrativa O enredo inicia anunciando “a abertura dos portais do Terceiro Milênio” e chamando a atenção por estarmos na era espacial, “tecnológica”, o que poderia ser motivo de regozijo, mas, no Brasil e no mundo, violência, guerra e corrupção pelo dinheiro estão maltratando os povos. Há um jogo de contrapontos do narrador, que “morde e assopra”: pinta um terreno esperançoso e avançado sobre a areia movediça das mazelas do mundo. E também é utilizada a expressão “tão perto de nós” para trazer a narrativa, que estava no plano do “abriram-se”, “surgem”, “levam para o espaço sideral”, para próximo do leitor. Quando Joãosinho Trinta destaca, entre os povos, “principalmente as inocentes crianças”, logo nas primeiras frases do texto, ele foca em sua recorrente preocupação: a denúncia social através do enredo de Carnaval. A apresentação de contrapontos também fará jogo entre a denúncia de situação calamitosa (o plano do tão perto, particular) e o envio de mensagem de paz, amor, fraternidade e alegria para todo o universo (o plano do “em algum lugar”, genérico). São estas duas partes que estruturam o corpo do enredo. A “ciência milenar da numerologia” é utilizada para analisar e ajudar no título do enredo, acrescentando a letra “X” após o nome do profeta, como se o narrador, após determinar preocupações iniciais, precisasse deixar claro que há “mistério” tanto nas esferas universais quanto nas humanas individuais, ele próprio recorrendo a um destes mistérios para buscar bons augúrios para sua própria narrativa. Deste ponto em diante, a narrativa encerra sua “introdução” e passa a descrever o histórico do enredo, ou seja, a seqüência da história/estória que irá contar, tanto que usa a

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expressão “a nossa história começa”, deixando as considerações iniciais para trás. E tal narrativa já começa de maneira trágica, veemente, anunciando que, em 1961, o Circo NorteAmericano pega fogo, matando 500 pessoas. E tal desgraça não foi obra do acaso e, sim, um acerto de contas, do processo cármico de ação e reação, anunciado por entidades espirituais, que analisam tal resgate de toda a carga negativa da Roma pagã. Portanto, mais de 2000 anos antes, quando os “poderosos” (imperadores, senadores, cortesãs) divertiam-se em circos romanos, vendo os primeiros cristãos, santos e profetas (portanto uma casta de religiosos) serem devorados por leões, afirmando que na “natureza nada se perde, tudo se transforma”, este resgate cármico comove tanto o Brasil (particular) como o mundo inteiro (geral). Entra em cena o “homem do povo”, empresário e “pai de família”, José Datrino, o “particularmente” abalado pela tragédia do circo de Niterói (todos em geral foram abalados, mas há um abalado em particular). Tal cidadão vive os tormentos de uma “Idade Média” particularíssima: a que é chamada pelo poeta Marco Antônio Saraiva de Idade Mídia, pois nossa época está repetindo os problemas do período das trevas – ganância do dinheiro (particular) e poder (geral), disputados por “forças antagônicas”. Castelos e Igrejas (particular) e forças maléficas (geral) dominando tudo e todos através de políticas e guerras (o religioso amaldiçoado). Tais “poderosos” ostentam uma grande riqueza sobre um panorama popular decrépito: violência, fome, peste, corrupção e decadência de costumes (todas enumeradas pelo narrador no plural), o que multiplica o efeito generalizado de degeneração e pobreza, pois para as antigas mazelas medievais, como a peste, o “profeta saído do fogo” vê as contemporâneas dificuldades da população humilde de 1961: desemprego, violência, fome e o câncer dos tóxicos (mais uma vez é reforçado que tudo isto atinge, principalmente, as crianças).

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Após estas considerações que emparelham o ontem e o hoje, a Roma Pagã e o Grande Circo Americano, a Idade Média e a Idade Mídia, começa o transe místico de José Datrino que, seis dias após o incêndio, começa a ouvir vozes anunciando-lhe “sua missão especial a cumprir na face da terra”. O sétimo dia traz à narrativa a “transformação”, desaparece José e surge o profeta renascido do fogo, ainda não chamado de Gentileza, quando ele abandona a família, veste sandália e túnica branca e vai plantar flores e distribuir vinho no local onde o circo pegara fogo, pedindo apenas aos que passavam que dissessem “por gentileza e muito agradecido” (vale ressaltar que muito agradecido é representante do universo particular e muito agradecido o é do generalizado, impessoal).

Núcleos Temáticos presentes em “Gentileza ‘X’ – O Profeta do Fogo” l. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - Há um destino a ser cumprido pelo Brasil, no Terceiro Milênio: o de ser a grande civilização do planeta. 2. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - Os “humildes” são os agraciados com as palavras de conforto e bondade (já os “maus brasileiros” recebem duras críticas aos seus “maus costumes”). 3. Núcleo Temático da Desgraça Brasileira - Uma “atualidade” que revela um mundo envolto em situações e sentimentos muito ruins: violência, guerras e corrupção, causadoras da mortandade dos povos, e disputa de poder e dinheiro. 4. Núcleo Temático do Terceiro Milênio da Justiça Universal - A Era de Aquárius, anunciada pelo profeta Gentileza, trará paz, amor, fraternidade e alegria para todas as partes do mundo. 5. Núcleo Temático das Matemáticas Decifrações - A numerologia socorrendo a formulação do título do enredo.

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7. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - José Higino transforma-se em Gentileza, o profeta. Ouvindo vozes misteriosas, ele é levado a incorporar elementos de S. Francisco de Assis, e assumir um “alter-ego”, em nome de uma missão transcendental.

ENREDO “OS PAPAGAIOS AMARELOS NAS TERRAS ENCANTADAS DO MARANHÃO” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO- 2002

Análise da narrativa Primeiro, é fundamental destacar a importância da assinatura deste enredo, “Joãosinho Trinta, um maranhense”, pela revelação do narrador, um homem que desde criança ouviu as histórias e estórias de seu povo, seu estado, seu país, e se utiliza deste material durante toda a vida, como vocação para a narrativa carnavalizada (capaz inclusive de fazê-lo repetir, quase trinta anos depois, a mesma história em dois enredos diferentes. Isto porque, neste enredo, Joãosinho retoma o “Rei de França na Ilha da Assombração”, feito para o Acadêmicos do Salgueiro em 1975, e agora conta a mesma estória e história, com narrativa diferente, para a Acadêmicos do Grande Rio). Depois, vale focar a definição de linguagem carnavalesca que para este narrador referência do carnaval brasileiro (daí podemos tentar entender sua narrativa), não só está contida no corpo deste enredo, mas parece ser a revelação de todo um conceito de obra reunida: a linguagem carnavalesca é aquela que mescla perfeitamente as distintas história e estória. A máscara da história e a máscara de estória. Sobre um fato vivido, documentado, a versão de um contador, recheada de fantasia e sonho. O narrador apresenta sob qual égide foi concebida a narrativa: a mescla entre história e estória, possível e aceita na poética do carnaval.

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Ele anuncia que começará com história, mais precisamente em 1612, com o rei menino de França, Luís XIII sob o governo de Maria de Medicis, empenhado junto com a corte francesa na fundação da França Equinocial, nas terras nortistas brasileiras, mais precisamente, o Maranhão. Para tal empreitada, três caravelas atravessam o Atlântico, acompanhadas da corte do Rei Netuno (note-se que, ainda no primeiro parágrafo, temos a contraposição de dois reis, um da história e outro das profundezas do oceano, da ordem da fantasia, e duas cortes, uma francesa e outra de seres fantásticos, ninfas, sereias, tritões, cavalos aquáticos, golfinhos como guarda pretoriana, em viagem triunfal). Joãosinho cita o nome tupi-guarani do local de desembarque, a ilha de Uapon-açu, que depois seria batizada de São Luís. Em seguida é relatado que os índios brasileiros, mais precisamente os tupinambás, foram extremamente corteses com os estrangeiros que desembarcaram, e por terem recebido presentes (desqualificados pelo narrador como quinquilharias) devolvem a cortesia entregando suas belas e jovens mulheres, o que, segundo o narrado, causou estranheza e mal estar, pois os padres capuchinhos que estavam nas naus não gostaram desta atitude. Mas, humanos que são, servirão para a narrativa jocosa de Trinta, que nos conta que um deles, possuído de desejo, ateou fogo ao próprio genital. Aquela gente branca e loura, falando o francês incompreensível para os indígenas maranhenses recebem o cognome de Papagaios Amarelos, e isto é estória, segundo o narrador. A frase seguinte “Os franceses permaneceram alguns anos nas terras do Maranhão e depois foram expulsos pelos portugueses como também aconteceu com os holandeses” desarticula a continuidade da poética, pois os papagaios amarelos despedem-se das terras encantadas do Maranhão logo no primeiro parágrafo. Nossa esperança é que sobrevivam, na narrativa, as terras encantadas do Maranhão.

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Após a expulsão dos franceses pelos portugueses, entram na narrativa os negros, com a expressão “chegaram os....”, com a indicação de que vieram do Daomé e Nigéria, nobres sacerdotes, donos de conhecimentos milenares. Tal conhecimento de magia encontra-se até hoje preservado nas terras encantadas do Maranhão. É aí que as quatro Casas (das Minas, Nago, Fanti-Ashanti e do Egito) guardam tanto os cultos (Vodouns e Encantados) como as Cortes (Vodounces e Tabossis) 90. São estas as matrizes dos famosos tambores do Maranhão (das Minas, de Crioula, Terecô e da Mata). Estes negros maltratados e explorados, irão mostrar toda a sua bravura na História com h maiúsculo, que registra a revolta dos fazedores de balaios, a Balaiada, liderados pelo “Imperador das Liberdades Bem-Te-Vis, o negro Cosme. O terceiro parágrafo da narrativa se dedicará ao que o autor considera a fusão da história com a estória, isto é, com o ficcional, fabuloso: a lenda do touro coroado que se transforma no rei Dom Sebastião91. É o que o narrador considera como belíssima lenda de assombração, que narra que na praia dos Lençóis, em noite de lua cheia, o touro encantado transforma-se no Rei, e toda a corte de nobres e guerreiros surge das areias. E a narrativa espetacular de um belo palácio de Cristal que emerge do fundo do mar. É importante notar que tanto terra firme como mar são territórios da imaginação, com possibilidades de sediar encantamentos e aparições. Mas tudo isso só pode ser presenciado por um estranho grupo de albinos que moram nas dunas, os Filhos da Lua, que, ao lado do narrador, e como o narrador, presenciam e dão fé de verdade aos maravilhosos relatos. Viver no mundo da lua, ser filho dela, faz de um narrador um ser encantado, perspectiva que Joãosinho Trinta irá tomar em muitas de suas poéticas. Toda a encantaria sumirá com os 90

Segundo FERRETI (2000, p. 3), a Casa das Minas é obra de escravos de etnia Jeje, procedentes do Daomé, atual República do Benin. O termo “mina”, embora designe o grupo étnico do Gana e esteja associado ao forte de São Jorge da Mina, na Costa do Ouro, serviu para rotular os negros sudaneses introduzidos no Brasil à época do tráfico: mina-fanti, mina-mahi, mina-popo, mina-jeje, mina-nagô, entre outros. Daí a expressão Tambor de Mina aplicada aos terreiros religiosos oriundos dessas etnias no Maranhão, e, consequentemente, Casa das Minas – onde vivem as negras minas. Os voduns (divindades) cultuados estão dispostos em famílias. 91 lendário rei português que desapareceu misteriosamente durante a batalha de Alcácer-Quibir, em 1570

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primeiros raios de sol, pois a luz lunar é quem vai permitir tanto encantamento. Dia, noite, real, onírico, crendices, verdades. Os ciclos naturais socorrendo a vida, que não pode ser só vivida de um lado. Cotidiano, carnaval. Mais um personagem surge em esplendor no quarto parágrafo da narrativa, mais uma vez com um pé na história e o outro na estória. A assombração Nhá Jança, que em vida real foi Dona Anna Jansen, que a história atrela à presença dos Holandeses nestas terras encantadas, e que foi grande personalidade da vida social, cultural e política de São Luís e grande traficante de escravos. Perversa mulher, que praticava sacrifícios no povo negro, encontra na morte sua clausura, de ter que vagar pelas madrugadas com sua carruagem, puxadas pelas incendiárias mulas sem cabeça, portando suas jóias e fortuna. Portanto, como se não bastasse as labaredas nos pescoços das mulas faiscantes, ainda temos o faiscar de diamantes e moedas no coche da poderosa assombração. Uma imagem opulenta que, luminosa pela presença do fogo, vai ainda mais longe no reflexo de pedras preciosas. Luxo e esplendor derramados pelas ruas encantadas da imaginação do narrador. Este coche é carregado por um cão, que o narrador nos informa ser símbolo da justiça dos encantados, nos revelando portanto, um código de valores para a atividade de encantamento. E mais uma vez é a luz da lua, ou a noite, quem vai permitir às sextas-feiras que a magia se dê: depois da meia noite, o pânico é total em quem ousar contemplar a carruagem. Saindo completamente do terreno dos encantados, o quinto parágrafo abordará o lado cultural e festivo do povo maranhense. O narrador abandona as antigas narrativas de lendas e mistérios e passa a ser um documentarista das danças e folguedos de sua terra. O primeiro retrato é sobre os Caretas, grupo mascarado que assusta crianças e que sai para malhar o Judas em sábado de aleluia. O narrador deixa aí uma lacuna para pensarmos se pessoas fantasiadas, na imaginação de crianças assustadas, não seriam as mesmas criações, e não teriam a mesma força, das assombrações e encantamentos da narrativa pura e simples de contar estórias.

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Pulando do humano para as aves, o próximo personagem é o pato pelado, espetado em cruzes durante os festejos da Padroeira de Rosário. Enfeitados com flores e fitas, eles são a prova da generosidade do povo, que doa alimentos para serem cozinhados e distribuídos gratuitamente para a população pobre. De tão fraterno, parece encantado. Mas a imagem de patos pelados espetados em cruzes é estranha, asquerosa e levemente surrealista. Paradoxos da modernidade, encantada e estranha. O narrador transforma sua narrativa em meta narrativa: seu enredo para escola de samba tratará do carnaval em São Luís do Maranhão, o carnaval carioca falando do carnaval maranhense pelas palavras e descrições de um maranhense-carioca. “Uma festa marcante” diz o marcante narrador, sobre blocos, escolas de samba e a folia de lá. Cita grupos do carnaval de outrora (Fofões, Pif Paf, pierrots e outros) e diz que o carnaval maranhense foi revigorado, sendo atualmente um dos melhores do país. Na parte seguinte o narrador deixa São Luís e segue para a histórica cidade de Alcântara, onde acontece a centenária Festa do Divino, oriunda de Portugal. O narrador nos conta que tudo começou no século XVIII, com a Rainha Dona Isabel mandando construir a igreja do Divino Espírito Santo em Alenquer. Mais uma vez a história socorrendo a narrativa, dando verossimilhança para as traduções com sabor local. Pois é assim que esta festa vai acontecer em Alcântara: ocorrendo em data móvel, no mês de maio (“entre a quinta-feira da ascensão do Senhor e o Domingo de pentecostes”), na verdade tudo se inicia no último dia da festa do ano anterior, quando a cidade, comovida e silenciosa, ouve a leitura e anúncio do nome dos cidadãos escolhidos para encarnar os importantes personagens da festa, no ano seguinte. Os papéis são: Imperador que se alterna sempre com uma Imperatriz, Mordomo Régios, Mordomos Baixos e Mordomas Baixas. Anunciando o fim do enredo, Joãosinho Trinta relata que o desfile encerra-se com o mais famoso folguedo Maranhense: o Bumba-meu-boi. A festa maior, nos é informado,

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pertence ao ciclo do gado, no Brasil, tendo sua força residindo no fato de ser uma celebração genuína do encontro das três raças que formaram o povo brasileiro: branco, negro e índio. Na parte seguinte o narrado descreve o auto que é representado pelo Bumba-meu-boi: Pai Francisco, tendo sua mulher Catirina, grávida e cheia de desejos, pedindo-lhe a língua do boi do dono da fazenda, rouba o animal e mata-o. O negro Francisco é preso pelo capataz que apurava o caso, ficando o empregado obrigado a dar conta do animal sob pena de ser morto. Toda a fazenda se mobiliza para salvar o boi, e consequentemente, o amado Pai Francisco. São chamados médicos e pajés (notem o encontro da ciência com o mundo mágico, tão caro ao narrador em sua poética), que por fim conseguem ressuscitar o animal. Alegria geral, pois salvam-se todos. E puxadores de toadas cantam para que o boi dance e a festa se arme. Uma festa brasileiríssima, pois Pai Francisco é o negro, o dono da fazenda o Branco e os pajés e caboclos de pena são os índios. O Narrador anuncia no parágrafo final a intenção do Enredo: homenagear as culturas de sua terra natal, e regatar histórias e estórias, o H e o E do início da narrativa. Um resgate que deu e dá samba, no momento em que a UNESCO eleva a cidade de São Luís do Maranhão como Patrimônio Cultural da Humanidade. A terra dos Segredos é homenageada por esta narrativa. Segredos que podemos sinonimizar pelas encantarias que transformam histórias em grandes e encantadoras estórias.

Núcleos Temáticos presentes em “Papagaios Amarelos nas Terras Encantadas do Maranhão” 1. Núcleo Temático do Fantástico (convívio com seres outros) - Daniel de La Touche atravessa o Atlântico, da França rumo ao Maranhão, escoltado em viagem triunfal pelo próprio Netuno e sua plêiade de seres fabulosos: Ninfas, cavalos Marinhos, tritões.

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2. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - O índio é bem bonzinho: cordial, recebe os franceses, ganha quinquilharias, e entrega suas mulheres jovens e belas para deleite dos marinheiros e reprovação dos padres. As três raças miscigenadas são a glória do Bumba-meuBoi. 3. Núcleo Temático da Negritude Gloriosa, Dolorosa, Serena, Vitoriosa - Membros da realeza africana, guardadores de segredos milenares, que superam os desencantos e exploração e fundam matrizes culturais-religiosos que vão influenciar e determinar importantes aspectos da vida maranhense e brasileira. 4. Núcleo Temático do Carnaval Maravilhoso - O carnaval como a grande festa revigorada de São Luís do Maranhão. 5. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - O Boi morto é ressuscitado pelos pagés indígenas, sem que isto cause qualquer espanto na população da fazenda. Tudo é só comemoração. 6. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - No momento em que a UNESCO tomba a Cidade de São Luís do Maranhão, temos a premiação da grandeza cultural brasileira.

ENREDO “O NOSSO BRASIL QUE VALE” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO- 2003

Análise da narrativa O Narrador dá início ao texto, apresentando o título: “O Nosso Brasil que Vale”. Em seguida, relata do que trata o título “a saga da mineração brasileira”. O que nos permite concluir que já no início, o narrador não se mostra confiante de que só o título possa esclarecer para o leitor qual o plot da narrativa. Sendo um enredo patrocinado, e tendo,

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possivelmente, a obrigação de nomear o patrocinador no título, parece que o narrador não confia que só o título resuma a história a ser contada. De um Brasil que Vale, sobre a saga da mineração brasileira, o narrador salta, adjetivando como fantástica, para a Mitologia da Grécia antiga, de onde retira as informações sobre os primórdios da formação do solo do planeta, onde o brasileiro estaria incluído. Neste território do Tempo, Chronos, o Deus é visto preparando, durante bilhões de anos, o reino mineral. O narrador utiliza agora o adjetivo faiscante, para enumerar ouro, prata, pedras preciosas e metais preciosos, recorrendo à opulenta luminosidade para abrir as entranhas milenares do planeta. Temos aí a senha para o visual da abertura do desfile. Quem ajuda o trabalho do deus grego são gnomos e duendes, o que para o narrador é a chave para introduzir o Renascimento e Paracelso, o famoso médico e alquimista renascentista que denominava estes seres ajudantes de elementais da terra. Da antiguidade salta-se para o renascimento, num piscar de olhos, justificando o convívio de Chronos grego com seres fantástico da Europa medieval e renascentista, indo buscar a indicação bibliográfica do cientista e seus escritos. Como já tínhamos “visto” Chronos a trabalhar, agora é hora de o vermos, passeando pelo espaço sideral, Atlas, o titã, carregando Gaia, a terra. Também, sem maiores explicações, surge Vitória, Deusa bela e real, abrindo magníficas asas e marcando o caminho de Atlas e Gaia com uma trajetória de alegria. O narrador, depois de doze linhas que passeiam por quase três milênios, informa que é a partir deste ponto que a história começa. Um gigantesco preâmbulo, de deuses e seres poderosíssimos, com o viés do olhar do gênio renascentista, e a narrativa ainda não tinha começado. Só uma pequena introdução. Surgem, deuses e homens, sempre invocados pelo narrador com a mesma brevidade.

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Determinado que agora começa, o narrador relata que, no descobrimento do Brasil estas terras souberam da lenda do Eldorado, cidade escondida na mata virgem e coberta de ouro, prata e pedras preciosas. Novamente, a luminosidade intensa já invocada no começo da narrativa, quando estávamos no interior do planeta terra, em tempos imemoriais. Agora, tamanha resplandecência está na floresta do território brasileiro. Eis que surgem bandeirantes e aventureiros, buscando as riquezas. Bravos homens em Entradas e Bandeiras, povoando e desbravando a região do Vale do Rio Doce, onde encontraram as Minas Gerais 92. É nesta região do triângulo mineiro, que o ciclo do ouro vai plasmar (note-se o uso de um verbo que recorre à atividade também de mineralogia) a arte barroca, nas magníficas cidades coloniais. O narrador chama atenção para o fato desta arte ser sagrada e profana, temática tão em sintonia com as recorrências presentes no universo de Joãosinho Trinta: ao lado de igrejas, da religiosidade, o casario da vida e do profano, em mais um relato de fundação do Brasil, pois em seguida o narrador vai invocar esta como a “época de formação do povo brasileiro, com a mistura do índio, branco e negro”93. Deste mito fundador, um salto imediato para o “chegou-se aos tempos modernos”, na era da industrialização do Brasil: no começo do século XX foi descoberto nesta mesma região “montanhas de minério de ferro”, o que vai despertar a cobiça internacional94 Nações industrializadas começam a querer as riquezas, mas aqueles corajosos homens, fruto da fusão das três gloriosas raças já citadas, “corajosos, audaciosos, patriotas”, tomam as rédeas da mineração brasileira e começam uma saga de luta, inteligência e determinação. É tanto 92

Gostaria de ressaltar que encontro semelhança de temática, ou pelo menos de fundamentação do plot da narrativa escrita do enredo, entre este e As Minas do Rei Salomão, pois ambos vão celebrar pedras, geologia, como inspiradores de cobiça e movedores de humanos em busca de paraísos riquíssimos. O Muiraquitã nas Minas e o ouro aqui no Vale do Rio Doce, são as matrizes preciosas, minerais, que vão atrair os desbravadores, produzindo um contexto cultural que será retratado pelo construtor do enredo. João retoma com frequência elementos narrativos tendo em vista que estes compõem seu imaginário pessoal a sua “mítologia ou mítica biográfica” 93 Anexo 16 - Enredo “O Nosso Brasil que Vale” 94 O que era fantasia e sugestão metafórica no enredo “As Minas do rei Salomão” aqui torna-se afirmação textual, os olhos dos países ricos sobre as riquezas naturais do Brasil.

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entusiasmo narrativo que aqui, sim, parece iniciar o enredo: nesta afirmação de saga, tudo cabe, tanto o que já foi descrito como o que estará no por vir. É aqui, no meio da narrativa, que o narrador nos dá o tom precioso de contador de saga, que indo buscar deuses mitológicos gregos ou alquimistas renascentistas, encontra aqui seu motivo maior para celebrar, o orgulho da mineração brasileira. Esta mineração brasileira, na mão de admiráveis brasileiros, nos é apresentada como uma mudança de paradigma no conceito de exploração das reservas naturais, pois se antes era uma desenfreada retirada dos recursos, sem pensar na erosão, desmatamento e destruição, agora aponta para cuidados necessários para a consciência ecológica. O narrador toma agora a figura do agigantamento (talvez inspirado pela frase “gigante pela própria natureza”, do ufanista hino nacional brasileiro) para elogiar a indústria mineradora verde-amarela, um gigante benéfico que trouxe progresso, riqueza e trabalho para o povo. E este gigante apresentará tentáculos de desenvolvimento para o país, numa lista que cita hidrelétricas, ferrovias e transporte marítimo. Neste ponto a narrativa apresenta a Serra dos Carajás, e desloca o foco de eldorado da primeira região, mineira, para a floresta riquíssima, cujas reservas de metais preciosos foram descobertas. São listados manganês, bauxita, caulim, potássio, cobre, alumínio, níquel, titânio e estanho como riquezas a serem exploradas, mas com grandes melhoramentos acompanhando esta exploração. As melhorias são listadas logo após: projetos de proteção aos povos indígenas (aqui o narrador lança mão do “altamente elogiados por entidades internacionais”, fazendo com este qualificativo, internacional, seja paraíso e inferno dentro do mesmo enfoque, pois é mal sob o ponto de vista da cobiça e bom como referendo às ações da exploração brasileira e seus projetos de preservação). Respeito e admiração ao sistema de crença e pensamento dos povos indígenas são narrados; projetos de reflorestamentos da mata atlântica são enaltecidos,

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colocando ecologia e índio como dois pólos catalisadores do bem provocado pela atual mineração brasileira. Além disso, o narrador exalta a atividade educacional como sempre acompanhando a atividade da mineração, isto tanto ao vivo como em programas de televisão. Além disso o narrador, saindo do universo dos Carajás e alcançando todo o Brasil vai narrar os projetos artísticos, recebendo apoio desta atividade. Inclusive a ciência foi bem aquinhoada com o mecenato das empresas de mineração, e é citado o Museu da Ciência de Belo Horizonte. A construção de hospitais privilegia a saúde pública. Saneamento básico, eletrificação rural e urbana, pavimentação de vias urbanas e rodoviárias, construção de pontes, canalização de córregos, tratamento e abastecimento de águas, reforço e costeamento de linhas transmissoras, reurbanização de espaços públicos e drenagem pluvial, são enumerados como benfeitorias do braço social da empresa mineradora. Posta toda esta paisagem de benfeitorias, o narrador determina que chegou a hora do futuro glorioso, soprado por ventos da expansão e do poderio: fome, miséria e o monstro da violência são os inimigos a serem aniquilados pela PAZ desejada por todos. É aí que o narrador introduz que com arte, ciência, saúde, e educação e esporte, estaremos salvando as crianças brasileiras, em última análise, as grandes herdeiras de tudo o que a mãe natureza, exaltada desde o início da narrativa. Estas crianças são a reencarnação dos antigos bandeirantes, transformando-se em bandeirantes da modernidade, arautos de uma nova civilização, abnegados e trabalhadores da pátria. Este novo tempo será dominado pelo novo conceito de técnica e cultura que fará com que a natureza, bem tratada, sempre gere frutos permanentes. De um ventre natural, sempre as reservas de minérios e riquezas cada vez maiores. Então o narrador esclarece que é cada vez maior a presença do reino animal nos outros reinos (quando ele classifica o reino dos homens ao lado do animal e vegetal), citando a descoberta de ouro na composição do cabelo humano. O narrador pede que os leitores prestem atenção ao seu redor, quando encontrarão muitos

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exemplos da presença do reino mineral na vida moderna: máquinas, tecidos, tintas, tudo presente em planos e objetos da natureza. Após citar outros exemplos como prédios, mecanismos e variados equipamentos, o narrador determina que “agora a festa vai começar”. E ordena a todos os leitores que, maravilhados, penetrem no imponente reino mineral (esta imponência já remete ao estilo dos desfiles do narrador, sempre citado pela crítica especializada como criador de narrativa opulenta visualmente e impactante no campo das idéias). Com esta ordem de adentrar o reino mineral, o narrador faz o resumo dos pontos que o leitor deve guardar em mente, para a abordagem mais clara: o deus Chronos, com seus duendes e gnomos de fantasia, criando metais e pedras preciosas; bandeirantes e aventureiros impulsionando a história do Brasil, atrás da lenda do El Dorado, produzindo o ciclo do ouro com o barroco e as cidades coloniais; a descoberta de montanhas de minério de ferro em Minas e a instalação das companhias mineradora; e consequentemente o progresso, benefícios e benfeitorias que esta atividade trouxe para o Brasil. Projetos ecológicos ambientais, educacionais, artísticos e culturais. Mas a grande revelação é guardada para o final, redigida em caixa alta: tal foi o desenvolvimento da atividade, que é dado o troféu de Maior Exportador de Minério de Ferro do Mundo para o Brasil. Desta dádiva da mãe natureza, das entranhas da terra, o narrador constata que a grande estrela é o trabalho e a qualidade de vida que isto propicia para o homem brasileiro. São estes homens que agora, na narrativa, empunham bandeiras do Brasil (uma imagética que remeterá o leitor aos coloniais bandeirantes), convidando os povos do mundo inteiro a presenciar o milagre brasileiro do carnaval, feito de criatividade, beleza e emoção. Festa brasileira maior, cuja imensa alegria é atrativo a ser experimentado pelos de fora, todos estão convidados, pelo narrador, a cantar e dançar “o nosso Brasil que Vale!”, cheios de orgulho.

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Núcleos Temáticos presentes em “O Nosso Brasil Que Vale” 1. Núcleo Temático do Progresso Sustentável (este núcleo surge nas narrativas de Joãosinho Trinta a partir deste enredo) - projeto de reflorestamentos da Mata-Atlântica são enaltecidos, colocando ecologia e índio como dois pólos catalisadores do bem provocado pela atual mineração brasileira. 2. Núcleo Temático da Transmutação - Estas crianças são a reencarnação dos antigos bandeirantes, transformando-se em bandeirantes da modernidade, arautos de uma nova civilização, abnegados e trabalhadores pela pátria. 3. Núcleo Temático do Bom Brasileiro - Época de formação da raça brasileira com a mistura do índio, branco e negro. Todos nós brasileiros, sejamos índios, Negros, Brancos e Mulatos , continuamos a nos debater com a lei de Popularidade de Bem-mal, Positivo-Negativo, Progresso-Atraso, Honestidade, Corrupção, Riqueza e Pobreza, Fome e Fartura e milhares de outras facetas dessa constante universal presente na face da Terra. 4. Núcleo Temático da Opulência Brasileira - E quando entraram pelo Vale do Rio Doce encontraram as Minas Gerais. Mais tarde, com o afloramento do Ouro, criaram-se monumentais Cidades Coloniais no famoso Triângulo Mineiro. Chegou-se até as Reservas Indígenas de Carajás. Novas regiões, ricas de metais raros foram descobertas. Processou-se a produção de manganês, bauxita, caulim, potássio, cobre, alumínio, níquel, titânio e estanho. 5. Núcleo Temático do Inferno Brasileiro - O índio fugiu; foi caçado como animal ; a Igreja o atormentava com imagens de medos e culpas. O índio viu suas matas virgens derrubadas . O fogo das queimadas era o próprio fogo do Inferno que o índio começou a vivenciar. É hora de acabarmos com nossas carências. Vamos exterminar a “Fome”, desaparecer com a “Miséria” e aniquilar o “Monstro da Violência”. 6. Núcleo Temático da Justiça Universal - Sopram os ventos da Expansão e do Poderio anunciando um futuro brilhante. São os arautos da nova civilização brasileira, no mundo.

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ENREDO “VAMOS VESTIR A CAMISINHA, MEU AMOR” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO - 2004

Análise da narrativa Ao iniciar a narrativa com a frase “Fique sabendo”, o narrador deixa claro sua intenção de informar, de ser útil, de elucidar questões. Quase uma narrativa conselho, revestida da esperança de que o leitor se interesse. Mas o narrador começa informando algo poético, algo revestido de sedução: o aparecimento do Jardim das Delícias, quando o luminoso dia foi separado da fascinante noite. Parece que o narrador quer tecer uma teia de beleza e encantamento em volta do leitor para depois, já tendo conseguido a atenção do leitor, entrar num território mais árido de informação. A opulência da natureza, com flores em frutos em profusão, é alertada pelo narrador, bem como a diversidade dos animais, dando aspecto de maravilhoso à narrativa. Em seguida, o narrador informa que foi criado o homem, mas faltava a mulher. Neste plano, entramos numa narrativa bíblica, que usará os arquétipos religiosos católicos para trazer a noção do pecado. A mulher, deslumbrante fisicamente, surge no Paraíso sem maiores explicações, como se fosse apenas um desejo do narrador, imperativo em seus quereres. E, ao surgir a mulher, a felicidade se faz total naquele paraíso das delícias. Desta estrutura narrativa bíblica, Joãosinho Trinta parte com o leitor para as bandas do oriente, onde os relacionamentos humanos eram providos de lições do amor, ensinadas por sábios orientais aos enamorados. Na Índia, o ato sexual era considerado o momento ápice da existência humana. O narrador utiliza-se da expressão “neste momento, cumpre as palavras do eterno”, para voltar a ser incisivo, retoma um discurso coercitivo, para informar que o Eterno (Deus) ordenou para a humanidade: “crescei e multiplicai-vos”. O narrador neste momento nos informa que o sexo é uma ciência que deve ser estudada, segundo os povos orientais.

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Surge uma astuciosa serpente nesta configuração, híbrida, de catolicismo e kamasutra, pois o homem e a mulher, tentados pela serpente, não estão solitários neste Jardim, e sim recebendo aulas de amor. Édem é o nome do Paraíso, cujas qualidades, sereno o afrodisíaco, serão reunidos para chamar tudo isto de um coreto, que será balançado pela serpente tentadora. Neste contexto, há o pecado como balançador de um coreto que é o jardim bíblico, equilibrado, entre um homem e uma mulher. Ao utilizar a expressão “balançar o coreto”, extremamente carnavalesca, pois o coreto servia e ainda hoje serve para bandas de carnaval em praças públicas, o narrador traz toda a sua informação para o terreno da folia de Momo, dando um ar de graça e irresponsabilidade para sua narrativa que começou com um solene “fique sabendo”. A serpente consegue trazer os males para dentro do paraíso, pragas demoníacas e mortíferas, espalhando as epidemias entre os homens em todas as épocas. Portanto, um mal atemporal que, surgido lá, em tempos imemoriais, até hoje está por aí a disseminar males. O narrador utiliza a construção “eis porque” para retomar o tom do “fique sabendo”, e revestir sua narrativa de causalidade e certeza: desde as mais antigas eras, citando os deuses gregos, inclusive, a humanidade busca uma defesa, um preservativo para estes males disseminados pela tentação. Cita o antigo Egito, a China, o Japão (dizendo que isto acontece há mais de 2.000 anos) e depois enumera Idade Média e Europa como tempo e locais onde já existiam preservativos. Já estão reunidos, até agora, na narração, o Jardim do Édem, as bandas do Oriente, a Índia e o Kamasutra, os Deuses Gregos, o Egito Antigo, a China, o Japão, a Idade Média e a Europa, todos num balaio de coreto balançado, buscando uma forma de preservar a espécie. Entrando na questão do preservativo, seu plot nesta narrativa, Joãosinho Trinta nos informa que o primeiro deles foi chamado de “camisa de Vênus”, confeccionado com vísceras de bode, carneiro e outros animais.

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Com a frase: “a história da Camisinha, é, portanto, muito antiga” resume toda a autoridade do narrador, para em três parágrafos dar a volta ao mundo e em sucintas pinceladas, deixar claro a importância de narrar a história mundial do preservativo sexual denominado “camisinha”. O segundo bloco da narrativa inicia informando: “nos tempos atuais outras espécies de vírus surgiram”. É a entrada do HIV, ameaçando a humanidade inteira, através da epidemia de AIDS. A ciência tenta socorrer a retomada do prazer, avançando em busca de soluções para afastar os perigos, mas restará ao homem cuidar do hábito da preservação. Quem desempenha esta importante função são o as ONGS, sempre lembrando às comunidades da preservação e sua importância. E as ONGS devem focar nas brincadeiras de crianças, na prática dos adultos e até nos prazeres da melhor idade (“quando os idosos revivem seu passado” é a frase que comprova este equivocado raciocínio de que sexo seria reviver o passado, quando, para a terceira idade o sexo deve ser o presente possibilitando vigor, inclusive sexual!). O narrador faz uma chamada de ordem, invocando a liberdade de escolha de parceiros sexuais, bradando que gays, lésbicas e simpatizantes (portanto heteros) possam viver livremente, mas que tenham cuidado, que usem a camisinha. E reconhecendo o paradoxo, o dilema de tratar conteúdo dramático, científico e sério, dentro da esfera eufórica e de excesso do carnaval, o narrador confessa que é preciso ter muita criatividade, pesquisa e sensibilidade. E, autoritário, ordena: o desafio foi superado!. Decisão dele, o narrador, que ao leitor só caberá acatar. E em seguida, tiro de misericórdia, resume: em nenhum momento o tratamento artístico resvalou para o obsceno. Mas alerta que resvalou para a realidade, sim, mas com cuidados. Se entendermos que a realidade é extremamente obscena, às vezes, ficamos a meio caminho do que o narrador quer exatamente dizer com isso. Tentando se explicar, o narrador acusa as emissoras de televisão de invadir as casas com as cenas mais terríveis e mais brutais da contemporaneidade.

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Concluindo, o narrador sintetiza que esta narrativa intitulada “Vamos vestir a camisinha, meu amor!”, busca um resultado positivo, que seria o esclarecimento do povo brasileiro e outros povos do mundo sobre a importância do uso do preservativo, pois vestir a camisinha é a única forma de se preservar contra o vírus HIV. Alto nível artístico, beleza e muita alegria são as qualidades invocadas pelo narrador para conseguir realizar seu desafio paradoxal. Ainda insistindo que não é um tratamento pornográfico (quase em tom de defesa, mesmo, como se estivesse sendo acusado por alguns leitores ou observadores deste enredo, de estar sendo pornográfico), declara que esta narrativa trata com respeito e auxiliará o governo brasileiro, que tantos prêmios já ganhou com seu trabalho contra a AIDS, a celebrar o tema. E encerra, declarando as sentenças de ordem, nesta narrativa que é quase uma paródia das falas de um ato político, quase uma plataforma do Ministério da Saúde, quase uma carta compromisso de ato e decretos que uma candidatura pode estabelecer com a população: proteger as crianças, preservar saúde e vigor físico, praticar esportes e cuidar da alimentação, festejar o milagre da vida, e cantar e dançar com Alegria, no Carnaval da Escola de Samba. Neste momento o narrador introduz a figura tão querida pelo povo brasileiro, que é o apresentador e comunicador Chacrinha, o velho-guerreiro, que em seu programa de TV dizia a frase que serviu de inspiração para esta narrativa: “bota a camisinha, bota meu amor!”. Além de Chacrinha, o narrador cita Cazuza como um exemplo de grande artista abatido pelo vírus, e outros, abatidos pelo preconceito, que, vindo de onde estiverem, que eles venham participar desta narrativa-desfile cujo grande objetivo é exaltar a beleza e a alegria de viver.

Núcleos Temáticos presentes na narrativa “Vamos vestir a camisinha, meu amor!” 1. Núcleo Temático da Fantástica Transmutação - O narrador invoca que vários artistas mortos venham participar do desfile, de uma forma ou de outra.

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2. Núcleo Temático da Aldeia Global (primeira narrativa onde surge este núcleo temático) O narrador declara a capacidade de sua narrativa de carnaval influenciar povos do mundo inteiro e esclarecê-los sobre a importância do uso do preservativo.

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6. CONCLUSÃO

Observe-se que João Trinta suplanta o carnavalesco. Ele é o autor de Carnaval, porque ele vai viver, vai romper os paradigmas, vai propor novas possibilidades do fazer o Carnaval. Neste rumo de enlouquecimento, da metade para o fim de sua carreira, vai deixando sua narrativa ser invadida pelas incertezas do labirinto do final do milênio. Ele vai se juntar aos decadentistas em termos de expressar em seus textos a perplexidade, a angústia que representa os novos tempos. Quais as soluções para o Brasil? João Trinta busca, incessantemente, soluções e possibilidades a partir da segunda metade de sua produção. Espero estar errado quando digo segunda metade ou metade final. Desejo que ele volte a fazer Carnaval. Tomara que, na sua volta, mais uma vez ele se releia e nos surpreenda. A partir de 1987 / 88, as questões sociais apresentadas pelo autor guardam claramente as fantasmagorias de fim de século, e de milênio. João Trinta via se aproximar o ano 2000. É perceptível que ele se investe de uma postura messiânica, transparentemente evidenciado em seu texto: “...eu vou salvar ...”, “...eu vou ajudar a recuperar a ética deste meu país através do desfile de Carnaval...”. Desse momento em diante, ele começa a se indispor, na sua escrita, com a Igreja Católica, com os políticos, o que é típico da “demência” do grande gênio, da clarividência, da loucura sã que é capaz de enfrentar os próprios poderosos que patrocinam esta narrativa. É, inclusive, capaz de usar esta narrativa, este palco que lhe é cedido pela oficialidade, para encarar esta oficialidade. Muitas das escritas de João fazem o fogo da justiça do Terceiro Milênio descer simbolicamente sobre a Marquês de Sapucaí em diferentes formas como uma nave espacial, uma fogueira, um clarão, uma luz que, metaforicamente, virá redimir os que participam do Carnaval. João sempre insistiu que a narrativa de Carnaval é capaz de redimir,


pela alegria, pela beleza, pelo que chama de “indomável capacidade do brasileiro de se repensar, de se reescrever e expor a sua alegria”. João acredita, acreditava, acreditou que, através da alegria do discurso do Carnaval, na Marquês de Sapucaí, o Brasil pudesse se repensar e se reescrever. Um discurso contraditório, como de todos os grandes autores, um discurso paradoxal, um discurso tumultuado, mas um discurso que deixa clara a vontade deste autor de Carnaval de contribuir, para que a sua nação melhore. A escrita de Carnaval de João Trinta se torna definitiva, porque se entende o Brasil das décadas de 1980 e 1990 e começo dos anos 2000, a partir do seu texto. Quem lê o texto embrião, isto é a narrativa de João Trinta, para os 30 carnavais que realizou, não precisa, necessariamente, ter assistido os desfiles para encontrar ali, um autor preocupado com as soluções do labirinto de seu tempo, de seu Brasil. As minhas conclusões sobre a escrita do Joãosinho Trinta são: Que sua Rapsódia paradoxal sobre o Brasil é uma das mais significantes leituras apresentadas sobre o Brasil, no período entre o fim do segundo e o início do Terceiro Milênio; Que ele é o grande arauto da negritude vitoriosa na escrita de Escola de Samba carioca; Que como narrador traduzirá, em texto, as máscaras da carnavalização indicadas por Bakhtim; Que ele vai introduzir, nos enredos de Carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro, o elemento “fantástico”. Ele vai romper as barreiras espaço-temporais, que até então eram exigidas, numa historinha com início, meio e fim, personagens reais, ou pelo menos, supostamente reais, numa história em seqüência. João traz, na sua “loucura”, os grandes saltos no tempo e a possibilidade do carnavalesco supor, interferir, mudar e sonhar sobre o seu tema;

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Que ele apresenta características “decadentistas” em sua escritura, pois vivencia o labirinto finimilenar de forma profunda, fazendo ponte entre as vertigens do século XX e do XXI; Que sua narrativa apresenta as características contraditórias da pós-modernidade (e antecipa as questões da cobiça internacional da Amazônia e o enfraquecimento do poder da Igreja católica). O clima de epílogo - Na insegurança com que Joãosinho vive o presente há a preocupação com o futuro, pois na recorrência de sua poética ele fala muito de proteção, segurança, defesa das "conquistas sociais", urgência humanitária, preservação do planeta. Alertando para a necessidade de "limitar os estragos", ele demonstra que a sensação de insegurança invadiu os espíritos. Diante do ambiente da civilização do efêmero, João, efêmero, muda o tom emocional da narrativa para escola de samba. Tudo o que Joãosinho teme é o processo de "rebarbarização" do mundo. João luta contra isso, usando características do quadro democrático deste mesmo período histórico. Nesta interpretação humanista do universo hipermoderno, o centro de gravidade ideológica da poética de Trinta, há em sua obra a reconciliação inédita com os fundamentos humanistas de legitimidade inconteste e a nova consagração dos direitos humanos, ideal que ele já expõe em sua primeira narrativa solo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, ao fazer valer o ponto de vista das pretas velhas rezadeiras, valorizando a negritude, o idoso, e os aspectos culturais da formação de uma sociedade. O valor conferido ao amor e à amizade, indignação em face das novas formas de escravidão e de barbárie, a exigência de moralizar as trocas econômicas, a mídia e a vida política são vivenciados pelo personagem central da narrativa “Gentileza X: o Profeta do Fogo”, que, nascido José Higino, transforma-se em Gentileza, o profeta que, ao ouvir vozes misteriosas, é levado a incorporar elementos de S. Francisco de Assis, e assumir um “alter-

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ego”, em nome de uma missão transcendental. Nesta poética de maravilhosas transmutações e possibilidades, está tudo menos fechado, encerrado em si mesmo, e João propõe o poder de autocrítica e de autocorreção que existe no universo democrático liberal da pós-modernidade. Está claro que o mundo provoca mais inquietação do que otimismo em Joãosinho Trinta: seus referenciais culturais se embaralharam, ele trava intensa batalha contra o primado do pragmatismo e do deus dinheiro, vê a dissolução dos fundamentos incontestes do saber e envereda por formas místicas e misteriosas de produzir conhecimento, propondo inclusive o hibridismo em sua narrativa (misturando dados bibliográficos à narrativa ficcional, manipulando dados históricos a sua necessidade pessoal); e sua poética denuncia o dinheiro e a eficiência como os princípios e os fins últimos de todas as relações sociais, alarga-se o abismo entre Primeiro e Terceiro Mundo; aumentam as desigualdades sociais. A luta social e o discurso crítico de Joãosinho Trinta oferecem a perspectiva de construir utopias e superar a dominação. As narrativas de Joãosinho Trinta são sempre carregadas tanto de perigos, quanto de promessas. Elas sempre foram uma espiral hiperbólica. Vemos travada dentro da obra dele a "guerra dos deuses": “Dado que a depreciação dos valores supremos não é sem limites, o futuro continua em aberto”. Se vivemos em uma pós-modernidade onde poucos valores têm força de obrigação, Joãosinho propõe que nos obriguemos à alegria, a deixar vir a celebração, o poder que a democracia brasileira tem de reger a si mesma pelo ziriguidum, contrariando a dinâmica técnica e mercantil que organiza segmentos inteiros de nossas sociedades.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ANEXOS (AS NARRATIVAS ESCRITAS DE JOÃOSINHO TRINTA)


Anexo 1 “REI DE FRANÇA NA ILHA DA ASSOMBRAÇÃO” ACADÊMICOS DO SALGUEIRO – 1975

No norte do Brasil – nas terras do Maranhão, Terra dos Poetas, Cheias de Palmeiras, onde canta o sabiá, As pretas velhas contam estórias de antigamente, E, se benzendo, falam das assombrações que existiam naqueles lugares. As pretas velhas diziam: Quando descobriram nossas terras, a fama correu pelo mundo. Aqui era a terra do ouro e da prata, habitada por gente índia-selvagem, bela e emplumada. Gente que vivia feliz nas matas virgens, cheias de esguias palmeiras, Entre flores, frutos, animais e pássaros deslumbrantes. Esta fama chegou até aos Reinos da França, onde o Rei era um menino de 8 (oito) anos – o Rei LUIZ XIII, e quem governava era sua mãe, a RAINHA MARIA DE MEDICI. A nobreza ficou maravilhada com o que diziam. E desejou apoderar-se daquelas terras distantes... Entusiasmada, a própria rainha começou a preparar uma esquadra para a invasão das terras descobertas, pretendendo fundar, ali, um novo REINO DE FRANÇA. E no grande salão dos espelhos, sentado no trono, O REI MENINO assistia o alvoroço daqueles preparativos, ouvindo as coisas fantásticas que todos falavam. E sua imaginação de criança começou a criar uma FANTASIA ESTA FANTASIA É O ENREDO DO SALGUEIRO

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Ele transformou o Salão dos Espelhos em matas virgens... Os Candelabros em esguias palmeiras... A Nobreza em gente índia – bela e emplumada... E também, em Flores, animais – pássaros deslumbrantes... E a Rainha virou a Deusa deste Reino fantástico, saindo da suja imaginação... E o REI MENINO brincou e se divertiu – Senhor absoluto que era daquele Reino de Fantasias... Mas o que ele não sabia porque ninguém lhe contava eram as estórias das assombrações que existiam naquelas terras distantes... As pretas velhas, rezando baixinho, dizem que ninguém contou ao REI MENINO que em noite de lua cheia, na linda PRAIA DOS LENÇÓIS, de repente, as águas ficam agitadas e surge, na alva areia, UM CORTEJO DE ASSOMBRAÇÕES. São estranhas criaturas vindas do mar que cobrem com um pálio de algas prateadas UM TOURO NEGRO COROADO. Quando as águas se acalmam, aqueles estranhos seres viram gente de outros tempos. E o TOURO NEGRO se transforma no belo Príncipe DOM SEBASTIÃO DE PORTUGAL, desaparecido, por artes mágicas, na famosa batalha de ALCACEQUIBIR. Quem acalma as águas é a Princesa INA – amante do príncipe e que mora num palácio submerso. As pretas velhas se benzem, e, dizendo CREDO CRUZ, contam também o que acontece quando os sinos das igrejas batem MEIA NOITE. Surge, não se sabe de onde, uma enorme carruagem arrastando ESCRAVOS, CORRENTES E MUITA RIQUEZA... É A ASSOMBRAÇÃO DA FIDALGA NHÃ JANÇA

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Pelas coisas que fez em vida, sua alma foi obrigada a correr, todas as noites, pelos lugares onde viveu, dentro daquela carruagem. Enquanto suas riquezas e jóias iam se transformando em azulejos e pingos d’água como as lágrimas, a carruagem se transforma numa Serpente Prateada. Os azulejos foram cobrindo as casas e os pingos d’água cercaram aqueles lugares que se transformaram numa ILHA. A Ilha que hoje tem o nome de SÃO LUIZ DO MARANHÃO. Recordando aquele REI MENINO que tanto sonhou com nossa Terra

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Anexo 2 “O SEGREDO DAS MINAS DO REI SALOMÃO” ACADÊMICOS DO SALGUEIRO – 1975

A SABEDORIA, o PODER e as RIQUEZAS, fizeram do REI SALOMÃO o mais famoso Rei de todos os tempos. Seu tesouro era fantástico. De ouro puro, madeiras raras e pedras preciosas, ele construiu um Templo e o Palácio de suas 700 esposas. Suas minas eram guardadas em segredo nas desconhecidas TERRAS DE OFIR. Somente o REI HIRAM DA FENÍCIA conhecia o roteiro. Ele trazia o tesouro e trocava por terras com o Rei Salomão. Os outros reinos tentavam descobrir onde ficavam as minas. Enviavam suas mais lindas princesas como esposas para o Rei Salomão. Todas, com seus encantos e sortilégios, tentavam descobrir onde ficavam as TERRAS DE OFIR. Vieram princesas dos reinos da Etiópia, Egito, Babilônia, Assíria, Pérsia, Índia e Sião. A própria Rainha de Sabá visita o Rei. Chega em suntuoso cortejo, trazendo sedas, incensos, jarras de ouro e DEZ MIL NEGRINHOS DE OLHOS VERDES. Mas, o REI SALOMÃO é bastante sábio e não se deixa seduzir. O tempo passou e até hoje o segredo ficou guardado. Mas agora, na avenida colorida, entre cantos e danças de alegria, vai ser revelado o SEGREDO DAS MINAS DO REI SALOMÃO. Ninguém vai negar. A verdade está escrita em pedras. Pedras pintadas chamadas de ITACOATIARAS. Em letras antigas está dito: AS MINAS DO REI SALOMÃO estavam nas selvas brasileiras, nas margens do Rio das AMAZONAS. Aquelas terras cheias de riquezas,

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flores, pássaros e animais eram as lendárias TERRAS DE OFIR. Ali viviam as AMAZONAS, valentes mulheres guerreiras, guardiãs do tesouro. Os feiticeiros das outras tribos, eram seus grandes inimigos. Elas lutavam e venciam sempre. Mas, uma vez por ano, elas transformavam seus gritos de guerra em gritos de alegria. Era com a chegada do REI HIRAM e dos navegadores fenícios. As Amazonas acreditavam que eles fossem SEMIDEUSES, enviados pela IARA – A RAINHA DAS ÁGUAS, para gerar suas filhas. Enfeitavam-se com flores e pedras preciosas. Dos visitantes recebiam um presente: uma figura de JADE , a pedra verde do oriente. Contentes elas corriam para o LAGO IACIUARUARÁ – O ESPELHO DA LUA. Invocavam sua DEUSA e faziam o RITUAL DE CONSAGRAÇÃO DAS PEDRAS VERDES. O presente dos fenícios vira o MUIRAQUITÃ – O amuleto de sorte das AMAZONAS. Depois, ao clarão da lua cheia elas iniciavam a GRANDE FESTA DO AMOR. Era a NOITE DE PRAZER DAS AMAZONAS. Suas NÚPCIAS. No dia seguinte, elas extasiavam os fenícios. Mostravam suas Minas de Ouro e Pedras Preciosas e enchiam as embarcações com tesouros. Os fenícios partiam e prometiam voltar quando a sétima lua cheia voltasse a iluminar as TERRAS DE OFIR, fazendo faiscar com todo esplendor, AS MINAS DO REI SALOMÃO.

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Anexo 3 “A LAPA DE ADÃO E EVA” BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS – 1985

PODEREMOS FAZER O RIO SER DE NOVO O PARAÍSO O enredo da Beija-Flor para o Carnaval de 1985: é um canto de louvor, reflexão e alegria muita alegria, ofertada ao Rio de Janeiro. A partir de 1985 faltam apenas 15 anos para o Terceiro Milênio. É histórica a conturbação que sempre acontece no final dos séculos. Está acontecendo novamente. E é necessário um equilíbrio e uma preparação para o desafio no novo tempo. Além da vibração do Carnaval, nós esperamos que este enredo toque a mente e o coração de todos os que amam esta terra. Como brasileiros responsáveis também pelo destino da Nação, aceitem a verdade científica de que no Rio de Janeiro pisamos o próprio berço da Terra. Com surpresa, mas também com orgulho, de repente esta revelação pode aumentar nossa dose de amor por nossa cidade, que é de todos. Ser carioca é um estado de espírito. Na fantasia do Carnaval, imaginamos que aqui foi o Jardim de Éden. Mas, com a participação de todos - povo e Governo - poderemos fazer o Rio ser de novo o Paraíso. Um povo que realiza a maior festa do mundo tem capacidade também para erguer uma nação. Só é necessário o impulso, a vibração de começar. Como se faz com uma escola de samba -como a Beija-Flor - que nas lendas indígenas é o pássaro mensageiro dos deuses. “SE O MUNDO COMEÇOU PELO RIO DE JANEIRO, ENTÃO O PARAÍSO ERA AQUI” Um dia, no morro da Urca, conversando com o Sr. Cristóvão (presidente da empresa do bondinho do Pão de Açúcar), ele me disse: "no Brasil nós temos coisas fantásticas, que o mundo inteiro iria admirar. Por exemplo, aqui nós estamos pisando o próprio berço da Terra."

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Fiquei fascinado e ele concluiu: "o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea e o Corcovado -o Triângulo ou Pirâmide do Rio de Janeiro, são da mesma época, ou seja, da Era Primária. Estas pedras são matérias ígneas, o fogo puro de um globo que se resfriou para ser chamado de Planeta Terra." Tirei apenas uma conclusão, se o mundo como a terra, começou pelo Rio de Janeiro, então o Paraíso foi o Rio de Janeiro. Claro que é uma fantasia. Mas esta fantasia repousa numa verdade científica que é fantástica e que tão poucas pessoas conhecem. Por Isso, passei imediatamente para uma pesquisa e encontrei no livro "O Homem e a Guanabara", de Alberto Ribeiro Lamego, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia de 1948, que diz textualmente na página 28: "Finalizando poderemos pois confiantemente afirmar que, enquanto não forem encontradas formações da mesma idade em outras partes do planeta, nas rochas tipicamente azólcas brasileiras, mormente as do Distrito Federal e as da serra do Mar no Estado do Rio de Janeiro, pisamos o próprio berço da Terra." BANANA, A FRUTA DO PECADO E eis que surge a fruta do pecado: a banana. Aqui não poderia faltar a figura de Carmem Miranda que, no Cassino da Urca, assumiu nosso tropicalismo e com bananas na cabeça partiu para Hollywood. A carreta que tem como nome a letra do samba "Eva comeu a banana" tem concepção inspirada em um dos seus filmes. ACONTECE O PECADO ORIGINAL O pecado original é representado na figura de uma belíssima mulher. Ela vem na carreta que diz: "O Jardim se Transformou", que mostra os Arcos da Lapa totalmente envolvidos por animais demoníacos, tudo em cores quentes -contraste vibrante com a tranquilidade do carro Abre-Alas. Nesta carreta está presente, também, a serpente. Agora transformada naquela figura incrível e famosa da Lapa: Madame Satã. Ela se enrosca entre os três aspectos de Adão: o

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erotismo, a força;a malandragem. Pairando sobre eles está o “Anjo Flamejante", ladeado de dois anjos de justiça, os destaques. Através desta alegoria que representa os Portais do Pecado, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. O samba diz: O Jardim se transformou ... A LAPA E A PRAÇA TIRADENTES: ORGIAS E PRAZERES O Cine Theatro Iris, da rua da Carioca, anuncia o seriado "Sodoma e Gomorra". A grande movimentação deste ambiente é feita por transformistas e travestis, representando estelas do cinema. Acima dele um "Anjo ao Pecado”. O clima de luxúria destes lugares está expresso na carreta que vem em seguida. Outra carreta mostra o fascinante Teatro de Revista com os nomes sugestivos de suas vedetes: Luz Del Fuego, Virginia Lane e Elvira Pagã. Neste clima de orgia evoluem o mestre-sala e a porta-bandeira. O samba diz: Em Sodoma e Gomorra acabou ... OS FENÍCIOS DESCOBRIRAM O RIO DE JANEIRO Começa outro capitulo ou setor: a presença dos povos bíblicos como os fenícios entre nós está ligada à Pedra da Gávea. Umas inscrições que se encontram na Cabeça do Imperador já foram traduzidas e falam de um casal de príncipes, primogênitos do Rei Badezir-da cidadede Tiro-Fenícia. Grandes navegadores, os fenícios há milênios chegaram ao Rio de Janeiro. A missão daquele casal era iniciar uma civilização em nossas terras, trabalho ligado às Ordens Secretas ao Oriente que se ramificaram para as Ordens de Cristo e Aviz, em Portugal. Estudiosos destes assuntos dizem que o nome do Brasil é na verdade uma derivação do nome daquele rei fenício: Badezir. Falam, também, que forças negativas impediram que aquele casal de príncipes realizasse o seu trabalho. Houve um naufrágio e os corpos dos dois, dizem, estão no interior da Pedra da Gávea.

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Mas, na linguagem carnavalesca, nós preferimos falar da Grande Sociedade "Os Fenianos". Representados pelo primeiro grande carro alegórico com a Pedra da Gávea ladeada de barcos fenícios. No alto, os dois príncipes. Nas catedrais - os guardiães. Atrás, a Corte Fenícia. Nos barcos, os navegadores. Simbolizando a luta do Bem e do Mal, eles disputam com os "Tenentes do Diabo", que vêm na carreta a seguir. Daquela luta fica como recordação apenas as inscrições e a escultura feita na Pedra da Cabeça do Imperador. Mas, na linguagem carnavalesca, nós preferimos falar da Grande Sociedade "Os Fenianos". Representados pelo primeiro grande carro alegórico com a Pedra da Gávea ladeada de barcos fenícios. No alto os dois príncipes: Zeza e Isidoro. Nas catedrais - como guardiães — temos Dejair e Ney. Atrás, a Corte Fenícia. Nos barcos, os navegadores. Simbolizando a íuta do Bem e do Mal, eles disputam com os "Tenentes do Diabo", representados por Sueli e Dionísio, que vêm na carreta a seguir. Daquela luta fica como recordação apenas as inscrições e a escultura feita na Pedra da Cabeça do Imperador. PARAÍSO É TERRA DE INDIO E agora, o Paraíso é terra de índio: vem a carreta 'Cacique de Ramos" e em seguida "Bafo Tem Também" representando o Bafo-da-Onça. E o samba diz ; Ramos tem cacique, Bafo tem também, Um devora o outro, Ninguém sabe quem é quem ... RIO DE JANEIRO É CIDADE DE BABEL E surge na avenida o carro com a Torre de Babel. Este carro gira e mostra que Hoje o meu Rio ó cidade de Babel. E aqui a presença da crítica com o verdadeiro humor carioca. A pitada de pimenta que sempre existiu no Carnaval brasileiro. Sem querer atingir ninguém, com uma só intenção, beliscar. O samba diz: Hoje meu Rio, é cidade de Babel, Emoldurada, neste meu painel... POLÍTICA PARECE BRINCADEIRA

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Como faz Jô Soares no seu quadro na televisão: Aqui tudo termina em samba, a BeijaFlor procura também divertir mostrando na carreta a seguir o que diz o Samba: Política parece brincadeira... CARNAVAL É COISA SÉRIA Depois da Política Parece Brincadeira, teria que vir outra carreta falando que Carnaval é coisa séria. Nela vem a negra Pinah, de cabeça feita, na coroa do Rei Momo. APLAUDAM TODOS, O CIRCO VAI PARTIR. ADEUS Mas o samba continua: Camelô levou rasteira/Circo não tem opção. Enfim, o Camelódromo e a triste situação desta gente de circo, gente maravilhosa que sempre encantou as infâncias de todas as épocas. Hoje, no Rio, eles não têm mais espaço para se apresentarem. Por isto. Orlando Orfei pessoalmente vem desfilando na Beija-Flor. Em cima de alegorias de leões, ele vem acompanhado de trapezistas, palhaços, anões: faz suas despedidas desta cidade que ele ama. Garanto que, no meio da alegria do samba, algumas lágrimas sairão dos seus olhos. Eles se despedem do grande público. Aplaudam todos. O circo vai partir. Adeus. E AGORA O OSCAR GAY E na Cidade de Babel, Gay é... sucesso. Em bandejas de frutas "As Caricatas", o grupo mais famoso do Brasil. E o sucesso do Oscar Gay. O prêmio das incríveis transformações ao bom-gosto e à pureza E, no chão, hoje, elas ocupam um grande espaço. NO CARNAVAL A GENTE TEM QUE BRINCAR COM A VERDADE. PORQUE O ANO INTEIRO, ELAS MACHUCAM DEMAIS Em seguida, uma crítica à desvalorização do diploma. O Doutor Sócrates ficou famoso pelo trabalho de suas pernas. Para isto, não estudou. Seu diploma está guardado. Como está também o de seu mordomo, que pode ser outro médico que engraxa seu sapato. O mesmo

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acontece com o diploma da professora que em troca de alguns desvalorizados cruzeiros faz a faxina limpando o grande "Dólar" que serve de piso nas mansões dos ricos. Pedimos desculpas ao Sócrates e ao futebol que ele representa e a quem tanto admiramos, até porque a nossa crítica é à desvalorização do diploma e, no Carnaval, a gente tem que brincar com a verdade, porque o ano inteiro, elas machucam demais. O BRANCO PROCURA APRENDER O SAMBA, ENQUANTO O CRIOULO VAI DANÇAR O BREAK Mas lá adiante, vem outra carreta cheia de crianças, com Xuxa. “Vem lourinha, vem sambar/Que o crioulo só quer Michael-Jequiar”. É a brincadeira para dizer que hoje o branco procura aprender o samba, enquanto o crioulo vai para a discoteque dançar "Break". Não somos contra o branco vir para o samba - o samba é de todos os brasileiros. Quanto ao "Break" e outras novidades, não devemos ter medo, seus anjos psicodélicos que vêm pairando nesta carreta, nem às crianças assustam. Até porque logo em seguida vêm as nossas queridas mães pretas, nossas baianas girando suas saias rodadas, símbolos da roda da vida que continuam nos envolvendo. Acreditamos na força do samba. Pois ele e o verdadeiro canto do povo. As raízes estão no sangue. E a prova é este desfile, o desfile do maior espetáculo da Terra. Com o samba enredo é elaborado todo o trabalho onde simbolizada na elegância e na leveza dos primeiros mestres salas. E, assim, a escola se transforma em veículo de conhecimento e é mensageira de verdades e belezas. Com ele, é possível contar a verdade científica de que o mundo começou pelo Brasil. E abre as portas da imaginação para a fantasia de que o Paraíso foi e é o Rio de Janeiro. QUE AS LUZES LANÇADAS PARA OS CÉUS ILUMINEM OS PORTAIS DO TERCEIRO MILÊNIO

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Que todos vejam no carro final da Beija-Flor aquele ser de luz - energético, que no alto do Corcovado é símbolo de amor e esperança. Que as luzes lançadas para os céus iluminem os Portais do Terceiro Milênio, onde voarão tranqüilos os modernos anjos de asa delta. Que a Lapa volte a ser a Lapinha onde viverão felizes as crianças que estão nascendo agora, nossos filhos - arquétipos belos e sadios de Adão e Eva, no Paraíso do Rio de Janeiro. Que nossos sonhos na alegria do Carnaval se tornem realidade. Joãozinho Trinta

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Anexo 4 "SOU NEGRO! DO EGITO À LIBERDADE" GRES BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS – 1988

Em 1888, ocorreu a libertação formal do negro. Cem anos depois, refletindo sobre este acontecimento, fala-se das correntes aprisionadoras, do sofrimento e da tristeza que ainda envolvem o negro brasileiro. Mas a Beija-Flor preferiu proclamar liberdades maiores, liberdades verdadeiras que engrandecem a humanidade: as das culturas negras.Por isso mesmo, a Beija-Flor exalta os pilares que fundamentam as tradições dessas culturas milenares e que se expressam na harmonia com a natureza, nas artes, nas ciências, nas religiões , na luta e na bravura, no amor e na sensualidade; caracterizando, assim, toda uma sabedoria que se manifesta, inclusive , numa culinária que engloba todos os planos de manifestação do ser. E esta proclamação se faz com muita alegria, com muita beleza, com muito emoção e sobretudo, com muito axé. O título deste enredo é: Sou negro, do Egito à liberdade. E por que, de repente, reportamo-nos ao Egito? Exatamente porque também proclamamos a libertação de um Egito negro. Como toda ciência possui um suporte ideológico, a Egiptologia do século passado, tratou de ocultar o caráter africano da civilização egípcia, servindo, assim, aos interesses da colonização. Justificava-se, desse modo, a escravização , o massacre e a dominação dos povos africanos. E nesse século, Hollywood encarregou-se de aprofundar este ocultamento, a civilização egípcia como totalmente desvinculada do continente africano. Graças ao trabalho de cientistas negros como CHEIK ANTA DIOP e de toda uma escola de pesquisadores preocupados com a verdade histórica, houve uma retomada vigorosa daquilo

que

sábios

da

Antiguidade

Greco-Romana

(HERÓDOTO,

ÉSQUILO,

ARISTÓTELES, ESTRABÃO, APOLODORO, LUCIANO, DIODORO DA SICILIA,

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DIÓGENES LAÉRCIO, AMIANO MARCELINO), a Bíblia e alguns egiptólogos modernos afirmaram como sendo uma evidência: os egípcios antigos eram negros. E Diop nos esclarece que o termo com o qual os antigos egípcios se auto-designavam, kmt, significava literalmente "os negros". Alem disso, Diop ressalta que "negro" é o epíteto divino que designava os deuses benfeitores, ao passo que desrét, vermelho, caracterizava os espíritos maléficos. Osíris tinha o epíteto de "O Grande Negro", enquanto o qualificativo km, negro, era atribuído a Min, Toth, Hátor, Ápis e outros; Setkmt , a mulher negra, identificava-se com Ísis. Desnecessário dizer que aqui não estamos tratando de identificação entre raça e cultura, mas justamente do contrario: pois foi exatamente partindo de tal identificação que sérias distorções ocorreram no campo da egiptologia, com o objetivo de descaracterizar o fato de que foram os negros os criadores da civilização egípcia. Afinal, é a ideologia racista que afirma que os negros são incapazes não só de terem criado como de terem contribuído para o desenvolvimento de civilizações passadas ou atuais. Com isso, a humanidade do negro foi totalmente negada e, consequentemente, jogada na natureza, na sua animalidade. Por tudo isso, o Enredo da Beija Flor traz consigo um momento de grandes verdades. Na brincadeira do samba, muitas coisas sérias podem ser explicitadas, ficando plasmadas (...) (...) ancestralidade egípcia, não deixamos de estabelecer a sua continuidade, na dinâmica das reinterpretações culturais de outras civilizações africanas cujos representantes foram trazidos para o nosso país. Resgatar simbolicamente essa continuidade histórica, constitui a nossa contribuição para a construção da identidade do povo brasileiro. Faltam, apenas, 12 anos para o ano 2.000 - o início do III MILÊNIO. E, acreditamos que este será o momento do BRASIL. Claro que muitas águas vão rolar. A geografia do BRASIL tem o desenho de um coração. E a função do coração é irrigar o corpo com energia pura. Mas, um coração desequilibrado, de cabeça para baixo, tem, exatamente, o contorno de uma bunda. Imaginem uma do tamanho do Brasil! Só as Bacias do Amazonas e do Prata

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poderão lavar tanta sujeira. Mas, temos esperança na realidade histórica. O corpo físico da terra adquiriu seu veículo mental através da marcha das civilizações. De Oriente para Ocidente. De Norte para Sul. E este caminhar encerra-se aqui, na América do Sul, no Brasil. É o fecho de um ciclo de evolução,o símbolo oriental, egípcio e nagô da serpente mordendo a cauda. Claro que este é um momento dificílimo. O equilíbrio do passado com o presente e o avanço do futuro. A superação e a transformação. Mas, é o nosso destino. Esta conscientização será feita de várias maneiras. O sofrimento prepara caminhos. Mas, os momentos de alegria, também podem ser aproveitados. É o que tentamos fazer. Através da linguagem carnavalesca procuramos contribuir para a realização deste Brasil maior. Somos um povo envolvido pelo misticismo. É a força das tradições africanas. E foi este o caminho que encontramos para desenvolver nosso enredo. Faremos uma proclamação das liberdades do negro ou do povo brasileiro através da presença dos Deuses (...) (...) a grande unidade do pensamento africano que está geneticamente no nosso sangue. Os Deuses e Orixás representam forças da Natureza refletidos em biotipos humanos, animais e outros planos. Os Orixás para se manifestarem exigem que o primeiro ritual seja a oferenda da alimentação. Começando por EXÚ - o mensageiro - aquele que faz a ligação entre o infinito e o finito. E, esta é a primeira grande lição dos Deuses. Sem a dinâmica da alimentação não há manifestação de vida. As lições continuam. OXALÁ - o pai – come INHAME, a raiz depuradora do sangue. Ele se alimenta de todas as comidas brancas. A sua cor. OXALÁ é o Orixá da Luz - da Energia pura - da PAZ. Ao comer INHAME, Oxalá não está ensinando que a pureza deve começar pelo aspecto físico, pelo sangue? Esta não será uma.grande"lição para o Brasil? O INHAME é, ainda tão barato. O não saber traduzir os conhecimentos milenares nos distanciam de verdades que ergueram civilizações. Como o Egito, por exemplo. A África

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não se desenvolveu,plenamente, porque foi dominada e massacrada pelo colonizador europeu. E aquelas verdades são muita vezes simples. Complicados são os mecanismos de vida que o homem atual criou para si. Envolvendo muitos interesses, nacionais e internacionais, nos daremos um exemplo. O Governo Brasileiro preferiu gastar milhões de dólares pagando subsídio para a importação de trigo ao invés de desenvolver um programa de consumo de nossos próprios farináceos. O dinheiro gasto daria para fazer uma grande campanha desenvolvendo e plasmando uma cultura alimentar puramente nacional de acordo com nossos produtos e clima. Isto ainda não aconteceu e continuamos colonizados, mesmo na comida. Ainda comemos o chamado pão francês. No assentamento de nossa cultura alimentar podemos ter até a sofisticação internacional. O Orixá Oxalá (...) (...) seja, um caracol ou lesma da mesma família do famoso "Scargot" da requintada cozinha francesa. Riquíssimo de proteína,o IGBIM ê desprezado como alimento, num país que passa fome e é riquíssimo em frutos do mar, rio e cachoeira. Se Oxalá, o grande Pai, se alimenta de lesma, porque os homens também não o fazem? Como os franceses sabem, o segredo é apenas o molho. Por aí vai a intenção de nosso enredo, exaltando os pilares da Harmonia com a Natureza através de 3 Orixás: OSSANHE, Orixá das folhas ou Reino Vegetal, OBALUAYÊ, o próprio Sol -energia tão poderosa que se apresenta aos homens coberto de palha e anteparos ou máscaras para não ferir os seres humanos, E OXÓSSI, a manifestação do sustento no domínio da fauna. OXOSSI e ANUBIS no Egito são caçadores do Universo. Sabemos que, na brincadeira do Carnaval, é impossível passar este manancial de sabedoria. Mas acreditamos na força da Arte. A sensibi1idade do povo alcança muito mais do que podemos imaginar. Existe em cada ser humano a sua memória filo-genética, ou seja, a memória de seu passado ou a memória da natureza. Quando elaboramos o enredo, as fantasias, os carros alegóricos, o

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desfile, enfim, estamos pensando, sempre, neste impacto. Tocar nas cordas, muitas vezes adormecidas, deste instrumento fantástico que é a criatura humana. Avaliamos também, a contribuição que podemos dar para o assentamento de uma consciência nacional. Por isto,batalhamos para que as Escolas de Samba não sejam vistas apenas como entidades que fazem o bonito e alegre desfile na Marques de Sapucaí. Elas podem servir como núcleos para o desenvolvimento de culturas sociais e de artes populares, começando pelas crianças. Lá em Nilópolis, já estamos realizando este trabalho, através da Beija Flor, com uma creche para 300 crianças. Um educandário com iniciação artística e profissional (...) (...) quadra social com enorme palco e que comporta 20.000 pessoas. Isto na Baixada Fluminense. Sem ajuda do Governo. A quadra é um espaço cultural aberto a todos os programadores culturais de qualquer área. Em novembro do ano passado, iniciamos uma programação de Arte Negra e a apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, seguida de uma noite de Samba. Um sucesso total. O povo sabe o que é bom. E são estas experiências que nos fazem ousar. Ao contrário de procurar temas de fácil entendimento ou bater em assuntos tantas vezes repetidos, nós preferimos lançar enredos que possam ser estudados, debatidos, e polemizados. Mesmo correndo o risco de não haver o entendimento imediato. Mas, repetindo, nós acreditamos na força da arte. Desta arte que se expressa na batida telúrica de uma bateria de 300 homens, na evolução das alas, na criatividade dos passistas, na presença de grupos trazendo para o samba o gestual de suas raízes, na cenografia dos carros alegóricos, na finalidade das fantasias, na vibração do samba, enfim, neste conjunto que forma nossa grande ópera de rua, de aspecto tão popular, envolvente e vibrativo. Sobretudo, carregado de Axé. AXÉ quer dizer FORÇA - ENERGIA - LUZ.

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Para nós que temos a difícil missão de preparar uma Escola de Samba e para todas as Senhoras e Senhores jurados que tem a responsabilidade de julgar este trabalho, nós desejamos, AXÉ João Trinta (carnavalesco)

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Anexo 5 “RATOS E URUBUS, LARGUEM MINHA FANTASIA!” BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS – 1989

O desfile das Escolas de Samba é hoje considerado o maior espetáculo da Terra em termos de grandeza, criatividade e vibração. Por ser um espetáculo completo, o desfile pode ser nomeado como nossa verdadeira ÓPERA DE RUA. Todos os componentes de uma Ópera erudita estão presentes na estrutura da Escola de Samba. Começando pelo enredo que é o libreto, passando pela música, dança, canto, cenografia, figurinos, orquestra e interpretação. Na linguagem das Escolas estes elementos são chamados de samba enredo, samba no pé e evolução, harmonia, carros alegóricos, fantasia e bateria. Do último elemento INTERPRETAÇÃO - é que pedimos licença para colocarmos em pauta. INTERPRETAÇÃO é a grande chave para qualquer forma de espetáculo principalmente o teatral, entretanto, na Escola de Samba, cuida-se de todas as partes, menos da Interpretação. Este é um componente que ainda não foi desenvolvido. Acreditamos que a interpretação seja a nova tônica que dará impulso ao desfile das Escolas de Samba daqui por diante. Depois de 25 anos fazendo Carnaval, a gente começa a ter a possibilidade de fazer avaliações. Para o ano de 1990 será lançada uma nova iluminação, que já foi testada. Ao contrário desta iluminação de mercúrio própria para estádio de futebol, aquela iluminação é sobretudo teatral e feita por um homem de teatro chamado Peter Gasper. Sentimos com isto, que se aproxima uma nova reciclagem no desfile da Marquês de Sapucaí. A Beija-Flor marcou a década com o luxo e o visual. Estes aspectos ligados a uma nova dinâmica de evolução foram desenvolvidos ao máximo e seguido por todas as Escolas co-irmãs. Muitas, infelizmente, abandonaram suas

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características próprias que davam diversificação e espírito ao desfile. Todas passaram a correr atrás do Luxo pelo luxo tornando o espetáculo repetitivo. Exatamente a Beija-Flor que marcou um estilo de luxo nos carnavais passados, vem, neste ano, falando do LIXO. Em função da tônica da Interpretação, dentro do Enredo, nós convidamos para participar do nosso trabalho um homem ganhador de um dos maiores prêmios de teatro de 1988. É AMIR HADAD e seu grupo TÁ NA RUA. O entrosamento com a BEIJA-FLOR foi imediato. O trabalho de ligar o Samba ao personagem que o componente está representando, começou. É o Teatro no Samba e o Samba no Teatro — São raízes antigas que ressurgem. Por enquanto é um começo que parte do Enredo do G.R.E.S. BEIJA-FLOR para o Carnaval de 1989. "Ratos e Urubus – Larguem a Minha Fantasia” Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com nossa terra, com nossa gente, com nosso BRASIL. Maldade desequilibrarem totalmente este país que tem, na sua geografia, a forma de um grande coração. Invertido desequilibrado, de cabeça para baixo, mostrará os contornos de um enorme bunda. E uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira nos seus intestinos para ser expelida. Somente as águas das Bacias do Amazonas e do Prata poderão lavar tantos excrementos. Ou, então, a grande energia do nosso povo quando ele tiver consciência de sua força e de seu valor. Por enquanto somos, ainda, o gigante que acordou e está levando tanta porrada e está sendo tão sacaneado que, de repente, fica inerte. é preciso, pelo menos, alfinetá-lo para que comece a ter reações. É obrigação de todos nós participar deste trabalho. Cada um deve agir à sua maneira. No nosso caso nós sabemos fazer Carnaval. é nosso oficio. Que seja através dele, então, que a gente proteste. Esperamos, assim, contribuir para o despertar do gigante que

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somos nós mesmos. Então lançamos o grito: RATOS E URUBUS LARGUEM MINHA FANTASIA. A idéia deste enredo não surgiu como inspiração. Ele foi provocado pela percepção da enorme quantidade de sujeira, de lixo que nos cerca e nos está sufocando. É o lixo físico, mental e espiritual deste país. É o lixo da falta de amor, da honestidade e do respeito à vida. Tremendas falhas que vem provocando o aumento do grande povo de rua abandonado, escorraçado e esquecido. Quantidade enorme de mendigos, famintos, desocupados, loucos, pivetes, meretrizes, travestis povoam os espaços do Brasil. É a falta de empregos, de orientação e tantas outras carências. Por outro lado existe um luxo causador de tantas calamidades. É o luxo de gastarem milhões de dólares com armamentos, politicagem, igrejas, negociatas e tantas outras falcatruas. O dinheiro gasto no Carnaval é tirado do próprio Carnaval e ainda dá lucro, gera empregos, desenvolve um enorme artesanato e atrai turistas. E a organização, hoje, das Escolas é um exemplo de que a honestidade gera dinheiro. Em plena crise as Escolas estão arrecadando bastante para fazerem grandes desfiles. Não há mais diferenças. O dinheiro é suficiente para todas. Nós que participamos da Estrutura das Escolas de Samba temos, portanto, o direito de reclamar, de protestar com os descalabros da vida brasileira. E é um desafio fazer isto através da brincadeira do Carnaval. Vamos tentar mostrar, na sua crueza, este povo abandonado da rua e mostrar o lixo que os envolve. Vamos tentar, também, mostrar por outro lado, o luxo que servirá de contraste. Será o LIXO DO LUXO. Um momento de sublimação para o mendigo brasileiro. Este miserável povo de rua será exposto desde o começo do desfile, 14 mendigos, liderados pelo próprio AMIR HADAD, virão abrindo o desfile da Escola. Apesar de não terem razão para tanto, eles serão gentis e comunicativos com todos.

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Para os Juízes eles vão oferecer até um trago de cachaça. Como bons mendigos eles podem estender as mãos pedindo, por caridade, uma notinha de dez que, hoje, vale tão pouco, mas para eles vale muito. Suas indumentárias serão de gala. Isto mesmo. Mendigo também é vaidoso e gosta da opulência. Por não terem casa eles carregam todos os seus pertences. Ao contrário do que se pensa, são cheios de roupas, sacos, filhos, animais e tudo que lhes interessa. Às vezes carregam todas as coisas em carrinhos. Os espaços também lhes pertencem. Eles andam, ficam e dormem nos lugares que escolhem. O mundo é deles. Colocados numa Comissão de Frente eles terão que treinar muito para serem comportados e fazerem tudo certinho. Mas, os Juizes irão, tranqüilamente, entender que julgar mendigos é fácil. Mendigo é Mendigo. Eles carregam as misérias do mundo inteiro. Por isso, alguns acabam ficando sábios como Aqueles do Oriente chamados de Budas de Compaixão: podemos garantir que o mendigo brasileiro é, hoje, um arquétipo da pobreza universal. Seus rostos são impessoais. O carro de abertura vem mostrando o acúmulo desta miséria expresso no lixo físico e humano em torno da enorme e significativa figura de um CRISTO MENDIGO. Isto é a própria imagem do Rio de Janeiro e do Brasil. Uma multidão de pedintes, famintos, pivetes, meretrizes, bêbados, loucos, entidades de rua é representada pelos grupos TÁ NA RUA, RAÍZES DA LIBERDADE, FEITIÇO E MAGIA e SENZALA. Estes últimos grupos já rodeiam o segundo carro, que representa uma enorme lixeira ao lado de um paredão onde está escrito o seguinte convite: ATENÇÃO: Mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, esfomeados e povo de rua. Tirem dos Lixos os restos de Luxos! Façam suas fantasias! Venham participar de um GRANDE BAILE DE MÁSCARAS!

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A MARQUÊS DE SAPUCAÍ Ê VOSSA! Este convite ouriça todo o povo de rua. Restos de carnavais, de brilhos, cores e formas começam a ser procurados nas lixeiras. Todos querem se aprontar para a festa. Na procura desses materiais eles gritam: Ratos e Urubus, larguem minha fantasia! De repente, aquela massa disforme de tantos corpos e andranjos se transforma, na realidade de uma imaginação. Os 15 da Comissão se transmudam em Guardiões do Rei e da Rainha dos Mendigos. Estes dois personagens surgem no seu Palácio Real! É a lixeira e todo o lixo sublimados na explosão do ouro sobre azul! As mendigas se transformam em Cortesãs. Os urubus em pássaros negros, e os ratinhos em pajens. É uma CORTE MEDIEVAL! E mendigo sabe o que é uma corte medieval? Eles podem não saber. Mas, nós sabemos que a miséria e a opulência medieval marcaram a história, como o PERÍODO DAS TREVAS. Comparando a miséria medieval com a miséria Nacional. a nossa ultrapassa a outra, de longe, em gênero e número. Além de ser geograficamente menor, a Europa naquela época estava em formação. Eram pequenos feudos com um mínimo de população. A miséria brasileira, ao contrário, se espalha num vasto território entre milhões e milhões de pessoas. O contraste com a riqueza é maior. Na Idade Média somente alguns Senhores Feudais eram opulentos e tinham que lutar para defender seus castelos. No Brasil, o número de ricaços é muito grande. Muita riqueza foi adquirida com esforço e trabalho honesto. Mas, a maior parte é ilícita, desonesta e até maldita porque está levando este país para o caos. Para um outro Período das Trevas. O miserável da Rua pode não ter consciência da história, mas ele está repetindo a História. Ele é o mesmo ser humano degradado pelo Poder. Grande parte da miséria brasileira que está nos morros, nas baixadas, nos alagados, já ultrapassou de longe, a miséria medieval. Esta, ficou, realmente na Média. A nossa já é total, universal. Por isso, o mendigo, ao receber o convite para brincar na Sapucaí, extrapola a imaginação. Na atração dos opostos ele quer ser logo SENHOR OU REI de

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alguma coisa. E cria uma corte que imaginamos seja Medieval. O certo seria ficar no meio procurando o equilíbrio: o eterno triângulo. E, como os jograis, ensinando entre cantos e danças o jogo do diabolo. Este é o símbolo da Carreta que vem no meio deste Setor. O desfile desta Corte termina com um Carro Alegórico trazendo destaques e restos de fantasias que representam o LIXO DO LUXO! E VEM O LIXO DAS IGREJAS E os pedintes das portas de todas: Católicas, Protestantes, Umbandistas, Igrejas Eletrônicas, enfim todo tipo de exploração espiritual. Falamos dos aspectos negativos. Os pedintes vão se fantasiar com os restos do luxo de todas elas. Mitras, rendas, ricos bordados enfim. Toda a riqueza adquirida com a fé e a promessa da salvação das almas. Mas, neste momento, tudo serve para compor uma fantasia. Os pedintes das Igrejas querem também brincar no "BAILE DE MÁSCARAS". Mesmo que seus trajes pareçam que ele está numa PROCISSÃO DE MENDIGOS. E, LOUCOS, eles chegam. Mais enlouquecidos ainda com o convite para o Desfile na Sapucaí! São os próprios loucos. Milhões por todo este Brasil. Resultado de tanto desequilíbrio, tanta fome, tanta miséria. Os loucos se apresentarão nas suas fantasias de Neros, Peruas, Profetas, Napoleões e Guerreiros do Apocalipse. Estão representando a loucura de tanta gente que já dirigiu e ainda dirige o mundo. Representam os que produzem os morticínios, as guerras. Os que ganham dinheiro com o sangue humano derramado. Fabricantes e mantenedores de situações obscuras na terra, no mar, e no ar. Sobre todos começa o atropelo dos 4 Cavaleiros do apocalipse. O Cavalo Branco é a Carestia. O vermelho é a Guerra. O amarelo é a Peste e o Negro o Justiciamento. Os rangidos e gemidos de dores provocados por estilhaços e arames farpados são amenizados pelas figuras dos profetas envolvidos de luzes e flores brancas, "EM VERDADE EM VERDADE VOS DIGO...".

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E no enroscar dos Corpos vem o LIXO DO SEXO. As meretrizes, embevecidas, nem acreditaram quando souberam do Convite: "A MARQUÊS DE SAPUCAI" É VOSSA...". Saíram da Lapa e correram para a Rua Alice. Foram procurar velhos "pegnoirs", coloridos, perucas, espartilhos e calcinhas pretas bordadas. Estão sempre acompanhadas dos Zés Pilintras que cercam seus passos. Como libélulas voaram para além do tempo. Chegaram ao Império das Cortesãs, das Bacantes, das Prostituições, dos Sadismos, das Inversões e Perversões Sexuais. Nome: SAUNA ROMANA. Endereço: qualquer lugar do BRASIL. A Beija-Flor saúda a Imprensa escrita, falada e televisada. Saúda o Povo e pede passagem: É o respeito por todos os órgãos da Imprensa, por todos aqueles que são honestos nas suas profissões: Mas a notícia também vira lixo. E, pelas ruas, perambulam os apanhadores de papel. Com os pedaços de jornais, revistas e letras eles elaboram suas fantasias para virem brincar no "BAL MASQUE", Colombinas, Arlequins e Pierrots. A Comédia dell Arte, em preto, branco e laranja. Encerrando este setor um Carro Alegórico com Gôndolas, ratos, pierrots, televisões, pierretes, máquinas, colombinas, rádios e máscaras. É o Universo da Comunicação na Folia do Carnaval! Para próximo Setor os mendigos se vestiram de Verde e Amarelo. E todo o mundo já sabe que vem o LIXO DA POLÍTICA. A política do Futebol — Os ratos de Cartola. A política Financeira, o Dólar é o Rei e o Cruzado é o capacho por onde sua Majestade pisa. No meio de tantas negociatas, os pequenos ladrões vão parecer um bando de anjinhos. E toda esta grande brincadeira é assistida por uma enorme platéia: O Brasil inteiro. É uma grande revista do Teatro antigo. É O OBA-OBA DO PLANALTO. Todos pagam para assisti-la. O palco mostra as grandes vedetes fantasiadas de diferentes Carmens Mirandas. Cada cabeça mostra um turbante diferente. Enfeitados com canetas que assinam decretos e pacotes. Vassourinhas coloridas, cuias de chimarrão, faixas de múmias e outras excentricidades. Tudo

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verde e amarelo. Neste lixo de tanto luxo os ratos completam a festa. De tantos decretos, leis e pacotes eles fizeram picadinhos que jogam, para euforia geral, pelos buracos abertos no cenário. E, lá vêm eles, OS PIVETES. Estão em todas as partes. Nem precisa convidá-los que eles já se fazem presentes. São os pequenos EXÜS a quem não foi oferecido o ritual de alimentação, sua primeira exigência. Não obedecido este assentamento eles disparam em qualquer direção para fazerem cobranças. Abrem caminhos com armas nas esqueléticas mãos. Embora estejam tontos do cheiro da cola, seus golpes de lâminas ou tiros de armas são certeiros. São as crianças que estão matando manipulados por adultos. É a tristeza total desta situação que obriga a mostrar o LIXO em que transformaram tanta alegria expressa nos brinquedos. No meio de ingênuos trenzinhos, tambores, sobressaem, hoje, brinquedos violentos, armas. Como restos ainda sobram imagens de palhacinhos, espantalhos, odaliscas, bruxas e bate-bolas. É a força do mundo mágico das crianças. Nas primeiras horas da manhã a FEIRA vende o que tem de melhor para os que ainda podem pagar. O resto é a XEPA. E, quem nem pode pagar a XEPA, come mesmo é o LIXO DA XEPA. Estes famintos leram também o CONVITE. Todos cataram restos de legumes, frutas e flores para compor sua fantasia. Nesta euforia, os famintos viram, de repente, uma abóbora apodrecida ser puxada por ratos. E para surpresa geral esta abóbora foi se transformando numa Carruagem. Era a fada Madrinha, com a sua varinha de condão realizando o sonho da Cinderela: um Baile no Palácio Real. E todos foram juntos. No alto da escadaria um belo príncipe recebe os convidados. Muitas senhoras realizaram o desejo do ano inteiro; vestir a bela fantasia de Baiana. Mesmo que o pano da costa seja de Chitão. Um pouco de brilho e tudo vira festa. O que tem

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mais valia é a alegria de dançar e cantar mostrando a energia que o tempo acumulou. Sejam benditas, para sempre, queridas BAIANAS. Todo o BAL MASQUE que se preza tem muita bebida e farta comida. Isto não poderia faltar aqui: Até um convite foi feito: Temos a honra de convidar V.Sa., e Exma. Família para participarem do grandioso "BANQUETE DOS MENDIGOS". Todos os mendigos que receberam este convite particular compareceram vestindo seus melhores trajes a rigor. As mendigas capricharam nos vestidos longos e nos chapeuzinhos. E ninguém esqueceu de trazer um saco plástico para carregar um pouco das sobras. Mas o êxito deste agapê só foi possível com a contribuição, muito generosa, de várias pessoas, riquíssimas de nossa alta sociedade. Gratuitamente elas ofereceram suas latas de lixos para que fossem retirados os restos de seus últimos banquetes. Magníficas sobras de comidas, bebidas e sobremesas: Restos de caviar, faisões, perus, peixes, lagostas, cascatas de camarões, queijos finíssimos, vinhos, whiskys, vodkas, champanhes, licores, tudo, tudo absolutamente importado. Neste MAGNÍFICO BANQUETE DOS MENDIGOS, foi impossível afastar os ratos e urubus. Eles esperam o final para devorarem restos dos restos. Mas, todo mundo está satisfeito. Também, com tanta sobra! É só olhar a mordomia dos camarotes da Marquês de Sapucaí. LEBA-LARO OO OO EBO-LEBARÁ - LAIA - LAIA – O Isto é uma saudação às ENTIDADES DE RUA. E elas chegam de VERMELHO E PRETO, espalhando suas energias. Bom dia para quem é de bom dia, Boa noite para quem é de boa noite, porque agora todos são da folia: LEBA- LARO OO OO EBO - LEBARÁ LAIA LAIA O E chega o FINAL

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Em todos os chafarizes da Cidade Maravilhosa os Mendigos se banham. Lavam suas roupas e seus andranjos. Lavam suas almas que são puras. Lavam as sujeiras da cidade que carregam na poeira do corpo. Nas águas dos chafarizes os mendigos e principalmente as crianças deixam uma Mensagem: BREVE - Faltam apenas 11 anos! No ano 2.000! Quando se ouvir o SILÊNCIO DAS ESFERAS, O BRANCO CHAFARIZ DO AQUÁRIO vai começar a jorrar suas águas azuis sobre as crianças do mundo inteiro. Neste ato de purificação elas estarão de mãos dadas, na grande bandeja do centro. Numa só voz elas cantarão uma nova estrofe na Ciranda da Vida É o CANTO DO III MILÊNIO! Muitos não ouvirão este cantar! Antes, outras águas vão rolar! Como estas que vão ajudar os garis a limpar a pista por onde a BEIJA-FLOR vai passar derramando na Avenida frutos de uma imaginação!

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Anexo 6 “TODO MUNDO NASCEU NU” BEIJA FLOR DE NILÓPOLIS – 1990

No princípio era o CAOS. E a luz resplandeceu na turbulência de água, fogo e ar. Surgiu a terra. Depois, imensas florestas e terríveis animais de pequenos cérebros e corpos descomunais, vorazes e agressivos, provavelmente, destruíram as florestas e acabaram devorando-se uns aos outros e estas eras primárias com suas criações caóticas desapareceram e foram sedimentadas. Milhões de anos se passaram e a combustão transformou aquelas camadas do princípio do mundo em Petróleo. Era a essência do Caos primordial. Em seguida, surge o homem na face da Terra. E, "TODO MUNDO NASCEU NU" no sentido da criatura pura, despojada e simples como todo ser primitivo. Mas, na luta pela sobrevivência este homem inicia sua evolução. Passa pelo período Bárbaro. Montado no dorso dos 7 (sete) monstros dos pecados capitais ele cria civilizações com grandes aparatos. Mas por trás de tantas grandezas existiram, sempre, as mazelas humanas da LUXÚRIA, SOBERBA, IRA, GULA, AVAREZA, INVEJA, PREGUIÇA. No caminhar desta humanidade o homem descobre o Gigante chamado BRASIL. E logo de início, ele já é violentado. Cortam-lhe o pau. O famoso Pau-Brasil. Agredido, permaneceu longo tempo deitado em berço esplêndido. Este gigante, rimava varonil com riquezas mil. Habitava terras com cascatas e borboletas. Era do samba e do pandeiro. Brasil exaltação - Brasil esperança. Mas de repente, aquele homem, que nasceu puro e despojado, evoluiu chegando aos dias atuais. Derruba matas virgens c constrói selva de pedras. De ferro e aço cria máquinas que são verdadeiros monstros. Voam, caminham sobre e embaixo da terra e dominam os mares. Seus pequenos cérebros são manipulados pelos monstros invisíveis de grandes interesses e negociatas.

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Guerras são provocadas para o aproveitamento e enriquecimento de organizações. Por trás de tudo estão presentes os sete (7) monstros dos pecados capitais. Tantas invenções que poderiam ser progresso viram aberrações. De repente, o próprio planeta está ameaçado, abrem-se buracos no Ozônio da Terra. Acontece o processo estufa. Ameaça de degelo dos Pólos. E de repente, vê-se que todos os monstros-máquinas são alimentados, exatamente, pela essência do caos primordial: O PETRÓLEO. É a reciclagem das monstruosidades. O Petróleo é o grande maléfico do último século deste milênio. Provocador de guerras e calamidades manipulado pela ganância de alguns. É o retomo do caos. A era das máquinas é também selvagem e violenta. Nesta configuração geral o Brasil tenta erguer-se, mas as grandes saúvas da desonestidade e do desrespeito humano estão agindo neste País. Foi criado um novo monstro chamado INFLAÇÃO através de tantas falcatruas. No aumento do Petróleo muitas calamidades são cometidas. Sobe o preço de tudo. A miséria aumenta. A violência se instala. As prostituições crescem. E os monstros modernos cada vez mais sugam as riquezas desta terra tão opulenta. Cada vez mais devoram as suas culturas, tradições e identidades. E o quadro caótico que existe. Este é o lado obscuro que o Enredo da Beija-Flor põe a nu E a exposição das monstruosidades atuais alimentadas pela essência do caos primordial transformado em Petróleo. Mas, nesta conturbação geral, surge uma imagem positiva de esperança e uma lição da natureza. Ela criou e ela mesma destruiu as monstruosidades do princípio do mundo. Fez desaparecer aqueles enormes animais e conservou os mais simples e mansos. E são exatamente 25 desses animais que, hoje, defendem a única imagem de emoção, beleza e alegria que nos resta: O CARNAVAL - através dos desfiles das Escolas de Samba. Iniciado no Jardim Zoológico pelo Barão de Drumond, o jogo do bicho foi organizado pelos banqueiros que ligados ao povão começaram a dar cobertura às Escolas de Samba. E no desequilíbrio da situação brasileira elas sobreviveram somente pela ajuda recebida desses

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senhores que nós chamamos de Corretores Zoológicos. Na incongruência da vida deste país eles são chamados de marginais. E, no entanto, a única imagem positiva que nos resta - As Escolas de Samba - foram eles que mantiveram. E Deus escrevendo certo por linhas tortas. Daí a nossa homenagem a este jogo cujos animais são aqueles que a natureza selecionou. Portanto, fica claro o Enredo. De um lado os monstros saídos do caos e provocando a destruição. No passado e no presente. De outro lado, a sábia natureza preservando os mais dóceis e tranqüilos e também fortes animais que conservam a última alegria do nosso povo: O CARNAVAL. Deste contraste surge a mensagem da bíblia que diz: "OLHAI OS LÍRIOS DOS CAMPOS, QUE NÃO TECEM E NEM FIAM E NO ENTANTO NEM O REI SALOMÃO COM TODA A SUA RIQUEZA E SABEDORIA JAMAIS SE VESTIU COMO UM DELES." É a sabedoria milenar lembrando que a força da vida reside nas criações aparentemente simples. E para nós, a mais valiosa dessas criações é a CRIANÇA, elas são os mais preciosos lírios da natureza. A década de 90 é a caminhada para o alvorecer de um novo ciclo. O Terceiro Milênio. Girando como as galáxias, vai partir uma luminosa espaço-nave levando crianças do mundo inteiro nesta viagem rumo às novas dimensões do milagre da vida. A energia poderosa dessas crianças se irradiará como forte luz para queimar todas as barbaridades criadas pelo próprio homem. O fogo da justiça limpará a face da terra. E os lírios dos campos irão florescer, inebriando todo o Universo com o suave perfume da eternidade. Este é o Enredo que oferecemos a todos os homens de boa vontade. Àqueles que sabem que depende apenas de nós mesmos a manutenção da vida no planeta terra. É preciso agir, participar e mudar. Mesmo na brincadeira do Carnaval nós acreditamos que podemos colaborar. Como disse Vinícius de Moraes, "O SAMBA É UMA FORMA DE ORAÇÃO".

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Na realização deste destile fica a comprovação da capacidade, de todos nós, brasileiros. Com tantas dificuldades nós realizamos o maior espetáculo da Terra. Um povo que produz esta obra de arte popular pode também levantar uma nação. Necessita apenas de liderança. Por mais de 50 anos as escolas de samba do Rio de Janeiro dão prova de criatividade e perseverança. Num país até onde o futebol foi devorado pelo poder do dinheiro estrangeiro ajudado pela inépcia de nossos dirigentes, o trabalho das escolas de samba é um exemplo. Por isto com a força saída do sofrimento do povo brasileiro o Samba da Beija-Flor explode dizendo: TOCA FOGO NO RABO DE QUEM NADA FAZ EU SOU POVO E ME ACABO E NÃO AGÜENTO MAIS Quem vive, por exemplo, na Baixada Fluminense ou nas favelas canta e evolui com este samba sentindo, nas entranhas, as suas palavras. Tem muita força e vibração o momento em que todos cantam, num grito de guerra: HEI DE VENCER!

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Anexo 7 “ALICE NO BRASIL DAS MARAVILHAS” BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS – 1991

Histórico do enredo Mandona PRIMA grita bem forte as ordens dela - "ANDA COMEÇA!" E em tons mais brandos SEGUNDA pede: "NADA QUE TENHA PÉ NEM CABEÇA". E a cada instante, "SÓ ESTA VEZINHA", TORTIA interrompe, doce e travessa. "QUE SEJA SEM PÉ NEM CABEÇA" E, no entanto, tudo tem muitos pés e muitas cabeças. Nesta conflitante espelhação surge uma versão brasileira. ''BRINCANDO COM A IMAGINAÇÃO HOJE SOU FANTASIA UM LINDO BEIJA-FLOR ANUNCIANDO UMA VIAGEM AO BRASIL DAS MARAVILHAS" A estória de "Alice no País das Maravilhas" - e "no País dos Espelhos" - vira História do Brasil. As situações são idênticas. Vamos do começo. Num imenso jardim, com a forma do Brasil, a menina Alice, sonolenta e entorpecida, exatamente como a consciência brasileira - está deitada sob uma frondosa árvore-documento. — Nas folhas estão retratados muitos personagens que, bem ou mal — construíram e destruíram ou ainda, constróem ou destróem esta Nação. Surge o COELHO apressado - atrasado. É o próprio brasileiro, correndo atrás do TEMPO, se os números de seu relógio indicarem o ano 2000 - o III MILÊNIO - a hora e a vez do Brasil, na inexorável marcha das civilizações que caminham de Oriente para Ocidente.

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"ATRÁS DO COELHINHO APRESSADO ALICE CAI, NUM ABISMO SE PERDEU DESCOBRE A REALIDADE ELE É O BRASILEIRO E A BRASILEIRA AQUI SOU EU" A versão é muito clara. Não precisa explicar a caída no abismo. é fácil entender o fundo do poço. Um salão com imensos portais que levam ao nada ou ao caos. Portais que podem ser chamados de EGOÍSMO, DESAMOR, CORRUPÇÃO, etc. Este salão só não é um beco sem saída porque existe uma pequenina porta — a única passagem para um lindo jardim. "DÁDIVA DA NOSSA NATUREZA CRIANDO UM PAÍS ASSIM" É o caminho da Ecologia, hoje em pauta na consciência universal. Mas, o tamanho de Alice, não permite que ela passe pela portinha de apenas 0,30 centímetros (o sagrado número 3 de Pitágoras, entre os dois horizontais zeros que formam o vertical 8 do infinito). Outras esfinges lançando novamente, antigas e matemáticas decifrações, base de conhecimentos e sabedoria para edificação de civilizações como a EGÍPCIA, por exemplo. É o estudo das constantes universais. Hoje, na moderna Inglaterra essas Leis são pesquisadas por matemáticos altamente dotados. Questão de mastigar para não sofrer úlceras e poder beber qualquer licor. Mas, de repente, a dose foi demais e Alice torna-se tão pequenina, subdesenvolvida — Terceiro MUNDO. Ali! Se os licores diminuíssem, também, tantas sem-vergonhices, negociatas e outras mazelas que nos afligem. "O LAGO DAS LÁGRIMAS'' "GIGANTE ÀS VEZES TÃO PEQUENO ENTRE LICORES E PUDINS..” Diz a letra do samba.

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Alice prova do pudim. O seu desenvolvimento é rápido. Torna-se a oitava potência do mundo. Sua cabeça, vertiginosamente, afasta-se de seus pés, suas raízes, suas verdadeiras estruturas. Crescimento apenas físico sem o acompanhamento humanístico da mente e do espírito. Desesperada no seu gigantismo. Alice chora. "E NO DERRAMAR DE NOSSAS LÁGRIMAS SURGE, ENTÃO, A CHAVE DO JARDIM" Sim! O sofrimento é o outro caminho da aprendizagem, da evolução e do reconhecimento de valores. No imenso lago de suas próprias lágrimas, Alice novamente diminuída, afoga-se em angústias. Surgem neste lago de lamentações muitos bichinhos esquisitos, personagens que também estão se afogando. Quando conseguem chegar nas margens, molhados, eles procuram enxugar-se. Propõem, para Alice, fazerem uma corrida. O título deste capítulo, na tradução de Sebastião Uchôa Leite é: "UMA CORRIDA DE COMITÊS E UMA LONGA HISTÓRIA". Quem no Brasil fez comitês? Estes bichinhos esquisitos chamados politiqueiros, que estão escrevendo a longa e triste história de nosso País. “A volta do Coelhinho Branco” O Coelhinho volta, outra vez dizendo apressado: "A DUQUESA! A DUQUESA! ELA VAI MANDAR ME EXECUTAR, TÃO CERTO COMO DOIS E DOIS SÃO QUATRO." Este coelho, como o brasileiro, é um servente do poder. Um pobre coitado, recebendo salário mínimo e no máximo, morando numa favela. Nas suas correrias, confunde Alice com outra servente e ordena que a menina apanhe outro leque e outras luvas que ele havia perdido. Na casa do coelho, ao apanhar estes objetos, Alice começa a crescer, quase destruindo a pequenina casa, apavorando a todos, criando uma grande confusão e gerando uma violência interminável. Na verdade, ela havia tocado nos símbolos do Poder da Duquesa. Tinha sido

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mordida pela mosca AZUL da prepotência geradora das misérias que envolvem morros e baixadas. Dando de frente para esses verdadeiros quilombos atuais, vê-se o fundo do opulento palácio da Duquesa. Na sua faustosa cozinha, crianças viram porcos, entre sal e pimenta, que no dos outros é refresco. Em cima do telhado, olhando, ao mesmo tempo, o luxo de um lado e o lixo do outro, está o GATO CAÇOADOR. Seu irônico sorriso estará dizendo: TERRINHA DE CONTRADIÇOES OU SERÁ CON-TRADIÇÕES? Livrando-se das luvas e do leque, Alice volta a diminuir e caminha novamente no jardim. Procura uma saída. “Os conselhos do Senhor Lagarta” Alice caminha, agora, por um jardim que já foi confundido com as paragens das índias Orientais. Isto, 500 anos atrás. Atualmente, estas grandes viagens são feitas através dos tóxicos que o Senhor Lagarta puxa do seu Naquirlê, afundado no alucinógeno cogumelo. As lagartas crianças cheiram cola. é o país das Drogas em todos os sentidos. Mas, deste caos, surge uma grande lição, a TRANSFORMAÇÃO DOS ESTADOS VIBRATÓRIOS. O SENHOR LAGARTA livra-se de suas exóticas vestimentas de crisalida e transforma-se em bela Borboleta - Símbolo oriental de um próximo sistema de evolução que o Homem alcançará. A visão abstrata das Leis UNIVERSAIS e o conhecimento de si mesmo. A transformação da vida-energia em vida-consciência. O conhecimento de todos os nomes de Deus (DEVA em sanscrito significa LUZ) portanto, estado vibratório na quinta essência da organização atômica onde os números sagrados de PITÁGORAS 137 escrevem a palavra LEI refletidas. "A MIRAGEM DO ESPELHO QUE O POETA IMAGINOU" Frente a frente com Alice, o Senhor Lagarta pergunta:

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"QUEM É VOCÊ?" ALICE, desconcertada não sabe responder. "QUEM SOU EU QUEM EU SOU?" Ela, como todos nós brasileiros, perdemos nossas identidades. Resta, para recuperálas, o esforço de nossas transformações. Isto acontecerá quando sairmos do estado de PRÉOCUPAÇÃO e passarmos para a direta OCUPAÇÃO. Cada um dentro das suas possibilidades e dedicação. Ocupados, não precisamos perguntar. "O AMANHÃ, O QUE SERÁ RESPONDEM O QUE SERÁ DE MIM LAGARTA OU BORBOLETA PEÃO OU REI" Não havendo mudanças, seremos confundidos com SERPENTES da mesma maneira que Alice foi vista pelas aflitas pombinhas. Elas defendiam seus ovinhos no ninho, porque sabem que tanto Alice, a Serpente e todos nós, somos devoradores de ovos. "Um chá em casa de loucos” Este quadro é a crítica que Lewis Carrol fez à ociosidade da nobreza vitoriana. Enquanto tomavam intermináveis chás, o povo sofria de muitas necessidades. Aqueles nobres mergulhavam relógios nas xícaras e outros passavam manteiga em relógios que não tinham ponteiros ou apenas marcavam os dias do mês. O tempo voava. Significava nada para eles. O chá não acabava nunca. Bastava trocar de lugar e encontrar novas xícaras. Eles rodavam em volta da mesa, exatamente como na versão brasileira. Os loucos personagens são a nossa ELITE. Este é o CHÁ DOS OMISSOS, onde as crianças são tragadas como frágeis biscoitos. 40 milhões de crianças abandonadas, envolvidas, com tóxicos e prostituição. Uma calamidade nacional que os OMISSOS estão pagando através da violência, do assalto, dos estupros e seqüestros. As conseqüências atingem a todos nós.

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"O campo de croque da rainha” O campo é este imenso país onde joga-se tudo. Não somente os jogos de cartas, roletas, quinas, senas, raspadinha, bicho mas, também, joga-se com a honra dos outros e agora, até com a vida de menores. Joga-se com a verdade e com a mentira. Com o certo e o errado. Aqui está valendo tudo, "O BRASIL DAS MARAVILHAS É UM IMENSO CASSINO". Do lado do RIGOR, ela empunha a espada da justiça, tornando real, a sentença da RAINHA, que ordena: "CORTE-LHES A CABEÇA" Do outro lado — o lado do AMOR - ALICE segura uma balança equilibrada pela figura do COELHINHO - O BRASILEIRO QUE SOMOS TODOS NÓS - e a própria ALICE desperta de seu sonho-pesadelo. Faltam apenas 9 anos para o ano 2000. é o alvorecer do III Milênio — é a ERA DE AQUÁRIOS. Quem entendeu acertou Quem não entendeu acertou também Quem entendeu de um lado E não entendeu do outro Sorria como o GATO CAÇOADOR São os reflexos de nós mesmos NAS MIRAGENS DO ESPELHO QUE O POETA IMAGINOU

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Anexo 8 “HÁ UM PONTO DE LUZ NA IMENSIDÃO” BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS – 1992

Histórico do enredo O título do enredo refere-se à explicação científica da transmissão da televisão. A imagem propaga-se no espaço através de UM PONTO DE LUZ. O tema vai mostrar a força desta invenção que hoje está na casa do pobre e rico e em todas as partes. Através de suas realizações comprova-se a capacidade que a televisão tem de influenciar todos aqueles que vêem seus programas. Exatamente por isso, hoje a televisão é um assunto muito discutido. Sente-se a sua capacidade de penetração nos mínimos detalhes. A televisão incorporou-se ao dia-a-dia do povo brasileiro exatamente pela situação financeira e até no aspecto da violência que obriga ao confinamento caseiro. A magia da televisão envolve todos os sentidos humanos tornando as pessoas passivas. Sentadas em frente ao aparelho, ninguém conversa, lê ou pensa, apenas assiste. E, fazendo-se um balanço no que é feito hoje na televisão brasileira, o resultado é negativo. Muita violência, mediocridade e pobreza cultural. A finalidade deste enredo é chamar a atenção para esta situação, que pode e deve ser revertida. Altamente cultivada a televisão tem a força de ajudar a erguer uma civilização. Falamos de Brasil. Neste país onde tudo está por ser feito, principalmente nas partes de educação e cultura, a televisão pode prestar uma grande colaboração. E será uma tarefa fácil, porque os cento e cinqüenta milhões de brasileiros falam uma única língua: o português. A letra do Samba-enredo diz: "A CADA PONTO É UMA ARTE QUE RELUZ E O TEU FUTURO QUE ME SEDUZ"

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Para objetivar este assunto, em forma de desfile, resolvemos escolher alguns lances realizados pela televisão e que podem servir de exemplo para a nova dimensão em que ela deve caminhar. O carro Abre-Alas representa "UM PONTO DE LUZ NA IMENSIDÃO". A técnica e a Arte da Televisão que traz todo o Universo para dentro da casa de todos nós. Faiscante, este carro traz a figura de Fabíola e Jesus Henrique como destaques principais. Novelas "A ESCRAVA ISAURA" - O drama de uma época. A memória de nossa história. Levada para outras partes do mundo, esta novela fez sucesso até na China. O carro alegórico traz os personagens principais nas figuras de LUCÉLIA SANTOS E RUBENS DE FALCO. Este é o primeiro Setor da Escola composto da Ala das Baianas. Elas são os próprios espíritos dos antigos Pretos Velhos carregados de sofrimentos e sabedorias. Mas o futuro está presente nas baianas mirins em número de 60 (sessenta). E tanto nas crianças como naquelas mulheres idosas o que nos deslumbra é a energia e a grande alegria vinda do interior de suas almas poderosas. O girar dos seus corpos é o próprio movimento e os impulsos da mãe-natureza. Que o AXÉ das BAIANAS-crianças e adultas, como relicários de luzes, abram os caminhos da Beija-Flor. "QUE REI SOU EU?" - Novela de crítica humorada, criativa e com um belo visual, retratando, numa corte devassa, todas as corrupções, egoísmos e maldades dos dias atuais. Na importação da banana giravam todos os golpes financeiros que acabavam sufocando o povo de tantos impostos. Até o Bode-Zé é eleito. E a guilhotina nunca funcionava. Além da retratação clara e picante da situação brasileira, esta novela tinha um naipe de atores da melhor qualidade. Atrizes como Tereza Rachel, Isís de Oliveira, Vera Hortz, ítala Nandi, Desirée Vignolli, Cristina Prochasca, Melise Maia, Totia Meirelles, Ana Borges, Carla Daniel, Mila Moreira, Cláudia Abreu. Atores como Daniel Filho, Tatu Gabus Mendes, Ednei

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Giovenazi, Paulo Cezar Grande, Marcos Breda, Guilherme Leme, todos presentes no carro alegórico que mostra a Taberna onde o povo se reunia e o salão do Trono onde eram planejadas as vigarices dos nobres. Em baixo, não poderia faltar a grande cama para completar as safadezas daquela corte corrupta. Era uma crítica muito válida e atual, dirigida às elites brasileiras. Esta foi a razão principal da escolha desta novela como exemplo de denúncias através da crítica bem feita e humorada. Neste momento a televisão alcança uma grande função através de uma novela tragicômica. "PANTANAL" - Esta produção mostrou para todos os brasileiros aquilo que poucos conheciam: O PANTANAL. Um Santuário Ecológico, com seus costumes, às lendas do Velho do Rio que vira cobra Sucuri e a mulher que transforma-se em onça - um belo animal. A força e a poesia da natureza foram muito bem mostradas em belíssimas imagens. A confecção deste carro alegórico nos proporcionou uma grande emoção. Quando estávamos elaborando os projetos desta alegoria nos chegou as mãos umas miniaturas de pássaros do Pantanal feitas em argila, por crianças de Corumbá/Mato-Grosso. Eram belíssimas. Ficamos muito tocados e viajamos até aquela cidade para conhecer o talento daquelas crianças. Encontramos mais de 100 meninos e meninas, organizados numa Cooperativa com o nome de "A Casa do Massa Barro". Trouxemos 14 destas crianças para o Rio, e no barracão da Beija-Flor elas descobriram um mundo novo. Elas nunca tinham visto um bloco grande de isopor. Contamos à eles a história do grande escultor Miguel Ângelo que dizia: "Para fazer uma escultura eu apenas retiro os excessos do bloco de mármore". Nós mostramos que eles podiam fazer a mesma coisa com os blocos de isopor. Dissemos que dentro de cada bloco daqueles estava um pássaro do Pantanal em tamanho natural. E foi incrível a facilidade daquelas crianças em esculpir os pássaros que eles conhecem tão bem. O mais surpreendente

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foi a escultura de um SÃO FRANCISCO feita de argila imitando cascas de um tronco de árvore. São visões que eles tem no Pantanal. Magnífica é a expressão desta figura. Um misto de índio e oriental. Esta composição encerra o carro alegórico da novela "O PANTANAL". Estão presentes atores como Cláudio Marzo, Ângela Leal, Marcos Palmeira, Sérgio Reis, Marcos Winter, Jussara Freire, Antônio Petrim, Andréa Richa, Roze Abdala. "O SHEIK DE AGADIR" - Porque escolher uma novela de folhetim e da época do preto e branco? Exatamente para dizer que, mesmo através de um folhetim, é possível fazer arte pura e expressar culturas. É o caso desta novela. Todo o esplendor da civilização islâmica poderia estar presente nesta produção. Misturadas com a trama da estória muitas informações valiosas poderiam ser passadas para o grande público. Por exemplo, o conhecimento da matemática trazido para o Ocidente. Desta maneira, expressamos o sentido do enredo da Beija-Flor. Mesmo através de uma novela folhetinesca é possível oferecer aspectos positivos para uma audiência tão grande e carente de culturas. Seria o papel da televisão. Divertir e educar. Juntar o útil ao agradável. O carro alegórico que encerra este setor mostra o clima da novela. Um mercado árabe com seu artesanato altamente refinado. As figuras principais deste carro são Yoná Magalhães, Anderson Muller e José de Assis.

Noticiário A notícia é a grande conquista do homem moderno. A força da informação tem abalado muitas estruturas. Principalmente, quando vem acompanhada de imagens, transmitidas na hora, pela televisão. Foi o caso da Guerra do Vietnã. Esta guerra só terminou quando o mundo e os Estados Unidos tomaram conhecimento, através da televisão, das atrocidades que estavam sendo cometidas naquele país. Outro fato importante que somente a televisão poderia testemunhar foi a descida do homem na Lua. Aqui, no Brasil, o movimento

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das "Diretas Já" só aconteceu com rapidez, pela cobertura completa que as televisões deram a este desejo do povo brasileiro. Estes e outros exemplos mais recentes mostram a força da televisão. Ela pode ser usada para coisas positivas ou negativas. Esperamos que no futuro ela seja apenas positiva. O carro alegórico deste setor traz figuras conhecidas do jornalismo. Os destaques da Escola são Andiara, Isidoro, Matilde, Martini, Isabela, Wilton, José Jorge, representando várias partes do mundo. São as informações que estão aproximando os povos e criando a idéia da aldeia global.

Humor e show Altamente elaborados, os programas de humor e show devem ser entretenimentos sadios. No carro alegórico temos a presença do mais antigo programa de humor chamado "A PRAÇA É NOSSA" com as figuras de Carlos Alberto de Nóbrega, Golias e outros personagens. O grupo dos Trapalhões está presente com a graça do Mussum, Dedé e a personalidade de Renato Aragão agora representante na Unesco das crianças brasileiras. A Escolinha do Professor Raimundo também veio ilustrar o enredo da Beija-Flor. Lindas mulheres como vedetes adornam este carro culminando com a beleza e o talento de Claudia Raia. NOITES DE GALA- É uma carreta que traz destaque LINDA CONDE representando uma "NOITE DE GALA" no Setor e Humor e Show.

Programas infantis Merecem uma orientação pedagógica e um maior cuidado na parte artística. Esperamos que o enfoque deste enredo possa despertar uma melhor atenção para a mais

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importante platéia brasileira: AS CRIANÇAS. No carro alegórico que encerra este setor estão reunidas figuras como Daniel Azulay, Mara, Angélica, Xuxa, Carequinha, Zilka Salaberry etc. O objetivo desta reunião de estrelas é exatamente despertar a atenção para a verdadeira missão que está depositada em seus programas. Elas são responsáveis por uma parte da educação, dos modos e até dos gostos de milhões de crianças apaixonadas por suas figuras. Muitas críticas e debates deveriam ser feitas em torno do trabalho de cada um. O nosso enredo é exatamente para despertar esta consciência, claro que após o desfile. Agora é um momento de emoção e beleza. Mas a criança é a estrela maior. É preciso não esquecer isto. Principalmente, depois da grande festa.

Esporte O esporte em geral conseguiu uma maior divulgação através da televisão. E um dos pontos altos de todas as transmissões da televisão é, sem dúvidas, uma Olimpíada. Espetáculo empolgante que mantém a máxima grega de "MENTE SÃ EM CORPO SÃO". Cogita-se da possibilidade das Olimpíadas do ano 2.000 serem realizadas em Brasília. Seriam 8 (oito) anos de preparação para nossas crianças. Principalmente estas que estão abandonadas pelas ruas. Elas serão os vitoriosos atletas do III milênio. Muitos campeões brasileiros estão presentes no carro alegórico que encerra o setor de Esporte. Na frente deste carro desfilam jornalistas esportivos como Luciano do Valle, José Carlos Araújo e muitos outros.

Artes O carro alegórico que encerra o setor chamado "ARTES" traz a representação da música, teatro, pintura, literatura, cinema, dança e artes populares. A televisão que nós desejamos e o povo brasileiro necessita é exatamente aquela que possibilite o conhecimento

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das Artes que refinam e preparam o povo para o estágio de grande civilização. Fala-se no Brasil como Potência Econômica. Raramente cogita-se deste país como Civilização. Esta palavra é rara no nosso linguajar. Entretanto as grandes Nações ergueram-se através destas duas colunas: O poder econômico e o desenvolvimento das culturas artísticas. A televisão brasileira, ainda está longe de oferecer estes alimentos da alma que o povo necessita. Esperamos que haja mudanças. Que este enredo, na brincadeira do Carnaval, possa contribuir para essas urgentes mudanças e através da televisão o povo possa ver tantos artistas brasileiros em todas as formas de Arte. ÓPERA "O GUARANI" - No Setor das Artes vem uma carreta com o cenário de uma parte do Castelo da Ópera "O Guarani", encerrando o desfile de duas Alas de índios dentro do contexto do libreto da referida Ópera.

Ciências e Culturas A televisão tem todas as facilidades para mostrar os segredos e as culturas da terra. Hoje ela caminha no infinito do Cosmo, penetra no interior do Planeta, vai no fundo do mar, nas selvas, em todas as partes e até, nos delicados órgãos do homem. E o avanço da tecnologia. Mais programas culturais deveriam ser transmitidos. Além de belíssimos eles ajudariam nosso povo à alcançar um melhor estágio de sensibilidade e conhecimento das coisas que nos rodeiam. O carro alegórico do setor Ciências e Culturas traz sugestões de tantas coisas que o homem foi descobrindo pouco a pouco e que vai descobrir mais adiante, ainda. Mas a grande descoberta será o respeito pelo Ser Humano-a mais importante criação da natureza. O HOMEM E A MULHER na pureza de seus corpos feitos à imagem e semelhança de Deus, como diz a Bíblia ou no ventre de duas futuras mamães: Simone Carvalho e Marcela

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Prado. Que a alegria sadia do nosso Carnaval envolva estas crianças de graça e beleza. Que elas sejam portadoras de muita luz. E sejam bem-vindas. Além das duas mamães outros destaques completam o carro de Ciências e Culturas. Mariana com os Mistérios do Mar, Sérgio Murilo, Ney Wellington, Charles Henri como o pássaro Beija-Flor, Zeza Mendonça representando a Cultura índia.

A TV no Carnaval O setor que encerra o desfile da Beija-Flor representa a TV no Carnaval. Transmitindo esta grande festa, a Televisão mostra para o Mundo toda a garra e a vibração da alma popular brasileira. O desfile das Escolas de Samba é um testemunho vivo da criatividade do povo brasileiro. Para fazer um desfile como este é preciso muita dedicação, estudo, trabalho e, sobretudo, amor. O carro alegórico que encerra o desfile traz a figura inesquecível do Chacrinha. Ele vem acompanhado de alguns artistas lançados por ele e chacretes. E os estandartes carregados por anjos dizem: "Televisão É o teu futuro que me seduz" E outro diz: "Quem não se comunica..." Mas o verdadeiro final do desfile do domingo vai ficar por conta do povão. Ele virá no arrastão. Por sorte a Beija-Flor é a última Escola. Com ela virá a vibração mais pura e autêntica do povo de rua. Povo sofrido, mas que ainda mantém forças interiores para brincar no Carnaval. Isto a televisão há de mostrar. E o desfile da Beija-Flor vai deixar nos céus a mensagem:"HÁ UM PONTO DE LUZ NA IMENSIDÃO”.

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Anexo 9 “TEREZA DE BENGUELA – UMA RAINHA NEGRA NO PANTANAL” UNIDOS DO VIRADOURO – 1994

Histórico do enredo PANTANAL! Fantástico espetáculo da natureza! Entre cantos de pássaros ressoam os acordes da folclórica VIOLA DE COCHO evocando, ela mesma, as suas origens, na letra do samba-enredo da Unidos do Viradouro: "AMOR, AMOR, AMOR... SOU A VIOLA DE COCHO DOLENTE VIM DA PÉRSIA NO ORIENTE PARA CHEGAR AO PANTANAL PELA MONGÓLIA EU PASSEI ATRAVESSEI A EUROPA MEDIEVAL" E a pesquisa relata a vinda desta viola para a região de Mato Grosso, trazida por espanhóis e portugueses. É considerada o único "alaúde" brasileiro. Dedilhada por caboclos ela continua cantando:

"NOS MEUS ACORDES VOU CONTAR A SAGA DE TEREZA DE BENGUELA" Sim! Esta é a verdadeira saga de uma princesa africana nascida em Benguela - nação de Angola. Trazida para o Brasil, como escrava, foi levada para Vila-Bela de Santíssima Trindade, primeira capital do Estado de Mato Grosso. Mesmo humilhada e maltratada, todos os outros escravos respeitavam esta mulher de estirpe nobre que é então coroada como:

"UMA RAINHA AFRICANA ESCRAVIZADA EM VILA-BELA" Era o século XVIII — 1741. A busca do ouro e a demarcação de terras levaram portugueses e espanhóis até o Pantanal — região vizinha ao antigo Império Inca.

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Depois da sofrida travessia nos navios negreiros, os escravos ainda enfrentavam as longas caminhadas e os rigores da mineração.

"O CICLO DO OURO INICIAVA NO CATIVEIRO, SOFRIMENTO E AGONIA A REBELDIA, ACENDEU A CHAMA DA LIBERDADE NO QUILOMBO, O SONHO DE FELICIDADE"

Esta revolta aconteceu quando houve a mudança da capital de Vila-Bela para a atual Cuiabá. Tereza de Benguela lidera a fuga e mais ao norte funda o famoso "Quilombo do Quariterê":

"ILÊ AYÊ, ARA AYÊ, ILÚ AYÊ UM GRITO FORTE ECOOU A ESPERANÇA NO QUARITERÊ O NEGRO ABRAÇOU"

E, rainha, Tereza de Benguela governou através de um parlamento. Mulher de larga visão, ela protege, também, as etnias dos índios, dos mestiços chamados 'caburés", dos brancos revoltados e, até os descendentes dos antigos povos pré-colombianos fundadores dó Império Inca. Na mistura das raças, a rainha traçava o perfil do verdadeiro brasileiro. Ela respeitava as culturas próprias de cada um, desenvolveu o artesanato e o folclore de cada etnia. E, sobretudo, trabalhou com a terra, somando a sabedoria africana com os conhecimentos dos índios e mestiços. Ela implantou uma agricultura com saberes milenares. E houve uma grande fartura trazendo alegria para todos. Os corpos alimentados podiam alimentar, agora, suas almas e espíritos com a dança, a música e todas as expressões de artes

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populares — sacras e profanas. O trabalho perfeito desta mulher serve para o Brasil atual. Ela é um exemplo de modernidade. Sua visão holística, intuitiva, portanto, implantou no quilombo do Quariterê os mesmos alicerces que ergueram todas as civilizações, ou seja, as culturas. Cultura da alimentação e cultura das artes. Merda não é cultura mas o estrume é. Cultura é tudo aquilo que o homem pode desenvolver e aproveitar. Assim aconteceu e acontece com todos os povos civilizados. E a desgraça do Brasil é exatamente o abandono de riquíssimas possibilidades de desenvolvimento. Começando com o desprezo das fartas terras. A falta de uma política agrícola para fixar o homem em suas regiões provoca o êxodo para as grandes cidades na ilusão de um progresso industrial caótico e com péssimos exemplos como a compra de usinas atômicas obsoletas que nunca funcionaram e criaram uma dívida externa absurda, paga com o sacrifício do povo. O abandono do campo, além das mortes pela desnutrição e doenças, empurra os homens, famílias inteiras para as capitais onde são criados bolsões de misérias como as favelas, as baixadas, palafitas gerando um submundo de violências. E é daí que surge a criança abandonada prostituída e sacrificada diretamente pelo envolvimento com o tóxico manipulado por forças poderosas, incluindo as altas elites deste país. Estas forças malignas são capazes de destruir qualquer projeto honesto e bem estruturado. E a arma principal é a difamação facilitada por uma imprensa sensacionalista. Mas, no seu devido tempo todas as coisas serão esclarecidas. Portanto, mesmo na brincadeira do carnaval é preciso fazer alguma coisa para dissipar o caos do Brasil atual. Fica difícil para nossas consciências fazer este Carnaval — a maior festa do mundo — sabendo que tem gente morrendo de fome e crianças sendo mortas, neste momento. Invocar a figura de Tereza de Benguela é contribuir, um pouco, para a mudança na mentalidade

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brasileira. É nossa participação no ofício que escolhemos e para isto, a Viola de Cocho continua contando a história de Tereza:

"NO SEIO DE MATO GROSSO A FESTANÇA COMEÇAVA COM O PARLAMENTO, A RAINHA NEGRA GOVERNAVA ÍNDIOS, CABOCLOS E MESTIÇOS, NUMA CIVILIZAÇÃO O SANGUE LATINO VEM NA MISCIGENAÇÃO"

Mas, no apogeu da prosperidade e alegria do quilombo do Quariterê começa a escassear o ouro para a coroa portuguesa. Era a falta da mão escrava agora trabalhando no Quilombo, na agricultura, para seu próprio sustento. A necessidade de mais ouro era para sustentar a luxúria e a corrupção já instalada pela colonização. E o exemplo é a descrição que Gilberto Freire faz, baseado em documentações, da construção de um palácio em Vila-Bela em pleno Pantanal, onde foi realizado um grande baile de máscaras — um "bal masque" para comemorar o aniversário da rainha de Portugal. Construtores, operários, material, móveis, espelhos, cortinas, riquíssimos ornamentos, lustres, caríssimas indumentárias e finas iguarias, tudo era trazido da Europa, principalmente da França. E, para sustentar todos estes gastos, era necessário mais ouro. É, então, ordenada pela coroa portuguesa a invasão e destruição do Quilombo do Quariterê para recapturar os exescravos negros. Esta invasão e destruição acontece. Horrorizada com a matança de seus irmãos de sangue e vendo a destruição do Quilombo a Rainha Tereza de Benguela enlouquece e em seguida é sacrificada pelas armas dos brancos. E, temos certeza que neste momento de terrível comoção, pairou sobre o destruído quilombo do Quariterê, aquela maldição lançada pelo rei Ataualpa ao ver sua civilização ser destruída pela ganância do ouro através dos espanhóis:

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“AS ARMAS DOS BRANCOS DESTRUÍRAM O IMPÉRIO INCA. MAS A NOSSA GRANDE DEUSA COCA IRÁ DESTRUI-LOS COM A FORÇA DE SUA SABEDORIA”. Neste mesmo instante, também, a outra famosa "maldição de Malinche" proferida por Montezuma — o rei asteca sacrificado pelos espanhóis, deve ter pairado sobre o Quilombo do Quariterê — agora destruído, também, pela ganância do ouro. E canta a viola:

"A

INVASÃO

GANANCIOSA

UM

IDEAL

ANIQUILAVA

A

RAINHA

ENLOUQUECEU — FOI SACRIFICADA QUANDO A MALDIÇÃO A OPRESSÃO EXTERMINOU NO INFINITO UMA ESTRELA CINTILOU"

E, com este enredo, quando a Unidos do Viradouro entrar na Avenida, nós iremos invocar a força de todos os deuses para que nos concedam uma graça. Faremos um pedido a uma deusa maior: A JUSTIÇA UNIVERSAL E com a vibração de nosso samba que é, disse o poeta, numa forma de oração, nós pediremos: Tereza de Benguela! Esteja onde estiveres! Nos confins do Pantanal de Mato Grosso ou no infinito junto Deus! Venha! Venha pairar sobre nós! Sobre todos os componentes da Unidos da Viradouro, nossos negros que formam a Comissão de Frente, representando a cultura negra no Pantanal! Nossas alas, baianas, bateria, compositores, mestre-sala e porta-bandeira, destaques, passistas, diretoria e velha guarda! Paira sobre nós para que possamos levar a este povo da Marquês de Sapucaí, aos juizes, ao Brasil e ao mundo, a imagem poderosa de tua inteligência e de teu trabalho.

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Que a grandeza de tua alma e de teu espírito possa encarnar no corpo de alguma mulher brasileira desconhecida. E que a tua luz ilumine este ser feminino que sente as dores do parto e tem a sensibilidade da mãe natureza! Que esta mulher, com o exemplo de tua sabedoria e a garra de uma guerreira, possa salvar o Brasil para que, daqui a seis anos — no ano 2000, nossas crianças possam receber com alegria — o alvorecer do III milênio! E então, os acordes da Viola de Cocho irão finalizar esta mensagem de amor, alegria, emoção cantando:

"VAI CLAREAR, VAI CLAREAR UM SOL DOURADO DE QUIMERA A LUZ DE TEREZA NÃO APAGARÁ E A VIRADOURO BRILHARÁ NA NOVA ERA"

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Anexo 10 “O REI E OS TRES ESPANTOS DE DEBRET” GRES UNIDOS DO VIRADOURO – 1995

O Rei é D. João VI. Em 1808, toda a Corte Portuguesa ameaçada por Napoleão, foi transferida para o Rio de Janeiro. Funda-se o novo Reino de Portugal, Algarve e Brasil. Em 1816, o Rei providenciou a formação de um grupo de artistas franceses para implantar artes eruditas nas terras brasileiras. E organizada, então, a famosa "Missão Francesa". Entre outras personalidades, destaca-se a figura de DEBRET, professor de Pintura Histórica. Veio com a finalidade de ensinar sua arte e também fundar a Escola de Belas Artes. Aqui chegando, DEBRET documentou, principalmente em aquarelas, tudo o que viu no Rio e nos outros Estados. Começou pintando a natureza, flores, frutos e, sobretudo, os costumes dos índios, negros e brancos. Este trabalho torna-se mais importante pela sua pesquisa. E uma documentação valiosa sobre a História do Brasil-Império. Depois de um longo tempo de trabalho, DEBRET volta à França e em Paris publica os três volumes de sua obra "A Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil". DEBRET era um pintor completamente envolvido com o Romantismo Francês. Sua visão sobre o Brasil não poderia deixar de ser romântica. Esta situação de misturar sentimentos com realidade permitiu, ao carnavalesco, uma ampla liberdade de criar o enredo "O REI E OS TRÊS ESPANTOS DE DEBRET". Que enredo é este? O Rei, já sabemos quem é: DEBRET. Conhecemos sua vida e suas obras. E os três espantos? Vamos por ordem.

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Conforme DEBRET mesmo confessa em suas anotações, ao aqui chegar, vindo de uma Europa civilizada, ele levou um grande espanto. Jamais tinha visto florestas virgens, nem terras com tanta riqueza mineral, vegetal e animal. Nem o radioso Sol tropical. Admirou-se, sobretudo, vendo o índio, o negro e o branco na mistura de raças. Esse primeiro espanto é história com "h" e está baseado na obra de DEBRET. E a primeira parte do enredo. O Pitoresco e o Histórico. E o segundo espanto? Bem, este já é estória com "e". Invenção e criatividade carnavalesco que o Carnaval é para isto mesmo. Então, vejamos: O tempo passou depois que DEBRET saiu do Brasil no século XIX. Foi descansar no Céu, ele merecia. Em nossa época a alma de DEBRET voltar a reencarnar na sua querida França. E, na bela e imponente Paris dos dias atuais, acontece o segundo grande espanto deste Homem que renasceu com o espírito de DEBRET. Ao ler os jornais, revistas e ver a televisão este Homem fica chocado, ao saber das notícias do Brasil que só falam de matanças de índios, crianças, devastações de flterestas e outras calamidades. Somente isto. Nada de bom é noticiado. Como um simples cidadão, mas, tendo na alma as lembranças de sua vida anterior, passada no Brasil, este Homem resolve vir ao nosso país. Quer saber a verdade pessoalmente. Chegando ao Rio de Janeiro, vê que muitas coisas mudaram. Algumas das notícias que lia nos jornais e via nas Tv's, eram verdades. Mas o Brasil é muito mais que apenas calamidades. O Brasil é uma grande potência com desigualdades na sua evolução. DEBRET respira aliviado. Fica um pouco atordoado ao ver nas ruas do Rio aqueles mesmos vendedores que existiram no século XIX. Com mudanças incríveis. No lugar do vendedor de peru, cerâmica ou flores naturais, agora, os vendedores chamados de camelôs vendem eletrodomésticos, radinhos de pilha, relógios, flores de plásticos etc. Sua cabeça fica mais aturdida quando vê a nova moeda o Real.

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Lembra-se do Brasil-Império. Vê camelôs com roupagem de nobreza. Muitos são diplomados em Direito, Medicina, etc. Encontra o povo reagindo com as mazelas do país. Sente grandes mudanças, e é envolvido por uma estonteante euforia. O povo vibra com a:, nossas vitórias em muitos esportes internacionais. E a garra de uma juventude que transformará esta nação. Prenúncio de uma nova civilização no alvorecer do Terceiro Milênio. Ainda ouve-se, no ar, a voz de 160 milhões de brasileiros gritando: BRASIL, BRASIL, BRASIL. É CAMPEÃO CAMPEÃO! E de arrepiar. DEBRET fica emocionado. A imagem do Brasil está resgatada. E o terceiro espanto? Aconteceu no carnaval, Este turista francês com a alma de DEBRET, não poderia perder o maior espetáculo da Terra. Foi para a arquibancada da Marquês de Sapucaí assistir ao desfile das Escolas de Samba. Maravilhou-se com todas. Mas faltava a última, como chave de ouro desta grandiosa festa. O coração daquele turista francês, palpitou mais forte quando percebeu pelas alegorias, figurinos e samba que esta vibrante e bela Escola falava dele. Falava de DEBRET e sua extraordinária presença no Brasil no século XIX. Aquele simples Homem comoveu-se até as lágrimas quando lhe traduziram a letra do samba que dizia: "Vai raiar o dia o meu terceiro espanto aconteceu eu sou DEBRET... A minha arte é fantasia Explode VIRADOURO... O CARNAVAL SOU EU."

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Anexo 11 “ORFEU- O NEGRO DO CARNAVAL” UNIDOS DO VIRADOURO – 1998

Histórico do enredo O Mito de Orfeu Na mitologia grega, Orfeu era o filho do Deus Apollo e da Musa Clio. Possuía tão forte o talento da música que. quando tocava a lira ou a citara toda a natureza emudecia para escutá-lo. Era amado por todas as mulheres. Mas. seu grande amor era Eurídice. Um dia Eurídice fugindo do apicultor Aristeu, que a perseguia com a sua paixão, foi picada por uma víbora e veio a falecer indo a sua alma para as trevas dos "Jardins de Hades - os infernos. Desesperado com a morte de Eurídice, Orfeu implora aos Deuses Plutão e Prosérpina permissão para descer aos mundos subterrâneos em busca de sua amada. A permissão lhe é concedida com um severo aviso. Ao trazer Eurídice do fundo dos infernos, Orfeu não poderia olhar para trás. Ele aceita a promessa e quando já estava quase na saída. A enorme dúvida de que Eurídice não o estivesse seguindo faz com que Orfeu olhe para trás. Neste instante, Eurídice desaparece para sempre. Orfeu isola-se de todos no sofrimento pela perda de sua amada. Revoltadas com seu desprezo as Bacantes esquartejam o corpo de Orfeu, jogando-o no rio. A correnteza levou a cabeça e a lira de Orfeu para as praias da ilha de Lesbos onde foram recolhidas e veneradas. Orfeu é o Deus da Música. O enredo do G.R.E.S. Unidos do Viradouro para o Carnaval de 1998, será baseado neste belíssimo mito grego que foi transpassado para o ambiente da cidade do Rio de Janeiro, nos dias atuais. O título do enredo é: "ORFEU - O NEGRO DO CARNAVAL".

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A transcrição do enredo No alto do morro, pertinho do céu e das estrelas, ORFEU - O NEGRO DO CARNAVAL era o Deus da Música. Fazia o sol aparecer com os acordes maravilhosos de seu violão. A natureza emudecia quando cantava seus sambas. Todas as mulheres amavam Orfeu. Todos os homens admiravam seu talento. Mas seu único amor e musa inspiradora era a bela e meiga Eurídice. Orfeu foi o vencedor do samba enredo da Escola de Samba do Morro. O tema era a "História do Carnaval". Origem, Entrudo, Ranchos, Grandes Sociedades, Bailes, Blocos, Corsos e as Escolas de Samba, todos com temas mitológicos. A Escola estava uma beleza. Mas, no dia do desfile, acontece uma tragédia. Uma bala perdida atinge Eurídice que desaparece no abismo. Orfeu desesperado procura sua amada. Desce a encosta do morro. Ao Olhar para trás, perde o equilíbrio e não encontra a sua Eurídice. Parecia que estava nos infernos. Enquanto isso a Escola é aplaudida pela multidão na Avenida e volta triunfante para o morro. O Bloco das Bacantes encontra Orfeu, que tendo perdido Eurídice, despreza todas as outras mulheres. Revoltadas, as Bacantes empurram Orfeu do alto do morro. Seu corpo se despedaça. Sua cabeça e seu violão são levados pelo Rio de Janeiro. Sai o resultado. A Escola do Morro é vencedora. E no desfile das campeãs, ela retorna com todo a vibração da bateria, a beleza do samba, a poesia das baianas e a empolgação de toda a Escola. Cantando e dançando a Vitória, fazem da alegria a louvação e glorificação de ORFEU - O NEGRO DO CARNAVAL.

Justificativa do enredo O Enredo do G.R.E.S. Unidos do Viradouro para o ano de 1998 tem o título de "Orfeu - O Negro do Carnaval", baseado no mito grego de Orfeu - o Deus da Música, cuja síntese, segue em anexo, juntamente com a sinopse da adaptação da versão clássica para o cenário de Rio de Janeiro, ou seja, uma visão Carnavalesca e carioca.

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A linguagem de um desfile de escola de samba diferencia-se da linguagem do teatro e do cinema. No desfile da avenida desaparecem os detalhes enquanto no teatro e no cinema os detalhes podem ser realçados. Por isto a adaptação do mito de Orfeu para o desfile da Marquês de Sapucaí encontrou o seguinte roteiro: "Orfeu" é um compositor negro que mora no alto do morro. Ele é também compositor da Escola de Samba da favela e vencedor do samba-enredo da escola cujo tema é a "História do Carnaval". Antes do estatuto da Riotur, que tinha diretrizes do Estado Novo obrigando todos os temas do Carnaval serem de cunho nacionalista, os Ranchos, as Grandes Sociedades e as Escolas de Samba escolhiam os seus temas carnavalescos na mitologia internacional e em outros assuntos livres. Baseado nesse histórico, o tema do mito de Orfeu será contado em cada setor que retratará a "História do Carnaval". A origem do Carnaval virá simbolizada no abrealas que tem a forma de um barco trazendo a figura do Deus Baco. Na Grécia Antiga e em Roma Paga esta alegoria que se chamava "Carrus Navallis", iniciava um grande cortejo para festejar a colheita das uvas. Pesquisadores afirmam que assim se originou o termo "Carnaval". Neste mesmo carro abre-alas faz-se a apresentação do Orfeu Negro e de figuras da mitologia grega como a musa Clio, mãe de Orfeu e do Deus Apollo - O Sol- pai de Orfeu. O 1º Setor da escola vem retratando a 1a manifestação do Carnaval carioca que começou séculos atrás com o nome de "Entrudo". O 2º Setor retrata a mudança que se opera no espírito carnavalesco e faz, aqui a apresentação do talento musical do Deus grego Orfeu projetado no compositor de uma escola de samba também chamado Orfeu. O 3º Setor, prosseguindo a "História do Carnaval", vem mostrando a manifestação popular que se chamou "Rancho". E o tema desse Rancho chama-se "Eurídice Amor de Orfeu" que vem apresentado em figuras vivas e alegóricas. Ela era uma ninfa que vivia no

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campo entre outras ninfas, centauros e zéfiros. Vivia feliz mas tinha um único problema. Era perseguida pelo apicultor Aristeu que nutria paixão doentia por ela. O 4º Setor simboliza os "Bailes" que organizaram-se à semelhança dos bailes de Veneza com muito luxo e presenças de mascarados. Na versão carioca do mito de Orfeu, é um desses bailes que acontece a morte de Eurídice. Na versão grega Eurídice morre ao fugir da perseguição de Aristeu e no campo é mordida por uma víbora. Na versão carioca a morte de Eurídice acontece num desses bailes quando uma bala perdida atinge Eurídice. Como na versão grega a sua alma vai para os infernos ou mundos subterrâneos. O 5º Setor retrata as "Grandes Sociedades" que tornaram o Carnaval carioca grandioso. Aqui representa-se os infernos onde a alma de Eurídice está aprisionada. Orfeu implora aos Deuses dos Infernos - Plutão e Proserpina - permissão para ir buscar a alma de sua bem amada. Em respeito ao seu grande talento musical, a permissão é concedida com a observação de que ele terá que obedecer a uma ordem: ao trazer Eurídice ele não poderá olhar para trás. Mas quase, a saída do umbral dos infernos, uma grande dúvida se apodera de Orfeu. A dúvida de que Eurídice não o estaria seguindo. Orfeu olha para trás desobedecendo as ordens dos Deuses e perde para sempre a alma de sua amada Eurídice. O 6º Setor vem mostrar outra belíssima expressão do Carnaval carioca que são os "Blocos" que formaram-se e chegaram até nós como por exemplo: Cacique de Ramos, Bafo da Onça e Bloco dos Bate-Bolas. Esse Setor vai ilustrar o trecho da morte de Orfeu do mito grego. Voltando dos infernos totalmente desolado com a morte de Eurídice, Orfeu, na sua profunda tristeza, isola-se de tudo e de todos. As Bacantes que eram as mulheres apaixonadas por Orfeu, sentem-se ofendidas por esse desprezo e revoltadas empurram Orfeu do alto do precipício. Seu corpo é despedaçado sendo a cabeça e a lira levadas pelo rio até as praias da Ilha de Lesbos. Neste local esta cabeça e esta lira foram veneradas como pertencentes a Orfeu, o Deus da Música.

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Na versão carnavalesca, a presença de Orfeu é representada por um conjunto escultura! e a presença do Bloco das Bacantes formado exclusivamente por mulheres. Este Setor também se completa com o Bloco dos Bate-Bolas. O 7º. Setor é a louvação de Orfeu. Situa-se no trecho da "História do Carnaval" que fala de um dos momentos mais brilhantes dos festejos carnavalescos do Rio de Janeiro e chamou-se "Os Corsos". Foi na década de 20 para 30 com o aparecimento de luxuosos automóveis sobre os quais desfilava a sociedade ricamente fantasiada onde sobressaiam figuras de Pierrot, Colombinas e Arlequins. A louvação feita ao Orfeu do mito grego estendese a outros Orfeus brasileiros representados por "Donga", "João da Bahiana", "Heitor dos Prazeres", "Caninha", "Pixinguinha", "Sinhô", "Ismael Silva" e "Cartola". No 8º Setor, a Viradouro reservou para terminar o seu desfile a fase mais grandiosa do Carnaval do Rio, com o "Esplendor das Escolas de Samba". Aqui, faz-se a glorificação do talento divino e imortal de Orfeu que recebeu dos Deuses o talento da música. Esse Dom é passado a todo compositor que cria um acorde musical como aconteceu com "Orfeu - O Negro do Carnaval". A exaltação apoteótica desse último Setor vai dirigida a todos os compositores das escolas de samba que criam com seus talentos o Samba Enredo, a peça mais importante do cortejo carnavalesco, como fez "Orfeu - O Negro do Carnaval" que deu o título de "campeã" à sua escola.

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Anexo 12 “ANITA GARIBALDI- A HEROÍNA DAS SETE MAGIAS” UNIDOS DO VIRADOURO – 1999

O enredo do G.R.E.S. Unidos do Viradouro para o ano de 1999 é baseado na figura de Anita Garibaldi, nascida em Santa Catarina em 1821 e que se tornou A Heroína dos dois Mundos. O italiano José Garibaldi despertou nela uma grande paixão e ao mesmo tempo alimentou os ideais revolucionários que trazia de suas terras. Participaram no Brasil de batalhas e também na fundação da “República Juliana”. Perseguidos pelas forças Imperialistas, partiram para a Itália e lá continuaram participando de movimentos revolucionários. Tornaram-se heróis nacionais ao conseguirem a unificação da Itália. A vida de Anita Garibaldi é uma epopéia de lutas, perseguições e sofrimentos. O enredo do G.R.E.S. Unidos do Viradouro não retrata este lado dramático da vida de Anita Garibaldi. Criou-se uma alegoria para enaltecer esta brava mulher. E o enredo chamou-se de: “ANITA GARIBALDI - A HEROÍNA DAS 7 MAGIAS”. O carro abre-alas representa a Ilha da Magia como é conhecida a Região de Santa Catarina local de nascimento de Anita Garibaldi. Este nome veio de uma lenda Açoriana que conta o seguinte: A Ilha de Santa Catarina, onde nasceu Anita Garibaldi, é conhecida como a “Ilha da Magia”. Esse nome veio através de uma lenda açoriana, contando que, em noite de lua cheia, as mulheres da ilha transformavam-se em bruxas e feiticeiras e realizavam grandes rituais. Certa noite, faltou-lhes uma poção mágica. As bruxas, então, transformaram-se em borboletas e voaram até as Índias Orientais em busca do que lhes faltava. A partir desta lenda desenvolve-se o enredo. Sete círculos mágicos cercaram a vida de Anita Garibaldi

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representada, no início, como um ser de prata. Portanto, a primeira magia é a própria Ilha da Magia. Esta fantasmagoria é retratada neste carro alegórico através de esculturas, composições humanas e destaques. Numa ambientação medieval este carro transmite, através de formas e cores, a prática da alquimia praticada por grandes bruxos e feiticeiras. Matizes das cores lilás, roxo, vermelho, azul, verde ouro e preto predominam nesse carro fazendo ressaltar a figura escultória do “Ser de Prata” que representa o espírito de Anita Garibaldi. Este carro representa a primeira magia. As Índias Orientais passam a ser a Segunda magia. Este segundo carro alegórico é a ilustração da lenda açoriana que inicia-se na Ilha da Magia e termina no Oriente. Neste carro, as bruxas, já transformadas em borboletas, chegam nas Índias Orientais. Entre a beleza e a sabedoria indiana elas buscam a poção mágica que faltava na Ilha da Magia. A terceira á dada pelos primeiros habitantes de Santa Catarina: A tribo dos índios carijós com seus sortilégios e conhecimentos da natureza. Este terceiro carro representa a Magia dos Índios Carijós. Figuras de pajés invocam rituais envolvendo as forças da natureza. Nas matas virgens, a tribo Carijó entre cantos e danças, celebra a presença de deuses. Energias puras de todos os elementos são preservados pelos Índios Carijós e transformados em harmonia. A alma de Anita Garibaldi foi envolvida por essas vibrações transformando-a em uma mulher justa e equilibrada. O quarto círculo vem da presença de piratas e corsários que aportaram naquela ilha antes da descoberta do Brasil. Eles deixaram na ilha a energia da audácia, da intrepidez e da aventura que impregnaram a personalidade de Anita Garibaldi. A quarta magia é representada por este carro alegórico, em forma de uma galera de Corsários, que aportavam na Ilha de Santa Catarina antes da descoberta do Brasil. Eles

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representam o espírito de aventura, intrepidez e audácia. Essas intensas vibrações ficaram presentes na Ilha da Magia e foram captadas pela alma vibrátil de uma jovem catarinense, chamada Anita Garibaldi. Monstros marinhos, canhões e sempre a ameaça de tempestades estão envolvendo esta alegoria como envolviam a trajetória da vida de Anita Garibaldi. O processo de metalização com que foi elaborado este carro alegórico é para ressaltar a frieza e atrocidade presentes em todas as batalhas. E a vida de Anita Garibaldi é uma epopéia de lutas e sofrimentos que transformaram uma jovem em uma brava mulher guerreira A Quinta força mágica veio através da cultura negra. Da África distante foram trazidas vibrações poderosas de liberdade e poderes que faziam parte da alma de Anita Garibaldi. O quinto carro alegórico ilustra a Quinta magia denominada “A Força da Cultura Negra”. Os negros africanos levaram para a Ilha da Magia toda a força de sua cultura milenar transformadas em cantos, danças e rituais. Sons, formas e cores e todas as gamas do conhecimento estavam presentes em suas culturas. O sagrado e o profano se mesclam em busca do equilíbrio e a alma de Anita Garibaldi foi cercada desta realidade. Neste carro alegórico sobressai a figura da deusa Yansã, senhora dos ventos e relâmpagos e mulher guerreira. Anita Garibaldi com certeza, e filha dileta deste grande Orixá. A Sexta magia foi criada pela herança cultural de várias etnias formadoras do povo de Santa Catarina: alemães, austríacos, italianos, árabes, portugueses, judeus e franceses, que, com suas riquíssimas tradições e exemplos de trabalho, alimentaram a alma da jovem Anita. Algumas alegorias de mão estão no desfile representando a sexta magia que são as heranças culturais das etnias. Representantes de vários povos chegaram nas terras de Santa Catarina e aqui participaram na formação do povo catarinense. Trouxeram as belezas de suas tradições e deram belos exemplos de trabalhos. Certamente estas heranças culturais serviram para criar e fortalecer o espírito de Anita Garibaldi como uma outra forte magia. Este sexto carro representa a sétima magia, os ideais e as vitórias de Anita Garibaldi.

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O carro é dividido em duas partes. Na parte da frente vê-se uma alegoria em forma de barco. Este barco existiu na realidade e tinha o nome de “Seival”. Em uma das batalhas em Santa Catarina, os Garibaldi surpreenderam as forças imperialistas transportando este barco, munido de canhões, por terra. Em cima de um grande carroção o barco foi transportado por um atalho, surpreendendo os inimigos. O “Seival” tornou-se símbolo das façanhas de Anita e José Garibaldi. A Segunda parte do carro é ocupado pelo símbolo da Loba Romana. É a presença de Anita Garibaldi em terras estrangeiras onde conseguiu a unificação da Itália. Por batalhar em dois continentes Anita Garibaldi é chamada a Heroína dos dois Mundos. A Sétima magia são os próprios ideais de libertação e justiça enraizados na vida desta brava mulher. Este carro alegórico encerra o desfile fazendo uma glorificação à Anita Garibaldi. No centro do carro a escultura de uma mulher guerreira a cavalo evoca o espírito de bravura de mulheres universais como “Teresa de Banguela, Joana D’Arc e Anita Garibaldi”. Os vários destaques que cercam esta escultura representam o G.R.E.S. Unidos do Viradouro na sua exaltação à Heroína das 7 Magias espelho da mulher brasileira. Estas sete magias transformaram aquele Ser de Prata na mulher guerreira que foi Anita Garibaldi. Para finalizar o enredo do G.R.E.S. Unidos do Viradouro vem enaltecendo e glorificando Anita Garibaldi como espelho da mulher brasileira.

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Anexo 13 “BRASIL: VISÕES DE PARAÍSOS E INFERNOS”. GRES UNIDOS DO VIRADOURO – 2000

A Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e a Riotur , escolheram um tema único para o carnaval do ano 2000 : "Os 500 Anos do Descobrimento do Brasil" . E forneceram vinte e um itens para serem escolhidos pelas agremiações . O G.R.E.S. UNIDOS DO VIRADOURO escolheu o item n° 2 que diz : "A Carta de Pero Vaz de Caminha e o Impacto que o Descobrimento do Brasil causou no Imaginário Europeu" . Sobre este último assunto encontramos dois livros l - "Visão do Paraíso" (Sérgio Buarque de Holanda) 2 - " A Invenção da Amazônia" (Neide Gondin). Com as informações fornecidas por estes dois livros elaboramos o ENREDO G.R.E.S. UNIDOS DO VIRADOURO com o Título : "BRASIL: VISÕES DE PARAÍSOS E INFERNOS" . O autor de "Visão do Paraíso" diz no prefácio, página XI : "Sabe-se que para os teólogos da Idade Média não representava o paraíso terrestre apenas um mundo intangível, incorpóreo, perdido no começo dos tempos, nem simplesmente alguma fantasia vagamente piedosa e sim uma realidade ainda presente em sítio recôndito, mas, porventura , acessível" . Neide Gondin no seu livro "A Invenção da Amazônia", diz, na página XVI, o seguinte : "A imaginação do homem medieval estava povoado de lendas que descreviam o mundo fantástico oriental e tratado nas viagens de Marco Pólo, nas "Maravilhas do Mundo" , de Jeahn de Mondeville , no "Imago Mundi" do Cardeal francês Pierre D' Ailly , nas "Etimologiae" de "Santo Isidoro de Sevilha". De todas estas fantasias foi criada a imagem de "PARAÍSO TERRESTRE" , lá pelas bandas do oriente como também, a imagem do INFERNO que ficaria numa zona tórrida , desconhecida . Estas visões foram reforçadas quando o pintor holandês Bosch , executa seu formoso trípitico retratando o Paraíso que

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chamou de "Jardim das Delícias" , o Purgatório e o Inferno . O desenvolvimento do enredo é o seguinte: no PRIMEIRO SETOR: mostraremos a visão do PARAÍSO MEDIEVAL também chamado de "Jardim das Delícias". Paz, Beleza e Tranqüilidade estão presentes neste florido Paraíso onde animais, homens , mulheres e anjos convivem na maior harmonia vivendo uma alegria perene . O SEGUNDO SETOR retrata "O INFERNO MEDIEVAL" . Todos os pecados e culpas humanas são pagos com torturas e sofrimentos dantescos. Ninguém escapa do Fogo Infernal . A nobreza e altos Membros da Igreja, Poderosos, Vilões, Prostitutas, Homens e Mulheres ninguém escapa das torturas terríveis de Monstros , Demônios e Assombrações que dominam os Infernos Profundos. O TERCEIRO SETOR, O SONHO DAS ÍNDIAS ORIENTAIS E O DESCOBRIMENTO DO BRASIL, vem descrevendo a viagem dos navegadores portugueses em busca das riquezas das índias Orientais. Todos sonham com as jóias, especiarias e mulheres exóticas. E, eis que, de repente : Terra à Vista . Portugal tinha realizado o Descobrimento do Brasil . Pero Vaz de Caminha escreve sua famosa carta ao Rei e esse é um comentário que se articulou : "Visitados e Visitantes estavam no Paraíso" . Os navegadores portugueses entre outras coisas pensaram que os papagaios e araras fossem anjos porque falavam. O navegante Orellana, mais tarde, afirma ter visto as Amazonas, mulheres guerreiras, montadas a cavalo que seriam as guardiãs do Paraíso . Foi a carta de Pero Vaz de Caminha que causou o Impacto no Imaginário Europeu. O Paraíso imaginado por toda Idade Média ficava no Brasil . Aqui , eram as terras do Eldorado. Mostra-se a seguir o QUARTO SETOR. O PARAÍSO DO ÍNDIO. Extraordinária natureza repleta de flores, frutas, fauna e animais e habitada por uma gente pura e formosa. Abundância de águas , sol tropical e clima ameno. Era realmente o Paraíso do índio que vivia em paz com suas culturas milenares. Mas o Descobridor Português em pouco tempo, transformou esse Paraíso em verdadeiro Inferno para o índio.

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E este será o QUINTO SETOR. O INFERNO DO ÍNDIO. Na ganância de nossas riquezas naturais o Conquistador Português quis escravizar o índio para o trabalho forçado. O índio fugiu; foi caçado como animal ; a Igreja o atormentava com imagens de medos e culpas. O índio viu suas matas virgens derrubadas . O fogo das queimadas era o próprio fogo do Inferno que o índio começou a vivenciar . Passamos agora para o SEXTO SETOR chamado PARAÍSO DO NEGRO. Desde os tempos bíblicos , o continente africano vivia no apogeu de grandes Reinados e Nações, sem incluir aí, a grandiosidade da civilização egípcia . Senhora de culturas milenares a mãe África era opulenta de sabedoria , riquezas e dona também de uma arte refinada . Vivia, portanto o continente negro o seu Paraíso cheio de paz , prosperidade e alegria . O enredo passa agora para seu SÉTIMO SETOR , chamado O INFERNO DO NEGRO. No final da Idade Média , começa o ciclo das grandes navegações. Os europeus começaram a colonizar a África . Os africanos são enviados ao Brasil como escravos . Separados de suas famílias e de suas nações , o Negro aqui, vivência o verdadeiro Inferno . Maltratado como um animal, o Africano sofre vendo suas culturas serem perseguidas e abafadas pelo Poder e pela Igreja . Monstros de maldades e ambições comandam esse Inferno em que foram jogadas por séculos e séculos , os filhos do grande Continente Africano, nossos ancestrais . O OITAVO SETOR é um hino de Exaltação ao Brasil, quando comemoramos os QUINHENTOS ANOS DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Aqui saudámos o Brasil enaltecendo as três raças formadoras da Civilização Brasileira .A raça índia a raça Branca e a raça Negra . Na História , todas elas tiveram vivência de Paraísos e Infernos. O Enredo do G.R.E.S. UNIDOS DO VIRADOURO, que fecha com chave de ouro o desfile das ESCOLAS DE SAMBA do Rio de Janeiro, é uma síntese alegórica de toda a História do Brasil . Quinhentos anos de fatos e acontecimentos que podemos qualificar como paradisíacos ou infernais. Vivemos numa natureza de Paraíso, mais vivenciamos outras vezes imagens de verdadeiro Inferno. Todos nós brasileiros, sejamos

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índios, Negros, Brancos e Mulatos , continuamos a nos debater com a lei de Popularidade de Bem-mal, Positivo-Negativo, Progresso-Atraso, Honestidade, Corrupção, Riqueza e Pobreza, Fome e Fartura e milhares de outras facetas dessa constante universal presente na face da Terra. O momento é de festas e comemorações , mas também pode servir como reflexão. Os portais do TERCEIRO MILÊNIO vão abrir-se. É a hora e a vez do Brasil . Que o refrão do samba do G.R.E.S UNIDOS DO VIRADOURO fique na mente e no coração de todos, ao encerrar-se o Carnaval do ano 2000 : "O dia vai raiar, amor, amor Com a Viradouro eu vou, eu vou, eu vou Meu canto de amor se espalha no ar Quinhentos anos vamos festejar"

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Anexo 14 “GENTILEZA “X” O PROFETA DO FOGO” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO – 2001

No ano 2001 abriram-se os portais do III Milênio, surgiu a Era de Aquarius e estamos em plena Era Espacial quando os avanços tecnológicos levam o homem para o espaço sideral. Este momento histórico deveria estar cercado de muita alegria e euforia. No entanto, ao olharmos tão perto de nós seja aqui, no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo inteiro nós vemos tantas violências, guerras, corrupções maltratando os povos e atingindo, principalmente, as inocentes crianças. Por isso, o G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio escolheu um enredo onde houvesse a denúncia desta situação calamitosa e ao mesmo tempo possa enviar uma mensagem de paz, amor, fraternidade e alegria para todo universo. O título do enredo é ''Gentileza "X" O Profeta do Fogo". Este título foi elaborado com a ajuda da numeróloga Juliana Wagner que acrescentou a letra "X" fundamentada em seus conhecimentos desta ciência milenar. A nossa história começa em 1961, em Niterói, quando o circo Norte-Americano pegou fogo matando 500 (quinhentas) pessoas. Entidades espíritas disseram, então, que esta tragédia foi um resgate cármico de vidas passadas em Roma Pagã quando Imperadores, Senadores, Cortesãos divertiam-se nos Circos Romanos vendo lutas e morte de Gladiadores e, depois, aplaudiam quando eram jogados nas arenas os primeiros Cristãos, Santos e Profetas para serem devorados por leões famintos. Estes espetáculos geraram um grande Carma negativo, sabendo-se que Carma é a lei de ação e reação, porque na natureza, nada se perde tudo se transforma. E este Carma, produzido séculos atrás, veio ser resgatado em Niterói no ano de 1961. Esta tragédia comoveu o Rio de Janeiro, o Brasil e o mundo inteiro. Mas abalou, particularmente, um homem do

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povo chamado José Datrino. Ele era um empresário, e um pai de família muito sensível a tudo que se passava em sua volta. Era um homem muito preocupado com as mazelas dos nossos tempos, e ele vivenciava os tormentos de uma Idade Média que o poeta Marco Antônio Saraiva comparava aos nossos dias chamando-a de Idade Mídia. Atualmente, repetem-se os mesmos acontecimentos que se deram naquela época da história também chamada de Período das Trevas. Lutas de Poderes onde forças antagônicas lutavam entre si pela ganância do dinheiro e do poder. Protegidos nos seus castelos e em suntuosas igrejas essas Forças dominavam tudo e todos através de políticas e guerras. Enquanto ostentavam suas grandes riquezas o povo sofria com violências, fomes, pestes, corrupções e decadências de costumes. Por isso, o poeta faz a comparação de Idade Média com Idade Mídia. E José Datrino, vivia atormentado com os acontecimentos. Ele vivia entre o povo e participava de todos os sofrimentos e mazelas que a população humilde carregava sobre os ombros: violência, desemprego, fome, o câncer dos tóxicos e tudo isto atingindo, principalmente, as crianças. Pois bem, 06 (seis) dias depois do incêndio do circo em Niterói, José Datrino começou a escutar vozes dizendo-lhe que ele tinha uma missão espiritual a cumprir na face da Terra. No sétimo dia José Datrino, como São Francisco, despojou-se de tudo, abandonou a família, vestiu sandália e uma túnica branca e foi para o local onde o circo tinha pegado fogo. Lá, ele plantou flores e distribuiu vinho para os que passavam pedindolhes apenas, que dissessem "Por Gentileza e Muito Agradecido". No simples alô de plantar flores este homem, tido como poeta e louco, imaginava que estivesse reconstruindo um mundo destruído pelo fogo, e o fato de distribuir vinho era para festejar o grande momento de uma verdadeira ressurreição. Ali mesmo ele começou uma pregação dizendo que a maior virtude de um homem era a gentileza. Explicava que "Gentileza Gera Gentileza,. Amor, Bondade, Riqueza. Beleza e Natureza.

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Peregrinava pelas ruas do Rio de Janeiro falando de todos os assuntos, criticando os maus costumes e aconselhando com palavras sábias. Depois, viajou por todo o Brasil levando principalmente aos humildes palavras de conforto e bondade. Nos últimos anos de sua vida, com mais de 70 anos, ele dedicou-se a uma obra admirável pelo seu sacrifício tísico. Ele inscreveu em 55 (cinqüenta e cinco) pilastras do viaduto do Caju, no Rio de Janeiro, toda sua sabedoria milenar. Pouco tempo depois a Comlurb, não avaliando o valor daquela obra, cobriu as inscrições de tinta. Houve uma grande reclamação sobre este ato. Leonardo Guelmam que havia produzido um trabalho sobre o Profeta reagiu e também Mariza Monte escreveu uma canção de protesto. Felizmente, a UFF/Niterói, com o apoio de outras empresas, conseguiu restaurar esta obra primorosa, e hoje as pilastras do viaduto do Caju, com as inscrições do Profeta Gentileza, estão tombadas como monumentos de cultura. E o G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio termina este enredo fazendo uma apologia ao Profeta Gentileza como o verdadeiro arauto da Era de Aquarius, que trará Paz, Amor, Fraternidade e Alegria para todas as partes do mundo. Nós esperamos, que as palavras do Profeta Gentileza fiquem plasmadas no coração e na mente de todo Brasil, para que nosso país realize seu destino de ser a grande civilização do III Milênio. Que assim seja, com as bênçãos do Profeta Gentileza.

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Anexo 15 “PAPAGAIOS AMARELOS NAS TERRAS ENCANTADAS DO MARANHÃO” GRES ACADÊMICOS DO GRANDE RIO – 2002

Histórias e Estórias. Duas coisas distintas e, no entanto, mesclam-se, perfeitamente na linguagem carnavalesca. Assim foi concebido o enredo do G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio, intitulado “PAPAGAIOS AMARELOS NAS TERRAS ENCANTADAS DO MARANHÃO”. Começa com a História. Em 1612, o Rei da França era uma criança de 11 anos chamado Luís XIII. Quem governava era a Rainha Maria de Médicis. A côrte francesa, naquela época, estava empenhada em fundar, no Norte do Brasil, uma nova França Equinocial. Foram escolhidas as terras do Maranhão. A frota de três caravelas, sob o comando de Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardiere, atravessou o Atlântico. Os poderes de Deus Netuno foram invocados e ele acompanhado de sua côrte de ninfas, sereias e tritões, cavalgando cavalos aquáticos e escoltados por golfinhos, como uma guarda pretoriana, abriu os mares desta triunfal viagem. E, assim, a esquadra chegou nas terras do Maranhão e os franceses desembarcaram na ilha de Upaom-Açu que logo foi batizada de São Luís. Os índios tupinambás receberam com muita cordialidade os estrangeiros e ficaram encantados com os presentes recebidos. Eram colares, espelhinhos e quinquilharias. Em troca, os índios ofereceram, como presentes, suas belas e jovens mulheres. Isso criou um certo mau estar porque na esquadra, vieram padre capuchinhos que condenaram aquela atitude. Um deles chegou a colocar fogo nas suas partes pudicas, para livrar-se das tentações. Os europeus eram homens louros, emplumados e falavam uma língua que não era entendida pelos tupinambás. Logo, receberam dos índios um apelido: “Papagaios Amarelos”. Isto é Estória. Os franceses permaneceram alguns anos nas terras do Maranhão e depois foram expulsos pelos portugueses como também aconteceu com os holandeses.

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Chegaram os negros da África distante. Vieram, principalmente, de Daomé e Nigéria. Faziam parte da nobreza. Eram sacerdotes e sacerdotisas trazendo todo o conhecimento milenar, guardado, até hoje, como um relicário. Altos conhecimentos de magia foram trazidos e as terras do Maranhão receberam todo um acervo místico e cultural conservado, até hoje, sem mácula e profanação. No Maranhão está assentado o culto dos Vóduns e Encantados, e toda a côrte de Vodunçes e Tobôssis. E foram fundadas quatro casas: Casa das Minas, Casa de Nagô, Casa Fanti-Achanti e Casa do Egito, raízes dos tambores de Minas, Tambores de Crioula, Terecô e da Mata. Por outro lado, este negro tão explorado e maltratado, deu provas de sua bravura. Destaca-se a “Balaiada”. Foi a revolta dos negros que faziam balaios revoltados com a imposição portuguesa. Esta revolta foi comandada pelo Negro Cosme que intitulou-se “Imperador das Liberdades Bem-te-vis”. Isto é uma face da “História” com “H”. Em seguida o enredo enfoca uma belíssima lenda de assombração que mistura, exatamente a “História” com a “Estória”. É a Lenda do Touro Negro Coroado e Dom Sebastião de Portugal. Contam que, na Praia dos Lençóis, em noite de lua cheia, aparece um enorme Touro Negro Coroado, que transforma-se no Rei Dom Sebastião de Portugal, desaparecido em 1570, na famosa batalha de Alcacer-Quibir, no Marrocos. No momento de sua aparição, nas alvas areias da praia surge, toda sua côrte com nobres e guerreiros. Do fundo do mar vem também, o seu castelo de cristal. Um grupo numeroso de albinos residentes nas dunas, dizendo-se descendentes do Rei Dom Sebastião e chamados de “Filhos da Lua” são os únicos que presenciam esta belíssima aparição que desaparece ao primeiro sinal da alvorada. Dando prosseguimento ao enredo apresenta-se outra fantástica História e Estória, em forma de assombração. É a lenda da famosa carruagem de Nhá Jança corruptela do nome de Dona Anna Jansen, descendentes dos holandeses que também estiveram no Maranhão. Esta senhora dominava a política, o comércio e a sociedade de São Luís fazendo, também o tráfico de escravos. Além de sua grande riqueza ficou conhecida, também, como uma mulher muito

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perversa que maltratava, até a morte, os negros. Quando faleceu sua alma penada foi castigada a ficar encarcerada numa carruagem puxada por mulas-sem-cabeças e pegando fogo. Levava consigo todas as suas jóias e riquezas. Um Grande Cão, símbolo da justiça dos Encantados carrega este coche. Esta terrível aparição surge as sextas-feiras, depois da meia noite, descendo e subindo as ladeiras de São Luís causando pânico a quem ousar contemplá-la. O enredo prossegue apresentando-se o lado cultural e festivo do povo maranhense. Mostra-se a festa dos “Caretas”. É um grupo de mascarados, que no Sábado de aleluia, saem para malhação do Judas, fazendo grande algazarra e assustando, principalmente as crianças. Em seguida vem o festejo do “Pato Pelado”. Acontece em Rosário, nos festejos da Padroeira, quando semanas antes fazem-se comitivas para angariar comidas que serão distribuídas aos pobres no dia da festa. Mas, a principal atração são os “Patos Pelados” que são espetados numa cruz, enfeitados de flores, fitas e saudados com muita alegria. É a festa do “Pato Pelado”. A presença do carnaval, no Maranhão, é muito marcante. Em São Luís ele é muito alegre marcado pela presença de blocos, escolas de samba e várias outras manifestações locais. Antigamente haviam os blocos dos “Fofões” e outros com várias temáticas como “PifPaf”, “Pierrôs”. Atualmente, o carnaval de São Luís foi revigorado e pode ser considerado um dos grandes carnavais do Brasil. Nas terras de Alcântara está assentada uma das maiores comemorações do Brasil. É a festa do “Divino”. Ela teve sua origem em Portugal, com a construção da igreja do Divino Espírito Santo, em Alénquer, estabelecida pela Rainha Dona Izabel, no século XIII. Na cidade de Alcântara a festa realiza-se da Quinta-feira de Ascensão do Senhor ao domingo de Pentecostes, datas móveis do mês de Maio. A festa começa, melhor dito, no último dia da festa do ano anterior, quando em meio de silêncio geral, o vigário local lê, pausadamente, os nomes escolhidos para patronos do próximo ano: O Imperador que se alterna com uma Imperatriz, Mordomo Régio, Mordomos Baixos ou Mordomas Baixas. O enredo encerra-se

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com a maior festa do Maranhão. O “Bumba-meu-boi” é originário do ciclo econômico do gado no Brasil, tendo realmente este folguedo a tríplice miscigenação com a influência das raças responsáveis pela nossa colonização: O Negro, O Índio e o Branco. O auto narrado como fato acontecido a um casal de escravos, de determinada fazenda: o marido, chamado Francisco e a mulher Catirina. Esta grávida e com desejo, pede ao esposo que lhe traga língua de boi. Então, Pai Francisco rouba o boi de seu patrão, dono da fazenda, e quando está no início da matança é descoberto. Tomando conhecimento do ocorrido, o patrão manda o capataz apurar o caso. Preso o Negro Francisco, este terá que dar conta do boi, sob pena de ser morto. Em virtude disto, toda fazenda foi mobilizada para salvar o boi. Então, são chamadas pajés, doutores, que finalmente conseguem ressuscitar o animal. A alegria foi contagiante. O boi estava salvo e também Pai Francisco. Em acontecimento, o cantador tira lindas toadas a tropeada brinca e dança em redor do boi, o qual faz evoluções diversas. Interpreta-se nesta manifestação popular a participação dos responsáveis pela nossa civilização. Pai Francisco, o negro africano escravo, o dono da fazenda, o branco português e os pajés, e os caboclos-de-pena, representando os índios. Com este enredo o G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio presta homenagem à todas as culturas do Maranhão traduzidas nas suas Histórias com “H” e Estórias com “E” e que deram samba. Samba feito com muito carinho, amor e respeito mesmo porque, hoje, a Capital São Luís foi elevada pela UNESCO como “Patrimônio Cultural da Humanidade” e o Maranhão é chamado de “TERRA DOS SEGREDOS”. Joãosinho Trinta, Um maranhense.

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Anexo 16 “O NOSSO BRASIL QUE VALE” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO – 2003

Histórico do enredo O enredo do G.R.E.S. ACADÊMICOS DO GRANDE RIO para o carnaval de 2003, intitula-se o “O NOSSO BRASIL QUE VALE”. É a saga da mineração brasileiro. Sua história, fantástica, nos remete ao mitológico Plano do Deuses da Grécia antiga. Lá, vemos o Velho e Sábio TEMPO, chamado CHRONOS, elaborando, por bilhões e bilhões de anos, o maravilhoso REINO MINERAL, faiscando de ouro, prata, pedras preciosas e metais raros, nas entranhas do Globo Terrestre, ajudado por gnomos, duendes que PARACELSO, um alquimista medieval chamava de ELEMENTAIS DA TERRA. Vemos também, o TitãATLAS carregando, nas costas o nosso Planeta chamado GAIA, caminhando pelos espaços siderais. Seguindo-se os caminhos, a bela e real VITÓRIA, abre suas poderosas asas, indicando uma trajetória de alegria. E a história começa. Aqui, no Brasil, logo após a descoberta, espalhou-se a “LENDA DO ELDORADO”. Era uma cidade feita de ouro e prata, pedras preciosas e escondida no meio da mata virgem. Surgiram os BANDEIRANTES e AVENTUREIROS em busca daquelas riquezas. Estes intrépidos homens embrenhavam-se pelas florestas abrindo as Entradas e Bandeiras, descobrindo novos caminhos, assentando povoações. E quando entraram pelo VALE DO RIO DOCE encontraram as MINAS GERAIS. Mais tarde, com o afloramento do OURO, criaram-se monumentais Cidades Coloniais no famoso Triângulo Mineiro. Plasmou-se a Arte Barroca, sagrada e profana. Belíssimas igrejas e suntuosos casarios. Época de formação da raça brasileira com a mistura do índio, branco e negro.

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Chegou-se aos Tempos Modernos. Explosão da Revolução Industrial. No começo do século passado, foram descobertas montanhas de minérios de ferro nas Minas Gerais. Muitos países, já industrializados, correram para lá em busca destas riquezas. Mas, um punhado de brasileiros corajosos, audaciosos e patriotas, tomaram as rédeas das INDÚSTRIAS DA MINERAÇÃO brasileira e escreveram esta saga cheia de luta, inteligência e dedicação. Transformaram o conceito da mineração, que antes só explorava a terra, sem cuidados, causando erosão, desmatamento e destruição. A Industria Mineral agigantou-se trazendo muita riqueza, progresso e trabalho para o Brasil. Desenvolveu-se os meios de transporte, ferroviário e marítimo. Grandes usinas hidrelétricas foram construídas. Chegou-se até as RESERVAS INDÍGENAS DE CARAJÁS. Novas regiões, ricas de metais raros foram descobertas. Processou-se a produção de manganês, bauxita, caulim, potássio, cobre, alumínio, níquel, titânio e estanho. Grandes melhoramentos acompanharam a exploração dessas riquezas. Foram organizados projetos de proteção aos POVOS indígenas altamente elogiados por entidade internacionais. As culturas dos índios, suas lendas, músicas e danças são respeitadas e admiradas. A ecologia foi beneficiada. A Mata-Atlântica recebeu projetos de reflorestamento, sua fauna e flora foram protegidas. A Mineração, por onde caminha, é sempre acompanhada por amplos programas educacionais através de escolas e programas de televisões para as comunidades. Os patrimônios artísticos e as artes recebem total apoio. A ciência é valorizada, o exemplo é a construção e manutenção do Museu de Ciências Naturais de Belo Horizonte. É dada cobertura para a saúde através de aquisições de equipamentos hospitalares e construções de hospitais. Importantes investimentos em infra-estruturas nas áreas de saneamento básico, eletrificação rural e urbana, pavimentação de vias urbanas e rodoviárias, construção de pontes, canalização de córregos, tratamento e abastecimento de águas, reforço e costeamento de linhas transmissoras, reurbanização de espaços públicos e drenagem pluvial.

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E agora, quando sopram os ventos da Expansão e do Poderio anunciando um FUTURO brilhante, é hora de acabarmos com nossas carências. Vamos exterminar a “Fome”, desaparecer com a “Miséria” e aniquilar o “Mostro da Violência”. Queremos a PAZ. Oferecendo educação, arte, cultura e esporte, estamos enriquecendo a criança brasileira – Ser Soberano, herdeiro de todo o relicário da Mãe Natureza. A criança será, também, a herdeira de nosso trabalho e abnegação pela pátria. Nossos filhos serão os novos “Bandeirantes da Modernidade”. São os arautos da nova civilização. Novos tempos de novas culturas e técnicas. A Mãe Natureza, sendo bem tratada, continuará a nos nutrir. Do seu ventre, nos oferece as riquezas, cada vez maiores, do REINO MINERAL. É vasta a presença dos MINÉRIOS, na vida atual. Eles estão presentes em todos os outros REINOS DA NATUREZA. No VEGETAL, no ANIMAL e no REINO DO HOMEM. Descobriu-se que, nos cabelos humanos, existe até OURO. Observando, vamos encontrar MINÉRIOS em todos os objetos e planos da Natureza. Basta olharmos para nós mesmos. No simples tecido de nossas roupas, nas fibras sintéticas, na tinta da coloração e na máquina da confecção. Vivemos cercados de utensílios feitos de vários METAIS. Prédios, meios de transportes, variados mecanismos, são alguns exemplos. Mas agora, nossa FESTA vai começar. Maravilhados, nós penetramos no imponente REINO MINERAL. Vimos o Velho e Sábio CHRONOS criando as belezas das Pedras Preciosas e Metais Raros Ajudado pelas fantasias de gnomos e duendes. A história do Brasil foi impulsionada pela “LENDA DO ELDORADO”. Bandeirantes e aventureiros abriram caminhos e assentaram povoamentos até surgir o Ciclo do Ouro com suas Cidades Coloniais e a beleza do Barroco. Montanhas de Minérios de Ferro foram descobertas nas Minas Gerais. Instalou-se a INDÚSTRIA MINERADORA DO BRASIL, trazendo riquezas, progressos e muito trabalho para o País. Projetos ecológicos ambientais, educacionais, artísticos e culturais sempre acompanharam a nossa Indústria Mineradora. Ela

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teve um extraordinário crescimento e nos deu um grande troféu: O BRASIL é o maior exportador de MINÉRIO DE FERRO do mundo! A MINERAÇÃO dá TRABALHO e QUALIDADE DE VIDA para milhares de brasileiros felizes com esta dádiva que vem da TERRA. Por isto, empunham, eufóricos, bandeiras do nosso BRASIL e convidam os povos do Mundo Inteiro à participar desta FESTA MAIOR – O CARNAVAL – onde somente a EMOÇÃO, a BELEZA e a CRIATIVIDADE acontecem. Venham participar desta imensa ALEGRIA. Com ORGULHO VIBREM conosco ao cantarmos e dançarmos:

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Anexo 17 “VAMOS VESTIR A CAMISINHA, MEU AMOR!” ACADÊMICOS DO GRANDE RIO – 2004

FIQUE SABENDO. O luminoso Dia foi separado da fascinante Noite e, surgiu, o Jardim das Delícias... pleno de Flores, Frutas, Aves e Animais, tudo era maravilha. E, foi criado o HOMEM. Mas, faltava a MULHER. Deslumbrante nas suas formas e beleza, ela surge no PARAÍSO. A felicidade era total. Lá, para as bandas do ORIENTE os sábios presenciavam os relacionamentos entre os Seres Humanos e ensinavam Lições de Amores que é a tradução do famoso KAMASUTRA. A Sabedoria Milenar da Índia considerava o ato sexual como o instante mais divino da vida. Neste momento cumpre as palavras do ETERNO que ordenava: “CRESCEI E MULTIPLICAI”. Para os orientais o sexo é uma Ciência que deve ser respeitada e estudada. Mas, uma astuciosa Serpente estava lá no ÉDEN para bagunçar aquele Sereno e Afrodisíaco Coreto. E conseguiu. Criou pragas demoníacas e mortíferas, espalhando epidemias por todas as épocas. Eis porque, desde as mais antigas eras, a humanidade e até os Deuses Gregos procuraram uma defesa ou um preservativo para aqueles males. No antigo Egito, na China, no Japão há mais de 2.000 anos A.C. e também na Idade Média, na Europa já existiam preservativos. Eram feitos de vísceras de bode, carneiro e outros animais e mais recentemente eram chamados de “Camisa de Vênus”. A história da “Camisinha” é portanto muito antiga. Nos tempos atuais outras espécies de VÍRUS surgiram e entre eles, o mais terrível, chamado de HIV provocando a epidemia de AIDS que ameaça o mundo inteiro. Mas, a ciência moderna avançou buscando soluções para afastar os perigos e retornar as atividades que dão prazer. No entanto é preciso criar o hábito da preservação. E são as ONGS que fazem esse belo e eficiente trabalho. Por isto, usar

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CAMISINHA é obrigação tanto nas brincadeiras de jovens adolescentes, nas práticas dos adultos e até nos prazeres da Melhor Idade, quando os idosos revivem seu passado. GAYS, LÉSBICAS E SIMPATIZANTES que todos vivam em liberdade, mas tenham cuidado, usem a camisinha. Fazer um enredo sobre esse assunto tão dramático, em plena euforia do carnaval, exige uma dose muito grande de criatividade, pesquisa e sensibilidade. O desafio foi superado. Em nenhum momento o tratamento artístico resvalou para o obsceno. Para a realidade sim, mas, com cuidados. Aí estão as televisões e outros meios de comunicações levando, para dentro de nossas casas, cenas as mais agressivas, mais indecentes e mais brutais do mundo contemporâneo. O enredo “Vamos Vestir a Camisinha, Meu Amor” busca um resultado positivo. Procura esclarecer ao Povo Brasileiro e também a Países distantes a necessidade de vestir a “Camisinha” a única maneira do ser humano preservar-se do vírus HIV. Tudo isto será feito com alto nível artístico, com beleza e acima de tudo muita alegria. Ao contrário de ser uma apresentação pornográfica será a celebração de um tema sério tratado com respeito e enviando mensagens altamente positivas colaborando com o Governo Brasileiro que já ganhou prêmios internacionais pelo seu empenho nas campanhas contra a AIDS. Estas mensagens são cantadas: Vamos proteger as crianças! Vamos preservar a SAÚDE e o VIGOR Físico! Praticar Esportes e cuidar da Alimentação! Vamos festejar o milagre da vida! Vamos cantar e dançar com alegria Na folia do carnaval da GRANDE RIO Comandada pela Sabedoria do VELHO GUERREIRO CHACRINHA que dizia: BOTA A CAMISINHA

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BOTA MEU AMOR.... E temos certeza, Seres sensĂ­veis e Artistas como o Cazuza, que foram sacrificados pelos VĂ­rus e muito mais, pelos Preconceitos, estejam onde estiverem, venham participar deste desfile que exalta a BELEZA e a ALEGRIA DE VIVER.

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