A FOLIA DE MOMO NA CIDADE DE SÃO PAULO NA PERCEPÇÃO DA IMPRENSA E DOS ARTISTAS DO TRAÇO: 1960/1964 Zélia Lopes da Silva (Universidade Estadual Paulista, campus de Assis) Resumo: A discussão deste texto centra-se na busca de demarcação dos folguedos de Momo na cidade de São Paulo, entre 1960 e 1964, com o objetivo de apreender, na conjuntura, os seus traços específicos1. Sabe-se que o carnaval brasileiro e, em seu âmbito o paulistano, paulatinamente vem se tornando de perfil plasmado pelos segmentos populares2. Porém, nesse início de década esses festejos atravessam certas peculiaridades por se tratar de um período caracterizado por muitas transformações, particularmente na cidade de São Paulo que vivencia processo acelerado de urbanização e de massificação daí decorrente, bem como momento de significativa expansão da indústria cultural e dos meios de comunicação de massa. As brincadeiras de Momo ficaram imunes a esse processo? Qual o perfil desses folguedos na cidade? Palavras-chave: Festejos carnavalescos e caricatura. Carnavais paulistanos. Imprensa e carnavais. Abstract: The discussion of this paper focuses on the search for demarcation of the Momo merriments in the city of São Paulo between 1960 and 1964, aiming to apprehend their specific traits at that juncture. It is known that the Brazilian Carnival, and in its sphere the São Paulo City one, has been steadily becoming enshrined in profile by popular segments. However, in that decade onset such festivities were going through certain peculiarities because it was a period characterized by many changes. The city of São Paulo, particularly, was experiencing an accelerated process of urbanization and consequent massification, as well as a moment of significant expansion of the cultural industry and mass communication means. Were the Momo revels immune to this process? What was the profile of these amusements in the city? Keywords: Carnival celebrations and caricature. São Paulo City carnivals. Press and carnivals. Introdução Refletir sobre os carnavais de São Paulo, capital, nos anos 1960, requer um toque de imaginação pela precariedade das fontes e de estudos historiográficos3 sobre essas manifestações no período assinalado. Os carnavais ocorridos na cidade foram pesquisados pela socióloga Olga von Simson que dividiu os seus estudos em carnaval de elite (dissertação de mestrado) e carnaval popular (tese doutorado). Este último estudo foi publicado sob o título Carnaval em branco & negro. Carnaval popular paulistano. 1914-1988 que discute o
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perfil desses folguedos, traçado com base nas narrativas de seus protagonistas4 e em fotos desses homens e mulheres engajados na folia (SIMSON, 2007). A periodização acompanha os caminhos, primeiramente dos cordões e, depois, das escolas de samba e de seus organizadores, com foco nos bairros originários dessas agremiações. Nessa abordagem, a periodização visa identificar os protagonistas e a origem de suas agremiações e, transversalmente, demarca a inter-relação de seus folguedos aos circuitos dos carnavais da cidade, mesmo porque os objetivos da pesquisa são os folguedos populares. As fotos publicadas no final do livro, entretanto, apresentam as performances dos segmentos populares, nos desfiles da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, nos folguedos de Vila Esperança, que foram reconhecidos pela imprensa (mas não fotografados) como parte constitutiva dos carnavais da cidade e que oferecem outras evidências que se somam às descrições assinaladas pelos jornais pesquisados e citados ao longo desse texto. Os registros dos festejos de Momo, feitos pelos jornais paulistanos que circulam no período, deixam antever que os mesmos haviam perdido força e o interesse dos foliões, o que não significa a sua ausência do cenário da cidade, pois os carnavais de rua e os bailes nos espaços fechados, entre 1960 a 1964, ainda são referências para essas celebrações. Constatase, nesse período, o desinteresse dos foliões em relação às antigas formas de festejar os Dias Gordos, notadamente em relação ao corso, uma vez que os préstitos com carros alegóricos, desenvolvendo os enredos, prosseguiram em Vila Esperança, bairro da Zona Leste da cidade. Entretanto, é recorrente na imprensa5, nas diversas formas de representação e nas notícias, as notificações da “fuga” dos paulistanos, nesses dias dedicados a Momo, rumo ao interior, às Estâncias hidrominerais — as preferidas eram Serra Negra, Poços de Caldas, São Lourenço e Águas de São Pedro — ao litoral paulista e ao Rio de Janeiro. A consulta aos jornais Correio Paulistano e O Estado de S. Paulo permite afirmar que a ênfase de suas matérias não é o festejo em si e sim a sua ausência, uma vez que as manchetes das notícias enfatizam a “fuga” da cidade, dos possíveis foliões, rumo a outras localidades do interior ou ao Rio de Janeiro. Esse discurso está presente nos títulos das matérias que anunciam os ditos folguedos, nas charges e em matérias que avaliam a cidade durante os dias dedicados a Momo. Apesar disso, o jornal O Estado de S. Paulo publica o calendário das festividades – nas páginas internas, local de pouco destaque em sua pauta de veiculação das notícias – e, também, fotos dos foliões nos bailes de alguns clubes da capital e caricaturas. Já o Correio Paulistano, diferentemente de anos anteriores, publica matérias esparsas e não mais páginas inteiras sobre esses folguedos.
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Independente da parca cobertura merece esclarecer que os jornais citados participam na construção de certa memória desses carnavais, reafirmando o seu ponto de vista, que realça determinados aspectos dos festejos e protagonistas originários das elites, os registros fotográficos desses pândegos, em detrimento de outros segmentos sociais que habitam a cidade, considerando-se que os carnavais dos segmentos populares somente ganham evidência e registros específicos, quando suas exibições são bem sucedidas ou fazem parte de eventos oficiais ou, ainda, algum pândego se destaca pela sua singularidade. Certamente essa leitura mobiliza opiniões na direção de sua análise e, também, constrói adesões e consensos sobre os festejos carnavalescos da cidade. Assim, a leitura sobre o esvaziamento dos festejos carnavalescos, apesar de verossímil, está assentada em percepções e opções políticas e culturais próprias que inibem as possibilidades de apreensão de outras manifestações que possam ocorrer em outros espaços da cidade. Seguindo essa percepção, as notícias relativas a essas festividades, nesse início de década de 60, acompanham, nessa leitura, o “estado de espírito” dos foliões e tornam-se cada vez mais escassas e lacônicas. Até mesmo as expressões caricaturais reiteram o discurso assinalado, a exemplo de Claudius, que produz reflexão (em seus desenhos de traço delicado) sobre a debandada do paulistano nesses dias dedicados a Momo. Porém, o chargista não se exime de provocar os pândegos com suas sátiras de humor, em franco diálogo com as questões da conjuntura, relativas aos festejos dedicados a Momo, ou não. Vale dizer que, embora os caricaturistas façam troça de possíveis foliões e sobre a situação do carnaval, as autoridades de Segurança Pública não negligenciam suas atribuições e definem normas para os festejos pré-carnavalescos e carnavalescos já no início de fevereiro, esclarecendo aos possíveis pândegos os limites e as possibilidades para festejar os folguedos de Momo, ao apresentarem a regulamentação para os bailes e a evolução dos cordões e ranchos pelas ruas da cidade. A resolução sob o título Normas para os festejos carnavalescos estabelece que: Os ensaios só poderão ser realizados em recinto fechado, entre 20 e 23 horas, e mediante alvará da polícia. Os carros alegóricos e os estandartes só poderão sair à rua após a vistoria que será feita pela Divisão de Diversões Públicas. As máscaras só poderão ser utilizadas em recintos fechados. Está expressamente proibido o uso de maiôs ou trajes sumários. Prepara-se, entrementes, a polícia para exercer rigoroso policiamento nas ruas e aos bailes, nos dias de carnaval (O ESTADO DE S. PAULO, 05 fev. 1960, p. 12).
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Nesse diálogo diante das questões conjunturais envolvendo os festejos de Momo, os caricaturistas (aqui analisados e que publicaram suas charges em O Estado de S. Paulo), além da abordagem sobre a fuga dos foliões da cidade, ignoram as determinações dos órgãos de Segurança e se voltam aos foliões, seus valores e projeções em relação a essas festividades. Assim, ao examinar os festejos do ano de 1960, que ocorre de 25 de fevereiro a 1º de março, é possível perceber esses traços de precários envolvimentos dos foliões nas charges de Claudius6, publicadas em O Estado de S. Paulo (19 fev. 1960, p.1), antes e depois do carnaval, nas quais suas percepções sobre os pândegos e suas fantasias colocam em dúvida, em algumas elaborações, as possibilidades de suspensão da vida ordinária, pois, nem mesmo nessas festividades a liberdade e a inversão da ordem eram uma garantia para todos os sujeitos. O chargista, num único quadro (da primeira charge), cria várias situações e personagens, com o objetivo de fazer troça dos foliões. No primeiro quadro, alguns foliões aparecem prisioneiros de situações que nem mesmo a festa do desgoverno consegue reverter, nem que seja apenas por alguns dias. Em outra cena, uma dupla (um magro e um gordo) com roupas infantis não se entendem. O magro ri da fantasia do outro que lhe pergunta em atitude de desforra do galhofeiro, com o seu enforcamento, “qual é a graça?”. Outra dupla, composta de um homem nu e seu interlocutor fantasiado, recebeu enfoque mais radical, o que fica expresso na postura do homem fantasiado que explicita o seu travestimento e indaga sobre a escolha do parceiro nos seguintes termos: “minha fantasia é de cowboy, e a sua?”. Essa possibilidade de transgressão só poderia ser mesmo um sonho de carnaval, considerando-se que nas determinações policiais, as roupas não tão sumárias como os maiôs eram proibidas. O que pensar então do nu total? Em outra situação, aparece uma senhora e uma criança fantasiada de cachorro, usando coleira, que faz xixi no poste. A mãe que a acompanha não apresenta qualquer constrangimento por trazer o filho preso a uma coleira e, tampouco, pelo seu comportamento imitando o animal. Na segunda charge, composta de várias cenas, os festejos carnavalescos raramente expressam para seus súditos situações de tranquilidade, satisfação e liberdade. Se a festa era identificada pelos momentos de prazer e de satisfação dos desejos da libido, ao avaliar questões presentes na conjuntura, Claudius realça a pouca adesão aos festejos momescos por parte dos paulistanos, que se deslocam para a praia ou para o campo, ou simplesmente, permanecem em São Paulo, mas com o firme propósito de descansar dos desgastes da atribulada vida cotidiana, o que o chargista enfatiza em seus desenhos. Na primeira cena, o fantasiado é um espantalho usado para assustar os pássaros, uma vez que as adesões ao festejo
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cada vez são mais raras. Na imagem seguinte, o chargista reitera essa percepção. O fantasiado (numa paisagem não identificada) encontra-se deitado numa rede ao ar livre, em total descanso, lendo confortavelmente um livro. Ao lado, um copo com uma bebida, repousa numa cadeira próxima à rede. O sinal de que se trata do carnaval é o cone na cabeça a indicar esse momento de suspensão da pesada rotina cotidiana. No quadro seguinte, publicado em O Estado de S. Paulo (04 mar. 1960, p. 1), Claudius faz troça do “espírito carnavalesco” dos foliões ao indicar que os deslocamentos de pessoas para o campo também trazem o tom galhofeiro para essa espacialidade, caracterizada, na percepção dos citadinos, de “bucólica e tranquila”. Em seu desenho, um homem capinando toma o maior susto com um mascarado montado num cavalo, igualmente mascarado, em disparado galope. A reação do homem traduz-se pelo chapéu que se desprendeu de sua cabeça e, por sua atitude de espanto diante do ocorrido. Na percepção do chargista, esse “espírito carnavalesco” espalhou-se irrestritamente para outros espaços, rompendo a tranquilidade até mesmo do galinheiro, uma vez que as aves não foram esquecidas e sofrem com as investidas de um folião que resolve entrudá-las. No último quadro, o folião foge do assédio de uma mulher que o persegue. Encurralado, sobe numa árvore para se proteger de suas investidas amorosas. Essa perspectiva sugere profundas alterações nas relações de gênero, assumindo a mulher atitude agressiva para conquistar o seu amado. Tal liberalidade estaria em sintonia com as mudanças de início dessa década, em relação às mudanças no comportamento feminino, com a radicalização das lutas de emancipação das mulheres.
Os carnavais pela cidade Em 1960 e 1961, estava programada a retomada do carnaval de rua, inclusive o corso, com trajeto da Praça da Bandeira, Avenida Brasil e Brigadeiro Luis Antonio e o retorno ao mesmo local. Em 1960, por exemplo, medidas detalhadas foram publicadas pelo O Estado de S. Paulo7 que em longa matéria especificou o trajeto e as regras que os foliões deviam seguir. Porém, em pleno carnaval, o mesmo jornal publicou notícias afirmando que “mais de 300 mil pessoas deixarão a cidade nestes dias de carnaval” (O ESTADO DE S. PAULO, 27 fev. 1960, p. 10). Na mesma data, informa a programação dos vários palcos do acontecer carnavalesco na cidade, em bairros como Vila Esperança e Mooca e o carnaval oficial, organizado pela Prefeitura Municipal, no Parque do Ibirapuera. Na Vila Esperança8, a programação previa desfiles de carros alegóricos pelas ruas e, no Parque Ibirapuera, a programação oficial definia
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vesperais infantis, seguidos de baile noturno e desfiles de blocos ranchos, cordões e escolas de samba, durante todos os dias de carnaval. A notícia do jornal destacou o que se segue: A Comissão Municipal incumbida de organizar as festas de carnaval no Parque Ibirapuera elaborou o seguinte programa. Hoje, (sábado) às 14 horas, a abertura do Parque ao público e às 22 horas, baile com orquestra; amanhã às 15 horas vesperal infantil com prêmios para as melhores fantasias, às 21 horas desfiles com prêmios para os melhores cordões carnavalescos, às 22 horas bailes com orquestra; depois de amanhã, as 15 horas vesperal infantil, às 20 horas desfiles de préstitos e escolas de samba e às 22 horas bailes; terça feira, às 15 horas vesperal infantil com distribuição de prêmios aos vencedores do concurso de fantasias, às 21 horas desfiles e concursos de escolas de samba e às 22 horas baile com orquestra. A Prefeitura instalou no recinto do Parque iluminação colorida [...] Foram também instaladas barracas para a venda de bebidas, sorvetes e sanduíches a ‘preços módicos e tabelados’ (O ESTADO DE S. PAULO, 27 fev. 1960, p. 10).
A “animação”, também ficou sob a responsabilidade dos clubes. Alguns deles anunciaram bailes durante os dias gordos, embora as opções fossem bem mais reduzidas do que nas décadas anteriores. O jornal O Estado de S. Paulo noticiou os bailes no Clube Atlético Paulistano, Tênis Clube Paulista, Esporte Clube Pinheiros, Ipê Clube, Arakan Clube, Clube Ginástico Paulista9, alguns deles já parte constitutiva da memória dos carnavais da cidade como o Clube Atlético Paulistano, Tênis Clube Paulista, Esporte Clube Pinheiros. Porém, as avaliações do carnaval brincado na cidade foram desanimadoras. O mesmo jornal publicou pequena matéria com o título “A cidade deserta” para reafirmar o fracasso do carnaval. O texto abaixo traçou o perfil da cidade nos dias dedicados a Momo com bastante pessimismo. Confirmaram-se as previsões: os paulistanos abandonaram a cidade em massa, fugindo do carnaval, à procura de descanso no interior ou no litoral. Ontem, as ruas centrais estavam semi-desertas, como se verifica pela fotografia, tomada à tarde no cruzamento da avenida S. João com a rua Formosa, ponto onde, ordinariamente, o movimento de veículos e transeuntes é muito intenso (O ESTADO DE S. PAULO, 28 fev. 1960, p.11).
Posição semelhante destaca o Correio Paulistano (27 fev. 1961) na vinheta da notícia: “Carnaval: Mais de 300 mil Paulistanos deixam a cidade” e esclarece que a previsão baseia-se em informações fornecidas pelas empresas de transporte terrestre e as companhias de aviação. O destino é o interior, Estâncias hidrominerais, o litoral paulista ou em busca de
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“um carnaval melhor no Rio de Janeiro”, a considerar o movimento da ponte aérea destinada à cidade. As matérias publicadas pelo O Estado de S. Paulo durante os dias de carnaval também evidenciam que os paulistanos evadiram-se das ruas do centro, para escapar da chuva e da falta de opções oferecidas por esses festejos e decidiram ficar em suas residências assistindo pela televisão o que ocorria no Rio de Janeiro no famoso baile do Municipal, cujas atrações foram as atrizes de Hollywood, Kim Novak, Linda Darnell (que fizeram parte do júri para classificação das fantasias do Municipal) e Judy London10. Diz o jornal citado: A cidade permaneceu tranquila no carnaval. O mau tempo e a falta de ornamentação não animaram os paulistanos a sair para as ruas do centro; no geral, preferiram ficar em suas residências acompanhando pela televisão o desenrolar do carnaval carioca, nas avenidas, nos bailes do Municipal e do Copacabana (O ESTADO DE S. PAULO, 01 mar. 1960, p. 9).
Os acontecimentos ocorridos pela cidade, nos dias dedicados a Momo, foram repassados pelo jornal O Estado de S. Paulo (01 mar. 1960, p. 9) sem qualquer tolerância ou simpatia. Criticou as medidas exageradas tomadas pelas autoridades de trânsito que não foram condizentes com o que estava programado para os festejos de rua e que sequer ocorreram por causa da chuva “que impediu os desfiles de veículos e os préstitos. Quanto aos ‘blocos’ e ‘cordões’ característicos que desfilam nessa época, o aspecto foi idêntico. Apenas dois ou três grupos enfrentavam melancolicamente a chuva”. O periódico observou, ainda, que na ausência de desfiles as poucas evidências dessas festividades eram lembradas pela programação veiculada pelos alto-falantes instalados nas avenidas do centro, por uma rádio da cidade, os quais transmitiam músicas dos carnavais passados que serviam de motes para “irônicos comentários do povo, que não sabia bem se verberava a falta de imaginação dos compositores, a chuva ou a própria existência do carnaval” (O ESTADO DE S. PAULO, 01 mar. 1960, p. 9). Nessa mesma matéria, realçou que a única exceção nessa falta de glamour das exibições pífias, de raros indícios dessas festividades, foi o corso da Vila Esperança, “onde nada obstou o entusiasmo dos participantes. Dezenas de carros alegóricos ali desfilaram no domingo, artisticamente ornamentados, alguns até com bom gosto. Quase todos glosavam os temas e as personalidades políticas mais em voga, através de alegorias expressas em dísticos, fantasias e canções populares”.
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Se o carnaval de 1960 teve dificuldades para envolver os paulistanos, parece que o de 1961 não foi muito diferente. O jornal O Estado de S. Paulo (03 fev. 1961, p. 12) publicou o itinerário do corso que devia deslocar-se da Praça Dr. Reinaldo Porchal (Parque de Ibirapuera), passando pelas Av. Brasil, Rua David Campista, Rua Veneza. No entanto, não há maiores detalhes e nem notícias se durante os dias 11, 12, 13 e 14 de fevereiro, dedicados ao carnaval, os foliões endinheirados desfilaram com seus carros pelas ruas da capital. Embora o Estadão não tenha divulgado a lista dos clubes que ofereceram bailes aos foliões, em 12 de fevereiro publicou a notícia sobre os “2.100 alvarás para bailes de carnaval, sendo que 300 desses alvarás eram de clubes e associações. Tais agremiações iam oferecer aos foliões 3 bailes infantis e 4 bailes noturnos, 50% a mais do que no ano anterior, segundo avaliação da Secretaria de Segurança Publica”, o que demonstra serem diversificados os palcos dos carnavais ocorridos na cidade. Ao longo dos dias que antecederam aos festejos, foi noticiada a programação oficial da Prefeitura para o Parque Ibirapuera que estava sendo ornamentado para esse fim. E, também, os bailes que o Clube Arakan realizaria nos salões do Aeroporto de Congonhas durante os quatro dias de carnaval. A programação para o Ibirapuera definia para todos os dias de carnaval, bailes e desfiles de agremiações carnavalescas: “A comissão incumbida dos festejos de carnaval fará realizar nesses dias 4 bailes e 3 vesperais infantis. O concurso oficial de escolas de samba e cordões carnavalescos realizar-se-á parte no domingo e parte na terça feira” (O ESTADO DE S. PAULO, 10 fev. 1961, p. 8). Em outra matéria, falou-se da montagem de três tablados para os bailes públicos que deveriam ocorrer desde a noite do sábado de carnaval, até terça-feira e, também, da premiação para os melhores desfiles das escolas de samba e cordões. (O ESTADO DE S. PAULO, 10 fev. 1961, p. 12). O noticiário sobre os preparativos para os festejos carnavalescos na cidade, também veio acompanhado de outro que enfatiza a saída dos paulistanos para outras localidades. O título “Começou a fuga”, informa que desde o dia 10 de fevereiro havia se intensificado o movimento na Estação Rodoviária: “os paulistanos estão começando a abandonar a cidade, fugindo do carnaval para descanso no Interior, na serra ou na praia. O movimento deverá aumentar extraordinariamente hoje (11/02) sobretudo depois do meio dia” (O ESTADO DE S. PAULO, 11 fev. 1961, p. 9). É esse o tom das matérias desse período em diante, até mesmo quando publica a foto de mascarados em trajes de palhaço flagrados nos bailes realizados nos clubes da cidade cujo
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título é “resto do carnaval”. Ao apresentar a foto realça que “foram muitos os bailes, mais do que no ano passado, mas poucas fantasias” (O ESTADO DE S. PAULO, 14 fev. 1961, p. 1). Nesse mesmo dia, no título de uma matéria que sintetiza a posição do jornal sobre esses festejos consta o seguinte: “Carnaval de 1961: apatia no centro, muitos bailes, 300 mil paulistanos fora da capital”. Porém, ao se considerar o número de habitantes da cidade, que era de 3.781.446 habitantes (INSTITUTO..., [20--?]), essa cifra não é tão significativa se comparada à população que vivia na cidade. Uma rápida consulta às fotos dos foliões nos bailes de carnaval dos clubes da cidade já pode indicar que a animação e o tom jocoso ainda fazem parte da festa, como o grupo de palhaços (foto abaixo). Esse personagem dialógico (Bakhtin, 1987) propicia a metamorfose desses pândegos que buscam na irreverência e no chiste, manter o tom galhofeiro durante os festejos dos Dias Gordos. O grupo, oculto sob a fantasia de mascarado desfruta a condição do anonimato para divertir-se e, ao mesmo tempo, esquivar-se da censura daqueles que partilham de seu convívio e do entorno, podendo aproveitar as múltiplas possibilidades oferecidas por esse ocultamento, sobretudo se forem pessoas de projeção social. A foto, apesar de posada, indica o objetivo dos pândegos de aparecer no cenário carnavalesco, distinto dos demais foliões. Além disso, o seu registro destaca o papel que a fotografia desempenha no âmbito dos jornais, como evidência do acontecido, embora essa inocência esteja longe de consenso, como lembra Boris Kossoy (1989; 2000) em suas reflexões sobre a imagem fotográfica.
Foto 1 - O ESTADO DE S. PAULO, 14 fev. 1961, p.1
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A busca da imagem para “ilustrar” a matéria, vai além da fotografia. No espaço do jornal O Estado de S. Paulo os caricaturistas têm lugar garantido. Em 1961, por exemplo, o artista do traço (não foi identificada sua assinatura) coloca o seu bloco na rua com a charge “bloco adesista” (O ESTADO DE S. PAULO, 14 fev. 1961, p. 4) que apresenta os políticos Jânio Quadros, na ocasião, Presidente da República (de 1960 a 25 de agosto de 1961), Ademar de Barros, Prefeito da capital (de 08 de abril de 1957 a 07 de abril de 1961) e outros políticos (não identificados no desenho), em perfeita sintonia com os folguedos momescos11. O caricaturista, nessa charge, tematiza as alianças políticas, evidenciando a facilidade para o forjamento das adesões, ainda que os seus pontos de vistas, interesses e partidos não sejam os mesmos. Nessas folganças os personagens esquecem as desavenças e disputas e saem às ruas, fantasiados a caráter, para se divertirem como qualquer folião, à revelia dos problemas do país ou da cidade. Esse momento, na representação do chargista, traduz verdadeira comunhão de sentido entre esses protagonistas, mesmo que seja passageiro e que dure apenas os Dias Gordos, simbolismo que se projeta muito além do divertimento para os seus integrantes. Outra notícia chama a atenção para a “debandada” dos moradores da cidade rumo às praias, ao interior do Estado e outras localidades, cujo objetivo era aproveitar os dias dedicados a Momo para descansar do estafante cotidiano de suas vidas. Porém, as fotos abaixo, publicadas pelo próprio jornal O Estado de S. Paulo, dão ênfase a dois aspectos: a animação do folião, os trajes de homens e mulheres portando as fantasias, que em certa medida dilui a crítica de seus repórteres e editores.
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Foto 2 - O ESTADO DE S. PAULO, 17 fev. 1961, p.12
A foto 2 mostra foliões dos clubes Pinheiros e Paulistano que se divertem entusiasticamente. Na página, ao alto, é possível ver dois aspectos do baile do Clube Pinheiros. Na parte de baixo, uma das fotos desse baile do Clube Paulistano mostra um sorridente palhaço/pierrô que se projeta majestoso na sua irreverência carnavalesca, em meio a outros foliões com indumentária mais simples, típicas dessa conjuntura. Mas, nem tudo é harmônico, a considerar as recomendações das autoridades que controlam os foliões e insistem nas proibições sobre os trajes sumários, recomendação que desconsidera as mudanças nos costumes, valores e hábitos, que se manifestam nessa década e que se evidenciam nas vestimentas (as quais ficam mais despojadas), nas relações afetivas e na sexualidade feminina. Em 1961, por exemplo, as mulheres brasileiras têm acesso às pílulas anticoncepcionais, o que certamente trará consequências marcantes sobre sua sexualidade e sobre a busca de enfrentamento do tabu da virgindade que coibia os seus movimentos e desejos da libido, como apontam as pesquisas de vários autores, entre as quais se destacam as reflexões de Carla Bassanezi Pinsky (2012, p. 516) e sinalizam para distintas visões existentes na conjuntura em relação ao papel da mulher e de sua sexualidade e, também, as mudanças em curso em relação a esses valores. O carnaval é sempre apontado como momento de ruptura de valores, notadamente em relação às mulheres e sua sexualidade.
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Os jornais não registram os desfiles de rua e as diversas atividades desenvolvidas em Vila Esperança, o que certamente seria outro aporte às avaliações negativas sobre esses festejos e, também, uma forma mais ampla e igualitária12 de noticiar os eventos da cidade, independente do status social dos pândegos, considerando-se o aumento e a diversidade de sua população e a metropolização em curso dessa capital. Nesse ano, por exemplo, a Escola de Samba Nenê de Vila Matilde desfila no bairro de Vila Esperança, desenvolvendo o tema A Marquesa de Santos, cuja foto panorâmica – publicada por Olga von Simson (2007, p. 321), anteriormente –, desvela uma multidão de foliões seguindo a escola. Os seus destaques são D. Pedro I e Marquesa de Santos e a Ala das Baianas. As fotos, a seguir, são elucidativas em relação ao interesse dos segmentos populares em relação aos festejos momescos, diferentemente das afirmações dos jornais citados nesta pesquisa. Mas, o local do acontecer carnavalesco não é o centro da cidade e sim um bairro de periferia que, apesar de citado, não confere prestígio às elites e seus veículos midiáticos.
Foto 3a - Desfile de Nenê de Vila Matilde Tema: A Marquesa de Santos - 1961 Fonte: SIMSON, 2007, p.321.
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Foto 3b- Desfile de Nenê de Vila Matilde Tema: A Marquesa de Santos - 1961 Fonte: SIMSON, 2007, p.322.
Ao concluir sua avaliação sobre o carnaval paulistano de 1961, o diário O Estado de S. Paulo, ignora o que se passou em Vila Esperança, e usa a emblemática metáfora de serpentinas e uma máscara caída (clichê da imprensa para denotar o término desse festejo) para dizer que o carnaval paulistano não morreu, apenas deslocou-se para os salões. A apreciação é pouco criativa, pela reiterada repetição (dessa avaliação ao longo dos anos) e, parcial, em relação às festividades ocorridas na cidade. As folias de Momo na Zona Leste da capital Os carnavais de 1962, 1963 e 1964 percorrem a mesma trajetória de tentativa de organizar eventos em espaços públicos (Parque do Ibirapuera) e nos espaços fechados: clubes e associações. Porém, o cenário dos festejos já havia se deslocado para outra região: a Vila Esperança, na Zona Lesta da cidade. Nos anos estudados, os folguedos de Vila Esperança roubam a cena e ganham registros na imprensa, pela animação e agregação dos bairros próximos visando à organização desses festejos, tendo (em alguns momentos) apoio oficial e da iniciativa privada para a montagem dos espaços cenográficos (palcos, iluminação etc,) e para sua realização efetiva.
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Independente de qualquer alteração, já no início de fevereiro de 1962, a Secretaria de Segurança Pública publicou portaria definindo os parâmetros para os pândegos caírem na folia nos dias 3, 4, 5 e 6 de março daquele ano. As recomendações direcionavam-se aos clubes e demais sociedades, como blocos, ranchos e cordões que deveriam ficar atentos aos prazos para solicitar as autorizações e, também, aos foliões responsáveis por desfiles envolvendo veículos em relação às vistorias dos mesmos para garantir as exibições durante os festejos momescos. Além, dos desfiles de rua e dos bailes nos clubes, esclarecia a portaria que as máscaras poderiam ser usadas em recintos fechados e, também, os lança-perfumes, embora alertando que os excessos seriam coibidos. Trechos da portaria permitem visualizar a medida das “instruções”. O Secretario de Segurança, Dr. Virgilio Lopes da Silva, pela Portaria nº 3, do último dia 2, divulgada no Diário Oficial do Estado, baixou instruções regulamentando os festejos carnavalescos do corrente ano. De acordo com a portaria, os bailes carnavalescos só poderão ser realizados mediante alvará policial fornecido nesta capital pela Divisão de Diversões Públicas da delegacia Auxiliar da 2ª Divisão Policial; os alvarás deverão ser requeridos impreterivelmente até o dia 26 de fevereiro do corrente. Os préstitos, blocos, cordões, ranchos e outros grupos carnavalescos somente poderão sair à rua mediante apresentação de alvará policial, dependendo outrossim, os que apresentarem carros alegóricos, de vistoria dos veículos pela DST. [...]. Será permitido o uso de mascaras em recintos fechados. Os maiôs e outras vestimentas sumárias são totalmente proibidos. Não será tolerado o excesso de lotação nos bailes. [...] (O ESTADO DE S. PAULO, 08 fev. 1962, p. 1).
As atividades desenvolveram-se nos clubes e, nas ruas dos bairros da Mooca e de Vila Esperança. O bairro da Mooca foi o palco do carnaval oficial contando com o apoio financeiro da Prefeitura e do governo do Estado. Já o carnaval de Vila Esperança foi organizado pelos próprios clubes da região e pelo esforço de seus foliões. Os bailes nos clubes aconteceram em vários recintos, embora a cobertura do Estadão tenha sido bastante limitada. Foram divulgados aos associados os bailes e vesperais nos tradicionais clubes da cidade, tais como: Clube Atlético Paulistano, Tênis Clube Paulista, Clube de Regatas Tietê, Esporte Clube Sírio, Arakan Clube. Certamente não eram os únicos espaços engajados nos folguedos de Momo, considerando os anos anteriores e o interesse dessas agremiações em oferecer a cada ano, aos seus associados, diversão durante os festejos de Momo. O jornal O Estado de S. Paulo (04 mar. 1962, p. 15), em matéria intitulada “Carnaval de rua”, noticia que esse tipo de evento ocorrerá no bairro na Mooca, em razão do esforço de muitos colaboradores empenhados na sua ocorrência. No excerto abaixo, contata-se que
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houve a união de esforço dos foliões com a iniciativa pública e privada da cidade e dos bairros próximos ao Mooca, para que houvesse um espaço de realização dos folguedos populares. A União dos Moradores da Mooca e Alto da Mooca, Sociedade Amigos do Bairro – UMMAM – em colaboração com a Prefeitura Municipal de São Paulo, com o Governo do Estado, com a Associação Paulista de Imprensa Carnavalesca, com os Clubes Esportivos Varzeanos, com a imprensa e emissoras de rádio e televisão, promoverá festejos públicos de carnaval no Alto da Mooca. Colaboram também organizações industriais e comerciais do bairro. Os festejos iniciar-se-ão na esquina da Alegria na confluência das ruas Padre Raposo com Guajambé, n. 244, diante da sede social da UMMAM, onde a Prefeitura instalará um Palanque oficial para realização dos concursos de fantasia, de escolas de samba, blocos e cordões (O ESTADO DE S. PAULO, 04 mar. 1962, p. 15).
Dois dias depois o “Estadão”, em elucidativa manchete, afirma: “Vila Esperança, último reduto do carnaval de rua”. Isso deixa antever que não se trata de iniciativa patrocinada pelo poder público ou por outros interesses fora do âmbito desses festejos, como as Associações e Clubes da região que agregam além dos foliões de Vila Esperança, os dos bairros da Penha, de Vila Matilde e adjacências. Diz o Jornal: Repetir-se-á hoje às 17 horas, em Vila Esperança, o desfile de carros alegóricos e de escolas de samba que obteve anteontem, à tarde, grande êxito. Dezena de milhares de moradores daquelas localidades, da Penha, da Vila Matilde e de bairros adjacentes aplaudiram as alegorias apresentadas pelas sociedades, especialmente as que se denominaram “O Galo de Ouro” (alusão a Eder Jofre), “A volta do Major Gleen”, “Uma caverna na Lua”, “Dragão Chinês”, “O Castelo”, “O Canhão”, “A Carruagem” e outros [...] (O ESTADO DE S. PAULO, 06 mar. 1962, p. 8).
O realce da matéria voltou-se aos assuntos e personagens conhecidos. O tema do desfile de Nenê de Vila Matilde que nesse ano, segundo Olga von Simson, foi A Escrava Isaura, não mereceu da parte do repórter qualquer menção, diferentemente dos outros personagens. Continuando a matéria, o jornalista relata que os festejos carnavalescos de rua, em Vila Esperança, ocorrem ininterruptamente há 27 anos e não recebeu qualquer auxílio oficial da municipalidade que “relutou em ceder um palanque”.
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Este ano, mesmo sem receber qualquer auxílio oficial [...] as sociedades apresentaram seus carros alegóricos alguns dos quais orçados em cerca de 150 mil cruzeiros. Os gastos não foram maiores porque durante todo o ano os moradores da Vila, associados dos seus principais clubes, colaboraram para a feitura dos carros e na arrecadação das somas necessárias à iluminação das ruas principais, à ornamentação dos salões de bailes, etc [...] (O ESTADO DE S. PAULO, 06 mar. 1962, p. 8).
Na retrospectiva feita pelo Jornal, na origem desses festejos está La Murga Del Tio Curro, conjunto musical de jovens que surgiu por volta de 1927 e “que foi um dos iniciadores da tradição carnavalesca na localidade”. O grupo de pândegos – de origem Ibérica, vestidos com roupas confeccionadas de sacos e tocando instrumentos diferentes – conseguia atrair, na Vila, elevado número de pessoas que o acompanhavam entoando músicas próprias. O jornal O Estado de S. Paulo (06 mar. 1962, p. 8) ressalta que “o êxito dos rapazes foi tão grande que conhecida fábrica de cigarros da época contratou-os para se apresentarem em outros bairros da Capital assim como nas principais cidades do interior”. Porém, a estruturação do carnaval de rua nessa localidade remonta ao ano de 1935 quando a Associação Atlética “5 de Julho” apresentou o primeiro carro alegórico, o que estimulou outras associações a fazerem o mesmo. No ano seguinte, o carnaval de rua foi praticamente oficializado pelos moradores de Vila Esperança. Em 1946, foi introduzida a batalha de confete no domingo antes do carnaval que continuou nos anos seguintes. Ao longo dos anos, foram se incorporando outras associações e clubes. Porém, os festejos de rua desse ano de 1962 tiveram a participação de vários clubes da região, conforme é explicitado na citação abaixo. Aos festejos realizados em Vila Esperança associaram-se outras entidades, entre as quais a Sociedade de Amigos de Vila Matilde, e o Clube Atlético Ipiranga. Os principais carros alegóricos já mencionados, foram apresentados este ano pela Recreativa União Vila Esperança, entidade que há oito anos se esforça para manter a primazia de apresentá-los em maior número. O “Galo de Ouro”, “O Canhão” e “O Castelo” custaram-lhe cerca de 200 mil cruzeiros sem contar a parte de iluminação das ruas na qual despendeu mais 75 mil cruzeiros. A Associação Atlética “5 de Julho” foi muito aplaudida pelo seu “Dragão Chinês”. O Clube Atlético Guarani pela alegoria referente ao feito do cosmonauta Gleen, dos EUA e pela “Caverna da Lua”, apresentando assim o tema mais atual. Coube ao Clube Brasil Desportivo a apresentação da “Carruagem” – outro magnífico carro alegórico (O ESTADO DE S. PAULO, 06 mar. 1962, p. 8).
O jornal O Estado de S. Paulo, (06 mar. 1962, p. 8) atribui o sucesso da iniciativa, tanto do carnaval de rua quanto dos clubes da região, à rivalidade entre essas agremiações que procuram cada uma delas apresentar o melhor carnaval aos seus associados e à população.
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Sintetiza a matéria destacando o nome dos clubes que já se integraram ao carnaval da Vila, de 1962, tais como: a Sociedade Atlética “5 de Julho”, Clube Brasil, Estrela D´Alva Futebol Clube, Escola de Samba da Nenê, Clube Atlético Guarani, recreativo União de Vila Esperança, (o mais antigo, fundado em 1921), Sociedade Amigos de Vila Matilde, Clube Atlético Ipiranga, Clube Atlético Vasco da Gama, Clube Desportivo Triângulo, Centenário Clube, C. E. Heróis, Bloco do Morro, Sociedade Beneficente Recreativa de Vila Esperança. No ano seguinte, em pequena nota, o jornal O Estado de S. Paulo (21 fev. 1963, p. 12) diz que traz informações do gabinete do Prefeito, sobre as atividades carnavalescas, quais sejam: “a Prefeitura não colaborará este ano para a promoção de festas de carnaval. Não promoverá a ornamentação de vias públicas, nem mesmo do Parque Ibirapuera. Este logradouro será à noite franqueado ao público, como ocorrem todos os anos”. Esse foi o prognóstico para os festejos carnavalescos de 1963, que aconteceram de 23 a 26 de fevereiro. Em que pese essa informação, o governador Ademar de Barros recebeu o Rei Momo, entregando as chaves do Estado, disponibilizando um carro oficial para os dias do evento e autorizando passagem aérea pela VASP, para o seu deslocamento para o Rio de Janeiro. O governador informa que criará uma Secretaria de Turismo que cuidará da realização de muitos projetos, deixando nas entrelinhas que os festejos carnavalescos estariam contemplados nessas mudanças. O Rei Momo, em contrapartida, solicita ajuda financeira para o carnaval, alegando que a Prefeitura não se dispôs a investir em sua organização (O ESTADO DE S. PAULO, 22 fev. 1963, p. 9). Essa falta de interesse da Prefeitura em relação aos festejos de Momo, não significa que a Secretaria de Segurança Pública esteja desatenta e não tenha estabelecido as regras para os bailes, desfiles dos blocos e cordões, participação dos menores nesses eventos e, também, o que seria tocado ou não nas diversas atividades ocorridas pela cidade. Nesse sentido, proibiu a veiculação por todos os órgãos da imprensa – rádios, televisão, alto-falantes, casas comerciais ou mesmo gravação – da marchinha, “Último a saber”, de Klecius Caldas e Brasinha, por “se chocar com os bons costumes” (O ESTADO DE S. PAULO, 21 fev. 1963, p. 12). Até os clubes apresentam-se reticentes em relação a esses festejos. Apareceu nos jornais uma pequena lista de divulgação de bailes, diferentemente dos anos anteriores. Ou seja, ofereceram bailes as seguintes agremiações: Clube Atlético Paulistano, Clube Hípico de Santo Amaro, Esporte Clube Pinheiros e Clube Militar de São Paulo (O ESTADO DE S. PAULO, 21 fev. 1963, p. 12)
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No último dia de carnaval, o jornal Correio Paulistano (26 fev. 1963, p.4) fez um balanço do carnaval ocorrido na cidade e chega à conclusão que “agoniza o carnaval de rua e dos clubes paulistanos“, por motivos diferentes. Mas, “em compensação, renasce o carnaval da periferia e dos bairros. É pelo menos o que vem ocorrendo, ano após ano, em Vila Esperança, como nossa reportagem documentou. Desta vez os lojistas da Lapa se cotizaram e promoveram o carnaval da Lapa”. Ao fazer esse mapeamento, o jornal critica a ausência do poder público na organização desses festejos e o responsabiliza pelo fracasso dos festejos de rua e dos clubes. Estes últimos cobram preços exorbitantes dos foliões, afugentando-os desses espaços festivos, além de desconsiderar os baixos salários e o empobrecimento da classe média na conjuntura. Ao mencionar a existência de carnaval na periferia e nos bairros, o Correio Paulistano, embora mencione os festejos de Vila Esperança não registra os tipos de atividades que ocorreriam nesse ano. Porém, a produção especializada destaca o desfile da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, com o tema “Enaltecendo uma raça”, cujo foco é a comunidade negra. Os integrantes, devidamente fantasiados, desfilam pelas ruas do bairro, seguindo a programação previamente estabelecida.
Foto 4 - Desfile de Nenê de Vila Matilde Tema: Enaltecendo uma raça - 1963 Fonte: SIMSON, 2007, p. 328.
No ano seguinte, o quadro de desinteresse por esses festejos não foi revertido. As matérias nos jornais são escassas e dão ênfase aos preparativos dos clubes, já tradicionais nos carnavais da cidade, e às ações da Secretaria de Segurança Pública que emite portaria
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regulamentando os passos dos foliões durante o período pré-carnavalesco e nos dias dedicados aos festejos de Momo que, neste ano de 1964, acontece de 8 a 11 de fevereiro. O jornal O Estado de S. Paulo (01 fev. 1964, p.10), informa que a Secretaria de Segurança Pública emitiu portaria definindo as diretrizes sobre os festejos carnavalescos. Segundo o jornal “foram previstas rigorosas medidas preventivas e repressivas contra aqueles que, aproveitando-se de oportunidades que tais ocasiões oferecem, pretendem praticar atos que possam por em risco a vida humana, a propriedade, ou que venham a desrespeitar os direitos individuais de liberdade”. Essas regras definem a necessidade de solicitação de alvarás endereçados à Divisão de Diversões Públicas para a realização de bailes, préstitos, desfiles de blocos, ranchos e cordões. As medidas estendem-se aos locais de concentração e aos itinerários, que precisam ser devidamente autorizados. Embora os indícios sugeridos pelos anos anteriores indiquem espectro bem maior de oferta de atividades, o jornal O Estado de S. Paulo (06 fev. 1964, p.13) divulgou os bailes que ocorrerão, de 8 a 11 de fevereiro, dias dedicados a Momo, em alguns clubes e associações, a saber: Clube Atlético Paulistano, Esporte Clube Pinheiros, Esporte Clube Sírio, Clube Atlético Ipiranga, Clube dos Oficiais da Força Pública, Circolo Militar de São Paulo, Esporte Clube Banespa Casa de Portugal, S. R. Palmeiras, Royal Clube. A dificuldade maior para a reflexão dessas brincadeiras amplia-se em decorrência da precariedade da cobertura da imprensa, até mesmo em relação aos bailes que continuam ocorrendo nos clubes da cidade. Sabe-se, no entanto, que os foliões de Vila Esperança e seu entorno seguem desenvolvendo suas performances e, novamente, Nenê de Vila Matilde apresenta seu desfile trazendo o tema Paes Leme, o Bandeirante. A escola, além de apresentar-se com muitos componentes, o desfile agrega expectadores, em decorrência não apenas de suas encenações, mas, sobretudo, da bateria (SIMSON, 2007, p. 329) que dá suporte às suas exibições. Note-se que esses festejos dedicados a Momo, praticados em Vila Esperança, alcançam grande notoriedade a ponto de, em 1969, seus carnavais serem relembrados, por Adoniran Barbosa, na música carnavalesca “Vila Esperança”. De 1965 a 1969, já sob a intervenção militar, os rumos dos carnavais na cidade seguem os passos anteriores, para redefinir-se em 1969, ano em que os festejos de Momo ganham novo alento com a criação pela TV Tupi do I Festival de músicas de Carnaval, com a participação de compositores já tradicionais na cidade como Adoniram Barbosa13 (que compôs a marcha-rancho Vila Esperança, em homenagem aos carnavais desse bairro
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paulistano) e, também, o aparecimento de novos compositores. Cabe ressaltar, entretanto, que essas transformações não serão objeto de estudo neste texto, por se tratar de um período que apresenta características próprias para o país, que certamente trazem mudanças aos folguedos de Momo. A leitura da bibliografia especializada e dos memorialistas assinala que, nessa conjuntura, o interesse para institucionalização do carnaval popular cada vez mais se acentua entre as agremiações carnavalescas existentes na cidade. Para isso, alguns dos antigos cordões resolvem transformar-se em escolas de samba, como o Vai Vai e Camisas Verde e Branco. As negociações foram feitas diretamente com o Prefeito da capital. Com isso, garantem o acesso às verbas oficiais e, também, se tornam independentes dos recursos financeiros advindos da iniciativa privada. Nesse momento, segundo Wilson de Moraes (1978), a institucionalização dos cordões e escolas de samba da cidade, significa alteração nas performances, que passam a ser estruturadas de acordo com o modelo carioca. Wilson de Moraes (1978) aponta que as mudanças foram as seguintes: Os balizas foram relegados em favor da Comissão de Frente; o estandarte definitivamente substituído pela bandeira acompanhada por Mestre-Sala e tornou-se obrigatória a presença de “baianas”. O enredo assumiu importância capital, passando a definir toda a montagem do desfile. A expressão “ala” torna-se corrente para designar grupo de componentes representando parte do enredo ou não e a denominação de “bateria” passa a substituir a de “batuque” para o conjunto instrumental. Ficou definitivamente abolida a participação de qualquer instrumento de sopro na parte musical. (MORAES, 1978, p. 72). Assim, vê-se a nova mutação das folganças de Momo na cidade seguindo o modelo, já consagrado, do carnaval carioca – centrado nas escolas de samba. Mas, até 1964, prevalecem atividades de rua nos bairros da Mooca, Vila Esperança e no Parque do Ibirapuera e, os bailes nos clubes espalhados pela cidade.
Considerações finais Os carnavais do início da década de 60, em São Paulo, são apresentados na imprensa como momentos de descanso e de fuga dos possíveis foliões em direção às praias, às cidades do interior e ao Rio de Janeiro. Porém, o balanço que se pode fazer é o desinteresse dos
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foliões em relação às modalidades de outrora, tais como o corso, com os costumeiros desfiles de carros. Já os carnavais de rua de blocos, ranchos e cordões e escolas de samba dependem cada vez mais da organização pública para que os mesmos ocorram, exceto nos bairros cujas agremiações têm enraizamento maior na comunidade, como Vila Esperança, bairro da Zona Lesta da capital, que promove os carnavais de rua e agrega em suas exibições as agremiações de outras localidades. Os bailes em espaços fechados, que sempre agregaram os foliões, também estão vivendo momentos difíceis. Ao exagerarem nos preços dos ingressos, afastaram os pândegos de seus bailes, considerando que a inflação da conjuntura corroía os salários. Porém, a própria imprensa, em particular o jornal O Estado de S. Paulo, apesar da crítica à falta de charme dos folguedos e de seus pândegos nesses festejos, ainda publica o calendário dos locais dos eventos, charges e fotos de cenas de foliões nos bailes de alguns dos clubes da capital, engajados nessas folganças de Momo. Essa fragilidade manifesta-se no desinteresse do jornal Correio Paulistano que, em outras décadas, participara intensamente na divulgação desses folguedos, na cidade (e, portanto, de sua organização), diferentemente dessa década que publica poucas matérias sobre o envolvimento dos paulistanos nesses carnavais. Nesse processo, fica evidente a crise vivida no âmbito dos festejos carnavalescos da cidade, que sinaliza para o esgotamento da proposta de folguedo ancorada nos bailes dos clubes e nas exibições de blocos e cordões carnavalescos e escolas de samba no Parque do Ibirapuera patrocinadas pela Municipalidade e iniciativa privada. A resposta a esse “fracasso” foi apresentada pelos próprios foliões que assumem a responsabilidade de organizar as atividades festivas dedicadas a Momo, garantindo, assim, a sua continuidade e a posterior transformação do perfil desses carnavais na cidade, com a institucionalização desses folguedos no final da década de 60 do século XX, tendo as escolas de samba como sustentáculo. Portanto, na capital paulista a tese defendida por Maria Isaura Pereira de Queiroz (1987; 1992), em suas reflexões, sobre a inversão do modelo de folguedo carnavalesco pautado nas escolas de samba desde a década de 50, não se confirma, considerando-se que outras modalidades de brincadeiras (bailes, desfiles de blocos e cordões) desenvolvidas pelos foliões e pelos clubes e demais agremiações ainda garantem a efetividade de seu acontecer14 no decorrer daquela década e se projeta até o final dos anos 60. Agradeço a Ynayan Lyra Souza que reviu, com competência, as referências do texto que guardam seus segredos e nuances.
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Fontes: CORREIO PAULISTANO, São Paulo, 27 fev. 1960. CORREIO PAULISTANO, São Paulo, 27 fev. 1961. CORREIO PAULISTANO, São Paulo, 26 fev. 1963. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 19 fev. 1960. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 27 fev. 1960. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 28 fev. 1960. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 04 mar. 1960. Caderno SF. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 10 fev. 1961. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 14 fev. 1961. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 17 fev. 1961. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 08 fev. 1962. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 04 mar. 1962. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 06 mar. 1962. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 21 fev. 1963. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 22 fev. 1963. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 01 fev. 1964. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 06 fev. 1964.
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A intenção inicial era discutir os carnavais na cidade de São Paulo até 1969, momento de institucionalização do carnaval na cidade, consagrando as escolas de samba e o modelo carioca na organização dos festejos. Porém, com o golpe de 1964, novos elementos estão presentes na conjuntura, dificultando pensar nesses folguedos que são brincados em período democrático, com regras que facilitam a movimentação dos foliões, diferentemente do período ditatorial. Embora as reflexões neste texto voltem-se aos festejos em si, não é possível desconsiderar as características gerais do país que envolvem essas manifestações. 2 O termo “popular”, embora carregue controvérsias teóricas e historiográficas, nesse texto refere-se ao perfil geral dos festejos carnavalescos, que paulatinamente deixara de ser apenas um carnaval organizado pela elite para o seu deleite, como ocorria até o início de 1930. A partir de então, há contínuo deslocamento do foco das brincadeiras para os segmentos populares e suas modalidades de manifestações como os blocos, cordões e escolas de samba. Mas, isso não significa que as modalidades específicas das elites, (os bailes elegantes, a exemplo do Teatro Municipal e de seus clubes) tenham deixado de existir. 3 Alguns dos estudos referem-se aos carnavais ocorridos de meados do século XIX aos anos 30 do século XX (SIMSON, 1984; BRITTO, 1986; SILVA, 2008) e, posterior, à década de 60 quando as escolas de samba já haviam sido oficializadas, a exemplo da pesquisa de Leila Blass, Desfile na avenida, trabalho na escola de samba. A dupla face do carnaval (2007).
CLIO – REVISTA DE PESQUISA HISTÓRICA – n. 31.1 ISBN 0102-9487
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Simson propõe uma periodização para o estudo dos carnavais da região Sudeste brasileira, seguindo três períodos: primeiro período - da Colônia até meados do século XIX; segundo período - de 1870 a 1930; e terceiro período - de 1930 à atualidade. O livro traz farto material iconográfico explorado em forma de pequenos verbetes. 5 O tom das informações de O Estado de S. Paulo e do Correio Paulistano durante esses anos iniciais da década de 60 é o esvaziamento dessas festividades, o que requer outros aportes sobre o assunto, considerando-se que apenas parte ínfima dos paulistanos sai da cidade. Ver, por exemplo, Correio Paulistano (27 fev. 1960). 6 O chargista Claudius, registrado como Silvius Petrus Claudius Ceccon, nasceu em Garibaldi (RS), em 1937, mudando-se ainda criança para o Rio de Janeiro, onde teve educação artística. Seu primeiro emprego foi como diagramador na revista O Cruzeiro. Em meados da década de 1950, começou a fazer vinhetas para a revista O Cruzeiro e ilustrações para A Cigarra. Informa Joaquim da Fonseca que, em 1957, Claudius era o cartunista geral, depois cartunista político no diário Jornal do Brasil, posição que ocupou de 1961 até 1965. Nesse ano, tornou-se cartunista geral da revista Manchete. Claudius colaborou também com os seus cartuns com os seguintes periódicos: Diário Carioca, Revista da Semana, Mundo Ilustrado, Senhor, Fairplay e Correio da Manhã. Sobre o assunto, consultar: (FONSECA, 1999). Seus cartuns também foram publicados, na década de 1960, no jornal O Estado de S. Paulo (19 fev. 1960, p. 1; 04 mar. 1960, p. 1). Nesses cartuns utiliza-se da linha e do traço para refletir sobre o tema em pauta, embora também faça uso, em seus desenhos, de signos plásticos complexos como massa, volume, etc. 7 O corso, embora seja programado, por exigência de Lei Municipal, ainda nessa década de 60 (O ESTADO DE S. PAULO. Medidas da D.S.T. durante o carnaval. 18 fev. 1960, p. 16), a modalidade evidencia franco desuso, situação detectada desde 1940. Na conjuntura dos anos 40, a justificativa volta-se para o racionamento de combustível (e sua consequente proibição de uso individual, ou durante o carnaval) em decorrência da guerra. Mas, os foliões de elite, brincantes originários desses folguedos, haviam perdido o “interesse” por essa modalidade de brincadeira por ver submergida sua exclusividade, com a autorização dos caminhões (enfeitados naturalmente) nos desfiles de rua (SILVA, 2008). 8 Os carnavais de Vila Esperança foram imortalizados na década de 1970 na letra de uma marcha, por Adoniran Barbosa que relembra os bailes carnavalescos de sua juventude onde encontrou Colombina, seu primeiro amor de criança. 9 Cf. O ESTADO DE S. PAULO, 27 fev. 1960, p. 10. 10 Cf. O ESTADO DE S. PAULO, 04 mar. 1960, p. 8. Também esteve presente nesse carnaval carioca o ator alemão Curd Jurgens, sucesso em Hollywood. 11 A charge está assinada, mas não foi possível, nas pesquisas realizadas, obter-se a identificação do autor que publica outras contribuições nesse jornal. 12 O regime republicano pressupõe a extensão de direitos iguais aos seus cidadãos, o que certamente não era o caso brasileiro (nem mesmo no período enfocado), situação fartamente discutida pela historiografia desde a origem da República, em particular por José Murilo de CARVALHO (2000). Mas, nos jornais citados embora sejam empresas privadas, fica subjacente em seus discursos preocupações em mapear os eventos da cidade sem distinção dos grupos específicos, o que somente ocorrem se estiverem no circuito dos carnavais oficiais da capital ou sob o patrocínio de alguma empresa de comunicação. 13 Vila Esperança foi composta, no final da década de 60, por Adoniran e Marcos César. A marcha-rancho, em tributo ao bairro da Zona Leste paulista, historicamente famoso por seu carnaval de rua, foi parte integrante da era dos festivais de São Paulo. <http://letras.mus.br/adoniran-barbosa/43971/>. Vila Esperança ficou em 2º lugar e somente foi gravada em 1975. Acesso em: 04/05/2013. 14 Vale lembrar que a autora periodiza os carnavais brasileiros em três momentos: do período colonial a 1850 prevalece o Entrudo, também organizado e brincado pelas elites; de 1850 a 1950 o predomínio é do carnaval burguês (de luxo), das elites. É também qualificado pela autora de o Grande Carnaval (que desde o início da República convive com o Pequeno Carnaval que se projeta a partir de 1930); o momento de inversão dessa tendência, nessa perspectiva, é a década de 1950, que consagra o predomínio das escolas de samba que passam a ser o seu sustentáculo (QUEIROZ, 1987). Essa periodização (e tese) é defendida em outros textos pela autora (QUEIROZ, 1992).