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O processo de modernização numa escola de samba de Porto Alegre: o Império da Zona Norte e o Carnava

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA

O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO NUMA ESCOLA DE SAMBA DE PORTO ALEGRE: o Império da Zona Norte e o Carnaval de 2009

Autor: Ulisses Corrêa Duarte

Porto Alegre, julho de 2009


2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA

O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO NUMA ESCOLA DE SAMBA DE PORTO ALEGRE: o Império da Zona Norte e o Carnaval de 2009

Autor: Ulisses Corrêa Duarte

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao departamento de antropologia social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito para obtenção do título de bacharel em ciências sociais. Orientador: Prof. Dr. Ruben Oliven

Porto Alegre, julho de 2009


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Trabalho dedicado em homenagem à minha avó Malvina,e em memória de meus queridos avós: Edy, Anelise e José.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO......................................................................................................... 7 CAPÍTULO 1 - A QUADRA DO IMPÉRIO DA ZONA NORTE: A dinâmica da relação sócio-política na sede da escola de samba...............................................17 1.1. A estrutura organizacional do Império da Zona Norte.....................18 1.2. A quadra como espaço social.........................................................20 1.3. A organização sócio-política da quadra.......................................... 22 1.3.1. O presidente, a diretoria e os conselheiros..................................23 1.3.2. A bateria e a harmonia musical....................................................25 1.3.3. O grupo show...............................................................................27 1.3.4. As alas..........................................................................................30 1.3.5. Os ensaios....................................................................................32 1.4. A quadra da escola no ciclo carnavalesco......................................36 CAPÍTULO 2 – O BARRACÃO DO IMPÉRIO DA ZONA NORTE: o processo de modernização do carnaval no complexo cultural Porto Seco.................................39 2.1. Os barracões no Porto Seco: “um divisor de águas?”....................39 2.2. O Porto Seco e a modernização do carnaval................................ 41 2.3. Dentro do barracão do Império: a construção visual para o carnaval 2009....................................................................................................... 47 CAPÍTULO 3 – O DESFILE DO IMPÉRIO DA ZONA NORTE: Como uma escola de samba se organiza em busca do título de campeã do carnaval....................... 57 3.1. Em Busca do Bicampeonato: os preparativos para o desfile do Império da Zona Norte........................................................................... 57 3.2. O desfile vice-campeão do Império no carnaval de 2009............... 63 3.3. O Império da Zona Norte e a associação na modernização do carnaval..................................................................................................71


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CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 81 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................84 ANEXO 1: Letra do samba enredo do Império da Zona Norte do carnaval de 2009 ANEXO 2: Panfleto explicativo do projeto “Império Máximo” (frente) ANEXO 3: Panfleto explicativo do projeto “Império Máximo” (verso) ANEXO 4: “Este Carnaval vai Bombar”. Matéria de Luiz Armando Vaz, publicado no Samblog (blog do grupo RBS especializado em notícias do carnaval gaúcho).


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RESUMO Este estudo antropológico pretende investigar o processo de modernização dos desfiles de carnaval da cidade de Porto Alegre. A etnografia foi realizada durante um ciclo carnavalesco junto à escola de samba Império da Zona Norte, considerada líder nos esforços de organização administrativa e qualificação visual dos desfiles. As medidas tomadas pela entidade em busca dos valores modernos, conjuntamente às ações adotadas com o mesmo objetivo pela associação das escolas de samba, organizadora do evento, serão analisadas para a compreensão das transformações no formato do desfile e na dinâmica social do grupo estudado. Palavras-chave: carnaval de Porto Alegre; escola de samba; modernização.

ABSTRACT This anthropological study investigates the modernization process of carnival parades in the city of Porto Alegre. The ethnography was conducted with the ‘Império da Zona Norte’ samba school, which is considered the leader in terms of administrative organization and visual presentation in these parades, during a carnival cycle. The ways in which this organization has searched for modern values as well as similar actions taken by the association of samba schools, which is the organizer of this event, will be analyzed in order to understand the transformations within the format of this parade and the social dynamics present within this particular group. Keywords: Porto Alegre’s Carnival, samba school, modernization.


7 INTRODUÇÃO Nos últimos anos, a escola de samba Império da Zona Norte acumulou ótimos resultados nos concursos carnavalescos da cidade de Porto Alegre. Depois de quinze anos desfilando nas divisões menores do carnaval da cidade (entre 1990 a 2005)1, a escola venceu os grupos de acesso, grupos B e A respectivamente em 2004 e 2005, e voltou ao primeiro grupo das escolas (grupo especial). Nos carnavais recentes desfilando no grupo especial, o Império colecionou três vice-campeonatos (2006, 2007 e 2009) e um título de campeão do carnaval em 2008. A escola que era considerada “uma grande”2 do carnaval, desde sua fundação em 1975, até meados da década de 80, quando conquistou o título de campeã de 1982, parece que voltou ao convívio das maiores, e pode ser considerada uma das mais reconhecidas da cidade se tratando de estrutura e resultados. Antes das minhas primeiras incursões na sede desta escola de samba, minha intimidade com o mundo carnavalesco era limitada a jornais, televisão e uma profunda paixão pelo tema, o que me levava a acompanhar a festa de fora dela. Em meados da década de noventa, por muitas vezes assistia (e gravava em fitas vhs) assiduamente os desfiles de carnaval da cidade pela tela da tevê, e acompanhava com cuidado os bastidores das escolas. Observava também a repercussão que o dia do desfile causava nos meios de comunicação e na população da cidade, e tinha interesse por informações sobre as escolas de samba, os sambas enredos, o resultado final. Tudo isso me despertava uma grande curiosidade sobre “o fazer carnaval”. Nutria este mesmo misto de saber e paixão pelas famosas escolas cariocas, e a comparação entre estes dois carnavais era, e ainda é, inevitável. O que me fazia torcer ainda mais pelo sucesso 1

- Exceto em 1996 quando desfilou no grupo especial, e ficando em último lugar, voltou para o acesso A. Os resultados do Império desde sua fundação podem ser vistos em: http://pt.wikipedia.org/wiki/SBCC_Imp%C3%A9rio_da_Zona_Norte 2 - Entendo como “uma grande” ou as “maiores” escolas de samba de carnaval de Porto Alegre, aquelas que na sua história construíram um patrimônio cultural destacado na cidade. É comum entre elas: grandes quadras, grande contingente de pessoas envolvidas, bons resultados ou conquista de títulos do carnaval no primeiro grupo das escolas, grandes desfiles memoráveis, personagens ilustres reconhecidos no mundo do samba na cidade etc.


8 do carnaval de Porto Alegre, já sabendo de antemão que nosso carnaval era realizado com muita dificuldade, e que sua relevância no cenário cultural da cidade era bastante polêmica e despertava tão pouco prestígio por muitas camadas sociais da cidade, notadamente entre as classes médias de meu convívio mais direto. Isto me provocava diversas inquietações sobre para quem e aonde o futuro de nosso carnaval seria reservado. Mesmo nunca tendo pisado na passarela, e em nenhuma quadra de escola de samba porto alegrense até então, tinha muitas informações sobre a história das escolas, suas trajetórias, suas características e seus resultados. Com esta bagagem de informações e a investigação pertinente do carnaval da cidade, notava que o carnaval de Porto Alegre desenvolvido após os anos 2000 não era mais o mesmo. Comparando os desfiles do passado com os atuais era nítida a transformação que estava se passando nas escolas, desde a mudança de local dos desfiles, e o recente debate sobre a “evolução” da festa nos meios de comunicação. Entre os jornalistas que cobriam o carnaval local nas rádios, tevês e na imprensa, e na minha navegação virtual em blogs e ferramentas importantes na minha pesquisa inicial sobre o tema - como no site de relacionamento tão utilizado no Brasil, o orkut - observava que era desenvolvido um novo olhar sobre o carnaval de Porto Alegre, o que me facilitou o raciocínio sobre as escolas de samba. Colhi diversas impressões e depoimentos sobre os novos temas em debate, e eles me possibilitaram estabelecer as primeiras perguntas que desenvolvi no início deste trabalho: Está em curso um novo caminho para as escolas de samba de Porto Alegre? O carnaval da cidade está ingressando num novo formato para as entidades carnavalescas que podemos chamar de carnaval moderno ou carnaval espetáculo? A relação do carnaval com a cidade está se modificando com a inserção de novos atores, e com isto, um novo olhar sobre a festa? Ao buscar o Império da Zona Norte como a escola que seria meu campo de estudo, medi todas as indagações descritas acima, e compreendi que dentre as escolas da cidade, era ela quem parecia indicar o caso de maior sucesso no carnaval que estava se desenhando. Chamo de processo de modernização do


9 carnaval, as medidas e iniciativas adotadas pela escola e a associação das entidades carnavalescas de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul (AECPARS), visando “um maior e melhor desenvolvimento” da festa que descreverei ao longo do trabalho, sendo este meu objetivo primordial. Minha crença inicial nesta hipótese se baseava no senso comum no mundo carnavalesco3 que dava o Império como a escola “mais moderna” e “mais organizada”, justificada na qualidade e nos resultados dos desfiles recentes. O Império se transformou no caso exemplar a ser seguido no carnaval de Porto Alegre no entendimento dos meus informantes. O desenvolvimento da pesquisa de campo se desenrolou do dia 20 de março de 2008, minha primeira incursão na quadra da escola, que coincidiu com jantar de comemoração do aniversário de trinta e três anos do Império; e finalizouse no dia 20 de março de 2009, no aniversário de trinta e quatro anos. Desta forma, consegui completar exatamente um ano de pesquisa de campo, que correspondeu a minha intenção de estar presente na maior parte dos ensaios na quadra da escola, nos trabalhos de barracão de maio a fevereiro, e dos principais eventos do calendário anual das escolas de samba no decorrer de um ciclo carnavalesco (Leopoldi,1978). Meus primeiros contatos com o Império da Zona Norte foram através de seu diretor de carnaval Walmir Oliveira por e-mail, e dele partiu o primeiro convite de visita à quadra da escola. Logo no meu primeiro contato com a quadra conheci Jorge Péres, secretário da entidade e posterior diretor de patrimônio. Logo de início, Jorge se mostrou muito curioso e interessado no desenvolvimento do meu trabalho, tendo, por diversas vezes, me indicado caminhos e dado novas sugestões. Jorge foi um interlocutor importante de muitas conversas, e de apresentações para outros indivíduos da escola, em todos ensaios de terça à noite 3

- O “mundo carnavalesco” pode ser explicado nos termos de Silva (1993), que nos demonstra que o termo “carnavalesco” é entendido na cidade do Rio de Janeiro como o profissional responsável pelo desenvolvimento do enredo no pólo visual. Em Porto Alegre, este mesmo termo também tem outro desdobramento: o carnavalesco pode significar todo indivíduo envolvido com o carnaval da cidade, em qualquer nível de inserção, desde dirigentes a integrantes das alas no desfile de carnaval. Utilizei o termo ‘mundo carnavalesco’ neste sentido, o universo de pessoas que participam direta ou indiretamente do carnaval em Porto Alegre.


10 que participei como observador na quadra. O contato com Jorge era extremamente importante porque pouco tinha acesso a conversas mais aprofundadas com os dirigentes e componentes do show da escola, que estavam quase todo tempo em atividade, tornando assim estes contatos esparsos e diluídos durante meu período de pesquisa. Além disso, tomei bastante cuidado para não interferir no andamento das atividades da escola e tornar o trabalho do pesquisador um “incômodo”. Por isto, nas raras oportunidades de abertura dos dirigentes e componentes do Império, preferi optar por uma conversa informal, e estabelecer uma relação de confiança lenta e duradoura, para mais tarde buscar as informações de importância fundamental para a pesquisa. Jorge Péres foi uma exceção à tímida postura adotada, e posso relacionar a maior abertura que tive com ele por duas razões: a primeira é que ele era formado em administração de empresas e dava aulas em cursos técnicos. Assim, ele tinha um razoável entendimento sobre o método antropológico e as disciplinas universitárias, e achava de grande valia para a escola a realização da pesquisa, fato que não parecia de grande interesse para alguns dirigentes. A segunda razão era de que Jorge estava entre a minoria de dirigentes brancos, e com isto, ao longo da pesquisa, senti que simpatizava comigo por esta razão, já que era considerado por todos como pertencente ao mesmo segmento étnico. Apesar do meu trabalho não abordar a instituição com o olhar voltado às questões étnicas na estrutura da escola, como outros pesquisadores fizeram (Silva,1993; Rodrigues,1984), não poderia deixar de considerar importante à condição de que as escolas de samba da cidade estão diretamente relacionadas à história da cultura negra e de seus territórios em Porto Alegre. É de se ressaltar que na escola de samba estudada, para um pesquisador mais atento, a relevância dos conflitos étnicos era sutil, e por vezes se refletia no discurso dos grupos que se indicavam como brancos e negros, variavelmente considerados pelo substantivo. A presença de brancos na escola parece estar ligada a sua fundação, do departamento de carnaval do tradicional clube fundado em 1915 por descendentes de italianos e portugueses Gondoleiros, situado num bairro próximo à quadra do Império. Um dos personagens históricos do carnaval da cidade e da


11 escola, por ser um dos mais velhos componentes da bateria, “Xuxa”4, declarou que no início da sua trajetória o Império era conhecido no carnaval por ser uma “escola de brancos”, inclusive contando com eles na maioria da bateria. Naquela época, a entidade era também considerada a “escola do luxo”, adjetivo que até hoje é referido, ao se falar dos últimos desfiles da escola. Nota-se atualmente um bom número de brancos em todas atividades, apesar de ser nitidamente minoritária (não mais que um quinto), e não só ocupando cargos de conselho e direção, mas também no grupo show, nas atividades ligadas ao desempenho do samba. Não desenvolvi um olhar mais apurado sobre isto, por estar mais empenhado em focalizar outras questões, mas admito que valeria um novo e interessante estudo. A pesquisa no barracão do Império, localizado no Porto Seco, teve como grande colaborador um dos carnavalescos5 da escola, Estevão Rodrigues. Conheci Estevão por intermédio de Jorge numa das eliminatórias de samba enredo na quadra da escola. Desde o início, Estevão se mostrou muito disposto a responder todas minhas perguntas, além de reservar algumas horas nos seus intervalos para me guiar no interior do barracão, e me mostrar como funcionava todo o processo de construção visual da escola. Realizei quinze visitas ao total, obedecendo

ao

critério

de

realizar

pelo

menos

duas

por

mês,

no

acompanhamento de todo ciclo de trabalho desde o início da montagem dos carros alegóricos. No barracão, em comparação com a quadra, obtive maior profundidade na relação com os trabalhadores na medida em que tinha uma boa liberdade de trânsito, e também pude acompanhá-los nas conversas informais nos horários de intervalo, principalmente nos almoços. O barracão é um espaço restringido ao público, e apesar de limitado ao trabalho, seus funcionários estão mais acessíveis ao diálogo. Ao mesmo tempo em que eles não estão ligados a cargos e disputas 4

- O apelido, utilizado largamente por todos ao se dirigir a ele (nunca vi o chamarem pelo nome próprio), ressalta sua identidade étnica, homônimo a famosa apresentadora loira de programas infantis. 5 - Aqui, o termo carnavalesco se refere ao indivíduo, ou uma comissão de indivíduos como no caso da escola, responsável pela elaboração e desenvolvimento dos elementos plásticos do desfile.


12 políticas da escola, nem aos assuntos considerados de maior sigilo como finanças e patrocínios. Desta forma, se torna mais fácil o estabelecimento de uma confiança mútua entre o pesquisador e o pesquisado. No barracão do Império pude realizar duas entrevistas semi-estruturadas com Estevão e um importante serralheiro do barracão, além de conversas informais com a maior parte dos trabalhadores. Recebi a permissão de registrar fotos e vídeos com uma câmera fotográfica. Realizei baterias de fotos no barracão, e esporadicamente nos ensaios e eventos mais importantes que estive com a escola. A obtenção destes registros me serviu de argumento para negociação inicial de acesso a certos eventos e aos bastidores da preparação dos shows ou locais restringidos ao público, tanto no âmbito da escola, como no credenciamento dos eventos realizados por terceiros. Diferentemente de Guterres (1996), tive poucas requisições de pedidos de fotografias ou a realização de fotos que me suscitassem problemas pessoais ao captar pessoas ou situações indevidas. Conscientemente, optei por não corresponder às expectativas de informantes que me designassem como trabalho “profissional” a realização de documentação fotográfica. Procurei manter-me no papel de fotógrafo de ocasião, e sempre que necessário, ressaltava que a fotografia era somente minha fonte secundária. Por sorte, a escola contratava um fotógrafo nos eventos principais, além de existir uma equipe realizando um documentário sobre a escola. Assim que terminado o período carnavalesco, prometi a entrega de todo material fotográfico à escola, ou conforme os pedidos individuais por materiais que chegavam. Resguardei meu papel de “pesquisador” de somente realizar registros fotográficos de acordo com meu interesse de pesquisa. No processo de coleta de dados registrei as idas a campo em diários que variavam de cinco a dez páginas, num total de mais de trinta realizados. Em vinte quatro oportunidades fiz registros fotográficos entre visitas ao barracão, quadra e nos demais eventos. Utilizei com regularidade quase que diária os recursos de pesquisa de blogs e sites na Internet onde acompanhava notícias e debates virtuais sobre o carnaval. Além dos ensaios da quadra, do barracão e os eventos


13 pré-carnavalescos que foram observados, estive no baile de entrega do estandarte de ouro do carnaval de 2008 em abril; nas três eliminatórias de samba enredo da escola em junho e julho; no “baile do conselho” no mês de agosto, onde aconteceu a primeira apresentação do grupo show e dos protótipos das fantasias das alas; e no churrasco de final de ano em dezembro. Minha presença recorrente na vida da escola me fez estabelecer um melhor contato e um maior reconhecimento a cada dia que estava entre componentes do Império. Minha ausência era sentida nos poucos eventos que não participei, principalmente para meus dois informanteschaves da pesquisa, Estevão e Jorge, que me cobravam a participação, até com ligações telefônicas de aviso antecedente aos eventos. Recorri à literatura clássica sobre o tema, e devo salientar a importância do estudo do carnaval como ritual de inversão realizado por Damatta (1997). A festa é entendida como um reflexo complexo da sociedade brasileira, dicotomizada no dilema entre o tradicional e o moderno. Acompanho o raciocínio do autor ao refletir sobre a modernização: a predominância das idéias e ações pautadas no universal, no indivíduo, e na igualdade de condições. No carnaval, isto se expressaria no enrijecimento das regras e no controle do tempo; no acirramento da competição e na crença de que vence o melhor, mais belo e mais caro; no esforço de organizar a escola numa empresa lucrativa (em títulos, prestígio e acúmulo financeiro), entre outros sintomas menos visíveis. Pereira de Queiroz (1999) desenvolve um estudo das transformações do formato do carnaval em relação direta com o contexto sócio-histórico da cidade. A autora detalha a organização da festa nas suas instituições principais, como as escolas de samba, e demonstra como elas evoluíram no tempo e na relação com as classes sociais. A relação direta das formas de brincar a festa com fatores sociológicos presentes na configuração da cidade, nos serve como importante base para pensar a modernização. A peculiaridade deste processo na cidade, apreendido na análise do esforço das entidades para o desenvolvimento deste modelo, se contrasta com a não inclusão de uma parcela significativa da população porto alegrense mais abastada, nos levando a considerar o caso de Porto Alegre como especial.


14 Constitui-se como base para os capítulos que se seguem, o estudo de Cavalcanti (1994) sobre o desenvolvimento no interior das escolas de samba da relação dos dois pólos sócio-geográficos que se complementam, o do samba e o do visual, e sua tensão instável de acordo com as mudanças históricas do desfile. A primazia do visual, com a maior relevância dos elementos plásticos das escolas de samba (alegorias e fantasias), e a centralidade da figura do carnavalesco, responsável por este aspecto, se encontram na história dos desfiles com a transição do formato para o carnaval espetáculo. Neste formato de carnaval, os valores da modernização, mercantilização e profissionalização dos desfiles se tornam hegemônicos. A modernização das escolas de samba no caso de Porto Alegre é o que pretendo desenvolver. Para Cavalcanti, a modernização de uma escola é fruto da racionalização da administração de recursos financeiros e humanos, através da mercantilização dos serviços que a escola presta e a profissionalização dos dirigentes das escolas e dos trabalhadores da quadra e do barracão, desde o intérprete da escola até o aderecista de alegorias. Comparo a transformação encontrada no carnaval carioca com os novos e iniciais elementos que estão sendo colocados no carnaval de Porto Alegre, que atestam a idéia de um processo de modernização do carnaval da cidade, de certa forma comparável ao ocorrido no Rio de Janeiro. A preocupação dos atores sociais empenhados em promover

um

espetáculo

carnavalesco

mais

competitivo,

planejado,

profissionalizado e arrojado visualmente por aqui serão mais tarde detalhados. Dois autores que realizaram estudos mais antigos, mas não menos importantes, devem ser registrados como de importância fundamental para o presente trabalho. Goldwasser (1975) nos propõe a compreensão de como se sucedeu nas escolas de samba cariocas a mediação de grupos sociais provenientes das classes médias, que ao passarem a freqüentar o espaço da escola, conseqüentemente, mudaram o caráter da instituição. A partir desta dinâmica

da

relação

entre

classes,

seu

estudo

discute

os

aspectos

organizacionais e administrativos dentro da entidade, e de que forma seu desenvolvimento ao longo das décadas que se passaram, resultaram em transformações na criação, desenvolvimento e execução dos desfiles de carnaval,


15 cada vez mais protagonizados pelas classes médias. Leopoldi (1978) nos remete à organização interna das escolas de samba. O autor nos possibilita perceber a divisão dos componentes da escola em dois níveis, o carnavalesco e o administrativo, cada

qual

desempenhando

atividades

à parte. No ciclo

carnavalesco de uma escola de samba se observa a maior e menor ênfase no trabalho de cada um destes níveis de acordo com o passar dos meses, sendo o ponto inicial, o desfile de carnaval. A estrutura política da escola e de seus cargos e hierarquias também são fundamentais para se pensar sua dinâmica organizacional, e principalmente, também no caso do Império, da quase completa autoridade de seu presidente, tanto nos assuntos da política da escola, quanto no controle de quase todas as ações voltadas ao carnaval. Importante ressaltar que identifico todos os atores que tive contato em campo, exceto os que exerceram atividades exclusivamente no âmbito profissional, como imperianos. Imperiano é a categoria social que utilizo ao me referir aos indivíduos que compartilham a identidade de pertencimento aos valores da escola, na constituição da dinâmica social dela, estando colocado em qualquer nível de importância, seja como: trabalhador de barracão remunerado, mas componente da “escola de coração”; parte do conselho ou direção; ou apenas torcedor e freqüentador da quadra nos dias de ensaio. A escola de samba Império da Zona Norte no discurso êmico de seus integrantes não é considerada uma escola de comunidade. Acompanho o raciocínio de Guterres (1996: 12) que considera que o conceito de comunidade acompanha a idéia de “um grupo que mantém relações sociais específicas, uma forma de sociabilidade singular, afastando qualquer tipo de pré-existência que lhe desse unicidade conceitual”. Assim, comunidade pode ser uma autodenominação de um grupo de identidade, e não necessariamente limita-se a um recorte de religião, família, vizinhança etc. Mas no entendimento dos meus informantes, a categoria “escola de comunidade” está atrelado ao pertencimento direto a algum local específico, notadamente bairro, que pode ser levado inclusive no nome da entidade como no caso da Restinga ou Leopoldina. Os imperianos não estão diretamente relacionados a um bairro em especial, mas sim, espalhados em bairros e até nas cidades da região


16 metropolitana, o que dá uma característica especial à escola, idéia desenvolvida no último capítulo. O trabalho se divide em três capítulos. A proposta do capítulo 1 é realizar uma descrição sobre a quadra, o centro produtor das relações sócio-políticas das escolas de samba, baseada no desenvolvimento do seu elemento básico: o samba. O texto propõe a reflexão sobre como se dão as relações sociais e se aglutinam os indivíduos e seus papéis dentro do ambiente sede da instituição, para a conquista do sucesso no concurso carnavalesco. O ciclo carnavalesco será abordado ao identificarmos as diferentes fases que caracterizam o tempo e a dinâmica social engendrada na preparação do carnaval 2009, na sede da escola de samba que era a então campeã do carnaval. No capítulo 2 é proposto o estudo sobre o centro produtor dos elementos visuais construídos pelas escolas de samba para a realização de seus desfiles de carnaval: o barracão.

O texto discute a necessidade e as conseqüências da

construção de um novo complexo cultural destinado ao crescimento do carnaval, o Porto Seco.

As transformações ocorridas no carnaval porto alegrense com a

inauguração deste novo equipamento cultural no ano de 2004, assim como o impacto desta implementação na estrutura interna das escolas de sambas da cidade, mais especificadamente da escola estudada, serão abordados. O capítulo final, de número 3, realiza uma análise sobre a escola de samba na sua organização básica, e de seus bastidores, para o evento de maior importância do seu ciclo carnavalesco: o desfile de carnaval. Pretendo demonstrar como ela se estrutura até esta data, e, especialmente, como os imperianos se preparam para o desfile em seus domínios da quadra e do barracão. A importância desta escola no esforço de transição dos desfiles da cidade para outro “patamar” de carnaval, e suas ações adotadas para modernização da instituição; assim como as novas medidas colocadas em prática pela associação das escolas de samba em busca da melhoria dos desfiles, são preocupações centrais do texto. Por fim, uma sucinta conclusão onde discutirei os resultados da pesquisa, e de que forma ela colabora no debate ainda em andamento sobre os novos rumos do carnaval da cidade, e os pontos que entendo que ainda podem ser explorados.


17

Capítulo 1 A QUADRA DO IMPÉRIO DA ZONA NORTE: A dinâmica da organização sócio-política na sede da escola de samba

O ciclo de construção do carnaval de 2009 foi acompanhado em sua totalidade, nos dois pólos sócio-espaciais centrais que complementam uma escola de samba: a quadra e o barracão. Desenvolvo neste capítulo, com base na etnografia realizada, a análise da estrutura organizacional da quadra6 do Império da Zona Norte em seu ciclo carnavalesco. A escola é considerada a melhor preparada para os novos tempos dos desfiles da cidade, desde a inauguração do complexo cultural Porto Seco7. Estrutura física que possibilitou o esforço do desenvolvimento, em Porto Alegre, do modelo de carnaval conhecido como ‘carnaval espetáculo’8. Pretendo demonstrar como se arregimentam os principais grupos dentro da escola: desde o presidente, a diretoria, os membros do grupo show, da bateria e os freqüentadores dos eventos realizados na quadra, no período anterior ao 6

- ‘Quadra’ é o substantivo que nomeia o conjunto de todos espaços privados às sedes das escolas de samba. 7 - O complexo cultural Porto Seco foi inaugurado em 2004, e neste mesmo ano, os desfiles de carnaval foram transferidos para esta nova estrutura que comportava uma pista de desfile de 450 metros, arquibancadas provisórias para cerca de 15 mil pessoas, área para estacionamento de veículos, e 15 barracões amplos e com uma boa infra-estrutura para construção das alegorias - só entregues na sua totalidade no ano de 2006. Ainda está previsto a construção das arquibancadas fixas no complexo que devem comportar segundo o projeto inicial, cerca de 35 mil pessoas, além de posto de saúde, Brigada Militar, e escola pública para o atendimento dos bairros situados ao redor da área do complexo. Para maiores detalhes e para visualizar o mapa do complexo http://www2.portoalegre.rs.gov.br/carnaval/default.php?p_secao=3 8

- Segundo Valença (1996), o ‘carnaval espetáculo’ é o desfile voltado à produção de valor comercial. A apresentação visual da escola (fantasias e alegorias em suma) é mais importante do que o samba no pé, por isto o carnavalesco (responsável pelo projeto e execução dos elementos visuais) se torna mais imprescindível do que o sambista. Os espectadores são agora os turistas; as celebridades aparecem e substituem os componentes comuns; os ingressos nas quadras e no sambódromo encarecem; as escolas de samba contratam um grande contingente de prestadores de serviços; a imprensa cada vez mais se interessa pelo evento; assim como o apoio e patrocínio de empresas.


18 desfile de carnaval. Grupos estes que, com o avanço no tempo carnavalesco e a sucessão de novos eventos, desempenham diferentes papéis de importância dentro da organização. 1.1. A estrutura organizacional do Império da Zona Norte A estrutura organizacional da escola de samba Império da Zona Norte, assim como das demais escolas porto alegrenses envolvidas nos desfiles de carnaval, pode ser definida por duas bases geográficas distintas que distinguem dois pólos de produção, demonstradas por Cavalcanti (1994): a quadra da escola (domínio do pólo do samba) e o barracão (domínio do pólo do visual). Enquanto o primeiro domínio monopoliza as relações sociais produtoras de expressões corporais como o canto, a dança, a música; no segundo domínio se tem o monopólio da produção das alegorias e adereços, fantasias e elementos visuais do desfile. Nestes dois centros localizados em locais diferentes, cada escola de samba desenvolve seu desfile de carnaval, atendendo às regras de julgamento do concurso. No Porto Seco, todos os barracões das escolas do grupo especial e do acesso estão concentrados em quinze barracões no mesmo local9. O carnaval de Porto Alegre, atualmente, apresenta quatorze escolas de samba no grupo especial que são julgadas em oito quesitos: enredo, bateria, harmonia musical, samba enredo, alegorias e adereços, fantasias, evolução e mestre sala e porta bandeira. O quesito fundamental de uma escola de samba, aquele que define a história a ser encenada através da música, da dança e da linguagem plástica é o enredo. Três quesitos são exclusivamente musicais: bateria, harmonia musical e samba enredo. Outros dois quesitos são exclusivamente plásticos, julgados exclusivamente pelo olhar: alegorias e adereços e fantasia. O quesito mestre-sala e porta bandeira articula a plasticidade do visual e a dança; e o quesito evolução avalia no plano da visualidade o

- O critério utilizado para divisão dos barracões é: as escolas do grupo especial com piores classificações no carnaval anterior dividem o espaço do barracão com as sete escolas do grupo de acesso, no ciclo carnavalesco subseqüente. 9


19 movimento progressivo da dança das alas, a coesão entre elas e a sua performance em sincronia com a música. Assim, podemos sistematizar os dois eixos de categorias que definem a dualidade de uma escola de samba, já explicitados acima: o samba e o visual. Lembramos que para o ano de 2009, o Império definiu em meados do mês de março como tema de enredo – portanto com quase um ano de antecedência – uma homenagem à empresa pública dos Correios, com o título “Até Caminha já sabia, mandou chegou. Correios, confiança e credibilidade”. O tema enredo possui uma pesquisa produzida por quem o assina, chamado de temista. Seu trabalho resulta numa sinopse de algumas folhas, que serve para orientação dos compositores em competição na escolha de um samba enredo para a escola. Vale também destacar, que as escolas de samba procuram enredos submetidos a eventuais patrocinadores, sejam empresas públicas, privadas ou até mesmo pessoas físicas. Por isto, os enredos também são definidos pela diretoria, de acordo com a possibilidade de trazer uma verba adicional para a escola, mesmo que na maioria das vezes, esta não venha conforme o esperado, como foi o caso do Império no carnaval de 2009. A partir da sinopse do enredo a escola de samba contrata um profissional especializado na elaboração, desenvolvimento e acabamento das peças visuais do desfile. O responsável por este processo é o “carnavalesco”, ou então uma “comissão de carnaval”, composta por um conjunto de profissionais da escola responsáveis pela criação do seu projeto visual. O Império da Zona Norte, no início do ciclo do carnaval de 2009, sondou a contratação do carnavalesco Renato Lage, consagrado no carnaval carioca (campeão do carnaval carioca de 2009 com a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro). Por fim, por desacerto financeiro, a escola de samba acabou contratando o carnavalesco Luiz Fernando Reis10, proveniente do Rio de Janeiro, que fez parte de uma comissão de carnaval com mais três nomes: Estevão Rodrigues, Sérgio Ávila e Gugu Lacerda.

- O carnavalesco ficou conhecido nos anos 80 ao assinar enredos da escola de samba Caprichosos de Pilares. Também produziu enredos da Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro, Unidos da Tijuca e União da Ilha, dentre outras escolas menos conhecidas. 10


20 1.2. A quadra como espaço social A quadra de uma escola de samba é o espaço onde se realiza a maior parte dos eventos culturais da instituição, além de situar o domínio geográfico que organiza os grupos sociais que participam de sua formação, e do que há de mais fundamental na cultura carnavalesca: o samba. Cavalcanti (1994) compreende que uma escola de samba estrutura-se a partir de uma dualidade básica, resultado de uma evolução histórica e sociológica destas entidades: a tensão visual versus samba. No pólo visual compreende-se todo trabalho de apresentação plástica da escola, que veremos no próximo capítulo. No pólo do samba, valoriza-se particularmente o gingado da dança, o bom samba segundo critérios do grupo, a dança dos passistas, os compositores. Seu local de pertencimento é a quadra, onde os eventos acontecem, e onde circulam as pessoas comprometidas com a escola e seu desempenho no carnaval. Com o avanço da profissionalização dos destaques e da administração de recursos que cada vez se torna mais fundamental para o desempenho da escola, altera-se a forma de organização interna à instituição que se pretende maior e mais imponente. E quais as características básicas e os espaços comuns às quadras das escolas de samba? Temos obrigatoriamente na sede da escola de samba, um amplo espaço normalmente ao seu centro, e que compreende mais de cinqüenta por cento da área total, para desenvolvimento das festas e comemorações públicas no período anterior ao carnaval, os ensaios. É comum encontrarmos nas sedes das escolas de samba, uma sala para acomodações da secretaria da escola, onde funciona o escritório e o almoxarifado da instituição. As sedes também possuem uma área fechada, normalmente um salão coberto, também conhecido nas escolas por “paiol”, que serve para realização de jantares, festas e eventos oficiais da escola, como na competição anual de sambas enredos e ensaios nos dias de frio e chuva. Também é imprescindível uma sala onde a bateria possa fazer uso para a guarda dos instrumentos de percussão utilizados nos ensaios e eventos da escola. Há ainda um palco onde o grupo responsável


21 pelos instrumentos harmônicos de cordas – violão, cavaquinho – e o canto – intérprete e coral - se concentra nos dias de ensaio e de lá comandam a ‘harmonia musical’ da escola. No Império da Zona Norte o palco de onde a harmonia musical comanda os ensaios fica na lateral da quadra, a dois metros e meio do chão, acima das dependências dos banheiros masculino e feminino. À frente do palco temos a parte não coberta do grande salão, disponível para a evolução do grupo show, e acomodação do público nos ensaios. Ao lado direito do palco encontra-se o fundo da quadra onde está o paiol, e na intermediação destes dois espaços uma grande área coberta, que protege o público das chuvas e dos eventuais dias frios. A parte coberta se assemelha a um telhado de um ginásio de esportes, sendo que as laterais são vazadas e apenas cobertas por um muro de cerca de 3 metros de altura nos dois lados da quadra, separando das fábricas e lojas vizinhas. Os ambientes citados acima podem ser considerados característicos da maior parte das escolas de samba que conheci em Porto Alegre. A secretaria da escola é o espaço comum dos dirigentes11 e dos trabalhadores da escola (serventes, bilheteiros, seguranças, ecônomos) nos dias de ensaio, sendo exclusivamente restrita a estas pessoas. Assim como o almoxarifado que serve de depósito dos instrumentos da bateria e utilizado predominantemente por esta ala. O espaço de uso comum aos freqüentadores da quadra nos dias festivos é a grande área principal, onde no Império se realizam os ensaios do grupo show da escola; e no paiol, onde se localiza a copa, com a venda de bebidas. Nos dias de ensaio, a escola monta provisoriamente numa das laterais do paiol, uma sala fechada por paredes de madeira. Local específico para vestimenta e maquiagem dos participantes do grupo show das escolas responsáveis pelas apresentações da noite festiva. Especificamente no Império da Zona Norte existe ainda uma sala contígua à secretaria, onde funciona uma pequena venda nos dias de ensaio: conhecida - Refiro-me a dirigentes todos aqueles indivíduos envolvidos na escola no nível administrativo, e que não cumprem papéis específicos do samba no desfile. São todos aqueles indivíduos ligados a atividades burocráticas e de supervisão da escola e que não possuem atribuição carnavalesca, entre eles: os conselheiros, os diretores dos mais diversos departamentos, o presidente. 11


22 como a ‘Tenda das Baianas’. Nela servem-se salgados e bebidas quentes, comercializados pela ala das baianas da escola, para pagamento das suas fantasias (ala obrigatória por regulamento com o mínimo de trinta componentes no desfile). A existência deste espaço conhecido e tratado com muito carinho pelos dirigentes da escola, já nos permite demonstrar a importância conquistada por estas mulheres. A ala é organizada por uma baiana em especial que desfila há quase trinta anos no Império, dona Auxiliadora, uma das responsáveis pelo belo trabalho da ala que coleciona inúmeros estandartes de ouro na sua categoria, prêmio conhecido por destacar os melhores do carnaval ano a ano. Em 2009, a ala das baianas do Império recebeu mais uma vez o prêmio. 1.3. A organização sócio-política da quadra A partir da observação na quadra da escola, vamos descrever os vários grupos atuantes no Império da Zona Norte, dividindo-os de acordo com a estrutura que concerne às escolas de samba, como já foi demonstrado por Leopoldi (1978): o nível administrativo e o carnavalesco (esmiuçarei ao longo do texto, em especial na última parte). Uma ordem de importância dos grupos internos à escola pode ser observada ao entender o funcionamento da organização sócio-política. Nas conversas pessoais que tive no Império, pude compreender que a instituição é demarcada por uma forte hierarquia, rígida e inquestionável. No grupo “a”, explicitarei a competência dos indivíduos inseridos no nível administrativo da instituição, e que ocupam os cargos de decisões fundamentais que norteiam os rumos da escola de samba. Os grupos “b”, “c” e “d”, descreverei os indivíduos que fazem parte do nível carnavalesco da instituição. Suas ocupações dentro da escola, suas características dentro da organização do Império e como eles se articulam no desfile oficial em busca do sucesso no concurso carnavalesco. São eles, em ordem de importância: bateria e harmonia musical, grupo show e as alas. No ponto “e”, descreverei a dinâmica destes grupos envolvidos nos ensaios de carnaval na quadra da escola.


23 1.3.1. O presidente, a diretoria e os conselheiros Como já observou Leopoldi (1978), na organização das escolas de samba a função executiva do presidente sobressai-se aos demais, sendo ele o centro das atenções e das decisões tanto políticas quanto administrativas. O autor chega até mesmo a avaliar que os presidentes destas instituições acabam por serem mais ditadores do que propriamente presidentes das escolas. Função que, na teoria, caberia uma intensa discussão e divisão de poderes com a diretoria e o conselho da escola. Não parece ser esta realidade da maior parte das escolas de samba. No caso do Império da Zona Norte a supremacia do cargo de presidente não é diferente. O presidente é o grande responsável por todas as decisões da escola, cuidando pessoalmente da contratação de pessoal, da infra-estrutura da escola, e da vida financeira (já que é ele que recebe em seu nome o cachê pago pela prefeitura). O presidente dá a palavra final sobre o tema e o samba a ser escolhido, sobre mudanças na gestão da quadra, e muitas vezes também participa da construção visual da escola no barracão, escolhendo materiais, desenhos, cores, e formatos dos carros alegóricos. O presidente da escola no começo de minha etnografia era o Ademir de Moraes, conhecido como o “Urso”. No meio do ano ele foi eleito para a presidência da Associação das Escolas de Samba de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul (a AECPARS), e se licenciou do cargo, deixando ele para seu irmão, o então vicepresidente Rubens Menezes. O que pude acompanhar durante o restante do ano é que Rubens era um presidente que cumpria com rigor todas as decisões de Urso, que mesmo oficialmente fora da escola, ainda mantinha seu controle administrativo sustentado por seu grupo político que o permitia extra oficialmente manter-se como presidente de fato. Inclusive, Urso, tinha presença freqüente no pólo de construção visual da escola, o barracão, e na quadra, o local onde exercia a autoridade máxima e estava sempre cercado pela diretoria e pelos conselheiros em busca de apoio e de aceitação. Durante o desenvolvimento de todo meu trabalho, não tive acesso a todos os diretores nomeados pelo presidente, mas pude identificar as peças mais


24 citadas por ele e que formavam o núcleo dos diretores do Império. Estes diretores, diferentemente do corpo geral, tinham acesso facilitado ao presidente, além de serem apresentados publicamente em algumas ocasiões, como os principais responsáveis pela administração da escola no carnaval 2009. Eram eles, o diretor de carnaval Walmir Oliveira, profissional contratado de outra escola (Bambas da Orgia), era o principal responsável pela agenda da escola, e pelos ensaios do grupo show. Meu principal informante de pesquisa na quadra da escola, Jorge Péres, nomeado como diretor de patrimônio. E outros diretores importantes, já que estavam

diretamente

ligados

ao grupo comandado

pelo

Urso:

Rubens

(presidente), o “Daio” e o “Pires”. O conselho da escola comportava vinte e quatro conselheiros com direito a voto para escolha do presidente. Organizavam-se em reuniões do conselho de acordo com a necessidade, não existindo um calendário de reuniões fixadas. Ao perguntar em dezembro para meu informante de pesquisa, o Jorge, quando havia acontecido à última reunião, fiquei sabendo que havia mais de dois meses. Não pude acompanhar nenhuma reunião dos conselheiros, mas o que pude averiguar na conversa com alguns deles, era de que a reunião do conselho pouco se pautava nas questões sobre o investimento da escola, o controle financeiro, e sobre cachês e contratações. As decisões mais importantes e de assuntos privados, como a gestão financeira não era tema das reuniões, e os próprios conselheiros muitas vezes não tinham maiores informações a respeito. Considerei de suma importância algumas das falas que me revelaram que a votação que acontecia no conselho era pouco relevante, já que as principais decisões da escola já eram levadas para o conselho pelo grupo do presidente, e inevitavelmente ela seria aprovada pela maioria sem maiores oposições. Todos estavam certos de que a tarefa do conselho era pouco ativa. E asseguravam que pouco se podia criticar a respeito da atual administração, já que “em time que está ganhando não se mexe”. O que ainda era mais surpreendente é que nem mesmo o calendário de eventos e destes, de informações a respeito de datas, valores, transporte, traje, divisão de tarefas, era dominado pelos conselheiros e diretores. Muitas vezes eu fazia perguntas a respeito da participação da escola em alguns


25 eventos seja da prefeitura ou fora dela, e muitos conselheiros ou diretores não sabiam de tal informação, com exceção daqueles que trabalhavam diretamente ligados à organização do grupo show, como o diretor de carnaval Walmir. 1.3.2. A bateria e a harmonia musical A bateria é a ala fundamental da escola de samba, sem ela não é possível o desfile, não pode se realizar o carnaval. Ela é a única ala específica a ser julgada no concurso carnavalesco. Devido a esta grande importância da bateria dentro da escola, pude perceber que o grupo que dela faz parte, os chamados ‘ritmistas’, devem respeito e lealdade a um líder da escola que não é exclusivamente o presidente. É o diretor de bateria e os seus respectivos auxiliares que detêm o controle dela, e que coordenam seus ensaios e cobram o desempenho dos instrumentistas. No Império da Zona Norte o diretor de bateria é o Márcio, seu cachê anual se aproxima a dez mil reais pagos pela escola. Como em todas as baterias, referese a ele adicionando o substantivo ‘mestre’ antes do nome, reverenciando mais uma vez o papel de amplo conhecedor dos instrumentos de percussão e da forma de orientar os instrumentistas no uso destes. O mestre Márcio é auxiliado pelo segundo mestre de bateria, o Ninho. Os dois são as principais referências dentro da bateria do Império da Zona Norte. Nela, podemos perceber outras lideranças, chamados de auxiliares, que controlam a execução do samba em alguns instrumentos da bateria, e são colaboradores na criação do arranjo percussivo do samba enredo oficial, e na regência do grupo nos eventos da escola. No desfile oficial, a bateria sai com cento e oitenta componentes na avenida, que é o número máximo que ela totaliza no ciclo carnavalesco. Os primeiros encontros da bateria se dão no festival de escolha do samba enredo para o carnaval seguinte, por volta de junho. O grupo que se encontra neste festival, assim como o grupo que participa dos ensaios shows da escola, varia de trinta a sessenta componentes. Este núcleo reduzido de instrumentistas, participante na bateria durante os principais eventos da escola durante o ano,


26 pode ser considerado o núcleo da bateria do Império da Zona Norte. A bateria se encontra durante os meses anteriores ao carnaval num dia da semana - quintasfeiras - onde realizavam ensaios à parte do resto da escola, sendo exclusivamente dirigido e administrado por seu mestre. As baterias de samba de Porto Alegre têm a dificuldade de encontrar novos e bons instrumentistas. Como nos coloca Prass (2004) é bastante comum à circulação de instrumentistas em várias escolas, além de optarem pela troca de escola de samba mesmo no andamento do ciclo carnavalesco. Muitas destas trocas se dão em razão da ajuda de custo paga, da paixão do instrumentista pela escola, e da sua relação pessoal com o mestre e os auxiliares. Mesmo no dia do desfile, se via várias escolas completando o número mínimo de integrantes da bateria (cento e trinta componentes) previsto no regulamento, com instrumentistas convidados de outras escolas. Uma outra observação interessante: a dinâmica de funcionamento de uma bateria, e da distribuição de suas lideranças escapa das mãos do presidente e dos diretores do Império. A bateria é uma ala que se resolve internamente, e é de difícil acesso aos de fora. Tanto isto é verdade que é muito comum de um diretor de bateria ser demitido, ou substituído, e com ele sair um grande grupo de pessoas fiéis ao trabalho do mestre e não exclusivamente à escola. A ala é a principal responsável por pressões contra as diretorias das escolas, nas questões administrativas, e nos rumos políticos da instituição. A harmonia musical é um grupo contratado pela escola, capitaneado pelo intérprete oficial, a voz principal que vai entoar o samba enredo da escola na avenida. Seu desempenho no desfile oficial é julgado por um quesito à parte (de mesmo nome) que avalia o canto, o arranjo musical das cordas e sua sincronia com a bateria e com o canto dos componentes das demais alas da escola. A harmonia é composta além do intérprete, do coral de vozes, e dos instrumentos de cordas: violões e cavaquinhos, somando-se por volta de uma dezena de músicos. No Império da Zona Norte, o intérprete e líder da harmonia para o carnaval de 2009 era o profissional mais bem pago em Porto Alegre para esta posição, Sandro Ferraz, que recebia cerca de vinte mil reais por ano pela atividade, sem contar o cachê pago para o restante da harmonia.


27 A harmonia complementa a bateria no desenvolvimento musical da escola. Uma não tem razão de existir sem a existência da outra. Mas é interessante observar que apesar desta íntima dependência musical dos grupos dentro da escola, eles não se confundem nos mesmos espaços sociais e políticos dentro da quadra. Os contatos entre seus componentes são amistosos, porém, basicamente técnicos, principalmente entre suas lideranças. Os dois grupos têm formas particulares de contrato na escola. A harmonia pelo profissionalismo, já que é paga na sua totalidade, e a bateria pelo interesse dos instrumentistas em tocar na escola, já que recebem apenas as passagens de ônibus para seus deslocamentos à quadra, com exceção de seu mestre de bateria. 1.3.3. O grupo show Nas escolas de samba de Porto Alegre, os ensaios shows priorizam um espetáculo para um público pagante que assiste/ observa/ canta (espectador passivo) e um grupo treinado pela escola que participa/ dança/ toca (participante ativo) que ocupa o centro da quadra e executa sua performance para os olhos do público. Diferente dos ensaios das escolas de samba no Rio de Janeiro, onde os grupos shows são diminutos, e se reserva um apenas pequeno período do ensaio para sua apresentação, e no restante do tempo, a festa é aberta para o público dançar os sambas tocados pela harmonia e bateria. Por lá, a quadra se transforma numa pista de dança para o público que é o centro do espetáculo. Para manter o formato de ensaios em Porto Alegre, as escolas de samba preparam em todos os ciclos carnavalescos um grupo de pessoas que desempenham o papel de entoar, dançar, apresentar o samba enredo para o público que vai as quadras e aos desfiles. O grupo show é um número restrito de pessoas, bem menor do que o número total de componentes no desfile oficial, que se divide em duas categorias: os profissionais do carnaval que são contratados com pagamento de cachês anuais, e os não profissionalizados, ou seja, identificados com a escola, normalmente através de suas relações familiares,


28 pessoais ou de vizinhança. Estes participam sem retorno material, “por amor” como dizem, e só em alguns casos recebem ajuda de custo para o transporte. O grupo show compunha-se da harmonia musical, da mini bateria, e dos destaques12. Dentre os destaques das escolas de samba, os considerados de maior relevância e que são imprescindíveis para o desenvolvimento de um desfile são: o casal de mestre sala e porta bandeira (é quesito e soma nota dos jurados no concurso), a porta estandarte (tem a função de abrir o desfile e apresentar o pavilhão da escola para o público, seu símbolo máximo, com seu bailado típico de seu papel), o casal de passistas (é o casal que desempenha o papel do samba no pé, deve contagiar o público com a passagem da escola, e mostrar grande desempenho na dança), e a comissão de frente (grupo obrigatório nos desfiles, formado por no mínimo sete e máximo doze componentes, que realizam coreografia de acordo com o enredo na abertura da escola). Existe uma hierarquia entre cada grupo de destaque que cumpre uma função no desfile. Por isso, existe o primeiro casal de mestre sala e porta bandeira, o segundo casal, o terceiro casal e até quarto casal. O primeiro casal é o mais importante, e responsável pelas notas do quesito aplicadas pelos jurados. Entre os passistas e as porta estandartes também existe esta hierarquia de posições, sendo os primeiros considerados os oficiais, e devem executar com maior desenvoltura e qualidade as suas performances, porque está subentendido que é o que a escola tem de melhor na posição. Como são posições de grande relevância nos ensaios shows e no desfile oficial, há uma grande concorrência entre as escolas de samba na contratação dos melhores destaques, e de renome, para compor seu quadro. Logo após o fechamento do ciclo carnavalesco iniciam-se as conversas de bastidores, onde se supõe novas contratações de destaques e o troca-troca entre as escolas. Os destaques entendidos como de melhor desempenho e capacidade técnica são disputadíssimos pelas escolas de samba em cada ciclo carnavalesco. Por isto, 12

- ‘Destaque’ é a categoria nativa que dá nome a todos os componentes da escola que executam papéis de relevância na dança, canto ou coreografia do samba. Entre eles temos o casal de mestre sala e porta bandeira, a comissão de frente, a porta estandarte, o casal de passistas, o intérprete da escola, as baianas, a ala de mulatas.


29 suas contratações se dão por meio de acordos informais e do pagamento de cachês bastante polpudos ao se levar em conta o cachê da prefeitura recebido por toda a escola em cada carnaval. Além de peças-chave no desfile, eles trazem retorno

financeiro

nas

bilheterias

e

nas

copas,

reforçando

os

cofres

comprometidos das entidades. O primeiro casal de mestre sala e porta bandeira da escola é quesito de julgamento de desfile, por isto normalmente recebem cachês das entidades. No Império da Zona Norte, para o carnaval de 2009 foi contratado o casal da escola Imperatriz Dona Leopoldina, recebendo dez mil anuais o casal. O Império contratou um excelente casal de passistas provenientes dos Bambas da Orgia, num valor próximo aos dez mil anuais para o casal. O profissional que desempenha o papel de coordenar todo o grupo show, assim como assumir toda a organização e planejamento dos eventos na quadra e nas apresentações fora dela é o diretor de carnaval. O Império buscou também nos Bambas da Orgia um diretor de carnaval experiente, que recebia por volta de dez mil reais de cachê para prestar seus serviços durante o ciclo carnavalesco. Notava-se que entre os profissionais do carnaval, aqueles que recebiam cachês para desempenhar seus trabalhos eram muito mais cobrados pela direção da escola, quanto ao cumprimento de horários, desempenho, e sua inserção e entrosamento junto aos outros componentes. A ala das mulatas, os ritmistas da bateria, a ala das baianas, por cumprirem papéis coletivos, não recebiam cachês pelas suas apresentações. Por isto eram menos exigidos no seu profissionalismo, até por ocupar papéis de menor importância, e poderem ser substituídos rapidamente em caso de desligamento ou não agradarem a diretoria. Nas conversas com Walmir, o diretor de carnaval, ele me dizia que o trato com os componentes não profissionalizados do grupo show era mais difícil. Muitos deles estavam ali por terem relações pessoais de amizade ou familiar com dirigentes da escola, e muitos não aceitavam cobranças de desempenho e disciplina. Walmir ficava em posição desconfortável ao ter que lidar com questões pessoais no seio de um grupo show que deveria ser antes de tudo profissional, e primar pelo melhor desempenho artístico.


30 1.3.4. As alas No desfile oficial do carnaval de 2009, a apresentação da escola era composta por dezessete alas, sendo treze alas comerciais e quatro delas não comerciais - uma delas a bateria que ganha a fantasia gratuitamente da escola, e a outra, a ala das baianas que paga sua fantasia. Outras duas alas não comerciais são compostas por indivíduos convidados pela escola, que pretensamente não teriam condições de pagar pela fantasia, por isto são chamadas as “alas da comunidade”. Normalmente nesta ala, paga pela escola, as fantasias são menos requintadas e consideravelmente mais baratas em relação às demais. Cada ala é formada no Império por cerca de cinqüenta a oitenta pessoas, e organizadas por um diretor. As alas são parte do desenvolvimento argumentativo do enredo ao vestirem o grupo de pessoas que as compõem num figurino, julgado no quesito fantasia. A desenvoltura e o andamento de seu conjunto na pista de desfiles é julgado no quesito evolução A organização das alas se dá a partir da presença de um diretor, o responsável pela venda das fantasias, que custavam de oitenta a duzentos reais por peça no Império, e da orientação destes componentes no desfile da escola. O diretor de ala procura as costureiras indicadas pela escola para o fabrico das fantasias, busca materiais mais baratos e altera a peça se for o caso, tudo sob supervisão da escola. O figurinista da escola desenha as fantasias de todas as alas do desfile, e prepara um protótipo destas fantasias a serem entregues para cada diretor de ala da escola, encarregado da produção delas conforme o modelo. Com cuidado de supervisionar todo o processo, e de assegurar a qualidade e conservação das fantasias, o Império optou por produzir todas as peças em seu barracão. Neste ano, por falta de espaço no barracão principal, foi alugada uma casa nos arredores do Porto Seco para a realização do trabalho das costureiras nesta atividade. O local foi apelidado de “barraquinho”. A entrega das fantasias das alas da escola se dá no dia do desfile no próprio barracão, onde os componentes se trocam e guardam seus pertences para o desfile.


31 As alas não precisam necessariamente participar dos ensaios shows, e também não há nenhum ensaio técnico onde a presença das alas e de seus componentes é obrigatória. Apesar de que nos ensaios shows é muito comum à presença dos diretores das alas e seus componentes, que aumentam sua freqüência paulatinamente com a proximidade do desfile de carnaval. No carnaval de Porto Alegre, se prioriza nos ensaios o treinamento dos destaques, e pouco se desenvolvem atividades no intuito de treinar a evolução e o canto das alas. Leopoldi (1978) considera que a organização das alas tem uma ligação precária com a escola de samba. Ser componente de uma ala da escola, a princípio, não implica numa vinculação com ela. Muitos componentes saem em mais de uma, mudam de escola de um ano para outro, e são pouco freqüentes e participativos nos eventos da instituição, podendo ser recrutados nas vésperas do carnaval para o desfile. Mesmo assim as alas indicam algum tipo de homogeneidade. As alas podem ser analisadas como um indicador social por agregarem indivíduos de uma mesma classe social, cor de pele, profissão ou bairro. No caso do Império temos exemplos de alas provenientes do mesmo local de trabalho, de mesmo grupo político, de mesmo ambiente de esporte e lazer, ou composta majoritariamente por brancos ou negros. Posso citar uma ala que se constitui de servidores públicos de um grande complexo hospitalar da cidade; uma ala composta por filiados, partidários e amigos da esposa de um político da cidade; e uma ala composta por um grupo que trabalha e freqüenta uma academia de ginástica num bairro de classe média, próximo ao centro da cidade. Existe uma séria dificuldade no carnaval de Porto Alegre, que ainda se torna mais grave em escolas menores, de preencher a capacidade máxima de cada ala com componentes que pagam pela fantasia. No Império estavam previstos mil e setecentos componentes no desfile. O prejuízo das apresentações das escolas com contingente menor de mil componentes é grande. Estas apresentações se tornam difíceis de agradar por não preencherem a capacidade da avenida (que se torna grande demais para a escola), dando impressão de vazios, buracos no desfile, além da desvalorização das alegorias e fantasias. O canto e a empolgação da escola também são prejudicados.


32 Ao mesmo tempo, temos a pressão das notas dos jurados, e a expectativa do público e da imprensa, que exige que a escola se apresente cada vez com fantasias mais requintadas, grandiosas, e de grande efeito visual, sempre em comparação a carnavais anteriores ou de maior porte como o carioca. A escola deve encontrar este ponto ideal entre o que é o conjunto de fantasias pertinentes para um bonito desfile, e a boa quantidade de público que possa pagálas ou tenha interesse em desfilar no carnaval da cidade. Por este motivo, que muitas alas de várias escolas só são completadas nas vésperas do desfile, já que muitos componentes deixam para última hora a compra, pagando-se na hora, ou ganhando de algum dirigente da escola com interesse em preenchimento da ala. Poucos são os diretores de ala que fazem parte do conselho da escola, e por isto, eles tem pouca relevância nas decisões administrativas e políticas. O que se sabe é que os diretores de alas mesmo que tenham interesses secundários no aproveitamento da função, como retorno político ou social do trabalho, realizam a difícil tarefa de organizar um grande número de pessoas para o desfile. 1.3.5. Os ensaios Dois tipos de ensaios ocorriam na quadra do Império da Zona Norte na preparação do carnaval 2009: o ensaio técnico e o ensaio show, ambos iniciados no mês de outubro de 2008. Os ensaios técnicos aconteceram de outubro a novembro nos sábados à tarde, com presença restrita do grupo show e alguns dos dirigentes da escola. Nele se podia errar, parar o samba, o diretor de carnaval responsável pelo grupo show exigir mudanças, o intérprete pedir para o grupo cantar com mais força, entre outros recursos que são usados para que o grupo melhor se apresente e se prepare para os futuros eventos. Os ensaios shows aconteciam todas as terças-feiras à noite, de outubro até o desfile oficial de carnaval, com cobrança de ingresso e presença do público geral para assistir as apresentações do grupo show. O Império divulgava o ensaio show com o nome de “terça da felicidade”. Os preços dos ingressos e das bebidas nestes ensaios subiam de acordo com a aproximação do desfile oficial de


33 carnaval. O ingresso nos primeiros ensaios custava cinco reais e a latinha de cerveja três reais. No início de janeiro de 2009, o ingresso já custava oito reais. Nos últimos quatro ensaios anteriores ao carnaval, o preço dos ingressos passou a custar dez reais e a latinha de cerveja chegou a custar quatro reais. Nos primeiros ensaios encontrávamos um público não superior a cem, cento e cinqüenta pagantes aproximadamente. Após a virada do ano, chegávamos ao número de trezentos a quatrocentas pessoas pagantes por ensaio, sendo que variava de acordo com o calor e o bom tempo, além das atrações da noite (escolas convidadas). Nos últimos ensaios pré-carnaval, o público chegava a beirar aproximadamente mil pessoas pagantes, e com o forte calor, o consumo de bebidas aumentava consideravelmente, quando a escola fazia mais caixa para investimento no desfile. O horário dos ensaios também variava de acordo com o avançar do calendário carnavalesco. É comum no carnaval de Porto Alegre, escolas de samba convidadas abrirem a noite de ensaios apresentando seu grupo show na quadra da anfitriã. Não se acertava nenhum acordo financeiro pela visita, já que o combinado era de que a anfitriã também visitasse a quadra da convidada, assumindo as despesas do grupo show e de transporte na oportunidade programada. Com a chegada da fase quente do carnaval, após a virada do ano, os ensaios ficavam mais longos, com o término por volta das três horas da manhã. E como era o ensaio show da escola? O início se dava com o samba enredo oficial do desfile13 executado por inúmeras vezes pela harmonia e pela bateria (podia chegar até uma hora de execução), e a entrada de cada grupo de destaques devidamente fantasiados e maquiados para a dança e a performance do samba. Entravam em ordem, análoga a importância do grupo (com exceção do primeiro): a comissão de frente, que fazia um túnel humano na entrada dos destaques; a porta estandarte; mestre sala e porta bandeira; os casais de passistas; a ala das baianas em número bastante reduzido; as mulatas e cabrochas em seguida. Depois da execução do samba enredo, variava de meia hora à uma hora de show com sambas de carnavais passados e músicas de todos 13

- O samba enredo da escola para o ano de 2009 pode ser lido na íntegra no ANEXO 1.


34 os tipos, desde ‘black music’, ‘axés’ e música popular brasileira. No final, mais uma vez a execução do samba enredo com a despedida triunfal dos destaques, que se retiravam para o paiol, da forma decrescente da ordem descrita, encerrando as atividades da noite. Durante o show, o espaço de apresentação era cercado e fiscalizado pela coordenação da escola, sendo ele restrito ao grupo show. A coordenação também comandava a troca de posições dos destaques que formavam o espetáculo, fazendo-os circularem constantemente, simulando um desfile. O que se observava era que o público prioritariamente assistia o show da escola, acomodados de pé em torno do espaço reservado aos destaques, ou nas mesas e cadeiras que circundavam as grades de ferro que separavam à área do público. A participação na dança e no entoar do samba enredo da escola na maior parte dos ensaios era tímida, o que me trazia várias indagações entre dirigentes e trabalhadores do Império. Se para alguns o samba era fraco, longo ou confuso, para outros era a demonstração de que a escola não contava com uma “comunidade” forte que “pegasse junto” e “abraçasse” sua escola, como outras da cidade. O certo era que o formato do ensaio privilegiava a atuação dos destaques do grupo show em detrimento da participação do público em geral. Além dos ensaios, fora da quadra da escola ocorreram outros três eventos muito importantes no calendário carnavalesco. O primeiro, a mostra de sambas enredos na quadra da Imperadores do Samba no dias 7 e 8 de novembro de 2008, evento que virou um programa na Tv Com14. Nele, todas as escolas do grupo especial apresentavam seu samba e seu grupo show de acordo com a ordem do desfile oficial – o Império apresentou-se no sábado dia oito. As escolas demonstravam seu empenho no desenvolvimento do samba, e na qualidade de seu show, mesmo que a mostra não fosse oficialmente um evento competitivo. 14

- Canal de tevê aberta u.h.f. que integra o grupo RBS, sucursal da rede Globo de Televisão no Rio Grande do Sul. O grupo RBS é um dos grandes apoiadores do carnaval de Porto Alegre, com programas de rádio, internet, espaço no jornal, e de longe, é a rede de televisão que dá maior visibilidade e noticia o mundo do carnaval, além de possuir com exclusividade a transmissão do desfile das escolas de samba do grupo especial da cidade, na sexta e no sábado na RBS tevê. Transmissão que, no estado inteiro, faz uma média de pontos de audiência superior à média das transmissões do carnaval carioca no domingo e segunda de carnaval, se medido apenas o estado gaúcho. Informação prestada por Vinícius Brito, um dos jornalistas responsáveis pela cobertura carnavalesca da emissora.


35 A descida da Borges, evento anual da prefeitura e da associação das escolas, levava as escolas de samba a realizarem no centro da cidade uma mostra do desfile de carnaval, no formato dos desfiles antigos em Porto Alegre. Este evento que cresce em público e estrutura a cada ano, possibilitava um desfile do grupo show da escola num pequeno trajeto de descida da avenida Borges de Medeiros, sem a presença de alegorias. A descida possibilitava as escolas perceberem o rendimento do grupo ensaiado, assim como o calor do público no canto e na dança do show apresentado. O Império da Zona Norte desceu a Borges no último dia do calendário deste evento, numa sexta-feira dia 31 de janeiro. Levantou o público debaixo de chuva, e aumentou a expectativa de seus dirigentes do bicampeonato. O último evento do calendário pré-carnavalesco é a “Muamba” na pista de desfiles do Porto Seco. A muamba é o ensaio geral das escolas com a presença de muitas das alas de desfile e com participação do público com entrada franca. Ela é realizada no final de semana anterior ao desfile oficial, como uma grande simulação do trabalho que será realizado na avenida, mesmo sem as alegorias e as fantasias que só serão utilizadas no desfile principal. Na muamba, a escola avalia e ajusta seus problemas com a sonorização da pista, com a bateria, e a evolução das alas na pista de desfile (orientada pela coordenação da escola). Estes três eventos indicados serviam de análise para os próprios imperianos como forma de comparar os trabalhos realizados pelas escolas, e na avaliação de quais escolas estariam mais bem preparadas para vencer a competição. Nas conversas informais, na quadra do Império, eram comuns os comentários sobre as adversárias mais poderosas e aquelas que ainda não realizavam um bom trabalho. Pode se supor, o quanto a escola estaria investindo e trabalhando para o carnaval, com a seguinte avaliação: o melhor desempenho no show, os melhores destaques e fantasias, a melhor coordenação, um bom samba enredo, competência na harmonia e bateria, etc. Incluindo a suposição do investimento financeiro, considerando que, quanto maior o investimento melhores condições de vencer. Desta forma, as conversas que se davam a respeito da qualidade dos grupos shows nas quadras, assim como a situação dos barracões


36 de cada escola no Porto Seco, faziam com que os carnavalescos e a imprensa especializada pudessem prever como seria a apresentação oficial de cada escola na pista de desfiles e, com isto, a possibilidade de indicarem suas favoritas. 1.4. A quadra da escola no ciclo carnavalesco Em cada escola de samba, de acordo com o passar dos meses no calendário anual, podemos acompanhar diferentes eventos que se desenrolam na quadra e que marcam as etapas de atividades pertinentes ao ciclo do próximo carnaval. Acompanho o raciocínio de Leopoldi (1978), que destaca a divisão da escola de samba na quadra em dois níveis de organização: o administrativo e o carnavalesco. De acordo com o andamento do ciclo carnavalesco que acompanha o calendário anual, veremos a variação na importância do trabalho destes dois níveis de acordo com o tempo. No nível administrativo estão colocados os dirigentes da instituição que executam trabalhos burocráticos, de coordenação e supervisão da escola. No nível carnavalesco temos os indivíduos que cumprem os papéis de canto, dança e acompanhamento rítmico (conjunto das alas, grupo show, bateria e harmonia musical, e componentes dos carros alegóricos). Podemos identificar no ciclo carnavalesco do Império para o carnaval de 2009, duas principais etapas. São elas: a fase inicial do ciclo carnavalesco, onde a escola corre atrás de novas contratações, de um novo enredo (muitas vezes patrocinado), de um cronograma de atividades anual. Esta fase começa a partir do final do carnaval anterior, que se dá com o fechamento no desfile das campeãs até a retomada dos ensaios por volta do mês de outubro. Neste período, o presidente, os diretores da escola junto com os conselheiros são as figuras de destaque e se encontram na quadra da escola. Dentro deste período, temos três grandes eventos: o aniversário da escola; o festival de sambas enredos, com a escolha de um samba que passa a ser o hino oficial da escola a ser executado no próximo desfile; e o baile do conselho, realizado no clube Gondoleiros no dia 30 de agosto de 2008. Quando este baile aconteceu, já tínhamos o enredo e o samba definido, e encerrava-se o ciclo exclusivamente administrativo da escola, com a


37 primeira apresentação do grupo show, dando início a participação dos componentes do nível carnavalesco. O Império da Zona Norte é uma escola que se consagrou como moderna e bem organizada nos últimos anos, já que neste período de entressafra carnavalesca é a primeira escola que divulga suas novas e importantes contratações, além de seu enredo para o próximo ano. Além de propor um calendário de suas atividades anuais, é a primeira escola que abre seus trabalhos nos barracões do Porto Seco, com os trabalhadores limpando e reciclando materiais do carnaval já no início do mês de maio. Por estas e outras ações, o Império da Zona Norte se constituiu na escola considerada de melhor planejamento, com melhor trabalho e investimento no barracão, e um dos melhores ensaios do carnaval da cidade. Nos primeiros ensaios da escola observei duras críticas dos dirigentes ao grupo show e ao desempenho da bateria. Esta tensão instaurada, somada a cobrança cada vez maior dos dirigentes, causou algumas reuniões aos sábados sob portas fechadas na quadra para acertos dos detalhes técnicos considerados insatisfatórios. Os dirigentes pediam maior comprometimento no cumprimento dos horários de ensaios, maior vibração do grupo da escola ao cantar o samba, maior disciplina aos instrumentistas da bateria. Insatisfação que continuou por muitos meses até às vésperas do desfile, sob alegação de que só a “união da escola” e os ajustes no seu grupo show trariam o título do carnaval. Um conflito importante que pude constatar no Império durante estes meses do pré-carnaval era a dificuldade dos dirigentes da escola de controlar sua ala mais importante: a bateria. Percebia-se principalmente durante os ensaios, que muitos componentes da bateria utilizavam vários tipos de transgressões da disciplina imposta pela escola, para demonstrar alguma insatisfação com os mandos impostos pela diretoria. Numa destas situações, vi alguns componentes da bateria começarem a tocar seus instrumentos no paiol, onde acontecia uma reunião entre alguns diretores e componentes do grupo show a portas fechadas. De maneira desafiadora, os instrumentistas demonstravam insatisfação com os pedidos de silêncio da direção, perturbada com o som no desenrolar da reunião.


38 Os instrumentistas reclamavam que a reunião acontecia justamente na hora do ensaio da bateria, e que eles já haviam concedido muitos minutos de silêncio do seu horário de ensaio. Esta situação incomodou um dos diretores da escola, que tentou argumentar com os instrumentistas sem muito sucesso. Depois de algumas admoestações, os instrumentistas se distanciaram, sob o protesto silencioso do diretor que declarou ser muito difícil e delicada a relação desta ala considerada fundamental: “porque se a bateria se rebelar e abandonar a escola, acabou-se...”. A fase final do ciclo carnavalesco ocorre com a entrada em cena dos atores que fazem de fato o desfile de carnaval, e são os principais responsáveis pelo espetáculo nos ensaios, e no desempenho da escola na avenida. É neste momento que os indivíduos do nível carnavalesco, na estrutura interna da escola, se sobressaem sob os demais, e se tornam o foco do carnaval. O evento que inaugura a reta final do carnaval é a “descida da Borges” (já citada anteriormente). A partir da descida da Borges, a escola mergulha no mês do carnaval, onde quase tudo está definido e encaminhado na sua organização interna para o desfile. Diferente da maioria das escolas, que ainda trabalhavam intensivamente nos seus barracões para o cumprimento do seu projeto visual realizado com muita pressa e dificuldade, no Império tínhamos quase tudo pronto. Com a proximidade do desfile de carnaval, os dirigentes responsáveis pelo nível administrativo saem de cena e preocupam-se exclusivamente com a coordenação do desfile (veremos no capítulo final). E é no último evento pré-carnaval, no ensaio realizado na pista de desfiles - a Muamba - onde a escola toma sua forma final, e a partir daí pouca coisa pode ser corrigida e preparada para o desfile oficial. O evento ritual que dá sentido a existência de todo o trabalho no ciclo anual de uma escola de samba.


39

Capítulo 2 O BARRACÃO DO IMPÉRIO DA ZONA NORTE: O Processo de modernização do carnaval no complexo cultural Porto Seco

Neste capítulo, pretendo analisar o centro de produção visual de uma escola de samba: seu barracão. A dinâmica dos trabalhos e dos trabalhadores em relação a este espaço, também serão abordados enfatizando as peculiaridades da construção das alegorias e confecção das fantasias no Império da Zona Norte. Iniciaremos o capítulo discutindo a construção do complexo cultural Porto Seco, e como ele trouxe para Porto Alegre uma estrutura física que comporta o desenvolvimento de um novo formato de carnaval para a cidade. 2.1. Os Barracões no Porto Seco: “um divisor de águas?” No ano de 2004, a Prefeitura de Porto Alegre atendeu a uma antiga reivindicação da comunidade carnavalesca da cidade, e entregou uma nova pista de desfile para as escolas de samba. Junto a esta pista, a proposta apresentada pela Prefeitura, e ainda não concluída, compreende um complexo cultural contando com um conjunto de implementações para o carnaval e para aquela região da cidade, tais como: arquibancadas para trinta mil espectadores, posto policial e de bombeiros, museu do carnaval, entre outros espaços, destinados tanto para os desfiles quanto para outros eventos do calendário cultural da cidade. A primeira etapa da obra já concluída correspondeu à entrega de quinze barracões, prontos para abrigar as escolas de samba na fabricação de seus carros alegóricos e adereços para os desfiles de carnaval. O projeto de construção deste complexo cultural foi apresentado para os carnavalescos como o “divisor de águas” para o carnaval da cidade, que cresceria


40 e melhoraria em razão da modernização e adequação da estrutura física oferecida às escolas. A construção dos barracões espaçosos e próximos à pista de desfile foi consagrada como o ápice do projeto enfatizando a crença na melhora da qualidade do carnaval, simultaneamente, com a melhora das condições oferecidas pelo poder público. Assim, de acordo com uma matéria publicada numa revista produzida pela Prefeitura Municipal: “O carnaval de Porto Alegre entra em uma nova era em 2004. Vai para um espaço mais adequado, que atende às exigências dos novos tempos, de novas tecnologias e do crescimento das nossas agremiações carnavalescas. (...) É um local amplo, que representa a proposta de desenvolvimento que a Prefeitura e a comunidade 15 planejaram, em parceria, para as folias de Momo e outros eventos.”

A contestação à construção do complexo cultural Porto Seco e, por conseqüência, o deslocamento dos desfiles de carnaval para este novo local também é passível de registro, considerando que o complexo está localizado no extremo norte da cidade, muito distante da área central, por isto deslocado dos centros de poder, de cultura, de relevância simbólica na cidade. Os eventuais locais para a construção do complexo no centro da cidade foram matérias de conturbadas discussões políticas entre carnavalescos (representados pela Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul – AECPARS), associações de moradores e poder público. Não chegando a um acordo comum, a Prefeitura considerou como melhor local para o abrigo do complexo, uma extensa área próxima à saída da cidade, conhecida por Porto Seco, devido às numerosas empresas transportadoras de cargas e depósitos sediadas no entorno do complexo. Vozes discordantes à localização afastada do complexo entendem a decisão do deslocamento da festa como uma demonstração de desrespeito e resistência da sociedade às manifestações identificadas como afro-brasileiras. Um dos locais avaliados pela Prefeitura para a construção do complexo na região central, o bairro Menino Deus, teve como protagonista da oposição a sua associação de moradores que, por fim, conseguiu por meio de processo judicial 15

- Revista Passarela, ano 2, número 2: 9, 2004.


41 embargar a implementação da pista de eventos na sua região. Fato este entendido pelo jornalista Cláudio Brito, coordenador da equipe de carnaval da rádio Gaúcha, como um preconceito ao carnaval de Porto Alegre, já que a mesma região recebe no mês de setembro o acampamento comemorativo do feriado gaúcho da revolução farroupilha, no dia 20 deste mês, sem nenhuma demonstração de insatisfação por parte dos moradores: “A administração municipal se curvou às vontades desses moradores, e o resultado foi que se criou um gueto para o samba, bem longe do Centro, o gueto do Porto Seco. Levamos o carnaval, que é uma festa urbana por excelência, pro mato. Lá seria um excelente lugar para fazer a Semana Farroupilha. Tem pasto e área livre à vontade. Mas os tradicionalistas continuam desfilando na Av. Augusto de Carvalho e na Av. Loureiro da Silva, pontos históricos de desfile carnavalesco. Tudo 16 isso indica um movimento de marginalização.”

O propósito deste trabalho, não é a discussão sobre os desdobramentos do conflito da localização do complexo cultural e suas conseqüências políticas do deslocamento territorial para fora da área central almejada. Proponho evidenciar as implicações e particularidades deste processo na estrutura organizacional do barracão da escola de samba Império da Zona Norte, assim como as transformações captadas pelos trabalhadores do barracão da escola em decorrência da implementação do Porto Seco. Procuraremos evidenciar assim, algumas das novas dinâmicas sociais, formas organizacionais e o impacto desta nova estrutura física projetada para a modernização do carnaval da cidade, presente no discurso oficial do poder público e daqueles envolvidos no carnaval.

2.2. O Porto Seco e a modernização do carnaval No entendimento de Goldwasser (1975), a organização de uma escola de samba foi gerada com o passar do tempo em resposta às exigências de desfile, segundo a uma progressão e conformação deste com seu prestígio alcançado na sociedade carioca. A autora descreve de que forma as escolas, a partir da 16

- Entrevista com Cláudio Brito em Revista Aplauso nº 62, 2005.


42 institucionalização e profissionalização, adequaram-se ao carnaval espetáculo, passando a serem empresas, e o desfile uma produção comercial. A premissa básica para esta transformação foi a ‘invasão da classe média’ nas escolas, a partir da década de 60, que trouxe prestígio e dinheiro para o funcionamento das mesmas. Em que medida estas transformações também podem ser visualizadas nos desfiles de carnaval de Porto Alegre? Krawczyk, Germano e Possamai (1992), ao descrever o processo histórico do carnaval de Porto Alegre, apontam a possibilidade dos desfiles percorrerem o mesmo caminho do carnaval carioca. No decorrer da década de 70, os autores identificam que o carnaval começa a ter um tratamento diferenciado pela imprensa da cidade, como produto da cultura popular, por isto idealizado como um produto de interesse público a ser consumido por toda população. Muito se debateu nos anos que se desenrolaram nas décadas posteriores sobre a necessidade da construção de um complexo cultural para o abrigo de um sambódromo; equipamento que viabilizaria os barracões exigidos para o salto de qualidade almejado entre as escolas de samba: a produção de um carnaval organizado, profissional, grandioso, sempre em comparação aos carnavais produzidos no centro do país, em especial do Rio de Janeiro. A construção do complexo Porto Seco se colocou no cerne destas discussões entre os dirigentes das entidades (e da associação destas) e o poder público municipal, já que possibilitaria que as escolas de samba adotassem um outro modelo de produção de carnaval que valorizasse o espetáculo visual. O esforço para a consolidação deste novo modelo idealizava maior relevância para o carnaval da cidade, prometendo gerar divisas para o município com o faturamento turístico, novos empregos e renda para a população. Numa matéria publicada por um blog especializado no carnaval de Porto Alegre, Luiz Armando Vaz opina sobre o crescimento do evento, colocando em destaque a necessidade de planejamento e organização. Destaca ainda o Império da Zona Norte como exemplo a ser seguido por outras escolas:


43 “Hoje com carnaval lá na savana, temos urgências na efetivação de algumas mudanças para o sucesso do espetáculo. Não dá para esquecer que temos como equipamento de primeiro mundo os barracões. Mas as arquibancadas os camarotes e principalmente o som da bateria para toda a avenida são itens de fundamental importância. O carnaval de 2009 mostra um pouco aquilo que foi modelo no carnaval passado. O Império da Zona Norte ousou e teve com suas vitórias a recompensa por sua organização e planejamento. Para sabermos, hoje uma só escola de Grupo Especial não definiu seu tema de enredo ainda, mas entrará o mês de julho com tudo pronto. Tem escola com o carnaval encaminhado, com protótipos acabados, fantasias sendo confeccionadas e barracão a mil. Algo impensado em anos anteriores. Logo na certeza que tudo isto terá repercussão nos desfiles de 2009 saudamos os dirigentes das escolas da nossa cidade. Lembro da frase corretíssima de Renato Dorneles certa vez: Carnaval se ganha durante o ano. Ao fim e ao cabo, a grande marcha começou, o crescimento do 17 nosso carnaval avança de forma firme e decidida.”

O citado e difundido mote “o crescimento do carnaval” por parte da imprensa, soma-se a outros fatos que contribuem para nossa percepção de que é seguido pelos dirigentes de Porto Alegre o modelo do carnaval carioca. É de longa data o diálogo que algumas escolas de samba travam com escolas do Rio de Janeiro, assimilando-as como parâmetro. Cavalcanti (1996) assegura que o carnaval praticado pelas escolas de samba do Rio de Janeiro é resultado de uma longa evolução num processo sociocultural amplo, e a dinâmica de suas transformações, trocas, permanências e inovações é base de sua vitalidade. O que conformou os desfiles em espetáculos visuais de hoje é resultado de um longo processo histórico de transformações estruturais das escolas de samba, concomitantemente às transformações da estrutura da sociedade carioca. Atualmente o modelo do ‘carnaval espetáculo’ tem o primado da visualidade, numa estrutura comercial lucrativa montada para sua exploração. Historicamente

o

Império

da

Zona

Norte

foi

fundamental

na

implementação do modelo de carnaval espetáculo, mesmo que este modelo ainda não tenha se consolidado integralmente. Desde sua fundação em 1975, a escola diferenciava-se de suas concorrentes por provir de um departamento de carnaval de um grande clube da cidade, o clube Gondoleiros. Tornou-se campeã pela 17

- “Um Novo carnaval é Possível”, publicado no Samblog. Disponível em http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg= 5&template=3948.dwt&tp=&section=Blogs&blog=23&coldir=1&topo=3994.dwt Acessado em 19 de setembro de 2008.


44 primeira vez em 1982, com um desfile reverenciado na memória do carnaval da cidade como precursor do ‘carnaval espetáculo’. Ao mesmo tempo, a escola do bairro Sarandi, já se destacava por ser uma escola com forte presença de brancos e de pessoas da classe média, como mostra um trecho da entrevista de Pedro Guilherme Lopes, um dos fundadores da escola: “O Sarandi era um bairro muito racista. Não se unia a raça negra e a raça branca, era pouca união dentro do carnaval. Então a nossa idéia era fazer uma escola que aonde participasse as duas raças, sem discriminação (...) Então eles diziam que o Império da Zona Norte trouxe o luxo para a avenida, não, a gente trouxe muito brilho (...) Antes o carnaval era mais participação, agora ele virou competição. Então até nisto aí nós fomos uma das pessoas que conseguimos mudar a 18 estrutura (...), em cima da competição (...)” (KRAWCZYC, GERMANO, POSSAMAI, 1992, p. 48)

Como podemos ressaltar no trecho da entrevista acima reproduzido, um dos fundadores do Império assegura que este caráter inovador que a escola trouxe para o carnaval está nitidamente entrelaçado como a participação de brancos da classe média, antes distanciados dele, trazendo um novo patamar na produção de desfile, o “brilho”. Com ele a escola venceu o carnaval de 82 com o enredo “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, e impôs seu ideal de “competitividade”, presente nos dias de hoje. Vale lembrar que a estrutura de desfile das escolas de samba que perdura, compõe-se de um enredo contado por alas divididas e fantasiado distintamente por setores, inaugurados pela presença de um carro alegórico. Isto foi pela primeira vez apresentado em Porto Alegre em 1960, pela escola de samba Praiana, quinze anos antes da fundação do Império. Com a inserção da classe média apreciando o carnaval e participando da produção das escolas de samba no Rio, principalmente com a admissão de carnavalescos provenientes do teatro Municipal e das universidades, Valença (1996) nos remete à idéia de uma mudança de estágio na produção do carnaval. O carnaval passou da fase artesanal de produção - onde a comunidade das escolas de samba produzia suas alegorias e fantasias de forma não especializada, na medida de suas possibilidades - passando para a fase industrial - com grandes 18

- O friso é meu.


45 patrocínios de empresas e principalmente da patronagem do jogo do bicho, com a profissionalização da mão de obra especializada na elaboração da construção e na primazia técnica do visual. O consumo e produção do carnaval como produto cultural pela classe média e o aumento do prestígio do evento por conseqüência desta abertura das escolas a este público (Goldwasser, 1975), conformou o carnaval carioca com os padrões estéticos deste grupo social, transformando assim o carnaval do “mau gosto” artesanal para padrões refinados e industrializados atuais. No carnaval de Porto Alegre, a passagem da produção artesanal para a produção industrial ainda não se realizou plenamente, assim como as escolas de samba não se consagraram como um produto de prestígio da classe média da cidade. Ao que parece, uma das poucas exceções a esta regra foi à fundação do Império da Zona Norte, que teve dois momentos de glória: de sua fundação até meados dos anos 80 - depois disso teve uma profunda crise, quando passou 15 anos nos grupos de acesso de carnaval - e novamente um grande crescimento e consolidação a partir de 2004, com a posse do presidente Ademir de Moraes. O “Urso” , como é conhecido, revitalizou a escola ao trazer muitos imperianos afastados de volta, e obteve reconhecimento com a conquista do título de 2008, transformando o Império na escola mais bem preparada para os novos tempos do carnaval espetáculo da cidade, apontada na opinião de grande parte do mundo carnavalesco. Ao indagar

sobre

a

qualidade

visual

do

espetáculo,

um

dos

carnavalescos do Império lança dúvidas quanto à forma como o carnaval é consumido pelo público espectador. Segundo sua visão, os comentaristas do carnaval porto alegrense na transmissão pela tevê consideram tudo “muito bom”. O gosto artístico do público presente também não exige muito do espetáculo, já que é composto na sua maioria, “de pessoas humildes, o povão”; além disso, os jurados muitas vezes atribuiriam notas muito elevadas não permitindo uma avaliação

mais

rígida

dos

problemas

apresentados

no

desfile.

Esta

condescendência do público espectador, que colocaria em dúvida o gosto estético do mesmo, foi uma das boas razões encontradas para a demonstrar o grau de


46 dificuldade do carnaval porto alegrense para se transformar num grande evento espetacular (inserido na fase industrial de produção), na opinião deste envolvido com o carnaval. Além do citado por ele e quase unânime problema compartilhado no mundo do carnaval, da falta de recursos financeiros das escolas de samba, devido ao reduzido cachê pago pela Prefeitura e pela falta de patrocinadores. A falta de recursos provenientes de patrocínios por parte de empresas, públicas ou privadas, de pessoas físicas e do mecenato artístico como o do jogo do bicho no Rio de Janeiro, também se deve em parte pela escassa visibilidade na mídia e prestígio social do carnaval na cidade. Isto remete novamente a idéia da restrita inclusão da classe média no espetáculo, que além de permitir uma valorização dos elementos do sambista e do samba (Goldwasser, 1975), traria maior visibilidade na mídia e permitiria uma melhor exploração financeira pelas escolas, resultando assim, num aprimoramento dos recursos estéticos para o desfile. Neste sentido, algumas estratégias são utilizadas pelas escolas de samba na busca de apoio por parte de grupos sociais não participantes do mundo carnavalesco. Não é de hoje que as escolas de samba promovem, como enredo para seu ciclo anual, personagens importantes da história da cidade, políticos, grandes empresas e instituições, trazendo assim para o convívio da escola, pessoas com prestígio social estabelecido. No Império da Zona Norte, nos últimos desfiles, foram homenageados por enredos: a empresa pública Trensurb em 2005, o ex-deputado e patrono da escola Jacques Machado em 2006, o município de Xangrilá em 2007, o samba em 2008, e a empresa pública Correios para 2009. A busca pela “evolução do carnaval”, expressão corriqueira na fala de trabalhadores e dirigentes do Império, está pautada pela melhora de qualidade da apresentação artística da obra final de uma escola de samba: seu desfile de carnaval. O parâmetro carioca é estabelecido e incessantemente explorado no discurso dos trabalhadores de barracão, mas também é criticado e desaprovado por restringir as características do carnaval de Porto Alegre: suas próprias regras, sua própria identidade. Estevão considera que esta comparação insistente tem efeito negativo, já que, todo o trabalho produzido nos barracões só é aprovado


47 pelos dirigentes das escolas se forem rigorosamente aceitos no carnaval carioca (refere-se a todas elas, devido à sua experiência no carnaval). “Lá no Rio eles utilizam este material, lá no Rio eles fazem assim...”, foi uma das frases que o carnavalesco utilizou ao destacar o que considera prejudicial ao carnaval da cidade. 2.3. Dentro do Barracão do Império: a construção visual para o carnaval 2009 O Império da Zona Norte ocupa um barracão exclusivo no complexo Porto Seco, que tem a seguinte dimensão espacial: são quinze metros de altura, vinte e cinco de largura, e cinqüenta metros de comprimento. O tamanho dos barracões no Porto Seco impressionam pela imponência e pela adequação assegurada por seus profissionais, de que é um equipamento suficiente para a construção de desfiles de carnaval de grande porte. Dentro desta área construída há uma grande nave central que comporta o espaço destinado para produção das alegorias, e numa das extremidades do barracão, uma área anexada com dois pisos. A parte superior comporta uma cozinha, banheiros, um mezanino que possibilita a visualização de todo barracão, além de duas salas que servem de depósito e dormitório. Um dos carnavalescos da comissão da escola, Estevão, utiliza uma das salas como habitação nos meses em que trabalha no desenvolvimento das alegorias. Na parte inferior da área coberta, numa das extremidades do barracão, localiza-se o ateliê das fantasias, confeccionadas no seguinte processo: o desenho das fantasias é realizado por um figurinista (Augusto Lacerda), que o apresenta para um aderecista de barracão confeccioná-las. No Império este papel é cumprido por Chico, que elabora os protótipos de fantasias de todas as alas. Os protótipos são fantasias modelos que servem de exemplo para a reprodução de peças a partir dela, para toda uma ala no desfile. Cada ala da escola possui um diretor de ala, que cumpre a tarefa de contratação de costureiras e compra de materiais para o fabrico das fantasias de sua ala. As fantasias das alas para o desfile são confeccionadas e mantidas nas dependências do Império, e só são


48 manejadas pelos compradores no dia do carnaval, para evitar danificações que poderiam ocorrer em eventuais transportes individuais. Dois trabalhadores se destacam no desenvolvimento das tarefas do barracão, um por viver quase que integralmente o processo de construção dos elementos visuais, o outro pela sua larga experiência no carnaval. São eles: Estevão, um dos carnavalescos da escola com oito anos de carnaval; Moura, responsável pela serralheria e com mais de vinte anos de experiência no carnaval. Estevão cumpre a função de administrador dos materiais do barracão, coordenação dos trabalhadores contratados por tarefas, além de ser o escultor e responsável pela construção das alegorias. Moura trabalha principalmente com as estruturas de ferro que são à base dos carros alegóricos (serralheria), além de trabalhar com a carpintaria. Ele compartilha com Estevão a elaboração dos carros alegóricos e sua execução, e ambos já prestaram serviços para a maior parte das escolas de samba do carnaval da cidade. O reconhecimento de que a estrutura oferecida de barracões do Porto Seco é de “primeiro mundo” comparado aos locais de construção de carros alegóricos do passado, pode ser analisado nas conversas informais no barracão e principalmente nas entrevistas realizadas, as quais salientam uma melhor condição para a produção do carnaval e para os trabalhadores: “O que mudou é assim que, era calamitosa assim a estrutura que a gente tinha de barracão. Tanto no Estaleiro Só, eu não cheguei a trabalhar no porto mas, dizem que era complicado também por problema com o portão pequeno pra sair alegoria pronta de dentro, mas eu não cheguei a pegar esta parte. E eu peguei isto no Carandiru, lá na vila Farrapos. [ Lá tu ficou pouco tempo né?] É, eu trabalhei dois anos lá. [ Na vila farrapos.] Dois carnavais lá. [ E, comparado ao Estaleiro Só, lá também era a mesma coisa?] Não, lá era pior. [Pior?] Pior. Lá era pior.[ E isto foi antes do Estaleiro?] Foi depois do Estaleiro. [Estaleiro, Vila Farrapos, depois aqui?] Depois aqui, é. [Pô, teve uma mudança.] Teve, teve. No Estaleiro era complicado, mas ahn, lá no Carandiru não tinha, não tinha uma estrutura, não tinha um banheiro, não tinha uma cozinha sabe, não tinha um dormitório. Então quem trabalhava no Estaleiro ali tinha, ah, morava na Restinga mas se deslocava todo dia, outro morava na zona norte e se deslocava todo dia. Ali, ficou muito contramão ali até por, ahn, ônibus, local meio, como é que posso te dizer assim ...


49 complicado.” 2008).

19

(Entrevista cedida por Estevão em 29 de agosto de

Moura também relatou os grandes obstáculos vividos na construção de carnavais do passado, detalhando de que forma os trabalhadores do barracão viviam e as dificuldades que enfrentavam em outros barracões, como o do Estaleiro Só e o da Vila Farrapos. Este último apelidado de “Carandiru”, devido às condições precárias das instalações ser comparada às do famoso presídio de São Paulo, que já não existe mais: “[O que mudou em relação a outros barracões onde se produzia carnaval antes daqui. Qual a diferença?] O carnaval do passado com o

carnaval do Porto Seco... Porque no carnaval do passado Ulisses, a gente não tinha um banheiro, não tinha onde comer, não tinha onde tomar banho, não tinha nada. A gente dormia no meio dos ratos, que a gente, sempre, é, optou por dormir no barracão, entendeu? [ Sim.] E a gente, era mosquito, barata, rato entendeu. A gente passou de tudo. A gente dormiu na rua debaixo de viaduto. Só tu vivendo mesmo a coisa né. Então o Porto Seco pra mim né, na minha opinião, o Porto Seco, é, é uma Mercedes. Entendeu? Pode ser melhorado né. Mas tá bom. Da forma que tá, tá bom. Eu trabalhei em vários lugares, eu trabalhei no Rio, eu trabalhei em São Paulo, trabalhei na Bahia, trabalhei com vários países fora, também. Trabalhei pela Ouro e Prata, em todos países vizinhos daqui. E aqui é ainda um dos melhores lugares que tem, mais seguro, família, ninguém tá te roubando. Então, é muito bom o Porto Seco pra mim.” (Entrevista cedida em 9 de setembro de 2008).

Os barracões do Porto Seco são saudados pelos trabalhadores pela grande melhoria das instalações, com pontos de água, luz, banheiros, dimensões apropriadas para a construção dos carros alegóricos e ainda o benefício de duas inovações no carnaval da cidade: a proximidade da pista de desfile e a possibilidade de reciclar boa parte do material para utilização em outros carnavais. Os carros alegóricos saem do barracão, andam de cem a duzentos metros até a área de desfile, e retornam novamente ao barracão. Esta facilidade permite que os carros não se avariem com o deslocamento até a pista de desfile, como acontecia com muita freqüência antes do complexo. Carros alegóricos que quebravam antes de chegar à pista e no meio do próprio desfile eram cenas comuns na história do carnaval porto alegrense. O barracão próximo à pista também possibilita a guarda 19

- Os textos entre colchetes e em itálico nas entrevistas reproduzidas aqui correspondem às intervenções do pesquisador.


50 e manutenção das alegorias, que proporciona às escolas a larga reutilização dos materiais. O carro abre-alas da escola fora todo construído com ferros reutilizados e as esculturas remodeladas em outros elementos provenientes do carnaval passado. Esta reutilização de materiais proporciona uma economia bastante importante para a escola, porque no passado, todo material utilizado era descartado com o fim do desfile. Com o Porto Seco, as escolas possuem um local adequado para guardar as alegorias visando à desmontagem e reutilização, além da armazenar os materiais comprados que sobram e o maquinário: “(...) a gente saia de São Leopoldo pra desfilar em Porto Alegre os carros ficavam prontos, as alegorias prontas. Quando chegava lá em Porto Alegre nós tinha que buscar num poste de luz, uma extensão pra ligar as pistolas, pra refazer toda a alegoria dos carros, ressoldar alguma coisa, carro pegava fogo, entendeu. Aqui o carro sai, é, 100 metros tá entrando na avenida, passou a avenida 100 metros tá entrando no barracão, entendeu. Não estraga mais ferro, não estraga compensado, alegorias todas reaproveitadas, entendeu. Isso aqui é como se não saísse do barracão, entendeu, a gente faz um ‘teste drive’ passando na avenida e volta pro barracão. (Entrevista cedida por Moura em 9 de setembro de 2008)

Antes dos barracões no Porto Seco, a longa distância do local de construção das alegorias era o principal impedimento de que os carros alegóricos fossem guardados e reutilizados. Nos barracões do Carandiru na Vila Farrapos, os carros alegóricos chegavam a percorrer 12 quilômetros do local de construção dos carros até a pista de desfile, arrastados por pessoas contratadas pelas escolas. Junto a isto, as escolas não tinham os barracões disponíveis todo o ano, já que somente eram alugados para as escolas poucos meses antes do carnaval. Assim, o carnaval era produzido em curto espaço de tempo. Muitas vezes, o processo de construção dos carros alegóricos de uma escola tinha seu início em janeiro, tendo pouco mais de um mês para o término do trabalho e o desfile. O trabalho atrasava devido à espera das escolas pela primeira parcela do cachê pago pela Prefeitura. Contando-me sobre isto, Estevão falou-me sobre o novo patamar atingido com o Porto Seco: “(...)Porto Seco melhorou, porque agora se tu quiser terminar o desfile ali, ahn, o ano que vem e já começar pro, pra 2010 tu pode por,


51 tu tem esta estrutura pra isto. [ sim, já tá aqui o material ] Sim, já ta aqui. Tem. Ah, vamos, a gente não tem grana pra fazer os carros, vamos desmanchar, vamos fazer uma reciclagem, vamos limpar sabe. Tem como tu fazer isto. Antes não, porque, deixava o barracão e ficava abandonado o ano todo. Não tinha o que tu fazer lá, não tinha como tu deixar o maquinário guardado. Não tinha como tu deixar uma pessoa morando lá sabe. Hoje tem. Tem como deixar um caseiro. É... Tem como trabalhar o ano todo, transformar em empresa se quiser, tem como fazer.” (Entrevista cedida em 29 de agosto de 2008)

O trabalho no barracão tem como responsável pelo desenvolvimento do projeto visual do enredo da escola, teoricamente, o carnavalesco. Ele coordena o desenho dos carros alegóricos e escolhe os elementos a serem representados no desfile, além de projetar os motivos das fantasias, ou seja, os elementos a serem abordados em cada ala partindo do enredo. No barracão do Império, os trabalhadores recebiam o projeto dos carros alegóricos do carnavalesco Luiz Fernando Reis, e desenvolviam as alegorias a partir desta proposta. No carnaval porto alegrense, os recursos financeiros escassos das escolas de samba deixam aos trabalhadores de barracão a difícil tarefa de proporem soluções e idéias para a execução do projeto de carnaval, que muitas vezes deve ser reajustado ao plano inicial. Por isto, os trabalhadores ressaltam seu papel de criadores em concomitância com o carnavalesco oficial. Para eles, a construção dos carros alegóricos quando realizado com o investimento adequado ao projeto, torna o trabalho muito menos complexo, podendo esbanjar qualidade. Mas com a verba sempre apertada, no limite do que é possível e impossível ser construído, fazer o carnaval torna-se uma tarefa que requer maior criatividade e um dote artístico aprimorado, num contexto de escassez de recursos financeiros. Dentre as diferentes estratégias utilizadas para a construção de carros alegóricos no barracão da escola, destacamos: utilização de materiais mais baratos para a substituição de materiais inviáveis de serem adquiridos; reelaboração do projeto inicial e substituição de materiais e elementos; larga reciclagem de materiais utilizados em outros carnavais que se encontram guardados dentro do barracão; impossibilidade de execução de alguns elementos, o que leva a eventuais cancelamentos, entre outras estratégias. Estes e outros obstáculos fazem com que os trabalhadores do barracão encarem seu trabalho


52 como arte, nesta árdua tarefa cotidiana de invenção. Por isto, os trabalhos produzidos no barracão não são encarados como um trabalho comum, que qualquer profissional com competência técnica possa executar. Para os trabalhadores de barracão do Império, o trabalho da montagem das alegorias e adereços é um trabalho artístico, porque envolve a elaboração de peças a partir da combinação de novas idéias, de uma inspiração e reflexão próprias do mundo da arte. A ausência cotidiana do carnavalesco Luiz Fernando Reis no barracão, já que reside na cidade do Rio de Janeiro, e só acompanha o trabalho no barracão em algumas visitas (quando a maior parte do trabalho já está finalizado), deixa uma grande liberdade criativa para os artistas. Mesmo que esta autonomia seja permitida por ele, os trabalhos no barracão não se isentam da intervenção dos dirigentes da escola, provocando uma relação conflituosa entre os dois pólos estruturais: os dirigentes da quadra e os trabalhadores de barracão. No carnaval de Porto Alegre, o carnavalesco (juntamente com sua equipe de barracão) não é considerado a figura mais importante do carnaval. Como vimos anteriormente, a primazia do visual ainda não está confirmada como efeito da consolidação do carnaval espetáculo. Os profissionais do pólo do samba, chamados de destaques - entre eles os passistas, mestre sala e porta bandeira, intérprete, harmonia musical e porta estandarte – cumprem papéis mais valorizados no mundo carnavalesco daqui. As escolas concorrem nos primeiros meses pós-carnaval, nas contratações de destaques que recebem valores relativamente altos em relação ao cachê cedido pela prefeitura, em detrimento dos profissionais do pólo visual menos prestigiados. A valorização dos destaques no carnaval de Porto Alegre pode ser avaliada na existência de uma associação em particular (União dos Destaques do Carnaval de Porto Alegre - UDESCA), com sede numa das salas da associação das escolas de samba (AECPARS). Já entre os trabalhadores de barracão, nenhuma associação ou sindicato foi fundado até o momento. Só existiram idéias de criação, conforme contam os trabalhadores do Império. Os contratos de trabalho formalizados por carteira assinada também estão longe de vir a ser a


53 realidade dos barracões. Os acordos são feitos na informalidade, na base da palavra. Para as escolas de samba, os destaques participam dos eventos shows, dos ensaios para o carnaval, do desfile na avenida. São consideradas as estrelas maiores do espetáculo, os que levam o público para o carnaval, na visão dos dirigentes. Os trabalhadores de barracão não participam efetivamente da movimentação da quadra. Sua visibilidade para a maior parte da escola é restrita ao dia do desfile quando seu produto é enfim apresentado, e sua ligação com a política da quadra se restringe ao trato com alguns dirigentes, que cumprem o papel de supervisores do trabalho e do pagamento dos trabalhadores. Os problemas apontados por Estevão, tendo em vista sua experiência em outras escolas no carnaval além do Império, levam em conta esta falta de reconhecimento e de condições que o trabalhador de barracão enfrenta. Segundo ele, a relação dos artistas de barracão com as escolas no carnaval da cidade ainda é problemática, em especial, com os dirigentes. A falta de pagamento pelos trabalhos realizados; a falta de autonomia de criação dos artistas pelo abuso de autoridade dos dirigentes, que invariavelmente se intrometem na elaboração das peças como demonstração de poder; o desrespeito e a invisibilidade de quem está no barracão; a falta de condições de trabalho (apesar de melhoradas consideravelmente com o Porto Seco) - como alimentação, acomodações, e materiais para sua execução - são os principais motivos que o trabalhador de barracão do Império entende que, somados, levam ao principal impasse para o crescimento do carnaval porto alegrense: a falta de mão de obra especializada nos barracões: “(...) o que falta ainda assim pra Porto Seco é mão de obra. Mão de obra qualificada. Então falta costureira, falta serralheiro, falta isto. E, eu lembro que quando eu comecei lá no Imperadores (...) Seria o mesmo. Problema interno. Problema de mão de obra é interno das diretorias. [ Sei ] Sabe, porque é diferente tu lidar com, sei lá o artista, hum, é que geralmente diretoria, não quer dizer que não manje de alegoria, não quer dizer que não manje de fantasia, e às vezes não manja sabe. Às vezes ele é um presidente ou um diretor ali, mas ele tá, então isto é carente no nosso carnaval. Isto tranca a evolução, na minha opinião sabe. Porque se tu deixar o artista trabalhar, deixar ele criar, se der condições, ahn. Se tu botar um Michelangelo aqui no barracão ou


54 um Leonardo da Vinci não vai fazer. Se tu não der condições pra ele. E isto é uma ferida aberta dentro do nosso carnaval sabe. Porque eu conheci artistas que não estão mais no carnaval. E às vezes encontro eles e, ahn, na rua ou sei lá, eles dizem pô tu ainda ta lá, sabe. Por que eles acham muito complicado, e realmente é. Tem que ser meio teimoso pra, pro carnaval sabe, porque não é qualquer um que se sujeita a trabalhar em barracão sabe, então eu conheço muitos escultores que não estão mais, conheço pessoal do teatro que, que eu acho que seria uma boa influência dentro do nosso carnaval sabe, uma cultura né, de certo valor. Estas pessoas largaram né. Tem algum ou outro que resiste aí (...)” (Entrevista cedida em 29 de agosto de 2008)

Estevão conta ainda que teve experiências com muitos artistas provenientes do teatro, das artes plásticas, das universidades que, ao passarem pelos problemas já citados, desistiram de trabalhar no mundo do carnaval. Ele é um, dos apenas dois escultores que trabalham atualmente no carnaval de Porto Alegre. Nos últimos anos realizou trabalhos por tarefa, chamados de ‘free-lancer’, para grande parte das escolas do grupo especial, realizando em sua maioria, esculturas para carros alegóricos. O acerto este ano com o Império, quando passou a um cargo mais importante, obriga-lhe trabalhar com exclusividade para a escola. Não se sabe a quem as outras escolas que dependiam das suas esculturas recorrerão. O motivo apontado para o rápido crescimento do Império - que em poucos anos saiu das divisões de acesso e se tornou campeão do carnaval - com o melhor desempenho administrativo e de resultados na era Porto Seco, era apontado pelos trabalhadores através de uma única razão: a competência do presidente Ademir de Moraes, o “Urso” (licenciado do cargo, já que recentemente foi eleito presidente da AECPARS). No carnaval de Porto Alegre, o papel atribuído para os presidentes das escolas de samba é de poder quase exclusivo. Todas as responsabilidades da escola são do presidente: de pagamentos, de busca de patrocínios, de contratações, de supervisão de quadra e de barracão. Desta forma, a centralização dos poderes e das informações da escola encontram-se sob domínio deste cargo, que “vai buscar na rua o dinheiro”, “corre atrás”, “paga do seu próprio bolso”, visando o funcionamento da entidade. Muitas vezes o presidente bota a mão na massa na confecção das alegorias atrasadas do barracão, em escolas menores.


55 O presidente de escola de samba relaciona-se com a entidade misturando seu papel público com sua vida privada. A função que cumpre está longe de ser uma

relação

meramente

profissional,

já

que

financeiramente

não

são

recompensados pelo seu trabalho ininterrupto, pelo menos não declaradamente. Muitos são os presidentes que ocupam há bastante tempo funções diretivas, fato este que levanta suspeita sobre os vícios da administração, má utilização da verba pública sob sua responsabilidade (é o presidente quem recebe o cheque da verba da prefeitura em seu nome), além da resistência às novas idéias e renovação do quadro de dirigentes do carnaval. De tal forma, a avaliação da administração de uma escola de samba é quase que correspondentemente ligada ao trabalho realizado pelo presidente da escola: “[ A figura do presidente...] Ela é fundamental. Ah, vamos fazer uma comparação assim com o tabuleiro de xadrez. A escola seria o rei, o presidente seria a rainha. O presidente tem que proteger a escola, a entidade de todas as formas. Senão ele não assume, vai fazer outra coisa. Aí tem presidente que topa ser presidente, e assumir uma escola e não abraça a causa sabe, isto é um grande problema. Agora, se tudo parte do presidente se ele for um bom presidente e fizer uma boa, ser uma boa administração, a escola só tende a crescer. E tudo passa por ele.” (Entrevista cedida por Estevão em 29 de agosto de 2008).

Moura ao ser questionado sobre a diferença do Império para as outras escolas também não teve dúvidas: “A diferença aí tá no presidente da Escola. O Urso é um camarada assim, ele... a gente trata com ele, não precisa contrato não precisa nada com ele entendeu. Ele é um dos únicos presidentes dentro do carnaval que paga. Se ele te disser, eu posso te dizer, eu sou o serralheiro mais bem pago de todo o complexo, sou eu. Eu faço, eu dou um orçamento pra ele, ele não diz nem água nem sal, ele só diz pode trabalhar porque eu vou te pagar, entendeu. E eu recebo só do dinheiro dele, todo, entendeu. Então é assim oh. Ele tá se sobressaindo a todos porque ele é um ótimo administrador. Ele dá, ele vai brigar na rua pra pagar o barracão, pra montar as fantasias, pra botar as alas na avenida. Ele bota, ele dá duas ou três alas é ele que paga, pra comunidade aí entendeu. Isto tudo aí é administração bem feita sabe. Ele é um ótimo administrador, ele não passa, ele se sobrepõe a um bom administrador, ele é um ótimo administrador. Presidente Urso é de outro planeta, o cara não existe”. (Entrevista cedida por Moura em 9 de setembro de 2008)

O Império da Zona Norte é avaliado como uma escola em que os dirigentes respeitam o trabalho dos artistas de barracão, que cumpre os acertos


56 financeiros que faz, que planeja a montagem do carnaval em antecedência às demais, e que entrega o barracão pronto em dezembro porque começa o ciclo carnavalesco muito antes das outras.

Por estas razões, os trabalhadores do

barracão do Império consideram que têm uma relação com a escola, assim como com o carnaval, diferentemente dos trabalhadores de outras entidades, porque fazem também por prazer, por gostar da escola e não só como sustento. Nos barracões do Porto Seco, o Império da Zona Norte começa o fabrico do seu carnaval pouco mais de dois meses após o anterior ser encerrado (neste ciclo, no início de maio de 2008), enquanto que, a maioria das escolas só abre seus barracões no final do ano, aguardando a primeira parcela da verba pública. Podemos apreender que no carnaval de Porto Alegre existe um entendimento por parte dos trabalhadores, que o Império da Zona Norte é uma escola diferenciada pela sua organização e planejamento do ciclo carnavalesco. Os trabalhadores consideram-se satisfeitos ao prestarem serviços para o Império, “a escola que dá melhores condições de trabalho para o artista de barracão”. Esta é a explicação para o fato de que o Império seja uma escola vencedora e respeitada, com dois vice-campeonatos em 2006 e 2007, e a conquista do título do carnaval de 2008. Vitória que pode ser atribuída ao esforço modernizador da escola, paralelamente à construção da estrutura do Porto Seco oferecida pela Prefeitura. O complexo cultural Porto Seco trouxe um novo alento para o carnaval da cidade. Ele é saudado pelas escolas de samba e pela imprensa especializada no carnaval como um fator determinante para o pretendido sucesso e para um futuro crescimento da competição. Este grandioso equipamento montado é festejado como um dos melhores do Brasil para o fabrico do carnaval, trazendo para os trabalhadores de barracão do Império a esperança de que tudo irá melhorar, contribuindo para o salto de qualidade visual da festa. Mesmo que, as transformações sonhadas pelos trabalhadores, se realizem muito lentamente.


57

Capítulo 3 O DESFILE DO IMPÉRIO DA ZONA NORTE: Como uma escola de samba se organiza em busca do título de campeã do carnaval

Faltando apenas duas semanas para os desfiles de carnaval, dos cinco carros alegóricos que a escola apresentaria no seu desfile, em quatro deles restavam apenas pequenos detalhes para sua finalização. Somente o último deles, que seria o mais simples dos carros, estava em fase inicial de construção, demonstrando a antecipação da escola no desenvolvimento do seu projeto visual. Em várias conversas com meu principal informante do barracão, o carnavalesco Estevão, além de obter novas e intrigantes informações técnicas dos carros alegóricos, pude conhecer e discutir os rumos do carnaval da cidade. E em particular, a importância do trabalho desenvolvido no Império da Zona Norte, como mostrarei a seguir, detalhando o resultado obtido e o desfile de carnaval de 2009. 3.1. Em Busca do Bicampeonato: os preparativos para o desfile do Império da Zona Norte No estágio final de construção das alegorias, o principal trabalho era desempenhado pela equipe de decoração. Depois de já construídas as partes fundamentais que fazem a base dos carros alegóricos - a estrutura de ferro e o forramento com madeira - chegava à hora de “embelezar”, de “encher” as alegorias, com o trabalho do decorador contratado pela escola, mais tarde elevado a carnavalesco da comissão de carnaval, Sérgio Ávila e sua equipe. Ele tinha por responsabilidade o toque final e o preenchimento de cada alegoria, propondo soluções criativas em cores, texturas e acabamentos daquilo que ainda não havia sido feito por Estevão, responsável pelas primeiras etapas.


58 Estevão era o escultor e liderava a equipe de trabalhadores que realizavam a maior parte do processo, seja de soluções práticas no desenvolvimento dos carros, escolha e utilização de materiais, adaptações, releituras

do

projeto,

improvisações,

da

serralheria,

da

marcenaria

e

gerenciamento do trabalho de barracão. Luiz Fernando, carnavalesco carioca contratado pela direção da escola, foi diretamente responsável pelo projeto conceitual dos carros (desenhos), pouco participando da execução deles. Nos bastidores do barracão, os trabalhadores comentavam sobre a diferença de funções e estilo entre os carnavalescos de barracão cariocas e gaúchos. Se lá, o trabalho do carnavalesco é intelectual e teórico, visando apenas o gerenciamento das atividades, aqui, o bom carnavalesco se faz na prática, “botando a mão na massa”. Sérgio Ávila (e sua equipe de decoração) havia sido contratado no começo de janeiro de 2009, faltando pouco mais de um mês para o carnaval, no lugar da equipe de decoração de Rony Rocco (sua saída foi devido a problemas particulares). Sérgio Ávila desenvolvia como carnavalesco o enredo de outra escola do grupo especial, a Acadêmicos de Gravataí. Sua entrada no Império como mais um carnavalesco somando-se à comissão de carnaval, já composta pelos citados anteriormente, mais Gugu Lacerda, o figurinista, foi feita de forma intranqüila. A direção da escola incumbiu Sérgio a tarefa da concepção e execução da última alegoria de desfile. No caso do Império, a quinta alegoria20 tinha uma base metálica de sustentação do peso, chamado de chassi ou a base do carro, menor e mais frágil que as outras. Como ela ficou a cargo do último carnavalesco contratado pela escola, as soluções proposta por ele na concepção da alegoria foram consideradas incoerentes aos outros carros, e até mesmo desajustado esteticamente com o padrão oferecido pelas outras alegorias do Império, na - No regulamento do desfile, para as escolas do grupo especial, é exigido o número mínimo de quatro carros alegóricos, e no máximo cinco carros. Normalmente, as escolas de samba do grupo especial priorizam a construção das quatro primeiras alegorias, número mínimo do regulamento. A quinta alegoria, no caso do Império da Zona Norte, é deixada para desenvolvimento no final dos trabalhos do barracão, com sobras de materiais, e com recursos provenientes dos últimos ensaios shows, quando entra para a escola uma boa receita. 20


59 opinião de alguns imperianos. Como se, no conjunto alegórico, o último carro estivesse fora do nível de excelência das alegorias anteriores, construídas por outros profissionais. Além desta discussão entre os imperianos sobre a qualidade desta alegoria, também a insatisfação da equipe de trabalhadores da escola com uma reportagem de um programa de tevê21 que continha trechos de entrevistas de Sérgio Ávila. Nele, Sérgio apresentava o enredo da escola e os preparativos do desfile, sendo identificado pela matéria exibida como o carnavalesco oficial do Império. Nesta ocasião um dos mais importantes trabalhadores de barracão, referiu-se com profunda indignação com a falta de reconhecimento de seu trabalho, e de nem terem ao menos citado na reportagem os outros carnavalescos da equipe. Este fato gerou um sério conflito entre este trabalhador e dirigentes da escola. Na visão dele, isso era uma das coisas que mais doía no carnaval, a falta de reconhecimento e injustiça com quem trabalha, apesar de receber tudo em dia. Segundo ele, o trabalhador de barracão tem que ser apaixonado pelo que faz e sentir-se prestigiado. “Eu também tenho ego”, me completou. Como no caso descrito acima, as disputas internas entre carnavalescos da mesma escola nas confecções das alegorias, se exacerbavam na reta final do carnaval, e são extrapoladas para a competição entre escolas e entre os melhores barracões e os melhores carnavalescos. Além do dinheiro investido nas entidades, a pequena, porém, importante exposição na mídia, forma o ambiente de tensão e competitividade pela conquista do resultado favorável na apuração, e na busca do reconhecimento do trabalho. Todo este cenário de seriedade e competição, dentro da festa brasileira que celebra a alegria e o ápice da desordem (Damatta, 1997) justifica uma frase que escutava com recorrência do diretor de carnaval da escola Walmir: “carnaval é coisa séria”. Nos dias de ensaios na quadra, o rigor exigido pela direção na apresentação dos destaques e no seu desempenho, além do requinte das fantasias e dos preparativos com a festa, nos indicava uma competição para além do desfile oficial, e não menos importante que ele: qual escola tinha o melhor show? Qual das quadras tinha a melhor festa? Qual o 21

- Reportagem da série que apresentava os bastidores das escolas de samba de Porto Alegre para o carnaval de 2009, no programa “Jornal do Almoço” da RBS TV, sucursal da rede Globo no estado do rio Grande do Sul, janeiro de 2009.


60 melhor conjunto de passistas? Qual a melhor bateria? Estas e outras disputas rendiam calorosos debates e complexas argumentações. O Império se esmerava em produzir o maior impacto possível nos eventos considerados importantes antes do desfile oficial. A escola utilizava efeitos pirotécnicos, luzes, fumaça e componentes muito bem fantasiados. Entendia-se que a escola com melhor grupo show e que apresentasse melhor performance nos dias de ensaios e eventos pré-carnavalescos, puxava a torcida para seu lado, trazia mais contingente para sua quadra (por isto, mais recursos financeiros), e teria melhor rendimento nas notas dos “quesitos de chão”.22 Assim, destaques de renome no mundo carnavalesco local eram as estrelas maiores do espetáculo nas quadras, e significavam um bom investimento para o sucesso dos ensaios, além da crença nas boas notas no dia do desfile. O Império se destacava no carnaval de 2009 por possuir uma equipe de primeira linha no carnaval de Porto Alegre. A necessidade de deixar os componentes a par da letra do samba, e os destaques afinados na dança e na coreografia, além do retorno lucrativo dos ensaios shows, faziam com que as escolas se organizassem numa agenda apertada de ensaios e eventos pré-carnaval. Estas ocasiões possibilitavam o público do carnaval, e os dirigentes das escolas, fazerem seus prognósticos do que estaria dando certo e do que ainda precisaria melhorar ou ser substituído nos seus grupos de trabalho. O desempenho do Império da Zona Norte, segundo os próprios imperianos, variava de ensaio a ensaio. No ciclo de 2009 alguns problemas se tornaram flagrantes nos ensaios shows que assisti, fato que preocupava alguns dirigentes da escola. Notava que o desempenho do grupo show variava consideravelmente devido ao número do público assistente, a demonstração de apoio e animação dele, e a importância do evento em questão. O que era quase uma unanimidade entre dirigentes da escola era a dúvida de como se comportaria o samba enredo da escola, porque ele era pouco cantado e demonstrava ser de difícil absorção, decorrente da dificuldade de memorização da letra, e considerado por muitos,

- Os ‘quesitos de chão’ são os considerados de pertencimento a performance exclusiva do samba: harmonia musical, bateria e samba enredo.

22


61 bastante extenso. Imperianos me diziam que a letra do samba trazia palavras de difícil significado, enquanto outras opiniões consideravam o samba bom, porém, seria o enredo sobre os Correios que ocasionava a dificuldade de comunicação direta com o público. Estevão considerava o tema sobre os Correios um problema para a criação dos artistas, nas suas palavras: “o enredo é desmaiado”. Ou seja, não provocava uma simpatia direta com o público, e não possibilitava um samba que empolgasse os participantes dos ensaios. Lembrando que no ano de 2008, na conquista do campeonato da escola, o tema enredo era sobre a África e a origem do samba. Uma das principais forças deste desfile foi um samba enredo que fez muito sucesso, além de um tema enredo de fácil assimilação e leitura por parte do público e jurados. O intérprete oficial no seu segundo ano na escola, Sandro Ferraz, uma das principais atrações do carnaval de Porto Alegre, chamava atenção quase que em todos ensaios devido à falta de canto do samba dos destaques e do público. Inclusive, Sandro chegava a interromper a passagem do samba nos ensaios, sejam técnicos ou shows, e fazia freqüentes pedidos à escola, desejando mais força

no

canto.

Estas

situações

se

tornavam

incômodas

na

quadra,

freqüentemente o “puxão de orelha” era depreciado pelos destaques e incomodava o público que continuava frio aos pedidos. Sandro dizia que fazia este papel inconveniente pelo bem da escola e na busca por mais um título. Já que uma escola de samba não desenvolveria um desfile campeão “sem tesão, sem força, energia no canto, vibração na evolução”. Na apuração do resultado, o samba confirmou as expectativas por parte de alguns críticos, já que teve um desconto de meio ponto no somatório, e no cômputo geral foi o quesito que mais perdeu pontos para a escola, dentre os quesitos em disputa. Walmir, o diretor de carnaval, momentos após o término da apuração, declarou-me que na sua primeira avaliação do resultado, logo percebeu que o bicampeonato da escola foi adiado principalmente com os descontos do quesito samba enredo. Na preparação do carnaval de 2010, a escola divulgou no mês de março de 2009, o regulamento do seu festival de escolha do samba enredo, com a premiação de dez mil reais para o vencedor, quatro vezes maior


62 que a premiação do samba de 2009. Esta grande premiação indica que a escola vai investir fortemente neste quesito, na expectativa de melhorar a pontuação em samba enredo para 2010. A bateria tinha um desempenho semelhante ao canto do samba pela escola. Com muitos altos e baixos, a ala de bateria não demonstrava uma total confiança por parte dos dirigentes do Império, que se demonstravam insatisfeitos com a falta de disciplina e a dificuldade de comandar a “gurizada” da bateria. Mestre Márcio era muito querido pelos instrumentistas, e sua ala de bateria tinha uma organização à parte dos dirigentes da escola, que dependiam muitas vezes da boa vontade dos seus integrantes. Márcio tinha um desempenho irretocável no comando da bateria do Império tratando-se de resultados de apuração. Em seis carnavais seguidos pela escola, Márcio colecionou exclusivamente notas dez na totalidade dos julgamentos dos carnavais anteriores. Na apuração do carnaval 2009, com o desconto de dois décimos no total, mestre Márcio teve seu primeiro revés que lhe custou a substituição logo após o carnaval. Para o carnaval 2010 já está contratado outro mestre de bateria, premiado com o estandarte de ouro de melhor bateria no carnaval 2009 (mestre Sandro Gravador dos Bambas da Orgia). Nas escolas de samba, o trabalho pode até ser criticado ou a qualidade de um destaque responsável por quesitos seja duvidosa. O resultado na apuração dos quesitos que decidem a sorte e colocam um ponto final nas críticas quando as notas dez são totalizadas. Com a perda de apenas um décimo, todo o trabalho pode ser colocado em cheque, e a avalanche de dúvidas e de críticas pode se tornar insustentável na manutenção do destaque ou do cargo, podendo ocasionar na sua substituição ou deposição. Além dos “quesitos de chão”, onde o desempenho dos fundamentos do samba são os mais importantes, o Império da Zona Norte nos indicava um novo caminho a ser trilhado pelas escolas. Para a escola ser campeã, não bastava um ótimo chão, seria necessário enfatizar os quesitos visuais preparados no barracão. Lá era onde a escola destinava a maior parte de seus recursos e demonstrava toda sua imponência e superioridade frente às escolas adversárias. Estevão acreditava que com um trabalho de barracão bem realizado, demonstrando nas


63 alegorias e fantasias a qualidade, grandiosidade e o bom gosto, traria para a escola um ganho fundamental. Para ele, normalmente os ânimos dos componentes em desfile aumentam consideravelmente “lá na cabeceira da pista, na concentração”, na medida de que encontram a escola visualmente bem desenvolvida. A crença de que um trabalho visual bem feito “empurra o chão da escola”, e convenceria os jurados a dar as melhores notas, era um dos sensos comuns nas diversas opiniões por mim ouvidas no Império da Zona Norte. E me parece que, se este raciocínio proposto principalmente pela diretoria do Império se mostrar válido e passar a arrebatar títulos dos carnavais nos próximos anos, se consolidará a ênfase no visual desenvolvida na tese de Cavalcanti (1999), colocando o carnaval de Porto Alegre nos trilhos do carnaval espetáculo, já estabelecido com sucesso em outras cidades. 3.2. O desfile vice-campeão do Império no carnaval de 2009

O desfile planejado pelo Império da Zona Norte no carnaval 2009 contaria a história da comunicação escrita, homenageando a consolidação da empresa pública brasileira os Correios. O desfile programado para um mil e oitocentos componentes, e com duração de no máximo sessenta minutos, percorreria uma pista de quatrocentos e cinqüenta metros de comprimento, com a estrutura da escola dividida em cinco setores, programados para contar o enredo “Até Caminha já sabia: Mandou, Chegou! Correios, eficiência e credibilidade”. Cada setor abriria com um carro alegórico, e um número equilibrado de alas fantasiadas em relação com sua temática. Assim, assistíamos os setores em desfile pela pista, de acordo com a história da comunicação descrita em ordem cronológica. A abertura do desfile se deu com a comissão de frente, doze componentes fantasiados com muito esplendor representando anjos mensageiros, portavam trombetas e traziam o emblema do Império em pequenos estandartes, e apresentavam uma coreografia ensaiada especialmente para o desfile. O setor de número um da escola, iniciava com o carro alegórico abrealas, o maior e mais imponente carro dentre o conjunto alegórico. O carro


64 representava as civilizações antigas responsáveis pelas primeiras rotas de comunicação escrita: os egípcios, os maias e os romanos. Os dois leões símbolos máximos da escola, vinham na frente do carro, cada um chegava a 4 metros de altura, com movimentos de suas patas dianteiras e traseiras produzidas por artistas de Parintins23, que trabalharam no barracão da escola na confecção destas peças. Os leões eram conduzidos nas rédeas por uma grandiosa escultura de um soldado romano dirigindo uma biga militar (carro de duas rodas do exército romano, normalmente movimentado por dois cavalos), e completava a alegoria ao fundo, uma enorme pirâmide egípcia. Provavelmente o soldado imponente, esculpido em isopor por Estevão, se destacaria como uma das maiores esculturas do carnaval deste ano. As alas que seguiam o abre-alas vinham com fantasias representando as civilizações antigas citadas. O segundo setor do desfile abria com o carro alegórico de número dois, o carro do descobrimento do Brasil. Uma caravela portuguesa se destacava no alto, as florestas brasileiras representadas nas laterais com ocas indígenas habitadas por belas índias. À frente do carro alegórico, um grande pergaminho simbolizava a primeira correspondência entre Brasil e Portugal, a carta de Caminha. As alas fantasiadas representavam os portugueses colonizadores, os indígenas e a ala de baianas com o Brasil tropical nas suas matas e seus animais, numa grande profusão de frutas e cores. No terceiro setor, o carro de número três, “o Brasil Imperial”, compunha um grande palácio habitado nas suas janelas por cortesãs coreografadas, representando o início do período do país independente de Portugal. Em cima da alegoria, vários cavalos esculpidos eram encilhados por componentes que encenavam o grito do Ipiranga por Dom Pedro I, personagem ali presente nos seus trajes militares da época. Nas alas que se sucediam, a fundação da primeira instituição de trocas de correspondências no Brasil, fundada 23

- O Festival Folclórico de Parintins é uma festa popular realizada no mês de junho em Parintins, no estado do Amazonas, e conta com o patrocínio dos Correios. O festival ocorre a céu aberto numa estrutura de desfile chamado bumbódromo. A competição se dá entre duas agremiações, o Boi Garantido (de cor vermelha), e o Boi Caprichoso (de cor Azul). As alegorias apresentadas pelos Bois em Parintins ficaram famosas por apresentarem esculturas em movimento. Anualmente, muitos dos trabalhadores dos Bois são requisitados pelas escolas de samba do Rio de Janeiro, São Paulo, e mais recentemente Porto Alegre, entre outras cidades. Estes trabalhadores, no meio carnavalesco, são reconhecidamente especialistas em “movimentos mecânicos” nos carros alegóricos.


65 por Bregaro, que viria a ser mais tarde os Correios atuais. O primeiro selo do Brasil, o olho de boi, também era representado numa ala fantasiada. Os últimos dois setores do desfile faziam uma referência direta à empresa pública homenageada. O quarto setor era aberto pelo carro alegórico dos “Correios”. No centro do carro, a grande escultura de um carteiro trazia uma cena comum retratada com humor. O carteiro era atacado por um cachorro que já trazia na boca um pedaço de sua calça, na difícil missão das entregas de cartas e encomendas em locais inacessíveis. Compunham também o carro, carteiros pedalando bicicletas, e ao fundo, uma enorme pilha de caixas indicava as encomendas a serem entregues. Nas laterais da alegoria, estavam impressos documentos de personagens da música popular brasileira, como Cartola, e objetos como um enorme celular que simbolizavam o serviço de achados e perdidos. No alto do carro, um papai Noel representava o projeto social de natal dos Correios, que recebia neste período cartas de crianças carentes com pedidos de presentes de natal atendidas por clientes, e a entrega sendo feita gratuitamente pela empresa pública. No último setor, os projetos esportivos e culturais patrocinados pelos Correios. No carro alegórico de número cinco, componentes coreografados faziam referência ao nado sincronizado e aos saltos ornamentais, esportes patrocinados pelos Correios. No alto do carro, as esculturas de bois representavam o festival folclórico de Parintins, com componentes destacados em fantasias com as cores dos Bois rivais. As alas que fechavam o desfile, também traziam outros esportes patrocinados, como a seleção brasileira de futsal. O barracão do Império no dia de desfile é utilizado para recebimento e armazenamento das fantasias das alas da escola, assim como dos destaques, que são transportadas no mesmo dia pela manhã do “barraquinho” para o barracão. Utiliza-se o barracão da escola na pré-concentração do desfile, e quando as alegorias são tiradas para fora do barracão, ele vira um amplo espaço de concentração dos componentes da escola, funcionando como vestiário e guarda de pertences. Os componentes devem rumar até o barracão da escola com antecedência exigida pela direção de pelo menos 2 horas. Lá eles fantasiam-


66 se, e saem para a área de concentração da pista de desfile. Só passa para a área de concentração do desfile, restrita por uma cerca e seguranças, os componentes fantasiados da escola, os dirigentes e o pessoal credenciado da imprensa e convidados. O Império da Zona Norte foi a quinta escola a desfilar no sábado, dia 21 de fevereiro, com horário marcado para três e cinqüenta da manhã. Com duas horas de antecedência estava marcada a pré-concentração da escola. A direção do Império deveria posicionar os carros alegóricos na área anterior das grades da concentração, e seu presidente ou vice assinar uma planilha após o efetivo posicionamento, sob pena de perda de pontos ao não obedecer à regra de horário marcado. Faltando uma hora para o desfile, a escola anterior ao Império entrava na pista para sua apresentação, e o Império da Zona Norte com seus componentes deveriam avançar para a área de concentração, iniciando a armação da escola. Este momento é muito importante para as escolas de samba, o nervosismo entre os seus diretores, o corre-corre de componentes se posicionando nas suas alas com os esplendores das fantasias nas mãos, dão o clima de emoção misturado à ansiedade para tudo dar certo. A forma como a escola vai se compactando e se organizando por setores, conforme o organograma citado, deve ser realizado na concentração sem equívocos, e obedecer ao tempo limite destinado à sua montagem. Assim, com o fim da apresentação da escola anterior, depois de um intervalo de 10 minutos, a coordenação dos desfiles (organizada pela associação) toca a sirene de tempo, avisando que em 5 minutos a escola deve estar pronta para o desfile. Faltando dois minutos para o início, se aciona mais uma vez a sirene, indicando que o som do sambódromo está liberado para a escola. O presidente da escola dá sua palavra de motivação para os componentes, a escola faz seu grito de guerra na voz de seu intérprete, e abre-se a pista com o soar da terceira sirene para os 60 minutos de glória no desfile, abrindo a contagem de tempo. O atraso de cada minuto no encerramento do desfile, pune a entidade com a perda de um décimo de ponto previsto no regulamento. Em 2009, nenhuma escola foi punida.


67 Os coordenadores de desfile são os responsáveis pela organização das alas, segundo o cronograma de desfile da escola, e também pela colocação dos componentes dos carros alegóricos (chamados de destaques ou composição de carros) nos seus devidos lugares com a ajuda de guinchos. Auxiliam na tarefa de acompanhamento e orientação dos componentes e na boa utilização das fantasias. Da coordenação de desfile – capitaneada pelo diretor de carnaval fazem parte um misto de conselheiros da escola, assim como colaboradores e trabalhadores de barracão. Ainda não há uma profissionalização desta ocupação no desfile, por isto, no Império, a coordenação era recrutada entre os imperianos participantes da vida pública da escola, os diretores, e os trabalhadores da quadra e barracão, sem pagamento em dinheiro. Estar na coordenação da escola era uma ocupação privilegiada dos participantes ativos da vida política e social da entidade. O cargo de coordenação dava status diferenciado aos seus ocupantes, e sinal de prestígio e importância política na entidade, sendo considerado uma ocupação mais importante institucionalmente do que desfilar fantasiado. Muitos daqueles que não participavam da coordenação, mas desempenhavam papéis importantes dentro da escola, como trabalhar no barracão, ocupar um cargo no conselho ou prestar serviços para a entidade, desfilavam na ala de convidados. Ala que não utilizava fantasia de acordo com o enredo, mas somente com a camiseta da escola e traje social, e que normalmente fechava o desfile. Desfilar fantasiado na escola era sinal do não desempenho de funções consideradas importantes ou não estar relacionado com alguém de prestígio. A importância que caberia a coordenação de desfile era ainda maior: executar todas estas tarefas no pré-desfile, além de acompanhar o desfile das alas, motivar seus participantes para o canto e a dança, verificar se a ala não deixaria espaços em branco na pista, não deixar que as alas se misturem umas às outras, e que a escola desfile de forma compacta e com o mesmo andamento em todo desfile, impedindo de pará-la ou acelerá-la. A coordenação, por estas razões, tem em todas as escolas um papel fundamental, avaliado particularmente num quesito (evolução), e sua atuação pode causar impacto no conjunto do desfile. No ano de 2005, quando a escola venceu o grupo de acesso passando para o


68 especial, a coordenação ficou por conta da escola madrinha, e atualmente adversária no concurso carnavalesco, Imperadores do Samba. A falta de experiência e a duvidosa eficiência da coordenação da escola fizeram o presidente optar pela contratação de uma coordenação de fora para o desfile, com o pagamento de cachê. Considerando o desempenho não profissionalizado dos coordenadores, entre alguns imperianos, se tinham dúvidas a respeito do sucesso no quesito evolução em 2009. Se por um lado se tinha confiança no somatório de notas dez nos quesitos tidos como imbatíveis do Império - como alegorias e adereços, fantasias, mestre sala e porta bandeira, harmonia musical - nas conversas de bastidores, se assinalava que este quesito poderia ser considerado o ponto fraco da escola, com perdas de décimos importantes. Estevão, segundo seu raciocínio, me dizia que se uma escola soma exclusivamente notas dez em cinco dos oito quesitos do concurso, dificilmente perderia o título de campeã do carnaval. O Império esperava somar notas dez nos quesitos relacionados acima, mais bateria, e tinha previsão de que talvez tivesse a perda de alguns décimos em evolução, samba enredo e enredo. Por isto a crença generalizada de que o bicampeonato era bastante possível. De acordo com o que se via nos ensaios, a dificuldade de canto do samba pelos componentes poderia ser um empecilho para o desfile da escola. Já que o canto do samba e a empolgação das arquibancadas era ponto fundamental para a escola se sair bem no desfile, e passar com “pinta de campeã”. “O samba tinha que acontecer”, ou seja, funcionar como uma mola propulsora de animação para os componentes, além de contagiar as arquibancadas. As razões encontradas por Estevão da falta de empolgação nos ensaios, indicavam uma importante peculiaridade da escola. Para ele, o Império não tinha por característica ser uma “escola de comunidade”. Sua quadra não ficava localizada junto de um bairro ou vila com grande densidade populacional composto de classes populares. As escolas de comunidade segundo ele, são caracterizadas pela raça e amor de seus componentes que “brigam na avenida” pela sua escola, e fazem o desfile “acontecer” apesar das dificuldades. Outra razão já comentada anteriormente seria pela dificuldade de uma simpatia direta


69 com o enredo, ao se tratar de uma empresa e não um tema de forte apelo afetivo como a África (2008). Parece-me que com os problemas ocasionados com o tema dos Correios em 2009, a direção da escola volta a investir num tema apelativo ao público, como será o tema sobre “o amor”, definido para 2010. A passagem da escola no desfile oficial do Porto Seco foi tecnicamente muito boa, mas como era de se esperar, não contou com a empolgação das arquibancadas como fizeram outras escolas, em especial, a Imperadores do Samba, que se sagrou campeã do carnaval. Percebia-se que o conjunto alegórico e de fantasias do Império certamente era um dos melhores e mais bem produzidos que se viu no sambódromo, com destaque a qualidade e acabamento dos carros e fantasias. A Imperadores contava com um enredo homenageando o centenário do ‘Sport Club Internacional’, se tornando a escola mais bem patrocinada de 2009, com investimento de quatrocentos mil reais do clube para a construção do desfile. No Império, a promessa de patrocínio dos Correios não se realizou, frustrando as expectativas de um bom retorno da empresa. Após os desfiles, se colocavam mais três escolas entre as favoritas no concurso: a União da Vila do Iapi, a Imperatriz Leopoldina, e a tradicionalíssima e detentora do maior número de títulos do carnaval da cidade, Bambas da Orgia. Além destas cinco, corria por fora na preferência do público e da crítica especializada, a Estado Maior da Restinga. Depois dos desfiles, divulgou-se na imprensa virtual

e escrita,

principalmente nas matérias e comentários de jornalistas da RBS tevê que transmitira o evento, que este carnaval foi o que demonstrou a melhor qualidade de desfiles de todos os tempos na cidade. Enfatizaram a melhoria apresentada na confecção das fantasias e dos carros alegóricos, o luxo e a riqueza visual das escolas aliados à boa apresentação das baterias e dos destaques, sugerindo assim uma “evolução do carnaval”. Também se destacou a competitividade do concurso, em que cinco a seis escolas eram apontadas como favoritas ao título, ressaltando que a briga entre as primeiras posições seria bastante apertada. Faltando um dia para a apuração dos desfiles (na terça-feira de carnaval, dia 24 de fevereiro com transmissão da RBS tevê), criou-se a polêmica de que a Imperadores do Samba havia colocado no seu carro abre-alas dois componentes


70 estampando patrocínios nas camisetas do clube de futebol homenageado. Pelo regulamento dos desfiles não eram autorizadas as utilizações de patrocínios, somente com consentimento prévio e prescrito da associação. Esta proibição provocou forte ameaça da perda de dez pontos no cômputo geral para a Imperadores. Se fosse confirmado este revés, a escola além de ser retirada da luta pelo título, brigaria pelas duas últimas colocações e seria rebaixada para a divisão de acesso. A ameaça de perda de pontos, ocasionada pela denúncia de um grupo de presidentes que pressionaram a associação, foi desencorajada depois de uma reunião realizada antes da apuração pela associação e os presidentes das escolas. O presidente Urso da associação garantiu que a punição não ocorreria à escola, devido ao fato de que o patrocínio se encaixava dentro do tema enredo proposto (o clube de futebol). Além disso, Urso frisou numa entrevista à rádio Gaúcha, que a definição do título ficaria nas mãos dos jurados cariocas, sem “golpismos”, que já faziam parte do passado do carnaval da cidade. Hoje só caberia à associação e ao carnaval da cidade uma posição mais idônea e profissional, mesmo que a sua escola, o Império da Zona Norte, fosse prejudicada na apuração caso perdesse o título para a Imperadores não punida. Mesmo sob críticas e vaias de dirigentes de várias escolas de samba, a punição divulgada não foi adotada, e a escola ameaçada se tornou a grande campeã do carnaval. Os quesitos que o Império da Zona Norte se considerava num patamar acima das demais eram: os de barracão - alegorias e adereços e fantasias devido ao forte investimento e ênfase no luxo, nas grandes proporções e acabamento também o quesito harmonia musical, devido à crença de ter o melhor conjunto de cordas do carnaval e o melhor intérprete de Porto Alegre, Sandro Ferraz; e o quesito mestre sala e porta bandeira, com a dupla Alexandre e Isabel considerada a melhor do carnaval da cidade, até por dirigentes de outras escolas. Dos quesitos considerados fortes do Império, somente dois deles conseguiram a nota máxima – fantasias e harmonia musical. Juntando-se a eles, o terceiro quesito do Império a somar os trinta pontos, foi justamente o quesito evolução, surpreendendo o diretor de carnaval Walmir. Nos outros cinco quesitos o Império perdeu décimos de pontos importantes na definição do título. Vou reproduzir as notas da escola vice-


71 campeã Império da Zona Norte, em comparação com as notas da campeoníssima do carnaval 2009, Imperadores do Samba. Em cada quesito três julgadores davam uma nota para cada escola de sete a dez, e na tabela abaixo, somei as três notas dadas pelos julgadores, sendo que o máximo por quesito chegaria a trinta pontos (obs.:”Ms Pb” se refere ao quesito mestre sala e porta bandeira):

Imperadores

Bateria

Samba

Harmonia

Enredo

Fantasia

Evolução

30

30

30

30

29,7

30

Ms Pb 29,7

Alegorias 30

Império 29,8 29,5 30 29,9 30 30 29,9 29,8 TABELA 1 – Notas somadas da campeã e da vice-campeã do carnaval 2009 por quesitos.

A Imperadores do Samba sagrou-se campeã do carnaval obtendo notas máximas em seis quesitos julgados, com a soma de 239,4 pontos. Em segundo lugar, o Império da Zona Norte, com notas máximas em três quesitos, e somando 238,9 pontos, meio ponto de diferença da campeã. Observe que, só no quesito samba enredo, a escola perdeu meio ponto. Mesmo assim, nos critérios de desempate, a Imperadores venceria o carnaval devido à ordem da apuração dos quesitos, definidos num sorteio momentos antes da apuração. Os quesitos por último apurados seriam o critério de desempate em ordem decrescente. Assim, no caso de empate, alegorias e adereços definiria a melhor posição, depois mestre sala e porta bandeira, evolução, etc. Seguindo a seqüência da tabela acima. Mais quatro escolas se somariam a elas no desfile das campeãs, no primeiro sábado pós-carnaval. Foram elas: em terceiro lugar a Estado Maior da Restinga com 238,8 pontos; em quarto lugar a Imperatriz Dona Leopoldina com 238,7 pontos; em quinto, Bambas da Orgia com 238,6 pontos; e em sexto, a União da Vila do IAPI com 238,1 pontos. Percebam que, entre a segunda e a quinta escola colocadas, somente três décimos de ponto as separavam, indicando assim a forte disputa que se deu na apuração do carnaval 2009. 3.3. O Império da Zona Norte e a associação na modernização do carnaval


72 Com a inauguração do complexo cultural Porto Seco em 2004, abre-se uma nova página do carnaval porto alegrense, com uma antiga reivindicação atendida. Havia a necessidade de reservar um espaço particular para o carnaval da cidade que funcionasse o ano todo, e tivesse as dimensões e a capacidade de comportar o crescimento das alegorias, e uma infra-estrutura adequada para a imprensa e para conforto dos espectadores. Além do mais, o espaço físico que acondicionasse os trabalhos de produção de alegorias de grande porte, os barracões. Com o complexo, tornou-se possível uma mudança de enfoque na organização do carnaval da cidade, dando condições ao esforço conjunto de modernização do carnaval. Além do novo complexo, outras medidas foram adotadas (e ainda hoje se debatem mais delas) para a consolidação de um tão exigido “crescimento do carnaval”, matéria tão discutida no meio carnavalesco. Os valores representados no “moderno”, “planejado”, “organizado”, “grandioso”, “espetacular”, “profissional”, estão em alta nos discursos dos presidentes das escolas. Uma boa parte deles, principalmente das grandes escolas, se diz ciente de que sem a combinação entre estes elementos não se ganha mais carnaval. Em 2008 foram implementadas ações em prol da modernização do carnaval por parte da associação das escolas de samba (AECPARS), uma das entidades responsáveis pelos desfiles e pelo concurso carnavalesco. Este grupo é liderado por seu presidente que tomou posse para uma gestão no triênio 2008 a 2010, e que, não por acaso, é o presidente licenciado da escola de samba Império da Zona Norte por mim estudada: Ademir de Moraes, o “Urso”. Podemos frisar alguns recursos utilizados pela associação nos últimos anos visando o aperfeiçoamento do formato de carnaval pretendido, dentre eles: A) Maior rigor com os atrasos das escolas. Seja na concentração, no desfile, ou na obstrução de carros alegóricos na dispersão da pista que pode atrapalhar a próxima entidade a desfilar. O atraso resulta numa perda de pontos muito prejudicial, podendo acarretar o rebaixamento da entidade, como foi o caso de uma escola do grupo especial que em 2008, atrasou na concentração, e perdeu 20 pontos que acarretaram no seu rebaixamento. Em alguns poucos anos


73 atrás, os atrasos eram freqüentes, devido à quebra ou obstrução de carros alegóricos, problema também ocasionado pela falta de uma infra-estrutura de barracões (como vimos no capítulo 2). Os atrasos custavam pouca ou nenhuma punição às escolas, que declaravam inocência ante a falta de condições relatada, fato que atrapalhava a organização da grade de programação da televisão que transmitia o evento para todo Estado. Diz-se que atualmente o carnaval tem mais credibilidade junto à emissora, porque atrasos e problemas com alegorias são raros. Em 2009, registramos apenas um caso de quebra de alegoria que foi solucionado na pista durante a passagem de uma escola, e não ocasionou maiores problemas quanto à programação dos desfiles. B) Redução de escolas no grupo especial. Em 2006, foram extintos dois grupos intermediários de acesso, fazendo com que em 2007 passasse de sete para dezesseis escolas no grupo especial. Atualmente há um senso generalizado entre os carnavalescos que este é um número muito alto de entidades, fazendo com que no grupo especial, ainda hoje, haja escolas de samba com muita diferença de qualidade no desfile, tanto no contingente humano e na qualidade dos destaques, quanto no aspecto visual. A partir de 2007 adotou-se o critério de descer duas escolas do especial e subir apenas uma do acesso. Em 2009 foram quatorze escolas no grupo especial, serão treze em 2010, e para o carnaval de 2011 foi acordado, a partir de uma alteração no regulamento, que descerão três escolas subindo apenas uma. Espera-se chegar em 2012 ao número ideal de dez escolas no grupo especial. Além da diferença de porte das escolas, estima-se que com a diminuição do número delas no especial, o cachê da prefeitura será maior para cada uma, porque dividido entre menos escolas. Considera-se que com o aumento do cachê, há uma melhora de qualidade nos desfiles. C) Mudança do júri e do regulamento de notas. Com indícios de beneficiamento do júri gaúcho nas notas dadas às escolas mais tradicionais da cidade, que se revezavam na obtenção de títulos – em especial Bambas da Orgia, Imperadores do Samba e Estado Maior da Restinga – em 2008 foi contratado um júri

composto

por

artistas,

sambistas,

pesquisadores/

professores

de

universidades cariocas. Também podemos entender esta mudança no júri como a


74 compreensão de que sob os olhares dos jurados cariocas, as escolas estão obrigatoriamente se adequando aos novos tempos do concurso. Agora, elas devem atingir o gosto e a simpatia dos jurados que, na teoria, melhor saberiam indicar a campeã de um carnaval disputado por escolas de samba, por ter reconhecidamente, no imaginário social, o “certificado Rio de qualidade”. Como Pereira de Queiroz (1999) destaca, a entrada na era do carnaval espetáculo também se dá com um olhar da imprensa e das classes médias, de que o carnaval está se aperfeiçoando ou se “civilizando”, tornando-se aprazível ao gosto estético das classes dominantes. Nada melhor do que um júri carioca para atestar esta tendência, já que “de um modo geral, luxo e beleza das fantasias, pompa dos carros alegóricos, quantidade de participantes sambando na passarela – demonstração palpável da vitalidade e do poder da escola - impressionam o júri” (p.77). Também se permitiu a nota fracionada. Antes, somente notas inteiras e com meio ponto eram permitidas: nove, nove e meio por exemplo. Atualmente, se pode avaliar com: nove vírgula sete, nove vírgula nove, etc. Prioriza-se o julgamento técnico, de forma que o detalhe e o mínimo erro pode ser avaliado e descontado, diminuindo as chances de escolas ficarem empatadas em primeiro lugar, como aconteceu por duas ocasiões em Porto Alegre (1998 e 2004). D) Convênios na compra de materiais e mudanças no repasse dos cachês. A associação das escolas de samba, representado por seu presidente, foi ao Rio de Janeiro e firmou um convênio com a principal loja de materiais carnavalescos da cidade, a Babado da Folia. Acertou-se que a loja receberia os pedidos de materiais de todas as escolas de samba do grupo especial de Porto Alegre por intermédio da sua associação, e, faria a entrega em conjunto para baratear o custo do transporte. A associação das escolas de samba descontaria das entidades a compra dos novos materiais diretamente do seu cachê da prefeitura. Divulga-se que este convênio chega a gerar uma economia de mais de cinqüenta por cento em cada material, caso fosse comprado separadamente por cada escola e em Porto Alegre. Por isto, com o mesmo cachê pode-se comprar mais e melhor para o fabrico das fantasias e alegorias para uso no espetáculo carnavalesco. Além disto, para o carnaval 2009 a associação conseguiu junto à


75 prefeitura o adiantamento das parcelas dos cachês, sendo que a primeira parcela seria paga em outubro, e não em dezembro ou janeiro como de costume. Este adiantamento serviu para as escolas terem oportunidade de começarem seus trabalhos de barracão com bastante antecedência aos anos anteriores, podendo consertar falhas, e ter maior esmero no trabalho de alegorias. O critério utilizado pela associação para o repasse das parcelas, foi a de supervisionar as escolas nos barracões do Porto Seco. Somente aquelas que haviam começado o trabalho receberiam a próxima parcela, estratégia de pressão no intuito de forçar o início dos preparativos de carnaval com antecedência, visando mais uma vez, a melhoria da qualidade do espetáculo. E) Busca de patrocínios de empresas, captação de recursos pela Lei de incentivo à Cultura (a Lei Rouanet), e nova empresa de montagem da infraestrutura da passarela. Para o carnaval de 2009, uma grande multinacional dona de inúmeras marcas de cerveja ficou com a maior cota de patrocínio do evento, inclusive reservou um grande camarote para convidados. O presidente da associação também conseguiu pela primeira vez para o carnaval, a captação de recursos da lei Rouanet, aumentando em mais 30 mil o cachê para cada escola. Já a pista de eventos, ainda provisória, foi montada por uma empresa especializada em arquibancadas móveis. A opinião da maioria dos carnavalescos com quem conversei foi de que melhorou substancialmente as acomodações em relação há anos anteriores. A promessa do prefeito da cidade no fim do carnaval é a de que será feita uma forte pressão junto ao governo federal, para que se inicie a construção das arquibancadas fixas, já para 2010. A empresa responsável pela sonorização da pista também foi substituída. Segundo a opinião dos músicos das escolas, o som da avenida de desfile melhorou consideravelmente, o carro de som tinha melhores recursos tecnológicos, como uma mesa de som que memorizava a equalização escolhida pela harmonia musical de cada escola durante os testes realizados na muamba. As baterias passaram a ter seu áudio transmitido para toda a extensão da pista, na expectativa de contagiar o público em toda extensão da avenida. Nos carnavais anteriores, somente a voz e os instrumentos de cordas eram transmitidos pelas caixas de som no sambódromo. Apesar de alguns


76 problemas com a sonorização na muamba, e algumas reclamações de falhas técnicas no dia dos desfiles, considera-se, ainda assim, que a modificação foi positiva. Como já foi discutido em capítulos anteriores, as escolas de samba são instituições onde indiscutivelmente se sobressaem e perpetuam práticas patriarcais. Elas são administradas e dominadas quase que exclusivamente por seus presidentes, que detêm todo o monopólio de contratações, distribuição de cargos, administração financeira, organização de eventos da escola, supervisão de barracão, pagamentos dos funcionários e dos gastos com infra-estrutura, busca de patrocínios e relação pública com a imprensa e com os órgãos promotores do desfile. No Império da Zona Norte isto não é diferente. Todas as ações da escola, além das informações mais confidenciais como, por exemplo, quando falamos em arrecadação, valores de patrocínio ou de contratos, estão somente nas mãos e sob os cuidados do presidente. Então porque se valoriza e se justifica quase que consensualmente que o carnaval de Porto Alegre está ficando melhor e mais organizado, porque está numa fase de transição para a modernização irrefreável? Não é de se estranhar que temos nas escolas de samba uma discursividade exaltando “o moderno” nas formas de administrar, mas nas suas entranhas institucionais, sua forma de ação ainda é, e se mantêm, como caracteristicamente clientelística e patriarcal. Este assunto Oliven (2007) abordou ao relacionar a combinação do tradicional com o moderno na sociedade brasileira de capitalismo tardio e dependente. Segundo ele, no Brasil “se constituem em exemplos esclarecedores de como o paternalismo e o clientelismo podem adaptarse à dinâmica da sociedade urbano-industrial, vivendo lado a lado com relações mais pessoais”(p.32) Nas escolas de samba, existem apenas recentes tentativas, ainda sem muito sucesso, de planejamento estratégico, uma gestão de recursos, uma organização das receitas e despesas em planilhas financeiras, um conselho fiscal efetivo e rigoroso na apreciação das contas e resultados da administração, como seria concebível nas técnicas de administração das instituições modernas. Ressalta-se que a má administração de uma escola de samba é vista no seu


77 resultado na avenida. Dependendo do que assistimos no desfile, podemos distinguir entre aqueles presidentes que fizeram uma boa gestão – gastaram em materiais, construíram bons carros alegóricos, se esmeraram nas fantasias das baianas e da bateria, contrataram bons profissionais do samba e do barracão – daqueles que não se saíram bem no seu compromisso, e conseqüentemente colhem maus resultados no concurso carnavalesco. Nestes últimos, recaem-se as dúvidas e as suspeitas do mau uso do cachê público, do desvio de verba para uso próprio, da falta de compromisso ético com a entidade e com a festa carnavalesca. Com a atual missão de modernizar o carnaval porto alegrense, no primeiro semestre de 2008, foi proposto por uma universidade da região metropolitana, a FACCAT (Faculdades Integradas de Taquara), um curso de extensão em gestão de carnaval. As aulas acontecem na sede da associação das escolas de samba em Porto Alegre, e tem apoio da secretaria municipal da cultura. O curso aborda temas como gestão financeira e estratégica, captação de patrocínios, valorização da marca, planejamento de desfile, marketing e empreendedorismo. Como resultado da primeira turma formada ano passado, nasceu a Associação de Gestores do Carnaval do Rio Grande do Sul (AGCRS), que já entregou em 2009, um troféu para os melhores trabalhos de gestão no carnaval da cidade. O meu principal informante de pesquisa na quadra da escola, Jorge Péres, formou-se nesta primeira turma, e participa ativamente da nova associação. Atualmente, a segunda turma do curso de extensão em gestão de carnaval está em andamento, com oitenta alunos das mais variadas escolas de samba e interessados no carnaval porto alegrense. Estão ocorrendo na cidade com boa freqüência, seminários e colóquios com palestrantes do Rio e São Paulo, tendo em vista debater o atual momento de transformações do carnaval de Porto Alegre. São eventos organizados pela secretaria municipal da cultura em conjunto com a associação das escolas de samba. Além disto, também se discute este tema, nos bate-papos informais nas


78 quadras e nos encontros entre dirigentes e freqüentadores das escolas, além de fóruns virtuais de discussão sobre o carnaval24. Entre as escolas, a competitividade se torna a cada ano mais acirrada, principalmente no aprimoramento técnico, e elas seguem investindo na exaltação dos

conceitos

intensamente

lembrados:

organização,

planejamento,

profissionalização para o crescimento do carnaval. A transferência da lógica empresarial para outros campos como o das instituições culturais e de lazer, e a larga utilização de conceitos provenientes da administração, nos é detalhado por Fontecilla Cepeda (2008). A autora utiliza a teoria de Bourdieu (2005), para entender que a lógica interna ao campo das artes, que funciona a partir de seus sistemas de classificação, categorias e esquemas cognitivos próprios, passa a ser cada vez mais perpassado pelas regras que regem o campo econômico. Isto faz com que “as artes” (faço aqui um paralelo com uma das formas de expressão artística popular que são as escolas de samba) comecem a incorporar seus valores e técnicas de funcionamento. A escola de samba Império da Zona Norte, por parte de seus trabalhadores e dirigentes, parece ser a entidade carnavalesca que mais bem cumpria esta necessidade, além de ser a responsável direta pela ênfase destes novos valores a serem adotados. A escola na atualidade lidera este processo e empurra as outras escolas na disputa pelo título de carnaval na mesma direção. Nas palavras de Estevão: “quem puxa atualmente o carnaval de Porto Alegre é o Império”, e prevê, “se nos próximos anos o Império não puxar o carnaval pra cima, o nível do carnaval da cidade vai cair”. Para confirmar esta hipótese de Estevão e de outros amantes do carnaval com quem tive contato, logo após o vice-campeonato obtido com o carnaval de 2009, o Império da Zona Norte na oportunidade da festa de aniversário de seus 34 anos, lançou seu tema enredo para 2010, “É o amor... Meu coração imperiano pulsa de emoção”. Na mesma festa, a escola também lança um projeto social 24

- Utilizo particularmente três ferramentas virtuais para pesquisa, notícias e informações no acompanhamento do carnaval. A comunidade virtual “Carnaval de Porto Alegre” do site de relacionamentos orkut, no endereço: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=1942995 Para notícias e novidades do carnaval de Porto Alegre acesso o Samblog do grupo Rbs: http://www.clicrbs.com.br/blog/samblog Para colunistas e notícias do carnaval carioca, acesso o site de Sidney Rezende na seção “carnavalesco”, no endereço http://www.sidneyrezende.com/carnavalesco


79 intitulado “Império Máximo: a família imperiana vai à luta”. No seu panfleto de explicação25, o projeto se diz: “Uma proposta de modernização da gestão administrativa da escola Império da Zona Norte, que busca sustentabilidade financeira, valorização e comercialização da marca, reforma nos espaços e estruturas físicas da entidade e a reformulação do quadro de associados”. Entre as ações relacionadas no projeto, destaca-se: plano de marcas de produtos da escola; plano de modernização administrativa, financeira e de gerenciamento; plano de sócios; centro de artes e museu da escola; atividades esportivas e oficinas culturais, de comunicação e lazer para a comunidade; cozinha comunitária para mulheres de baixa renda, além de serviços médicos e odontológicos para os associados. A proposta se baseia em experiências positivas de modernização de clubes de futebol, cita-se Inter e Grêmio, e de escolas de samba cariocas, como é o caso da citada Beija-Flor de Nilópolis. A primeira, e uma das mais importantes ações do projeto, já teve seu início: a reforma da quadra com a construção de novas dependências, iniciada em março e com previsão de entrega em outubro de 2009. Um novo edifício ao fundo da quadra vai comportar: secretaria, museu, sala de reuniões, almoxarifado, vestiário para os destaques. Na quadra ainda está previsto a construção de novos banheiros, novo palco de apresentações, nova área de alimentação, camarotes, um novo bar, uma nova cobertura aumentando o espaço fechado da quadra e cobrindo as laterais abertas. Espera-se que com a nova quadra o público se sinta mais confortável, e que aumente o fluxo de pessoas nos dias de ensaio, além do aluguel do espaço para shows e eventos, aumentando largamente a arrecadação da escola. Com o aumento da arrecadação, a escola torna-se mais próspera nos próximos carnavais, e espera-se a conquista de mais campeonatos. Esta mudança de paradigma baseado no conflito entre o tradicional e o moderno, nos leva a lembrar do “caipira” de Cândido (Cândido apud Oliven, 1971) jogado irrefreavelmente no processo de modernização do capitalismo tardio na zona rural brasileira, trazendo em seu bojo a transformação dos estilos de vida do nativo. Podemos traçar um paralelo entre o caipira de Cândido que rejeita a nova 25

- O panfleto na íntegra pode ser visto no ANEXO 2(frente) e ANEXO 3(verso).


80 “civilização”, e o carnavalesco porto alegrense ainda ligado ao que considera a pureza e a naturalidade do carnaval do passado, onde se brincava carnaval de forma furtiva e sem grandes necessidades materiais, quando a modernidade representa a ameaça e o fim dos bons carnavais baseados na fruição espontânea e gratuita. Ainda segundo a comparação com o autor, este caipira, para nós, os carnavalescos da cidade, assumem três tipos ideais de posição ante o processo de modernização: A primeira, de aceitação total a nova situação, considerando que ela será benéfica para o carnaval, já que desperta maior relevância da mídia, se adequando à estética visual de imponência e luxuosidade. A organização empresarial entendida como um caminho sem volta da “evolução” quase que natural da cultura popular. O segundo tipo é de rejeição total, entendendo que a modernização muda a “essência” do carnaval, tirando os aspectos tradicionais da festa e reduzindo-o o mais um dos produtos culturais que buscam a lucratividade e a comercialização, ao invés da espontaneidade da cultura legitimamente popular. E a terceira posição é a aceitação parcial dos novos elementos que começam a serem introduzidos nesta situação, combinando aspectos das duas posições acima registradas. O autor ainda nos alerta que a forma que estes novos padrões culturais

são

assimilados

pelos

indivíduos

não

acontece

monolítica

e

homogeneamente, isto devido a uma variedade de situações e aspectos envolvidos na situação. Numa mesma escola de samba de Porto Alegre encontramos posições diferentes e mesmo divergentes a respeito do tema. Considero importante esta ressalva, já que o padrão de desfile do carnaval de rua em Porto Alegre, em transição na atualidade com base no carnaval espetáculo, recorre a um leque de novas possibilidades e posições distintas da sua matriz cultural. O que não podemos desconsiderar é que o formato de desfiles está em transformação na atualidade, pelas inúmeras ações, mecanismos, e discursos que foram pautados acima. Nenhuma entidade vai passar incólume neste momento. Mesmo que, como me afirmava Estevão com freqüência: “o carnaval está mudando, mas a contagotas”.


81 CONSIDERAÇÕES FINAIS Na análise que realizei sobre o carnaval de Porto Alegre, entrei em contato com a história pregressa dos desfiles da cidade, e da forma como as escolas de samba se consolidaram e se modificaram com o tempo. O que podemos notar depois da realização da pesquisa em campo, é que temos novos elementos em jogo que nos permitem assegurar que o carnaval da cidade está num fértil período de transformação na atualidade, e que ele se parece muito pouco com carnavais de poucos anos atrás, como por exemplo, os desfiles da década de noventa. A fundação e a história do carnaval em Porto Alegre é similar às formas de carnaval que caracterizam a festa no Brasil (Eneida, 1987). Tanto em Porto Alegre como no Rio de Janeiro, a história dos formatos de carnaval, assim como as fases de transição da festa, se assemelham (Queiroz, 1999). Dos antigos para os novos carnavais, retrospectivamente: das brincadeiras do entrudo português para o carnaval de salão, o corso e as grandes sociedades para os blocos, cordões e ranchos, e mais recentemente as escolas de samba passando dos desfiles populares para o carnaval espetáculo da atualidade. O que difere nitidamente as etapas nas cidades relacionadas, é que no Rio de Janeiro a fase de transição e a hegemonia de um novo tipo de carnaval aconteceu com, pelo menos, trinta anos de antecedência às mudanças a vir acontecer em Porto Alegre. Naquela cidade, as bases da transição para o carnaval atual se deram nas décadas de 60 e 70, enquanto que, em Porto Alegre, esta fase de transição ao carnaval espetáculo está em pleno esforço de alguns atores sociais para seu acontecimento. E tem como mito fundador desta luta, a construção do complexo cultural Porto Seco. Identifiquei no Império da Zona Norte, a escola que mais avançou no que chamo de processo de modernização do carnaval. Neste processo, priorizam-se os valores e as ações voltados a um desfile que se pretende cada vez mais suntuoso, pródigo e colossal. Para se atingir esta meta é necessário uma reorganização de todos os processos e dinâmicas sociais dentro de uma escola


82 de samba. Nesta operação são inevitáveis os conflitos, os insucessos, e a involuções no estabelecimento do que é considerado moderno. Jornalistas, a prefeitura, a associação das escolas, algumas personalidades e intelectuais do mundo do carnaval, assim como alguns dos presidentes das maiores escolas de samba, estão empenhados neste processo. A proposta de tornar o carnaval um produto cultural moderno, e levá-lo ao formato espetacular (Valença, 1996; Cavalcanti, 1996), promove entre os carnavalescos, as escolas de samba e a imprensa, uma grande expectativa26. Nele, a monetarização e a comercialização do carnaval (Leopoldi, 1978); a gestão administrativa de vocação empresarial sendo valorizada e inserida numa esfera onde a arte é predominante, e possui regras próprias (Fontecilla Cepeda 2008); a conseqüente ênfase no visual (Cavalcanti 1994), e a apreciação e consumo do carnaval por classes mais abastadas para além da exclusividade das classes populares (Goldwasser, 1975), são temas atuais para o questionamento e reflexão no mundo do carnaval da cidade. A grande maioria dos dirigentes imperianos que tive contato considera que os elementos celebrados na modernização, (a profissionalização, a comercialização, o planejamento administrativo), são benéficos para o carnaval de Porto Alegre. Associa-se a pouca ou quase nenhuma relevância que o carnaval da cidade tem para os grupos sociais mais abastados, a esta falta de organização das escolas que resulta na produção de um desfile de precária qualidade, sempre em comparação com o carnaval espetáculo carioca mais prestigiado. Por outro lado, imagina-se que com maior organização e maior espetacularização do desfile, o carnaval de Porto Alegre vai “crescer”. “Crescer” ou “evoluir”, no entendimento do mundo do carnaval, significa captar mais recursos; ter mais prestígio, reconhecimento e importância social; se tornar lucrativo e se transformar num grande produto cultural. 26

- Leia a matéria “Este Carnaval vai Bombar” presente no ANEXO 4. Escrita pelo jornalista e exvereador de Porto Alegre Luiz Armando Vaz, ela ilustra a grande expectativa da mídia especializada do sucesso das novas medidas adotadas para o carnaval de 2009. Publicado no Samblog. Acessado no dia 23 de dezembro de 2008, no endereço eletrônico: <http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg =1&coldir=1&tp=20&template=3948.dwt&blog=23>


83 Mesmo que tenhamos em mente que este padrão de transformação do carnaval de Porto Alegre é similar com as transformações da festa ocorridas na cidade carioca, temos de lembrar da existência das peculiaridades culturais de Porto Alegre, e de particularidades não menos importantes como: sua constituição sociocultural, a questão do negro e de sua identidade étnica no Rio Grande do Sul, sua história política e regional distinta do centro do país, entre outras questões fundamentais para entendimento do carnaval. Uma delas é a relação da cultura local com o nacional no estado do Rio Grande do Sul (Oliven,2006). Infelizmente, não pude investigar neste estudo a particularidade do carnaval da cidade em sua complexa relação com a esfera da cultura nacional, em sua íntima relação com todos as outros pontos acima abordadas, que continuam sem resposta. Ficam abertas possibilidades de surgimento de novos trabalhos que equacionem estas questões tão fundamentais para o entendimento dos desfiles no Rio Grande do Sul, em especial, em Porto Alegre. Não sabemos se o carnaval espetáculo vai se consolidar nos próximos anos, mas não temos dúvidas de que o processo de modernização do carnaval teve seu início, e já mostra sinais da vitalidade de seu projeto.


84 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Ed. UNB, 1993. BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. A Cidade e o Samba In.: Revista USP. São Paulo: Editora da USP, dez/fev de 1996-97. ___________. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1994. 239 p. : il. ___________. O Rito e o Tempo: ensaios sobre o carnaval. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. ___________. “Roberto Damatta, o Carnaval e a interpretação do Brasil”. In.: O Brasil não é para principiantes. GOMES, Laura Graziela; BARBOSA, Lívia; DRUMMOND, José Augusto (orgs.) Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. p.143-157. DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1997. ___________. Conta de Mentiroso. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. ___________. “O carnaval como rito de passagem”. In: Ensaios de Antropologia Estrutural. Petrópolis: Vozes, 1973. p. 121-168. ENEIDA. História do carnaval carioca. Nova ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Record, 1987. 259 p. FRY, Peter. “Capítulo 4 – “Feijoada e Soul Food”, 25 anos depois. In.: A Persistência da Raça. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2005. FONTECILLA CEPEDA, Fernanda Paz. De Arte e de Empresários (ou como entra a lógica empresarial na produção cultural) – um estudo antropológico sobre a 6 Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Dissertação de mestrado. Porto Alegre,2008. Ufrgs. GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989. GOLDWASSER, Maria Júlia. O Palácio do Samba – Estudo Antropógico da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editores, 1975.


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86 SOUZA, Antônio Cândido de Mello e. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 9. ed. São Paulo: Duas Cidades, 2001. 372 p. : il. TURNER, Victor. O Processo Ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974. VALENÇA, Rachel. Carnaval: para tudo se acabar na quarta-feira. Rio de Janeiro: Relume- Dumará: Prefeitura, 1996. VELHO, Gilberto. Individualismo e Cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2002. ___________. O Mundo Funk Carioca. 2.ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1997. ZALUAR, Alba. A Máquina e a Revolta: As organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. REFERÊNCIAS DE ARTIGOS DE REVISTAS OS GAÚCHOS VERSUS O CARNAVAL. Revista Aplauso. Porto Alegre, nº 62, 2005. PORTO SECO. Revista Passarela. Porto Alegre, ano 2, nº 2: 9, janeiro de 2004.

OUTROS DOCUMENTOS PESQUISADOS Projeto Social Império Máximo – a família Imperiana vai á Luta. Folheto impresso. Porto Alegre, março de 2009.


87 ANEXO 1 Letra do samba enredo do Império da Zona Norte do carnaval de 2009: Enredo: Até Caminha já sabia. Mandou... chegou! Correios – Eficiência e Credibilidade Compositores: Vinícius Maroni, Fábio Canalli, Saimon e Vinicius Brito . Decifrando a história No solo inclemente do deserto Vai o mensageiro a entregar Desventura não impede de chegar Galopando, cruza o tempo Riscando o vento, vão palavras pelo ar Escreve pelas águas da memória A heróica trajetória de antigas civilizações Terra à vista! São naus e caravelas Emoldurando a mais bela aquarela Brasil menino, um novo destino a encontrar . E o nativo então percebeu Sua face no espelho, a riqueza perdeu E Caminha descrevendo um povo sem igual Em verde-ouro, um paraíso tropical [BIS] A carta então partiu, o lábaro se ergueu A corte portuguesa descobriu Que o Brasil não mais era seu Ao raiar da liberdade a união Vai selando inovação por esse chão Feito uma coleção Segue os passos do guerreiro mais valente O carteiro que é do povo, é da gente Por becos, ladeiras e ruelas Traz no peito esperanças tão singelas Correios é cultura, é esporte, amor Mandou... chegou! . Mandei uma carta de amor Na zona norte mais uma estrela brilhou Trazendo a mensagem especial: Império campeão do carnaval [BIS]


88 ANEXO 2 Panfleto explicativo do projeto “Império Máximo” (frente):


89 ANEXO 3 Panfleto explicativo do projeto “Império Máximo” (verso):


90 ANEXO 4 “Este Carnaval vai Bombar”. Matéria de Luiz Armando Vaz, publicado no Samblog: Segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Este Carnaval vai Bombar... A descida da Borges já pode ser vista como a melhor ferramenta para medir o carnaval do ano que vem. Na primeira noite da descida 18 mil pessoas se acotovelaram para ver Acadêmicos,Unidos do Capão e a empolgante Imperadores do Samba. Gente, existe um movimento pela melhoria do Carnaval de Porto alegre, e acho que no Estado também. Li em alguns sites sobre uma pesquisa que ficou incompleta mas que aponta Porto Alegre como terceiro melhor carnaval do Brasil. Outrora já vivemos a situação de ser o segundo. Muita coisa está acontecendo e outras já aconteceram: eleições na associação com disputa aberta, um curso de extensão em carnaval, por uma faculdade vizinha aqui de Porto Alegre, FACAT. Foi feito dois adiantamentos da verba para tocar os barracões, lançamento do CD para a gente dar de presente no Natal. Isso sem falar da mostra que foi um luxo. Uma marca de cerveja será a patrocinadora do Carnaval oficial da cidade. Já funciona a todo vapor, uma parceria com a loja carioca Babado da Folia, para a compra de material, bem mais barato. A pista fica mais estreita para a construção da frisa e finalmente teremos sonorização da bateria para toda a avenida. O Inter está colocando uma grana legal na Imperadores do Samba e trouxe os artesões de Parintins para trabalhar nos barracões. O carnavalesco Luiz Fernando Reis, carioca da gema, radialista, professor, experiente homem de carnaval já esta morando aqui em Porto com a tarefa de cuidar do barracão da Império da Zona Norte. Há só para lembrar uma reforma foi feita nos barracões da Associação, coisa de primeiro mundo. As divisórias são em laminado branco e tem ar-condicionado perfeito. Tudo zero Km para receber oficinas, palestras, cursos, dentro do maior conforto. Se a gente olhar com olhos de ver, vai perceber de forma clara o que está acontecendo. Acontece uma enorme mobilização pelo carnaval, pelo nosso carnaval, aqui do estado. O povão tem a promessa de um desfile muito bonito em 2009. O carnaval caminha para a frente com passos firmes. Mas faço alguns reparos a este numero exagerado de escolas no grupo especial. Acho que ficaria de bom tamanho fazer já um grupo especial com sete escolas e um excelente grupo A, com mais sete. Que coisa, né? Há quem diga que o próximo ano será um período de desaceleração da economia, mas nossa folia entra na pista de pé em baixo. Novos tempos se avizinham. Luiz Armando Vaz


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O processo de modernização numa escola de samba de Porto Alegre: o Império da Zona Norte e o Carnava by Portal Academia do Samba - Issuu