MAIS VALE Um JEGUE QUE mE CARREGUE QUE Um CAmELO QUE mE DERRUBE, LÁ NO CEARÁ... Rosa Magalhães
A carnavalesca Rosa Magalhães destaca algumas questões importantes do processo de criação para o carnaval de 1995 da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, desde o surgimento da ideia para o tema até a solução para vicissitudes acorridas no momento do desfile, passando pelas propostas plásticas adotadas para a criação dos diferentes setores da escola. Carnaval, Escola de Samba, enredo, Imperatriz Leopoldinense, alegorias, fantasias
MAGALHÃES, Rosa. Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará.... Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.6, n.1, p. 237-242, 2009. MAGALHÃES, Rosa. Mais vale um jegue que me carregue...
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A VIAGEM O camelo sempre foi um dos bichos que mais me atraíram. Muito feio, diga-se de passagem, tem duas corcovas, os joelhos pontudos, as patas parecem grandes demais para os cambitos, é beiçudo e ainda por cima tem dois estômagos. Tudo parece não combinar. Achei que montar um desses animais seria fácil, pois, com duas corcovas, era só se encaixar no meio e os dois protetores naturais evitariam a queda. A minha experiência foi bem diferente. No Marrocos, depois de exaurir todas as possibilidades de conhecer museus e monumentos, mercados, lojas e palácios, o meu guia, Faté, tal qual o gênio da lâmpada, perguntou o que mais eu gostaria de fazer. “Andar de camelo” foi a resposta imediata. Já vinha ensaiando o pedido fazia tempo. Fomos para a estrada que margeia o deserto de Saara e lá, debaixo de uma palmeira, havia dois ou três camelos à espera de fregueses. Escolhi um, o tratador o fez ajoelhar-se, ele obedeceu a tudo direitinho. Mas só tinha uma corcova. Meu espanto foi saber que era ali mesmo, bem em cima daquele “calombão”, que eu deveria sentar, numa sela quase inexistente. A vontade, porém, era maior que o medo. Sentei, segurei a rédea e o bicho começou a se levantar. Foi horrível, primeiro ele esticou as duas pernas traseiras, e a minha cara foi beijar o chão, depois levantou as da frente, e lá fui eu pra trás. Vi o céu sem fazer esforço. Quando ficou de pé, fui para as alturas, porque um camelo é um bicho muito, mas muito alto mesmo. No começo, chacoalhou um bocado e o tratador, para minha segurança, ia correndo junto; mas depois, já no galope, foi emocionante. Lá estava eu, em pleno deserto do Saara, montada num camelo, galopando. Quando li sobre a viagem que Gonçalves Dias fez até Baturité1, no final do século XIX, em cima de um desses animais, pude imaginar a sua vontade e curiosidade de usar aquela montaria. No entanto, até saber de todos os fatos sobre essa primeira expedição científica brasileira, tive de ir atrás de muitas informações. Meu pai mencionou, certa vez, a existência de camelos no Ceará, mas não entrou em detalhes. No Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, não encontrei notícias muito precisas sobre o assunto. Assim, por algum tempo, a história dos camelos ficou no limbo, à espera de novas fontes. Foi por acaso que acabei achando o que procurava. Marquei um encontro com um entomólogo, professor da UFRJ, e ele escolheu o local: a biblioteca da universidade, na Quinta da Boa Vista. Como não conhecia o lugar, tratei de ir mais cedo. A biblioteca era no fim de um caminho lateral todo arborizado. A bibliotecária já estava avisada de que eu chegaria e começamos a conversar sobre o material ali arquivado. Para minha surpresa, era exatamente onde todas as expedições científicas brasileiras tinham seu registro, inclusive essa primeira. Lá mesmo, dias depois, fiz toda a pesquisa. Alguns livros não puderam ser copiados por causa de sua raridade, mas através de um colecionador cearense consegui o que me faltava, inclusive um livreto que ensina como tratar de dromedários adultos e de filhotes.
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Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, v. 6, n. 1, 2009
E foi assim que entrei em contato com esses camelos que me renderam um bom enredo para o desfile da Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 1995: “Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará...” A história narrada no desfile da escola de samba falava sobre a expedição organizada por Dom Pedro II, para a exploração do Nordeste. O grupo encarregado desta tarefa foi a Paris para a compra de livros e instrumentos científicos. Ficou lá dois anos. O navio da marinha brasileira que devia trazer a expedição ao Nordeste quebrou e tiveram que alugar outro barco. Chegando ao Ceará não encontraram o solo apenas arenoso, mas com pedriscos, completamente impróprio para os camelos que haviam sido importados da Argélia juntamente com seus tratadores. Foi por isso que Gonçalves Dias caiu do camelo. E depois de todas essas aventuras, o relatório final sumiu, dizem que sumiu num naufrágio, será? Fiz a divisão do enredo em quatro partes: (1) a organização da expedição, o sonho do Eldorado, a partida; (2) a Argélia, onde foram comprados os dromedários, (3) a viagem pelo Ceará e, finalmente; (4) a homenagem ao jegue. Como o enredo abordava a região nordestina do Brasil, fiz uma fusão dos elementos decorativos e das peças de vestuário árabe com os elementos visuais característicos do Ceará, como as rendas, os retalhos, as fitas dos trajes folclóricos, as bruxas de pano, os mamulengos, além de flores em relevo e fuxicos2. Dos árabes, fui buscar as jóias vistosas, com pedrarias e muita prata, que são vendidas a peso no mercado. Também foram incluídos a ornamentação preciosa e rebuscada, o colorido dos tapetes – cujos fios são tingidos e postos para secar pelas ruas das cidades, formando enormes franjas nos tons mais variados –, além dos animais, que fazem a festa nas praças. Ainda nas minhas andanças pelas bandas orientais, lembrei-me de um mercador que cobrava para mostrar o que havia dentro da sua cesta. Muito curiosa, paguei as moedas que me pediu enquanto ele abria a cesta que trazia no braço. Conforme foi abrindo a cesta bem devagar, fui chegando o rosto mais para perto da tampa já entreaberta, cheia de curiosidade. Dei um grito de pavor quando, lá de dentro, saiu uma enorme cobra preta, daquelas com uma espécie de aba na cabeça que a faz parecer ainda maior. O mercado, as cobras nas cestas e os ursos com argolas no nariz foram transformados em carro alegórico. O camelo e o jegue convivem também naquele pedaço de terra. Talvez por uma dessas coincidências, fiz ainda um passeio de jegue, não por gosto, mas por pura necessidade. A cidade de Fez ainda conserva suas muralhas e as casas são muito juntas, para minorar o calorão. Foi visitando essa cidade, onde os automóveis são proibidos de circular, que completei o que ouso chamar de “meu ciclo exploratório de transportes alternativos”. A pequena vila é situada numa encosta, tendo no seu topo um hotel elegante onde os carros ficam estacionados. De manhã cedo, a temperatura estava amena e MAGALHÃES, Rosa. Mais vale um jegue que me carregue...
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