Tropicália Brasilis os carnavais de Fernando Pinto1 Léo Morais
Rio de Janeiro, década de 1970, as luzes do carnaval carioca ga1 Sobre a trajetória do carnavalesco Fernando Pinto.
nhavam um colorido a mais: o tropicalismo e o modernismo encontravam espaço no desfile das escolas de samba. Em 1971, aos 26 anos, iniciava-se a trajetória de um dos mais bem sucedidos carnavalescos de sua geração – Fernando Pinto. Pernambucano e apaixonado pelo Brasil, com estilo muito próprio, dava ênfase às raízes culturais brasileiras. As escolas de samba eram obrigadas a utilizar temas nacionalistas que exaltassem os fatos históricos e curiosos do Brasil. Fernando conseguiu falar de tudo isso de uma forma muito particular em seu primeiro carnaval, com o enredo “Nordeste, seu povo, seu canto, sua gente”, para a Escola de Samba Império Serrano.
Em 1972, assinando novamente o carnaval da Império Serrano, uma das escolas de samba mais tradicionais do carnaval carioca, que sempre marcou suas apresentações com enredos históricos e visual pesado, com roupas de cortes e nobres, ele conquistou seu primeiro campeonato com o enredo “Alô, alô, Taí Carmem Miranda”. Coqueiros, frutas tropicais, boás e balangandãs do teatro de revistas caíam no desfile das grandes escolas de samba. Fernando Pinto colocava na avenida uma Império Serrano diferente, mais leve e descontraída. O verde, amarelo, azul e branco – suas cores preferidas – ganhavam destaque harmônico em seus carnavais. Ainda na década de 1970, Fernando Pinto assinou mais cinco enredos para a escola de samba de Madureira. Enredos distintos, mas que concentravam em seus conteúdos o que o Brasil tem de melhor: sua gente. Com “Viagem Pindorama adentro”, em 1973, retratou a presença dos desbravadores que construíram nosso país. Em 1974, com “Dona Santa, rainha do maracatu”, voltava a suas origens pernambucanas e exaltava uma das mais fortes expressões do carnaval de Recife: o maracatu. Com um desfile predominantemente branco, Fernando Pinto surpreendia novamente. Nos anos seguintes, deu continuidade a sua trajetória levando para a avenida desfiles que emocionavam o público. “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira”, de 1975, fez com que a Império Serrano cantasse seu próprio bairro. Em 1976, a verde -e-branco de Madureira desfilava com um samba que entrou para a história como um dos mais bonitos, entoando “A lenda das sereias, rainhas do mar”, o enredo escolhido pelo carnavalesco.
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No carnaval de 1977, a avenida não acompanhou o brilhantismo das obras de Fernando Pinto. Mas no ano seguinte ele retornou e, em sua despedida da Império Serrano, levou para o desfile o tema “Oscarito, carnaval e samba, uma chanchada no asfalto”, homenagem a um dos mais importantes artistas brasileiros, então saudado na avenida. Em 1979, ele se ausentou mais uma vez da folia das escolas de samba, não assinando nenhum carnaval e dedicando-se somente a suas outras atividades. Compositor e diretor de espetáculos musicais, foi o carnavalesco mais contemporâneo que a avenida conheceu. Em 1980, já consagrado como cenógrafo, figurinista e diretor no mundo dos espetáculos, com shows dos grupos Dzi-Croquetes e As Frenéticas, e decorações de famosos bailes carnavalescos, como o do Pão de Açúcar, Fernando Pinto mudou de escola. Foi contratado pela Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e encheu a Marquês de Sapucaí com as cores vivas dos trópicos. “Tropicália Maravilha” tinha índios de óculos ray-ban, relógio falso, camisa havaiana – um desfile cheio de humor. A partir daí, foi um desfile louco atrás do outro. Em “Como era verde o meu Xingu”, em 1983, e “Mamãe, eu quero Manaus”, em 1984, a selva debochava da cidade, e a cidade caía aos pés do criador Fernando Pinto. Em 1983, o carnaval da Mocidade virou exposição de arte. Seus adereços desceram das estruturas dos carros alegóricos e foram para a Galeria César Aché. Os amantes das artes se esbaldavam com a criatividade do carnavalesco. Em 1985 – quem diria? – Fernando Pinto viajava para o futuro. Baianas astronautas cantavam “Ziriguidum 2001”, o samba do novo século. Foram desfiles que conquistaram o público e surpreenderam os adversários, e, sem dúvida, formaram um estilo para a Mocidade Independente de Padre Miguel, para o carnaval carioca. Nesse ano, Fernando adequou seu estilo tropicalista a uma estética futurista, mais metálica e interplanetária, sem perder o bom humor. Insetos transformaram-se em naves espaciais e levavam os componentes a um desfile no espaço sideral. O desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel foi tão inovador, que não houve dúvidas, Fernando Pinto era novamente campeão do carnaval carioca. Em 1986, após um pequeno desentendimento com a direção da Mocidade Independente de Padre Miguel, Fernando tomou uma atitude comum em sua trajetória: afastou-se mais uma vez das escolas de samba. No entanto, no ano seguinte, com o enredo “Tupinicópolis”, retornou à Mocidade Independente. Com seu delírio tropical e seu teatro de revistas, mostrou toda a sua ousadia. A irreverente escola de Padre Miguel, bairro de origem da Mocidade, mexeu com a emoção dos sambistas. Fernando Pinto fazia gozação falando de coisas sérias. Principalmente em seus últimos carnavais, chamou a atenção do público para questões sociais, sobretudo vinculadas ao tema indígena. Ele trouxe para o carnaval uma contribuição valiosa, pois ainda hoje podemos reconhecer seus traços e suas cores inseridos nos trabalhos de outros artistas de carnaval. Infelizmente, morreu jovem, em novembro de 1987, aos 42 anos. Seu carro bateu num poste na Avenida Brasil, quando voltava de um ensaio da Mocidade Independente de Pa-
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concinnitas ano 8, volume 2, número 11, dezembro 2007
Fernando Pinto. Tupinicópolis, Mocidade Independente de Padre Miguel, 1987.
dre Miguel. Antes do acidente, Fernando Pinto deixara pronto todo o projeto do carnaval de 1988 para a Mocidade, batizado de “Beijim, beijim, bye, bye, Brasil”. Assim como o título do enredo, ele dava bye-bye ao carnaval carioca. Esse acidente encerrou o vôo de um artista que ainda tinha muito a oferecer não só ao carnaval carioca, às escolas de samba, mas também à cultura nacional.
Léo Morais é carnavalesco do Grêmio Recreativo Escola de Samba Renascer de Jacarepaguá, pertencente ao grupo de base das escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro, e foi premiado em 2007, pela Secretaria das Culturas da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
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