A BEIJA-FLOR DOS ANOS DE SACRIFÍCIO Luiz Anselmo Bezerra
A partir da memória de antigos componentes da Beija-Flor de Nilópolis, propõe-se uma análise da visão que esses atores sociais constroem sobre a dinâmica de funcionamento da organização carnavalesca dos anos 50 até meados da década de 1970. O objetivo do artigo é mostrar como a escola de samba despontou em sua primeira fase enquanto uma alternativa na rede de lazer então constituída no município de Nilópolis. [abstract on page 281] ESCOLA DE SAMBA, PRÁTICAS DE LAZER, REDES DE SOCIABILIDADE, RELAÇÕES DE PODER.
BEZERRA, Luiz Anselmo. A Beija-Flor dos anos de sacrifício. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.7, n.2, p. 217-232, nov. 2010.
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Este artigo reproduz, com algumas adaptações, as discussões acerca da fase inicial da Escola de Samba Beija-Flor que foram desenvolvidas em duas partes específicas de minha dissertação de mestrado.1 Mais precisamente, o texto aborda o momento anterior à institucionalização das relações entre a agremiação carna1 A família Beija-Flor (BEvalesca e a organização do jogo do bicho chefiada pelo banqueiZERRA, 2010) é estudo ro Aniz Abraão David, o Anísio. mais amplo sobre o esContamos com uma base de informações composta, soquema de poder familiar bretudo, pela documentação oral produzida através de entrevisque articula a escola de samba como espaço de tas com antigos componentes da escola de samba. Em relação mediação entre o jogo do ao modo como relatam suas experiências no “mundo do samba”, bicho e a ordem políticoconvém assinalar que a construção das narrativas dos sambisinstitucional. As partes do tas ocorre numa certa lógica de oposições que constitui uma das trabalho que compuseprincipais características do fenômeno da memória. Sustenta Miram este artigo foram o chael Pollak (1992, p. 204) que as preocupações do presente são ponto 2 do capítulo 2 e os pontos 1, 2, 3 e 5 do caelementos fundamentais na estruturação da memória, tanto na pítulo 3. individual quanto na coletiva, e seguindo essa linha de raciocínio assumiríamos a preocupação de estar sempre atentos para a possibilidade de os relatos de experiências do passado aparecerem moldados em função de situações do momento em que se encontram os grupos sociais estudados. A forma como um antigo compositor expõe sua concepção da divisão temporal da trajetória da Beija-Flor expressa bem a problemática e, portanto, merece ser apresentada aqui nas próprias palavras do sambista, as quais tomamos como representativas da visão do conjunto dos antigos componentes entrevistados no âmbito desta pesquisa: O que interessa ao segmento moderno da escola são os anos de sucesso. Os anos do sofrimento, do sacrifício, passados até chegar na mão do desenvolvimento; nessa etapa ninguém está interessado. Ninguém está interessado nos tempos em que a Beija-Flor viveu no Segundo Grupo até chegar nos anos 70, no começo da progressão do sucesso. Isso porque é uma história de sacrifício e de pobreza, de quando se realizavam os carnavais aos trancos e barrancos. (Entrevista concedida ao autor entre os dias 10, 12 e 17 de agosto de 2005) É fato que a série de carnavais conquistados nos anos 70 sob a patronagem do jogo do bicho se tornou referência básica para se pensar um “antes” e um “depois” na trajetória da Beija-Flor no carnaval carioca.2 A fala do compositor 2 Refiro-me ao tricampeconfirma isso, embora manifestando crítica contra a construção onato conquistado pela de certa memória da agremiação carnavalesca que promove o Beija-Flor nos anos 1976, 1977 e 1978. descarte de acontecimentos e personagens que teriam sido importantes, pelo que o relato nos leva a crer, no momento anterior aos “anos de sucesso”. Entendida de outra forma, essa crítica indica na verdade uma insatisfação diante do fato de a escola de samba ter-se tornado uma espécie de domínio em que as lideranças da família Abraão David figuram como responsáveis pelas conquistas da Beija-Flor, colocando-se no direito de centralizar a visibilidade nos espaços da escola de samba. Conscientes de que o atual quadro dificilmente será revertido, os antigos
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componentes assumem como principal reivindicação a realização de iniciativas por parte da diretoria da Beija-Flor no sentido de promover o reconhecimento público de personagens e feitos considerados importantes por eles na trajetória da escola, e que hoje estariam “esquecidos”. Como cobra uma antiga baiana, em entrevista concedida ao autor em 15 de outubro de 2005, deveria ser feito na Beija-Flor algo semelhante ao que existe na Escola de Samba Portela, que tem na parte coberta de sua quadra de ensaios posters com a imagem dos grandes sambistas que fizeram parte da escola no passado. Tentando compreender como era a Beija-Flor em seus “anos de sacrifício” a partir da visão dos próprios atores sociais envolvidos naquele universo, notei primeiramente que uma certa noção de família serve como referência básica para a recordação que fazem acerca do modo como os sambistas se organizavam e do tipo de convivência que prevalecia segundo os valores que compartilhavam. Vejamos dois relatos nesse sentido: Germano, compositor: Naquele tempo havia mais solidariedade, a coisa era mais como família. Era uma grande família! Hoje em dia, não. Tem um grupo ali que você não conhece, tem gente que vem até do exterior para sair em escola de samba no carnaval, aí chega, pega a fantasia, entra e vai desfilar (...) Então, quando você tem uma escola de samba cujo contingente são 300 pessoas, é uma coisa; uma escola de samba com um contingente de três mil pessoas, já é outra. Você vai esbarrando toda hora com pessoas que nunca viu (...) Você não pode ter o mesmo relacionamento com uma pessoa que vem assim, na hora do desfile, e que às vezes até atrapalha, não sabe cantar o samba, não ensaiou nada, e mesmo assim vai lá (entrevista concedida ao autor em 20 de setembro de 2005). Josiel, compositor: Ali era uma coisa do pobre da cidade, era o nosso clube, era a continuação da nossa casa. Era onde você encontrava seus amigos, conhecia todos, as baianas se conheciam, você era sobrinho de alguém, parente de alguém, filho de alguém, cunhado de alguém, era uma convivência comunitária (idem). A noção de família em questão pressupõe a existência de um grupo relativamente pequeno, estabelecendo contatos face a face, o que assegurava a possibilidade de reconhecimento daqueles membros que eram de fato companheiros no mundo do samba. Eram pessoas nascidas e criadas na localidade, amigos de infância que compartilhavam experiências ao longo de anos, a ponto de instituírem códigos de pertencimento para a identificação imediata de pessoas que chegassem “de fora”. Por outro lado, a mesma noção confere ao universo no qual aparece como categoria integradora um valor simbólico de respeitabilidade. Como manifestações culturais representativas da identidade do negro no Brasil, as escolas de samba carregaram durante muito tempo o estigma da marginalidade, e isso era sentido pelos sambistas da BeijaFlor no contexto do município de Nilópolis nos anos 50 e 60, como relatam alguns deles: Marcão, compositor: A Beija-Flor foi uma escola de samba muito marginalizada no município. Era muita reclamação! E também tinha muita braba, muito lance (...) Nós não tínhamos paradeiro, porque ninguém gostava, ninguém! Era visto como negócio de vagabundo, marginalizado. O samba ainda estava
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um pouco marginalizado naquela época (entrevista concedida ao autor a 16 de outubro de 2005). Josiel, compositor: Houve um tempo em que você ficaria mal visto se virasse na Avenida Mirandela indo para a escola de samba. Ali era lugar de “neguinho”. E muitos que diziam isso depois passaram a fazer parte da diretoria da Beija-Flor e até hoje estão por aí “puxando saco” da família Abraão. Eram pessoas que tinham medo de ir ao samba antigamente. Agora, estão desfilando. Não era muito bem visto ser sambista naquele tempo, mas agora é bonito, é o maior status: o camarada quer ir para a avenida, todo mundo quer! Norma, ex-componente: A gente às vezes passava pelo comércio com o “livro de ouro” e ouvia um monte de coisas: “Eu vou dar dinheiro pra escola de samba? Aquele lugar é cheio de vagabunda!” E a gente saía morrendo de vergonha (entrevista concedida ao autor a 19 de setembro de 2005). Diante dos relatos acerca das adversidades enfrentadas pelos sambistas na sociedade local – que até colocam em certa contradição a visão que idealiza a escola de samba dos tempos antigos como espaço de convivência totalmente fraterna e harmoniosa –, compreende-se que a imagem de “grande família” sinalizava uma estratégia deles em afirmar sua identidade através de relativo enquadramento aos padrões de convivência impostos pela sociedade mais ampla. São inúmeras as situações da vida social em que nos deparamos com a categoria do familiar sendo utilizada nessa lógica. Podemos mencionar casos de outros tantos espaços de lazer, como restaurantes, casas noturnas e clubes, em que a propaganda do estabelecimento é feita no sentido de promovê-lo como ambiente de tranquilidade, com a presença de frequentadores respeitáveis e com bons modos, justamente de acordo com determinados padrões vigentes na sociedade. E tal categoria acaba sendo apropriada até mesmo no mundo do trabalho, quando empresas procuram demonstrar estabilidade e confiança para efeito de garantir a credibilidade necessária à realização dos negócios.
PRINCIPAIS CENTROS DE SOCIABILIDADE EM NILÓPOLIS NOS ANOS 50 E 60 As entrevistas com antigos componentes da Beija-Flor apontam para a existência de dois principais centros de sociabilidade delimitados na cidade em função de pontos de referência localizados nas imediações da estação de trens. O lado da Praça Paulo de Frontin tem ocupação mais antiga. Ali se estabeleceu uma grande comunidade de imigrantes judeus que chegou à localidade na década de 1920 e deu impulso ao desenvolvimento comercial dessa parte da cidade. Até meados da década de 1970, momento da ascensão da Beija-Flor entre as grandes escolas de samba do carnaval carioca, o centro das manifestações públicas de Nilópolis era aquela praça, cercada por suas casas de comércio, padarias e bares. Nas imediações havia ainda um cinema, um salão de baile e a catedral católica mais antiga, de N. S. da Conceição. Os campos de futebol não eram tão comuns até por uma questão geográfica, pois esse lado de
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Nilópolis é bastante irregular. O palco do carnaval de blocos da cidade era a Praça Paulo de Frontin. Já o lado da Avenida Mirandela teve seu crescimento com a expansão urbana mais recente, fenômeno que costuma ser associado por muitos moradores à projeção da Beija-Flor de Nilópolis. O trecho da avenida mais próximo da estação de trens foi progressivamente pontuado por casas de comércio, incluídas as dos patriarcas das famílias Abraão David e Sessim David. Também havia bares, pontos de ônibus; os dois cinemas ficavam um pouco mais distantes dessas imediações. A maior disponibilidade de terrenos facilitava para os moradores a organização de torneios entre times de futebol de várzea, muitos deles associados a blocos carnavalescos. Nos anos 60 existiam duas catedrais, a de Nossa Senhora Aparecida, na própria Avenida Mirandela, e a de São Sebastião, no bairro de Olinda. Antigos moradores lembram da forte presença de terreiros de candomblé e umbanda nesse lado de Nilópolis. Nessa época já existiam os dois clubes mais importantes da cidade, que passariam a ter suas sedes com salão de baile e piscina: o Ideal Esporte Clube, localizado no bairro de Olinda, do lado da Mirandela, só que relativamente distante; e o Clube Nilopolitano, localizado no Centro, não muito distante da Praça Paulo de Frontin. Pelo fato de ser um dos menores municípios do Brasil, porém, tendo um dos mais altos índices de densidade demográfica, é muito comum em Nilópolis a ideia de que “todos se conhecem”, e com isso somos levados a pensar que a vida social da cidade se resumiria aos dois núcleos de sociabilidade que mencionamos. No entanto, devemos pressupor a existência de outros núcleos não tão bem definidos quanto aqueles, e cuja integração constituía a dinâmica social que está na base da formação da Beija-Flor. A partir dessas considerações, vamos analisar a primeira fase de organização da escola de samba, desde sua fundação como bloco carnavalesco, tentando compreender como despontou em seguida numa “rede de lazer” que articulava indivíduos pertencentes a diferentes núcleos de sociabilidade 3 Tomamos o conceito de rede de lazer do trabalho do pequeno município da Baixada Fluminense.3 de José Guilherme MagO contato com diferentes narrativas acerca da fundação nani (2003) sobre as práde associações carnavalescas e esportivas geralmente nos mosticas de lazer desenvolvitra a existência de controvérsias quanto à participação de cerdas nos contextos de áretos personagens, e até mesmo no que se refere às ações daqueas periféricas da cidade de São Paulo. les considerados oficialmente fundadores. O que surge diante do pesquisador nesses casos de estudo é justamente um campo no qual os agentes envolvidos procuram afirmar autoridade de versões particulares a respeito dos acontecimentos do passado, os locais de ocorrência e, principalmente, as circunstâncias. Nesse sentido, certamente existem pontos discutíveis em relação às “origens” da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. Serão abordados alguns deles a seguir, mas convém adiantar que nossa análise não se prenderá a isso.
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A publicação produzida para divulgação da sinopse do enredo para o carnaval de 1975 da Beija-Flor foi um dos materiais mais antigos a que tive acesso no que diz respeito a informações oficiais do passado da agremiação. Trata-se de um pequeno texto composto na maior parte por citações de relato atribuído a um dos principais personagens envolvidos na fundação do antigo bloco Beija-Flor, e que será transcrito aqui para assinalarmos o modo como o personagem se reporta a certos nomes e fatos: Conta Milton de Oliveira (Negão da Cuíca) que, nas comemorações do Natal de 1948, um grupo de integrantes do “Bloco do Irineu Perna de Pau”, que naquele ano desfilava pela última vez, comentava diversos assuntos, quando alguém sugeriu a formação de um bloco carnavalesco. “A ideia ganhou corpo. A base seria o que restou do bloco extinto, com a experiência adquirida pelo grupo.” Da conversa na esquina da Mirandela com a João Pessoa, à beira de um valão existente, Milton de Oliveira (Negão da Cuíca), Edson Vieira Rodrigues (Edinho do Ferro Velho), Helles Ferreira da Silva, Mário Silva, Walter da Silva, Hamilton Floriano (já falecidos) e José Fernandes da Silva, os integrantes do grupo, partiram para a ação. Estava formado o bloco. “Não possuíamos sequer um instrumento”, prossegue Milton. “Coube a Edinho providenciar a aquisição de algumas barricas de bacalhau, o que foi feito, conseguindo na Cidade Nova, do então Distrito Federal. O couro, nós conseguimos no matadouro de Nilópolis.” “A primeira reunião oficial do bloco foi no Grêmio Teatral Nilópolis, dela fazendo parte outras pessoas.” “Depois de muito discutido, foi escolhido o primeiro presidente, e que seria provisório. Foi ele Milton de Oliveira. Escolhido apenas um secretário, Edson Vieira Rodrigues. Os outros cargos seriam escolhidos mais tarde, assim que ficassem definidas as posições complementares.” Tudo ia bem. Mas... e o nome? “Várias sugestões. Discussão noite adentro. Até Flor do Abacate foi sugerido. Não chegaram a conclusão. Alta madrugada: ‘Vamos suspender a reunião pois já é tarde. Voltaremos a falar do assunto oportunamente’, ecoou acertadamente uma voz.” Não houve reunião para que fosse discutido o nome a ser adotado e sim para aprovar o escolhido. Seria Beija-Flor. Associação Carnavalesca Beija-Flor, por sugestão de d. Eulália de Oliveira (já falecida) e mãe de Milton, que inspirouse no Rancho Beija-Flor, então existente em Marquês de Valença. Dona Eulália foi admitida como fundadora. Seria a única do sexo feminino. As cores azul e branco seriam as adotadas e mantidas até hoje (GRES BEIJA-FLOR, 1975, p. 4). Entrevistando antigos componentes da Beija-Flor, obtivemos relatos que apresentam variações dessa versão. Por exemplo, no que se refere à escolha do nome, uma antiga baiana da escola observa: “Estávamos fazendo a reunião onde era uma casa de pasto e veio um beija-flor. Logo decidimos colocar o nome ‘Beija-Flor’. O beija-flor veio desorientado, sem saber onde sair. E daí resolveram botar o nome de Beija-Flor” (entrevista concedida ao autor a 15 de outubro de 2005).
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Miranda, antigo compositor, levanta mais duas hipóteses sobre a escolha das cores. Segundo ele, alguns dos fundadores que conheceu diziam ter sido a escolha uma espécie de homenagem à recente emancipação de Nilópolis, que a partir de 1947 passou a ter como cores oficiais de sua bandeira justamente o azul e o branco. Ele também aponta que um descendente da comunidade judaica, formada na localidade nos anos 20 e 30, acredita em possível associação com as cores da bandeira de Israel. Deixaremos em aberto essas questões polêmicas, sem a pretensão de nos aprofundar, porque o foco de nossa análise recai sobre o surgimento do próprio bloco como uma das opções da rede de lazer em Nilópolis. Nesse sentido, vejamos o relato de Carvalho, um dos participantes do bloco que não fez parte da fundação, mas conta o que acompanhou da iniciativa do grupo de rapazes encarregados da formação: Esse bloco foi formado em 25 de dezembro de 1948. Tinha uma rapaziada num bar da esquina da Avenida Mirandela, e eles estavam conversando. Na época se bebia muito guaraná! A turma tomando guaraná, a rapaziada e... “Puxa! Cara, a gente precisa fazer uma coisa aí, procurar algo pra se divertir no carnaval, não temos nada...” Tinha outros blocos, mas do outro lado, do lado de cá do município. Então, do lado da Mirandela não tinha quase nada. Aí, por intermédio do Edinho, Floriano, Helles, Nequinha... Esqueci o nome dos outros caras... Darci! A maioria já faleceu, eu acredito que vivo mesmo só esteja o Helles, eu acho que é o único vivo ainda; o resto todo já faleceu (...) No grupo, todos se cotizaram pra comprar instrumentos, aquele negócio, e formou-se o bloco. Por excelência, um grande bloco! No primeiro ano que nós desfilamos fomos campeões no município. Fomos tricampeões no município (entrevista concedida ao autor a 30 junho de 2005). O único dado desse relato, tirando o possível acréscimo de alguns nomes – Nequinha e Darci –, que contrasta com texto inicial se refere à compra de instrumentos musicais para o bloco, pois nas palavras atribuídas ao fundador Milton de Oliveira, eles tiveram que improvisar com a construção artesanal dos instrumentos. Portanto, existem informações consistentes sobre a iniciativa dos rapazes frequentadores do bar que era um dos pontos de referência do centro de sociabilidade constituído nas imediações da Avenida Mirandela mais para perto da estação de trens. E o que confirma a existência deste centro de forma bem definida é justamente a oposição frente ao da Praça Paulo de Frontin – onde foi realizada a entrevista –, onde se encontravam os participantes dos blocos até então existentes na localidade. Assim, a fundação do bloco Beija-Flor teria acontecido no intuito da criação de uma associação voltada para o lazer com a qual os rapazes do bar da Mirandela tivessem identificação. A capacidade de mobilização daqueles jovens teria sido tanta, que conseguiram articular outras pessoas de seu convívio, partindo dos laços familiares para os de amizade, e assim formaram uma associação carnavalesca que começava vitoriosa nos desfiles organizados no município. Por seu caráter mais espontâneo, e também pelo modo como organizam seu cortejo, os blocos carnavalescos tradicionalmente realizam ensaios em espaços públicos. E quando possuem sede, ela serve basicamente como ponto de encontro ou para guardar instrumentos musicais. Os entrevistados que falaram sobre os antigos blocos do municíBEZERRA, Luiz Anselmo. A Beija-Flor dos anos de sacrifício
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pio ressaltam também sua base de organização familiar, como é o caso de Carvalho: “Era assim: reunia uma família, fazia um bloco; reunia outra família, fazia outro bloco. Era um negócio interessante, muito bom. Era, como se dizia, um bloco familiar”. A ideia de uma organização em bases familiares, associada a agremiações carnavalescas, pode assumir diversos significados. No caso em questão, constituiu-se rede social que combina vínculos de parentesco, mas também de vizinhança e procedência. As vitórias do bloco Beija-Flor nos primeiros anos de sua formação, desfilando no concurso organizado no município de Nilópolis, certamente empolgaram seus integrantes. Entretanto, por iniciativa do compositor Cabana, um dos muitos moradores de Nilópolis que se havia transferido da cidade do Rio – sua família veio do Rio Comprido –, articulou-se o registro do bloco como Grêmio Recreativo Escola de Samba na Confederação das Escolas de Samba para o Desfile Oficial de Carnaval de 1954, no segundo grupo. O feito do compositor é bastante lembrado entre os antigos componentes da escola. Josiel, por exemplo, só veio a fazer parte da Beija-Flor nos anos 60, mas avalia positivamente a importância das ações de Cabana: Era difícil sair de Nilópolis e ir à cidade tratar desse tipo de coisa. As pessoas não tinham acesso, pessoas que não tinham habilidade com caneta, para se dirigir com palavras que são usadas no âmbito administrativo, e ele tinha esse acesso. Ele era um negro alfabetizado, falava melhor, escrevia bem e era ouvido. As pessoas davam ouvidos a ele, por causa da carreira dele como compositor ter sido bem-sucedida, ele foi um cara bastante importante (...). Observa-se como o sucesso das escolas de samba, antes da transformação dos desfiles carnavalescos em espetáculo de massa, dependia muito das articulações de suas lideranças com setores externos. Myrian Sepúlveda dos Santos (1998, p. 127) defende que, quanto mais bem articulados nesse sentido fossem os líderes, maior era seu poder no interior das organizações, desde que tivessem fortes vínculos também nesse âmbito, é claro. A partir da oficialização da Escola de Samba Beija-Flor surgiram as necessidades básicas de organização nos moldes de uma agremiação. Em primeiro lugar, os componentes precisariam de um espaço para a realização de ensaios e demais atividades sociais de acordo com os costumes das escolas cariocas. A escolha do primeiro presidente está bastante relacionada a isso, e pelas informações do texto de 1975 que conta as origens da escola, o primeiro presidente – nessa época não havia a figura do presidente de honra na Beija-Flor – foi o senhor José Rodrigues Sennas, que assumiu a escola em 1954 e permaneceu no cargo até meados dos anos 60. Nesse período a Beija-Flor chegou a desfilar entre as escolas do primeiro grupo, tendo assim um início de trajetória marcado por vitórias. A família de José Sennas integrou-se totalmente à agremiação carnavalesca, e para informar como se deu a aproximação de “seu” José com a Beija-Flor contamos aqui com o relato atribuído a sua filha Marlene, viúva de Nélson Abraão David, transcrito em reportagem para a edição da Revista Beija-Flor dedicada às comemorações dos 50 anos de desfiles da escola de samba. Mar-
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lene Sennas David fala primeiramente sobre as circunstâncias do “convite” que foi feito a seu pai para que assumisse a presidência da Escola de Samba Beija-Flor: A Beija-Flor era um bloco de carnaval que brincava pelas ruas de Nilópolis sem nenhuma pretensão de se tornar escola de samba, muito menos, como é hoje, uma das maiores escolas de samba do Brasil. O objetivo do pessoal de Nilópolis, na época, era apenas se divertir. Um dia, a rapaziada do bloco resolveu mudar para escola de samba. Isso foi em 1953, e quem ficou responsável por ver como fazer essa mudança foi o Cabana. Enquanto isso, a turma que desfilava no bloco, o Helles Ferreira, Osório Lima, Nilo, Augusto Almeida, Vacele, Pardal, Josefa, Benedito dos Santos e o Timbó (Nicanor de Oliveira) entre outros, resolveram chamar o meu pai, José Rodrigues Sennas, para ser o presidente da escola, já que ele era uma pessoa séria, responsável, com uma respeitável folha de serviços prestados ao país como integrante da Marinha, com experiência em administração e muito bem relacionado com todos. Quando meu pai assumiu a presidência, comecei a frequentar mais a escola, pois, apesar de ter na época apenas nove anos, gostava de participar das coisas que meu pai fazia. Depois que o Cabana deu andamento à inscrição da Beija-Flor de Nilópolis na Associação das Escolas de Samba, meu pai assumiu a presidência da escola e o pessoal começou a se reunir lá na casa de papai, pois a escola nessa época ainda estava começando, e não tinha nada, nem mesmo uma sede para os seus fundadores se reunirem. (...) Foi sempre com muita luta que a escola foi conquistando seu espaço, pois naquela época, as escolas não tinham muita ajuda. Eu mesmo me lembro de ter visto por várias vezes meu pai apreensivo e triste porque estava chegando perto do período de preparação do desfile e a escola não tinha dinheiro para botar a turma na rua... Ele sofria muito. A Beija-Flor e outras escolas menores só conseguiam desfilar porque, assim como papai, criaram um livro de ouro que se passava no comércio da região (LEGEY e DAVID, 2004, p. 98). Uma primeira observação a ser feita é que a escolha do primeiro presidente da escola de samba, ao contrário do que havia acontecido com o bloco, não foi de um dos rapazes que se reuniam nas esquina da Mirandela. E também, entrevistando antigos componentes da Beija-Flor, eles não apontam nenhum indício de que o próprio Cabana, grande responsável pela oficialização da escola, tivesse pretensões de se lançar como primeiro presidente. Portanto, convidar uma pessoa do lugar que não era exatamente do convívio cotidiano dos rapazes mesmo sendo “bem relacionado com todos”, e que detinha capital simbólico considerável em termos de respeitabilidade e experiência, tendia a conferir à escola ganhos importantes. E por outro lado, “seu” José deu a oportunidade para que os sambistas pudessem ter um lugar onde poderiam fazer suas reuniões. Outros componentes que entrevistei ressaltam a concessão do espaço no terreno da família Sennas como sendo um dos elementos da autoridade de “seu” José como presidente. Dona Maria, por exemplo, diz que além do quintal para os ensaios, ele disponibilizava panelas, pratos e talheres da família para que fossem feitas as reuniões festivas dos sambistas, BEZERRA, Luiz Anselmo. A Beija-Flor dos anos de sacrifício
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e também colaborava para a confecção das fantasias das baianas. Já em relação à passagem do “livro de ouro” no comércio local, trata-se de costume que não aparece nas recordações de outros componentes em associação com a figura de “seu” José; talvez isso esteja no relato muito mais pela força de uma memória de família que tende a enaltecer os feitos dos antepassados. Fato importante que se deu durante o período em que José Sennas esteve à frente da escola foi o batizado da agremiação, tendo sido apadrinhada pelo Império Serrano. A esse respeito, em primeiro lugar, é preciso esclarecer que os sambistas da Baixada Fluminense sempre tiveram forte ligação com as grandes escolas de Madureira (Portela e Império). Como explicam os próprios componentes da Beija-Flor, até o momento em que a escola veio despontar no carnaval carioca, em meados dos anos 70, era comum muitos deles frequentarem as escolas de Madureira, em razão do prestígio que detinham, da proximidade em relação aos municípios da Baixada e até mesmo por conta do costume de boa convivência que já havia entre as pessoas do samba. Nesse sentido, Marlene destaca as boas relações do pai, enquanto presidente da Beija-Flor, com sambistas de outras agremiações, e ela conta isso falando justamente do batizado da escola pelo Império: Depois que se tornou escola de samba e começou a desfilar, a Beija-Flor foi crescendo, ganhando a simpatia das pessoas que gostavam de samba e carnaval. Meu pai, por sua vez, tinha muitos amigos nas outras escolas de samba. Um dia, em uma festividade em que o Império Serrano, que é madrinha da Beija-Flor, iria batizar a nossa escola, não havia uma porta-bandeira da Beija-Flor para receber a Império Serrano como deveria. Nessa hora, nos reunimos e decidiram que eu seria a porta-bandeira da Beija-Flor. Para mim, foi uma honra representar a escola que amo, e que sempre amei. Depois desse acontecimento, acabei gostando e cheguei a desfilar como porta-bandeira na avenida (LEGEY e DAVID, 2004, p. 98). Por conta das cores azul e branco serem distintivas da Beija-Flor, muitos chegam a pensar que a Portela seja madrinha da escola, e não o Império. Além de sua dimensão simbólica, o episódio nos mostra como nos primeiros anos da Beija-Flor ela já havia se inserido num circuito de atividades sociais do samba muito importante, dando a oportunidade para que seus componentes recebessem, ou fossem visitar, sambistas de outras localidades, mesmo que isto devesse acontecer numa lógica de reciprocidade. No entanto, no contexto do município, a escola se encontrava em situação bastante delicada nos primeiros anos. Havia problemas com a vizinhança dos locais por onde passava, a começar pelo próprio terreno de “seu” José, de onde os sambistas teriam saído por conta da insatisfação de vizinhos, conforme lembrava o compositor Marcão, destacando o estigma de marginalidade que recaía sobre os sambistas da escola. Quando recordam os espaços que serviram para as atividades da Beija-Flor, os sambistas apresentam informações um tanto imprecisas, e isso nos coloca diante de certas dúvidas no trabalho de comparação dos relatos. As informações disponíveis, contudo, indicam que, depois do terreno junto à casa da família Sennas, a escola passou por três lugares até chegar ao espaço no qual veio a ser construída sua primeira “quadra”.
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Do terreno de “seu” José, teriam partido para espaço alugado no bairro de Olinda, de onde também foram obrigados a sair por conta das reclamações da vizinhança. E, segundo o compositor Germano, o espaço em Olinda era bom, mas não tinha cobertura. Assim, de lá foram para um local no recanto atual da praça da Rua Manoel Reis, onde até então eram realizadas rinhas de galo. Marcão recorda que o ambiente era frequentado por bandidos da época que criavam confusão: Naquela época tinha uma rapaziada que inflamava tudo com boca de fumo. Uma vez teve tiroteio lá e foi um rolo danado! O couro comia, porque um tal de R infernizava isso aí. Uma vez foi para lá, os homens chegaram: tiroteio, correria, aqueles policiais daquela época... Uma tremenda de uma correria! Depois da Manoel Reis, a Beija-Flor teria ficado num terreno nas imediações do atual Posto de Saúde por certo tempo; quando a Prefeitura precisou do terreno para a construção do referido prédio, os sambistas receberem do governo municipal o terreno da chamada “quadra velha”, isso por volta de meados dos anos 60, depois que havia sido desativado desse terreno o campo do time de futebol de várzea chamado Flamenguinho.
A BEIJA-FLOR SE CONSOLIDA COMO ALTERNATIVA DE LAZER Na concepção dos componentes que vivenciaram a Beija-Flor dos anos 60, ela se teria afirmado como alternativa de lazer para as pessoas pobres do município, a maioria de origem negra. O compositor Josiel, que passou a fazer parte da escola em meados dessa década, descreve o papel da escola enquanto opção de lazer: A escola era uma recreação, uma agremiação das pessoas carentes. Nós estávamos num município sem nenhuma chance de desenvolvimento. Todos trabalhavam fora de Nilópolis, iam buscar seu ganho de vida fora de Nilópolis. Então, aquele era o lugar do lazer que nós tínhamos para o fim de semana, a participação ativa da escola de samba era congregar as pessoas para o lazer naquele lugar. A gente não tinha acesso ao Nilopolitano, lá era um clube de classe média, e o “neguinho” da Escola de Samba Beija-Flor não tinha acesso; era da elite das pessoas de Nilópolis (...) As pessoas ficavam motivadas de ir à escola porque sempre tinha alguma coisa acontecendo que era da nossa comunidade, e não do cara que era dono da empresa de ônibus, dos caras ricos do Nilopolitano. Eram as pessoas do povo que frequentavam a Beija-Flor. Nota-se a interferência do mundo do trabalho na dinâmica de funcionamento da organização carnavalesca. A escola de samba aparece como uma das formas de lazer através da qual os moradores podiam usufruir seu tempo livre nos finais de semana e sendo acessível àqueles que não tinham boa situação financeira. Evidencia-se, entretanto, o contraste com opções de lazer que atendiam aos setores mais abastados da população local. As escolas de samba são um tipo de organização que se caracteriza pela capacidade de agregar pessoas de todas a faixas etárias, atribuindo-lhes papéis importantes em sua estrutura interna e na composição das alas para o desfile e, ainda, dando-lhes oportunidade para que manifestem múltiplas possibilidades expressivas.
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O ciclo carnavalesco sempre foi determinante na organização das escolas de samba; entretanto, as atividades mais especificamente relacionadas à dimensão plástico-visual dos desfiles só assumiram centralidade em sua confecção à medida que o processo de mercantilização entrou em curso nos anos 60. Até então, a vida social das agremiações ao longo do ano era bem mais centrada em suas quadras ou “terreiros”, intensificada por conta das reuniões dos sambistas, dos concursos de “samba de terreiro” e de outras festividades. Era entre as escolas consideradas pequenas, como a Beija-Flor até meados dos anos 70, que as atividades realizadas no “terreiro” assumiam importância. Mais uma vez convém transcrever trecho do relato de Josiel que se refere ao que os sambistas da BeijaFlor realmente promoviam em termos de atividades sociais: Quando não era época de samba, tinha baile, tinha festa de ala, almoço... “A componente fulana de tal vai fazer o aniversário na quadra e vai dar uma feijoada; a dona fulana, que é baiana, vai batizar a filha dela e vai fazer uma comida”. Aí chegavam o cavaquinho, o violão e todo mundo tal... Quer dizer, era o ano inteiro, até chegar a época dos ensaios. De janeiro a agosto, ficavam as confraternizações sociais, depois eram os ensaios. Agora você não tem convivência de componente na mesma programação, no mesmo lugar, não tem mais isso... A escola ensaia exclusivamente cantando um samba. Não tem palma, o cara ensaia cantando até o fim, só a bateria, só a bateria... Acabou de tocar, acabou o ensaio! Agora tem sido assim. Como já foi esclarecido, nota-se em praticamente todos os relatos sobre os primeiros tempos da Beija-Flor uma estrutura narrativa que se constrói a partir da oposição com a situação atual da escola, em quase todos os aspectos. Podemos, contudo, observar que entre as atividades dos sambistas nos tempos antigos havia entrecruzamento de celebrações de cunho familiar com aquelas propriamente ligadas ao universo do samba. Não bastava, entretanto, apenas ser “pessoa do povo” para pertencer ao universo da Beija-Flor. Era preciso estar inserido nas redes de sociabilidade do lugar através de laços de parentesco, vizinhança e amizade, tecidos entre os sambistas. Daí a consideração da agremiação como “continuação da casa”, o que corresponde a certa ideia de “família”. Importante constatação no que diz respeito à origem familiar dos colaboradores desta pesquisa aponta para traço característico do crescimento urbano de Nilópolis e dos demais municípios da Baixada Fluminense. Grande parte dos moradores dessa região veio transferida de áreas de favelas e do subúrbio do Rio e, assim, precisou “familiarizarse” com as redes de sociabilidade dos locais em que passaram a residir, principalmente no caso de buscar inserção nas práticas culturais existentes. Uma das grandes dificuldades enfrentadas nos primeiros tempos da Beija-Flor foi a falta de espaço definitivo para realização dos ensaios e demais atividades sociais. Por outro lado, também pesava muitíssimo a escassez de recursos para confecção do desfile. A estratégia para arrecadação dos recursos destinados ao carnaval se baseava justamente na realização de festividades e eventos através da escola de samba, por exemplo, reu-
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niões festivas das alas, bailes, almoços com bingos, rifas e também excursões. Além disso, havia a tradicional prática da passagem do “livro de ouro”. O compositor Germano destaca que todo componente realmente envolvido com a agremiação carnavalesca poderia encontrar alguma forma de dar sua contribuição pessoal, mesmo que isso não acontecesse com recursos financeiros: Antigamente, todos contribuíam. Até porque, se vamos fazer uma festa: aí pega ali um dinheiro com um, um dinheiro com outros. Então, todos faziam uma contribuição, de certa forma quase que geral. Aquele que não contribuísse com dinheiro, contribuía com o trabalho, até a presença se fazia importante, que é uma contribuição muito maior. Era uma contribuição inclusive espontânea, né? Mais solidária, havia mais solidariedade. O reconhecimento de múltiplas possibilidades de colaboração para a manutenção da escola de samba em seus tempos remotos, especialmente quanto à confecção de seu desfile, deve ser percebido aqui como crítica à institucionalização da patronagem do jogo do bicho. É nesse sentido que certos personagens aparecem mencionados nas entrevistas como tendo sido “heróis” no enfrentamento das dificuldades para a condução da agremiação carnavalesca. No caso da arrecadação de recursos, o personagem que figura como grande agente do processo é o antigo presidente Heitor Silva. Diferentemente de José Sennas, os principais atributos associados a Heitor se relacionam a sua capacidade de articular os meios possíveis para obtenção dos recursos necessários à confecção do desfile. Costuma-se dizer que lidava bem com a promoção de bailes e festas, com a organização de excursões. E, desse modo, Heitor conseguiu incorporar à agenda da escola de samba atividades associadas a outras opções da rede local de lazer. Podemos considerá-lo como alguém que foi capaz de mobilizar as pessoas através de meios disponíveis na localidade e, assim, fazer a articulação das opções de lazer conhecidas a fim de realizá-las no âmbito da escola como atividades sociais voltadas, ao mesmo tempo, para a recreação e para o levantamento dos recursos necessários à confecção do desfile. Assim, entendemos que, já na administração de Heitor Silva, a BeijaFlor funcionava como ponto de articulação de uma rede social, porém, uma rede de lazer que não estava institucionalmente atrelada a organizações de negócios ilícitos. Colocamos dessa forma porque, tendo a informação de que Heitor arrendava um ponto de bicho situado junto ao bar que lhe pertencia em Nilópolis, confirmamos aquilo que Chinelli e Silva (1993, p. 47) registram sobre a presença de bicheiros no samba antes de o relacionamento em termos organizacionais ter-se estabelecido entre as escolas e o jogo do bicho. Outro instrumento utilizado para o levantamento de recursos, o tradicional “livro de ouro”, requer análise mais detalhada. Em primeiro lugar, essa prática coloca em jogo uma série de valores, posto que se dá mediante a circulação do “livro” de registros de doações no comércio local, feita por pessoas em nome de uma instituição e de uma causa específica. Nesse aspecto, destaca-se o prestígio pessoal de Heitor em vista das referências à passagem do “livro de ouro” feita por ele mesmo, prezando pelos valores de honestidade e transparência diante dos componentes. BEZERRA, Luiz Anselmo. A Beija-Flor dos anos de sacrifício
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Explorando a prática do ponto de vista de sua funcionalidade, observamos o quanto comportava caráter flexível. Há relatos que apontam, por um lado, o fato de não ser apenas o presidente Heitor Silva o encarregado da passagem do “livro de ouro”, e por outro, que a assinatura não era feita só através de doação de dinheiro. Sobre isso, a baiana Maria relata: A gente ia à porta dos negociantes para pedir, para comprar roupa para portabandeira, baliza; sapatos, a gente ia numa sapataria (...) Nunca fomos maltratados. Eu mesma nunca fui maltratada nem desrespeitada. Quando eu ia fazer a petição ali na... esquina do pronto-socorro [Hospital Municipal Juscelino Kubitschek], ali era uma fábrica de macarrão. Então, eu pedia para assinar um bocado de macarrão para dar para o pessoal que estava trabalhando no Beija-Flor. Naquela época o Beija-Flor não era escola, era somente uma barraca e um quarto onde guardávamos os instrumentos da bateria. O homem aí apanhava cinco ou seis sacos de macarrão e dava para mim. Não era só eu que pedia. Um ia ao açougue, outro ia ao verdureiro; cada um tinha o livro de ouro. E foi assim que a gente foi progredindo, foi subindo assim. A questão do modo como os sambistas eram percebidos pelos comerciantes do município envolve controvérsias, pois há indícios em outros depoimentos a respeito do estigma de marginalidade que recaía sobre os primeiros. Na visão da porta-bandeira Norma – retomando trecho de entrevista já citado neste texto – pedir a colaboração dos comerciantes era algo complicado para o departamento feminino da escola. A indicação de mulheres para a passagem do “livro de ouro” não necessariamente figurava como a melhor estratégia da diretoria da escola a fim de tentar evitar possíveis constrangimentos para os componentes. Todavia, as diferentes visões acerca da receptividade dos comerciantes locais nos levam a pensar que a inserção nas redes de sociabilidade por parte de cada um dos componentes envolvidos na passagem do “livro de ouro” seria o que determinava as chances de colaboração dos comerciantes. Em vista das muitas críticas à atual situação administrativa da Beija-Flor embutidas nos relatos dos antigos componentes, o que se compreende é a ideia de que a exaltação da patronagem do jogo do bicho tende justamente a descartar as possibilidades múltiplas de arrecadação de recursos com base na colaboração do conjunto de componentes, colocando-a, portanto, como exclusiva e necessária. No momento presente, e podemos pensar nisso a partir da institucionalização das relações entre jogo do bicho e escolas de samba, os sambistas se mostram conscientes de tal situação e, embora não façam condenação moral do mecenato, procuram ressaltar que esse não seria, portanto, o único fator para o sucesso de uma grande escola de samba.
AS RELAÇÕES INTERNAS DE PODER NOS TEMPOS ANTIGOS Nessa mesma linha, em que as recordações do passado estão perpassadas por preocupações do presente, apresentam-se revelando forte contraste os relatos acerca do sistema interno de poder que teria vigorado na Beija-Flor antes que a diretoria da escola passasse definitivamente “para as mãos” dos contraventores. A ideia de uma organização
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em bases democráticas aparece geralmente associada ao período da presidência de Heitor Silva, como se percebe em mais uma das falas de Josiel: Não existia um dono da Beija-Flor. Nós éramos todos da Beija-Flor e não existia um só mandando, o seu Heitor sozinho mandando em todos. Não era assim, ele tinha uma diretoria com ele; o poder era dividido, quer dizer, não existia poder para nada, você ia ser poderoso do quê? De nada? (...) Depois, houve um tempo em que essa coisa não teve mais. Não se sabe mais dos cargos, quem é diretor de patrimônio, quem é o primeiro secretário, só se sabe que existe um presidente e uma escola de samba funcionando. Mas os segmentos, e a administração sendo aprovada por uma diretoria, não tem isso. Você não sabe quando a Beija-Flor dá prejuízo ou dá lucro, não sabe quem presta conta da vida administrativa para com os componentes. O que eu acho que existe na Beija-Flor hoje é uma oligarquia, uma ditadura. A Beija-Flor é conhecida pelas outras escolas – a minha experiência fora me deu esse conhecimento – como a “Ditadura do Samba”. Eu acho que não era para acontecer dessa forma. Se você for à Mangueira hoje, um diretor de bateria tem que ser votado pelos componentes. Não pode ser apontado como interventor, como acontece na Beija-Flor: não pode escolher o Manuel ou o Joaquim; aqui você recebe quem te apontam. A comunidade não tem mais voz na Beija-Flor, você não tem mais o que falar, nem com quem falar. Dizer que não figurava um “dono” da Beija-Flor mostra que há uma visão de que a escola de samba na atualidade seria domínio exclusivo de uma determinada liderança, logicamente, seu presidente de honra. Há um certo exagero por parte de Josiel quanto ao desconhecimento geral acerca dos ocupantes de cargos na diretoria. Talvez ele esteja querendo colocar que não seriam eles pessoas empossadas por vontade dos componentes. Contudo, evidencia-se o fato de que o poder dos banqueiros do jogo do bicho na organização das escolas de samba se baseia em grande parte na ocultação de informações sobre a vida administrativa das mesmas, especialmente a partir do momento em que passaram a gerar rendimentos através da cobrança de ingressos em ensaios e variados eventos realizados em suas quadras, de apresentações em clubes, transmissões de televisão e eventos externos, além das excursões por outros estados do Brasil e até fora do país. A antiga baiana Maria afirma que na época de Heitor Silva as reuniões de diretoria não eram feitas “às escondidas”, como seriam nos dias de hoje, e que contavam com a participação dos componentes: “Botava a mesa assim. Eu falava, você falava, cada um dava um tiquezinho na tesoura”. Carvalho, por sua vez, conta que os processos eleitorais realizados a partir da oficialização, em 1954, até a eleição de Nélson Abraão em 1972 aconteciam normalmente através da votação dos componentes ativos (desfilantes, compositores, ritmistas, baianas, velha-guarda) e eram organizados com a composição de chapas, sendo assegurado a todo componente ativo o direito de se candidatar. Notamos entre os antigos componentes da Beija-Flor forte tendência em afirmar que a primeira fase da escola foi um momento de maior participação nas decisões administrativas e na política interna. No entanto, não podemos perder de vista o grau de idealização dessa memória. Conforme assinala Myrian Sepúlveda dos Santos em suas obBEZERRA, Luiz Anselmo. A Beija-Flor dos anos de sacrifício
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servações acerca da suposta tradição democrática das escolas de samba do Rio de Janeiro, se é verdade que a entrada dos banqueiros do jogo do bicho nessas agremiações resultou numa forte concentração de poder em suas mãos, também é preciso considerar que antes disso havia formas de organização hierárquica, estando o poder nas mãos de outras lideranças (SANTOS, 1998, p. 138). Portanto, entendemos que as duras críticas acerca do modo como a Beija-Flor vem sendo administrada a partir do “sucesso” precisam ser devidamente consideradas, mas, avaliadas de modo que não sejamos induzidos à elaboração de análises equivocadas nem acerca dos “anos de sacrifício” e nem do próprio surgimento da liderança dos banqueiros do bicho na escola de Nilópolis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEZERRA, Luiz Anselmo. A família Beija-Flor. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense. Niterói. 2010. CHINELLI, Filipina e SILVA, Luiz Antônio Machado da. O vazio da ordem: relações políticas e organizacionais entre escolas de samba e o jogo do bicho. Revista do Rio de Janeiro, 1 (1), 1993, p. 42-52. GRES BEIJA-FLOR acompanha com ordem e progresso o desenvolvimento do Brasil. A sua escola começou assim. Rio de Janeiro: Ed. Gráfica Luna, 1975. LEGEY, Karla e DAVID, Marlene Sennas. De passista a porta-bandeira. Revista Beija-Flor: uma escola de vida. Rio de Janeiro, 2004, p. 98. MAGNANI, José Guilherme Cantor. Festa no pedaço: cultura popular e lazer na cidade. 3a. ed. São Paulo: Hucitec/Unesp, 2003. POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, v. 5, n. 10, Rio de Janeiro, 1992, p. 200-212. SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Mangueira e Império: a carnavalização do poder pelas escolas de samba. In ZALUAR, Alba e ALVITO, Marcos (orgs.). Um século de favela. Rio de Janeiro: FGV, 1998. Luiz Anselmo Bezerra é graduado em história pela Universidade Federal Fluminense e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF. Artigo recebido em agosto de 2010 e aceito para publicação em outubro 2010.
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