GUERREIRAS DO SAMBA Helena Theodoro
O presente artigo trata das baianas das escolas de samba, contando um pouco de sua história, seu simbolismo e sua importância na vida das comunidades, destacando o papel de Tia Ciata, que serve de modelo para as escolas de hoje. Baianas, samba de roda, jongo, identidade, ritual, comunidades-terreiros
THEODORO, Helena. Guerreiras do samba. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.6, n.1, p. 223-236, 2009. THEODORO, Helena. Guerreiras do samba.
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Introdução As grandes guerreiras do samba são as baianas que representam as cabeças coroadas pelos cabelos brancos, simbolizando a sabedoria africana dos mais velhos. Surgiram no Rio de Janeiro, na Praça Onze, representadas por Tia Ciata, Tia Bibiana e muitas outras que dançavam o samba de roda da Bahia e louvavam os orixás. A tradição dos orixás em seus desdobramentos de valores e linguagens aparece no mundo do samba, já que as atuações de Tia Ciata, de Tia Bebiana e de Hilário Jovino, todos ligados ao terreiro de João Alabá, marcam as atividades musicais cariocas. João Alabá frequentava o Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, e Tia Ciata, a Hilária Batista de Almeida, filha de Oxum, sendo iniciada em Salvador por Tio Bamboche. Tia Bebiana de Iansã era irmã de Ciata e se tornou conhecida por seu tabuleiro de doces e acarajés e por sua atuação no carnaval carioca. As festas na casa de Tia Ciata ficaram famosas na Praça Onze. No fundo do quintal reinava o samba, com mote e partido alto, riscado nos pés, e que era constantemente perseguido pela polícia. Na sala da frente, o baile, o chá dançante, permitido pelas autoridades. Nossas baianas de hoje usam a mesma indumentária das baianas tradicionais dos terreiros, de tempos idos e vividos. São elas que cuidam do universo do samba. Limpam a quadra, fazem as comidas, preparam toda a celebração do samba. São mães e avós dos sambistas. Sem elas as escolas não conseguem funcionar. Elas formam o coral feminino nos ensaios, sendo o termômetro para os compositores dos sambas que vão “pegar” junto à comunidade. Responsáveis pela cozinha, local sagrado, onde se dá vida ao que está morto, são verdadeiras alquimistas que transformam e movimentam a natureza. Elas criam vida e propiciam a continuidade da vida nas quadras, sendo segmento fundamental para a vida da comunidade. São parteiras, bordadeiras, tecelãs, artesãs, mães, educadoras e líderes comunitárias. Aglutinam as alas, apaziguam as confusões e organizam o samba na quadra e na avenida.
Origem das baianas As comunidades-terreiros surgiram a partir das confrarias religiosas baianas, especificamente da Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo, fundada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho (negros de Angola) e da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha (mulheres nagôs como Iyá Nassô). As mulheres tiveram um papel fundamental em sua organização, tornando-as espaços estruturadores de identidade e de formas de comportamento social e individual. Por sua importância para a preservação da identidade do segmento negro da população brasileira, as comunidades-terreiros, principalmente as nagôs, se reformularam e disseminaram pelo país, tomando feição regional segundo a influência do grupo africano. Daí a diversidade de nomes com que são conhecidas: candomblé, na Bahia; xangô, em Pernambuco, em Alagoas e na Paraíba; tambor, no Maranhão; batuque, no Rio Grande do Sul; macumba, em São Paulo; macumba, quimbanda e umbanda, no Rio de Janeiro.
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A perseguição impiedosa feita aos quilombos no Brasil devida à íntima relação entre as insurgências negras e as comunidades religiosas de base africana, além da ameaça representada pelo Quilombo dos Palmares (onde Zumbi provou a possibilidade do sucesso econômico, político e social da convivência democrática entre negros, brancos e índios e da socialização da terra), oportunizou a liderança religiosa das mulheres, já que o governo promoveu um extermínio brutal dos líderes religiosos. O culto aos orixás, que pode ser liderado por homens e mulheres, encontrou na mulher negra o principal esteio para a manutenção das tradições religiosas e culturais da comunidade. A religião, como forma de coesão, possibilitou a formação de grupos e associações cujo sistema de crenças veiculou maneiras particulares de inter-relacionamentos, normas, ações e valores que deram a essas comunidades características próprias. Analisando tais conteúdos, encontram-se não apenas aspectos da religião, mas também a continuidade e reelaboração de um complexo cultural básico que insiste feroz e dinamicamente em existir, com valores singulares e diversificadas formas. A primeira comunidade conhecida, que organizou publicamente o primeiro terreiro de culto aos Orixás – dedicado a Xangô Afonjá, Orixá da casa dos Alafin, reis de Oió – surgiu na Barroquinha, fundado por três africanas, sendo uma delas descendente de Kétu – sacerdotisa Iyá-Nassô –, tendo se instalado no Engenho Velho. Foi o Ilê Iyá Nassô, também conhecido por Casa Branca, de onde saíram os mais importantes terreiros Nagô que fizeram da Bahia a conhecida Roma Negra, como dizia a saudosa Mãe Aninha-ObaBiyi. Assim foi implantada a tradição de Oyó e Kétu na região. A Casa Branca foi a primeira casa de culto público com inúmeras personalidades do mundo Nagô e onde os Kétu tiveram papel preponderante. Sua principal dirigente foi a Iyalase Marcelina da Silva, Asipá Borogu Elese Kan Gongô Obatosi: brasão oral de sua família – Iyá-Nassô Oyo Akala Magbo Olodumare Axe Da Ade Ta, nome tradicional de IyaNassô, sacerdotisa de Xangô no Palácio de Alafin-Oyó na Nigéria. Seus nomes ilustres são citados até hoje por todos os que mantêm a tradição de Oyó e Kétu, destacando-se sempre a energia e liderança de Iyá-Nassô, que em sua casa de culto reagrupou quase todas as personalidades do mundo nagô, sendo o ponto do qual se derivaram duas casas tradicionais da Bahia: o Ilê Oxóssi, situado na “Fazenda Gantois” e, mais tarde, o Ilê Axé Opô Afonjá. Estas três casas mantêm, até hoje, a herança material e espiritual legada por seus fundadores e, somente na Bahia, nutrem cerca de 800 casas de culto que continuam a tradição jeje-nagô, orientando inúmeras outras por todo o país. Algumas mães-de-santo saudadas e respeitadas por personalidades da vida cultural do país merecem destaque especial pela dignidade e força que imprimiram e continuam mostrando como mulheres negras brasileiras, que só eram discriminadas, desrespeitadas e rejeitadas. Além de Iyá Nassô, destacamos Iyá Obá Biyi ou Mãe Aninha (Eugênia Anna dos Santos), iniciada nos mistérios do culto nagô por Iyá Nassô, fundadora do Axé Opô Afonjá em São Gonçalo do Retiro, tendo sido responsável pela ampliação da comunidade-terreiro, ao criar uma pequena quitanda de ingredientes africanos e brasileiros, organizando-a como sociedade civil, permitindo assim o desenvolvimento e autonoTHEODORO, Helena. Guerreiras do samba.
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mia da comunidade que passou a se denominar Sociedade Beneficente Cruz Santa Opô Afonjá, funcionando não só como centro preservador das heranças africanas no Brasil, mas também como polo irradiador de uma nova cultura, recriada por descendentes de escravos, mestiços e outros, interessando a intelectuais e pesquisadores do país e do exterior por sua peculiaridade e identidade cultural. Outro nome que se destaca na tradição dos terreiros é o de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora – sucessora de Mãe Aninha no Axé Opô Afonjá. Mãe Senhora, com apoio de seu filho Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos), artista plástico reconhecido internacionalmente, sacerdote do culto a Obaluaiê – orixá patrono das doenças epidêmicas – Alapini – sacerdote supremo do culto aos antepassados (Egungun), que restabeleceu os laços com a Nigéria, recebendo o título de Iyá-nassô e presentes do Obá Adeniran Adeyemi, Alafin Oió, por intermédio do antropólogo Pierre Verger. Tal fato, ocorrido em 1953, marcou o reinício das relações religiosas entre África e Bahia, intercâmbio que se mantém permanente até os nossos dias. Mãe Stella de Oxóssi é a atual ialorixá do Axé Opô Afonjá, sendo nome conhecido e respeitado em todo o país, por sua capacidade de liderança e pela luta que vem desenvolvendo contra o sincretismo religioso.
Expansão das comunidades-terreiros As comunidades se constituem em um verdadeiro sistema de alianças, que varia segundo sejam de “variáveis homogêneas” (candomblés) ou “variáveis heterogêneas” (umbanda etc.). Desde a simples condição de “irmão-de-santo” até a mais complexa organização hierárquica, há o estabelecimento de um parentesco comunitário, como uma recriação das linhagens e da família extensiva africana. Os laços de sangue são substituídos pelos de participação na comunidade, de acordo com a antiguidade, as obrigações e a linhagem iniciática. Todos estão unidos por laços de iniciação às divindades cultuadas, aos demais iniciados, às autoridades, aos antepassados e aos ancestrais da comunidade. As mulheres são as peças fundamentais dos rituais comunitários, já que seus corpos se transformam em verdadeiros altares vivos que recebem, distribuem e multiplicam o axé ou energia de vida dos orixás, dos ancestrais e dos participantes. Os cultos afro-brasileiros se constituem um sistema iniciático, adquirido e transmitido de forma especial. Seus componentes vivem uma experiência em que recebem, absorvem e desenvolvem um poder místico e simbólico, poder de realização ou axé, princípio que torna possível o processo vital. O sistema de conhecimento, por ser iniciático, só pode ser apreendido na medida em que é vivido pela experiência, só tendo significado quando incorporado de maneira ativa. Cada participante vive o rito, durante o qual o mundo histórico, psicológico, étnico e cósmico negro se reatualiza. A possessão o singulariza definindo as variáveis de participação nos diversos grupos. A transmissão dos valores se dá de forma dinâmica, em relações interpessoais concretas.
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A transmissão oral é uma técnica a serviço do sistema dinâmico e fundamental característica do sistema iniciático. A palavra e a invocação se apoiam no poder dinâmico do som, sendo que os textos e cânticos rituais estão investidos de poder. Há uma simbiose especial entre a expressão dinâmica oral e a estrutura rítmica. Por tais concepções se pode entender que as comunidades-terreiro são espaços abertos, onde a liberdade de ser, viver e se expandir estão garantidas a todos, independente de sexo, etnia ou cultura.
Rio de Janeiro Desde o início do período colonial grupos de origem banto concentravam-se no Rio de Janeiro, provenientes do Congo e de Angola, bem como em São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais. No Rio desenvolveram-se dois tipos de cultos: a) segundo padrões basicamente africanos: o candomblé de Angola ou candomblé do Congo, posteriormente influenciado pelos nagô; b) segundo padrões variados, apesar da base africana: o candomblé de caboclo , a umbanda e a quimbanda. A partir da segunda metade do século XIX, um número considerável de negros baianos, formado por ex-escravos e seus descendentes, vieram para o Rio, vivendo nos bairros do centro da cidade, como Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Nesta área, como conta Mestre Agenor (1994), surgiram as primeiras casas de candomblé carioca, como a de João Alabá, de Omulu, na Rua Barão de São Felix, Saúde. Neste terreiro foram iniciadas Tia Ciata e Carmen do Xibuca. Em visita ao Rio com Bamboxê e Obá Saniá, Mãe Aninha, a Oba Biyi fundou em 1886 uma casa de candomblé, no bairro da Saúde. Volta para a Bahia e em 1910 funda o Axé Opo Afonjá, de São Gonçalo do Retiro. Retornando ao Rio, em 1925, inicia sua primeira filha-de-santo carioca, Conceição de Omulu. Com o falecimento de Mãe Aninha, em 1938, sua sucessora, Agripina de Souza, de Xangô, transfere o axé para Coelho da Rocha, mantendo a tradição kétu e o axé do Opô Afonjá. Após Mãe Agripina, quem passa a chefiar o Axé Opô Afonjá do Rio é Cantulina Pacheco, filha-de-santo de Mãe Aninha e neta carnal de Obá Saniá, sendo que, em 1989, resolveu retornar a Salvador. No Rio de Janeiro, a baiana Tia Ciata da Oxum (Hilária Batista de Almeida), conhecida no início do século por suas ligações diretas com o samba de morro carioca, gerador das conhecidas “escolas de samba”, provou todo o poder das Ayabá ou mães-de-santo por realizar em sua casa, na Praça Onze, festas processionais negras, que proibidas pela igreja no Dia de Reis, foram deslocadas para o período de carnaval. Outros tipos de tradições africanas proliferaram no Rio de Janeiro, onde predominou o culto banto, que cultuava os ancestrais de forma diversa da dos nagô. Deste culto, surge a umbanda, religião de maior expressão no Rio de Janeiro, de onde se irradiou para os estados de Minas Gerais e São Paulo.
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A crença em Zambi – entidade suprema, é básica para os banto, que veem o universo como uma religião e o tratam como tal, com um sentido dinâmico e contextual. Segundo Altuna (1985) a pessoa humana na cultura banto é o Muntu – um ser especial, distinto dos demais, com uma estrutura de personalidade ativa e dinâmica, que o faz ver a vida não apenas como mover-se no espaço, mas também ter uma forma humana com olhos que captam, ouvidos atentos, vigor, sensibilidade e sensualidade, que lhe permitem captar as ondas infinitas de energia cósmica, imerso na corrente participativa vital que o faz integrante de toda a criação. Atribuem enorme importância à ancestralidade, afirmando que nenhuma atividade da comunidade pode ter lugar sem que esteja em ligação com os mortos. Para o banto, o ancestral representa sua herança espiritual na Terra, já que contribuiu para a evolução da comunidade ao longo de sua existência. Ele é venerado e tomado como exemplo, não somente para que suas ações sejam imitadas, mas para que cada descendente possa assumir com igual consciência suas responsabilidades no grupo. Desta forma, os velhos são muito respeitados por possuírem a força moral, a solidez e a elegância das estátuas dos ancestrais. A máscara ou estátua é o signo que manifesta a presença espiritual dos ancestrais entre os vivos. A mulher banto ocupa um lugar honroso na comunidade, em função da maternidade. É mulher mãe-agricultora-doadora de sangue-linhagem, ocupando posição social de relevo. Realiza a vida, concretiza a força e o mistério da fecundidade, é reveladora das forças invisíveis do cosmos, sendo ainda depositária do passado, garantindo, assim, a continuidade comunitária. Os ancestrais prolongam-se e as linhagens se estabelecem pelos séculos através do sangue materno. Segundo os mitos da tradição oral dos terreiros, Woot, herói lendário do Kassai, apareceu em casa, embriagado e totalmente despido. Seus filhos riram dele, ridicularizando-o. Suas filhas, pelo contrário, cobriram-no com um manto, aproximando-se de costas com muito pudor. Woot indignou-se com a atitude dos filhos, deserdando-os e impondo-lhes ritos de iniciação. Quanto às filhas, premiou-as com a matrilinearidade e com a obrigação de passar a descendência através de seus casamentos. Desta maneira, a filiação é uterina e o filho passa para a linhagem da mãe, cujo sangue o integra na sociedade. A mulher transmite dignidade, conserva o sangue e o lar, sendo que o pai, para todos os efeitos sociais e religiosos é o tio materno. No entanto, o sistema mantém o equilíbrio entre o masculino/feminino, já que os homens é que possuem a autoridade, o poder de pai e o exercício dos direitos. Esta autoridade e dignidade se transmitiu para as mulheres das escolas de samba. As mulheres estão presentes nos cultos de umbanda, sendo muito significativa sua atuação como aglutinadoras da comunidade e mantenedoras das tradições e obrigações rituais. A umbanda mantém as mesmas características das religiões tradicionais africanas: - culto a uma entidade suprema (Zambi ou Zambiapongo);
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- a crença num mundo visível e outro mundo invisível; - interação entre os dois mundos feita por Exu; - a aceitação de forças cósmicas que sustentam e dinamizam a existência do universo; - existência de espíritos de ancestrais que são cultuados e invocados; - uso do rito para oferendas e atuação no mundo visível; - transmissão de conhecimentos através da oralidade; - uso de processo rituais de revelação do destino e de oferendas (jogo de búzios); - uso do corpo como instrumento de mediação com os espíritos e orixás. Os cultos de base africana se conjugaram no Rio de Janeiro pela enorme força de coesão e preservação de identidade das comunidades-terreiro, contando também com a presença do discurso kardecista, que justificou a adesão dos não-negros aos cultos de umbanda e de candomblé de caboclo. As “baianas quituteiras” têm um fundamento religioso muito forte, seja da umbanda ou do candomblé, sendo seus quitutes muito apreciados na cidade e sua presença fator obrigatório nas escolas de samba, onde se constituem em quesito indispensável aos desfiles, além de atuarem como elementos fundamentais nas quadras e barracões durante todo o ano. As danças de mestre-sala e porta-bandeira se constituem danças da reza, rito que demonstra o equilíbrio entre os princípios masculino e feminino, bem como toda a dignidade e importância das mulheres para a comunidade. É relevante citar que seja de que origem for, a comunidade-terreiro, em todo o país, se caracteriza por ser um espaço de liberdade e encontro, pela troca de axé, pela participação fundamental das mulheres, pela aceitação da sexualidade das pessoas, sem questionamento de preferências sexuais e pela adoção do parentesco de santo como formador da família, que passa a ter uma dimensão bem diversa da concepção judaico-cristã, estabelecendo uma forma muito própria de ver e entender o mundo. É o sentido da família extensiva africana, que se encontra também nas escolas de samba.
As mulheres e seus papéis As mulheres na tradição afro-descendente (Iyá-mi) são vistas como um sistema de conhecimentos inatos no indivíduo, que dá poder e potencial de realização. Simbolizam a grande cabaça da criação, que possui um pássaro dentro: o ventre fecundado. As mulheres são as poderosas depositárias dos mistérios da gestação, estão presentes em todos os rituais, sendo as guardiães da sociedade: do espaço e do tempo do homem no mundo, da transitoriedade e interligação das coisas... Elas mantêm o equilíbrio do mundo. O Padê, que quer dizer encontro, é chamado despacho de Exu. Segundo Mestre Agenor Miranda (ROCHA, 1994), é uma obrigação feminina. Quem toma conta do Padê são as “grandes mães feiticeiras” ou Iyá Mi Ajé. As Iyá Mi têm o poder de transformação, sendo representadas pelo grande pássaro. Como esta é uma obrigação feminina, deve ser dirigida por uma mulher. Este ritual representa o pedido de proteção contra os periTHEODORO, Helena. Guerreiras do samba.
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