SAMBA-ENReDO DA ePOPeIA À CRÔNICA Fred Góes
O artigo aborda a feição crônica no universo dos sambas enredo das escolas de samba do Rio de Janeiro. Tal característica é comum nas marchinhas e sambas carnavalescos que habitualmente passavam em revista o ano antecedente ao carnaval ou criticavam algum aspecto social, econômico, comportamental. Sendo a crônica considerada por muitos críticos a mais brasileira das formas literárias, não poderia passar desapercebida de nossos compositores – os de carnaval ou não. Carnaval, Samba-enredo, Crônica, Escola de Samba, Cultura Brasileira
GÓES, Fred. Samba-enredo: da epopeia à crônica. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.6, n.1, p. 243-248, 2009. SOBRENOME, Nome do Autor. Título do Artigo.
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O carnaval nos oferece uma fonte inesgotável de assuntos a serem pesquisados sob as mais diferentes perspectivas, o que comprova a riqueza do tema, a importância e a dimensão que a celebração alcançou entre nós. No presente artigo procuramos pôr em foco a produção dos sambas-enredo das escolas de samba que tratam de aspectos cotidianos da vida brasileira, no lugar de enaltecer acontecimentos relevantes ou vultos expressivos da nossa história, como tradicionalmente vinha ocorrendo, em especial, a partir do Estado Novo. Isto significa que, também os sambas-enredo atuam como crônicas, a exemplo das marchinhas carnavalescas, gênero em que é recorrente o comentário dos acontecimentos do dia-a-dia. De tal forma, que é possível conhecer-se a moda de determinado período, o comportamento social, a situação econômica, etc. Vale ressaltar que, assim como ocorre na crônica literária, as marchinhas com esta feição “croniqueira” têm o Rio de Janeiro como espaço, ambiente, cenário de realização e, até mesmo, como musa. Afinal, foram os olhos deslumbrados de André Filho que acabaram por fazer da marcha, de 1935, Cidade Maravilhosa, o hino oficial do Rio de Janeiro. O curioso é que, no melhor estilo dos sambas de exaltação contemporâneos da marcha em questão, os versos não fazem referência a nenhuma característica singular da cidade, circunscrevemse no campo semântico do maravilhoso: “encantos mil; coração do meu Brasil; berço do samba e das lindas canções que vivem na alma da gente; jardim florido de amor e saudade; terra que a todos seduz; ninho de sonho e de luz”. O que aqui chamamos de sambas-enredo com feição de epopeia, são os que, seguindo a melhor tradição da épica clássica, homenageiam vultos da história ou enaltecem momentos históricos em linguagem grandiloquente. Muitas vezes, é utilizado um vocabulário pomposo, pouco usual, que reforça o caráter de grandiosidade, de fausto, para traduzir um ufanismo exacerbado bem ao gosto dos sistemas políticos de exceção, das ditaduras. Os sambas-enredo das escolas de samba passaram a apresentar o cotidiano ou aspectos dele somente a partir da década de 70 do século passado. Este dado é expressivo para pensarmos o quão canônico e avesso a grandes mudanças é o universo das escolas. As marchinhas e os sambas carnavalescos foram sempre representações exemplares do carnaval inversão, do carnaval crítico, subversivo que passava a limpo ou em revista os fatos representativos do ano que acabara de se encerrar. Como foi observado anteriormente, já na aurora do século 20, 1904, fez enorme sucesso popular e foi cantada no carnaval a polca Rato, Rato, de autoria de Casemiro Rocha, pistonista da Banda do Corpo de Bombeiros, e Claudino Costa, cujo tema está atrelado à grande campanha de saneamento empreendida por Oswaldo Cruz contra a febre amarela e a peste bubônica, durante o período de governo de Pereira Passos. Dando um salto no tempo, vamos encontrar, em 1925, uma marchinha de autoria de Pedro de Sá Pereira e Américo F. Guimarães, que chama a atenção para a moda arrojada daquele momento, a moda das melindrosas que serão eternizadas no traço de J. Carlos, e dá início ao diálogo com uma série de outras marchinhas que observam o comportamento feminino como Menina vai, Chiquita Bacana, A filha da Chiquita Bacana. A
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Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, v. 6, n. 1, 2009
marchinha em referência se chama Á la garçonne, como era chamado o corte de cabelo que imortalizou as coquetes dos anos 20. Dizem alguns versos: Hoje no Rio o que está na moda / E o que se usa com perfeição/ Qualquer menina de alta roda / Faz um mocinho andar contra mão / [...] à la garçonne / É a tal moda de sensação / Cabelos curtos, bem aparados / lindos cangotes nos deixam ver. No carnaval de 1941, surgem duas músicas, que tratam da questão das diferenças socioeconômicas que se revelam a partir do lugar de enunciação, do eu lírico. A primeira, de autoria de Artur Vilarinho, Estanislau Silva e Paquito, trata da dificuldade de se cumprir horário de trabalho em virtude dos atrasos do trem e da humilhação e preocupação do trabalhador diante do patrão, em virtude da possibilidade de perder o emprego. Dizem os versos de O trem atrasou: Patrão o trem atrasou / Por isso estou chegando agora / Trago aqui o memorando da Central / O trem atrasou meia hora / O senhor não tem razão de me mandar embora // O senhor tenha paciência / É preciso compreender / Sempre fui obediente / Reconheço meu dever / um atraso é muito justo / quando há explicação / sou um chefe de família / preciso ganhar o pão. Recorrente é também, no universo das marchinhas e do samba carnavalesco, o lamento ou protesto face às reformas empreendidas na cidade. Exemplar é o samba de Herivelto Martins e Grande Otelo, de 1942, Praça Onze, cuja estrofe inicial diz: Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai / Chora o tamborim / Chora o morro inteiro / Favela, Salgueiro / Mangueira, Estação Primeira / Guardai os vossos pandeiros, guardai / Porque a escola de samba não sai. Muitas são as marchinhas e sambas que se configuram como canções de protesto avant la lettre como é o caso de Sapato de pobre, de Luiz Antônio e Jota Júnior, 1951: Sapato de pobre é tamanco! / Almoço de pobre é café / Maltrata o corpo como quê, porque: / O pobre vive de teimoso que é. Da mesma dupla de compositores, e defendido pela mesma Marlene, no ano seguinte, o grande sucesso do carnaval foi Lata d’água, que considero um dos mais tocantes exemplos do retrato da cidade cindida entre o asfalto e o morro. Dizem os versos: Lata d’água na cabeça / Lá vai Maria, lá vai Maria/ Sobe o morro e não se cansa / Pela mão leva a criança / Lá vai Maria // Maria lava roupa lá no alto / Lutando pelo pão de cada dia / Sonhando com a vida no asfalto / Que acaba onde o morro principia. Muitas são também as marchinhas que denunciam as deficiências urbanas como Tomara que chova, de Paquito e Romeu Gentil. Tomara que chova / três dias sem parar / A minha grande mágoa / É lá em casa não ter água: / Eu preciso me lavar. Decisiva, neste segmento é Vagalume, de Vitor Simon e Fernando Martins: Rio de Janeiro / Cidade que me seduz / De dia falta água / E de noite falta luz //Abro o chuveiro / Não cai um pingo / Desde segunda / Até domingo... / Eu
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