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Mercado ainda caminha de forma lenta no Brasil. Mas a possível popularização dos tablets leva editoras e livrarias a se preparar para o aumento do uso de e-books no país Sérgio Siscaro, de São Paulo
U
ma biblioteca completa que cabe na palma da mão, pode ser levada a qualquer lugar, acessada com facilidade e que não oferece problemas de armazenagem e transporte. Esses eram alguns dos argumentos dos defensores dos livros eletrônicos, ou e-books, que há alguns anos previam que as novas tecnologias sepultariam de uma vez por todas as mídias impressas. No entanto, a realidade atual ainda é diferente. Os dois modelos têm convivido lado a lado, embora o livro digital venha conquistando espaços importantes, inclusive no Brasil. Mas em um ritmo distinto daquele inicialmente projetado pelos entusiastas do e-book. Apesar de não existirem dados oficiais da CBL (Câmara Brasileira do Livro) sobre esse mercado, estimativas apontam que ainda está bem abaixo do mercado dos Estados Unidos. Segun-
do os cálculos da AAP (Association of American Publishers), em 2010, a comercialização de livros digitais cresceu 164,8% naquele país, atingindo US$ 49,5 milhões. No primeiro semestre deste ano, a tendência de alta se manteve, com um incremento de 160% na comparação com igual período de 2010. Outro sinal de que o livro digital chegou para ficar – pelo menos no mercado americano – foi o anúncio, feito em maio pela livraria online Amazon, de que a venda de e-books para seu leitor Kindle já superava a de publicações físicas. Além disso, o barateamento de aparelhos como tablets poderá contribuir para que o e-book esteja mais presente no cotidiano das pessoas. Neste mês começa a ser vendido na Índia o tablet Aakash, considerado o mais barato do mundo: US$ 60 (ou R$ 106) – o que torna o dispositivo especialmente atraente para o setor educacional, por exemplo. Em no-
vembro, o equipamento, fabricado pela empresa britânica DataWind (com subsídio do governo indiano), já tinha encomendas de 300 mil unidades. Por aqui, também há sinais de que essa forma de leitura possa ser popularizada. A recente desoneração tributária do governo federal, com a finalidade de estimular a fabricação nacional de tablets, poderá virar esse jogo. Espera-se que o barateamento do custo dos aparelhos tenha um efeito positivo, uma vez que o recente aumento da população com maior renda e a facilidade de concessão de crédito poderão tornar a opção da leitura de um livro em uma tela – e não mais em páginas de papel – mais popular também por aqui. Na avaliação da presidente da Câmara Brasileira do Livro, Karine Gonçalves Pansa, o mercado de livros digitais ainda é incipiente no país, mas oferece potencial de crescimento. “Em teoria, a
cativos e novidades relacionadas às plataformas tecnológicas. Experiências A pioneira no mercado brasileiro de livros digitais foi a Gato Sabido, que começou suas atividades no fim de 2009 como uma livraria de e-books. O empreendimento nasceu das possibilidades que o seu fundador, Duda Ernanny, já enxergava no modelo editorial digital. “Sempre me falaram que eu era louco; que ninguém iria ler um livro na tela, que as pessoas gostam de sentir a textura do livro. Mesmo assim, achei a ideia bacana e prossegui com a iniciativa, encomendando na China o primeiro lote de leitores digitais para o Brasil.”
Fotos: Shutter
Em busca de leitores digitais
maior afluência das pessoas a aparelhos que permitam a leitura de e-books deverá tornar essa tecnologia mais acessível. Houve uma evolução notável nos últimos anos, e as editoras estão atentas a esse cenário”, pondera. Uma dificuldade que ela vê para essa expansão é a falta de modelos de negócio para o e-book. Atualmente, cada editora busca a própria solução. “O mesmo se aplica à forma como elas negociam os royalties com os autores. Isso é uma dificuldade adicional.” Essa discussão sobre modelos de negócios foi, de acordo com a presidente da CBL, uma das questões discutidas na última edição da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, realizada em outubro – ao lado do lançamento de apli-
Nos primeiros meses, a Gato Sabido esbarrou em um problema: as editoras não dispunham de arquivos organizados de seus catálogos de livros digitais. Foi a deixa para que Ernanny fundasse uma empresa auxiliar – que, com o tempo, passou a crescer mais que a original: a distribuidora Xeriph. “Montamos um sistema de distribuição de conteúdo que permite acesso tanto ao catálogo quanto à tecnologia”, diz, acrescentando que, hoje, a companhia dispõe de 6 mil títulos, de editoras como Companhia das Letras, Saraiva, Campus Elsevier, Melhoramentos e Globo. Um possível entrave que ainda deve ser contornado é a questão da conversão dos arquivos para o formato digital. “O mais adotado é o ePub, considerado a nova linguagem dos e-books. Na Xeriph, o custo de conversão é de R$ 209 por título. Nem todas as editoras têm a possibilidade de aplicar seu capital de investimento nesse tipo de operação”, diz Ernanny. Já a pirataria dos títulos não seria um problema tão grande, apesar da vulnerabilidade representada pela plataforma digital. “Utiliza-se um padrão que já é protegido contra cópias. Para piratear o título, é necessário ter conhecimento de informática. Mas o fator que estimula essa prática é a inexistência da versão digital dos títulos no mercado. É o caso, por exemplo, da série Crepúsculo [da escritora Stephenie Meyer]. Ele não é
linha do tempo 1998 EUA: É lançado o
leitor RocketBook. Com tela monocromática, ele permitia download de livros – mas por intermédio de um computador.
1999 EUA: Surge o Softbook Reader, com modem para acesso ao site da empresa para baixar os títulos.
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2000 França: É lançado o
Cybook, com capacidade de armazenar 30 livros, conexão com a internet via cabo e tela colorida.
2004 Japão: A Sony lança
o LIBRIé, primeiro leitor de e-books com tecnologia e-Ink, com apresentação do texto mais próxima de uma página impressa.
2006 EUA: Sai o Sony Reader PRS-500, com tecnologia e-Ink, 64 MB de memória RAM, ligação USB e sistema Linux. Já possibilita ao leitor ouvir arquivos em mp3.
2007 EUA: A Amazon
ingressa no mercado com o Kindle, que permite a leitura de livros, jornais e blogs.
2009 EUA: A rede Barnes & Noble lança o leitor Nook, baseado na plataforma Android, do Google.
2010 EUA: Levantamento da A.T. Kearney mostra tendência de queda na venda dos livros físicos entre 2010 e 2020, equilibrada pelo aumento no mercado de e-books.
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