Luís Antônio-Gabriela

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Maringá, Terça-feira, 18 de setembro de 2012

O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ

ALGUMAS PALAVRAS ANDRÉ SIMÕES >>> odiario.com/blogs/andresimoes

Que eu não busque respostas do corpo para as angústias da alma. Que eu não me acostume com a culpa, que eu não me pegue gostando da culpa, que eu não me exceda em excessos Permite-me andar reto e justo. Que não me poupes de dores em meus rumos, mas não me tires da mente a beleza do destino – não me prives da sede de chegar. Que eu não me distraia do caminho. Faze-me temer os pesadelos, jamais os sonhos. Que me seja mais fácil o perdão e que os rancores se me dissipem com presteza. Que eu possa ser duro, sem ser cruel, íntegro, mas não

inflexível. Que eu saiba evitar o pecado e apreciar a virtude, distinguindo ambos com clareza. Que minha irreverência não se entenda como desrespeito, que minha reverência não se confunda com indevida submissão. Que as dúvidas não me paralisem e as certezas não me impeçam de ouvir. Que caridade e humildade jamais me sejam termos banais. Que a melhor lembrança do

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Oração amor esteja sempre no presente. Aproxima-me do gentil e me afasta do vulgar, livra-me do indecente, cobre-me de vergonha. Que eu não busque respostas do corpo para as angústias da alma. Que eu não me acostume com a culpa, que eu não me pegue gostando da culpa, que eu não me exceda em excessos. Torna-me merecedor da família que tenho e apto para construir uma nova, quando chegada a hora. Alimenta-me com o orgulho de bom homem, bom filho, bom irmão, bom amigo, trabalhador – mas não me deixes perder-me em arroubos de vaidade. Que eu não falte para com os que esperam de mim e surpreenda de maneira boa aqueles que de mim nada aguardam. Que eu tenha sempre olhos para

a beleza e saiba reconhecê-la em suas diversas manifestações. Concede-me a graça de, por meio do que escrevo, ser capaz de tocar pessoas com quem nunca estive, oferecendo a elas entretenimento, pontos de reflexão, riso, resgate de memórias, momentos agradáveis ou quaisquer outras sensações instigantes. Eu ando com medo. Medo do próximo passo, do desconhecido, de hesitar, de não ser capaz. Que esse medo me gere prudência em vez de covardia. E quando os temores requererem superação, não seja a coragem disfarce para a inconsequência. Une minhas intenções aos meus gestos. Não me faltem palavras para apontar o injusto. Não me falte humor para lidar

com as limitações próprias e condescendência para com as limitações alheias. Que eu possa agir com generosidade e pureza, mesmo não sendo ingênuo, mesmo tendo perdido a inocência já há muito. Não me deixes cair em tentação e me livra do mal. Egoísta, mas que tanto peço quando tão pouco ofereço? Quando nem sequer dedico um pouco de meu tempo – o tempo que é Teu, e me emprestas – para agradecer-Te e louvar Teu nome? Ouso, no entanto, pedir ainda mais: torna esta criatura capaz de ser aceita de volta pelo seu Criador. Eu sei que não sou digno, mas me vejo no escuro, em posição de súplica. A quem mais poderia rogar, senão a Ti, meu Deus?

I LITERATURA

I SHOW

Outra Gabriela

Cachorro Grande toca no MPB sexta-feira

Nelson Baskerville, diretor do premiado espetáculo “Luis Antônio - Gabriela”, da companhia paulistana Mungunzá, lança a história da peça teatral em livro

Ana Luiza Verzola anaverzola@odiario.com

O espetáculo “Luis Antônio – Gabriela”, apresentado em Maringá no mês passado, volta à tona em formato literário. O trabalho teatral é um documentário da vida de Nelson Baskerville, diretor da companhia Mungunzá, de São Paulo, sobre o próprio irmão, morto em 2006 em Bilbao, na Espanha. Luis Antônio mudou-se aos 30 anos para a Espanha, onde ficou conhecido como o travesti Gabriela e só voltou a ter contato com a família anos depois. A premiada peça já vista por mais de 18 mil pessoas, e que lotou o Teatro Barracão em Maringá por duas noites, agora recebe uma versão em livro, lançado ontem em São Paulo. Resgatar essa história, por tanto tempo deixada à sombra da vida de Baskerville, resultou em um processo de autoconhecimento e principalmente perdão ao irmão que nunca mais viu. Remexer nas lembranças o ensinou a sobreviver diante da própria realidade. Com 244 páginas, o livro “Luis Antônio – Gabriela” é resultado de uma vasta pesqui-

T ESTANTE

“Luis Antônio – Gabriela” Editora: nVersos Formato: 16 x 23 cm Página: 244 páginas Preço: R$ 55,00 *Disponível no site da Livraria Saraiva e Livraria Cultura

sa de toda a companhia. O compilado de memórias, documentos e vivências oferece uma reflexão mais aprofundada da vida de um personagem que surgiu para confrontar o preconceito. Personagem da história real de Baskerville, Luis Antônio agora é compartilhado de modo que atinja mais pessoas por onde o espetáculo não passar. As páginas são ilustradas com gravuras, fragmentos de cartas, frases soltas e fotos do próprio espetáculo. Em entrevista ao Diário, o ator, diretor, artista plástico e irmão de Gabriela,NelsonBaskervilleconta como foi a primeira experiência como autor de um obra que habita sua própria vida desde muito cedo. A experiência frente ao público e o que vem aprendendo com o próprio irmão. O livro foi lançado ontem na Livraria Cultura do Conjunto Nacional com uma apresentação gratuita do espetáculo no Teatro Eva Hertz, dentro dalivraria.Leiaaseguir. O DIÁRIO Você esbarrou nessa história depois de muito tempo negando muitas memórias do passado. Como foi esse processo de aceitação e concepção da própria trajetória para poder transferir isso para o papel?

NELSON BASKERVILLE Eu não gosto muito do viés psicológico, quando ele quer explicar tudo. A história do Luis Antônio sempre esteve dentro de mim. Algumas pessoas mais íntimas sabiam. Na época da Escola de Arte Dramática, as pessoas sabiam. Claro, eu não saía por aí com megafone gritando: “Fui abusado!”. Foram duas coisas que me moveram a “mexer” nisso: a ignorância que pairava sobre o transexualismo e a injustiça cometida contra meu irmão. E essa minha história já estava também sendo reproduzida através de personagens que vivi, telas que pintei, outras peças que dirigi. Essa é a minha história, meu material de trabalho, minha dor que deve continuar sempre lembrando todas as coisas pelas quais passei, e que agradeço com a fé de um menino diante do altar da primeira comunhão. Então, quando eu abri a comporta, tive que me controlar porque são muitas coisas. Mas não pense que o problema

Rafael Saes

O Cachorro Grande retorna a Maringá na próxima sextafeira. Pela primeira vez tocando no MPB Bar, a banda mostra a turnê do álbum “Baixa Augusta”, lançado em dezembro de 2011.O show traz as músicas novas “Tudo Vai Mudar” e “Difícil de Segurar”, além das canções mais antigas, como “Sexperienced”, “Dia Perfeito” e “Hey Amigo”. Formado em 1999, o Cachorro Grande conta com Beto Bruno (voz), Marcelo Gross (guitarra), Rodolfo Krieger (baixo), Pedro Pelotas (piano) e Gabriel Azambuja (bateria).

I TEATRO

Divulgação

Apresentado em Maringá durante a Mostra de Teatro Contemporâneo em agosto, espetáculo vira livro

está resolvido. Apenas aprendi a sobreviver a ele.

que existe no espetáculo de que isso aconteceu de verdade.

O que foi mais difícil enfrentar na hora de estruturar o trabalho?

Sua ligação com as artes plásticas se reflete nos seus trabalhos teatrais. Tratando-se de um material literário, você também conseguiu empregar isso na obra. Qual mensagem você quer passar para o público aliando conteúdo e estética?

Acho que a vontade que eu tinha de não ser melodramático. A história toda beirava o trágico. Mas minha vontade maior não era comover - um tiro que saiu pela culatra -, mas provocar uma reflexão a respeito do assunto. Acho que conseguimos. Pessoas dizem que nunca verão um travesti com os mesmos olhos e eu sinto que cumprimos a missão. As frases soltas, as histórias, as cartas... É algo que desperta várias sensações e significados durante a leitura. Não tem como não associar com o espetáculo. Por que desenvolveu o livro seguindo a mesma linha?

Não pretendi em nenhum momento dissociar peça e livro. Seria bobagem. O livro pode alcançar um público maior, vai chegar em lugares que o espetáculo não poderia. A peça é efêmera, o livro poderá ser lido por outras gerações, daqui há algum tempo, alguém poderá querer refazer a peça, por isso era importante manter os documentos. E também pra manter a sensação Divulgação

Irmão caçula, Nelson Baskerville, o Bolinho, estreia como autor pela primeira vez com “Luis Antônio - Gabriela”

Quero dizer que não importa por onde sua expressão se manifeste, desde que se manifeste. Tudo colabora para um entendimento que não é apenas racional. É sensorial. Passa por algumas camadas do cérebro. Provoca coisas que você só vai se dar conta depois. Esse é o meu trabalho. Estamos tão bombardeados de informações inócuas que me sinto na vontade e obrigado a trabalhar nesse fundamento: tirar a plateia da zona de conforto. Todos de alguma forma se identificam com Luis Antônio. Vocês ficaram afastados boa parte da vida. O que seu irmão te ensinou nesse resgate?

Meu irmão hoje está em mim como nunca esteve enquanto viveu. E isso é que é a imortalidade que tantos buscam de forma material. Não é concreto. Você é imortal quando consegue viver dentro das pessoas cujas vidas você marcou. Vamos falar do Tônio durante muitos anos. Outras gerações falarão dele. Famílias usarão nosso exemplo e tratarão seus filhos de forma diferente. Ninguém escolhe ser transexual. Você vem assim. Ninguém te influenciou a ser, ninguém te forçou. Se seu filho estudar com um transexual ele não vai virar transexual. Então, eu espero que a gente lance cada vez mais luz sobre essa ignorância e hipocrisia que cerca esse tabu. Se estivesse vivo, o que acha que seu irmão diria para você hoje?

O Luis Antônio era de uma bondade e doçura sem igual. Ele adoraria, enriqueceria a história, contaria mais coisas e agradeceria por ter ficado famoso.

T ISTO É BASKERVILLE Eu tinha saudades de casa. Bilbao foi o lar que eu me dei e era ideal para mim, mas eu sentia falta de rever minhas raízes. Rever meu pai, meus irmãos, minha mãe, o Bolinho... Não tenho arrependimentos nesta vida, tudo que eu fiz foi por amor, o mais simples dele. Não sei por que as pessoas escondem aquilo que mais querem. É gostoso dar. Eu gosto de dar. Eu gosto das pessoas. Eu olho no olho delas, onde quer que elas estejam, e existe algo que me chama, como se só eu pudesse alcançar isso naquele momento. Seus olhos me pedem abrigo e o abrigo que eu sei dar é esse, porque não tive outro tipo de abrigo. Eu aprendi a amar na rua, não em casa. Na rua, a gente ama sem mesquinharia, é pra todo mundo, sobra amor, sobra jeito de amar. Eu amo dando prazer e me sinto amado recebendo prazer. É bom, não é? Eu saio na rua e quero ver todos os sorrisos que eu não pude dar, e o que eu tenho pra dar, eu dou. Vou ficar regulando afeto? Regulando prazer? Me regulando pro outro? A vida é tão curta e a gente fica se dando em pedaços... Eu só consigo estar inteiro o tempo todo com quem estiver comigo, e estar inteiro é se dar inteiro. Eu cedo minha casa, minhas roupas, meu alimento, meu corpo, porque nada me pertence de fato. Está tudo aí pra ser dividido. Partilhar é melhor que acumular. Eu não sei acumular afeto. Ele vaza, nas ruas, nos bares, nas esquinas, vazou em casa. A maneira pela qual eu soube demonstrar o meu carinho, dentro da minha confusão, eu demonstrei. Trepar é meu carinho, é como um beijo, como um abraço, como ceder um cobertor. Por que eu vou fazer pela metade? Ceder o cobertor ao mendigo e não a companhia pra dormir? Eu não entendo. Eu sou o brinde que vai junto com o cobertor, sou um brinde que vem junto com a vida, pra todo mundo. Acho que todos somos brindes. (Trecho retirado do livro “Luis Antônio - Gabriela”, de Nelson Baskerville)

Turma da Mônica no palco do Marista, sábado Os Estúdios Mauricio de Souza trazem a Maringá, no próximo sábado, o espetáculo “Um Plano Para Salvar o Planeta”, um musical interativo que conta com a participação de vários personagens dos quadrinhos Turma da Mônica, entre eles Cebolinha, Cascão, Magali, Franjinha e Chico Bento. O espetáculo começa às 16h, no Teatro Marista. Ingressos podem ser adquiridos na Maringá FM (Av. Getúlio Vargas, 266). Meia-entrada ou levando um litro de leite, o ingresso custa R$ 52.

I TEATRO

‘Andarilhos de Cordel’ é atração de amanhã O espetáulo “Andarilhos de Cordel”, da Companhia Pedras, de Maringá, será apresentado amanhã às 18h30 na feira do produtor que acontece todas as quartas-feiras ao redor do estádio Willie Davids. A peça estreou em 2005 na cidade e percorreu diversas feiras e salas de teatro. A montagem exibe a cultura nordestina por meio de dois personagens, Pirilampo e Fulô. A apresentação é gratuita e faz parte da comemoração de 18 anos do grupo teatral maringaense - as atividades comemorativas vão até o dia 30 de setembro.


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