Vida
ENTREVISTA Liao Yiwu
A China é uma grande prisão
O jornalista chinês perseguido pelo governo conta sua experiência na prisão e diz que a abertura econômica não trouxe liberdade de expressão Humberto Maia Junior
O
JORNALISTA LIAO YIWU, DE 53 ANOS, GOSTA DE PENSAR QUE ESTÁ SEGUINDO OS PASSOS de seu pai, um professor de literatura chinesa preso pelo governo comunista durante a Revolução Cultural, na década de 1960. “Ele foi punido por se dedicar a seu trabalho”, diz. Como seu pai, Liao foi para a prisão, em 1990. O crime do filho foi escrever um poema contra o governo chinês inspirado nos protestos na Praça da Paz Celestial. “Fui preso porque todos gostam de ler meus textos.” No ano passado, Liao fugiu para a Alemanha e conseguiu publicar Deus é vermelho – A história secreta de como o cristianismo sobreviveu e floresceu na China comunista, recém-lançado no Brasil pela editora Mundo Cristão.
época – Quando o senhor decidiu escrever o livro? Liao Yiwu – Foi depois que conheci um médico cristão. Quando
época – Hoje existe tolerância religiosa na China? Liao – As estatísticas mostram que há pouco
época – Que tipo de perseguições os cristãos sofreram? Liao - A China é um país ateu que despreza as crenças religio-
época – O senhor passou quatro anos encarcerado por
o encontrei, ele fazia uma cirurgia de catarata num paciente num lugar de condições precárias numa região montanhosa da China. Depois da cirurgia, conversamos. Ele me contou que tinha sido vice-diretor de um hospital de Suzhou, mas foi afastado do cargo porque o Partido Comunista exigiu que abandonasse o cristianismo e ele recusou. A história dele me impressionou e resolvi escrever sobre essa perseguição.
sas. O governo se opõe a todas as religiões, como budismo, taoismo ou cristianismo. Naquele momento (no início da Revolução Cultural, nos anos 1960), havia muitos missionários cristãos estrangeiros na China. Todos foram expulsos. Os fiéis foram proibidos de manter relações com os cristãos estrangeiros. O governo aceitava apenas a fé no comunismo. Por isso, muitos fiéis se afastaram. Mas muitos também continuaram com sua fé e lutaram contra o regime. Alguns foram fuzilados, outros passaram mais de 20 anos na prisão.
mais de 70 milhões de cristãos, 5% da população. De um modo geral, a procura por uma religião reflete a busca de suporte espiritual. E a China vive um momento de dúvidas e inseguranças. O cristianismo, uma religião tradicional, ajuda a suprir essa necessidade. Mas acredito que a China tolera o cristianismo na teoria, não na prática. Deus e o diabo não podem existir no mesmo lugar. ter escrito um poema (“Massacre”) inspirado nos protestos na Praça da Paz Celestial, em 1989. Como foram os anos na prisão?
Fui humilhado, tratado como um cachorro. Depois da prisão, me tornei outra pessoa. Presenciei muitos assassinatos na cadeia e acabei me tornando um confidente dos presos, que me contavam suas histórias. Um deles me contou em detalhes como matou a mulher: cortou a carne e comeu os pedaços dia após dia, até acabar. Outro me contou como escapou de uma prisão por uma fossa
Liao –
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