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Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas 9789896932138

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PESSOAS AUTISTAS ADULTAS

PSICOLÓGICAINTERVENÇÃO COM

PESSOAS AUTISTAS ADULTAS

AUTOR

PESSOAS AUTISTAS ADULTAS

Pedro Rodrigues

Psicólogo com especialidade em Psicologia

Avaliação clínica no adulto autista: princípios, instrumentos Comorbilidades psiquiátricas, médicas e diferenciação comunicacionais autistas e adaptação da relação terapêutica intervenção afirmativas e modelos de terceira geração ansiedade, depressão e burnout autista . Identidade, narrativa na idade adulta . Sexualidade, relações e vinculação neurodivergente . Inserção laboral, adaptações razoáveis

Clínica e da Saúde e especialidade avançada em Neuropsicologia da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Mestre em Terapias Comportamentais e Cognitivas. Doutorado em Psicologia Clínica e da Saúde. Especialista na Avaliação e Intervenção com Pessoas Autistas Adultas. Tem dedicado a sua prática à escuta das experiências neurodivergentes, com especial atenção à clínica com adultos autistas, interseções identitárias e construção de comunidades terapêuticas seguras.

Intervenção ética, direitos legais e transições ao longo

Este livro propõe uma abordagem contemporânea, prática à intervenção psicológica com pessoas adultas no espetro de uma perspetiva neuroafirmativa, integra contributos investigação recente e da experiência direta com adultos modelos de formulação, estratégias de intervenção concretas.

DIRETOR DE COLEÇÃO

Mauro Paulino

Coordenador da Mind | Instituto de Psicologia

Ao longo dos capítulos, são exploradas áreas centrais comorbilidades, regulação emocional, relações, identidade, transições ao longo do ciclo de vida. O foco não está mas na construção de práticas que respeitem a singularidade vam bem-estar e favoreçam a autonomia com suporte

Clínica e Forense. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com grau de especialidade avançada em Psicologia da Justiça e em Neuropsicologia. Doutorado em Psicologia, com especialidade em Psicologia Forense, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Professor auxiliar da Universidade Europeia.

ISBN

Destina-se a psicólogos clínicos, psiquiatras, terapeutas, sionais de saúde e educação, bem como a adultos autistas compreender melhor o seu percurso. Mais do que um manual convite a repensar a prática clínica com rigor, sensibilidade

Pedro Rodrigues

Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas

Adultas

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© Copyright 2026, FCA PACTOR Editores, Lda. ® FCA e PACTOR são marcas registadas de FCA PACTOR Editores, Lda. ISBN edição impressa: 978-989-693-213-8 1.ª edição impressa: abril de 2026

Paginação: Carlos Mendes

Impressão e acabamento: Tipografia Lousanense, Lda. – Lousã Depósito Legal n.º 563210/26 Capa: José Manuel Reis

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3.2

3.4

3.5

3.6

3.7 Onde as Pessoas Vivem

4. Saúde e Comorbilidades

4.1 Introdução

4.2 Doenças Genéticas, Sensoriais, Comportamentais e Outras

4.3

4.5 Estratégias Clínicas para Avaliação e Formulação

4.6 Guia para a Análise Crítica de Diagnósticos Anteriores em Pessoas

4.7

4.8

5. Raparigas e Mulheres

5.1 Introdução

5.2 Mulher Autista e a Saúde Feminina: Caminhos de Cuidado ao Longo do Ciclo de Vida

5.3 Menopausa e Envelhecimento: Alterações, Luto e Reconfiguração

5.4 Intervenção Psicológica: Estratégias Afirmativas e Adaptadas

5.5 Capacitação dos Profissionais de Saúde: Do Ginecologista ao Enfermeiro

6.1

6.2 Invisibilidade do Autismo na Terceira Idade

6.3 Diagnóstico Diferencial: Autismo versus Demência, Depressão, Ansiedade e Perturbações Sensoriais

6.4 Apoio Psicológico e Intervenção Terapêutica na Terceira Idade

6.5 Recomendações Finais e Considerações Éticas

Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas

12.2 Especificidades da Orientação Vocacional em Pessoas Autistas 191

12.3 Avaliação Vocacional 192

12.4 Formulação Vocacional 193

12.5 Intervenção: Apoio à Decisão e Construção do Projeto Vocacional 194

12.6 Integração no Mercado de Trabalho 196

12.7 Casos Clínicos 198

12.8 Considerações Éticas e Inclusivas 199

13. Tecnologias Assistivas e Digitais na Prática Clínica com Pessoas Autistas Adultas 201

13.1 Introdução 201

13.2 Tecnologias de Comunicação Alternativa e Aumentativa 201

13.3 Aplicações de Autorregulação Emocional e Sensorial 203

13.4 Realidade Virtual e Ambientes Imersivos em Intervenção Clínica 203

13.5 Plataformas Digitais de Psicoterapia e Suporte Online 205

13.6 Inteligência Artificial e Personalização Terapêutica 206

13.7 Desafios Éticos, Culturais e Práticos 208

14. Orientações Futuras para a Investigação e Apoio

14.2 Superar o Modelo Deficitário: O Fim do Paradigma de Correção 210

14.3 Áreas Prioritárias para a Investigação Futura 212

14.4 Inovação nos Apoios: Comunidade, Representatividade e Flexibilidade

14.5

15. Formulação Clínica Integrativa em Terapia Cognitivo-Comportamental com Pessoas Autistas Adultas 217

15.1 Introdução 217

15.2 Modelo Cognitivo-Comportamental Integrativo Aplicado ao Autismo Adulto 218

15.3 Fatores Etiológicos (Causas) na Formulação com Pessoas Autistas 220

15.4 Fatores Precipitantes (Desencadeantes) 221

15.5 Mecanismos de Manutenção 223

15.6 Construção de Hipóteses Terapêuticas

15.7 Planeamento Terapêutico Baseado na Formulação

15.8 A Formulação como Ato Político-Clínico

16. Terapias de Terceira Geração com Pessoas Autistas Adultas

16.1 Introdução

16.2 Princípios Gerais das Terapias de Terceira Geração

16.3

16.4 Terapia Focada na Compaixão

16.5 Mindfulness Clínico e Práticas Contemplativas Adaptadas

16.6 Terapia Comportamental Dialética

16.7 Terapias Baseadas em Processos e Abordagens Integrativas

16.8 Considerações Críticas sobre Eficácia e Risco de Sobreadaptação

16.9 Considerações e Recomendações

17.3 Transição dos Serviços de Saúde Mental Infantojuvenis para a Idade Adulta

17.4 Papel da Pessoa Autista e da Família na Construção de Cuidados

17.5 Recomendações Práticas para a Realidade Portuguesa

18.2 Autismo e Justiça Penal: Vulnerabilidade, Responsabilidade e Adaptação Ética no Contexto Forense

18.3 Quadro Legal e Conceptual em Portugal

18.4 Autismo e Comportamentos que Entram em Conflito com a Lei

18.5 Avaliação Pericial Psicológica e Psiquiátrica

18.6 Testemunho, Depoimento e Capacidade de Resposta em Tribunal

18.7 Prisão, Internamento, Medidas Alternativas e Reintegração

Testemunhos

Estrangeira em Terra Própria

Ouvi algumas vezes, quando me atropelava nas explicações, falando demasiado rápido e com saltos mortais entre as palavras pensadas e as ditas: devagar, começa pelo início! Mas eu não entendo conceitos imprecisos como devagar e início. Devagar, para fazer sentido, implicaria uma comparação, para ter precisão métrica: o que é devagar para uma lebre, imagino ser rápido para uma tartaruga. Início, meio e fim são etapas que se baralham; falta-me a capacidade de medir ou recordar o tempo: só sei o agora, o que já foi e o que ainda será – presente, passado e futuro. E os atropelos (que só recordei porque fui reler o que escrevi) devem-se aos mil pensamentos em simultâneo, às conversas (mentais) intermináveis com repetidos diálogos, inúmeros monólogos, músicas retidas, passando em loop. Por vezes, surpreendendo-me, distraída, a “pensar em voz alta” fora de casa: dentro dela é habitual conversar comigo, quem em silêncio quer diálogos contínuos e, por vezes, acaloradas discussões.

Não me incomoda que me achem esquisita: a vulgaridade parece-me enfadonha e demasiado previsível. Ainda assim, desvio as atenções para o cabelo pintado de azul (que vai desbotando para verde, confundindo os daltónicos e os futebolistas ferrenhos), a curta saia, de ténis ou padel, rodada e com calções incorporados, os tops que tapam o imprescindível, deixando ao léu o meu reconstruído umbigo (por cirurgia plástica, pós-bypass gástrico) e o corpo musculado pelo desporto.

Sim, também tenho um distúrbio alimentar. Proveniente da incapacidade para lidar com as exigências próprias e alheias: o bullying na escola (tanto por alunos como professores); a pressão em casa para ser como os outros, mas melhor. Peso-me todos os dias, ansiando ver um número menor na balança. Os distúrbios alimentares são como o elefante branco no meio da sala: todos fingem não o ver, mas nem por isso ele desaparece; acompanha-nos a vida inteira (como o alcoolismo), mesmo quando não comemos (ou não bebemos).

Todos gostam da parte boa, do autismo “levezinho” e “altamente funcional” e, depois, tomam a parte pelo todo e o todo pela parte. Segundo a visão popular (e, durante demasiado tempo, médica), sou invulgarmente boa em algo e consigo com facilidade o que os outros não conseguem, por muito que tentem, não se compreende que não seja em tudo: não me esforço o suficiente, sou arrogante, mal-agradecida, preguiçosa, impostora, sem empatia. Querem o que lhes agrada e convém, mas recusam reconhecer as minhas dificuldades e dar-me as adaptações de que necessito para ter qualidade de vida e sobreviver na sociedade, como membro integrante, decisor, contribuidor e válido dela: esquecendo-se que eu sou (mais do que) a soma das minhas partes (como se qualquer humano, autista ou não, pudesse ser uniforme e unidimensional!).

Ainda assim, parece-me bem mais fácil recuperar o corpo, quando comparado com o resgatar da mente. Acho certeira a expressão: “O que foi visto, jamais será desvisto”. Começou tudo tão cedo, como podia eu estar preparada, evitar os acontecimentos, defender-me capazmente deles? Sim, a culpa cola-se à pele, não importa a idade ou a inocência que tens. E, quem nos rodeia, mesmo inadvertidamente, aumenta ainda mais essa pestilência que nos apodrece por dentro: “Se tivesses feito o que te disse”, “Se fosses mais como os outros...”. A sensação de ser estrangeira, discriminada em terra própria…

A vida não espera por ninguém e as agressões e traumas vão-se acumulando, porque aprendo a aguentar, aguentar tudo, de cabeça erguida e dentes cerrados, oscilando entre a invisibilidade e a teoria de que “a melhor defesa é o ataque contundente”.

“Parece que vieste da guerra!”, ouvi muitas vezes da minha mãe, sempre que dava um salto e um grito quando algo me apanhava desprevenida: um toque, acontecimento ou barulho inesperado que me transforma em puro instinto de sobrevivência. O corpo tenso, como um animal encurralado, preparado para atacar ou fugir, ao menor sinal de perigo. “Freeze or fight”.

O pior são os pesadelos e os flashbacks. Como sair da (hiper)vigilância, se aprendi que nunca estou realmente a salvo? O mundo é-me hostil: uma selva urbana repleta de ameaças, agressões, dores e monstros, que nos arrancam a inocência, a autoestima, a autoconfiança e a segurança – à primeira oportunidade ou descuido.

O passado rasgou feridas profundas, demasiado dolorosas para serem visitadas: cobertas de crosta, mas não cicatrizadas. Um cheiro, um som, um gesto, um lugar, uma situação, uma imagem: qualquer coisa serve de trigger, de puxão que arranca a crosta e expõe a ferida. E poderia ser bom, se eu conseguisse aguentar o suficiente,

dar-lhe tempo e o tratamento adequado para ela sarar de vez, mas não consigo. A dor é demasiada. E o corpo faz o que o instinto manda: desliga sensores, desassocia, varre para fora do pensamento, bem enterrado no subconsciente.

Tenho 51 anos, fui diagnosticada por volta dos 45, soube quem era após os 40. Desde aí, livrei-me de 45 kg de obesidade mórbida, bastantes sentimentos negativos e autodestrutivos; inúmeros preconceitos e ignorância; pessoas que eu não era, mas agradavam a outros; trabalhos, sempre precários, que me sugavam a vida e a energia em troca de migalhas. Muni-me de terapia, uma rede de amigos e conhecidos, um corpo que vive de exercício físico, ar fresco, leite, pão, fruta, tomate, sopa e ovos sob qualquer apresentação; cravando carne vermelha, ainda que mal tolere o sabor, irradiando calor, noite e dia, como uma central nuclear.

Nunca atino com o espaço das portas (coberta de hematomas que não recordo ter feito), guio-me pela casa como um animal cego que depende da imobilidade da mobília (o meu cérebro cria uma espécie de planta da localização de tudo, dispensando os olhos da sua função, e impelindo-me a explodir sempre que alguém muda alguma coisa de sítio, mesmo que essa pessoa seja, inadvertidamente, eu).

Tolero mal os estímulos do exterior: há demasiado barulho, cheiros, cores, brilho, movimento, pessoas, temperaturas, texturas, ainda que os fones e os óculos de sol sejam acessórios de uso permanente, e evite tocar ou aproximar-me seja do que ou de quem for. Preciso de mais de uma hora para conseguir sair efetivamente de casa: pego nas chaves, perco o telemóvel; desespero à procura da mochila (sempre que tenho de lavar a que os meus olhos conhecem), invisível aos meus olhos; encontro o telemóvel, já perdi novamente as chaves, lembro-me de algo que tenho de ir buscar ao quarto, mas, segundos depois, quando lá chego, não me recordo do que fui lá fazer. O inferno continua, terminando ou em atrasos tais que desisto de sair, ou numa crise nervosa que me leva a partir coisas, gritar com as pessoas se me vierem interpelar, magoar-me, ter dores generalizadas, dificuldade em raciocinar e me focar, e sentir-me esmagada por uma necessidade incontrolável de dormir: meltdown e shutdown, na nomenclatura mais recente.

Relaxo e regulo-me com banhos de água fria e um sem número de atividades e aprendizagens que distraem a mente, na tentativa de não pensar no que recuso ver. Pratico muito(s) desporto(s). Em tempos bons, consigo fazer exercício físico sete dias por semana: uma ajuda indispensável, tanto para moldar o meu corpo ao que gosto de ver, como para libertar a energia, o stresse, o mau humor, a frustração e a incerteza

do futuro, quer pessoal (por não me conseguir realizar no amor de um companheiro), quer profissional (pela ausência de um emprego, apesar das inúmeras habilitações, experiência e capacidades). Os tempos menos bons são repletos de múltiplas lesões, provenientes da alta tolerância à dor – não me recordo de viver sem ela –, má coordenação e noção espacial, fraco equilíbrio, problemas articulares (mais um diagnóstico que médicos de várias especialidades falharam em fazer, favorecendo a evolução do problema).

Os diagnósticos de perturbação do espetro do autismo (PEA), chamada de “sobredotada com a teimosia de uma mula”, e de perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), vulgo “corpo com bichos carpinteiros e cabeça na lua”, permitiram-me começar a construir, lentamente, a teia de contactos, aproximando-me dos meus pares, mergulhando-me no ativismo pela defesa dos direitos de todos os humanos. Abriu portas a novas amizades, à esperança de uma vida mais autêntica, menos sofrida, mais desejada; conseguindo finalmente pedir e aceitar o apoio de que necessitava, melhorando de forma radical a minha qualidade de vida. Ainda longe de me sentir sanada dos traumas acumulados ao longo de tantos anos, mas a progredir (umas vezes mais lentamente, com mais tropeções, quedas e recomeços, e outras com mais confiança) no caminho em direção a mim: àquela que sou, que posso ser, que sonho alcançar. Assumidamente autista, sem máscaras que me agridem e despersonalizam. Ainda assim, sinto-me esmagada pela ausência de apoios, pelas exigências sociais, pela solidão e pelo cansaço persistente. “Depressão major resistente à medicação”, dizem-me (sugerindo o tratamento com quetamina): a medicação e o acompanhamento psicológico e psiquiátrico são indispensáveis, mas, infelizmente, não chegam para (eu) sarar.

Aguardo o Atestado Médico de Incapacidade Multiúso (AMIM), pedido há quase um ano, tentando obter os 60% de incapacidade necessários para aceder aos (míseros) apoios (mais financeiros que estruturais). O Estado é reflexo da sociedade: ignora os prazos e as leis que ele mesmo decretou, opta impunemente por não cumprir, recusa até aceitar que existimos por direito próprio e somos parte da evolução humana. Até um dia. Quem sabe quando a ampulheta se esgota?

Eva Lia Marques

Ser Eu

“I was very disappointed in your show this year, Hannah. I just don’t think there was enough lesbian content.” I’d been on stage the whole time. I didn’t... even straighten up halfway through, you know?1

Como comunicar o que é ser eu? É um trabalho simultaneamente fácil e difícil: por um lado, não há como não ser eu; por outro, pedem-me para comunicar o que é ser eu, autista. Poder comunicar o que é ser eu, autista, é uma oportunidade maravilhosa. Poucas vezes me dão essa oportunidade: “Mas quando dizes que és autista, queres dizer o quê? Onde e como és autista?” Eis as perguntas que nunca me fizeram até hoje. Também nunca me perguntaram: “Porque me contas que és autista? O que esperas de mim?”

Vou organizar este texto em três partes: i) autismo como categoria, visto da minha perspetiva; ii) ser neurotípico; iii) ser autista, hoje. Como este texto pode ser lido por profissionais que trabalham com pessoas autistas, vou incluir experiências de sofrimento social, na esperança de aumentar a compreensão dos que não o experimentam e, quem sabe, a identificação por pessoas que o vivem, mas podem não ter ainda encontrado palavras.

Autismo como Categoria

Autismo é uma categoria relacional: significa que, por alguma razão, há pessoas que merecem, ou procuram, este diagnóstico, em relação a outras que são, por oposição, “normais”. Ser autista é estar cortado deste normal. Para mim, este normal é um rebanho. A palavra rebanho pode ser vista de forma pejorativa, como uma massa acrítica de pessoas que não pensam, lideradas por um pastor, mas, na minha aceção, o rebanho é, na verdade, uma ambição e um privilégio a que estou vedada: o calor do grupo, as vibrações consonantes, o coro de uma só voz feito de muitas vozes. Para mim, o calor do grupo, que anseio, é-me insuportável, e os coletivos, medonhos. Muitas pessoas poderão identificar-se, ainda mais hoje, com o facto de que o cheiro do fascismo está nas ruas, com esta visão de não pertença. Mas o autismo é uma não

1 Hannah Gadsby: Nanette (2018) – transcript. Scraps from the Loft, 2021. https://scrapsfromtheloft.com/ comedy/hannah-gadsby-nanette-transcript/#google_vignette

pertença biológica. Há uma diferença indizível presente desde que a pessoa tem memória de si, ou no meu caso, desde a preparatória. O autismo revelou-se quando a infância acabou, e o acabar da infância é algo muito violento. A solidariedade promovida em todos os desenhos animados e cartazes, que continuará a ser apregoada durante toda a vida como um ideal, não é um real. A canção do coro muda e “os normais” dançam um novo hino. A letra pode continuar a ser entoada, mas esvaziada de sentido. A dissonância instala-se.

Ninguém é autista sozinho, é-se autista em relação. Mas o facto de a quebra de relação entre nós e os outros ser de origem biológica leva-nos a ter em conta o corpo. O nosso corpo fala connosco e se não o escutarmos, não será nosso amigo. Tentamos silenciá-lo como podemos na ânsia de nos juntarmos ao rebanho, mas ele diz não. E assim perdemos o comboio do mundo.

Ser Neurotípico

Neurotípico é a palavra para “normal”. Da minha perspetiva, as pessoas normais são as pessoas que põem o social primeiro. Para elas, o social não é uma opção. Dançam a qualquer música, ignoram qualquer letra. O social é um fim em si e conseguem ser consoladas por esta via. Consigo aceder a este social através das crianças. Com elas, ouço funk brasileiro, vou às festas e os seus sorrisos e brincadeiras são suficientes. Mas o social dos adultos não me dá consolo algum. Torna-se impossível suportar coisas sem sentido e sem propósito, na ausência de um bem comum. Ignorar passa a ser um esforço ativo, não passivo. Ignorar de onde vêm as coisas e conversas vãs sobre coisas, o status social do que se come, a moda e as roupas, as expressões racistas e misóginas que usamos, o desperdício, o lixo, a violência, a burocracia, o assoberbar desnecessário dos sentidos que nos impede de pensar. Não posso dançar aquela música com aquela letra ou não quero dançar? Poder e querer confundem-se. Não sentir não é uma opção.

Ser Autista, Hoje

Ser autista é ser primeiro. Não é “ser o primeiro”, mas ser pessoa antes de ser social. Ser pessoa é ter um corpo como habitação. Ouvir e respeitar o corpo, ao invés de o silenciar: de que gostas? O que queres? Onde te sentes bem? Quem amas? Quem temes? Sem julgar o que devíamos ou não sentir pela expectativa incorporada do normal. O corpo é a casa das nossas emoções. Ser autista é ser mamífera e é precisar do conforto

de outros e de uma casa onde me sinto segura. Tive a felicidade de construir essa casa, num lugar onde não estou constantemente assoberbada e posso, a partir daí, explorar o mundo. Ser autista é ser amada pelo que se é e amar outros pelo que são. Ser autista é viver de relações de um para um, autênticas que são eternas. É ter uma relação com os sentidos e o sentir que implica o rio, bosques e cogumelos. Ser autista é relacionar-se de uma forma não social, tendo em conta como o social foi definido, sinónimo de civilização.

Quando o meu corpo está acomodado, seguro e em repouso, a sentir prazer simplesmente por estar vivo, o principal sofrimento que tenho é a alienação. Esta alienação não se desfaz por ir a festas ou “conviver”. A alienação desfaz-se sempre que sou verdadeiramente vista e compreendida, com risos partilhados ou em comunhão com a natureza. É irónico que a palavra que traduz o que mais busco seja comunhão. E buscar, como disse a Alejandra Pizarnik2, é esperar o que não vem. Uma espera intolerável, um desamor constante, uma sensação de ser abandonada e rejeitada pelo mundo. Ser autista é construir o mundo pedaço a pedaço, relação a relação. É costurar as nossas roupas, fazer um cosmo com átomos. Os terapeutas ficam desorientados entre o “não tem problema nenhum, não há nada a fazer, é aceitar” e o “tem tanto, você consegue”. O que fica escondido são os traumas passados, a necessidade constante de compreender os comportamentos dos “normais”, e saber mesmo, mas do fundo do coração: “Sabes, tu não tens problema nenhum. São coisas deles, não são coisas tuas. Coisas que eles têm de resolver. Tu não tens culpa nem tens de compreender tudo”. O que há a fazer é amar, apesar disso. E, como disse a Frida Kahlo, “Onde não puderes amar, não te demores”.

2 McCulloch, J. (2012). Alejandra Pizarnik (1936-1972). In Pastor, B. M., & Davies, L. H. (Eds.), A companion to latin american women writers. Tamesis.

Introdução

O Que é o Autismo?

O autismo é uma perturbação do desenvolvimento, de origem neurobiológica e que se prolonga por toda a vida, afetando cerca de 1% da população mundial (Centers for Disease Control and Prevention [CDC], 2024). Caracteriza-se por diferenças nas competências sociais e de comunicação, nas formas de pensar e em padrões de comportamento e interesses restritos e repetitivos. Muitas pessoas autistas apresentam uma sensibilidade excessiva ou insuficiente a estímulos sensoriais, como sons, tato, sabores, cheiros, luz ou cores, e podem ter problemas de equilíbrio. A consciência corporal também pode ser afetada, pelo que sensações internas como a dor, a fome, a sede e a ansiedade podem ser ignoradas ou mal interpretadas.

O autismo é uma perturbação muito diversificada que abrange um amplo espetro de competências e dificuldades. Está frequentemente associado a outras condições concomitantes. Embora todas as pessoas autistas partilhem certas características, a sua condição afetá-las-á de formas diferentes. O diagnóstico de autismo, por si só, não constitui uma base adequada para avaliar as capacidades, o potencial ou as necessidades de uma pessoa.

Muitas pessoas autistas desenvolvem formas de se adaptarem às convenções sociais e vivem vidas completas e independentes. No entanto, para outras pessoas, o autismo é gravemente impactante, podendo estas ter dificuldades adicionais de aprendizagem ou outras situações médicas que exigem apoio especializado ao longo da vida.

A discriminação, o estigma social, a falta de compreensão e o facto de não se preverem medidas adequadas podem transformar a diferença nas pessoas com deficiência. Os resultados a curto, médio e longo prazo dependem não só das características individuais, mas também do apoio que as pessoas recebem. No entanto, os recursos limitados para apoio clínico, educativo e social significam que os serviços para as pessoas autistas muitas vezes não satisfazem as suas necessidades.

Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas

O apoio da educação (incluindo a aprendizagem ao longo da vida), do emprego, da saúde e da assistência social é indispensável para fornecer aos indivíduos os recursos adequados e para ajudar a aumentar a resiliência. Os psicólogos podem desempenhar um papel fundamental na prestação deste apoio, partilhando evidências e boas práticas, realizando investigação, combatendo o estigma e a discriminação e reforçando os conhecimentos e a consciencialização.

Mas também a forma como qualquer um de nós fala sobre o autismo é fundamental. A terminologia é amplamente debatida no domínio do autismo. Não existe uma forma única e universal de os profissionais descreverem o autismo, além da referência aos critérios de diagnóstico. Os termos habitualmente utilizados incluem autismo, perturbação do espetro do autismo (PEA) e condição do espetro do autismo. Algumas pessoas autistas opõem-se a que sejam referidas como “perturbadas” e veem o autismo como uma forma diferente de ser, enquanto outras sentem que o autismo desafia seriamente as suas vidas e desejam manter o termo “perturbação” para que as suas necessidades sejam reconhecidas.

Sobre Este Livro

Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas destina-se aos psicólogos que trabalham com pessoas com diagnóstico de PEA e com as suas famílias e prestadores de cuidados. Devido à grande diversidade da população autista (no que diz respeito à forma como o autismo se apresenta e ao nível das necessidades individuais), este livro procurou ser o mais abrangente possível na sua aplicação. Este não pretende apoiar qualquer tipo de abordagem teórica ou terapêutica específica. No entanto, procura basear-se nas atuais orientações do National Institute for Health and Care Excellence (NICE, 2011; 2012b).

As orientações do NICE reconhecem que o autismo é uma condição altamente complexa para a qual a base de evidências sobre a causalidade e o tratamento está em constante desenvolvimento. Esta obra está centrada na importância de envolver as pessoas autistas no processo de tomada de decisão sobre a sua avaliação e as abordagens adotadas. Reconhece a importância de envolver os pais/cuidadores e, de facto, toda a família neste processo e que os sistemas e dinâmicas familiares podem variar de forma considerável. Centra-se no papel dos psicólogos enquanto profissionais, na compreensão destas questões e no apoio a outros na adaptação das abordagens oferecidas. Este

livro procura olhar para o papel importante dos psicólogos como impulsionadores da mudança dentro de um sistema ou serviço, assim como contribuintes para uma abordagem multidisciplinar e para a investigação.

Embora este livro tenha como principal objetivo orientar psicólogos que trabalham com pessoas autistas, é inevitável considerar o autismo numa perspetiva ao longo da vida. Assim, torna-se necessário abordar também a infância e a juventude, bem como os diferentes contextos em que estas etapas se desenvolvem. As experiências vividas nesses períodos influenciam, de forma significativa, a trajetória das pessoas autistas, sendo frequentemente refletidas na vida adulta.

As orientações abrangem os muitos contextos diferentes em que os psicólogos trabalham, incluindo com crianças e jovens, com adultos e idosos, na educação, saúde, assistência social, emprego e em contextos de justiça criminal.

A psicologia clínica, enquanto disciplina aplicada, desenvolveu-se historicamente a partir de modelos normativos de funcionamento humano. Contudo, a investigação recente em neurodesenvolvimento, neurodiversidade e identidade autista tem evidenciado as limitações dessas abordagens, revelando a necessidade de uma reformulação profunda dos paradigmas, linguagens e práticas com que psicólogos trabalham com pessoas autistas. Este livro apresenta os fundamentos para uma psicologia ética, científica e clinicamente eficaz com pessoas autistas, começando por distinguir conceptualizações atuais do autismo, problematizar abordagens deficitárias e defender práticas ancoradas na escuta experiencial, no compromisso ético com a diversidade e na adaptação colaborativa.

Recursos para Psicólogos, disponíveis para download.

Linguagem Usada

A linguagem que usamos para falar do autismo não é neutra: transporta visões do mundo, pressupostos clínicos, posicionamentos políticos e éticos. Por essa razão, este livro adota deliberadamente uma linguagem inclusiva, afirmativa e centrada na pessoa autista, em consonância com as recomendações contemporâneas da psicologia crítica, do movimento neurodivergente e das práticas baseadas em direitos humanos.

Para facilitar a leitura, este livro utiliza o masculino genérico como forma padrão de escrita. Esta opção não exclui ninguém, devendo ser entendida como incluindo todas as pessoas, independentemente do género, não refletindo qualquer intenção de

discriminação. Nos capítulos em que se abordam diretamente temas relacionados com o género, foi usada a linguagem inclusiva, de acordo com o contexto e os objetivos do conteúdo.

Porquê Uma Linguagem Inclusiva sobre o Autismo?

Porque a linguagem constrói realidades – expressões como “sofre de autismo”, “funcionamento normal”, ou “défice de empatia” não são apenas imprecisas; são invisibilizadoras e potencialmente danosas, sustentando narrativas patologizantes que limitam a autonomia e o reconhecimento da identidade autista.

Porque as próprias pessoas autistas a reivindicam – uma parte significativa da comunidade autista prefere a linguagem afirmativa e identitária (“pessoa autista” em vez de “pessoa com autismo”), compreendendo o autismo como parte estrutural da sua identidade, e não como algo que “possuem” ou do qual possam “recuperar”.

Porque a ciência também deve ser ética – uma linguagem desatualizada ou centrada no défice pode comprometer não apenas a relação terapêutica, mas também a validade social dos estudos científicos, afastando os próprios sujeitos que pretende representar.

Porque a clínica é também um espaço político – nomear é um ato de poder. Ao nomearmos o autismo em moldes que respeitem a dignidade, a autodeterminação e a pluralidade, reconhecemos as pessoas autistas como coautoras das suas narrativas clínicas, e não como objetos de análise.

Porque a linguagem inclusiva não é uma concessão; é um imperativo clínico e humano – adaptar a linguagem às pessoas e não as obrigar a caber na linguagem hegemónica é um gesto terapêutico de base, um sinal de presença ética e uma prática de escuta.

1.2.4 A Viragem Comportamental: Behaviorismo e Sistemas de Classificação

Com a ascensão do behaviorismo, especialmente nos EUA, o foco mudou para a alteração do comportamento observável. A intervenção comportamental fazia-se por meio de:

ƒ Applied behavior analysis (ABA), que se desenvolveu como técnica para “reduzir comportamentos-problema”;

ƒ Reforço positivo, punição e treino de comportamentos “normativos”, que se tornaram padrão;

ƒ Críticas contemporâneas, que alertavam para efeitos traumáticos, ausência de consentimento e camuflagem forçada (Kupferstein, 2018) (Tabela 1.1).

Tabela 1.1 Diagnóstico nos manuais (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM – e Classificação Internacional de Doenças – CID)

Ano DSM Descrição

1952

1980

DSM-I Reação esquizofrénica da infância.

DSM-III Introduz “perturbação autista” como categoria distinta.

1994 DSM-IV Cria categorias separadas: autismo, Asperger, perturbação pervasiva do desenvolvimento, não especificada de outra forma (PDD-NOS).

2013 DSM-5 Introduz “espetro do autismo” como entidade única e dimensional.

Esta evolução reflete o reconhecimento da diversidade dentro do espetro, mas também a tentativa de sistematizar critérios de diagnóstico em linguagem médica.

1.2.5 O Impacto das Neurociências e da Biomedicina

A partir da década de 90 do século xx, o desenvolvimento das neurociências trouxe uma nova linguagem para o estudo do autismo, centrada na genética, conectividade cerebral e modelos biomédicos. Entre as descobertas mais relevantes decorrentes do avanço das neurociências destacam-se:

ƒ Identificação de numerosas variantes genéticas associadas ao autismo –estudos de genética molecular e de genómica revelaram que o autismo não está ligado a um único gene ou a uma causa genética isolada. Pelo contrário,

Orientações de boas práticas

Os psicólogos devem trabalhar para:

ƒ Apoiar todas as crianças e jovens com suspeita de autismo e as suas famílias, para que obtenham um diagnóstico e acedam a serviços de apoio adequados o mais rapidamente possível;

ƒ Reconhecer as necessidades específicas das crianças e dos jovens que não se enquadram na idade “típica” de diagnóstico e garantir que as crianças em idade pré-escolar e secundária e as suas famílias também tenham acesso a serviços de diagnóstico e de apoio adicional adequado o mais rapidamente possível;

ƒ Aumentar a sua própria compreensão e a dos seus colegas sobre as exigências do desenvolvimento na adolescência e como podem ser mais complicadas para os jovens com autismo;

ƒ Colaborar com outros profissionais, no âmbito de uma equipa multidisciplinar, para assegurar um diagnóstico preciso e adequado às crianças e aos jovens;

ƒ Ensinar, formar, supervisionar e consultar os prestadores de cuidados e de ensino;

ƒ Ajudar os pais e encarregados de educação e outros profissionais a compreenderem que as necessidades podem ser identificadas e que pode ser prestado o apoio e a assistência adequados antes de uma avaliação diagnóstica;

ƒ Assegurar que os prazos para a revisão das necessidades da criança/jovem são adequados à pessoa em causa.

Vinheta clínica (resumo)

Tiago (35 anos) usava scripting humorístico em momentos de ansiedade. A terapeuta começou a reconhecer e validar essas frases como marcadores emocionais. Com o tempo, ambos criaram um “dicionário interno” com códigos partilhados. Tiago sentia-se finalmente escutado.

Orientações de boas práticas

Os psicólogos, independentemente do local onde se encontrem, devem trabalhar para:

ƒ Promover uma abordagem de formulação das avaliações e dos processos de diagnóstico do autismo;

ƒ Assegurar que todas as avaliações do autismo sejam exaustivas e, sempre que possível, multidisciplinares;

ƒ Assegurar que toda a informação é tida em conta na formulação, incluindo acontecimentos e experiências de vida históricos e recentes;

ƒ Assegurar que as avaliações e as formulações daí resultantes têm em conta os pontos fortes e as dificuldades de uma pessoa, indo além das categorias de diagnóstico e das condições concomitantes para analisar a pessoa no seu todo e no seu contexto;

ƒ Compreender as limitações dos instrumentos normalizados utilizados para identificar o autismo e outras condições (por exemplo, condições de saúde mental);

ƒ Integrar as informações de avaliação provenientes de várias fontes ao fazer um julgamento clínico sobre a adequação de um diagnóstico de autismo e possíveis diagnósticos concomitantes;

ƒ Promover a realização de intervenções psicológicas baseadas no autismo e nas necessidades da criança ou do adulto, de acordo com a formulação;

ƒ Elaborar relatórios de diagnóstico positivos que se centrem nos pontos fortes e nos fatores de proteção, além de identificar as áreas de necessidade;

ƒ Avaliar a reação emocional da pessoa que recebe o diagnóstico e tomar as medidas necessárias para a resolver.

3 Autismo e Inserção Laboral

3.1 Introdução

A inserção laboral constitui uma dimensão central da vida adulta, não apenas como fonte de rendimento, mas também como espaço de participação social, construção de identidade e desenvolvimento pessoal. Para muitas pessoas autistas, o acesso e a permanência no mercado de trabalho podem representar desafios específicos, frequentemente relacionados não com a ausência de competências, mas com a forma como os contextos laborais estão organizados e com as expectativas sociais implícitas nesses ambientes.

Ambientes de trabalho marcados por elevada imprevisibilidade, comunicação ambígua, estímulos sensoriais intensos ou normas sociais pouco explícitas podem dificultar a adaptação de algumas pessoas autistas, mesmo quando estas possuem qualificações, conhecimentos técnicos ou capacidades analíticas significativas. No entanto, quando existem condições de trabalho mais estruturadas, previsíveis e sensíveis à diversidade de estilos cognitivos, muitas pessoas autistas demonstram níveis elevados de concentração, atenção ao detalhe, persistência e criatividade.

Este capítulo explora a relação entre autismo e inserção laboral a partir de uma perspetiva que procura compreender simultaneamente os desafios e as potencialidades presentes neste domínio. Além de analisar barreiras frequentes no acesso ao emprego, serão também abordadas estratégias de apoio, adaptações razoáveis e modelos de inclusão que podem contribuir para contextos de trabalho mais acessíveis e justos para pessoas autistas.

3.2 Autismo e Educação

O leque diversificado de necessidades no espetro do autismo exige opções flexíveis e variadas em matéria de ensino. Os psicólogos desempenham um papel fundamental

A abordagem afirmativa e integrativa do acompanhamento clínico exige, assim, distinguir com clareza o que constitui uma comorbilidade real de uma variação típica do autismo. A distinção entre sintomas do autismo e manifestações de uma condição comórbida não é linear, por exemplo:

ƒ A ansiedade social pode ser parte do autismo (em resposta à imprevisibilidade) ou pode ser uma perturbação ansiosa primária;

ƒ A rigidez cognitiva pode refletir o traço autista ou ser manifestação de uma POC;

ƒ O shutdown pode parecer depressão, mas pode ter origem sensorial ou relacional.

Para evitar erros diagnósticos, o clínico deve:

ƒ Avaliar a linha de base do funcionamento autista da pessoa;

ƒ Compreender os contextos em que os sintomas emergem;

ƒ Explorar se os sintomas são sofrimento secundário à não acomodação do ambiente;

ƒ Escutar o relato da pessoa sobre o que é novo, o que é habitual e o que é sofrimento.

4.4.2 Comorbilidades Psiquiátricas Comuns no Espetro do Autismo

4.4.2.1 Perturbações de Ansiedade

As perturbações de ansiedade são as comorbilidades mais frequentes, sobretudo:

ƒ Ansiedade generalizada – preocupação excessiva, tensão motora, hipervigilância;

ƒ Fobia social – medo intenso de avaliação, sobretudo em interações imprevisíveis;

ƒ Ansiedade de separação (em adultos) – dependência afetiva intensa, desorganização com mudança de rotinas;

ƒ Perturbação de pânico – episódios súbitos de medo fisiológico, confusão com crise sensorial;

ƒ Ansiedade situacional com shutdown ou mutismo seletivo.

ƒ Comportamental:

‚ Evitamento de situações anteriormente toleradas;

‚ Mudança nos padrões de scripting, shutdown, rigidez;

‚ Regressão de autonomia em atividades instrumentais do dia a dia.

ƒ Institucional – a presença de comorbilidades aumenta a probabilidade de internamentos, medicação excessiva, abandono de apoio psicológico ou rejeição em serviços de saúde por “complexidade”.

Quadro 4.1 Comorbilidades no espetro do autismo

Categoria Comorbilidade Sinais principais Diferenciação do autismo

Psiquiátrica Ansiedade generalizada

Psiquiátrica Fobia social

Psiquiátrica Depressão

Psiquiátrica PHDA

Psiquiátrica POC

Psiquiátrica PSPT

Médica/Neurológica Epilepsia

Preocupação difusa, tensão, hipervigilância.

Medo de avaliação, evitamento relacional.

Perda de interesse, isolamento com sofrimento.

Impulsividade, desorganização atencional.

Rituais egodistónicos, sofrimento intenso.

Hiperalerta, flashbacks, dissociação.

Crises tónico-clónicas ou parciais.

É mais contextual e sensorial.

Há desconforto, mas não necessariamente medo.

O isolamento pode ser confortável e rotineiro.

Foco seletivo; PHDA traz maior instabilidade.

Repetição como conforto, sem angústia.

Shutdowns autistas não envolvem reexperimentação traumática.

Shutdowns ou mutismo não são episódios epiléticos. (continua)

A adolescência tende a amplificar a dissonância entre o corpo que se transforma e a subjetividade sensorial e emocional da jovem. Alterações hormonais, novas exigências sociais, discursos contraditórios sobre sexualidade e expressão de género intensificam o risco de:

ƒ Ansiedade social;

ƒ Retraimento comunicacional;

ƒ Distorção da imagem corporal;

ƒ Perturbações alimentares;

ƒ Experiências de bullying, abuso ou invisibilização.

Rituais e desconforto sensorial – produtos menstruais, alterações no odor corporal, dor pélvica, toque físico e maior exposição social (balneários, exames médicos) podem representar desafios sensoriais avassaladores para jovens autistas. Muitas escondem sintomas ou interpretam-nos literalmente como falhas do corpo.

Uma intervenção psicológica ajustada deve ter em consideração as particularidades cognitivas, sensoriais e comunicacionais da pessoa, adaptando as estratégias terapêuticas de forma a tornar a informação mais acessível e significativa. Em muitas situações, especialmente quando se abordam temas relacionados com mudanças corporais, saúde ou sexualidade, pode ser útil recorrer a linguagem visual ou a metáforas concretas, que permitam explicar processos físicos de forma clara e compreensível. O uso de esquemas, imagens ou representações simples pode ajudar a tornar conceitos abstratos mais tangíveis, facilitando a compreensão e reduzindo a ansiedade associada à incerteza.

No caso de pessoas que experienciam o ciclo menstrual, pode ser particularmente relevante criar mapas de regulação sensorial associados às diferentes fases do ciclo. Estes mapas permitem identificar variações nos níveis de energia, sensibilidade sensorial, humor ou necessidade de descanso ao longo do tempo. Ao reconhecer estes padrões, a pessoa pode desenvolver estratégias de autorregulação mais adequadas, ajustando atividades, estímulos ambientais ou momentos de pausa de acordo com as suas necessidades.

É importante destacar que a apresentação clínica da pessoa sénior autista pode ser “silenciosa” e confundida com traços de personalidade, solidão ou declínio normal.

6.3 Diagnóstico Diferencial: Autismo versus Demência, Depressão, Ansiedade e Perturbações Sensoriais

A sobreposição entre características do envelhecimento e manifestações autistas cria desafios diagnósticos complexos. Nos Quadros 6.1 e 6.2, encontram-se algumas distinções relevantes.

Quadro 6.1 Critérios diferenciais entre autismo e demência

Critério

Memória

Linguagem

Afetividade

Orientação temporal

Comportamento repetitivo

Autismo sénior Demência

Preservação factual; seletiva

Literalidade; ecolalia ocasional

Constante; pode parecer distante

Pode manter rotinas estáveis

Estável ao longo da vida

Declínio progressivo e difuso

Perda de nomes, perda de compreensão verbal

Labilidade emocional acentuada

Confusão crescente

Pode surgir de forma recente

Quadro 6.2 Critérios diferenciais entre autismo e depressão

Autismo

Motivação seletiva Anedonia

Prazer em interesses especiais

Humor estável ao longo do dia

Depressão

Tristeza persistente

Baixa autoestima marcada

A relação entre autismo e ansiedade generalizada apresenta características particulares que exigem uma compreensão clínica cuidadosa. Embora a ansiedade seja uma das condições comórbidas mais frequentemente observadas em pessoas autistas, a forma como se manifesta nem sempre corresponde exatamente aos padrões descritos

relacioná-los com acontecimentos específicos. O uso de scripts visuais ou representações gráficas pode facilitar este processo;

ƒ Sessão 5 – dedica-se ao treino de estratégias de coping preventivo e à gestão de transições entre atividades ou contextos. Muitas situações de ansiedade em pessoas autistas estão associadas a mudanças inesperadas ou a períodos de adaptação entre tarefas. Trabalhar antecipadamente estas transições permite reduzir a sensação de imprevisibilidade e fortalecer recursos de regulação;

ƒ Sessão 6 – elabora-se um plano individual de autorregulação que integre as estratégias desenvolvidas ao longo do processo terapêutico. Este plano pode ser apresentado através de pictogramas, esquemas visuais ou linguagem clara e estruturada, de forma a facilitar a sua utilização no quotidiano. O objetivo é que a pessoa saia do processo com um conjunto de ferramentas concretas que apoiem a gestão da ansiedade em diferentes contextos da vida diária.

Técnica-chave – desdobramento da ansiedade (modelo visual: “Quando sinto... Penso... Faço... Poderia...”) com materiais estruturados.

Caso clínico

Marta, 28 anos, autista verbal, sente ataques de pânico em reuniões de equipa. Trabalhou-se a previsibilidade (roteiro da reunião), treino de resposta fisiológica (respiração tátil) e pedido de antecipação sensorial (luz e barulho reduzido). Em cinco semanas, relata maior segurança e menor evitamento.

8.3

Na Depressão

Definição – condição marcada por humor persistentemente baixo, perda de interesse e diminuição de energia vital. Reflete uma quebra no sentido de propósito, prazer ou autoeficácia perante a vida quotidiana.

No contexto de protocolos breves de intervenção para depressão em pessoas autistas adultas, os objetivos terapêuticos devem considerar as particularidades da experiência

modo solitário, através da observação ou da experimentação com objetos e estímulos sensoriais específicos.

9.2.2 Normas Sociais Implícitas e Aprendizagem Sexual

A aprendizagem sexual e relacional é, para muitas pessoas autistas, um desafio. As regras implícitas do flerte, da sedução ou da linguagem não-verbal escapam frequentemente à sua leitura. Isto pode conduzir a:

ƒ Interpretações literais de conteúdos sexuais;

ƒ Dificuldade em perceber consentimento tácito;

ƒ Vulnerabilidade a abusos ou exploração relacional.

É fundamental desmistificar a ideia de que as pessoas autistas “não têm interesse” por sexo ou afeto. O que acontece, muitas vezes, é que a forma de viver e compreender a sexualidade não corresponde às expectativas normativas.

9.3 Identidade de Género e Diversidade Trans e Não Binária

9.3.1 Prevalência e Relação com Neurodiversidade

Estudos recentes demonstram que pessoas autistas apresentam uma prevalência mais elevada de identificação não cisgénero, sendo comuns identificações trans, não binárias, agénero ou fluidas (Warrier et al., 2020). Esta relação parece estar associada a:

ƒ Menor adesão a normas sociais e de género;

ƒ Maior introspeção não mediada por padrões normativos;

ƒ Distanciamento crítico face a expectativas de género impostas.

9.3.2 Barreira Dupla: Capacitismo e Cissexismo

Pessoas autistas trans enfrentam múltiplas camadas de invisibilidade:

ƒ Psicólogos que associam a não conformidade de género ao autismo como “confusão”;

ƒ Negação do acesso a cuidados de afirmação de género;

ƒ Estigmatização do corpo autista como incapaz de desejo ou transição.

É imperativo que o trabalho clínico com pessoas autistas respeite a autodeterminação de género e não a patologize. A escuta afirmativa é terapêutica.

© PACTOR

ƒ Rejeição social e bullying – a exposição crónica à rejeição na infância e na idade adulta é um dos principais preditores de sofrimento suicida (Cassidy et al., 2018);

ƒ Trauma relacional e institucional – muitos adultos autistas viveram experiências de violência simbólica, negligência emocional, contenção forçada ou intervenção terapêutica sem consentimento;

ƒ Perturbações comórbidas – depressão, ansiedade, perturbação de stresse pós-traumático (PSPT), perturbação obsessivo-compulsiva (POC) e disforia de género são fatores associados que amplificam o risco.

10.3.2 Sinais de Alerta: Como se Manifesta a Ideação Suicida em Pessoas Autistas?

A ideação suicida em autistas pode não ser verbalizada de forma direta. Em muitos casos, os sinais emergem de forma simbólica, não-verbal, sensorial ou narrativa. Sinais clínicos incluem:

ƒ Sinais verbais ou simbólicos:

‚ Frases repetidas com conteúdo de nulidade: “Isto não faz sentido”, “Não devia estar aqui”;

‚ Scripting com frases de morte extraídas de filmes, livros ou memórias;

‚ Declarações literais – “O mundo seria melhor sem mim” (podem ser lidas erroneamente como dramáticas).

ƒ Mudanças comportamentais:

‚ Redução súbita de hiperfocos;

‚ Abandono de rotinas de conforto;

‚ Oferta de objetos pessoais sem explicação;

‚ Regressão de autonomia funcional.

ƒ Indicadores sensoriais e emocionais:

‚ Aumento de shutdowns prolongados;

‚ Hipersensibilidade sem regulação (não usar objetos de suporte);

‚ Expressão facial neutra com afetos intensos relatados por escrito.

ƒ Comunicação indireta:

‚ Desenhos, textos ou colagens com temas de desaparecimento;

‚ Uso de figuras (animais, personagens) como mediadores simbólicos da morte;

‚ Pedidos para “dormir para sempre”, “ficar quieto para sempre”, etc.

Intervenção:

ƒ CFT para validar modos alternativos de sentir;

ƒ Construção de um ritual pessoal – limpeza do relógio antigo do pai, agora usado por Tiago;

ƒ Escrita de um diálogo imaginado com o pai;

ƒ Exploração do significado da presença não-verbal (memórias, gestos).

Evolução – diminuição da culpa, maior conexão com afetos. Tiago passa a visitar o jardim onde ia com o pai, descrevendo-o como “um lugar onde me lembro de mim com ele”.

Caso 2 – Sofia, 17 anos: perda de animal de companhia e regressão comportamental

História – Sofia, autista de nível 2, não-verbal, perdeu a cadela com quem vivia há dez anos. Após o evento, passou a ter episódios de agitação, insónia e scripting de sons associados à cadela.

Avaliação – observação com apoio da mãe. Redução do apetite, recusa em sair de casa, aumento de estereotipias táteis.

Intervenção:

ƒ Criação de álbum visual da história da cadela;

ƒ Reencenação simbólica com bonecos e objetos associados;

ƒ Introdução de almofada sensorial com cheiro da cadela (objeto transicional);

ƒ Sessões de corregulação com música calma e vocalizações não diretivas.

Evolução – redução da agitação. Sofia passa a visitar o espaço onde a cadela costumava dormir. Recomeça a usar os símbolos de “alegria” e “passear” com maior frequência.

Caso 3 – Clara, 40 anos: perda da avó cuidadora e luto prolongado

História – Clara, autista diagnosticada aos 35, perdeu a avó que a criou. Desenvolveu sintomas de luto prolongado: ruminação sobre o passado, evitamento da casa da avó, paralisia funcional em rotinas.

16.5 Mindfulness Clínico e Práticas Contemplativas

Adaptadas

O mindfulness, entendido como atenção plena ao momento presente com uma atitude de abertura e não julgamento, é uma prática transversal a várias terapias de terceira geração, sendo frequentemente utilizada como técnica complementar ou como abordagem principal. Em contexto clínico, o mindfulness visa:

ƒ Aumentar a consciência da experiência interna (pensamentos, sensações, emoções);

ƒ Reduzir a fusão cognitiva com conteúdos mentais disfuncionais;

ƒ Melhorar a regulação emocional através do cultivo da aceitação e da presença.

Estudos preliminares indicam benefícios do mindfulness na redução da ansiedade e stresse sensorial, melhoria do reconhecimento de estados internos (alexitimia) e maior tolerância a incertezas e transições.

Contudo, muitos programas de mindfulness foram concebidos para populações neurotípicas, com ênfase em práticas silenciosas prolongadas, uso de linguagem simbólica e expectativas de introspeção emocional verbalizada, o que pode ser pouco acessível, ou mesmo desregulador, para muitas pessoas autistas (Quadro 16.1).

Quadro 16.1 Adaptações clínicas recomendadas

Prática tradicional

Meditação sentada em silêncio

Atenção à respiração (centrada no nariz ou peito)

Linguagem abstrata (por exemplo, “serenar a mente”)

Sessões prolongadas

Adaptação para neurodivergência

Caminhada consciente, foco em estímulos táteis, mindfulness ativo.

Atenção ao contacto dos pés no chão, às mãos em contacto com objeto/textura.

Linguagem literal (por exemplo, “Vamos apenas tomar atenção ao que acontece agora no corpo”).

Micropráticas de 30 segundos a 2 minutos, repetidas ao longo do dia.

Na aplicação de intervenções baseadas em mindfulness com pessoas autistas, pode ser útil recorrer a estratégias complementares que tornem as práticas mais acessíveis, concretas e reguladoras. Embora muitas técnicas tradicionais de mindfulness se

Trabalho Clínico Cooperativo com Pessoas Autistas no Sistema Nacional de Saúde

17.5 Recomendações Práticas para a Realidade Portuguesa

Para que o trabalho clínico cooperativo funcione em Portugal, é necessário ter:

ƒ Protocolos regionais de transição – cada Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) e unidade hospitalar deveria ter guias de transição estruturados, com modelos de:

‚ Reuniões conjuntas;

‚ Partilha ética de documentos;

‚ Plano de conforto sensorial;

‚ Ficha de estilo comunicacional.

ƒ Formação cruzada entre profissionais – psicólogos e psiquiatras devem poder partilhar formação sobre temas como:

‚ Regulação sensorial;

‚ Trauma clínico;

‚ Coformulação simbólica;

‚ Linguagem afirmativa e supervisão relacional.

ƒ Criação de dossiês partilháveis – com o consentimento da pessoa autista, os dados mais significativos devem poder ser integrados num dossiê clínico acessível e simbólico, que siga com ela entre instituições.

O acompanhamento ético e eficaz de pessoas autistas só é possível através de cooperação clínica contínua, horizontal e centrada na experiência da própria pessoa. Essa cooperação exige:

ƒ Ouvir as histórias clínicas além dos códigos;

ƒ Respeitar os estilos relacionais dos profissionais e das pessoas que acompanham;

ƒ Construir juntos não apenas estratégias, mas significados.

Cooperar é escutar. E escutar é, sempre, reconhecer o outro como agente legítimo do seu próprio caminho terapêutico.

18.4  Autismo e Comportamentos que Entram em Conflito com a Lei

A maioria das pessoas autistas não apresenta qualquer predisposição para comportamentos antissociais ou criminalmente relevantes. Pelo contrário, diversos estudos internacionais sugerem que adultos autistas, em particular aqueles com diagnóstico tardio ou com camuflagem social intensa, estão mais expostos à vitimização do que à autoria de infrações. No entanto, existem situações em que certos comportamentos autistas podem ser mal interpretados como infrações, atos hostis ou mesmo intencionais, quando na realidade derivam de dificuldades na compreensão social, na regulação emocional ou da rigidez comportamental própria da condição. O ponto de contacto entre autismo e justiça penal emerge frequentemente em quatro grandes domínios:

1. Comportamentos socialmente inadaptados – pessoas autistas adultas podem demonstrar comportamentos atípicos em espaços públicos, como falar em voz alta, proximidade física incomum e comportamentos repetitivos, que são, por vezes, erroneamente interpretados como desrespeito, provocação ou ameaça. Em contextos de vigilância ou controlo (por exemplo, aeroportos, centros comerciais, segurança privada), estas expressões podem levar a confrontos injustificados.

2. Compreensão literal das normas e da autoridade – a literalidade e a dificuldade em antecipar consequências sociais tornam estas pessoas vulneráveis à acusação de dolo (intenção criminosa), quando o comportamento resulta, na realidade, de um processamento cognitivo diferente. Muitos adultos autistas têm tendência a interpretar instruções ou leis de forma literal. Isto pode gerar situações como:

2.1. Não acatar ordens policiais dadas em linguagem ambígua ou pelo tom de voz.

2.2. Realizar atos legalmente problemáticos sem consciência de que são proibidos (por exemplo, partilhar conteúdos sensíveis online, aceder a zonas interditas).

2.3. Expressar intenções ou pensamentos de forma crua, que podem ser lidos como ameaças.

pessoa mantenha o controlo sobre a sua vida, ainda que necessite de acompanhamento em determinadas áreas. No caso das pessoas autistas, este instrumento pode ser decisivo na proteção contra abusos, na gestão responsável da vida civil e na promoção de decisões informadas e respeitadas.

Em conjunto, estes mecanismos legais constituem não apenas ferramentas de proteção, mas expressões concretas de uma ética do cuidado e da justiça. Representam o compromisso de uma sociedade que reconhece que a diferença não é um défice, mas uma forma legítima de existir. Ao compreender e aplicar estes instrumentos com sensibilidade clínica e rigor ético, os profissionais de saúde, nomeadamente os psicólogos, tornam-se mediadores entre o direito e a dignidade, ajudando a transformar a vulnerabilidade em poder de decisão e o reconhecimento em cidadania ativa.

20.2 Atestado Médico de Incapacidade Multiúso

O AMIM é um documento oficial emitido por uma Junta Médica de Avaliação de Incapacidade que certifica o grau de incapacidade de uma pessoa, expresso em percentagem (%), nos termos da Portaria n.º 85/2023, de 2 de abril (Finanças e Saúde –Gabinetes da Secretária de Estado do Orçamento e do Secretário de Estado da Saúde, 2023), e do Decreto-Lei n.º 202/96, de 23 de outubro (Ministério da Saúde, 1996), com alterações posteriores.

Este atestado tem como objetivo garantir a igualdade de acesso a benefícios sociais, fiscais, laborais e educativos às pessoas com deficiências ou incapacidades permanentes, através da comprovação oficial da sua condição.

20.2.1 Porque é Relevante para Pessoas Autistas?

A perturbação do espetro do autismo (PEA) é considerada uma deficiência do neurodesenvolvimento. Pessoas autistas adultas que, em resultado do seu funcionamento, experienciam limitações significativas na participação social, relacional, laboral ou funcional, podem ser elegíveis para um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, o qual permite o acesso a um vasto conjunto de direitos. Importa sublinhar que o autismo não implica automaticamente um grau elevado de incapacidade, sendo este atribuído de forma individual e contextual, com base na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF).

da sua psicóloga. Obteve 65% de incapacidade com base em dificuldades adaptativas severas e risco psicossocial crónico. Atualmente, beneficia de isenção de taxas moderadoras, apoio à habitação e pedido de integração em programa de emprego protegido.

20.3 Estatuto do Maior Acompanhado

O Estatuto do Maior Acompanhado foi instituído pela Lei n.º 49/2018, de 14 de agosto (Assembleia da República, 2018), e substitui os antigos regimes de interdição e inabilitação. Trata-se de um instrumento legal que visa proteger, sem anular, a autonomia jurídica e civil de pessoas adultas que, por razões de saúde, deficiência ou condição de funcionamento, necessitem de apoio para o exercício de determinados direitos ou atos da vida civil.

No caso de pessoas autistas, este estatuto é especialmente relevante quando existem dificuldades significativas e duradouras na gestão da vida económica, decisões legais ou relações contratuais, mas sem que isso implique a retirada total da sua capacidade de decisão.

20.3.1 Princípios Fundamentais

O estatuto assenta em três pilares:

ƒ Proporcionalidade – o acompanhamento deve ser ajustado à necessidade real da pessoa;

ƒ Individualização – os atos a apoiar são definidos caso a caso;

ƒ Autonomia possível – preserva-se ao máximo a vontade e a autodeterminação da pessoa.

Nota: Ao contrário da interdição, o Estatuto do Maior Acompanhado não retira a capacidade jurídica da pessoa, mas regula quem a pode apoiar e em que condições.

PESSOAS AUTISTAS ADULTAS

Avaliação clínica no adulto autista: princípios, instrumentos e formulação . Comorbilidades psiquiátricas, médicas e diferenciação diagnóstica . Estilos comunicacionais autistas e adaptação da relação terapêutica . Estratégias de intervenção afirmativas e modelos de terceira geração . Regulação emocional, ansiedade, depressão e burnout autista . Identidade, camuflagem e reconstrução narrativa na idade adulta . Sexualidade, relações e vinculação em contexto neurodivergente . Inserção laboral, adaptações razoáveis e formulação vocacional .

Intervenção ética, direitos legais e transições ao longo do ciclo de vida

Este livro propõe uma abordagem contemporânea, prática e eticamente informada à intervenção psicológica com pessoas adultas no espetro do autismo. Partindo de uma perspetiva neuroafirmativa, integra contributos da psicologia clínica, da investigação recente e da experiência direta com adultos autistas, oferecendo modelos de formulação, estratégias de intervenção e adaptações terapêuticas concretas.

Ao longo dos capítulos, são exploradas áreas centrais como avaliação clínica, comorbilidades, regulação emocional, relações, identidade, contexto laboral e transições ao longo do ciclo de vida. O foco não está na “correção” da diferença, mas na construção de práticas que respeitem a singularidade da pessoa, promovam bem-estar e favoreçam a autonomia com suporte adequado.

Destina-se a psicólogos clínicos, psiquiatras, terapeutas, estudantes e outros profissionais de saúde e educação, bem como a adultos autistas e famílias que procuram compreender melhor o seu percurso. Mais do que um manual técnico, este livro é um convite a repensar a prática clínica com rigor, sensibilidade e compromisso ético

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Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas 9789896932138 by Grupo Lidel - Issuu