Skip to main content

Gestão Hoteleira II - 9789896932152

Page 1


ÍNDICE

I SUSTENTABILIDADE, EXPERIÊNCIA E TECNOLOGIA

CAPÍTULO 1

1.1.

1.2.

1.3. Ética laboral e novos modelos de emprego

1.4. Hotelaria comunitária e regenerativa

1.5 Gestão de pessoas e retenção de talento

CAPÍTULO 2

2.1.

2.3.

2.4.

3.3.

CAPÍTULO 4

4.1. Integração de tecnologia avançada na hotelaria

4.2. Tecnologia sustentável: Energia renovável na indústria hoteleira

4.3. Inteligência artificial

4.4. Tecnologia self-service na hotelaria

4.5. Big data, small data e análise preditiva

4.6. Tecnologia blockchain

4.7. Robótica avançada na hotelaria

4.8. Pesquisa por voz e controlo de voz

4.9. Realidade aumentada

4.10. Realidade virtual

4.11. Manufatura aditiva (impressão 3D)

4.12. Computação em nuvem e edge computing

4.14. Chatbots de inteligência artificial

ChatGPT na hotelaria

4.16.

4.22.

4.23.

CAPÍTULO 5

5.1.

5.3. Micro-hotéis e glamping

5.4. Hotéis pop-up

5.5. Hotéis improváveis

5.6. Gaming hotels e entretenimento imersivo

II CASOS REAIS NA HOTELARIA

CAPÍTULO 6

PREFÁCIO

Já pensou como será a hotelaria daqui a 100 anos?

É muito provável que em 100 anos quase tudo na hotelaria tenha mudado, quase tudo exceto a sua essência e o seu propósito: receber bem e proporcionar experiências memoráveis.

Vivemos um momento de profunda transição na nossa sociedade. O setor hoteleiro encontra-se no cruzamento dessas múltiplas transformações, ambientais, tecnológicas, sociais e culturais, novos perfis de consumidores, que desafiam os modelos tradicionais de negócio e exigem uma redefinição de como será o futuro. A mudança tornou-se uma condição e não uma exceção.

E o que podemos fazer quando tudo muda?

Fugir e negar essa mudança ou aprender a navegá-la e abraçá-la. O presente livro sobre Gestão Hoteleira é um instrumento que nos ajuda a navegar e abraçar essa mudança. Dá-nos pistas e um vislumbre de como será esse cenário de futuro. Hotelaria com propósito, sustentabilidade, ética e impacto social, diversidade e bem-estar, humanização do serviço, tecnologia e novos modelos de negócio.

Que admirável mundo novo teremos na hotelaria?

Esta é a pergunta que todos os atores da hotelaria devem colocar: e esta pergunta não é uma mera retórica. É uma pergunta, sim, sobre o futuro, mas também sobre escolhas. Que futuro queremos para a hotelaria? Deixaremos de dizer apenas o que a hotelaria tem para oferecer, mas passaremos a perguntar também porque a hotelaria existe? Que propósito cumpre? Que identidade queremos para o setor? Uma identidade que seja consistente, que conjugue valores, práticas e uma cultura organizacional que reflita quem o setor é, o

que representa e o valor que acrescenta à sociedade. Uma identidade que preserve a sua história e tradição, mas que represente e acompanhe a evolução do mundo.

Os profissionais e gestores da hotelaria serão protagonistas dessas mudanças, mas não serão apenas profissionais de tarefas e processos, serão curadores de experiências e os guardiões da hospitalidade. O sucesso deixará de ser medido apenas pelas taxas de ocupação, mas pelo impacto positivo que cria em quem chega, o turista, e em quem permanece na comunidade. A tecnologia estará cada vez mais incorporada em toda a cadeia de valor e essa inovação não substituirá a hospitalidade, mas antes terá a capacidade de a ampliar. Novas ferramentas tecnológicas oferecerão oportunidades extraordinárias para personalizar a experiência do cliente, otimizar processos e apoiar decisões estratégicas. Mas a essência da hotelaria continuará a estar no tempo humano oferecido e na atenção genuína.

Este livro surge, assim, como uma reflexão necessária sobre os caminhos possíveis do futuro da hotelaria num contexto de contínua mudança. Não pretende oferecer respostas e caminhos únicos e definitivos. Mas, antes, convida-nos, a todos os profissionais, gestores, académicos e estudantes, a pensar criticamente sobre o setor, a questionar modelos estabelecidos e a imaginar novas formas de fazer hospitalidade. Mas é uma leitura valiosa também para quem, não sendo do setor, pretende compreender a evolução de um setor como o turismo e de como este pode transformar positivamente toda a comunidade, reforçando o seu papel como uma força de desenvolvimento, coesão e legado cultural.

Ao longo destas páginas, encontrarão uma análise dos grandes desafios que se colocam ao setor da hotelaria, mas também oportunidades concretas de reinvenção e reflexão sobre o futuro do mesmo e sobre o papel dos gestores enquanto agentes de transformação positiva.

É muito possível que, num futuro não muito longínquo, já não falemos de gestão hoteleira, mas que esta designação evolua para uma que reflita as mudanças no setor, no perfil e exigências dos clientes, nas prioridades do negócio. Não se tratará apenas de gerir hotéis, mas gerir hospitalidade e experiências.

Os três autores partilham experiência académica, combinam investigação, ensino e prática profissional em turismo, hotelaria e gestão hoteleira. Se vos deixarem, como me deixaram a mim, questões, inquietação, curiosidade, inspiração, terão cumprido o seu papel. Porque o futuro da hotelaria não se prevê, mas constrói-se com conhecimento, com reflexão crítica e com visão.

Catarina Paiva

Administradora do Turismo de Portugal, I.P. Lisboa, fevereiro de 2026

NOTA INTRODUTÓRIA

Esta obra constitui a sequência natural de gestão hoteleira, publicada anteriormente pelos mesmos autores, cuja experiência académica no setor se encontra amplamente consolidada. Mantendo o rigor conceptual e a proximidade ao setor que marcaram o primeiro volume, este livro adota uma abordagem renovada, ajustada à evolução acelerada da hotelaria contemporânea.

Enquanto a obra anterior se centrou na recolha e sistematização das perspetivas de diferentes especialistas, num registo de natureza mais técnica, este segundo volume surge da necessidade de analisar, de forma integrada, um conjunto de temas que ganharam expressão num contexto de profunda transformação do setor. As mudanças tecnológicas, sociais, ambientais e organizacionais alteraram de forma significativa os modelos de gestão hoteleira, impondo uma leitura atualizada, crítica e aplicada da realidade.

O livro aborda não apenas temáticas que já se afirmavam relevantes no passado, mas também aquelas que hoje assumem um papel central na sustentabilidade, competitividade e diferenciação das unidades hoteleiras. A sustentabilidade, a ética, o impacto social e a gestão de pessoas são tratadas como dimensões estruturantes da estratégia, refletindo a crescente consciência de que o desempenho económico deve caminhar em articulação com a responsabilidade social e ambiental.

A inclusão, a diversidade e o bem-estar assumem igualmente destaque, enquanto respostas concretas a uma hotelaria mais humana, acessível e ajustada a novos perfis de hóspedes e colaboradores. Estas temáticas refletem a evolução das expectativas sociais e a necessidade de criar espaços capazes de acolher diferentes formas de viver, viajar e trabalhar.

A reputação, a experiência do hóspede e a humanização do serviço são analisadas num contexto em que a perceção das marcas se constrói de forma contínua e multicanal. O

equilíbrio entre tecnologia e proximidade humana revela-se determinante para a criação de valor, fidelização e diferenciação num mercado cada vez mais exigente.

A inovação tecnológica é abordada de forma aplicada, explorando o impacto da inteligência artificial, da automação, da análise de dados e das plataformas digitais na eficiência operacional e na tomada de decisão. Estes temas são tratados com o objetivo de clarificar o seu contributo real para a gestão, afastando leituras simplistas ou excessivamente especulativas.

Por fim, os modelos inovadores de hotelaria apresentados evidenciam a capacidade de adaptação e reinvenção do setor face a um consumidor em constante mudança. Hotéis automatizados, modulares, pop-up, micro-hotéis, experiências imersivas e novos formatos de alojamento demonstram como a inovação pode coexistir com a essência da hospitalidade.

Mais do que um manual técnico, esta obra afirma-se como um instrumento de apoio à gestão quotidiana de uma unidade hoteleira, oferecendo enquadramento, linguagem e referências úteis para a tomada de decisão. Em simultâneo, constitui um suporte relevante para o estudo académico e para o desenvolvimento profissional, dirigindo-se a estudantes, docentes e profissionais que procuram compreender e antecipar os desafios da gestão hoteleira atual.

Fernando Garrido Presidente da ADHP

INTRODUÇÃO

A hotelaria é, por natureza, uma arte de acolher. Durante séculos, a essência deste setor esteve assente no encontro humano, no sorriso de quem recebe e na atenção dedicada a cada detalhe da experiência do hóspede.

No entanto, nos últimos anos, temos vindo a assistir a uma verdadeira revolução que está a reescrever a forma como concebemos e vivemos a hospitalidade. Esta transformação não nasce apenas de novas tendências de consumo ou de alterações no turismo global, mas, sobretudo, do impacto profundo da tecnologia, que passou de bastidores discretos para protagonista central na forma como os hotéis operam e encantam os seus clientes.

Softwares inteligentes, dispositivos conectados, inteligência artificial, robótica, realidade virtual e soluções digitais imersivas estão a abrir horizontes até há pouco inimagináveis. Hoje, é possível reservar um quarto em segundos, personalizar a estadia antes mesmo de chegar ao destino, realizar check-in sem contacto humano, ajustar a iluminação ou a temperatura através de comandos de voz e receber sugestões totalmente adaptadas ao nosso perfil e preferências. Tudo isto sem nunca esquecer, claro, que o propósito final é o mesmo de sempre: criar momentos memoráveis e experiências autênticas.

Não obstante todas as vantagens deste avanço tecnológico, esta nova era traz também grandes desafios, sendo o maior de todos a forma de equilibrar a eficiência das máquinas com a insubstituível dimensão humana do acolhimento. De que forma a digitalização pode coexistir com a empatia, o toque pessoal e a hospitalidade genuína que os hóspedes continuam a valorizar? E como garantir que esta modernização é sustentável, ética e respeitadora da privacidade e das expectativas de cada viajante? Este livro nasce precisamente da vontade de explorar estas questões. Mais do que um guia técnico ou uma enumeração de ferramentas digitais, é uma reflexão sobre o futuro da gestão hoteleira. Pretende inspirar profissionais, investigadores, professores e estudantes a

compreenderem que a tecnologia não deve ser vista como uma ameaça ao espírito da hospitalidade, mas como um aliado poderoso. Quando bem aplicada, permite libertar equipas de tarefas repetitivas, melhorar a eficiência operacional, reduzir custos e, sobretudo, dar espaço para que os colaboradores se concentrem no que realmente mais importa na hotelaria.

Ao longo deste livro, vamos descobrir as principais tendências que moldam o setor, desde a inteligência artificial às práticas sustentáveis, passando pela automatização de processos, pelas novas formas de comunicação com os hóspedes e pela integração de soluções digitais no dia a dia da gestão. Mais do que descrever ferramentas, iremos analisar como estas transformações influenciam a competitividade, a experiência do cliente e a própria identidade das marcas hoteleiras.

Para absorvermos da melhor forma o conteúdo deste livro, é determinante que o leitor assuma que a hotelaria contemporânea vive um momento de profunda transformação. Num contexto global marcado por rápidas mudanças tecnológicas, novos perfis de viajantes e uma crescente consciência ambiental e social, gerir um hotel é hoje muito mais do que garantir conforto e eficiência. A gestão hoteleira tornou-se uma disciplina multifacetada, onde a sustentabilidade, a inovação, a tecnologia e a experiência humana se cruzam para criar valor económico, social e ambiental de forma equilibrada.

COMO ESTÁ ORGANIZADO ESTE LIVRO

Esta obra propõe uma visão abrangente e atual da hotelaria, assente em cinco eixos fundamentais que refletem as grandes tendências e desafios do setor.

No Capítulo 1, “Hotelaria com Propósito”, abordam-se os princípios que devem orientar uma gestão hoteleira ética e responsável. Através de temas como a hotelaria circular, a sustentabilidade, a ética laboral e a hotelaria comunitária, são exploradas práticas que colocam o impacto social e ambiental no centro da estratégia empresarial. A gestão de pessoas e a retenção de talento completam este capítulo, reconhecendo que o capital humano é o principal motor de qualquer organização hoteleira.

O Capítulo 2, dedicado à inclusão, diversidade e bem-estar, reflete a necessidade de criar espaços verdadeiramente acolhedores e acessíveis para todos. Desde a hotelaria inclusiva e pet-friendly até às novas tipologias de estadias para nómadas digitais e trabalhadores remotos, são apresentadas abordagens que respondem às múltiplas formas de viver, viajar e trabalhar. O bem-estar e a saúde, cada vez mais valorizados pelos hóspedes, surgem como pilares de uma hospitalidade mais humana e personalizada.

No Capítulo 3, o foco recai sobre a reputação, experiência e humanização do serviço. A credibilidade de uma marca hoteleira constrói-se hoje tanto online como offline, exigindo uma gestão cuidada da reputação digital e das interações humanas. O equilíbrio entre tecnologia e empatia, a personalização da experiência e a criação de momentos memoráveis

são analisados como fatores determinantes para fidelizar hóspedes e diferenciar ofertas num mercado altamente competitivo.

A evolução tecnológica e as práticas inovadoras transformadas em ferramentas que estão a redefinir a hotelaria do futuro são desenvolvidas no Capítulo 4. Da inteligência artificial à robótica, da realidade aumentada ao metaverso, da análise de dados à energia renovável, entre muitos outros temas transformadores aqui abordados, mostra como a inovação tecnológica pode potenciar a eficiência, a sustentabilidade e a experiência do hóspede. A interligação entre sistemas, a automação inteligente e o uso ético da tecnologia são apresentados como elementos-chave para uma hotelaria mais ágil e conectada.

O Capítulo 5, dedicado aos modelos inovadores de hotelaria, desafia as fronteiras tradicionais do setor, com a apresentação de hotéis totalmente automatizados, estruturas modulares, experiências de glamping, hotéis pop-up e espaços de entretenimento imersivo, enquanto exemplos de conceitos disruptivos que ilustram o dinamismo e a capacidade de reinvenção da indústria hoteleira. Estes novos formatos respondem a um consumidor em constante mutação, que valoriza a autenticidade, a flexibilidade e a criatividade.

Por fim, o Capítulo 6 encerra esta obra, dando voz a quem vive diariamente a realidade da hotelaria e assume responsabilidades diretas na gestão, operação e estratégia das unidades hoteleiras. Aqui reuniu-se um conjunto de entrevistas a responsáveis hoteleiros convidados pela sua experiência profissional, pelo conhecimento prático do setor e pela capacidade de refletir criticamente sobre os principais desafios e tendências da hotelaria contemporânea, partindo de temas centrais abordados ao longo do livro, permitindo uma ligação clara entre os enquadramentos teóricos apresentados nos capítulos anteriores e a sua aplicação concreta no contexto real das organizações hoteleiras.

Mais do que um manual técnico, este livro pretende ser uma reflexão sobre o futuro da hotelaria e sobre o papel dos gestores enquanto agentes de transformação positiva. Entre a tradição da hospitalidade e a inovação tecnológica, entre o propósito social e a rentabilidade económica, a gestão hoteleira do século xxi exige visão, sensibilidade e compromisso. É neste equilíbrio entre pessoas, planeta e progresso que reside o verdadeiro sucesso da hotelaria moderna. Este é, portanto, um convite à reflexão e à ação. Um convite para pensar a hotelaria do futuro não como um espaço dominado pela tecnologia, mas como um território em que a inovação reforça, e nunca substitui, a essência do ato de bem receber, porque, no fim, por trás de cada software, de cada algoritmo e de cada máquina, há sempre o propósito maior de proporcionar experiências únicas, criar memórias e continuar a celebrar o encontro humano como aquilo que torna a hospitalidade verdadeiramente inesquecível.

I

SUSTENTABILIDADE, EXPERIÊNCIA E TECNOLOGIA

Hotelaria com Propósito: Sustentabilidade, Ética e Impacto Social

INTRODUÇÃO

Neste primeiro capítulo, abordam-se os princípios que devem orientar uma gestão hoteleira ética e responsável, através da apresentação de temas como a hotelaria circular, a sustentabilidade, a ética laboral e a hotelaria comunitária e regenerativa. A hotelaria atravessa uma fase de transformação profunda, impulsionada pela necessidade de equilibrar a viabilidade económica com a urgência ambiental e social. A entrada para este novo paradigma hoteleiro exige uma abordagem holística, centrada na sustentabilidade e responsabilidade social, que transcende a mera eficiência energética.

Novos modelos de negócios levam à implementação de práticas de economia circular na hotelaria. A hotelaria circular envolve uma gestão total de redução de resíduos, reutilização de materiais, eficiência na gestão de recursos (água e energia) e a eco-inovação nos serviços hoteleiros.

A tendência evoluiu de sustentável para regenerativa, onde a hotelaria não apenas evita danos, mas melhora ativamente o ambiente e o tecido social local. Esta abordagem promove a relação autêntica com as comunidades locais, o desenvolvimento regional e a preservação da biodiversidade.

Com as mudanças demográficas e nas expectativas de trabalho, a hotelaria enfrenta o desafio de garantir uma ética laboral rigorosa, respeitando os direitos humanos e promovendo um ambiente de trabalho justo. Paralelamente, surgem novos modelos de emprego que exigem maior flexibilidade, valorização da saúde mental e integração de gerações, como a geração Z.

Face a altas taxas de turnover (rotatividade), a gestão de pessoas na hotelaria foca-se na humanização, desenvolvimento contínuo e retenção de talento. A cultura organizacional, o bem-estar dos colaboradores e a progressão de carreira tornaram-se pilares estratégicos tão importantes quanto o serviço ao hóspede.

O futuro da hotelaria reside, assim, na capacidade de integrar estas práticas éticas, regenerativas e sociais, transformando a hospitalidade numa força positiva para o planeta e para as pessoas.

1.1. HOTELARIA CIRCULAR

A hotelaria circular é um conceito que integra os princípios da economia circular no setor hoteleiro. Em vez do modelo linear tradicional de “extrair, produzir, usar e descartar”, como podemos ver na Figura 1.1, a hotelaria circular concentra-se em minimizar o desperdício e maximizar a eficiência dos recursos em todas as operações de um hotel. Mas este conceito vai muito além das práticas de sustentabilidade básicas (como reduzir o plástico ou usar lâmpadas LED). A aplicação da hotelaria circular repensa todo o sistema de um hotel, desde a conceção até à operação para obter os seguintes resultados:

` Minimizar o desperdício – Reduzir drasticamente a quantidade de lixo enviado para aterros;

` Prolongar a vida útil dos ativos – Maximizar o uso de móveis, equipamentos e outros materiais;

` Maximizar a reutilização e reciclagem – Criar ciclos fechados para os recursos;

` Gerar valor – Através de um uso mais inteligente dos recursos e da criação de novas oportunidades de negócio.

ECONOMIA LINEAR

RECURSOS

PRODUÇÃO

CONSUMO

RESÍDUOS

figura 1.1

RECICLAGEM

RECURSOS

PRODUÇÃO

CONSUMO

RESÍDUOS

HOTELARIA CIRCULAR

RECURSOS

PRODUÇÃO

CONSUMO

REUTILIZAÇÃO

Economia linear versus hotelaria circular

Podemos dizer que a hotelaria circular é um “derivado” da economia linear, também conhecida por economia take-make-waste (extrair-produzir-desperdiçar). É um sistema em que os recursos são extraídos para fabricar produtos que eventualmente se tornam resíduos e são desperdiçados. Numa economia linear, os produtos e os materiais, geralmente, não são usados em todo o seu potencial. É um sistema poluente, que degrada os sistemas naturais e alimenta uma série de desafios globais, incluindo as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade.

Tecnologia e Inovação Aplicada

INTRODUÇÃO

O ano de 2024 marcou um novo capítulo no crescimento do setor global das viagens, consolidando a recuperação sólida iniciada em 2022, após os anos de forte impacto da pandemia. A intensificação das viagens de lazer, corporativas e em grupo, aliada à manutenção de tarifas médias diárias elevadas, permitiu a muitos mercados internacionais não só manterem, como também ultrapassarem os níveis de receitas registados no ano anterior. Este aumento generalizado da atividade turística teve um reflexo direto no desempenho económico do setor, que contribuiu de forma histórica para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial. De acordo com a Reuters, citado no relatório Guest Experience Benchmark 2025, da Shiji, em 2024 o turismo e as viagens geraram um contributo recorde de 11,1 mil milhões de dólares americanos, representando cerca de 10% da economia global. Este número reforça a importância estratégica do setor como motor de recuperação e crescimento económico a nível global. Além de recuperar do impacto provocado pela Covid-19, o setor atingiu novos patamares, quer em volume de viajantes, quer na sua contribuição económica, em que os resultados alcançados em 2024 demonstram a capacidade do setor para se reinventar, inovar e crescer de forma sustentada, criando uma base sólida para o futuro.

O ano de 2025 foi impulsionado por uma procura consistente e por investimentos direcionados em diferentes regiões, revelando uma continuidade dos anos de recuperação anteriores e reforçando o crescimento saudável da atividade turística a nível mundial. Esta rápida recuperação deve-se, em grande parte, à veloz integração de tecnologia avançada na hotelaria, um dos aspetos mais marcantes da transformação digital no setor do turismo, tendo em conta não apenas a melhoria da experiência do hóspede, como também a otimização operacional e a sustentabilidade das empresas.

4.1. INTEGRAÇÃO DE TECNOLOGIA AVANÇADA NA HOTELARIA

Estudos de mercado

Considerando que na altura em que este livro foi fechado a Eurostat ainda não tinha publicado a análise turística referente a 2025, concentrámo-nos em 2024. Assim, de acordo com a Eurostat1, em 2024 os hóspedes passaram 854,1 milhões de noites em alojamentos de curta duração na União Europeia, reservados através de plataformas como Airbnb, Booking.com, Expedia Group ou TripAdvisor. Este número representa um aumento de 18,8% face a 2023 (719 milhões de noites), estabelecendo um novo recorde histórico. Com exceção de abril, todos os meses de 2024 registaram um número superior de noites em alojamentos de curta duração em comparação com os mesmos meses de 2023. Segundo a mesma fonte, no primeiro trimestre de 2025, período disponível da última estatística à data de elaboração deste artigo, os hóspedes passaram 129,6 milhões de noites em alojamentos de curta duração na União Europeia, reservados através de plataformas como Airbnb, Booking.com ou Expedia. O ano de 2025 apresentava-se promissor, já que o número total de noites registadas aumentou 4,8% em relação a 2024 e 34,5% face a 2023. Comparando com os mesmos meses de 2024, as noites passadas em alojamentos de curta duração cresceram 16,3% em janeiro de 2025 e 11,6% em fevereiro. Por outro lado, em março verificou-se uma diminuição de 8,6% face a março de 2024, principalmente porque a Páscoa ocorreu em abril deste ano, enquanto no ano passado foi em março. Os bons resultados nos dois primeiros meses ajudaram a compensar a queda sazonal observada em março.

No que concerne a Portugal, a Eurostat refere que no terceiro trimestre de 2024 foram contabilizadas 18,9 milhões de noites reservadas através de plataformas digitais, como Airbnb, Booking.com, Expedia Group ou TripAdvisor, representando um aumento homólogo de 15,5% face ao mesmo período do ano anterior. O nosso país posicionou-se na sétima posição do ranking da Eurostat, com 18,9 milhões de noites reservadas no terceiro trimestre, depois da Alemanha, com 21,7 milhões de reservas. França ficou em primeiro lugar neste ranking de países com mais noites reservadas através de plataformas digitais, com um total de 81,6 milhões, logo seguida por Espanha, com 67,3 milhões de noites, Itália, com 55,7 milhões, Grécia e Croácia, ambas com aproximadamente 26 milhões de noites reservadas.

Face a este contexto de crescimento, a integração tecnológica na hotelaria representa um movimento estratégico essencial para acompanhar as transformações do mercado, responder às novas expectativas dos consumidores e garantir a competitividade num setor altamente dinâmico. Os hotéis que investem de forma inteligente em tecnologia não só melhoram a sua eficiência operacional, como também se posicionam como agentes de inovação, oferecendo experiências cada vez mais diferenciadoras e sustentáveis. No entanto, é fundamental que esta integração tecnológica seja feita com sensibilidade e ética. Uma digitalização mal planeada ou excessivamente centrada na automação pode gerar uma perceção de frieza, despersonalização e distanciamento. Pior ainda, pode excluir pessoas com menor literacia digital, criando barreiras de acesso e comprometendo a inclusão.

1 Disponível em https://ec.europa.eu/eurostat/databrowser/view/TOUR_CE_OMR/default/table?lang=en Consultado a 15/08/2025.

prática, há uma clara necessidade de mais pesquisas que abordem casos concretos, desafios técnicos e consequências reais para se perceber o real valor da aplicação da IoT na hotelaria.

4.14. CHATBOTS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O setor da hotelaria sempre se destacou pelo foco na experiência do cliente, sendo este um dos principais fatores de diferenciação num mercado altamente competitivo. A forma como um hóspede é recebido, atendido e acompanhado durante toda a sua estadia pode determinar não só a sua satisfação imediata, mas também a probabilidade de regressar ou recomendar o hotel. Nos últimos anos, com a aceleração da digitalização e a crescente exigência dos consumidores por respostas rápidas e soluções personalizadas, os chatbots de inteligência artificial (IA) surgiram como uma das ferramentas mais inovadoras e impactantes para apoiar esta transformação. Estes sistemas conversacionais, capazes de compreender e interagir em linguagem natural, assumem hoje um papel central na ligação entre hotéis e clientes, tornando-se verdadeiros assistentes digitais disponíveis a qualquer hora.

A principal característica que torna os chatbots relevantes no setor hoteleiro é a sua disponibilidade permanente, podendo funcionar de forma ininterrupta, 24/7, respondendo a dúvidas e necessidades de hóspedes em diferentes fusos horários e em vários idiomas, enquanto o atendimento humano está limitado a turnos e recursos. Esta capacidade de comunicação imediata elimina tempos de espera, aumenta a acessibilidade e reforça a imagem de hospitalidade de uma unidade hoteleira. Para um cliente estrangeiro que chega de madrugada e deseja esclarecer detalhes sobre o check-in, ou para um potencial hóspede que procura informações sobre tarifas e políticas de cancelamento antes de efetuar uma reserva, o chatbot representa uma solução prática, intuitiva e confiável.

De acordo com Moutinho e colaboradores (2023), os chatbots utilizados na hotelaria podem ser classificados em duas categorias principais:

` Chatbots baseados em regras: Representam a versão mais simples desta tecnologia. Nestes casos, a interação é conduzida por opções previamente definidas e apresentadas no ecrã, geralmente através de botões ou menus. O utilizador limita-se a selecionar entre as alternativas disponíveis e a “conversa” decorre de forma linear, sem grande margem para flexibilidade;

` Chatbots apoiados em IA: Consideravelmente mais sofisticados, tendo em conta que conseguem interpretar as mensagens escritas pelo utilizador, dispensando o recurso a botões ou menus pré-formatados. Graças ao processamento de linguagem natural, identificam palavras-chave, compreendem a intenção da mensagem e produzem respostas adequadas em tempo real. Além de tornar a comunicação mais fluida e natural, estes chatbots têm a capacidade de recolher dados sobre preferências, hábitos e expectativas dos clientes, permitindo gerar recomendações personalizadas e melhorar a experiência global do hóspede.

Um outro fator de destaque é a capacidade de personalização que estes sistemas oferecem, uma vez que os chatbots de IA são alimentados por algoritmos de aprendizagem automática que lhes permitem reconhecer padrões, preferências e comportamentos dos utilizadores, ao contrário de respostas padronizadas de antigos modelos de atendimento digital. Desta forma, o hotel pode adaptar as suas interações a cada hóspede de forma quase individualizada e prestar um serviço informativo com elevada qualidade. Um cliente que costuma preferir quartos com vista para o mar ou que demonstra interesse por experiências gastronómicas locais pode receber sugestões direcionadas, tornando a sua estadia mais alinhada com os seus gostos pessoais. Esta antecipação de necessidades contribui não só para aumentar a satisfação imediata, mas também para criar um vínculo emocional com a marca, que passa a ser vista como atenta, moderna e capaz de compreender cada cliente como único.

Além da experiência do hóspede, os benefícios dos chatbots estendem-se à gestão interna dos hotéis, pois ao assumirem tarefas repetitivas e rotineiras, como responder a perguntas frequentes, confirmar reservas ou encaminhar pedidos de manutenção, estes sistemas libertam as equipas humanas para atividades de maior valor acrescentado, permitindo que os colaboradores se concentrem em tarefas que exigem empatia, criatividade e contacto humano. Em unidades de grande dimensão, esta otimização é particularmente valiosa, pois reduz a pressão sobre a receção e outros departamentos durante períodos de maior procura, ao mesmo tempo que garante consistência e rapidez no atendimento.

Contudo, quase como em todas as tecnologias mais avançadas, a implementação de chatbots de IA ainda não está totalmente isenta de desafios ou de enganos. A integração destes sistemas com plataformas já existentes, como softwares de gestão de propriedades, canais de distribuição ou sistemas de faturação pode implicar investimentos significativos em tecnologia e tempo. Embora a IA esteja cada vez mais sofisticada, ainda existem limitações na compreensão de pedidos complexos ou em situações fora do padrão, que continuam a exigir a intervenção de um colaborador humano. Neste contexto, é fundamental que os hotéis encarem os chatbots como complementares e não substitutos da hospitalidade tradicional, preservando o equilíbrio entre a eficiência tecnológica e a proximidade humana que caracteriza a essência do setor.

Outra preocupação relevante diz respeito à privacidade e à proteção de dados pessoais, já que os chatbots lidam frequentemente com informações sensíveis, incluindo detalhes de identificação e dados de pagamento. É, por isso, imprescindível garantir elevados padrões de segurança e conformidade com regulamentos, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados em vigor na União Europeia. A confiança dos hóspedes depende da transparência na utilização da informação, da clareza na comunicação sobre o tratamento dos dados e da implementação de medidas eficazes contra potenciais violações de segurança. A negligência neste campo pode comprometer não só a imagem de um hotel, mas também a relação de confiança estabelecida com o cliente.

Apesar destes desafios, a tendência aponta para um crescimento contínuo da utilização de chatbots na hotelaria, com desenvolvimentos cada vez mais sofisticados que vão muito além das interações básicas. A evolução da inteligência artificial generativa, que permite diálogos mais naturais e contextuais, bem como a integração com dispositivos de voz e assistentes virtuais nos quartos, abre caminho para experiências ainda mais personalizadas e envolventes. Num futuro próximo, não será difícil imaginar um hóspede a interagir com o quarto inteligente através de um assistente virtual integrado, solicitando informações turísticas, ajustando a climatização ou pedindo serviço de quarto com a mesma naturalidade com que falaria com um colaborador humano.

No fundo, a implementação de chatbots de IA em hotéis deve ser encarada como uma oportunidade de reforçar a hospitalidade em vez de a substituir. Ao automatizar processos e agilizar respostas, estes sistemas oferecem mais tempo e espaço para que os colaboradores humanos possam dedicar-se ao que realmente distingue este setor: a arte de acolher, compreender e cuidar de cada cliente. Quando bem integrados, os chatbots não apenas tornam a operação mais eficiente, mas também ampliam o alcance e a qualidade da experiência, oferecendo aos hóspedes um serviço moderno, acessível e profundamente alinhado com as exigências da era digital.

Vejamos em seguida exemplos reais da excelente simbiose, e quase dependência, que começa a existir entre muitos empreendimentos hoteleiros e os chatbots de IA.

Exemplos

Marriott International

A Marriott International tem sido pioneira neste campo, afirmando-se não só como cadeia de referência, mas também como inovadora tecnológica. Através de chatbots disponíveis em plataformas como Slack, Facebook Messenger e WeChat, o grupo facilita reservas, responde a questões e oferece recomendações personalizadas, transformando o processo de reserva e interação num diálogo fluído e moderno. Em resultado deste contexto, a empresa apresenta uma redução superior a 60% no volume de chamadas para o call center, poupando milhões de dólares americanos anualmente e diminuindo em 50% o tempo de resolução de reclamações. Além disso, os utilizadores tendem a voltar a interagir com o assistente, com sessões médias que duram cerca de quatro minutos77,78,79.

Outra inovação curiosa da Marriott é o chatbot MC, criado para fins de recrutamento, onde através do Messenger, orienta os candidatos de forma personalizada, ajuda-os a explorar as várias marcas do grupo e oferece uma experiência divertida e informativa, facilitando todo o processo de candidatura80,81.

77 Disponível em https://masterofcode.com/blog/hotel-chatbot. Consultado a 09/09/2025.

78 Disponível em https://research.aimultiple.com/hospitality-chatbot. Consultado a 09/09/2025.

79 Disponível em https://omnimind.ai/blog/ai-chatbot-for-hotels. Consultado a 09/09/2025.

80 Disponível em https://careers.marriott.com/pt. Consultado a 09/09/2025.

81 Disponível em https://www.hotelmanagement.net/human-resources/marriott-launches-facebook-chatbot-to-assist-career-development. Consultado a 09/09/2025.

5. Attention mechanism (mecanismo de atenção):

` O modelo determina a importância de cada token através do mecanismo de atenção, ou seja, atribui mais peso às partes do prompt que são mais relevantes para a tarefa (e.g., “vegetariano” e “hoje”). Isto orienta para os detalhes mais centrais na resposta.

Exemplo

O mecanismo dá prioridade aos tokens que determinam restrições e urgência, como “vegetariano”, “hoje” e “perto do hotel”, e pode decidir que precisa de uma clarificação, perguntando: “Prefere um restaurante informal ou algo mais sofisticado?” (outras palavras menos relevantes, como “alguma” têm menor peso).

6. Response generation (geração da resposta):

` É gerada uma sequência de tokens para formar a resposta em linguagem natural.

Exemplo

Output do chatbot: Uma resposta clara e formatada, por exemplo: “Restaurante Verde (a 3 minutos a pé): boa opção vegetariana; pratos rápidos como risoto de espargos. Recomendo reservar; têm takeaway”, “Casa do Mercado (a 7 minutos): menu com opções vegetarianas criativas; ambiente informal. Tempo estimado de espera: 10-15 min.”, “Bistrô do Porto (a 10 minutos): alternativas vegetarianas e menu de degustação. Ideal se quiser algo mais requintado.”

Vejamos a Tabela 4.4 que nos demonstra a evolução de um prompt em níveis baixo, médio e alto num contexto hoteleiro e os resultados associados.

tabela 4.4 A evolução do prompt em contexto hoteleiro

Nível baixo (simples)

“Dá-me sugestões para jantar.”

Nível médio (mais instruções e formato)

“Analisa a informação da minha reserva (duas pessoas, preferência vegetariana) e sugere cinco opções de jantar perto do hotel. Formata a resposta como lista numerada com: nome do restaurante, distância/ /tempo a pé, tipo de pratos vegetarianos recomendados e se é necessária reserva. Assume que queremos algo para esta noite e que preferimos opções rápidas ou informais.”

Nível alto (com pensamento orientado e clarificações)

“Como concierge digital do nosso hotel, analisa a minha reserva (dois adultos, preferência vegetariana), verifica restaurantes abertos esta noite perto do hotel e sugere cinco opções de jantar. Pensa bem sobre a disponibilidade e pergunta qualquer coisa que falta para melhorar as sugestões (e.g., orçamento, preferência por takeaway ou jantar no local). Formata a resposta como lista numerada; para cada restaurante inclui: nome, distância/tempo a pé, prato(s) vegetarianos recomendados, tempo médio de espera e se é necessário reservar, e termina com uma recomendação final. Assume que o hóspede tem horários flexíveis e procura opções rápidas para um dia de semana.”

incluindo a indústria da hospitalidade e turismo. Os avanços recentes em robótica apoiada por inteligência artificial e em tecnologias de learning machine têm vindo a ser incorporados de forma crescente na hotelaria, sobretudo pela sua capacidade de oferecer maior precisão, rapidez e adaptabilidade perante mudanças nos processos de prestação de serviços e de interação com o cliente (So et al., 2024). Kim e colaboradores (2022) e Chang e colaboradores (2018) vêm defendendo que no contexto turístico, tradicionalmente caracterizado como fortemente dependente de trabalho humano, a introdução da IA tem possibilitado desenvolvimentos relevantes em múltiplos domínios, incluindo a emergência dos chamados “hotéis inteligentes não tripulados” (Chang et al., 2022; Sthapit et al., 2024). Estes estabelecimentos distinguem-se dos modelos convencionais por funcionarem com uma intervenção humana mínima, ou mesmo inexistente, apoiando-se em sistemas tecnológicos para assegurar a experiência do hóspede. Em vez de uma receção tradicional, por exemplo, é comum que os visitantes sejam recebidos por robôs de serviço capazes de realizar o registo e a verificação de identidade através de sistemas de reconhecimento facial, como já se encontra no Henn-na Hotel, no Japão, no FlyZoo Hotel, na China, no Hotel Yotel, nos EUA, ou em hotéis do grupo Marriott International, através do seu novo robô ChatBotlr.

Do ponto de vista operacional, estes estabelecimentos incorporam dispositivos e softwares que permitem ao hóspede gerir a sua experiência de forma autónoma. O processo de check-in é, na maioria dos casos, realizado através de quiosques de autoatendimento ou de aplicações móveis, eliminando a necessidade de uma receção física tradicional. Nos quartos, a integração de sistemas de domótica1 e interfaces inteligentes permite ao utilizador controlar iluminação, climatização, entretenimento ou serviços adicionais através de comandos de voz ou aplicações. Adicionalmente, a utilização de robótica de serviço, como robôs responsáveis pela entrega de bagagens, refeições ou artigos de conveniência ilustra a materialização da automação no quotidiano do hóspede.

Apresentamos, em seguida, o procedimento habitual de um fully automated hotel aplicado aos seus hóspedes antes, durante e após a estadia no hotel:

1. O hóspede realiza a sua reserva através do canal online escolhido.

2. Imediatamente após a reserva no hotel, o hóspede recebe um mail direcionando-o para uma ferramenta digital que lhe permite personalizar a sua estadia e escolher as suas comodidades e serviços entre uma oferta alargada.

3. Após este processo de personalização, o hóspede recebe por email o programa detalhado da sua estadia, com um conjunto de indicações de chegada, um guia de viagem e sugestões sobre as atrações locais.

1 A Domótica é o conjunto de tecnologias para automatizar e controlar de forma inteligente os sistemas e dispositivos de um espaço, como iluminação, climatização, segurança, eletrodomésticos e cortinados. Utiliza sensores, atuadores e uma rede de comunicação (fios ou sem fios) para criar um sistema integrado que pode ser controlado remotamente por um centro de controlo, um smartphone ou assistentes de voz. Na hotelaria, o objetivo principal da domótica é proporcionar maior conforto, segurança, eficiência energética e conveniência aos hóspedes, transformando o quarto num espaço inteligente.

ser vistos como uma resposta estratégica a desafios estruturais do setor, ao mesmo tempo que simplificam operações e reduzem custos para alinhar a oferta hoteleira às novas exigências dos consumidores, criando um novo paradigma onde a inovação tecnológica procura equilibrar eficiência e experiência, sem descurar a essência da hospitalidade.

A evolução tecnológica retratada neste capítulo pode parecer demasiadamente futurista, no entanto, a maioria das ferramentas já está disponível e a uso em muitos hotéis. O maior desafio é encontrar um integrador de dados que consiga relacionar eficazmente a informação com estas tecnologias para gerar e garantir experiências coesas aos clientes. Com a sofisticação de diversas IA generativas e da learning machine prevê-se que esta transformação tecnológica seja muito mais rápida do que imaginamos e que se estabeleçam novos padrões de hospitalidade somente baseados nas necessidades mais customizadas de cada hóspede.

Exemplo

Henn na Hotel

Reconhecido pelo Guinness Book of Records como o primeiro hotel do mundo a ter robôs a trabalhar

Inaugurado a 17 de julho de 2015, integrado no parque temático Huis Ten Bosch, em Nagasaki, o Henn na Hotel, cujo nome pode ser traduzido como “Hotel Estranho” ou “Hotel Peculiar”, tornou-se o primeiro hotel do mundo a empregar robôs como membros da sua equipa, embora conte ainda com algum apoio humano. Logo na receção, os visitantes são recebidos por três “actroids”, robôs humanoides programados para desempenhar o papel de rececionistas. Noutras áreas, um braço robótico industrial encarrega-se da organização das bagagens, enquanto diferentes autómatos realizam tarefas quotidianas, como a limpeza dos quartos ou o serviço de bebidas. Para hóspedes estrangeiros, a receção reserva ainda uma surpresa insólita: um dinossauro robótico capaz de atender em inglês.4

5.2. HOTÉIS MODULARES

Como temos visto ao longo do livro, são várias as transformações e adaptações do setor hoteleiro às novas necessidades do seu público-alvo, assim como às exigências ao seu redor, nomeadamente no que concerne à área ambiental. Face à escassez de mão de obra qualificada e ao aumento substancial do preço dos materiais de construção, a hotelaria modular tem evoluído significativamente nos últimos anos e resulta hoje numa opção preferencial por parte dos investidores hoteleiros. A eficiência dos custos traduz-se na redução de custos de mão de obra, num menor desperdício de materiais e numa maior previsibilidade orçamental do total de investimento.

Este tipo de construção permite, igualmente, a expansão mais acelerada de cadeias hoteleiras em diferentes mercados, assegurando a consistência de respetivas marcas hoteleiras.

4 Disponível em https://www.guinnessworldrecords.com/world-records/397696-first-robot-staffed-hotel Consultado a 28/09/2025.

CASOS REAIS NA HOTELARIA

Ana Martins | Diretora, Stay Hotel Coimbra Centro – Stay Hotels

Ana Rosário | Especialista ESG, Altis Hotels Group

Ângelo Neto | Diretor, Stay Hotel Coimbra Centro – Stay Hotels

Beatriz Fernandes | Especialista em operações e executiva de produto, Nemo

Bruno Azevedo | Diretor de F&B corporativo, PHC Hotels

Carlos Fartouce | Cluster IT Manager, Lisbon Hilton

Carlos Guerra Trindade | Diretor-geral, Falésia Hotel

Filipe Bonina | Diretor de marketing, Octant Hotels – DHM-Discovery Hotel Management

Francelina Ferreira do Amaral | Diretora-geral e responsável de projeto de transformação e reposicionamento do futuro Crowne Plaza Paris – Marne-la-Vallée

Henrique Correia | Diretor, Água d'Alma Hotel

Inês Gil | Assistente de direção, Praia d’El Rey Marriott Golf & Beach Resort

Joana Silva | Hotel manager, Wyndham Grand Algarve, Quinta do Lago

João Serrano | Diretor de hotelaria, Fundação INATEL

Lúcia Cunha | Diretora-geral, Hotel Hotel

Luís Brites | CEO e fundador, Clever Hospitality Analytics

Luís Mendes | Diretor-geral, Douro Royal Valley Hotel & Spa e Douro Palace Hotel Resort & Spa

Mário Candeias | Diretor executivo, Espinas Hotel Group

Melroy Fernandes | Resort manager, NH Collection Reethi – MINOR Hotels

Miguel de Almeida | Diretor de vendas e de desenvolvimento de negócio, Blue&Green – Hotel Management Company

Miguel Reis | Diretor de operações, Bela Vista Hotel & Spa, Relais & Châteaux

Mónica Almeida | Diretora-geral, Altis Porto Hotel & Spa

Nuno Godinho | Diretor de hotel, Pestana Pousada do Porto – Rua das Flores

Paulo Mesquita | COO, Hotel Dom Pedro Lisboa

Paulo Sassetti | Diretor regional de operações, Hoti Hotéis (zona centro); Diretor, Hotel Meliá Lisboa Aeroporto

Pedro Antunes | Diretor, Puralã – Wool Valley Hotel & SPA

Pedro Costa Pereira | Diretor-geral, Hotel Meliá Castelo Branco

Ricardo Neves Vieira | Diretor executivo, comercial e de transformação digital, Turim Hotels

Rúben Paula | Board advisor

Susana Ribeiro | Diretora-geral, SANA Silver Coast Hotel

Tânia Barreiro | Diretora, Hotel Fátima

Tiago Afonso Pais | Diretor-geral, São Rafael Suites Hotel – Highgate Portugal

Casos Práticos: Entrevistas a Diretores de Hotéis

O presente capítulo encerra esta obra, dando voz a quem vive diariamente a realidade da hotelaria e assume responsabilidades diretas na gestão, operação e estratégia das unidades hoteleiras. Reunimos aqui um conjunto de entrevistas a responsáveis hoteleiros convidados pela sua experiência profissional, pelo conhecimento prático do setor e pela capacidade de refletir criticamente sobre os principais desafios e tendências da hotelaria contemporânea.

As entrevistas foram estruturadas a partir de temas centrais abordados ao longo do livro, permitindo uma ligação clara entre os enquadramentos teóricos apresentados nos capítulos anteriores e a sua aplicação concreta no contexto real das organizações hoteleiras.

A partir da experiência dos seus próprios hotéis, ou de outras realidades profissionais que conhecem, os entrevistados partilham práticas, dificuldades, exemplos reais, vantagens e perspetivas futuras relacionadas com áreas-chave da gestão hoteleira.

Sem quaisquer respostas uniformes, este capítulo valoriza a diversidade de experiências, abordagens e opiniões, evidenciando que a hotelaria é um setor dinâmico, marcado por contextos distintos, mas também por desafios comuns. As reflexões aqui reunidas permitem compreender melhor como os diferentes temas que estudamos neste livro – tecnológicos, estratégicos, organizacionais ou centrados no hóspede – estão a ser integrados na prática e de que forma influenciam a tomada de decisão e a competitividade das unidades hoteleiras.

Este conjunto de testemunhos pretende, assim, complementar o conteúdo do livro com uma perspetiva aplicada e atual, aproximando o leitor da realidade do setor e reforçando a importância do diálogo entre conhecimento académico e prática profissional na evolução da gestão hoteleira. As entrevistas apresentadas seguem a ordem alfabética do primeiro nome de cada entrevistado, sem qualquer ordem de outra natureza. Todas as ideias e conteúdos expostos são da autoria dos respetivos autores e partilhados com a sua autorização.

livro complementa o livro dos mesmos autores, Gestão Hoteleira: O Produto, o Serviço e as Técnicas.

Este

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Gestão Hoteleira II - 9789896932152 by Grupo Lidel - Issuu